E a vida segue…

Ficaram coisas para contar e admito que nos últimos tempos não tenho dado a devida prioridade ao blog. Às vezes, a gente tem que optar em como ocupar o dia com o que é urgente. Acho que o verão traz também um pouco de preguiça boa e tudo que fazemos parece mais devagar. Sou naturalmente muito acelerada e um freiozinho de mão natural pode me vir bem.

Começo pela nossa apresentação com o coral, que foi no dia 8 de julho. Acredito que tenha sido a mais elaborada e cuidada nos detalhes que fizemos, pelo menos, dentro dos nossos recursos. O repertório foi só de sambas, na verdade, um recorrido histórico iniciado pelo primeiro samba reconhecido, Pelo Telefone do Donga, passando por Chiquinha Gonzaga, Cantoras do Rádio, Pixinguinha, Braguinha, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola, entre outros. Demos um toque teatral e nosso cenário foi um bar no estilo gafieira, onde as canções surgiam naturalmente, como de um bate papo nas mesas. Ficou bonito!

 

Investimos dois meses nesse show e, se por um lado o trabalho desgasta um pouco, por outro traz muita realização na hora que a gente respira fundo e pensa: funcionou! Saí com vontade de mais e nos reunimos cerca de uma semana depois para pensar na possibilidade de levá-lo para algum teatro ou outro espaço.

Para mim foi um pouco difícil, porque a cabeça já tinha mudado de sintonia para a próxima prioridade, que é a exposição no Brasil. Mas achava importante que a gente conversasse enquanto as idéias estavam frescas.

Foi uma boa conversa, onde identificamos uma série de pontos que poderiam ser melhorados. Ao mesmo tempo, começou a me cair a ficha da trabalheira que isso significava e do tempo a ser investido. No final, na hora de estabelecermos uma agenda, a coisa começou a se desencontrar.

Tomei um banho de realidade e cheguei a conclusão que tenho uma série de outros projetos para iniciar. Nesse momento, preciso que a cigarra dê um tempo porque às vezes a formiga também precisa se concentrar para trabalhar em paz. Vou pensar se tenho alguma alternativa quando chegar setembro, mas no momento, não vejo como seguir cantando, ao menos não no grupo. Tenho uma sensação de perda, mas não quero pensar nisso agora.

Enquanto isso, na sala de justiça… a fábrica caseira não parou! Acho que os artistas são bem parecidos nesse sentido, é muito difícil a gente dar um fim a qualquer trabalho ou montagem de exposição. A gente quer usar até o último minuto e nunca acha que é suficiente, portanto, o trabalho não acaba, o que acaba é o tempo. E ontem à noite, meu tempo acabou! Finalizei a 50a peça e gosto de números redondos. Que assim seja! E que a merda me acompanhe!

 

Agora que está perto da viagem ao Brasil, será na semana que vem, o frio na espinha bateu com tudo e por muitos motivos diferentes. Estou uma histérica, oscilando entre a euforia e a irritação, tudo é muito!

Sim, meu pai segue com uma ou outra complicação, mas também aprendendo a administrar com minha mãe seu leão de cada dia, e o principal, tentando melhorar sua qualidade de vida. Continuo no eterno dilema se não deveria estar contribuindo mais nesse apoio, estar mais presente, mas faço o exercício de não me culpar, porque culpas não ajudam ninguém. E o fato de não ir ao Brasil às pressas, correndo do aeroporto para um hospital não tem preço! Ainda que fosse só por isso, eu agradeceria. Mas é por muito mais.

Comecei a agitar os encontros com os amigos brazucas e o carinho que a gente recebe me traz uma mistura de felicidade extrema e nostalgia. Temos amigos desviando sua rota, saindo de suas cidades, mudando sua programação ou simplesmente achando uma brecha na própria agenda complicada. E isso é muita coisa, me emociona.

Parei para pensar em quantas pessoas me despedi na vida e quando a cifra chegou aos três dígitos, não sabia se agradecia o privilégio de conhecer tanta gente boa ou sofria por antecipação da falta das próximas a conhecer (e das mesmas conhecidas). Já me peguei de má vontade em me relacionar com novos amigos com data para ir embora. E também sei que de novo chegará minha vez.

Tudo bem, sei lidar com essa questão, já aprendi e viva a internet que ajuda e muito a encurtar as distâncias. Mas isso não quer dizer que não sinta saudades, que não tenha amigos específicos que quero contar assuntos específicos e pessoalmente, tomando um vinho, um whisky ou uma cachacinha. A proximidade dessa possibilidade faz minha cabeça girar a mil por hora e nem dormir direito consigo mais!

Para culminar a explosão de sentimentos, tem a exposição. O que posso dizer? Minha última no Brasil desmontei com a mudança para Atlanta empacotada, quase um ritual de passagem. Os últimos sete anos fora do país e o impacto que isso teve no meu trabalho, já vim contando ao longo do tempo e nem sei se importa mais. A sensação de voltar e com uma individual agendada em São Paulo, caraca, nem sei como descrever. Mas é forte pacas! E olha o ciclo dos 7 anos outra vez!

Estou pronta para o próximo ciclo.

Entendendo a sensação de pertencer a pátrias

Continuo sem tempo para escrever, ainda que as coisas não parem de acontecer. Hoje resolvi tirar algum momento de qualquer jeito. Vou desobedecer a cronologia e pular alguns acontecimentos que voltarei depois, porque quero falar de uma sensação diferente que aprendi ontem e estou ainda entendendo.

Primeiro, vou deixar muito claro, adoro futebol! Nem sei explicar de onde vem isso, pois não acompanho campeonatos e mal assisto as partidas pela TV. Mas lembro dessa paixão a cada Copa do Mundo e também me lembro porque não assisto jogos normalmente: não levo na esportiva, eu me importo!

Sou flamenguista e só sei torcer pelo flamengo. Quando morava em São Paulo, muita gente perguntava: mas em Sampa, que time você é? Como assim? Sou flamengo no Brasil inteiro! Aqui, até tentei torcer pelo Real Madrid, afinal a distância de um oceano deveria me liberar para outro time não? Pois não. Continuei flamengo. Às vezes, respondia que era Real Madrid, por simpatia, para continuar a conversa, mas nunca me empolguei com os resultados, nem me aborreci com as derrotas. Na verdade, acho que só assisti a uma partida inteira, porque era ao vivo no Santiago Bernabeu e me decepcionou bastante a frieza do público. Que saudade me deu do Maracanã e da emoção de ser parte da torcida mais importante dentro dele.

Quando chega a Copa, abro a exceção naturalmente para algo maior e sou Brasil. Não tem jeito de não me envolver, de não levar para o lado pessoal, porque me emociona, me irrita, me deixa eufórica. Não tem parcimônia, é tudo muito!

De maneira que assistir a uma Copa fora do meu país de origem, e já não é a primeira vez, é algo meio estranho. Porque no início tem um lado que me divide, não por ter dúvidas para quem torcer, é Brasil e acabou, mas por uma segunda preferência. Se moro aqui, e já passa de cinco anos, não deveria também ter algum carinho pelo país local?

Pois no início, achei que não. Era algo meio artificial. Dizia que minha segunda opção era Espanha, mas o som da minha voz era quase para me convencer, porque na hora do jogo me irritava profundamente. Tudo bem que os comentaristas são uns imbecis e a imprensa completamente parcial, o que não ajuda em nada, mas não era só isso.

No jogo de Brasil e Holanda, fiquei muito triste no final. Tirando o Felipe Melo, que espero que daqui para a frente só seja convocado para jogar em algum time de várzea no meio do inferno e do Dunga pela teimosia de, conhecendo sua natureza, não tirá-lo antes; o restante dos jogadores acho que deram o que puderam e jogaram concentrados, sem displicência. E aí, paciência, acontece.

De certa forma, uma vez que Brasil não estava mais no páreo, toda a paixão se converteu em indiferença. Tanto fazia o que acontecesse dali para frente e já nem queria mais assistir jogo nenhum. Os amigos brazucas brincavam que o objetivo então seria torcer contra Argentina. Mas a verdade é que quando Argentina saiu tomando uma lavada, achei bom pelas piadas de sempre, mas honestamente, não me importou grandes coisas, além da justiça de que Maradona não fosse herói de coisa nenhuma.

Foi quando Alemanha jogou contra Espanha que senti algo diferente acontecer. Alguma coisa na minha cabeça mudou. Deu um clic! Comecei a ouvir as declarações dos jogadores espanhóis como mais maduras e corretas. De certa forma, parecia que o país estava entendendo que em uma Copa do Mundo o buraco é mais embaixo e que não existe essa história do já ganhou.

Vi também como começou a melhorar a autoestima das pessoas, que andava bem baixa em função de uma crise econômica complicada e da falta de experiência em lidar com ela. E me alegrou ver os espanhóis mais felizes e os negócios reagindo em função da boa onda. Pensei sinceramente que essa Copa deveria ser “deles”. Era justo e merecido.

Pela primeira vez na vida, virei a casaca mesmo e passei a torcer descaradamente pela Espanha. E me fez bem entender que isso significa que não guardei mágoa. Tenho meus problemas aqui, todo mundo sabe, mas acho que consegui separar bem as coisas. Como tenho problemas no Brasil e também critico meu país de origem.

A final contra Holanda ontem foi definitiva, a prova de fogo do meu sentimento. Posso disfarçar o que digo para os amigos espanhóis, mas não posso mentir para mim mesma e sei o que sinto e o que não sinto de verdade. E eu sei que ontem torci para Espanha com a mesma emoção e intensidade com que torço para o Brasil. Fiquei nervosa, fiquei puta com os holandeses, senti o coração pulsar mais forte e até queimei uma lâmpada! Não sei se já contei aqui, mas quando estou agitada, queimo lâmpadas! Acho que é a energia que sai do corpo sem muito controle, sei lá, mas isso não se falsifica.

Quando o jogo acabou, quis ir para rua e ver a festa, participar dela, ser parte da comemoração e compartilhar o orgulho. Fiquei feliz.

Chegamos em casa e sabia que alguma coisa era diferente, mais leve, queria entender melhor e agora entendo. Finalmente, começo a conhecer o que é ter mais de uma nacionalidade, oficial ou não, falo da sensação de pátria. Tem coisas que a gente sabe na teoria, mas às vezes falta sentir na pele. Ter mais de uma pátria não necessariamente significa eleger entre elas. Porque nós não temos pátria nenhuma, nós somos parte de alguma ou algumas.

E para quem se debateu tanto tentando questionar e entender a própria identidade, foi libertador saber que faço parte da raça em que cabem pátrias no coração. Adoro quando consigo ser no plural.

Casa do Brasil em Madrid

 

Plaza de España, logo após a vitória

 

Plaza de España

 

Callao

Dumbaiê Canta Samba, dia 8 de julho na Casa do Brasil

Aos que vivem pelos Madriles, convido a assistirem uma apresentação sobre Samba, feita pelo coral que participamos. Será no dia 08 de julho, nessa quinta-feira, às 20hs, na Casa do Brasil.

Um show despretencioso e divertido, onde os espanhóis e estrangeiros podem conhecer melhor a história do Samba e os brasileiros podem matar um pouco a saudade.

Estarei por lá cantando e tocando tamborim. Luiz também faz parte do grupo e até canta um solo.

E aos que não puderem comparecer, depois conto como foi! 😉

Às vezes, os comportados são subversivos

Fiquei boa! Minhas tonturas duraram mais ou menos uns 15 dias, na primeira semana bem ruim e na segunda melhorando um pouco diariamente. Nessa segunda-feira, exatamente quando Brasil jogou contra o Chile, acordei zerada e cheia de energia. Estava com saudade da minha lucidez.

Já havia começado a trabalhar, mesmo estando aérea. E como a necessidade é a mãe da invenção, por não conseguir fazer os desenhos que havia planejado, por serem muito delicados e precisos, mudei de técnica e resolvi improvisar com encáustica. Sabe de uma coisa, gostei do resultado e dei um gás nos últimos dias que me garantiram um número razoável de peças prontas. Continuo com coisas para fazer, só que com uma relativa tranquilidade por voltar a estar no prazo.

Na sexta-feira, fomos assistir Brasil x Portugal na casa de um casal de amigos. Aquela partida tão emocionante quanto um joguinho de golf, mas tudo bem.

O fim de semana foi tranquilo. No sábado, fiz uma ressonância magnética só para garantir que está tudo normal. O resultado sai na próxima sexta. De lá, fomos almoçar com um casal de amigos, ela brasileira que mora em Londres e está trabalhando em um projeto em Madri, ele italiano de Turin que veio encontrar com ela. Vinha também uma amiga mexicana, mas não conseguiu acordar a tempo. O mundo continua muito internacional!

O resto do sábado e domingo, ficamos em casa e achei muito bom. Aproveitei para trabalhar e ficar sossegada. Estou tentando me comportar como uma mocinha para não ter maiores problemas, não é hora de arriscar.

Na segunda, acordei ótima e bem descansada. Assim que fui assistir Brasil x Chile com Luiz e amigos na Casa do Brasil. Bem legal, montaram uma boa estrutura nessa Copa. Fizeram na área externa, montaram alguns telões, barraca de churrasco, salgadinhos, bebidas. E lotou! Divertido e sem confusões. Só aquela vuvuzela chatérrima, mas paciência, acho que isso teremos que engolir. Depois, como disse ao Luiz que se arvorava em reclamar bem alto das cornetas, quer assistir sem ser incomodado, fica em casa, né? Deixa o pessoal se divertir e estravazar um pouco!

Enfim, adorei ver o jogo ao ar livre e com amigos, que conseguiram uma mesa bem de frente para o telão, praticamente área VIP. Verdade que o resultado de 3 x 0 ajudou bastante!

E agora uma curiosidade, no dia desse jogo prestei mais atenção na musiquinha da Copa, Waving Flag, que na realidade veio de um comercial da Coca-Cola, mas acabou ganhando proporções bem maiores. Enfim, pessoalmente, havia gostado bastante da música, mas tinha algo que me parecia incoerente e me intrigando, no bom sentido.

É que tenho mania de buscar as histórias por detrás das músicas, quadros, poemas… As histórias me interessam. E o tipo de emoção que essa música em especial me transmitia não parecia apenas espírito esportivo e muito menos comercial.

Daí hoje fui dar uma olhada no Youtube para ouvir melhor a letra, saber quem cantava, essas coisas. Achei um programa de rádio em que o K’naan apresenta uma “nova” versão dessa canção, que ele acabou de gravar. É uma música de protesto, que desconfio que de nova nada, chutaria que é a versão original. Na minha opinião, bem mais interessante. Se é que ele fez de propósito e conseguiu implacar depois, ganhou meu respeito. Viva a subversão!

When I get older, I will be stronger…

Para quem quiser comparar, a música no mundial é cantada assim:

Madri: onde comer melhor e o que?

Faz algum tempo, estou para elaborar uma lista de restaurantes que gosto em Madri. Mas são muitos e às vezes dá até preguiça. Resolvi fazer um pouco diferente e ao invés de pensar primeiro no nome do local, dei prioridade ao prato. Em outras palavras, escolhi alguns pratos que, na minha opinião, se destacam como o melhor da cidade. E a partir daí, onde encontrá-los.

Há desde restaurantes mais sofisticados ao vendedor ambulante da madrugada. Não me concentrei apenas em comida espanhola, até porque gostamos muito de variar. Tudo que indiquei abaixo, já provei, aprovei e recomendo como o melhor que já comi em Madri.

Então, vamos lá, o/a melhor…

–                      Porção de presa e secreto ibéricos (tipos de corte de carne de porco); creme de cogumelos com ovos trufados – El Fogón de Trifón, Calle Ayala 144, 91 402 3794. Tudo que se pede no Trifón é excelente! Não tem erro! A carta de vinhos também é nota 10! É um restaurante pequeno, com meia dúzia de mesas mais a barra (balcão da frente). É elegante, sem perder a informalidade e o atendimento é diferenciado.

–                      Rabo de toro (rabada); merluza rebozada (peixe à milanesa) – Sonia, Calle de Bocángel 35, 91 725 1457. Uma taberna sin mariconadas, restaurante de bairro tradicional e de comida excelente! Possuem um ótimo cardápio, mas sendo cliente e tendo os ingredientes na geladeira, eles fazem o que você quiser! E muito bem feito!

–                      Plancha de mariscos – El Rincón de Jaén, Calle Don Ramón de la Cruz 88, 91 401 6334. Apertadinho, meio esfumaçado e informal. O atendimento é ótimo, educado e simpático! A plancha de mariscos é um escândalo! Recomendo pedir que se adicione os “carabineros” (um tipo de camarão de cor vinho, enorme e muito saboroso).  

–                      Salpicón de frutos do mar; arroz caldoso de bogavante – El Barril, Calle Goya 86, 91 578 3998. O salpicão é delicado e no tempero usam a laranja, o que dá um toque especial. Bogavante é um tipo de lagosta e para meu gosto, o arroz de bogavante é muito mais gostoso que a paella.

–                      Carne – Rubaiyat, Calle Juan Ramón Jimenéz 37, 91 359 5696. Sim, é o restaurante brasileiro e sim, é a melhor carne de Madri. O atendimento também é perfeito!

–                      Jamón Ibérico de Bellota – En Busca del Tiempo, Calle de Barcelona 4, 91 521 9801. É um bar e restaurante no centro da cidade, a porção de jamón é especial. Muito bem cortada e servida com pan tumaca (torrada com molho de tomate fresco triturado).

–                      Tortilla española – Taberna de La Daniela, Calle General Pardiñas 21, 91 575 2329. Durante o almoço, são especializados em Cocido Madrileño e no jantar servem as tapas mais tradicionais. Sou tarada na tortilla de lá! É individual, feita no ponto perfeito, tostadinha por fora e molhadinha por dentro.

–                      Croquetas – Finos y Finas, Calle Don Ramón de la Cruz 49, 91 577 9379. As croquetas espanholas mais tradicionais são de jamón, mas é possível encontrar variações como frango ou bacalhau. Nesse local eles ousam outros sabores e fazem as croquetas menorezinhas e mais delicadas.

–                      Pintxos – Taberna Txakolí, Calle Cava Baja 26, 91 666 4877. Não é um restaurante, é só o balcão com uma infinidade de pintxos (torradas com algo por cima, como lombo com foie gras, salmão defumado com cream cheese etc). O meu favorito é o pintxo de vieira gratinada.

–                      Tajada de Bacalau – Casa Labra, Calle Tetuan 12. É um restaurante tradicional, fundado em 1860, muito próximo à Puerta del Sol. Nunca fui para as mesas do salón comedor, porque o balcão é o máximo! É um local para comer de pé e informalmente, fazer uma boquinha no passeio pelo centro da cidade. A “tajada” é um pedaço de bacalhau fresco empanado e frito no azeite, que só para se ter uma idéia, eu que nem ligo para bacalhau adorei! Para os que conhecem o Rio de Janeiro, faria uma comparação mais ou menos com o Bracarense, onde você passa depois da praia e toma uma cervejinha com bolinho de bacalhau, o conceito é parecido, na versão européia. 

–                      Sashimi – Mono Noke, Calle Hernán Cortés 19, 91 522 9806.  Um restaurante pequeno, que se atreveu a ser não fumador. A qualidade do peixe é diferenciada, fresco e bem cortado.

–                      Brunch – La Tapería, Calle San Bernardo 88, 91 593 0422. Melhor checar antes, porque não servem brunch durante todo o ano, mas foi o único local na cidade que encontrei um brunch de verdade, como dios manda! Para se acordar com preguiça no fim de semana e comer com calma.

–                      Tagliolini (pasta muito fina) com trufa de temporada – La Creazione, Calle Ventura de la Vega 9, 91 429 03 87. Um restaurante italiano normal, em zona razoavelmente turística. Mas essa pasta fininha, que lembra nosso “cabelo de anjo”, com trufas, é uma coisa de loucos!

–                      Bobó de camarão com caipirinha – Kabocla, Calle San Vicente Ferrer 55, 91 532 5966. Servido no almoço de sábado, uma delícia! Atendimento bastante simpático e informal, me sinto em casa.

–                      Ostras com champagne – Mercado de San Miguel, ao lado da Plaza Mayor. Na verdade, no mercado se encontram várias lojas e parece uma praça de alimentação, mas com um certo toque gourmet, bem no coração da cidade.

–                      Crepes – Crêperie Breizh, Calle de la Madera 36, 91 522 7982. Típica casa bretã, onde são servidas galettes (o que conhecemos por crepe, mas utilizando a farinha mais escura, originária do trigo sarraceno). O meu favorito é o “escandinavo”, com salmão defumado, nata e caviar, peço para a dona me adicionar um ovo com gema mal passada.

–                      PF (arroz, feijão, carne e mandioca frita) – Olokun, Calle Fuencarral 105, 91 445 6916. É um restaurante cubano, mas para os brazucas também funciona muito bem. Às vezes, dá aquele desejo de comer uma comida caseira, aquele feijãozinho preto com arroz…

–                      Pastel de carne – Mesob, Calle Manuela de Malasaña 17 91 445 8170. É um restaurante etíope, portanto, não é exatamente o nosso pastel, mas é muito parecido. O local é simples e o atendimento bem simpático.

–                      Mixto Quente – Lanchonete da Casa do Brasil, Av. Arcos de la Victoria s/n. Uma delícia! Crocantinho, no ponto perfeito. A gente sempre come antes do ensaio do coral.

–                      Hamburguer – Mr. Dog, Calle San Bernardo 28, 91 523 5295. Abriu há pouco tempo, mas já me deixou freguesa, inclusive, acho que o dono é brasileiro. Também vendem umas coxinhas e um cachorro quente muito bons, mas o hamburguer é imbatível!

–                      Cachorro Quente (com cebola crocante) – Happy Day, Calle Espíritu Santu 11. É um micro café com uma única mesa e precisa ter sorte para conseguí-la. O lugar é mais indicado para passar e levar. Charmosérrimo, com jeitão de interior dos EUA e com ótimas tortas, como a de maçã e a de chocolate.

–                      Salada Ceasar (com frango) – Home, Calle Espíritu Santu 12, 91 522 9728.  A decoração segue o padrão americano, como se você estivesse em um trailler. Oferece hamburgueres bem honestos, o que é a proposta principal da casa, mas o ponto alto mesmo é a salada.

–                      Salgadinhos (no estilo brasileiro) – Africano que fica na porta do Oba Oba (não é necessário entrar no local), início da Calle Jacometrezo. Do lado de fora, às três da manhã, chega um africano com os salgadinhos quentinhos e bem embrulhados individualmente. O mais cobiçado é o risólis de camarão, mas o espetinho de frango e o risólis de carne também mandam muito bem! Como ele provavelmente seja ilegal, um pouco de cuidado ao divulgá-lo ou procurá-lo. Mas vamos combinar que no meio da madrugada, onde já não há lugares abertos para se comer nada, bate um bolão!

Com o tempo, pretendo ir ampliando ou atualizando a lista. Há outros restaurantes que gostamos e frequentamos, mas dessa vez, o que escolhi como carro chefe foram os pratos. E só para que conste, não ganho um tostão com isso.

Bom apetite!

Competir é legal, mas o importante é ganhar

Passada uma semana, continuo no esquema eles é que bebem e eu que fico tonta, mas vou melhorando. Na sexta-feira que vem, volto ao médico e vamos ver o que ele fala, imagino que vá me pedir alguns exames. Começou a dar para fazer algumas coisinhas e ter algo de independência, mas ainda é bem incômodo. Um saco!

Mas vamos lá, enquanto isso, na sala de justiça…

Na quinta-feira, não consegui ir ao ensaio do coral. Até teria condições de participar, mas Luiz não conseguiu chegar cedo do trabalho e sozinha não me atrevi a ir. Mas na sexta nós fomos. Aliás, a primeira vez que saí de casa, desde que essa porcaria começou.

Foi tudo relativamente normal, só um pouco engraçado andar daquele jeito esquisitona pela rua e não poder virar a cabeça, mas tudo bem. Bom para quebrar o tédio e forçar um pouquinho a voltar à rotina. Depois, faltam só duas semanas para nossa apresentação e ainda estamos limpando algumas coisinhas para sair legal. Pre-ci-so ficar boa já!

No sábado, fizemos algumas comprinhas e almoçamos na rua. Outra vez, meio mais ou menos, mas queria aproveitar o fim de semana que Luiz podia sair comigo. Na verdade, o que mais me preocupa em sair sozinha é que são três lances de escada. Subir não é tão ruim, mas descer é complicado. Depois, acho que qualquer um que olhar para minha cara na rua vai sacar que não estou muito bem e fico insegura. Mas acho que isso vai passar naturalmente e espero que ainda essa semana.

No domingo, combinamos de assistir o jogo do Brasil na casa de amigos. Marcamos às 15:00hs para o aquecimento da torcida com um churrasco. O que não tinha me tocado é que a partida só começaria às 20:30hs (no horário de Madri), achei que fosse mais cedo. Assim, que fomos, comi um churrasquinho ótimo e bebi água, é lógico! Mas também, nem estava no pique de beber nada, fico sem um pingo de vontade. O que acontece é que pelas 18:00hs já estava um pouco cansada de acompanhar a conversa e os ruídos. Achei que até ali estava ótimo, então melhor não abusar e resolvi voltar para casa antes do jogo começar. Também tem outra coisa, acho meio chato você estar em um lugar com todo mundo animado, afim de beber, curtir e você lá, com aquela cara de nádegas, né? Acho que corta um pouco a onda do pessoal. Ninguém merece!

Assistimos o jogo, Luiz e eu, aqui em casa mesmo, relaxada com meu pijamão no sofá! Bom, relaxada é maneira de dizer, porque sempre me prometo que não vou ligar para a Copa, que  não dou bola para futebol etc… Mas na hora que toca o hino do Brasil eu esqueço isso, fico logo nervosa e começo a torcer levando a sério.

Vou contar uma coisa, assistir qualquer jogo com locução espanhola é um horror! Na boa, é muito, mas muito ruim mesmo! São exageradamente tendenciosos e não tem noção do que dizem! Acho legal ser nacionalista e normal dar uma certa protegida no seu país de origem, é emocional, até aí, tudo bem. Mas não dá para um dito profissional da área narrar um jogo diferente do que você está vendo! É falta de conhecimento técnico! O que importa é bola na rede! E até que ficava divertido vendo as bobagens que os locutores falavam e o Brasil indo lá e metendo outro gol!

No final do jogo, meus pais ligaram. Estava com vontade de fazer o mesmo! Saudade de assistir uma Copa no Rio. Mesmo em São Paulo, era bom, mas não era a mesma coisa.

Hoje tem jogo da Espanha e já não sei mais se torço contra ou a favor. No início, sempre sou simpática à seleção espanhola, mas depois sua atitude vai me irritando. Neguinho acha que porque tem uma boa seleção vai chegar dando sempre de goleada em todo mundo, mas isso é uma Copa, ninguém é besta. E mesmo as seleções menos fortes, chegam lá e dão tudo! Tem que respeitar. O melhor é quem ganha, o resto se justifica.

Mas enfim, ainda é muito cedo para conclusões e uma coisa estou gostando dessa Copa, não se pode negar algumas surpresas, o que deixa tudo mais interessante.

E o bicho pegou para o meu lado

Vou logo avisando que não me responsabilizo por qualquer dislexia no texto abaixo, porque mal dá para escrever, que dirá revisar. Mas antes que eu enlouqueça de tédio, melhor ficar um pouco tontinha escrevendo.

O que aconteceu? Acabo de ter minha primeira crise de labirintite! Uma delícia! Parece ressaca de bebida ruim e o pior, dura dias sem dar trégua.

Mais ou menos por fevereiro, tive umas tonturas estranhas por um tempo, mas fiz de conta que nada estava acontecendo. Por um lado, pela minha falta de confiança nos médicos locais e por outro, porque não me impedia de fazer nada.

Desde que mudei para o apartamento novo, elas tinham acabado, o que faz mais ou menos uns três meses. Muito bem, na semana passada, um dia deitei e o mundo deu aquela girada básica, pensei, putz, será que voltou? Mas no dia anterior havia tomado um xarope para tosse e xaropes me deixam meio doidona, então, parei de tomá-lo e resolvi observar. A tontura passou, beleza, deve ter sido o xarope!

Na sexta-feira, fomos ao ensaio do coral que acabou se convertendo um churrasco com amigos. Abusei da cachacinha, mas nada que me comprometesse, também bebi bastante água, comi bem e acordei bem. Um pouco cansada, mas sem ressaca. Fiz almoço e tudo!

Tinha um show para ir no sábado à noite, quando comecei a ter um pouco de tontura. Caramba, será que era ressaca interrompida? Não fazia muito sentido, mas segui sem dar grandes importâncias. Só não tive ânimo de ir ao tal show e achei que uma noite bem dormida resolveria.

Não resolveu. Primeiro, porque não foi bem dormida, o quarto girou a noite toda e acordei pior. Não tinha posição que resolvesse. O máximo que conseguia fazer era ir ao banheiro e mesmo assim, na volta dava uma vomitada básica, glamour total!

Luiz queria me levar a um hospital. Mas não vou nem a pau! Primeiro, porque não tenho condições de me locomover, vou sofrer horrores para sair de casa e chegar em uma emergência qualquer em pleno domingo, onde provavelmente um ortopedista de plantão e com má vontade vai me mandar voltar para casa, tomar muita água e iboprofeno! Tô fora! Só vou a médico indicado por alguém de confiança, caso contrário, não vou perder meu tempo.

Passei o domingo na minha máquina de lavar particular, sem conseguir nem comer direito, porque é mais ou menos como escolher a hora da tempestade no barco para fazer uma boquinha.

Na segunda-feira, acordei melhor, o que quer dizer que o quarto mexia menos e em algumas posições com a cabeça, não ficava totalmente mareada. Pode acreditar, isso era um progresso e tanto!

Mas era óbvio que não estava bem e isso não era normal, tinha que dar meu braço a torcer, precisava ir a um médico. Caraca, tô ferrada! Onde é que vou arrumar um otorrino bom aqui?

Luiz ligou, consegui um otorrino com indicação, é amigo de infância de uma pessoa aqui do meu trabalho e ele me garantiu que o cidadão é fera. Bom, assim já é outra coisa. Então tá, como a gente marca? Já marquei para hoje pela hora do almoço. Mas como assim hoje, não consigo levantar da cama!

Resolvi tentar. Levantei para me arrumar e vomitei como uma louca! Depois imaginei que teria que descer três andares de escada, andar de carro, esperar no médico… e comecei a ficar mais nervosa e, consequentemente, mais tonta! Liguei para o Luiz, esquece, sem condições! Eu vou no médico, me comprometo, mas não consigo chegar na porta de casa! Ele desmarcou.

Um pouco mais tarde, lembrei que enjoava em avião quando era criança e tomava Dramine, que tinha outro no me na época, para viagens internacionais. Liguei para Luiz e pedi para ele trazer para mim quando viesse do trabalho, porque se ao menos conseguisse não enjoar tanto, dava para levantar da cama e ir ao médico.

E assim foi, depois de uns quantos Dramines, consegui levantar, comer um pouco e até dar uma olhadinha na internet. Aproveitei para tomar um banho, porque nem isso dava antes. Beleza, não estou bem, mas pelo menos consigo me locomover mais ou menos.

Na terça-feira, final da tarde, Luiz conseguiu uma brecha na agenda do otorrino para me atender e veio me buscar. Lá fui eu, como um robôzinho dopado, só dava para caminhar com a cabeça bem reta, o mínimo de movimento possível.

Primeiro desafio, trocar de roupa sem mexer a cabeça. Caramba, como é que vou chegar nessa consulta? Tratei de colocar dois saquinhos de compras na bolsa, vai que enjôo no caminho? Cada vez a coisa ficava mais glamourosa, né?

Luiz ligou, você desce ou estaciono e vou te buscar? Amor, são três andares de escada irregular, sem chance! Ele subiu para me buscar e desceu as escadas na minha frente. Eu tinha a expectativa de ir caminhando com ele até o estacionamento, mas perdi essa coragem quando cheguei na portaria. Espero aqui sentada.

O movimento do carro era uma coisa deliciosa! Verdade que tinha tanto Dramine no organismo que nem se fizesse muita força, enjoava. Não passei mal, na verdade, nem vou fazer suspense, fui e voltei mais ou menos sã e salva para casa.

Ainda no caminho para o hospital, estava meio apreensiva e se não fosse labirintite? O que poderia ser? Todo mundo na minha família tem seu tumorzinho particular, só faltava descobrir o meu! Putz! E se o médico não for bom? Minhas experiências aqui nesse sentido são tão horrorosas… bom, uma coisa de cada vez, vamos com calma. E a essa altura, realmente já estava até torcendo para ter labirintite!

Chegando na rua do nosso destino, tem um cemitério imenso, logo depois uma casa funerária, e em seguida o hospital! Super sugestivo, né? Funerária adora abrir perto de hospital, são negócios complementares! Que mal gosto, credo! Relaxa, Bianca, um pouco de bom humor, vai!

Nem demorou muito para eu ter essa oportunidade. Chegamos na clínica, Luiz me deixou na porta e foi estacionar. Salto eu, andando daquele jeito esquisito, com a cabeça reta e meio esverdeada e vou para recepção ver o que tenho que fazer para ser atendida. Afinal, não tinha consulta marcada, o médico ia me encaixar. Como é que falo isso mesmo em espanhol?

Expliquei meio grogue para a atendente, que me perguntou, a senhora tem companhia? E eu respondo, tenho, está estacionando… Não senhora, companhia de seguro para a consulta! Ah, tenho também!

Sentei com vontade de rir, pensando que devia estar parecendo uma bêbada! Logo chegou Luiz e nem demorou muito para o médico me atender.

Olha, vou dar meu braço a torcer, porque justiça seja feita, sempre reclamo pacas dos serviços de saúde, mas o otorrino era ótimo! Além de me passar confiança, foi bastante atencioso e inclusive simpático! Um alívio!

Fez uns exercícios virando minha cabeça, me receitou um remédio para os enjôos e tonturas, recomendou que dormisse as primeiras 72 horas com travesseiro bem alto, me deu um exercício para fazer em casa e que procurasse mover a cabeça o mínimo possível (como seu eu pudesse movimentá-la!). Daqui a uns 10 dias, volto lá para ver como tudo vai correndo. Aqui o que tenho não chama labirintite, não existe esse nome, é não-sei-o-que postural cerebral benígno, mas a descrição se parece bastante à labirintite, então explico assim porque é mais fácil. O importante é que me concentrei no “benígno”. Há muito tempo penso que o que tem solução, tá bom!

Não sei se pelos movimentos que ele fez na minha cabeça, pelo fato de estar mais tranquila por ver um caminho ou pelo alívio que é confiar em um médico, saí de lá melhor. Consegui ir caminhando com Luiz até o carro, de braços dados e andando meio esquisitona, mas tudo bem. Queria forçar um pouquinho também para recuperar mais rápido.

Compramos o remédio indicado aqui perto de casa e subi os três andares melhor do que desci, olhar para cima é sempre mais fácil. Bom, subi com ajuda do Luiz ainda, mas acho que não fui tão mal.

Hoje levantei melhor, foi o dia que melhor dormi também. Porque ainda que só ficasse na cama, a gente não consegue dormir direito com o mundo rodando. Não dá para ver TV, não dá para fazer nada, é bem entediante. Hoje não, consegui levantar, tomar café, ler as mensagens e agora até escrever no blog. Tenho que dar umas paradinhas de vez em quando, mas sigo melhorando.

Estou um pouco preocupada, porque nos últimos dias não consegui trabalhar na exposição. Dá para escrever no computador, porque não preciso digitar olhando as teclas, mas desenhar é impossível. Tenho já bastante coisa pronta, mas não está tudo pronto e fico agoniada. Não dá para sair sozinha, me sinto insegura de descer as escadas e ir pela rua assim. A casa também está uma zona e isso me irrita! Tudo bem, acabei contratando uma amiga para me dar uma força na sexta-feira e não vou morrer se a casa não estiver uma semana organizada, paciência! Se isso passar até o fim da semana, tudo sob controle.

Bom, por hoje, consegui escrever, já é um grande passo, me deixa menos louca! Vamos ver como acordo amanhã e um dia de cada vez.

Sobre a generosidade

A pessoa mais generosa que conheci na vida foi minha avó por parte de mãe.

Veja bem, não venho aqui fazer nenhum discurso familiar, até porque outros familiares tem qualidades e defeitos que posso falar por horas, mas não interessa agora. O ponto que quero abordar é a generosidade, e o maior exemplo que tive nesse ítem foi minha Vó Noca. Da categoria de pessoas que dão a roupa do corpo, literalmente.

A gente achava que era até demais e, às vezes, as pessoas se aproveitavam disso. Ela nem queria saber, respondia o ditado que cresci ouvindo: nasci nua, estou vestida… estou no lucro. Eu não tenho a generosidade por natureza e o que consegui desenvolver, tenho quase certeza que foi graças a seu exemplo. Sorte a minha, porque o ditado que me corresponde é, de onde veio esse, sempre virá mais. Sempre veio. Mas há uma diferença conceitual entre meu desapego e a sua compreensão real de que a vida é finita e efêmera. Muitas vezes, consigo ter essa compreensão e esse já foi um longo caminho, mas minha ambição é que um dia seja algo natural.

Minha mãe não é tão generosa com ela mesma, mas é muito com quem ama, o que me incluiu. Meu pai não abria mão do que tinha, mas sentia um prazer enorme em compartilhar e, nesse sentido, é com quem pareço mais. Na verdade, ele também sempre foi muito mais generoso que eu. Meu irmão não é propriamente generoso, mas comigo é bastante. Luiz tem por objetivo descarado me fazer feliz, eu realmente acredito nisso e acho lindo, me dá vontade de sê-lo.

Posso seguir essa lista, mas me concentrei nos mais próximos. Estar tão protegida assim, me deixa quase na obrigação de ser melhor. É um privilégio e também uma responsabilidade.

E eu persigo essa generosidade, me aproximo das pessoas generosas. Não pelo que elas podem dar, mas pelo que posso aprender. E toda lição de generosidade me emociona.

E por que estou falando nisso? Porque hoje estive cercada de gente generosa e cheguei em casa melhor, é contagiante.

Acabei de chegar de um concerto de música instrumental com um acento brazuca flamenco. Cada vez gosto mais de música instrumental, é uma obra de arte abstrata que estou por um triz de entender os detalhes e os segredos das histórias que estão por detrás e alguém, cheio de generosidade, digeriu em sons.

Altas!

Quando era criança e brincava de pique-pega (que pelo menos naquela época levava hífen), no momento que a gente cansava ou queria falar alguma coisa, pedia algo que soava como, “altas”! Bom, eu falava que estava de altas, mas acredito que houvesse outras possibilidades de palavras que funcionavam como uma licença rápida da brincadeira.

Enfim, depois das últimas intensas semanas, admito que pedi altas! Não é que não quisesse fazer absolutamente nada, mas precisava de um tempinho mais relaxado. Sei que vou dizer algo bastante politicamente incorreto e de encontro ao famoso problema do aquecimento global, mas nesses dias, achei um programaço ficar tomando ar condicionado em casa com Luiz e nosso felino preguiçoso.

Bom, mas alguma coisa fizemos, até porque foi feriado prolongado e Luiz teve uma folguinha. Na quarta-feira, ele pediu o dia livre e fomos resolver alguns pepinos burocráticos. No fim da tarde fui para minha aula de percussão, onde aos poucos vou melhorando, ainda que com um longo caminho pela frente.

Na quinta-feira foi feriado e fizemos um ensaio do coral em casa. Na verdade, serviu mais para detalhar as tarefas para nossa apresentação de julho. Por outro lado, por que não fazer de uma maneira divertida? Tomei meu vinhozinho, fiz um quibe e um cuscuz de frango com legumes. Até que a reunião foi produtiva e conseguimos decidir um monte de coisas. Em breve, começo a fazer propaganda dessa apresentação, que será no dia 8 de julho, aqui em Madri, e cantaremos sambas. Não acabou tão tarde, porque alguns integrantes trabalhavam no dia seguinte.

Na sexta-feira, Luiz trabalhou, mas não até tão tarde. Pelas 15:00hs, chegou em casa com a idéia de que queria porque queria me levar a um outlet em Las Rozas, perto do trabalho dele. Veja bem, honestamente, não sou uma pessoa consumista e uma parte razoável dos meus luxos só diz respeito a gastronomia e bons vinhos, de resto, aproveito se tenho, mas se não tenho não me importa muito, sem traumas. Mesmo assim, vamos combinar, continuo sendo uma mulher e chamar uma mulher para fazer compras com essa vontade toda, exige coragem! Tenho minhas dúvidas se ele sabia onde estava se metendo e não sei se não se arrependeu de haver dito logo na primeira loja: experimenta, vê se fica bom! Digo isso, porque experimentei pacas e um monte de ropichas ficaram ótimas!

Faz tempo que não compro tanto, por um lado, porque como disse antes, não sou tão consumista. Por outro, porque quase sempre aqui me falta a amiga de compras, e as mulheres devem saber do que estou falando. Não digo que Luiz preencheu perfeitamente esse papel, até porque filosoficamente seria contra sua masculinidade, no final ele já não aguentava mais! Mas segurou a onda firme e forte e considerei uma prova de amor.

De maneira, que ao acordar no sábado, ele disse que queria comer o bobó de camarão do Kabocla e nem me atrevi a dar outras possibilidades mais leves. Não me arrependi, estava ótimo, mas comi mais do que deveria. Depois disso, já não fizemos mais nada. Um casal de amigos ligou e convidou para encontrá-los em uma terraza… outro amigo chamou para passar em um bar para o aniversário dele… mas dessa vez, o aconchego do lar estava muito melhor. Altas!

Domingo nem quis almoçar fora! Peixinho com salada fresca e estava muito bom! Passamos o dia enrolando, escolhendo os quadros das paredes e a casa ficou mais bonita. O jantar, havíamos combinado com uma amiga do Rio, que está por essas bandas até a próxima quinta. Ela é nutricionista e também apaixonada por gastronomia, já viu né? Comemos bem, tomamos duas garrafas de vinho tinto, falamos da vontade de abrir um negócio em sociedade nessa área e voltamos para casa na hora da Cinderela.

Hoje, plena segundona e acordei super bem disposta! Por mais que sinta calor, amo a luz do verão em Madri.

Altas fora! Volto para a brincadeira e essa semana, acho que o bicho vai pegar!

E o verão dá as caras

Às vezes, a gente brinca com os alemães, dizendo que eles ficam felizes quando o verão cai no sábado!

Pois esse ano foi quase assim com a primavera na Espanha. Acho que se juntarmos todos os dias de tempo agradável, deu no máximo umas duas semanas. Suficiente para deixar todo mundo alérgico e ir embora.

E em tão pouco tempo, já esqueci a sensação de frio.

O ar que chega agora é de verão e, felizmente, a luz também. Nem vou falar muito, porque a temperatura andou tão maluca, que nunca se sabe, mas acho que daqui para frente já poderemos guardar os casacos.

Maio acabou com uma notícia e tanto! Luiz superou suas metas no trabalho, o que em um ano de bosta, pelo menos por aqui, não é para qualquer mortal. Difícil dizer se chegou em casa mais cansado ou mais feliz, mas fiquei bastante orgulhosa. Sempre acho bonito esforços sendo compensados, no que quer que seja, traz um senso de justiça que é complicado da gente não se esquecer de vez em quando.

Vou tentando reorganizar a casa e a cabeça junto. Acho que mulheres constantemente tratam a casa e o corpo de maneira tão parecida que às vezes é até confuso. Já fui assim com os carros que tive também, e talvez essa relação seja mais fácil para os homens compreenderem, a proximidade era tanta que o volante parecia atado aos braços. Muito maluco ter a consciência de que quando não temos essas coisas, parece que temos mais ainda. Perdendo a relação com um carro, cuidei melhor dos meus pés, descobri que posso usar as pernas para atravessar países; não tendo casa, o planeta passou a sê-lo, qualquer lugar é lugar.

Não prego a pobreza, nem a abstinência, gosto muito do que é bom e de conforto. Só digo que é importante a gente saber do que gosta e do que precisa, é o que dá a confiança em assumir riscos. O que cada um será capaz no limite é sempre uma surpresa, mas é bom ter uma idéia das suas possibilidades. A crença que tenho o signo de Fênix, sempre me fez acreditar que poderia ressurgir das cinzas e tenho quase certeza que foi essa crença, menos que a própria capacidade em si, o que me deu o poder de recomeçar.

Continuo trabalhando na exposição de agosto e o tempo parece ter acelerado. Começou a me dar aquele friozinho na espinha. Vai para uns sete anos que não faço uma individual e até o número é cabalístico, o tempo dos meus ciclos. O instinto já começou a juntar peças, fragmentos de memória, acontecimentos. Em breve, minhas somatórias tão pessoais e um pouco absurdas darão algum resultado de quebra-cabeças.

Que o verão seja bem vindo e que traga o próximo ciclo.

Toca Afonso!

Olha só, eu tô velha, dane-se! Sei que tenho uma reputação festeira imparável a zelar, mas já não dou conta! Sério, mais um dia de festa e vou acabar a noite em um hospital!

Como venho contando, um casal de amigos vai embora de Madri, e desde a sexta-feira passada, começamos com uma sequência interminável de festas de despedida.

Pois então, na quarta e na quinta-feira, ainda segurei um pouco minha onda, sabendo que a agenda estava atribulada. Mas na sexta-feira, pensei, já estamos na reta final, portanto, ferrada, ferrada e meia, tudo bem!

Final da tarde, tivemos ensaio do coral e de lá já emendamos para o Pub onde seria o show do nosso amigo, o que vai embora. O lugar era bem legal, atendimento simpático, espaço para dançar, beleza. No dia seguinte, Luiz me contou que depois de determinada hora havia, digamos, mais serviços sendo prestados no local por mocinhas também simpáticas e coroas mais do que suspeitos. Honestamente, não notei, nem me preocupou. E nem adianta me perguntar quantas doses de whisky tomei, porque nem quis saber, foram várias.

Não vi o tempo passar e queria que tivesse demorado mais. É bom estar entre amigos, continuaremos amigos, mas os momentos não voltam e prefiro curtir os que tenho até a última gota. A vida é uma só e, infelizmente, o fígado também! Vou logo avisando que nem chorei, mas não tenho culpa da quantidade de fumo do local e os olhos às vezes lacrimejaram sozinhos.

Chegamos em casa quase de manhã e ainda tive a pachorra de fazer bife acebolado, na tentativa inútil de acordar melhor. Deveria ter feito isso no início da noite e amenizado as coisas para o lado do meu estômago. Não fiz e paguei o preço na manhã seguinte. A cabeça ia bem, obrigada, mas uma azia do cão! Botei o mundo para fora, inclusive o tal do bife. Paciência! Depois de uma semana seguida de festas, em algum momento haveria consequências.

Não, não me arrependi, mas foi um esforço herculano para ficar boa o mais rápido possível. Porque no sábado à noite era a despedida oficial, the ultimate! Me arrastei para fora da cama bem umas oito da noite e lá fomos, Luiz e eu, para o Kabocla.

Putz! Não estava passando nem um pouco bem, e acho que era porque também estava um pouco triste porque eles iam embora, sempre faz diferença em como seu corpo recebe o teor alcóolico, bom, comigo faz muita diferença.

Aviso que o mais próximo que tomei a whisky nessa noite foi guaraná com gelo! Pelo menos a cor parece, né? Enfim, o açucar foi fazendo seu papel, a atitude sempre ajuda e fui melhorando.

Levamos alguns instrumentos e já me posicionei na lateral da banda com meu tamborim. Isso, com algum custo, ainda aguentava e sei lá quando terei outra oportunidade. Não fui a única, um monte de gente se revezou em instrumentos que trocavam de mão de vez em quando. Para ser sincera, achei que toquei mal pacas nessa noite, mas a verdade é que estava todo mundo meio descompensado e sorumbático. Ou então, era eu que estava sorumbática e ouvindo meus próprios pensamentos.

Não quero passar a impressão errada, porque não foi triste, era só a consciência que mais um ciclo havia fechado. Ainda que o protagonismo da mudança se devesse ao casal, somos um grupo. El último camello de la fila camina a la misma velocidad que el primero. O que toca a um, toca a todos, só não sei quando será minha vez, mas sei que é feliz quem vai com saudade, quem fica também.

Pelas tantas, consegui ingerir uma única caipirinha, na tentativa de puxar o último fôlego, um sprint meia boca. Mas tudo bem, até que ainda deu para dar uma dançadinha de vez em quando.

Pela madrugada, quando acabou o show, eu que tinha passado mal o dia todo e consequentemente não aguentei comer, estava com uma fome alucinante! E aí, onde vamos? Uma amiga lembrou de um africano que vende salgadinhos à moda brasileira na frente de uma boite de prostitutas no centro da cidade. Isso dá samba, né? Mas sem problemas, os salgadinhos eram de muito melhor procedência que o interior da tal boite e lá fomos nós, em 6 amigos. Talvez isso no Brasil fosse perigoso, aqui não, a rua está sempre cheia e existe um considerável respeito entre as pessoas. Vou contar que me atraquei com um espetinho de frango e um risólis de carne moída divinos! Quentinhos! O mocinho ainda tinha refrigerante gelado, guardanapos, ketchup picante… serviço completo! Adorei a dica e fiquei freguesa! Qualquer dia voltaremos lá para provar o tal risólis de camarão, que segundo minhas amigas que conheciam o africano, é imperdível!

No domingo, acordei cansada, mas passando bem. Está pensando que acabou? Nada, ainda tinha a feijoada do Kabocla! Chegamos pelas duas da tarde e falei para o casal que vai embora: gente, não leva a mal não, mas não aguento mais me despedir de vocês! Almoçamos em quatro casais, todos com cara de zumbis! Disse para a outra imparável, por favor, vamos combinar de não fazer mais nada essa semana!

E assim, oficialmente estavam terminadas as despedidas.

Por costume, não falo o nome das pessoas normalmente, mas acho que, nesse caso, cabe bem. Artistas merecem divulgação e reconhecimento. Vai embora de Madri Afonso Rodrigues e a música brasileira do lado de cá do oceano perde bastante. Não é todo mundo que faz diferença no ambiente que convive, tenho a sorte e o privilégio de conhecer algumas pessoas assim, que deixam legados. Da minha parte, posso dizer que nos últimos anos, cantei bem mais alto do que de costume, dancei curtindo sozinha no meu planeta e acompanhada também, batuquei no canto ou me atrevi tocando mais forte quando já não tinha importância se estava no tom certo. Mas para isso tudo acontecer, alguém tinha que puxar e esse cidadão puxava, segundo Luiz, e o que concordo plenamente, ele faz o palco crescer, quem está em volta fica melhor. E ele é melhor ainda ao lado dela, amigona, mãe, profissional e tá bom, liga para a gente de madrugada e é meio mandona. Mas vamos combinar que o show é muito mais divertido quando a gente escuta aquela voz no fundo: toca Afonso!

Maratona das despedidas iniciada

Vou logo avisando que o fim de semana começou na quarta-feira. Como é que isso pode dar certo, né? Mas vai dar, o importante é a atitude.

Na terça-feira, liga um amigo, marcamos em uma terraza amanhã, vocês vão? Ah, não sei, não prometo nada, tem milhões de coisas para fazer, acho que não vai dar.

Falei com Luiz já avisando os motivos pelos quais não dava para a gente ir, afinal, a semana ainda estava no meio… estávamos ocupados… uma alergia do cão e o bar é em um parque, ou seja, nevava pólen… tenho que preservar a voz para quinta… minha garganta está um lixo… é longe de casa… estou com dor de cabeça… a gente vai se encontrar depois mesmo… blá, blá, blá… Na quarta, quando chegou do trabalho, ele me perguntou, e aí, nós vamos? Minha resposta foi a mais lógica e coerente possível: claro que sim.

Aspirina, ginseng, aerosol nasal para alergia e vamos nessa! E assim foi, quarta-feira e a gente no bar. Tudo bem, não exageramos, como contei antes, tenho tentado preservar um pouco de fôlego – e o fígado – para o final da maratona.

Quinta-feira, show de reagge no Siroco, mistura de aniversário e de despedida. Passei o dia me alternando entre desenhar e fazer trancinhas rasta. Em paralelo, a música que cantaríamos rolava no computador. Não vou negar que estava meio ansiosa, essas coisas são diferentes para mim, às vezes nem eu acredito que tenho coragem de subir em um palco e cantar. E dessa vez, com um microfone só para mim, que mêda! Uma das lavadeiras, que expliquei o porquê do nome no post anterior, avisou que estava afônica. Ah, nem vem que não tem! Entre cházinhos, água e sei lá mais o que, no final, também deu conta de ir.

Contando assim, parece até que éramos a atração principal da noite, coisa que está longe da verdade. Entretanto, como sempre conto minha versão da história, essa foi a parte que vivi. Não me importava se era uma, dez ou vinte músicas, o negócio era subir no palco, encarar o microfone e mandar ver da melhor maneira possível.

Chegamos bem cedo no local, Luiz conseguiu chegar a tempo do trabalho para ir antes comigo. E chegar cedo foi a melhor coisa, fazia isso em apresentações de negócio também. Sempre gostei de chegar antes, checar os equipamentos, ver os participantes entrando… você coloca as coisas em perspectiva, do tamanho que realmente são.

Encurtando o suspense, deu tudo certo. Quando o show começou, já estava mais relaxada, dançando e curtindo a noite. Gosto de dançar reagge e estava no clima. Além do mais, a casa estava cheia de amigos e conhecidos, o que sempre nos deixa mais à vontade. Quando chegou nossa vez, deu um pouquinho de nervoso para começar. Durante a música, de vez em quando dava um branco da letra, mas como éramos três, felizmente, os brancos se alternavam e, para quem não sabia, poderia até achar que era de propósito. Foi uma adrenalina gostosa e quando acabou deu até vontade de mais. Pensando bem, considero um privilégio poder dividir palco com músicos tão bons de verdade, em uma casa conhecida e respeitada. Um luxo!

A noite seguiu até pouco mais da hora da Cinderela voltar, mas foi bem aproveitada e parecia que era mais tarde. Não bebi muito, duas doses de single malt, bebida que infelizmente não encontro em todos os bares. Tudo bem que a segunda dose foi mais caprichada, eu amo as doses madrilenhas, são sempre muito bem servidas. Enfim, antes de vir para casa, passamos em uma lanchonete e comi um hamburguer para não ter risco de ressaca.

Acordei bem e daqui a pouco tem mais. Afinal é sexta-feira, não preciso mais cuidar tanto da garganta e da voz, amanhã Luiz não trabalha…

Lá vamos nós e outra vez, vê se isso pode dar certo?

Música, amigos, despedidas, encontros…

Os fins de semana tem sido intensos (só para variar um pouquinho). Temos um casal de amigos queridos voltando para o Brasil e daí agendamos umas 35 festas de despedida. Assim a gente distrai a saudade e nem tem tempo de ficar triste. Vai chegando a sexta-feira e, até eu, uma festeira experiente, começo a pensar que não vou dar conta! Mas sempre damos, com maiores ou menores consequências no dia seguinte.

O contraditório, mas que faz bastante sentido, é que por saber que a lista de afazeres é longa, o medo da ressaca faz com que me preocupe mais em me hidratar, comer bem e estar boa para a próxima noitada. É assim, que a gente chuta o balde, a gente chuta, mas guardo um restinho de fôlego.

Na quinta-feira passada, tivemos aula do coral. Ensaiamos a próxima apresentação, que será no dia 8 de julho. Todo mundo cheio de alergia! Não é alegria, é alergia mesmo! Esse ano praticamente não houve primavera, a temperatura melhorou na semana passada e daí todo pólen do planeta explodiu em Madri. Resultado, um coral de fanhos! Mas tudo bem, vamos tocando o barco e vai melhorar.

Saímos do ensaio correndo e fomos jantar com um amigo que veio da Suíça. Em paralelo, era show do amigo que volta para o Brasil, então, unimos o agradável ao agradável, combinamos também com a esposa do cantor e jantamos no restaurante onde era o show. Tomei uma única caipirinha, juro!

Na sexta-feira, foi show do Maracatu FM, o vocalista dessa banda é meu professor de percussão. Como se pode notar, Madri é uma cidade bem pequena, todo mundo se conhece, principalmente os brasileiros. Pois é, uma outra amiga em comum se encarregou de fazer a maior propaganda desse show, e só nesse grupo de conhecidos, éramos 30 pessoas! Nos reunimos no bar ao lado para o aquecimento, a primeira noite do ano em que realmente senti calor, seja pela temperatura ou pelo whisky. O show foi ótimo! Verdade que de vez em quando pensava que depois de tocar com aqueles percussionistas, meu professor ia me ouvir tocar durante a semana e isso era bem intimidador. Prometi a mim mesma que iria estudar mais, se não fosse por muitas horas, pelo menos um pouco todos os dias. Depois esqueci, relaxei e me acabei de dançar.

Entrou madrugada e a fome veio junto, fomos em umas dez pessoas para o Mr. Dog, nossa última descoberta do hamburguer definitivo. E vamos combinar, para segurar a onda depois do whiskão, nada melhor que proteína e gordura! Eu me atraquei com um hamburguer com cheddar e cebola, a briga foi feia, mas ganhei!

De lá não esticamos, afinal para o sábado já estava planejado um churrasco, apelidado de churras-rave, porque só havia hora para começar. Abri os olhos pela manhã, mexi a cabeça para lá e para cá… beleza, ressaca zero! Vamos à próxima festa, o tal do churras-rave.

Levamos o arsenal de instrumentos batucadores e lá encontramos mais dois violões e gaitas. Não preciso nem contar, né? O de sempre, cantoria, batucada, cachacinha, muita água e muita coca-cola para segurar a onda com um mínimo de classe, enfim, o básico que é ótimo e diversão garantida.

Domingo, mais uma vez acordamos bem, mas também cansados. Puxamos o freio de mão um pouco para aguentar a semana. Almoçamos no Kabocla, que faz uma feijoada excelente nesse dia. Vamos combinar que um feijão com arroz faz total diferença para a recuperação de qualquer ser humano. Por outro lado, dá uma preguiça daquelas!

O resto do dia foi de morgação e de cuidados com a casa, finalmente comecei a escolher os trabalhos e quadros para cada parede. Luiz faz os furos para mim, porque sou muito perigosa com um martelo na mão! É que me empolgo e sou capaz de fazer uns rombos impressionantes!

Segunda-feira e tinha aula de percussão. Sentei o rabito no cajón e tratei de praticar antes da aula, repeti, repeti e repeti várias vezes! Não tem milagre, não sou uma gênia dos tambores, só suando muito para sair. Valeu à pena, pois mais tarde recebi meu primeiro “de puta madre”, o que em espanhol é muito bom! Fiquei toda feliz! É só um começo e tem muito chão pela frente, mas já é alguma luz no fim do túnel.

Essa semana tem mais e estou me resguardando porque é para profissionais o negócio, viu?

Começa na quinta-feira, não teremos aula porque é o aniversário da nossa maestra. Daí ela vai comemorar com um show de reagge no Siroco. Como o mundo é bem pequeno, com ela irão participar o amigo que volta para o Brasil e o professor de percussão. Conhecemos os outros músicos também, todos feras, mas falei desses só para ilustrar que o show tem tudo para virar festa de gente amiga.

Um intervalo para contar uma história, há um tempo nossa professora do coral, essa do show, fez outro em homenagem ao Cartola e uma das músicas do repertório era “Ensaboa”. O coral deu uma palhinha nessa música, foi nossa primeira apresentação em um bar. Muito bem, a segunda voz é formada por três cantoras, duas amigas e eu. Essa segunda voz é mais aguda, então a melodia cantava para a gente: ensaboa, mulata, ensaboa… e respondíamos: … tô ensaboando! Não demorou muito para virarmos “as lavadeiras”. Apelido que ficou para nós três, ou a segunda voz.

Porque contei isso? Porque “As Lavadeiras” também vão dar uma palhinha nesse show de Reagge da quinta-feira, vamos cantar “Vamos Fugir”, do Gil. Vou ser sincera, estou com um pouco de vergonha e nervoso, mas ao mesmo tempo, com vontade de fazer. É que quando a segunda voz erra, nem sempre dá para perceber, mas nesse caso, faremos melodia e bate a responsabilidade. Sei que o risco não é alto e o show não é nosso, mas tanto a casa quanto os músicos são ótimos, ninguém quer fazer feio, né? Acho que só vou relaxar na hora que terminar de cantar. Tomara que nossa música seja logo no começo, assim posso me esgoelar e me acabar de dançar tranquila depois.

Está pensando que acaba por aí? Nada, tem programação para sexta, sábado e domingo, todas despedidas do casal que vai embora.

Ai, meu deus, acho que na próxima segunda-feira entro no soro!

E as aulas de percussão?

Sou do tipo de pessoa que acredita que quase nada é impossível. É assim, se vejo alguém fazendo algo que gostaria, salvo os extremos, nunca penso: nossa, nunca seria capaz de fazer isso…

Não é que não reconheça o esforço alheio, muito pelo contrário, é só uma maneira otimista de pensar que se alguém pode, por que não tentar? Então, pelo menos tento.

Bom, sempre quis dedicar um tempo à percussão e, de certa forma, venho me enveredando por esse caminho, de maneira mais discreta. Até que deve ter por volta de um mês, ganhei um cajón do Luiz, que tomou a iniciativa de também buscar um professor particular para mim, antes que eu tivesse tempo de pensar se era isso mesmo que queria. Foi meio no susto!

Como venho dizendo, ando super ocupada e não era exatamente o melhor momento para entrar em mais uma aula. Mas sabe essas coisas que você pensa que nunca há a época perfeita e é melhor tentar do jeito que dá?

Muito bem, lá fui eu ter aula de percussão duas vezes por semana, com um percussionista que admiro bastante o trabalho, ou seja, um pouco intimidador, né?

Então tá, fui cheia de confiança, afinal de contas, levo jeito para percussão, tenho ritmo e bom ouvido. Quer dizer, isso era o que acreditava. Achei que ele ia batucar de um lado e eu ia repetir do outro igualzinho!

Pois bem, vou ser sincera, tenho encarado como um exercício de humildade! Porque taquiupariu lá longe, é difícil pacas! Minha coordenação motora está muito aquém do que imaginava. Na boa, é constrangedor, porque o ouvido escuta uma coisa, o cérebro manda outra e as mãos fazem uma diferente! Caraca que raiva me dá! Ando suando em bicas literalmente a camisa, não sei se pelo movimento dos tambores ou pelo nervoso de não acertar aquela bosta!

Sério, nas primeiras duas aulas, cheguei em casa decidida a transformar o cajón em mais um banquinho da sala! Felizmente, nas duas seguintes ele deu uma passeada por outros instrumentos onde, com bastante dificuldade, consegui melhorar. Deu uma certa esperança, né?

O pior é que sou uma caxias e preciso praticar, estudar e a falta de tempo está me matando! Daqui a pouco vou para a aula e, para o desespero do meu professor, ainda não estou pensando em desistir! Nem quero ser profissional, só quero batucar direitinho e não fazer feio. Não é possível, uma hora preciso acertar!

Em paralelo, estamos ensaiando a apresentação do coral, que será no início de julho e o tema é Samba. Cantar, tudo bem, preciso ensaiar, melhorar e tal, mas acho que vamos positivamente. O caso é que alguns de nós, eu incluída, vamos batucar em umas músicas. É que também estudamos um pouco de percussão antes das aulas. Alguém já experimentou cantar e batucar ao mesmo tempo? Parece simples, né? Não é e outra vez tenho ralado para conseguir sair alguma coisa razoável!

Daqui a mais ou menos um mês, conto como foi a evolução dessas histórias. No mínimo, serei um ser humano mais consciente das minhas limitações. A outra possibilidade é atirar os instrumentos pela janela, então, deixa eu respirar fundo… ahummm…

Hoje até acordei mais cedo!

Vamos ver se assim cabe tudo no dia. Na semana passada, uma amiga me disse que precisava de alguém ao lado dela dizendo o que ela teria que fazer durante o dia, nas coisas mais básicas, porque o tempo vai passando e a gente acaba não fazendo tudo por não se organizar bem.

Desde que mudei para cá, me prometi levar um pouco da vida francesa e comprar os ingredientes frescos para as refeições de cada dia. Já vão quase dois meses e nada! Acabo comprando tudo por internet, é mais fácil! Uma coisa me atrapalha muito, é essa tal de “siesta”, no horário que teria mais disponível, é justo quando todo o comércio fecha. Hoje resolvi tentar me organizar mais cedo, vamos ver se consigo criar o hábito. E criar hábitos é difícil, putz, principalmente os corretos e saudáveis!

O fim de semana foi bom na medida certa, não chutamos o pau da barraca, mas também não foi parado. No sábado, fomos ao show da Maria Rita, que passava por Madri. Quando ela foi lançada eu já estava fora do Brasil, mas acompanhei um pouco a polêmica do ser ou não ser como a mãe, eis a questão… questão essa que me abstive e fui ver com meus próprios olhos o que achava. Gostei e tirando um ou outro trejeito encaixado, nem achei tão parecida à Elis assim.

Coincidiu de ser também dia de San Isidro, o padroeiro de Madri e o centro da cidade estava bombando! Lotado! Quando saímos do show foi complicado achar algum lugar para ir. Provamos uma lanchonete nova que abriu na Calle San Bernardo, Mr. Dog, pelo que entendi, é de brasileiros. Os sanduíches estavam muito bons, acho que o melhor hamburguer que comi por essas bandas. O atendimento foi simpático, mas estava difícil, como disse, não era um dia comum e todos os lugares estavam entupidos de gente! Vale uma segunda ida com mais calma.

De lá, seguimos para o Kabocla, encontrar com um amigo que fazia aniversário. Achei que fôssemos virar a noite, mas a verdade é que bateu preguiça. Estava cheíssimo e não dei conta da cigarrada. Não estava no pique de beber e aí fica difícil respirar na selvagem e esfumaçada noite madrileña. Voltamos caminhando para casa, já que tudo agora é tão pertinho.

Bom que no domingo não tinha ressaca e era dia de sol. Esse tem sido o inverno mais longo que passamos na Espanha, a primavera quase não existiu, poucos dias de temperatura agradável. Portanto, o tempo bom e ensolarado do domingo não podia ser desperdiçado! Fomos buscar alguma terraza pelas redondezas e claro que não havia lugar em nenhuma, mas achamos um bom restaurante e depois demos uma volta a pé para queimar o musgo da pele. Nosso felino também saiu pela casa buscando as frestas de sol para fazer sua gatossíntese diária.

Esqueci de contar, nessa festa de San Isidro, as pessoas se vestem de “chulapos”, que é um traje assim:

 

Bom, o que achei engraçado foi em uma entrevista com crianças, perguntaram a um menininho todo arrumado do que ele ia vestido e ele respondeu bastante decidido que estava vestido de “guapo, muy guapísimo, con ropas guapas”. O que poderia ser traduzido como: vou vestido de bonito, muito bonitíssimo, com roupas bonitas! Ou seja, o vocabulário poderia melhorar, mas a autoestima estava nas alturas!

E é isso aí, deixa me arrumar para sair. Quero ver se consigo ir de guapa, muy guapísima, de ropas guapas!

Ocupada!

Levei mais ou menos uma semana para abrir e arrumar as caixas. Demorou um pouco mais porque durante dois dias ainda tinha gente em casa trabalhando e aí ficava impossível. A casa ainda não está 100%, mas as únicas caixas que faltam arrumar são as das obras de arte. Leva um tempo até saber que quadro vai em que parede, que objeto fica melhor onde, essas coisas. Toma um pouco de espaço e dá um ar que a casa ainda não está arrumada, mas não me atrapalha em aspectos práticos.

Depois, estava no limite do limite para começar a trabalhar na exposição de agosto. Comecei. Já andava há algum tempo querendo voltar a trabalhar com papel. Pensando um pouco na facilidade do transporte das obras para o Brasil, me pareceu uma excelente oportunidade de unir o útil ao agradável. Gostaria de estar um pouco mais adiantada, mas paciência. De qualquer maneira, voltei a ter os cantos das unhas sujos de tinta, coisa que me deixa feliz.

Em paralelo, comecei a ter aulas de cajón, instrumento considerado espanhol, mas na verdade é peruano e trazido para o flamenco por um brasileiro. A pele da minha mão ainda é muito fina, preciso calejar um pouco e acertar a batida. Desconfio que sou uma mulher um pouco estranha, fiz uma força danada para ficar com os pés meio cascudos, por causa das caminhadas, agora preciso engrossar as mãos! E ao invés de ficar feliz em fazer a manicure, me agrada mais os cantinhos sujos de tinta. Coitado do Luiz!

Os ensaios do coral também aumentaram, pois no início de julho teremos uma apresentação. É uma oportunidade para fazer a transição para algo mais evoluído e não tão caseiro e só para amigos. Nesse caso, faço muita segunda voz ou canto a melodia em tons mais agudos. Até que enfim alguma coisa que pareça um pouco feminina!

Assim que de uma hora para outra, meu tempo minguou. Não é um problema, no fundo, gosto de estar ocupada. Mas atrapalha um pouco a escrita, preciso de calma para sentar e organizar as idéias. Engraçado isso, porque noto que esses dias que escrevo menos ou não escrevo, ando mais confusa. Quem mandou faltar a terapia blogueira tantos dias?

A verdade é que esse último mês minha vida mudou radicalmente e ainda estou absorvendo. A mudança da casa foi só uma das variáveis que fizeram parte do contexto, mas acho que até isso foi muito mais consequência do que causa.

Tenho achado meu rosto mais envelhecido no espelho. A gente se olha todos os dias e não vai notando o tempo passar, mas de uma hora para outra, tenho a sensação de ter subido um degrau. É só uma constatação. Não sei se estou mais cansada ou realmente mais velha, porque minhas alterações maiores são sempre ao redor dos olhos. Assim que às vezes não tenho certeza se o que envelheceu mais foi a pele ou o olhar.

Minha família vai bem, entre um susto e outro, pelo menos para mim, veio a melhor notícia. Meu pai começou a tomar um anti-depressivo. Esse para ele foi um passo muito importante, porque ele nunca acreditou em depressão. Muita gente relaciona esses aspectos sempre com fraqueza ou tristeza, mas por vezes é um processo químico que pode ser auxiliado. Acho fundamental o apoio de um profissional e definitivamente tem gente que passa da raia e tenta resolver a vida com remédios, mas esse não era o caso. O humor dele melhorou, a voz que escuto no telefone é de outra pessoa e com certeza isso estará melhorando também a vida da minha mãe. Entendi que o que me incomodava mais em toda essa história não era o medo da perda, mas a maneira miserável como ele estava vivendo, sem merecer e sem precisar. Vida e morte andam juntas, sou sinceramente capaz de aceitar as duas, mas me recuso a aceitar o sofrimento desnecessário. Por tudo isso, pelo menos momentaneamente, estou em paz.

Pouco a pouco estou voltando a caminhar e me faz bem sentir que é possível recuperar o condicionamento. Ajuda muito quando a temperatura melhora, a gente se anima mais a ir para a rua. E falando em caminhadas, na semana passada veio a Madri um amigo brasileiro que conheci no primeiro Caminho de Santiago e foi bem legal revê-lo. Está em um momento difícil de questionamentos que me lembra muito dos meus passados. As pessoas são diferentes e não tem porque as histórias serem as mesmas, mas me deu um pouco de vontade de dizer, calma, parece absurdo, mas é normal, vai dar tudo certo. Talvez diga depois.

No sábado, chamei alguns poucos amigos para uma inauguração secreta do apartamento. O que me lembra aquelas histórias em quadrinhos, onde há uma placa escrito: esconderijo secreto do Professor Pardal. Fazer o que? Pela quantidade de amigos que temos, motivo de alegria, não há mais condições de fazer uma única festa com todo mundo. Assim uma primeira vez, queria ver quanta gente cabia confortavelmente, se os vizinhos reclamavam, essas coisas. E também porque gosto de conversar com as pessoas e nas reuniões maiores acabo falando com todos e com ninguém ao mesmo tempo. Resumo da ópera, foi ótimo! Pelo menos a parte que o álcool me permite lembrar. Cantamos, tocamos, rimos, choramos, abraçamos, comemos e bebemos pacas! Boa notícia, até o momento, nenhum vizinho reclamou. É verdade que era difícil saber de onde vinha mais barulho, da nossa casa ou da rua! Desconfio que era do nosso apartamento. Tudo bem, todo lar precisa de um batismo. Casa devidamente batizada!

 

No domingo eu era uma planta! Não saí da posição horizontal! Da cama para o sofá para a cama! Levantei só um pouquinho para cozinhar, porque tinha uma fome alucinante!

Segunda-feira, não tem jeito, bora tocar a vida! Acabei de testar uma técnica em uma gravura que não deu certo. Daqui a pouco vou para a aula de cajón e na volta preciso trabalhar mais um pouco nas gravuras. Já a faxina… vai ficar para amanhã!

… mas, e a mudança?

Na primeira vez que nossa mudança chegou a Madri, vinda de Atlanta, admito que estava em pânico! Não conseguia entender como um caminhão daquele tamanho ia parar em uma rua que nunca tinha vagas. Sem falar que havia um corredor comprido onde tinha certeza que alguns dos meus móveis não passariam! O elevador (esse tinha elevador) era minúsculo! Enfim, não tinha idéia como aquela porcaria ia funcionar!

 

Logo descobri que o primeiro problema tinha solução fácil. As empresas transportadoras pedem autorização, com cerca de uma semana de antecedência, e tem disponíveis as vagas em frente ao seu edifício no dia da mudança. O carro que estacionar nessas vagas pode ser rebocado. Descobri recentemente, que a regra é parecida em ruas onde não há espaço de estacionamento, se fecha a rua por determinado período de tempo. A diferença é que para conseguir essa autorização demora mais, por volta de um mês.

 

Pois bem, ainda falando da primeira mudança, pela manhã subiu o indivíduo responsável para conhecer o apartamento e se planejar para como as coisas iriam entrar. Subiu pelo elevador pequeno, seguiu pelo corredor comprido, olhou da janela decidido e eu com aquela cara de nádegas, esperando o momento dele me dizer o tamanho do pepino! Sorriu e me disse algo como: ah, essa mudança é tranquila!

 

Luiz e eu nos entreolhamos com aquele ar de interrogação, que parte ele não entendeu? Mas se ele disse que era fácil… E era! Em três segundos ele arrancou a janela da sala e posicionou um tipo de elevador exterior por onde subiram quase todos os móveis. Inclusive, foi bem rápido!

 

De maneiras que depois disso, relaxei mais com as mudanças e sei que eles encontram uma solução. Por outro lado, também fiquei mais esperta com o que cobrar. Nessa última vez, por exemplo, se tivesse dado mole, teria ficado sem o tal elevador exterior, peça fundamental para o sucesso da empreitada.

 

Então tá, acordamos cedo e deixamos tudo preparado, Jack preso no banheiro com suas coisinhas. Luiz conseguiu folga no trabalho para me ajudar. Ótimo, tudo sob controle!

 

Às 10:00hs, reconheci da janela o responsável caminhando pela calçada. Ele subiu e ficou conversando um pouco com Luiz, porque a autorização para fechar a rua era só para às 11:00hs. Pontualmente, o caminhão apareceu e fecharam o trânsito do quarteirão em seguida. Ninguém reclama, se entende que é assim e pronto. Por outro lado, dá um pouco de vergonha de toda aquela movimentação chamando atenção.

 

 

Pois bem, o caminhão da mudança estaciona na frente e o do elevador externo em seguida. Sobem um tipo de escada de incêncio pela sua janela, encaixam direitinho e é por ali que vão os móveis e as caixas. Já começaram logo com o mais pesado, uma escrivaninha antiga em madeira maciça que é nosso xodó. Ou seja, se era para dar algum abacaxi, seria com ela, o resto era mais simples. A mesa da sala e o sofá tiveram que vir pela escada mesmo, mas não são tão pesados e foi simples. Todo o demais, incluindo as caixas, veio pela janela. No máximo, por volta das 15:00hs, estávamos com tudo dentro de casa!

 

 

Soltamos o gato, que saiu cheirando tudo. Aquela confusão de caixas e Jack feliz da vida em reconhecer os aromas do seu ambiente. Foi quando ele entendeu que já não mudaríamos daqui. Se atracou com seu sofá querido do coração, não queria largá-lo por nada!

 

Beleza! Agora era só abrir e arrumar… umas sessenta caixas!

Como mudar de país!

Voltei! Estava com saudade de escrever e fiz mil textos na cabeça, já que não conseguia tempo nem sossego para sentar em frente ao computador.

Aos poucos vou contando o que se passou por esses dias, mas o resumo da ópera é que estou morrendo de amores pelo meu novo bairro. É natural que no início das paixões a gente não veja os defeitos, e a essa altura, pouco me importa que eles aparecerão. Melhor aproveitar o momento e depois a gente vê o que acontece.

As redondezas de onde vivemos agora não lembra em nada o ar aristocrático do bairro anterior. Como tudo que é alternativo, ou não tão certinho, sempre parece mais real. Porque as pessoas estão mais preocupadas com problemas de verdade e não com as mariconadas que garantem o status quo.

Não sinto falta do elevador, nem da terraza gigante, nem da portaria arrumada, nem das calçadas mais limpas. Um pouco da área de serviço, admito. Por incrível que pareça, o que mais senti foi a distância do Trifón, do Sonia e do Rincón de Jaén, nossos restaurantes favoritos que íamos a pé e conseguíamos mesa nos momentos mais impossíveis. Minhas referências de casa são igualmente onde durmo e onde como.

Não que nos falte onde comer agora, muito pelo contrário. Surpreendentemente, encontramos ao redor comida do mundo inteiro! Também pela proximidade das zonas turísticas, pessoas do mundo inteiro! Distintos idiomas e sotaques.

A gente recebe o que pede, e por isso precisamos ter muito cuidado com o que desejamos, mas nesse momento, tudo o que queria era voltar a morar em um lugar cosmopolita e urbano até os ossos! Viver nesse pequeno oásis de mentalidade mais aberta foi como mudar de país. Tenho consciência que é uma redoma, mas não me importa, é um ar fresco.

Aqui em volta tem cubano, italiano, francês, asiático, americano… Espanhóis também, é lógico, e sinceramente me agrada! Mas não sei, a convivência parece mais harmônica. As pessoas são de mais cores, diferentes traços e matizes. Sempre sou mais feliz dentro da mistura.

Mas vamos aos fatos, voltando um pouco o relógio, em uma terça-feira à noite, 13 de abril, o último operário saiu de casa depois das 21:00hs. Lá foi Luiz e eu correr para limpar a casa, na medida do possível, afinal, teríamos visitas no dia seguinte. A gente está acostumado a estabelecer rotinas em situações absurdas com a maior naturalidade, mas queríamos que os convidados também estivessem à vontade.

Só para lembrar, nossa mudança não havia chegado ainda, estamos falando de uma casa praticamente sem nada. De móveis, tínhamos 4 cadeiras dobráveis, uma micro mesa, 1 colchão de casal e 2 de solteiros, a vinoteca, a mesa do computador com um laptop e as coisas do Jack. Claro, nosso gato tinha seu “apartamento” completo!

Coloquei na sala os 2 colchões de solteiros, um sobre o outro, como se fosse um sofá, com as cadeiras em volta, assim pelo menos a gente tinha onde sentar para conversar. E como o primeiro casal que chegaria não ia dormir, logo que eles saíssem, montaria os colchões como cama para os hóspedes.

Muito bem, por volta das 11 da manhã, chegou o primeiro casal de amigos. Vinham do Brasil para a Alemanha e o vôo fez uma escala de 8 horas em Madri. Ficar no aeroporto por todo esse tempo, além de desgastante, era uma besteira, considerando que moro aqui. Enfim, deixaram as malas no aeroporto, o check in para o próximo vôo engrenado e vieram para cá.

Em outra ocasião, teria feito um almoço legal, mas nessas condições, relaxei e resolvi comer na rua mesmo. Fomos ao restaurante cubano aqui do lado, comer um arrozinho com feijão e mandioca frita, assim, segundo minha amiga, a adaptação da volta do Brasil era gradual. Ainda demos uma voltinha pelos arredores e voltamos para casa para esperar meus primos chegarem.

Por volta das 16:00hs, chegaram meus hóspedes, minha prima e seu marido, vindos de trem desde Barcelona. Madri era a última parada da viagem. Ficamos na sala batendo papo (sim, nos colchões e nas cadeiras desmontáveis) até que chegou mais uma amiga que mora aqui e, por coincidência, conhece minha prima há séculos.

Na hora que essa última amiga chegou, era exatamente o momento que o primeiro casal precisava voltar ao aeroporto. Claro que gerou mil piadas que eles precisavam ir embora e liberar duas cadeiras para mais alguém sentar!

Com aquele entra e sai de gente, minha amiga brasileira, que me conhece há muito tempo, se acabava de rir da confusão, enquanto seu marido, alemão, não entendia bem toda aquela rotatividade, como a coisa mais normal do mundo, em um apartamento sem móveis!

Logo, meus primos e essa amiga, saímos para caminhar pela cidade. A amiga mora no centro há algum tempo e conhece todas as biroscas existentes. Acabei conhecendo dois lugares que quero voltar, um onde se come em pé a tal da “tajada”, um pedaço de bacalhau fresco empanado muito gostoso, e olha que não ligo para bacalhau! Outro, um bar que é um apartamento de cobertura transformado, só quem conhece chega lá, porque não tem letreiro nem nada, você literalmente toca o interfone para entrar. É um pé sujo com uma vista interessante, que vale para passar e tomar uma bebida entre uma coisa e outra. Em madri, você nunca fica em um lugar só.

Meus primos ficaram até domingo, dia 18 de abril e deu tudo certo. A falta de móveis não pareceu um problema tão grave, pelo menos para a gente, até porque ficamos muito na rua. No sábado, fomos até Segóvia e na volta esticamos até La Granja, que não conhecia ainda e achei uma gracinha.

Muito bem, nesse meio tempo, foi quando explodiu o tal vulcão na Islândia! E até o último minuto, existia o suspense que eles conseguissem voltar para o Brasil. Por mim, tudo bem, mas considerando que no dia seguinte à sua partida chegaria nossa mudança… acho que seria um pouquinho confuso, né?

No fim, também deu tudo certo. Luiz conseguiu fazer o check in deles on line e não enfrentaram grandes filas no aeroporto.

Só nos tocava voltar para casa, descansar um pouco e esperar chegar a famosa mudança marcada para 19 de abril.

Nota de esclarecimento paterno

Meu pai está internado por precaução, mas está tudo sob controle.

Ele descobriu – por acaso, como sempre – que estava com um coágulo no pulmão. Quando não se sabe, pode ser um problema seríssimo, porque o coágulo poderia circular com consequências fatais. Mas descobrindo-se a tempo é relativamente simples de resolver. Basta tomar a medicação e aguardar que se dissolva (+/- 5 dias). A única coisa chata é que a medicação precisa ser tomada no hospital.

Aos amigos e conhecidos, quem estiver no Rio de bobeira e quiser visitá-lo, será muito bem vindo! Ele está bem e de bom humor, só entediado de estar internado.

O ciclo das obras

Obra é ótimo, né? Principalmente quando acaba!

No Brasil, quando os apartamentos eram nossos, fizemos obra em absolutamente todos! Acho que mais por minha causa do que pela do Luiz, ainda que depois ele pareceu também pegar gosto. Com o tempo ficou mais fácil, você vai conhecendo quem trabalha melhor, calcula bem as quantidades, sabe onde estão os fornecedores. A linguagem é fundamental, aprendi a falar com naturalidade “táuba”, “demão” (sempre no singular: é duas demão!), “vrido”…

E não era só contratar não, me metia na obra mesmo! Carregava material, ajudava a instalar coisas e até que me virava bem. De certa maneira, acho que isso acabava por contribuir que os operários me respeitassem mais e nunca tive nenhum tipo de problema nesse sentido. Vamos combinar, o nome “artista plástica” pode ter seu glamour, mas na prática, somos operários de luxo e normalmente ganhamos menos. Então, era um trabalho que nunca me intimidou e sempre fui chegada a uma ferramenta.

Às vezes, no meio do caos, rolava alguma história divertida. Não dá para esquecer do Tonhão, um eletricista que era um baita de um negão 4×4, todo musculoso,  e que se borrava de medo do meu gato. O mestre de obras e o pedreiro, que já tinham sacado que Jack não podia ser mais manso, se acabavam de rir da paura do Tonhão e, devo admitir, que era um pouco malvada, porque também não resistia e alimentava a idéia de que o tonto do nosso felino era uma verdadeira fera, só controlável quando eu estava por perto! Aquele homem daquele tamanho só entrava nos ambientes se eu entrasse primeiro para garantir a segurança. Coitado, Jack bocejava de sono e ele enxergava um leão pronto para atacá-lo!

Enfim, toda obra tem um ciclo. Começa com a empolgação em mudar e a euforia de construir algo personalizado, novo. É seguida da raiva pelos atrasos inevitáveis e, se você não estiver presente, pelas decisões mais estapafúrdias possíveis tomadas pelo pessoal contratado. Logo vem o desespero daquela bosta que não acaba nunca! Onde você estava com a cabeça quando resolveu fazer aquela merda daquela obra? E, finalmente, o alívio do fim! Você já nem quer saber se foi o que queria em princípio, só quer que acabe! Acontece que a poeira baixa e assim que você consegue limpá-la, vem a curtição. Acho que bate algum estado de demência, porque me esqueço rapidamente de toda a chateação.

Bom, acabei de me mudar para um apartamento cuja obra não está terminada. Não faltava muita coisa e agora falta menos, então digamos, que pulei algumas etapas do ciclo e entrei diretamente na fase do desespero para acabar logo! Menos mau que cheguei fresca e de bom humor, sem o desgaste das etapas anteriores. E a verdade é que está ficando bonito e muito dentro do nosso gosto pessoal, ainda que seja alugado.

Acho que hoje termina, há um operário nesse momento trabalhando no banheiro. Estou naquele esquema de o que acabar acabou e o que sobrar vai ficar para a próxima encarnação.

Amanhã recebo um casal de hóspedes, que fica até domingo, quero que a casa tenha algum clima de normalidade. Além dos hóspedes, chegará no mesmo dia um casal de amigos que faz uma conexão de vôo de 8 horas de duração em Madri. Para não ficarem bestando no aeroporto, virão para cá e a gente aproveita e mata a saudade antes deles seguirem para Alemanha, onde moram. Lembra que falei que há um operário trabalhando nesse minuto no banheiro? Pois é, melhor que ele termine, porque amanhã recebo quatro pessoas em uma casa quase sem móveis! Na próxima segunda-feira (isola!), chega a mudança, aquela bem simples, em que teremos que parar a rua.

Por conta disso, ando meio ansiosa, nem é em um mau sentido, mas quero que as coisas se resolvam e tenho prazos para cumprir. Gostaria de arrumar logo a casa e começar a trabalhar na exposição de agosto.

Aliado a quase duas semanas comendo na rua, o corpo sentiu e me bateu uma certa azia na semana passada. Ainda que seja gulosa pacas, cuido muito da minha alimentação, pelo menos durante a semana, e faz muita diferença. Bom, não ajudei muito chutando o pau da barraca no vinho na sexta-feira e no sábado estava um lixo! Só consegui sair da cama à noite, enjoada e com uma dor de estômago daquelas. Levantei direto para irmos a um churrasco na casa de amigos, o que foi bom, porque nesse caso, a gordurinha da carne caiu que foi uma beleza. Claro que ficou todo mundo me gozando pois só fiquei na água e na coca-cola, com bastante gelo! Bom para Luiz, porque dirigir de volta ficou por minha conta.

No domingo, fomos a um aniversário-feijoada e foi tudo de bom! Levamos os instrumentos e tocamos um pouco. Abusamos da cachacinha, mas dessa vez, caiu muito bem. Quando digo que a comida faz toda a diferença do mundo!

Mas tudo bem, porque agora já temos pia e, consequentemente, voltei a cozinhar. Nossa, de cara fiz um feijão só no alho e cebola, um arroz bem refogado, farofa e bife. Mais caseiro impossível! Para quem acompanha o blog, sim, aparentemente o fogão é pirolítico total! Gostei mais do que o de cerâmica, mas já percebi que perderei outro par de panelas. A pia é profissional, a torneira é móvel e regulável, igual a de restaurante. Definitivamente, a cozinha é a estrela da casa. Para quem gosta de esquentar o umbigo no fogão, como eu, é perfeito.

Acho que o cidadão acabou de arrumar o banheiro, vou lá…