Orkontro

Quem não conhece o orkut? Talvez no Brasil tivesse medo de participar. De alguma forma, me sinto mais segura por estar na Espanha e, apesar de tomar meus cuidados para não me expor demais, vamos combinar que depois da minha vida se tornar um blog aberto, não tenho muito a esconder.

 

Pois bem, há uma comunidade de brasileiros que moram por aqui da qual participo. Normalmente, não sou muito ativa em comentários, sempre leio e dou um ou outro pitaco esporádico. Mas é engraçado porque, por frequentar os tópicos a tanto tempo, às vezes tenho a nítida sensação de já conhecer algumas pessoas. Na prática, acabei conhecendo algumas mesmo, porque o mundo é muito pequeno, e talvez por sorte sempre foram boas experiências.

 

Um encontro marcado pelo orkut é um orkontro. Havia ido a um único desses orkontros, perto do Natal do ano passado. Não foi tanta gente, mas as pessoas que foram, renderam bons contatos. Fiquei com uma impressão positiva e queria participar de outros. Mas sempre que havia algum, que nem eram tantos assim, a gente tinha alguma programação já estabelecida.

 

Também não vou dizer que fizéssemos tanta força em ir nesses encontros. Para falar a verdade, logo que mudamos para Madri, fazia um esforço para não conhecer apenas brasileiros. Isso pode ser facilmente mal interpretado, mas sinceramente, achava que não fazia sentido vir morar em um país estrangeiro e continuar vivendo ou tentando viver exatamente igual ao Brasil. Queria entender a cultura, falar melhor o idioma e me engajar na realidade local. Na minha experiência, isso sempre fez com que a vida de mudanças fosse mais fácil.

 

Com o tempo, a gente parece que ganha um chip diferente na cabeça, totalmente pronto para administrar uma situação de mudança, seja de casa, de cidade ou de país. E engraçado que por estar com o Luiz a um tempo razoável, a gente nem precisa conversar muito sobre isso, as decisões ficaram automáticas. Vou arrumando os móveis, desempacotando as coisas, descobrindo onde é o comércio de que; ele por sua vez começa a providenciar a infraestrutura, como telefone, internet, televisão… funcionamos como uma coreografia ensaiada.

 

Essa parte prática acabou se estendendo para a maneira de viver. Não entramos em comparações ou lamentações com o passado, não adianta. E tentamos nos adaptar o mais rápido possível à tal realidade local. Levei um tempo para entender que meu esquema furava aqui. Por mudar tanto, me trouxe a sensação de que era uma rotina que nunca foi, porque mudanças são sempre diferentes. No que diz respeito à parte prática, a experiência ajuda muito, mas esse, apesar de trabalhoso, é o lado mais fácil de uma mudança.

 

É na maneira da gente viver que o bicho pega. Onde a gente deve fazer o corte entre se adaptar e não perder nossa essência? Para mim, o mais complicado desse dilema é exatamente conhecer essa essência, porque aprendi que, diferente do que costumam pregar, ela muda. Na melhor das hipóteses, muda na mesma direção, o que facilita um pouco. Às vezes, ela também se disfarça, porque torna menos sofrido nos aceitar.

 

Mas porque entrei nesse devaneio todo? A questão é, como disse, evitei no princípio conhecer brasileiros. Achei que estava fazendo a coisa certa, que assim me adaptaria mais rápido, mas estava era me tornando uma belíssima preconceituosa, e o pior, sem notar.

 

Lia queixas de brasileiros que reclamavam que muitos aqui não queriam se misturar com outros brasileiros, tinham vergonha do seu país ou coisas do gênero. Além do mais, há os oportunistas que querem te convencer que por ter a mesma nacionalidade e por você estar melhor, você deve alguma coisa a eles. Como nenhum desses era o meu caso, não me identificava, e portanto não me sentia preconceituosa.

 

Realmente, não era o meu caso mesmo, mas isso não mudava a questão do preconceito, só confundia, pois ele existia no sentido que fechava algumas portas e talvez tenha perdido a oportunidade de conhecer gente boa. Conheci brasileiros também, fui receptiva, mas nunca me esforcei para isso.

 

Não posso mudar o passado, nem pretendo me martirizar pela culpa, mas mudei a atitude, mais uma vez. Não inverti, porque cairía na mesma armadilha, simplesmente não me importa mais a nacionalidade, tanto faz. Já há algum tempo que quero andar com quem quer andar comigo e convido para casa quem acredito que queira vir. E quem não vem, azar! Como diriam meus conterrâneos, “perdeu mermão”.

 

A melhor parte é que ficaram amigos, e amigos, principalmente para quem vive fora de seu país, são como uma família. A gente ainda vê os defeitos e temos os nossos também, mas isso é muito pouco para quem tem a felicidade de contar com alguém e de ser alguém para contar.

 

Eu gosto de gente.

 

Diante desse contexto, surgiram novos orkontros de brasileiros aqui em Madri, e dessa vez quis me esforçar para ir. Não falamos com todas as letras, mas desconfio que Luiz ia no mesmo barco. Gostamos logo de cara, de um fomos a outro e por aí vai. Por alguma razão nossas diferenças aqui são menores e entendo melhor hoje quando Caetano canta “a língua é minha pátria”. Aconteceu uma energia bacana e me senti bem vinda. Isso ficou ressoando na minha cabeça e estou tentando entender porque me tocou tanto.

 

Não são meus primeiros amigos, não sei quantos ficarão, afinidades são um filtro natural. Mas sei que foi bom fazer a ola por um jogo de sinuca, ver um côco verde rolando no futebol em plena Castellana e dançar como se nos conhecêssemos há anos.

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