Meu amigo com nome de constelação

Há alguns anos atrás, conheci uma pessoa que se tornaria uma amiga muito querida. Todos amigos são especiais, cada um com suas próprias características. Essa amiga, pela idade, poderia ser minha mãe, mas nunca a tratei assim. Ela sempre foi uma grande amiga. Através dela, conheci aos poucos toda a família, da qual com o tempo, me senti parte e sinto saudades.

 

Um dia, conheci seu marido, com quem dividia também uma característica especial, que por falta de melhor definição, chamo de gula. O prazer de comer bem e de se emocionar com a comida. Saíamos muito para jantar, em dois casais, e era um super programa para mim. Na mesa, nossas diferenças se tornavam irrelevantes e o assunto nunca faltava. Experimentei novos sabores e desfrutei de alguns conhecidos, e por estar entre iguais, nunca fiz nenhum esforço em disfarçar o prazer que a comida me traz. Nem ele disfarçava a satisfação de ver alguém que se empolgasse tanto por um prato. Era o meu amigo de gula.

 

Meu amigo adoeceu, teve uma doença degenerativa. E o cruelmente irônico dessa história é que foi perdendo a capacidade de comer. Entre meus pesadelos sempre esteve o medo de não poder mais comer de tudo. Portanto, entendo perfeitamente o quanto isso deva tê-lo afetado. Mesmo assim, lutou bastante e teve ao lado uma heroína com a força que espero nunca precisar.

 

Hoje aqui em casa tem banquete, com o melhor vinho que tiver.

 

Meu amigo de gula, fique em paz.

Sete vidas

Ando em uma fase meio pensativa, talvez tenha sido em função da caminhada, mas é possível que a história tenha sido o inverso.

 

Alguns projetos estão aparecendo e para tudo digo sim, alguma coisa tem que funcionar. Pareço uma metralhadora giratória. Não é o normal, porque apesar de não gostar de dispensar oportunidades, tenho o costume de focar esforços. Escolher um objetivo e me concentrar nele. Mas ultimamente, não sei porque, uma vida só parece que ficou pequena.

 

Há um filme que acho muito bonito, O Príncipe das Marés. Sempre me arrepio bem no final, quando o Nick Nolte sentado se pergunta: por que um homem, ou uma mulher, não poderia ter duas vidas? Ele se refere a dois amores, o que não é meu caso. Mas gosto de ampliar o conceito e me pergunto por que tentamos ser tão coerentes? Fazer uma coisa de cada vez.

 

Por que somos adestrados a ter uma qualidade forte e minimizar as outras? Em que momento viramos empresas? A tendência é sempre colocar o disco rodando na mesma música, até sabê-la de cor. Por que não aprendemos outro idioma ou um instrumento musical? Por que não praticamos um esporte diferente? Nem a desculpa a gente muda, costuma ser a clássica falta de tempo.

 

Tempo é importante, recursos também e não vou entrar no mérito, por exemplo, do caso de uma mãe profissional, que administra carreira, casamento, filhos etc. Há o grande executivo que trabalha 14 horas por dia, e também o pedreiro que queria tocar violino. Não estou falando de esforço sobre humano, nem de super heróis. Mas acho que às vezes, a gente se concentra no que sabe simplesmente para não correr o risco de errar.

 

Tenho corrido alguns riscos e pago as consequências. Ainda não me arrependi, mas precisei mudar.

 

Falo de uma atitude, e me ponho na berlinda. Eu sempre achei que concentrando esforços ganhava força, e é verdade. Cresço mais rápido. O problema é que não houve uma vez em que tivesse chegado rápido aonde quisesse e não olhasse para o lado decepcionada: mas era aqui? E o problema não é chegar cedo, mas o fato de que nossos finais são muito parecidos, desde que o mundo é mundo. Portanto, já que o final é previsível, por que não aproveitar mais o durante?

 

A boa e velha metáfora que o importante não é a chegada, mas o caminho. Mas ainda não havia me ocorrido o que era exatamente aproveitar esse caminho. Não havia percebido que a felicidade existe em grande parte dentro dos momentos de alívio. E daí a grande ironia da situação, o principal momento de alívio no fim da vida é a morte. Como consequência, no que parece ser uma incoerência tão grande que nos enganamos, quanto mais felizes somos, mais próximos da morte estamos. É possivel que por isso nos faça falta a fé. O grande amuleto que nos salvaria justo no final.

 

Mas não quero parecer mórbida, ainda quero ser feliz e não tenho um pingo de vontade de morrer agora. Se tiver que ser, aviso e registro que é contra vontade! Nesse momento, o que gostaria mesmo é de multiplicar possibilidades, mesmo correndo o risco de enfraquecê-las individualmente. Acho que queria ter muitas vidas.

Férias engordativas

Como pode alguém que não tem trabalho fixo esperar tanto pelas férias? Mas sou assim. Na prática, mesmo sem um emprego, tenho minha rotina de atividades e acabo seguindo o calendário de férias do Luiz. Ele acabou de tirar duas semanas e resolvemos viajar de carro.

 

Saímos em plena sexta-feira 13, que de uruca não teve nada. No máximo, um trânsito meio chato para deixar a cidade. Aqueles engarrafamentos colossais de férias e feriados não são privilégio só dos brasileiros. Pouco depois de sair de Madri, o tráfego melhorou bastante.

 

Dormimos em San Sebastián, costa basca na fronteira com a França. O lugar é uma graça, gostaria de voltar com mais calma e para aproveitar a praia. Mas dessa vez, foi só uma passagem rápida.

 

Seguimos rumo ao norte. Nossa próxima parada foi Orleáns, uma cidade pequena, não tão turística e com um centro histórico muito bonitinho. O objetivo era simplesmente dormir e seguir viagem. Nossa meta era chegar em Amsterdam o mais cedo possível, mas é um trecho longo para ir direto e ainda por cima levamos o Jack. Depois de seis ou sete horas, meu pobre felino fica tontinho no carro. Meu outro felino, Luiz, também fica cansado. Dessa vez não pude revezar a direção, meu dedo mais ou menos quebrado ainda estava se recuperando.

 

Enfim, chegamos despretenciosamente em Orleáns, só para uma dormidinha básica. Saímos para jantar e ainda tive o desplante de dizer ao Luiz que não ia levar a máquina fotográfica porque afinal de contas, a noite de Orleáns não deveria estar exatamente bombando.

 

Muito bem, começamos a caminhar e as ruas pareciam meio desertas, as lojas já fechadas e tal, até que finalmente encontramos o centro, onde para nossa surpresa estava animadíssimo e cheio de gente. Era 14 de julho, dia em que se comemora a Queda da Bastilha, portanto há uma série de celebrações por toda a França. Claro que não lembrei disso, nunca lembro as datas históricas nem no Brasil. Mais de uma vez já nos pegamos no meio de eventos hiper badalados que não tínhamos a menor idéia, a sorte ajuda.

 

Logo depois do jantar, começamos a ouvir um som familiar, era uma batucada brasileira. Bom, não sei se era assim tão brasileira, mas o maestro era e não é que estava bom? Pois o grupo saiu andando e tocando pelas ruas em direção ao rio Loire, onde a noite terminaria com uma queima de fogos. E lá fomos nós seguindo a batucada. Considerando que ainda tinha um dedo quebrado, não foi muito prudente nos metermos no meio da muvuca, mas não tivemos nenhum problema. Fora que era hilário assistir aquele samba de gringos.

 

Quando chegamos na frente do rio, havia uma quantidade enorme de gente na rua, uma verdadeira multidão, parecia reveillon carioca! Me arrependi de não haver levado a máquina fotográfica e para queimar minha língua, a noite de Orleáns estava realmente bombando! Fechamos a noite vendo os fogos de artifício brilhando no céu e refletindo no Loire, muito bonito. 

 

No dia seguinte, pé na estrada novamente e dessa vez fomos direto até Amsterdam. Eu adoro aquela cidade! Acho o holandês moderno e aberto, o típico gente-boa. Essa atitude se reflete na arquitetura, na comida, no comportamento, enfim, pelo menos aos meus olhos de visitante.

 

Ficamos em um hotel não tão central, mas de fácil acesso a pé, para quem gosta de caminhar um pouco. Um casarão amarelo localizado bem de frente a um parque, separado deste apenas por um canal, coisa que não falta na cidade. Engraçado, nessas férias a água foi um elemento sempre presente e fundamental. O lugar era um charme e ainda tinha uma terraza bem de frente para o tal canal, de onde curtimos um vinhozinho e um bom livro. E uma coincidência engraçada, Luiz já havia ficado nesse hotel uma vez, a trabalho, e achou o máximo. Óbvio que ele não lembrava onde era, e agora quem fez as reservas buscando pela internet fui eu. Na porta do lugar, assim que chegamos, ele reconheceu: é aqui! Acredite se quiser, fui reservar exatamente o hotel que ele adorou e não lembrava onde era.

 

Gosto de comer em Amsterdam. Estava precisando provar sabores diferentes, aqui na Espanha a comida é sempre muito regional, tudo bem que é ótima, mas chega uma hora que quero variar. Pois fomos a um asiático divino, um italiano estupendo e um francês gourmet, como não poderia deixar de ser. Claro que também não deixaria de comer os famosos croquetes, né? Caminhamos bastante na tentativa de consumir parte das calorias adquiridas. Mas para falar a verdade, nossa velocidade em ganhá-las era insuperável.

 

Ainda estava meio lenta, com o dedo bem dolorido, mas andei assim mesmo e sem reclamar. A temperatura estava agradável e fresca, coisa que sabia que não aconteceria na Espanha, melhor aproveitar o máximo que pudesse ao ar livre.

 

De Amsterdam, resolvemos seguir para Bélgica, país que não conhecia. Ficamos na dúvida se íamos para Bruxelas, mas todo mundo sempre conta que é um lugar bem sem graça, então resolvemos ir para Brugges, o que acredito ter sido uma boa decisão.

 

Brugges, mal comparando, é uma mistura de Veneza com Amsterdam. Achei a cidade bem charmosa, toda cortada por canais, ou seja, lá estava a água novamente.

 

Outra vez, comemos muito bem, vai ser gulosa assim lá longe! Em uma das noites não resisti ao moules et frites, que consistiu em uma verdadeira panela de mariscos com batatas fritas. Mas a verdadeira covardia são aquelas vitrines das lojas de chocolates, cassilda, como um ser humano pode resistir? Impossível! Perdi totalmente a compostura! No dia seguinte, me atraquei de babador e tudo a uma belíssima lagosta.

 

… e não me arrependo!

 

Seguimos descendo de volta para casa e dessa vez paramos para dormir em Mosnes, no Vale do Loire. Há uma série de cidades pequeninas e charmosas ao longo do rio, o que torna o passeio bem agradável. Bom para relaxar do engarrafamento insuportável que aturamos nos arredores de Paris, onde demoramos duas horas para contornar a cidade. Alí também comemos bem, mas não ficamos muito tempo porque já conhecíamos a região. No dia seguinte logo pela manhã, continuamos nossa viagem.

 

Para terminar de chutar o balde de vez, resolvemos fazer nossa última parada no sudoeste da França, em Grenade sur l’Adour e Eugenie-les-bains. São duas cidades bem pequenas, que ficam a 10 minutos uma da outra. O que essas cidades tem em comum? Uma culinária dos deuses! E dessa vez, a conversa é séria.

 

Começando por Eugenie-les-bains, é onde se encontra o chef Michel Guérard, simplesmente considerado um dos fundadores da nouvelle cuisine e entre os melhores chefs do mundo. Um de seus seguidores, Philippe Garrett, continuou por suas próprias pernas e abriu um hotel e restaurante em Grenade sur l’Adour.

 

Pois é, resumo da ópera, em três dias com essa dupla fatal consegui ganhar uns três quilos! Mas vamos por partes.

 

Chegamos primeiro em Grenade, no hotel Pain Adour et Fantasie. De fora, logo que você chega, não se dá nada pelo lugar, tem uma cara de hotel de faroeste. O charme todo está do outro lado, por onde passa o rio Adour. Olha a água aí novamente!

 

O quarto é espaçoso e tem uma jacuzzi com um janelão bem de frente para o Adour, um escândalo! Além da varandinha charmosa que o Jack adorou. Como o hotel só tem dez quartos, eles sempre servem o café da manhã no seu quarto, olha que desagradável, ainda tinha cafezinho na cama!

 

E para completar esse sofrimento horrível, o restaurante, no primeiro andar, fica bem à margem do rio. É nessas mesinhas quase sobrevoando a água onde almoçamos ou tomamos o aperitivo do jantar.

 

A culinária do Philippe Garrett me parece arrojada e bem humorada ao mesmo tempo. Tem uma certa malícia e sensualidade, consegue ser equilibrada, ainda que ele vá no limite da ousadia. Ele domina o foie gras em maneiras diferentes, mas sempre no ponto perfeito. Comi um tartar de atum de ajoelhar e rezar, veio com um tipo de mini hamburguer de atum e alcachofras que só provando para entender. Oferece também um menu de vinhos que acompanham os pratos perfeitamente.

 

Eu era um foie gras! Era a própria gansa estacionada de boca aberta sendo alimentada sem parar! Não é uma imagem muito bonita, mas garanto que foi fenomenal!

 

Em Eugenie-les-bains se encontra o Les Prés d’Eugénie, é como se fosse um tipo de complexo hoteleiro e gastronômico, que pertence ao Michel Guérard e sua esposa, Christine. Nos hospedamos ali por um dia. É muito famoso pelas termas, ou seja, lá estava a água outra vez, mas acredito que o carro chefe seja a gastronomia. Há três restaurantes: Cuisine Minceur, Cuisine Gourmande e Cuisine de Terroir. O primeiro é uma culinária mais leve, o segundo é o gourmet, e o terceiro mais informal, como uma cozinha de fazenda. É claro que o de culinária mais leve a gente nem deu bola, fomos ao Gourmande e o Terroir.

 

Primeiro fomos jantar no Gourmande, onde o próprio Michel eventualmente passeava pelas mesas cumprimentando as pessoas. A primeira vez que fomos nesse restaurante foi há mais ou menos sete ou oito anos atrás, por acaso, aproveitando a reserva de um casal de amigos que não poderia comparecer. O engraçado é que nessa época era muito difícil conseguir uma reserva se não fosse feita com muita antecedência, e para não correr o risco de perdê-la, nos apresentamos no restaurante com o nome desse casal.

 

Enfim, anos depois, voltamos ao local com as expectativas nas nuvens e mesmo assim a comida ainda era capaz de provocar emoções. Só é um pouco complicado para a auto estima, pois antes de chegar lá achava que cozinhava alguma coisa. Esse cidadão está a anos luz na frente! Sofisticado, de precisão científica e apesar de tanta racionalidade, merecedor do termo arte culinária. Não é comida, é arte. Não há como descrever o que comi sem desmerecer o prato, mas posso garantir que salivo em lembrar. Quando o pão com manteiga do couvert merece atenção especial é porque o assunto é sério!

 

Mas ainda faltava conhecer o outro restaurante de Terroir, La Ferme aux Grives, onde se reproduz um tipo de casa de fazenda, com a cozinha aberta para as mesas. É bem mais informal e de preço mais acessível, serviço impecável e para nosso delírio, outra vez uma cozinha fabulosa! Acho genial você comer pratos absolutamente comuns, como frango ou purê de batatas e ainda assim, ter certeza absoluta que não é igual a nada que você comeu antes!

 

Voltei cheia de idéias e vontade de testar receitas novas! Infelizmente, isso terá que esperar porque a balança foi realmente cruel comigo, ultrapassei todos meus limites de segurança! Luiz e eu já começamos uma dieta e a caminhar pelo parque. Com ou sem dor no dedo, ando feroz na esperança insana da barriga deslizar rapidamente para as coxas!

 

Não será fácil, não tem milagre e o preço é esse. Mas como é bom chutar o balde!

¡Un calor de cuernos!

A África é aqui! Caraca, que calor! O verão realmente promete ser infernal.

 

Tem gente que acha engraçado uma brasileira reclamar do calor de Madri. Eu mesma, antes de morar aqui achava um exagero, mas o pior é que é verdade. Não é só a temperatura, é diferente mesmo. Não venta e quando venta é mais quente ainda, sufocante. E o pior, quando chega a noite, você pensa que vai refrescar e muda dois ou três graus. Com a secura do ar, você não transpira muito, o que te dá melhor aparência e deveria ser mais confortável, por outro lado, desidrata que é uma maravilha.

 

Para dar uma idéia dessa falta de humidade no ar, vou dar um exemplo bem doméstico. Hoje tive que deixar de molho uma blusa que não ficou bem lavada na máquina. Qualquer pessoa que tenha lavado um paninho à mão, sabe que na hora de torcer a roupa nunca é igual à centrifugação da máquina de lavar, ou seja, fica mais água e consequentemente, na hora de estender a roupa, sempre pinga um pouquinho. Pois não pingou! Secava antes!

 

Passamos por uma situação de emergência, pouco antes de sairmos de férias, percebemos que o ar condicionado não funcionava perfeitamente, parecia faltar gás. Quando chegamos de viagem, com aquele calor de cornos, entrei em pânico! Felizmente, o dono do apartamento se sensibilizou e mandou a manutenção rapidamente, acho que o calor aqui é levado a sério. Assim que o ar foi consertado, ficamos igual a viciados respirando aquele arzinho gelado como se fosse ópio. Cadê que queríamos sair de casa?

 

Bom, mas o ar condicionado não pode ficar ligado o dia inteiro, haja conta de luz! Por isso, temos um ventilador que quebra bem o galho durante o dia. Mas precisa ser ventilador que utiliza água, porque os normais só fazem ventar quente. Enfim, de qualquer forma, é móvel e ando para cima e para baixo com ele no apartamento, como se fosse meu cachorrinho.

 

E falando em cachorrinho, nosso felino que não é bobo nem nada, resolveu dormir dentro da pia do banheiro. Elegeu seu novo cantinho fresco.

 

Entre 15:00 e 17:00 horas, nem pensar em sair na rua! A siesta tem uma razão de ser, esse período é cruel. O porquê deles esticarem a mesma siesta o ano todo é malandragem cultural, mas no verão se justifica. Saio antes ou depois desse horário, a vida não pode parar.

 

A propósito, faremos outro trecho do Caminho de Santiago em setembro. O plano A é ir de St. Jean-Pied-de-Port a Logroño. Ou seja, não dá para atravessar os pirineus no improviso, precisamos manter a forma, com calor ou sem calor. Então, lá vou eu derreter no parque do Retiro durante a semana.

Cuidado com o “chupito”

Chupito é um tipo de drink pequeno, como um shot. É comum, por exemplo, ser oferecido como cortesia nos restaurantes em um final de jantar. Normalmente, são licores fortes e digestivos.

 

Nas áreas onde há casas noturnas, como bares ou boites, uma forma de atrair clientes para o local é também oferecendo chupitos de cortesia. Funciona da seguinte maneira, a casa contrata alguém, como um relações públicas, que fica do lado de fora convidando as pessoas que passam na rua para entrar. Pelo centro da cidade, onde há uma enorme quantidade desses locais, é normal você passear pela rua ouvindo o tempo todo: ¿un chupito?

 

A gente já fez mil piadinhas por causa disso. Vamos combinar que, com esse nome… se alguém te oferece um chupito no meio da rua no Brasil, você fica meio tenso. Mas hoje o assunto é mais sério.

 

Caso você aceite, esse relações públicas entra com você e te dá um drink. Ele é remunerado de acordo com o número de clientes que consegue fazer entrar na casa. As próximas bebidas consumidas são por conta do próprio cliente. Ou seja, é uma maneira de fazer o local encher, um atrativo.

 

Até aí, nada demais. Pessoalmente, não costumo aceitar os tais chupitos porque acho ruim, são poucas as bebidas que gosto. Mas nunca havia ouvido sobre nenhum problema. Sempre achei uma maneira inteligente e simpática de atrair clientes. Ninguém quer entrar em um bar vazio, quanto mais animado, mais gente entra e você acaba consumindo mais alguma coisa.

 

Porém, ontem, uma amiga me contou que ela e uma outra menina quase entraram numa fria por causa dessa história. O que acontece é que, por estar em uma cidade teoricamente segura, a gente às vezes relaxa demais, e não pensa que, na realidade, esse negócio do chupito consiste em um completo estranho te dando uma bebida.

 

Aqui é comum você não ficar em um bar só durante toda à noite. Você entra, toma uma coisinha e se a música agradar, fica um pouco mais. Depois muda para outro bar e assim por diante. Muito bem, o que aconteceu com elas foi mais ou menos isso, um rapaz ofereceu os chupitos, elas aceitaram, entraram no bar e tomaram. Mas não gostaram tanto do lugar e resolveram, logo em seguida, mudar para outro, que ficava bem ao lado.

 

Mal entraram no bar seguinte, nem beberam mais nada, e começaram a se sentir estranhas. Como foram as duas ao mesmo tempo, ficaram desconfiadas e sairam imediatamente com a intenção de voltar para casa. E porque às vezes a sorte também ajuda, havia um taxi bem na saída do local e elas basicamente mergulharam nele. No taxi elas já não conseguiam falar mais onde moravam, uma delas lembrou de mostrar a identidade, porque consta escrito seu endereço. Saltaram do carro passando mal horrores e, pelo que entendi, com problemas de coordenação, meio passivas.

 

Minha amiga nem tentou seguir sozinha para casa dela, ficaram as duas juntas, na casa dessa outra menina, cuidando uma da outra como podiam. Conheceram a versão espanhola do “boa noite cinderela”. Felizmente, com um final sem maiores gravidades.

 

Portanto, deixo aqui um alerta. Como disse antes, até esse momento não havia escutado nenhuma história ruim a respeito, e oferecer o chupito é uma boa estratégia mercadológica. Acredito que a grande maioria das pessoas que trabalha chamando os clientes na rua e nos bares é de gente honesta, mas fazer o que? Não está escrito na testa de ninguém quem é bem ou mal intencionado. Então, um pouco de cuidado com o que se bebe na noite madrileña e canja de galinha, não faz mal a ninguém.

O risco das dietas

Há algum tempo, tenho notado que está me custando mais para escrever as crônicas. Assim como o “Vida de Caracol” chegou ao fim, o “Troca de Pele” também. Na verdade, pouco antes de viajar para Santiago, já sabia disso.  A partir daí, parei de numerar os capítulos e a escrever quase que por disciplina, uma maneira de não perder a mão.

 

Em paralelo, tenho viajado o que posso e o que não posso. O que também serviu para adiar o fato de entender porque essa dificuldade havia surgido. Conveniente pensar que isso estava acontecendo por falta de tempo, se quando viajo não tenho acesso ao computador, natural que estivesse escrevendo menos, certo?

 

Claro que não. Primeiro porque não estou escrevendo menos, mas outras coisas. Também não estou saindo menos, o que não justificaria uma possível falta de assunto. Assuntos sobram, falta vontade.

 

Só ontem me caiu a ficha que as viagens e a falta de vontade de atualizar as crônicas se deviam ao mesmo motivo. Cansei de Madri. E agora?

 

Na primeira fase das crônicas, equivalente ao primeiro ano que morei na cidade, havia uma curiosidade em ver a realidade com outros olhos, era uma observadora, quase voyeur, havia o otimismo de quem não tem certeza mas acredita que tudo vai dar certo. Na segunda, na transição entre o segundo para o terceiro ano aqui, minha perspectiva era mais realista, não digo negativa e sim mais participativa, não assistia a um filme, era parte dele. Agora já não há grandes mistérios e me custa manter o bom humor.

 

Madri é provinciana e os madrileños se orgulham disso. Não provam outras línguas, nem outros sabores. Atrás da máscara da tradição, escondem uma enorme covardia em tentar. Insistem em manter-se na década em que quase foram modernos, como uma paranóia coletiva. Falam bem alto e enfaticamente, mas sempre os mesmos temas, nenhuma surpresa nem coragem. Batem no peito por serem europeus, mas desprezam Portugal e são desprezados pelo resto. Na verdade, se desprezam entre si, na própria Espanha. Descontam suas angústias nos imigrantes, como se nunca houvessem sido um dia, sem perceber como é bom ter uma desculpa fácil para a própria incompetência.

 

A gente é boa, animada, as qualidades já ressaltei muitas vezes. E por uma razão que ainda não entendo, me dói muito falar mal daqui. Acho que por isso anda me faltando vontade de escrever sobre a cidade. De certa forma, me sinto permitida a falar bem ou mal do meu próprio país, mas qual seria exatamente minha pátria nesse momento?

 

Não me lembro quantas vezes ouvi e repeti com convicção que é quem se muda que deve se adaptar à outra cultura, às novas regras. Mas será mesmo? Até que ponto realmente escolhi estar aqui? E não me refiro à opção de vir para a Espanha, mas tratando-se o assunto de maneira mais aprofundada, não fui eu quem decidiu globalizar o mundo. Por que não deveria aproveitar a oportunidade de ampliar minhas perspectivas? E onde estava escrito em letras miúdas que isso significaria me restringir? Não elegi trocar de quarto e me fechar nele, saí para o jardim.

 

Retornar ao Brasil resolveria o problema? Duvido. Difícil voltar a ser escrava do medo e me sentir uma palhaça cada vez que vejo o noticiário ou leio um jornal. Mudar para outro lugar? Talvez. Resolveria nos dois primeiros anos, assim como aqui, mas e depois?

 

Há algum tempo atrás, ainda em São Paulo, era totalmente viciada em revistas de decoração. Muitas idéias, inclusive, aproveitava e adaptava aos lugares onde morava. Não houve um local onde moramos que não houvesse feito algo de obra. Nas horas vagas, várias vezes me peguei desenhando a planta da casa dos meus sonhos, a que um dia construiríamos, ainda que não soubesse onde essa casa pousaria. Até nome a casa tinha! Hoje, em uma recepção enquanto esperava Luiz, me peguei outra vez com uma revista de decoração e tudo que gostava me parecia longe ou impossível. O fogão que não terei, a sala que não terei, a casa que nunca terei.

 

Aprendi a ter orgasmos múltiplos por arranjar espaço para uma cafeteira nova e um espremedor de sucos. E não sei exatamente se isso é bom. Aprendi a disfrutar de pequenos prazeres ou a me contentar com pouco? Sinceramente, não sei, acho que um pouco dos dois. Talvez só esteja mais velha.

 

Como as outras fases, essa também vai passar. Fico um pouco curiosa com as próximas. De qualquer forma, me surpreendeu a calma com que me veio essa reflexão, que não é absolutamente nada mais que uma reflexão. Provavelmente, em outras épocas seria o estopim para uma crise existencial novinha em folha.

 

Quem sabe é a dieta que estou fazendo, dietas me deixam num mal humor… Abstinência é uma merda!

Novos ares

Há muitos tipos de viagens, uma infinidade delas, e é  sempre uma experiência diferente, pois a grande maioria te tira da sua rotina. Mas há algumas viagens que logo no início você sente que são mais do que isso, podem mudar sua vida. A ida a Dubai foi assim, sabia que não voltaria a mesma e na volta para casa tive a certeza que mudou outra vez minha maneira de olhar. Não sei dizer se voltei melhor, mas definitivamente maior, com novas portas abertas.

 

Nunca havia viajado a um país oriental, o meu limite mais a oeste foi Praga. Confesso que também nunca tive muita vontade antes, não fazia parte das minhas prioridades. Mas a vida foi mudando, o mundo foi mudando e minha curiosidade surgiu, de uma hora para outra, o oriente médio me parecia muito interessante, provavelmente por misterioso.

 

Não se pode colocar todo o oriente em uma mesma panela, seria o equivalente a dizer que sul americanos, canadenses e europeus são iguais. A oportunidade que tive foi de conhecer um dos Emirados Árabes, e nesse caso, ainda havia um complicador a mais, era um país muçulmano, aquele grupo que depois dos comunistas, também come criancinhas! Admito que sou uma implicante com os Estados Unidos e que, quanto mais eles condenavam essa cultura, mais me dava vontade de conhecê-la.

 

Pois fui a Dubai de coração aberto, pronta para absorver o máximo de informação possível e tentando não julgar o que era certo ou errado. Aceitar e conviver com as diferenças é uma arte que o brasileiro aprende cedo, mas nem todos entendem o valor que essa característica tem no planeta atualmente.

 

No dia de embarcar estava meio esquisita, ansiosa e com uma sensação de quem não sabe muito bem onde pisa. Luiz foi a trabalho e em viagens que vou acompanhando sei que ele não costuma ter tempo de sair comigo, portanto não faço esse tipo de cobrança. Lógico que prefiro sair acompanhada, mas nunca deixei de fazer nada por estar sozinha e me viro muito bem. Mas nesse caso, não sabia se realmente poderia sair só. Será que seria respeitada? Precisava usar alguma roupa específica? Tinha que usar véu? Podia olhar as pessoas nos olhos? Coisas muito básicas, mas que poderiam ofender alguém, o que não era minha intenção.

 

A viagem começa literalmente no avião, as pessoas são diferentes, desde a cor da pele, a maneira de pintar os olhos e as roupas. Foi quando me dei conta que a diferente era eu, era na minha testa que estava pintado o  “x” vermelho. Ainda dentro do avião, vi uma única mulher de traje negro e véu. Dormiu quase todo o vôo. Ao seu lado, uma mulher loira a olhava como quem via um bicho raro. E eu pensava, aqui o bicho raro é você (e eu!).

 

Por outro lado, me sentia muito segura na aeronave. Quem iria cometer um atentado ali? “Tudo brimo”.

 

No aeroporto, em Dubai, outras mulheres já usavam véu, uma delas só mostrava os olhos. Suponho que colocaram os trajes no avião, ou logo que saltaram.

 

Fomos para a fila da imigração. Engraçado porque não havia como não comparar com a imigração americana e o curioso é como os valores estavam invertidos. Nos EUA, quase todos ali seguramente seriam chamados àquela salinha depois da fiscalização, para prestarem maiores esclarecimentos do que faziam no país. E eu, que nunca havia sido parada antes, me perguntava se seria a minha vez. Será que minha blusa era decotada demais? Será que deveria deixar Luiz ir na frente e só ele falar? Preocupações que agora acredito não fazerem sentido, mas foi bom estar atenta, porque assim a gente aprende mais.

 

Todos os fiscais da imigração usavam trajes característicos. Havia algumas mulheres trabalhando, todas de negro, inclusive todas negras, não sei se por coincidência, todas de véu na cabeça, mas nenhuma com véu no rosto. E os homens usavam o traje típico árabe, aquele vestido branco chamado “dishdasha”, antiséptico e sem nenhuma marca de amarrotado, sandálias e o pano amarrado na cabeça. Esse pano da cabeça se chama “shumagg”, sua cor e maneira de usar definem quem você é, de que região vem. No caso desses fiscais, todos usavam shumagg branca, mas com algumas amarrações diferentes.

 

Chegou nossa vez e fomos atendidos por um homem. Perguntou de onde éramos, Luiz falou Brasil e ele respondeu: samba! Luiz ainda sério e concentrado disse que morávamos em Madri e ele: olé! Nessa hora relaxei, vi que ele não estava ali para encrencar nem ficar de pirraça com ninguém. Só fazia seu trabalho e tinha uma curiosidade natural. Tentava ser simpático, sem faltar com respeito. Sorriu e disse bem vindos! Não fui tratada como uma intrusa, o que me deu mais vontade de não ser uma.

 

Na saída do aeroporto, uma pessoa do hotel nos aguardava. Isso é uma coisa normal, os hotéis sempre enviam alguém para recepcionar seus hóspedes. Também são os hotéis os responsáveis por emitir os vistos de entrada no país. Você recebe uma cópia do seu visto por fax ou e-mail, e é essa cópia que você apresenta no check in e na imigração. Até onde sei, não existe a possibilidade de entrar no país sem um lugar para ficar. Se não for o hotel, algum morador deve se responsabilizar por você.

 

A saída do aeroporto também representou a primeira saída do ar condicionado. Pode acreditar que o curtíssimo trecho entre a porta e o automóvel foi um dos momentos que mais senti calor na vida! E era seis da matina! Foi quando também desisti de me preocupar se minha camiseta era ou não cavada demais, arranquei a camisa que ficava por cima e que se dane! O calor era impressionante!

 

Logo entramos no carro, onde recebemos por cortesia uma garrafa de água e uma toalhinha descartável geladinha, uma delícia! Conto esses detalhes porque descrevem um pouco do que é a vida em Dubai, é esse contraste. Do lado de fora, árido, duro, difícil, e do lado de dentro um conforto de sonhos. Eu tinha a sorte de poder estar do lado de dentro, mas que não acreditasse que meu mundo é de sonhos. Acabava de me lembrar que estava em pleno deserto e era gringa.

 

No caminho entre o aeroporto e o hotel, de cara você começa a entender o que é a cidade. O número de guindastes de construção é surreal. Os prédios são gigantescos e monumentais. Olha que viajo bastante e hoje, talvez infelizmente, é muito difícil encontrar alguma coisa que me surpreenda, mas ali me surpreendi. Não é por um prédio monumental, mas por centenas deles ao mesmo tempo. Você vê a cidade crescendo como um organismo vivo, pulsante. Nada é simples ou normal, é um exército de gente se desdobrando para surpreender, ser o mais do mundo em alguma coisa.

 

O céu tem outra cor, é acinzentado sem ser nublado, é o azul que é diferente mesmo. Às vezes, o horizonte chega a parecer esfumaçado.

 

Chegamos ao hotel, excelente, que por um preço muito razoável, oferecia o atendimento cortês e profissional, bem diferente ao que estamos acostumados na Europa. Absolutamente todos falam inglês, o mesmo acontece no comércio. É verdade que leva um acento indiano, mas compreensível e todos tem boa vontade em entender. Sim, é para fazer negócios, mas e daí? Aqui você paga caro e mesmo assim é mal tratado. Admito que bem que gostei de ser paparicada.

 

O hotel que nos hospedamos ficava bem na frente da praia, onde você tem segurança e serviços como cadeiras, bebidas etc. As pessoas usam roupa de banho normal para os padrões ocidentais, biquinis, sungas, sem problemas. A única restrição, também muito razoável, é que se pede em respeito às tradições islâmicas, que não se caminhe pelo hotel sem shorts, camisas e sapatos. Vamos combinar que ninguém precisa ficar passeando na recepção de biquini, né?

 

Novamente, em relação às grandes construções, é interessante observar que o prédio do hotel onde estávamos era relativamente grande, mas perto dos prédios construídos em volta, parecia uma verruguinha esverdiada meio perdida. Construíram em volta uns prédios cor de areia, carésimos, mas que cá entre nós, pareciam um grande cabeção de porco.

 

A grande maioria dos trabalhadores nas construções é de indianos, muito razoável, considerando que mais de 70% da população é de indianos. As obras funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana. Os turnos da noite são os mais disputados, pela temperatura mais amena. Ganham por volta de 500 a 600 Dirhams por mês, que equivale a cerca de 100 euros. Até onde entendi, esse salário é livre de despesas, eles recebem moradia, comida e transporte. Trabalham duro. É curioso passar ao lado dessas obras e ver pessoas de uniformes, outras com trajes indianos, uns com capacetes, outros com turbantes, outros com uns panos embaixo do capacete, um samba do criolo doido!

 

Nos hotéis, na área da recepção e restaurantes, há igualmente homens e mulheres trabalhando. Mas somente homens arrumam os quartos. Uma boa parte dessas mulheres que trabalham e dos camareiros vem da indonésia.

 

Há também bastante imigração russa. Reza a lenda, que parte razoável do dinheiro que alimenta o setor de construções é da máfia russa. Essas coisas não se provam, mas já vi o suficiente na vida para saber que obras nessa proporção não podem vir apenas de dinheiro, digamos, honesto. Posso não ter certeza de onde vem esse dinheiro, mas certamente ali funciona uma imensa lavanderia. O governo pensa o seguinte, se vai ajudar o desenvolvimento local, então pode. Não é como no Brasil, onde o dinheiro vai para meia dúzia e o resto do povo que se dane. Os investimentos realmente vão para a cidade. Por consequência, as leis mudam a todo momento, nada é rígido, tudo é relativo e negociável. Acredite se quiser, mas até impostos aduaneiros, contas de água e luz podem ser negociadas.

 

As bebidas alcóolicas são bem restritas. Os muçulmanos não bebem, mas os estrangeiros podem beber em locais que possuem autorização. Esses lugares se restringem aos hotéis e alguns restaurantes. Não se vende álcool em super mercados ou lojas. O que acontece, por debaixo dos panos, são enormes festas privadas onde a bebida corre solta, inclusive entre os moradores locais. Por outro lado, a tolerância às drogas é zero. Mesmo nessas festas, as drogas são muito mal vistas, ninguém consome. Portanto, dificilmente rola algum tipo de violência, as pessoas estão lúcidas. Muito prudente, considerando que você pode estar batendo um papinho com um comerciante de armas iraniano.

 

Nos hotéis e nos poucos restaurantes onde a bebida é autorizada, ninguém te olha feio ou fica te julgando se você beber, é normal. Por outro lado, não sei se pela a restrição à bebida, os sucos de frutas são deliciosos, em especial, o de limão com menta. E todo mundo fuma a tal da “shisha”. Não resisti e experimentei também. Você não sente o sabor do tabaco, o que predomina é o aroma e sabor de fruta. Os restaurantes acabam meio esfumaçados, mas não é incômodo. Você fuma antes, durante e depois das refeições. Admito que no final estava me dando um pouco de barato, principalmente porque não sou fumante.

 

Os shoppings são um capítulo a parte. Como ninguém consegue caminhar nas ruas, os espaços de convivência são fechados e os grandes malls funcionam como enormes calçadas de temperatura e segurança controladas. Ali, tudo se mistura no mesmo espaço, uma enorme Babel. Há os ocidentais, de todas as nacionalidades possíveis, apesar de não ver outros brasileiros. Muitos indianos, com e sem trajes típicos. Árabes com shumaggs brancas, quadriculadas em vermelho e branco, coloridas, com cordinhas diferentes etc. Mulheres de mini saia, outras de véu colorido, véu negro, véu onde só aparecem os olhos, véu por todo o rosto… Vi até uma beduína, de traje negro, que levava um tipo de máscara de metal e ia apitando uns sons enquanto caminhava.

 

A grande maioria das lojas vende roupas ocidentais e, na minha ignorância, cheguei a pensar, claro, também vai ter alguma loja só com roupa preta, burcas todas iguais? Uns dois minutos depois, passamos por uma loja assim e me dei conta da besteira que estava pensando. Primeiro que não é burca, o traje chama “abaya” e o véu “hijab”, e vamos por partes porque é muito detalhe. As mulheres locais usam tanto o traje quanto o véu negro, mas quando a gente olha mais de perto eles não são iguais. Tem bordados, brilhos, tecidos diferentes, alguns são um pouco mais abertos e permitem ver a roupa que há embaixo, outros são totalmente fechados. Teoricamente, a moça precisa usar o véu a partir da primeira menstruação, mas às vezes a família pode optar por usar um pouco antes. Normalmente, elas não cobrem todo o rosto enquanto solteiras, isso acaba sendo uma opção do marido. Às vezes você vê um homem com mais de uma esposa, todas de negro, mas só uma com o véu tampando o rosto, provavelmente a primeira esposa. As mulheres não locais, mas que seguem a tradição muçulmana, usam roupas ocidentais, com os véus coloridos e não tampam o rosto.

 

Todas pintam muito os olhos, coisa que me deu vontade de fazer logo de cara. Aliás, também fiz uma pintura de hena na mão e no braço, linda!

 

Mas enfim, essa história das roupas e véus é muito complicada. Procurei entender sem julgar. A primeira vez que vi uma mulher toda de negro, só com os olhos de fora, ainda no aeroporto, me deu um pouco de nervoso, era opressor. Depois, quando vi várias nos shoppings e pela cidade, não parecia nada demais, porque elas não me pareciam tristes. A maioria das mulheres locais que vi usavam o traje todo negro, inclusive o véu na cabeça, mas não cobriam o rosto. E me pareciam muito animadas nas suas compras.

 

Quanto às mulheres não locais, mas que usavam véu colorido, sem tampar o rosto, sinceramente, achei até bonito, muito feminino e um traço de identidade cultural.

 

Não digo que quero essa vida. Fui criada em uma civilização ocidental e hoje seria praticamente impossível abrir mão do que aprendi serem meus direitos. Simplesmente estou dizendo que elas não me pareciam infelizes. Dubai é um oásis de tolerância e considerado muito liberal, mesmo assim, vi com otimismo a possibilidade de uma convivência pacífica entre culturas tão diferentes.

 

E esse é outro ponto interessante, sempre ouvi descrições de Dubai como sendo o emirado mais ocidental. Isso não é verdade, ainda que seja uma maneira mais simples de descrever algo parecido. Dubai é totalmente oriental, mas é tolerante e aceita conviver com a diferença. As pessoas locais não estão se misturando, no sentido de mudar suas próprias crenças, mas convivem no mesmo espaço e com respeito. E os ocidentais que ali se encontram também não estão tentando mudar ninguém, simplesmente respondem com igual tolerância em adaptar a vida que estão acostumados, procurando não ofender ninguém.

 

Um bom exemplo é o casal de amigos que encontramos, ele egípcio e muçulmano, ela russa e não se converteu. Ela não usa véu, trabalha e toma seu vinhozinho, eventualmente. Ele não toma uma gota de álcool e segue suas tradições. Tem um filho e vão muito bem, obrigada. Um casal absolutamente normal, daqueles que discute os caminhos no carro, porque afinal de contas, ele não quis parar para pedir informação…

 

Aliás, esse casal nos ciceroneou. Muito bom quando a gente pode conhecer uma cidade junto de quem mora nela e, nesse ponto, tivemos muita sorte. Na primeira noite, encontramos um amigo solteiro do Luiz e jantamos com ele. Um italiano, que já morou aqui em Madri. Um dia, largou tudo e mudou de mala e cuia para Dubai, foi trabalhar com o mercado imobiliário. Compreensível, porque em dez minutos que estava na cidade queria investir ali.

 

Com o casal, saímos mais vezes, junto com seu filhinho de uns cinco anos. Em um dos jantares, fomos a um restaurante sírio libanês muito legal. Uma infinidade de comidas, sucos deliciosos e a famosa shisha.

 

Contraditoriamente, um dos lugares que mais gostei de Dubai foi também de onde saí mais triste. Fui jantar com Luiz no Buddha Bar, da mesma cadeia espalhada pelo mundo, inclusive acho que abriram um em São Paulo. Mas continuando, em Dubai ele é perfeito, combina com o contexto. O local tem iluminação baixa e de velas, um pé direito enorme, uma parede envidraçada de frente a um canal e um Buda dourado gigantesco olhando as mesas. A música é ótima e a comida também. Só que imagina entrar nesse ambiente e, ao mesmo tempo, ver as pessoas vestidas com trajes indianos, árabes, véus brancos, enfim, é um ambiente que você se sente em meio de um sonho. Luiz também adorou e tivemos um super jantar.

 

No final, na euforia do ambiente e do vinho, quis ligar para casa e contar as novidades. Havia passado o dia dos pais e ainda não havia conseguido falar com o meu. Minha mãe atendeu com uma voz muito esquisita e percebi logo que algo não estava certo. Eu disse que não responderam os e-mails e ela falou que haviam ido a Belo Horizonte porque meu avô não estava tão bem. Encurtei a conversa com o que realmente interessava, mas ele está vivo?

 

Não estava. Há um ano me preparo para receber essa notícia, mas naquela noite não me passava pela cabeça. A música alta me dava a esperança de não ter ouvido direito, levei alguns minutos para entender o que acontecia e confirmar se estava ou não em algum sonho.

 

Fomos para o hotel em meio a ligações interrompidas do meu pai, que me explicava a história. Ele tinha a voz tranquila e creio que isso também me tranquilizou. No fundo, todos nós sabíamos que havia chegado a hora e que foi melhor assim. Mas nunca é fácil. Tentei falar com minha tia, mas não consegui. De qualquer maneira, já não havia o que fazer, ele já havia sido até cremado e eu estava literalmente no meio do deserto.

 

Era tarde e Luiz precisava dormir. Passei a noite acordada, meio sonâmbula e esperando que o dia amanhecesse logo. As manhãs clareiam nossas idéias e nos lembram que a vida continua.