Sin prisa, pero sin pausa

Vou fazer uma retrospectiva e entender como cheguei até essa situação absurda de estar há quatro anos sem um visto de trabalho.

 

Quando estávamos em São Paulo e Luiz recebeu a proposta para irmos morar nos EUA, eu gostei. Achei que era uma excelente oportunidade de ter uma experiência fora do país, buscávamos isso há algum tempo. Não tinha a menor idéia do que era a burrocracia de vistos e documentações, mas me parecia tudo relativamente simples e achei que tudo seria cuidado pelos advogados da empresa.

 

Com nossa mudança tratada e tudo acertado, descobri que não teria direito a trabalhar em Atlanta. E aí, o que fazer? Para mim parecia que o bonde já havia partido e era tarde demais para desistir, no fundo acreditava que no futuro daríamos um jeito. Além do mais, trabalhando como artista e autônoma, isso não poderia ser tão complicado.

 

Era sim tão complicado, era praticamente impossível. Para viabilizar essa possibilidade, ou conseguia um green card ou precisaria retornar ao Brasil e entrar com um novo e longo processo de visto. Não foi necessário, bem antes disso soubemos que não ficaríamos, viríamos para a Espanha. Fazer o que? Esperar um pouco mais que se resolveria.

 

Luiz, como sempre otimista, me afirmava ser muito mais simples para que eu tivesse meu visto de trabalho aqui. Ainda não o teria quando chegasse, mas depois de um ano, na primeira renovação, ele seria automático.

 

Não foi automático e entendi que estava no mesmo loop maluco de antes, mas tinha a sensação de que só eu achava isso. Acredito que de certa forma era difícil para ele aceitar a situação como ela era, se sentiria responsável pela minha insatisfação em ser meia pessoa. Então, sempre minimizava as dificuldades óbvias, às vezes comparando com seu caso, nem remotamente parecido ao meu, e onde quem cuidava do assunto eram advogados de uma multinacional. A responsabilidade nunca foi dele, eu aceitei essa vida porque quis, mas não seria para sempre. E ser tratada como uma pessimista que colocava dificuldades onde não existia não me ajudou em nada. As dificuldades existem e não estou nem estava exagerando. No máximo, estava me protegendo, porque algumas impossibilidades são muito frustrantes.

 

Muito bem, continuando o conto da carochinha, recebi a notícia que depois do segundo ano vivendo legalmente em Madri, a situação seria bem mais fácil, era só arranjar um emprego que meu visto seria garantido.

 

Veja bem, como arranjar um emprego razoável onde o empregador queira ficar esperando por um mínimo de três meses para sua papelada ficar pronta, sem garantias de ser aprovada. Aqui ninguém quer fazer nada diferente ou que pareça que dará mais cinco minutos de trabalho. Não é impossível, mas é bastante improvável e outra vez terrivelmente frustrante. E pior, nem queria um emprego fixo, queria ao menos a possibilidade de expor e vender legalmente meu trabalho em artes.

 

Muito bem, próximo plano, poderia tentar um visto como autônoma e montar uma empresa. Assim o fiz, há quase quatro meses. Apresentei toda documentação redondinha. Até uma carta de um potencial cliente para minha futura empresa o Luiz conseguiu. Mesmo assim, meu visto de trabalho acaba de ser negado. Para o governo, interessa mais que eu fique aqui parada do que pagando impostos. Esse é o brilhante pensamento ibérico que não enxerga um palmo adiante do nariz.

 

Nesse momento, que mais posso desejar a esse maravilhoso país? Pois que vão todos a tomar por sus culos españoles! Que continuem com sua cafonice dos anos 80, suas mesmas comidas de toda la vida, sua paupérrima e dramática música nasal, sua completa incapacidade de falar outro idioma, seu mau humor contagiante, seu péssimo atendimento e seu racismo de merda. Mas me incluam fora dessa província.

 

Tem gente legal? Claro que sim, em qualquer lugar do planeta se encontra gente legal. Mas hoje não estou com saco de ficar defendendo ninguém não.

 

Às vezes, a gente precisa de um ponto mais radical, um golpe de misericórdia para tomar uma decisão. No último ano por essas bandas tenho me decepcionado bastante e me questionado se é aqui meu lugar, se é aqui que quero que seja meu lugar. Não quero. Vai muito além do despeito, vai além da frustração ou da raiva. Simplesmente cansei e decidi que vou embora.

 

A cabeça ainda está quente, mas vai esfriar. Posso ser bastante calculista com uma decisão tomada. Não tenho pressa, não preciso sair correndo, mas é uma questão de tempo. Como se diz por aqui, e uma amiga me lembrou, sin prisa pero sin pausa. Agora é trabalhar os próximos passos.

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