O efeito terapêutico das Lulus

Sempre tive amigas e amigos, não me lembro de passar por aquela fase onde meninos e meninas se detestam. Na verdade, quando era criança, por coincidência, morei um tempo razoável em ruas onde só havia meninos e participava ativamente das brincadeiras. Nunca fui muito pequena, o que também não justificava um tratamento especial, principalmente, em uma idade onde não parecíamos tão diferentes assim.

 

Não quer dizer que não tivesse amigas, essas eram no colégio. Então, de certa forma, frequentava dois mundos que me interessavam. Amigas eram afinidades e amigos eram diversão.

 

Na adolescência, confesso que com os hormônios enlouquecidos, meninos continuavam sendo diversão, mas dificilmente eram amigos. Entre as amigas, compartilhávamos experiências e dúvidas.

 

Os hormônios foram se acalmando, e novamente não me fazia tanta diferença ter amigos homens ou mulheres. Cansei de escutar teorias sobre amizades possíveis e impossíveis, que às vezes acho curioso, outras absurdo total e o fato é que continuei tento amigos e amigas.

 

Entre as coisas absurdas que passei a vida escutando estava a clássica bobagem que não existe mulher amiga de mulher, só homens são verdadeiros amigos. O típico jargão que se propaga ao longo dos anos e que quando buscamos paralelos na vida real, não encontramos. Eu, pelo menos, normalmente não encontro. E das poucas vezes que encontrei, considero percentualmente insignificante ou não atrelado ao sexo em questão.

 

Muito bem, o tempo foi passando e fui trabalhar em um ambiente muito masculino, onde sinceramente, nunca me senti incômoda. Eu me preparei para passar por situações de preconceito que poucas vezes aconteceram. É verdade que ao passar pelas malfadadas dinâmicas de grupo, era comum ver ao meu lado duas ou três meninas e vinte homens, eu sabia que não bastava ser igual a eles, se não fosse melhor, não teria uma oportunidade. Mas uma vez dentro, não tinha maiores problemas. Eu também sabia que minha concorrência era com eles e não com elas, como costuma se pregar.

 

Enfim, trabalhei por alguns anos em um ritmo de agressividade considerado masculino e não foi difícil exercer esse perfil. Talvez por isso, tenha desequilibrado um pouco o peso da balança e tudo ficou masculino demais para o meu gosto. Eu continuava a ser mulher e esse papel também me caía bem.

 

Mudei de carreira, por outros motivos, mas mantive as amizades. Entre essas amizades, estavam três amigas que trabalharam em consultoria de negócios junto comigo. Uma delas se manteve nessa área, e as outras duas, como eu, mudamos de profissão. Um dia, resolvemos nos encontrar e, como estávamos só em mulheres, nos auto entitulamos de Luluzinhas, as Lulus.

 

Foi terapêutico! Não que falássemos nada demais, mas de repente, me vi em uma situação muito parecida à adolescência, onde compartilhávamos as experiências e as dúvidas, mas dessa vez, de uma maneira bem mais madura. E às vezes, só falávamos besteiras mesmo, não importa, sempre saía dos nossos encontros leve e feliz. Nos esforçávamos para conciliar as agendas e não perder o hábito de nos encontrar. Eventualmente, nossos parceiros eram chamados a participar, como convidados especiais.

 

Mais tarde, veio o seriado “Sex in the City”, onde as amigas também estavam em quatro e, apesar de nem gostar desse número, parece que como grupo de amigas é cabalístico. Funciona. Era inevitável não tentar comparar quem seria quem, o que nunca foi possível definir, afinal de contas, nenhuma de nós se enquadrava totalmente com uma personagem específica. Mas uma coisa era muito clara, assim como elas, também éramos muito diferentes entre nós e talvez o que fosse motivo para cisão, acabou funcionando de maneira oposta. Éramos diferentes, mas olhávamos para a mesma direção.

 

O tempo passou, a água rolou e mudei de países. Conheci amigas show de bola, com quem tenho compartilhado vários momentos, mais frequentemente entre grupos misturados, o que também gosto.

 

Até que agora conheci, quase simultaneamente, três meninas, todas brasileiras. Um dia, uma delas me chamou, escuta, vamos sair só as “chicas”, quer vir? Claro que quero. Naquele momento, não sabia se elas já saíam antes, mas me pareceu curioso estármos outra vez no cabalístico grupo de quatro mulheres. E o engraçado, também nos auto entitulamos de as Lulus, o que não é raro, mas era um bom presságio.

 

Conversa daqui, conversa dali, acabamos marcando um jantar aqui em casa, onde cada uma participava à sua maneira. Era o primeiro encontro dessas Lulus e para dizer a verdade, por alguns momentos fiquei um pouco apreensiva se daria certo, afinal de contas, ainda estávamos nos conhecendo. Também não quis e não gosto de entrar em comparações com outras amigas porque, ainda que existam semelhanças, cada situação é ímpar. Não quis ficar imaginando o que rolaria, melhor deixar acontecer naturalmente.

 

E aconteceu, mais ou menos depois dos três segundos que a primeira Lulu chegou, eu já estava relaxada e curtindo a história. Falamos até dar câimbra na língua! Outra vez, terapêutico, além de gastronômico. Outra vez, somos muito diferentes, mas dá certo. Talvez porque ninguém pareça querer mudar ninguém. Eu gosto da diferença. E assim mesmo, ainda guardamos enormes afinidades.

 

No dia seguinte, tinha a agenda tomada. E eu que fui dormir por volta das quatro da matina, acordei cedo e sonolenta. Naqueles dias de outono, que amanhecem escuros e propícios a me sequestrar o bom humor. 

 

Só que estava feliz.

 

Há várias coisas que a gente pode fazer para melhorar a deprê de outono/inverno, esporte, alimentação específica, lâmpadas especiais e por aí vai, mas acho que a melhor delas é, definitivamente, encontrar amigas.

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