A história das festas

Eu adoro festas e também fazer aniversário, logo, amo festas de aniversário!

 

Quando era pequena, achava um pouco estranho e tinha vergonha da hora do parabéns. Para ser sincera, até hoje me sinto um pouco constrangida nesse momento. Não sou tímida, mas não gosto de chamar atenção. Talvez, de uma maneira intuitiva, soubesse que toda festa é dos convidados e centralizar o protagonismo não fazia muito sentido. Criança, eu não queria festa de aniversário.

 

Fui felizmente adestrada muito cedo a comer bem. Desde que minha memória alcança, acompanhava meus pais a bons restaurantes e sempre comi como gente grande. Os meus preferidos tinham música ao vivo e gostava de sentar bem na frente para aplaudir os artistas. Pois bem, quando pude ter alguma opinião sobre o que queria de aniversário, pedia um jantar no meu restaurante favorito da época com minhas amigas mais próximas. Assim ficava feliz, ao redor de uma mesa, estava no meu elemento natural e na minha zona de conforto.

 

Quando estava para fazer 10 anos, achei que aquela idade era muito importante e que precisava ser celebrada. Era um ritual de passagem, ainda que não conhecesse com tanta propriedade o que significava esse conceito. De qualquer maneira, foi a primeira festa que pedi e tive. Eu gostei e consegui me divertir, não me sentia como uma noiva no centro das atenções. Na verdade, era praticamente outra convidada e esse foi o segredo para aproveitar uma festa que tive a sorte de descobrir jovem.

 

Na casa dos meus pais, sempre se recebeu muita gente. Cresci vendo comidas serem compradas, aromas dos alimentos sendo preparados, quantidades de bebidas, mesas desmontáveis de feltro verde para jogos, espetos de churrasco, guardanapos, toalhas de mesa, música e por aí vai. De maneira que, mesmo não sendo responsável por isso, para mim tudo parecia muito natural. Achava que toda casa era assim. A função de uma casa era morar, receber a família e os amigos, claro!

 

Aos poucos, fui notando que nem toda casa era assim, cada uma tinha sua própria dinâmica. Luiz por exemplo, nunca foi de dar festas. Para ele parecia algo complicado e trabalhoso. Além do clássico medo que inevitavelmente surge antes de qualquer festa, independente da sua experiência: será que as pessoas virão? Será que vai dar certo?

 

Bom, nos casamos relativamente cedo e fomos um dos primeiros casais do nosso grupo de amigos a ter a própria casa. Portanto, um ótimo local para nos reunirmos. Para completar, nessa época eu vivia na ponte aérea e ficava complicado para levar uma vida social, tinha pouco tempo disponível. O mais razoável, era fazer reuniões em casa mesmo, no sábado.

 

Confesso que nas primeiras Luiz ficava tenso, não se divertia. Mas isso não durou muito tempo. Ele logo conseguiu relaxar e disfrutar das festas. Até porque acabou se tornando o programa de sábado, a gente não precisava mais convidar ninguém nem se preocupar se as pessoas viriam, porque elas mesmas ligavam à tarde, perguntando se poderíam vir. Compras também não era um problema, porque a bebida e a comida chegavam junto com os convidados. Era divertido ver a geladeira e a dispensa encher e esvaziar na mesma noite. Época boa, onde reforçamos laços de amizade e conseguimos levar com boa energia um período que nos era difícil. Passei quase um ano, o primeiro de casada, trabalhando em São Paulo e só encontrava Luiz nos finais de semana, no nosso apartamento no Rio.

 

A vida é complexa e composta de muitas coisas para dizermos que um ou outro motivo isolado garantem determinada situação, mas posso assegurar que essas festas, ou em outras palavras, a presença dos amigos e o entrosamento do Luiz nessa maneira de viver, ajudaram e muito a fazer minha vida melhor. Festas ajudam a fazer de uma casa um lar e mostram aos seus amigos o quanto eles são especiais. Receber amigos junto com o Luiz, reforça nossa cumplicidade e é um dos momentos onde podemos ser um time. Quando ele não entra no espírito da festa, para mim é sempre mais triste, ainda que funcione. Felizmente, isso acontece pouco e dançamos nossa coreografia aperfeiçoada ao longo dos anos.

 

Voltando à história das festas, finalmente faria 30 anos! Na minha opinião era a melhor idade que uma mulher poderia ter! E depois de contar toda essa saga das festas, não é muito difícil prever que é lógico que precisava de uma de arromba! Foi em São Paulo, onde já tínhamos muitos amigos, e o legal é que minha família e os amigos do Rio foram também. Em casa tínhamos bem umas 15 pessoas hospedadas e deu tudo incrivelmente certo. Foi também a festa em que fiquei mais nervosa antes de começar, a primeira grande, umas 80 pessoas, onde eu tinha total responsabilidade. Até um DJ a gente contratou!

 

Modéstia às favas, foi um sucesso e deixou a vontade e a expectativa que viessem outras. Vieram. Maiores ou menores, de acordo com as nossas possibilidades e em diferentes cidades ou países. Sei que em novembro há festa em casa e no que depender de mim, sempre haverá. Entre erros e acertos, me importa celebrar o fato que ainda estou aqui e bem viva. Ter amigos para compartilhar esse momento pessoalmente, por telefone ou internet, é uma benção. E se for em uma festa, é correr literalmente para o abraço!

 

Esse ano não poderia ser diferente. Só realmente sinto não ter espaço suficiente para chamar todos os amigos e sinceramente sofro com essa escolha. Fazemos o que é possível e sempre convido mais gente do que cabe em casa. Daí no dia saio arrastando os móveis para os cantos e dando um jeito para que a coisa funcione.

 

Gosto de festas temáticas, ajudam a preparar o clima, a decoração e as comidas. Esse ano fiquei meio na dúvida que tema escolher. Sou um pouco subversiva, mesmo quando tão sutil que não se percebe, mas assim parece que é ainda melhor. A questão do preconceito com a imigração aqui na Espanha anda me enchendo a paciência… eu ando influenciada pelas culturas orientais… pois caiu como uma luva, fiz uma festa árabe. Admito que havia um grau de pirraça, mas achava que podia ser divertido.

 

O que acho legal é que nossos amigos são muito alto astral e embarcam mesmo na brincadeira. Veio de gente com traje legítimo a outros com pano de prato xadrez na cabeça! Foi muito engraçado! Nenhum vizinho reclamou da música, afinal de contas, quem é o louco que vai se meter com uma aparente célula da Al-Caeda?

 

Fiz quibe, salada de grão-de-bico, tabule, pepino com iogurt, salpicão de frango, beringela assada, queijinhos e pão árabe. Um amigo trouxe dois pudins, e um deles escondi na geladeira, porque afinal de contas, ele disse que era meu presente! A propósito, é claro que me cantaram parabéns com o pudim. Ainda fico sem graça, mas consigo me divertir e cantar também.

 

É verdade que algumas doses de whisky cowboy ajudam muito. Desde que vim morar em Madri, quase não bebo whisky, troquei por vinho. Mas era meu aniversário e queria mesmo meu copinho de shot com um belo whiskão!

 

Pela madrugada, nossa amiga cantora nos deu uma palhinha e nós, com aquela voz de “borrachos”, fomos tentando acompanhar entre uma gargalhada e outra. Uma das amigas, digamos, interpretava a alma da música.  Felizmente, ninguém gravou! Esse negócio de cantar em coral pode se tornar perigoso, porque agora eu acredito que canto!

 

A última convidada saiu às 6 da matina e fui dormir feliz com meus 38 anos.

 

A vida é curta e passa voando. Preciso de referências, de marcos em ciclos fechados ou iniciados, lembrar que algumas coisas faço certo. Minha maior ambição em uma festa é que cada uma das pessoas saia se sentindo especial e querida, sabendo que foi lembrada individualmente, especificamente, e que a ocasião não seria a mesma se não estivesse ali. Eu não seria a mesma se elas não estivessem ali. E isso é uma festa de aniversário.

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