O impacto que temos na vida das pessoas

Nesse fim de semana, saímos Luiz, eu e uma amiga. Sentamos animados por uma garrafa de whisky, coisa que não tomo faz tempo. Mas nesse caso, ou encarávamos a garrafa ou não haveria mesa nem lugar para sentar. Logo, também não foi assim um grande sacrifício.

 

O fato é que o papo estava bom e, em determinado momento, já não lembro se Luiz ou ela tocaram no ponto que as pessoas não se dão conta do impacto que podem ter na vida dos outros. Concordei rapidamente, sem perceber que também estava vestindo a carapuça. Porque estávamos falando das outras pessoas, certo? Claro que não era eu que impactava na vida de ninguém, né?

 

Como assim? Luiz me mandou na lata alguns exemplos imediatos e me assustou a possibilidade de afetar a vida de alguém. Primeiro porque me parecia uma certa pretenção me atribuir esse poder, segundo, porque no exemplo que ele me deu, não era algo que precisasse me esforçar para fazer.

 

Daí entrei em uma viagem pessoal e comecei a lembrar de pequenos gestos que recebi, de amigos ou desconhecidos, e que em determinado momento acredito terem salvo a minha vida. Ou ao menos o meu dia.

 

E talvez esse seja o ponto principal que anda me intrigando, pois não são enormes e sacrificados favores que nos impactam normalmente, mas uma mão certa na hora que precisamos. Correndo o risco de ser piegas, às vezes, só um sorriso basta.

 

Um exemplo básico, andei com um pouco de má vontade com a cultura espanhola nos últimos tempos. Não importa se com ou sem razão, mas aconteceu. Na volta de Dubai, fomos comer no La Daniela, uma taberna que gostamos muito, mas já tinha um tempinho que não passávamos por lá. É um lugar tipicamente espanhol, onde por incrível que pareça, entendi muito do comportamento local. Uma das garçonetes, que se tornou nossa amiga, tem o maior jeito de invocada, apesar de não sê-lo. Pelo contrário, é super educada, é só o jeito mesmo. Enfim, na ida falei brincando com o Luiz que a gente ia levar uma bronca dela ou nos ignoraríam porque ficamos muito tempo sem aparecer. Era brincadeira, mas não percebi que realmente me preparei para ser ignorada. Pois quando chegamos e ela me viu, abriu um sorriso largo e atravessou o salão para vir me cumprimentar. Foi uma coisa tão simples e tão poderosa. Ela não sabe, mas com um sorriso mudou minha atitude. E ao mudar minha atitude, notei que conheci ou me reaproximei de amigos espanhóis.

 

Finalmente, resolvi uma questão que me incomodava há anos, mas não sabia exatamente o porquê. Tive uma amiga muito próxima que se suicidou. Na época do ocorrido, andávamos meio afastadas. Nenhum problema, a gente se falava por telefone, mas ambas estávamos de namorado novo e é um momento que você acaba buscando mais privacidade. Enfim, em determinada semana comecei a pensar nela e precisava ligar. Não era nenhum pressentimento, só vontade de falar, gostava dela, estava com saudades. Eu demorei e ela se matou antes. Eu nunca me culpei por isso e continuo sem me culpar, mas uma coisa me angustiava e agora entendi. Não sei se tivéssemos conversado isso teria feito alguma diferença. Mas se eu tivesse ligado, eu saberia. Como não o fiz, nunca vou saber.

 

Outro exemplo? Esse mais divertido. Uma vez conduzindo no Rio, não devia ter muito mais que uns 20 anos e era estressadíssima, como todo carioca dirigindo. A buzina faz parte do regulamento. Enfim, o sinal abriu e o carro da frente deve ter demorado uns 15 segundos para arrancar e, lógico, dei aquela buzinada clássica! O passageiro que estava sentado atrás, um homem de uns 40 anos, virou para mim com uma cara de p$%^& e acho que estava a ponto de me sinalizar obscenamente. Não sei que santo me baixou, mas de repente achei a situação engraçada e até me arrependi de ter me invocado tanto com uma porcaria de um sinal. Olhei para o cidadão emputecido, sorri sincera e mandei um beijo. Ele ficou absolutamente desconcertado. Veja bem, estou falando de um homem carioca com seus anos de praia… Ele me devolveu o beijo meio de lado, rindo sem jeito e virou rápido para frente, claramente sem saber bem o que fazer. Ao invés da gente se xingar ou se aborrecer, eu fui morrendo de rir o resto do caminho para casa e ele provavelmente também. Pronto! Para que se matar por uma bosta de um sinal? Tenho certeza que o que mudou esse fim foi um sorriso.

 

Essa consciência, foi um chamado à responsabilidade. Não posso sair por aí com a intenção de ajudar o mundo, nem calcular cada gesto ou palavra, mas também não posso ignorar que as coisas que faço tem consequência e não é apenas na minha vida.

 

Isso sem falar dos amigos. Se já eram importantes antes, ganharam uma proporção mais intensa, porque quando você mora fora, eles se tornam parte da sua família. Na verdade, até meu gato hoje é parte da família! Se eles impactam tão fortemente na minha vida, por que não impactaria na deles?

 

Alguns pequenos gestos deveriam ser regras universais. Quando alguém fala conosco, independente da idade, devemos prestar atenção; se marcamos um encontro, devemos aparecer ou avisar a tempo; se conhecemos alguém, devemos manter contato ou nos despedir com educação; se podemos fazer um favor, devemos fazê-lo porque sim; se temos a chance de unir pessoas, não devemos disperdiçá-la; ou talvez a gente pudesse pelo menos sorrir um pouco mais.

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