Comida indiana em Londres, manual básico para iniciantes

Engraçado como algumas comidas são tão incorporadas em determinadas culturas, que parecem que sempre pertenceram a elas. Por exemplo, no Brasil, alguém para e pensa qual é a nacionalidade do “beef stroganoff”? Claro que não, né? Já virou “estrogonofe” há muito tempo! Às vezes, é até “PF” no cardápio de restaurantes brasileiríssimos!

Algo similar acontece entre a relação da comida indiana e Londres. A ponto de conhecer muita gente que vem visitar a cidade, quer comer algo típico e, lógico, pede dicas de restaurante… indiano!

A verdade é que a comida indiana faz todo sentido aqui por diversos motivos, desde o clima dos cinzentos dias britânicos à colonização e imigração no país.

Nossos outonos e invernos podem ser complicados, a temperatura cai bastante, os dias ficam muito curtos, anoitece às 4h da tarde! É comum para algumas pessoas desenvolverem a depressão de inverno pela perda de luz. Nesse caso, a alimentação pode ajudar bastante e comidas condimentadas cabem perfeitamente nessa dieta. E, como curiosidade, as pimentas fazem o corpo produzir endorfinas, efeito parecido a quando praticamos esportes.

Sem falar da falta de sabor da comida inglesa no passado (já melhorou muito, mas esse é outro assunto). E, completando, a abertura que a cidade oferece aos diferentes sotaques e culturas, nesse caso específico, aos indianos.

Aos puristas, peço desculpas antecipadas. Sou brasileira meio espanholizada, não fui à Índia (ainda) e tudo que conheço a respeito dessa gastronomia, aprendi em Londres, onde certamente sofreu algumas adaptações ao paladar local. Ou seja, é o filtro do filtro! Não venho dar lição para ninguém, só tento facilitar um pouquinho aos novatos por essas bandas e compartilhar um gosto que adquirimos. E digo que, hoje em dia, faz parte da nossa rotina, para o Luiz virou até comfort food!

Então, vamos lá, você chegou ao restaurante e não tem a menor ideia do que eleger. Minha sugestão, é que você peça uns poppadoms enquanto pensa e escolhe com calma. Não é a mesma coisa, mas imagina uma massa de pastel crocante em forma circular, do tamanho de um pão árabe. É mais ou menos assim. Deve vir com uns 3 ou 4 tipos de molho (provavelmente, um adocicado, um mais picante, um com yogurte, mas há variações). Você passa esses molhos na massa crocante, como se fossem torradas. Aí você já começa a preparar seu paladar para a intensidade de sabores que virão na sequência.

Poppadoms

Falando sobre essa intensidade de sabores, vamos ao primeiro mito da comida indiana: é sempre uma comida muito apimentada? Falso.

Primeiro, você precisa entender que pimenta é considerada um tempero, como qualquer outro. Ou seja, em inglês o termo spiced pode ser usado para apimentado ou bem temperado (sem ser, necessariamente, picante). A comida indiana é spiced, tem sabores bastante característicos e usa mesmo muitos temperos, mas nem sempre isso quer dizer que seja tudo apimentado.

E, por falar em temperos, começo pelo curry. O curry no Brasil é um pó amarelo com um único sabor. Esquece isso, você nem vai achar esse pó amarelado versão brazuca no mercado!

Existe o curry powder (pó de curry), que é uma composição de uns 20 temperos diferentes! Não tem uma cor própria nem uma mistura definida oficial como padrão. Os temperos utilizados, em geral, são: cumin (cominho), coriander (coentro), ginger (gengibre), chilies (pimentas), turmeric (parecido ao açafrão), cardamom (cardamomo), cinamon (canela), curry leaves (folhas de curry-sim, também é uma folha ardidinha!), mustard seeds (sementes de mostarda), garlic (alho) etc. Dou os nomes dos ingredientes em inglês para facilitar, caso você queira encontrá-los. Você pode comprar essa mistura pronta, mas é comum nas famílias indianas fazerem seu próprio pó de curry na mistura que lhes pareça mais conveniente. Assim como os restaurantes fazem suas misturas também. Eu mesma faço meu curry powder em casa quando resolvo cozinhar pratos indianos.

Curry powder

Entretanto, o significado mais comum quando você fala só “curry”, quer dizer que é um tipo de comida. Curry aqui são pratos compostos por um molho feito por uma combinação de vários temperos. Ou seja, você sai para comer um curry! Como, por exemplo, você comeria uma moqueca. Aliás, muito provavelmente, um britânico descreveria uma moqueca como um tipo de “curry brasileiro”.

Os currys estão entre as comidas indianas mais populares por aqui. Normalmente, costumam ser de cordeiro, frango ou camarão. Abaixo do título do prato, deve haver uma ligeira descrição de como aquele curry é preparado, se leva leite de côco, se é mais picante, se leva mais de um ou outro ingrediente específico (gengibre, folha de limão…) etc. Ou seja, se você pedir um curry de cordeiro em um determinado restaurante, não quer dizer que em outro ele será preparado da mesma maneira. Tem que checar a descrição. Curry é só a forma de preparo: um molho com vários temperos.

Curry

Os currys são servidos como prato principal e costumam ser acompanhados de rice (arroz) ou de naan. Se você pedir só rice, é o arroz puro cozido em água, às vezes nem sal tem. Se quiser o arroz mais temperadinho, parecido ao nosso refogado, opte pelo pilau rice. E o naam é um tipo de pão achatado, pode ter sabores como queijo e alho. Você molha esse pão no curry.

Naam

Bom, como falei anteriormente, nem sempre a comida é apimentada, mas vai que você goste de comida picante ou acabou pedindo por engano! Um erro clássico é beber água para aliviar a ardência. Não funciona tão bem. O ideal seria leite, mas seria meio esquisito pedir um copo de leite no restaurante, então, tente algo com yogurte, quem sabe já deixar garantido algum prato ou molho que leve esse ingrediente, mal não vai fazer… Inclusive, até para a comida condimentada, o yogurte é bem refrescante.

Para os mais aventureiros, há os vindaloos e os madras. Ambos são tipos de curry (que agora você sabe que é um prato com molho), são mais picantes, sendo o madras o mais apimentado de todos. Inclusive, o madras nem é tão tipicamente indiano assim, nasceu para agradar os ingleses. Francamente, acho que é aquela coisa de competição masculina de quem aguenta comer a coisa mais ardida. Na minha opinião, uma bobagem! Já o vindaloo, pode nem ser tão ardido assim, depende da tolerância de cada um e é bem saboroso, típico da região de Goa.

Uma boa pedida é o lamb rogan, que é um cordeiro cozido lentamente no molho até ficar bem macio a ponto de desfiar. Não é nada picante e, quando é bem feito, é de lamber os dedos!

Lamb Rogan

E que tal alguns pratos vegetarianos? Ando muito fã do black lentils dal. Pode não ser muito atraente, é próximo ao nosso feijão, só que temperado com condimentos indianos, leva muita manteiga e creme de leite. Credo, e isso fica bom? Fica dos deuses! Também se come com arroz ou naam. Para quem, como eu, adora o injustiçado quiabo, pode tentar o bhindi bhaji, é servido como prato principal ou acompanhamento. Gosto também do saag paneer, saag é espinafre e paneer é um queijo fresco que não derrete muito fácil (tipo um coalho menos salgado), a combinação é ótima!

Dal
Bhindi Bhaji
Saag Paneer

Se não quiser arriscar muito, pode tentar um biryani, é tipo um risotão que a mãe da gente faz com arroz e o que sobra durante a semana na geladeira. Ok, é melhor do que eu descrevi, mas foi só para dar uma ideia. É um arroz que já vem misturado com temperos, vegetais, carnes, yogurte, ovos, frutos secos etc. Varia um pouco e é bem honesto, eventualmente, pode ser um pouco picante, melhor perguntar.

Biryani

As sobremesas, para o meu gosto, não são o forte. Mas se tiver um sorvetinho, ajuda a limpar o paladar.

Quanto à bebida alcoólica para acompanhar, acho que a cerveja ou a cidra seriam mais recomendáveis. Infelizmente, não tomo cerveja. Assim que, para quem prefere vinho, recomendo o vinho branco, independente da carne que escolher. Claro que você toma o que preferir, mas acho que o vinho tinto é uma combinação ruim e confusa. Além de um desperdício, porque a comida vai matar todo o sabor do vinho.

A gastronomia indiana é certamente muito mais ampla do que isso. É super rica e varia bastante dependendo da região de procedência. Acho que vale explorá-la e aqui deixo apenas um gostinho de por onde começar. Se valeu pelo menos para aguçar sua curiosidade, fico feliz!

Carnaval para inglês ver…

Nesse caso, literalmente!

Gente, não adianta, carnaval é no Brasil e pronto. Em Londres, ninguém nem tomou conhecimento do assunto! Para começar, o deles é como em Nova Orleans, em agosto.

Mas vamos lá, porque brasileiro se espalha, né? E a cidade é super cosmopolita, assim que você sempre pode encontrar algo próximo ao que chamamos de carnaval por aqui. Mas nada de feriado, é vida normal e corrente.

É importante manter as expectativas do tamanho certo. Provavelmente, o máximo que costuma acontecer são festas com músicas brasileiras, no sábado de carnaval. Eventualmente, pode até ter algum desfile menor, talvez algo em Notting Hill, alguma coisa em Clapham ou Willesden Green… mas ainda não vi nada tão oficial. Ou seja, já me preparo psicologicamente para me conformar com um sábadozinho e olhe lá!

No ano passado, fui ao Brasil nessa época. Certamente, um dos melhores carnavais da minha vida, contei por aqui. Modéstia às favas, desfilei tocando meu surdo com o Monobloco em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Também foi um momento importante de ritual de passagem e despedida do país. Enfim, foi muito bacana!

Esse ano, tem várias coisas acontecendo em paralelo pelas bandas de cá e a menor possibilidade (honestamente nem vontade) de ir ao Brasil tão cedo! Por isso, como disse, não estava esperando nada, até evitava olhar as fotos dos amigos batuqueiros no Instagram para não dar saudade (porque ver e ouvir a bateria de tão longe dói um pouco).

Daí pelo meio da semana, me chama uma amiga baiana, e aí, vamos numa festa de carnaval no sábado? Igualzinho a perguntar se macaco quer banana… É claro que eu quero! Então, lá fomos nós em um grupo de umas 7 pessoas, Luiz de bendito é o fruto entre as mulheres!

A tal festa foi em um bar chamado Jerusalem. Confesso que fiquei um pouco cismada em ir pular carnaval em um bar com esse nome… será que ia parar em uma festa kosher? Ou crente? Mas, brincadeiras à parte, descobrimos que o bar leva esse nome como uma tentativa pacífica de congregar diferentes culturas e opiniões. Achei a história bonitinha e fez mais sentido celebrarem um carnaval brazuca. O bar é legal também.

Chegamos cedo, na tentativa de pegar uma mesa e garantir certo conforto e, principalmente, o espaço vital do Luiz. Funcionou bem, conseguimos uma mesa ótima! Atendimento simpático… as músicas começaram mais tranquilas… e, aos poucos, o pessoal falando português começou a encher o local. Minha amiga chegou, com mais quatro meninas que eu não conhecia… … animadas… a música foi esquentando… dancei pacas, até Luiz se empolgou, fazia um tempinho que não dançávamos tanto juntos… e sabe que foi muito bom!

Só não ficamos até o final porque não queríamos perder o transporte público. Para vir de metrô, a gente precisava sair por volta da meia noite. Muita gente não gosta desses últimos horários de metrô ou de trem, porque fica cheio de, digamos assim, pessoas um pouco mais etilizadas (não, não quis dizer elitizadas, é sobre o patamar etílico mesmo!). Eu adoro! Acho divertido!

Juro que nem tentei fazer amizade com ninguém, vim bem comportadinha porque Luiz estava muito legal nessa noite. Aliás, ando comportadíssima! Durante toda a festa, a única “estranha” que conversei foi a noiva de uma despedida de solteira, dei conselhos para a vida sexual dela, mas foi ela que perguntou…

Enfim, voltando ao metrô (comportadinha, sem puxar papo com ninguém, lembra?), conversando com o Luiz, escuto em português do brasil, desculpa me intrometer, mas vocês estavam em uma festa de carnaval, né? Tem carnaval aqui ? Sentado ao meu lado, vinha um rapaz que havia chegado há pouco tempo em Londres e queria algumas dicas. Viu? Nem sempre sou eu que provoco. Nem convidei para uma festa em casa! Porque, não deu tempo…

E, pronto, acabou a história! Chegamos e dormimos. Não avisei que o carnaval aqui era meio sem graça?

Como fui banida do KDP Amazon inexplicavelmente e agora, semi-reintegrada, me deixaram no limbo!

Caríssimos possíveis novos escritores independentes, ou curiosos em geral, muito cuidado ao escolher sua plataforma! Vou explicar como em um prazo de uma semana, fui da mais incrível experiência a um completo pesadelo!

Vamos desde o começo, através de indicações de uma amiga, optei por utilizar o kdp.amazon.com como plataforma para meu livro. E admito que no início, achei show! Era razoavelmente simples, até precisei de uma ajudazinha do Luiz, mas se quisesse quebrar um pouco mais a cabeça, teria sido capaz de fazer sozinha. Além do mais, a questão logística pesou, porque a Amazon me dava a possibilidade de distribuir meu trabalho em diferentes partes do mundo, onde tenho contatos. Não tinha custos para publicação; não tinha custos caso não houvesse venda; e os roylaties de 70% para mim e 30% para eles (atenção: caso eles tenham exclusividade!) me parecia bastante justo.

Até aí, lindo!

Publiquei meu e-book, recebi os links de venda de onde encontrá-lo, divulguei para deus e o mundo! Luiz saiu fazendo a maior propaganda entre os contatos dele também!

Quanto ao livro impresso, enviei todo o material, mas antes de publicar oficialmente, escolhi a possibilidade de receber primeiro um “boneco”, que é um modelo de como seu livro vai ficar. E só depois de aprovar esse boneco, finalmente, abrir o acesso ao público.

Recebi o tal boneco, fiquei no céu, super feliz! Novamente, saí divulgando para o povo todo! Aguardando apenas liberar o link de compra para botar a boca no mundo!

Daí, de repente, não mais que de repente, sem aviso prévio, recebo um e-mail (achei até desnecessariamente agressivo) do KDP Amazon, dizendo que minha conta foi cancelada por eu ter múltiplas contas e uma delas estar atrelada a conteúdo indevido. Além do mais, me tirando o direito de receber o que havia vendido! Vou copiar o texto abaixo integralmente, em inglês:

“Hello,

It appears that you have multiple accounts, which is a violation of our Terms and Conditions, and that this account is related to an account that has already been blocked due to rights issues and violations of our Content Guidelines. 

As part of the termination process, we will close your KDP account and remove the books you have uploaded through our channels from sale on Amazon. Note that you are no longer eligible to receive unpaid royalties for sales that occurred prior to this termination. 

Additionally, as per our Terms and Conditions, you are not permitted to open any new KDP accounts.

If you have any questions, please email us at kdp-account-status@amazon.com.

Regards,

Amazon KDP”

Veja bem, nunca tive múltiplas contas! Cheguei a pensar que talvez, por engano, tivesse pedido outra senha com o mesmo e-mail (coisa bastante fácil de se evitar, né? Até website barato de supermercado te avisa se você já tem outra conta no mesmo e-mail). Mas definitivamente, só tinha uma publicação! É meu primeiro livro! Então, como haveria outra conta bloqueada por violação ao conteúdo? Não existe outro conteúdo!

Em princípio, e pela demora na resposta, fiquei arrasada! Fui do céu ao inferno! E agora? Depois de fazer toda aquela divulgação, perdi tudo! Saí feito louca apagando os links que havia publicado, alterando post em blog, alterando página no Facebook… etc.

Por sorte, ainda não havia divulgado o link para a compra do livro impresso. Porque optei por receber o boneco antes, lembra?

Pois é, daí a história ainda fica mais surreal! Depois deles me banirem, cancelarem minha conta e ficarem com as minhas vendas… recebo um e-mail, como se nada tivesse acontecido, avisando que meu livro impresso havia sido aprovado e que estava à venda. Fui no link checar, e sim, meu livro estava lá, à venda… tudo direitinho… Exceto, que eu, a autora, não tinha nem como acessá-lo para cancelar e tirá-lo de venda!

Lá fui eu escrever novamente para ao KDP! Então, recebi uma mensagem que eles “muito legais”, a partir da minha resposta, resolveram me aceitar de volta! E, de certa maneira, querendo dizer que eu tomasse mais cuidado com meu conteúdo. Abaixo, em inglês:

“Hello,

Thank you for your email concerning the status of your account.

After reviewing your response, we have reinstated your account and we will once again accept your books for possible publication.

Please be advised that all of your submissions must comply with our Content Guidelines for publishing on Amazon: kdp.amazon.com

Upon reinstatement of your account, you must review your catalog and remove any other titles currently available for sale on Amazon that do not comply with the KDP Content Guidelines.  

Please note that your future submissions may be subject to additional review prior to being published. This may result in a delay in publishing.

As a reminder, if any of your submissions fail to comply with our Content Guidelines, your KDP account and you may also lose access to optional KDP services.

For any questions, please reply to this e-mail: kdp-account-status@amazon.com.

Regards,

Amazon.com”

Ou seja, fiquei confusa, eles me baniram por que eu tinha múltiplas contas imaginárias ou por que o conteúdo (que eles mesmos aprovaram para o livro depois de me banir) de repente ficou inadequado?

Mas enfim, tentei entrar novamente na minha conta, depois de me dizerem que estava recuperada, e nada! Enviei novo e-mail para perguntar se havia um prazo para a conta retornar normalmente ou era outro erro.

Finalmente, eles acertaram essa questão e consegui entrar na conta. Ufa!

Só que não…

Porque, até o momento presente, eu tenho acesso à conta, consigo fazer alterações, mas não tenho acesso aos relatórios. Isso quer dizer que não tenho acesso às vendas. Na parte das informações sobre livros vendidos e próximas vendas, sigo bloqueada.

Assim que ficou pior! Porque agora, teoricamente eles dizem que minha conta está “normal”, portanto, preciso seguir com um contrato de 3 meses de exclusividade, sendo que não recebo um tostão do que vendi ou venderei. Vamos piorar mais um pouquinho? Na verdade, por contrato, mesmo se eu quiser cancelar agora, por ser eu quem está cancelando, continuo devendo exclusividade por 3 meses. Resumindo, estou refém do KDP!

E o pior, há outras plataformas de publicação bastante interessantes! Estou prontinha para lançar meu livro em outro lugar! Mas me encontro no limbo, o KDP Amazon não resolve meu problema, nem me deixa livre para buscar minha vida em outro lugar! Pelo menos, nos próximos 3 meses!

Andei pesquisando pela internet e achei casos parecidos, inclusive com as mesmas mensagens padrão. Não sei que raios eles estão fazendo! Estou segura que a relação deve ser ótima com muita gente, mas aqui, divido uma experiência legítima com vocês.

E então, queridos novos autores, vocês tem certeza que querem correr esse risco?

PS: Finalmente, após muito trabalho, reclamações e troca de e-mails… aparentemente, tudo resolvido! Voltei a ter acesso às vendas e, o que havia vendido antes de todo o problema acontecer, retornou à minha conta. Ainda quero aguardar um pouco para celebrar, afinal, gata escaldada…

Se vou retomar a confiança na plataforma, só o tempo dirá. De toda maneira, tenho 3 meses para tomar essa decisão. Aconselho a quem quiser, ainda assim, fazer parte do KDP Amazon, que pelo menos aguarde um pouco para ver se tudo funciona bem com sua conta, antes de optar pela exclusividade. Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém!

A gaiatice nos bastidores do livro

Todo marinheiro de primeira viajem paga mico, é fato! E, francamente, acho que essa parte do caminho é, boa parte das vezes, até mais divertida do que o resultado final. Pelo menos, depois que o furacão passa. Mas vou compatilhar a experiência enquanto a história ainda está fresca.

Então, há anos eu escuto: por que você não escreve um livro? E, veja bem, não conto isso como reclamação, considero um belo incentivo, sinal que essas pessoas gostam do que escrevo ou de como escrevo. A família agradece! Porém parece que simplesmente você senta e escreve, pronto!

Para mim não funciona assim! Eu realmente preciso de algum tipo de inspiração. Não tenho histórico de jornalista, que senta com uma pauta e dá conta do recado. Preciso ter a ideia de uma história na cabeça antes de “colocar no papel”.

Ah, mas você tem centenas de histórias prontas aqui no blog, por que não fazer um livro com elas? Talvez um dia eu faça. Acho que hoje há ferramentas que posso usar sem precisar de um grande investimento financeiro. Mas isso é relativamente recente, sou blogueira dinossaura! Até o momento, não me fazia nenhum sentido gastar um dinheirão para lançar um livro, que nem sei onde eu venderia fisicamente, para pessoas que podiam ler de graça na internet o que eu estava cobrando. Não sei se para alguém isso faz sentido, não me fazia nenhum!

Bom, mas um dia eu tive uma ideia para uma ficção, o tal livro Fome, que falei no post anterior. Resolvi fazer igual quando comecei o blog, escrevia para mim mesma em um arquivo Word. Algum dia… quando estivesse pronto… se achasse que ficou legal… buscaria uma possibilidade de divulgação.

Acontece que esse dia chegou, terminei o livro e os recursos tecnológicos razoáveis para publicação por conta própria já existiam. E eu queria ser escritora (também). Não tinha mais desculpa! Bora botar a cara a tapa! Já dizia o grande filósofo, Vicente Matheus, quem está na chuva é para se queimar!

Eu tinha lido e relido tantas vezes o manuscrito que nem enxergava mais nada! Lia por osmose! Tenho pavor de escrever errado e não dá para contar apenas com corretores ortográficos. Daí, toca a pensar, quem eu conheço que gosta de ler e estaria dispost@ a fazer algum tipo de edição para mim. E a vergonha de pedir para lerem?

Não é que tivesse vergonha que alguém lesse meu livro, o que seria de uma incoerência brutal. Mas era constrangedor pedir para alguém “não profissional” editá-lo, porque não queria deixar ninguém na saia justa achando que eu buscava elogios. Não estava preocupada se a pessoa ia achar bom ou ruim, isso é uma questão de gosto e estilo. Queria mesmo era alguém que olhasse com a visão crítica e buscasse erros, ortográficos, de lógica, de clareza etc. E precisava ser alguém que eu confiasse em enviar uma história ainda não registrada.

Minha prima e duas amigas toparam o desafio e tiveram a boa vontade, paciência e até coragem para fazer suas observações. Achei ótimo! Era o que precisava! Pessoas com perfis diferentes e suas interpretações. Por último, Luiz releu também. Ele devia estar de saco cheio de ler o mesmo texto outra vez e cego como eu, mas fez um esforço final e foi bem detalhista em seus comentários. Nem tudo eu concordei, normal, porém em geral, foi um exercício muito legal de exposição às críticas, absorção do que pudesse adicionar e reforço de conceitos que tinha para cada personagem. Acredito que, mesmo as pequenas mudanças, elevaram a qualidade do conteúdo para um nível que sozinha teria sido difícil alcançar. Principalmente, sendo meu primeiro livro.

Ajuda ter boa tolerância a críticas e eu tenho, não tomo como pessoal (a menos que o indivíduo deixe bastante claro que só quer torrar meu saco, mas daí é outra coisa). Quanto às críticas normais, sempre escuto (de verdade!), se acho que o ponto é válido, me esforço genuinamente para melhorar; se não concordo, ouço, tento entender, descarto sem mágoa e não me incomoda. Quando existe respeito, concordo em discordar com muita tranquilidade.

Então, tá, eu já tinha o manuscrito finalizado! Maravilha!

Caraca, e a capa? Como é que vou fazer? Não queria usar uma imagem disponível pela internet, porque as imagens públicas não tenho exclusividade e também nunca usaria uma imagem sem autorização. Será que desenho… será que peço para algum amigo artista plástico fazer… mas eu sou artista plástica! Na verdade, até comecei a trabalhar aqui em Londres fazendo “set design” para revistas! Fala sério, Bianquita, se vira aí!

Juro, no mesmo momento que tomei a responsabilidade, baixou a ideia para uma foto de capa instantaneamente. Só que não sou tão boa fotógrafa e precisava de uma qualidade melhor que uma fotozinha de celular, né? Lá vamos nós contar com os amigos outra vez! Meu vizinho é fotógrafo profissional e um amigão, pedi socorro, se eu montar o cenário, você fotografa para mim? Ele topou na hora e foi super parceiro, trouxe iluminação, fez um monte de ângulos e fez a edição da foto. Achei linda e super alinhada ao livro!

Mas aí ele me lembrou um outro detalhe, o título do livro e o nome da autora, Yo Myself, precisavam constar também na foto. Parece um detalhe fácil, mas tem milhões de fontes para você eleger! E dá um certo trabalhinho técnico colocar essas fontes sobre a foto.

Depois até descobri que as plataformas de publicação também podem te ajudar a confeccionar a capa, tanto com imagem, quanto modelos, fontes etc. Mas é o tal negócio, você tem o direito de usar, mas não te pertence. Para quem não tem nenhuma habilidade, nem amigos, nem recursos técnicos, é uma opção bem razoável. Entretanto, se você tiver qualquer problema com a plataforma ou quiser simplesmente mudar de canal, você perde sua capa. Achei bem importante ter uma identidade visual minha.

Sim, claro que contei com Luiz para me ajudar nessa parte técnica! Acho até que conseguiria fazer uma capa sozinha, mas nunca teria ficado tão boa e com a aparência tão profissional. Modéstia às favas, o resultado ficou show!

Fotografia: Claudio Harris

Pois é, só que tem a capa… e a contracapa! Para isso, precisava de uma descrição e uma biografia da autora. A parte da descrição, era de se esperar, vamos combinar, o mínimo que você precisa ter é uma ideia resumida da sua história. Por um lado, preparando o leitor para o que vem, mas com cuidado para não entregar o jogo.

Até aí, beleza, mas e a parte da biografia? Olhei para a cara do Luiz com meu sorriso sarcástico, porém com dúvidas sinceras, e agora, como vou resumir o que eu sou? Se eu for dizer tudo que fiz vai virar um samba com um monte de coisas diferentes! Vão achar que sou uma louca! Ex-consultora de negócios, artista plástica, chef de cuisine, blogueira, escritora, percurssionista, hostess de Webex, já tive uma página de venda para artigos de gatos, ultimamente tenho trabalhado como set designer… enfim, a lista ficaria maior do que a descrição do livro!

Tá bom… tá bom… vamos nos concentrar no que poderia ser relevante!

Aí Luiz achou que seria importante eu colocar o contexto em que escrevia, porque o leitor gosta de entrar nesse imaginário do autor. A sugestão dele foi colocar (juro!): Bianca mora em Londres com seu marido e dois gatos e escreve com vistas para o Tâmisa.

Gente, eu ri de chorar! Aliás, estou rindo agora sozinha só de lembrar!

Ele, nesse momento rindo também, defendendo que não era mentira, a gente realmente mora em frente ao rio e a vista é bonita. Ok, mas essa frase não seria exatamente a minha cara, né?

Tentei adequar a algo mais próximo à realidade: Bianca mora em Londres com seu marido e dois gatos e escreve com vistas para o Tâmisa, logo após fazer a faxina do seu banheiro e cozinhar o jantar… Pensei em fazer uma foto vestida com um casaco de peles, escrevendo no meu laptop, em frente ao Tâmisa, lógico! E no fundo da foto, uma taça de champagne ao lado de um aspirador de pó! Mas daqueles aspiradores sem fio, porque sou muito moderna!

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos!

Depois de rir muito, acho que consegui chegar a um resumo bem honesto, acrescentando meu contexto de vida, sugestão do meu marido, mas de uma forma mais natural. Ficou assim: Bianca Rocha nasceu no Rio de Janeiro, em 1969. É formada em Administração de Empresas pela PUC-RJ, pós-graduada em Administração Financeira pela FGV-RJ e em Arte Contemporânea pela Universidad Complutense de Madrid. Navegou por várias áreas profissionais e morou em diversos países como, Brasil, Estados Unidos, Espanha, França e Inglaterra. Sempre foi apaixonada por gastronomia. Começou a escrever em 2005, quando morava em Madri, o blog “Buraco da Fechadura”. Em 2019, publica sua primeira ficção, o livro Fome. Atualmente, Bianca mora em Londres com seu marido e dois gatos.

E agora que já terminei de escrever com vistas para o Tâmisa, deixa eu correr para fazer o jantar! Mas que fique claro que a casa não estou afim de limpar hoje não, fica para semana que vem! Cadê meu casaco de peles?

Fome, minha primeira ficção, e os bastidores de como publicar um livro!

Fotografia: Claudio Harris

Lá se vão quase 16 anos e foi em um blog que comecei a escrever publicamente. Às vezes, me assusta pensar em quanto tempo já se passou! O velho clichê do parece que foi ontem! Durante esse período, muitas pessoas me perguntavam por que eu não escrevia um livro.

A resposta era bastante simples, escrever um livro me custaria caro! Não tenho editora e não conheço ninguém na área. Teria que publicar arcando com todas as despesas e, ainda por cima, precisaria pensar na logística de distribuição.

Ainda assim, há uns 6 anos, tive a ideia de uma história para escrever. Minha primeira ficção! Queria fazer algo diferente do blog, se era para mudar de canal, por que não navegar em outra dimensão?

Escrever uma ficção era libertador e, ao mesmo tempo, um desafio. Libertador, no sentido de poder me tornar qualquer pessoa sem os filtros dos meus próprios valores, pelo menos em teoria. E um desafio em conseguir de verdade me molhar nessas águas, arriscar na criação, ser capaz de imaginar e sentir na pele experiências completamente fora do meu universo.

Entretanto, até o ano passado, terminar o tal livro não era uma prioridade. Era um projeto que estava lá, aguardando uma oportunidade. Mas pelo meio de 2018, achei que ou resolvia esse assunto ou esquecia de vez! Estabeleci um prazo para acabá-lo até o final do ano. E sabe como é, quando realmente direcionamos nossa energia, as coisas começam a acontecer. E, no fim de 2018, terminei o bendito livro!

Então, tá, né? Com o texto pronto na mão, como é que eu fazia agora? Achava fundamental que o livro tivesse algum tipo de edição. Porque eu já estava cega para eventuais erros!

Parti para solução caseira, pedi a minha prima, Fabrina, e duas amigas, Eliana e Cláudia, para lerem para mim. Sem a preocupação de gostar da história, o objetivo era pegar o que poderia haver de errado em ortografia, em ordem lógica, em possibilidades de interpretação… enfim, o que eu já não tinha mais condições de enxergar. E o Luiz, meu marido, era o “me ajuda em tudo aí, por favor”! Na alegria e na tristeza… na saúde e na doença… nos perrengues diversos… Entre concordâncias e discordâncias, achei essa parte do processo fundamental. Porque trouxe novos olhares e toques interessantes. Mesmo o que eu não concordava, acabava por reforçar as ideias, ou seja, usando ou não as observações, considero que no conjunto me adicionou e elevou a qualidade do trabalho.

Ok, legal… mas, e aí? O que fazer para botar o bloco na rua?

Recomendo que você registre seu livro na Biblioteca Nacional. Sei lá, seguro morreu de velho… Dessa forma, você garante que ninguém use sua ideia sem te recompensar por isso. A burocracia é pequena, simples e custa apenas R$20 (em fevereiro de 2019). Achei um guia passo-a-passo muito bom no blog Papo de Autor.

Você também precisa pensar em uma capa. Por favor, não saia copiando imagens pela internet. Principalmente, porque é legal respeitar o direito das outras pessoas. Você quer que respeitem o direito à autoria do seu livro, certo? Imagina ele copiado por aí, em nome de outro! Com a imagem é a mesma coisa, se está lá, alguém fez. Além do mais, o uso indevido de alguma imagem pode te dar sérios problemas (merecidos!). Resolvi eu mesma criar um “cenário” e tenho a sorte de ser amiga de um fotógrafo profissional excelente, o Claudio Harris, que fez e editou a foto para mim. A parte curiosa é que, no meu caso, ainda pude literalmente jantar a capa!

Pergunta daqui, pergunta dalí, fui parar no kdp.amazon.com. Cheguei a publicar por lá, gastei a maior energia com divulgação dos links, vendi alguns livros… e de repente, me chegou um email dizendo que eu tinha múltiplas contas no KDP, o que era irregular, que uma das minhas contas era atrelada a outra bloqueada por conteúdo impróprio e que por isso minha conta havia sido cancelada, os links de venda saíram do ar e não pagariam meus royalties dos livros vendidos. Lindo, né? Eu não tinha outras contas, nunca tive conta bloqueada antes e é meu primeiro e único livro. Obviamente é um erro, mas até provar que focinho de porco não é tomada… E, pesquisando pela internet, li sobre outros autores que tiveram exatamente o mesmo problema! Assim que, se fosse você, evitaria trabalhar com eles ou tome muito cuidado. Pessoalmente, o que achei mais desonesto de tudo foi eles embolsarem os meus royalties dos livros vendidos!

Há outras alternativas e agora estou buscando novas possibilidades, aqui você encontra algumas. E se estiver no Brasil, há plataformas nacionais também, como por exemplo, a Saraiva. Enfim, busque a que melhor te atenda. Estou inclinada a usar o Smashwords.

Livros publicados recebem um ISBN (International Standard Book Number), que é uma identificação. Esse sistema identifica numericamente os livros segundo o título, o autor, o país e a editora, individualizando-os inclusive por edição. Se você fizer direto pela Amazon, eles automaticamente atribuem um ISBN para você.

Estou aprendendo um monte de coisas! Apanhando um pouco, mas ainda assim, adorando!

A parte da divulgação é um pouco mais complicada. Pessoalmente, uso os recursos que posso, Instagram, Facebook, boca-a-boca, peço para amigos, escrevo post no blog… Luiz está ajudando bastante também. E, aproveitando a ocasião, se puder divulgar meu livro, a família agradece!

Fotografia Claudio Harris

Fome é uma ficção do gênero suspense e mistério. É um livro que gera sensações tão incômodas como o título sugere. Trabalha com a ideia de que não existe um ser humano totalmente bom ou totalmente mau. Há um padrão de comportamento e regras sociais estabelecidas, mas quando as pessoas são levadas a uma situação limite é difícil ter certeza para onde a balança pesaria. Tendemos a julgar os outros por esses padrões e por partes de informações que temos acesso, mas na privacidade dos indivíduos, tudo pode acontecer, desde situações absolutamente rotineiras a completos absurdos. Então, se pudéssemos entrar na realidade de cada um, conhecer seus pensamentos e necessidades mais íntimas, será que julgaríamos da mesma forma? E seria justo julgarmos os valores alheios? Quem teria o direito de estabelecer o que está certo? Para repensar esses e uma série de outros questionamentos éticos, inclusive temas considerados tabus, os três personagens principais do livro, Tara, Adroa e Zao, são levados a passar por situações extremas de violência, abusos ou mesmo amor, e tomam suas decisões.

Para quem acompanha o blog, aviso que é bastante diferente do que vocês encontram por aqui. Começa por ser uma ficção, oposto do meu blog que é autobiográfico. Em alguns momentos do livro, utilizo experiências pessoais em personagens diferentes, até porque posso falar com mais propriedade sobre assuntos conhecidos. Mas o que os personagens fazem com isso… é problema deles!

Escrevê-lo não foi simples. Levei a sério o exercício de entrar na cabeça dos personagens e tentar agir de acordo com as suas convicções e valores. Fome é narrado em primeira pessoa, por uma das personagens principais, então, precisei realmente ter esse posicionamento de me colocar no lugar de outra pessoa. Houve um lado muito bacana que foi conseguir ver diferentes prismas de uma mesma verdade. Mas também houve um lado incrivelmente duro, porque há momentos de muita violência ou perversão onde ficava até difícil dormir depois. Por não ter imagens, os temas não podem ser apenas sugeridos, preciso ser muito descritiva e a imaginação pode ser pior do que uma cena pronta de filme, que já haverá passado por certa censura.

A linguagem é direta e, às vezes, até literal. Mas houve um trabalho grande de pesquisa e há uma série de mensagens nas entrelinhas. Portanto, existe mais de uma maneira de interpretar a história. Mais do que respostas certas, o que me interessa são as perguntas, é o questionamento, a possibilidade de ver situações de uma outra maneira. E, se me permitirem o abuso do seu tempo, recomendaria que o livro fosse lido mais de uma vez. Tenho certeza que parecerão livros diferentes. Não é longo, não é difícil de ser lido e é um livro para adultos.

Aos que se aventurarem a seguir caminho parecido, conto que a realização de ver seu livro publicado é fantástica! Por mais que ele estivesse pronto dentro do meu computador, a sensação de entrar em um website e ver sua criação pública e disponível é completamente diferente. Fiquei feliz só de saber que estava lá! Comemorei a primeira venda como se fosse algo extraordinário! Porque, para mim, foi.

Essa experiência de escrever tem me trazido um enorme aprendizado em diferentes perspectivas, ampliou meus horizontes. Escrever especificamente uma ficção, me ensinou ainda mais a me colocar no lugar do outro e tenho muito orgulho dessa possibilidade de empatia. Traz um lado de humildade, por entender que nunca serei a dona da verdade e outro lado de poder, por ser capaz de ver essa verdade com cores diferentes. Não sei se escrever me fez uma pessoa melhor, mas definitivamente, me fez maior.

2019, venha que quero te usar!

Quando acabava 2017, onde iríamos passar as festas de final de ano era uma completa incógnita! Mas, apesar do suspense, como de costume, deu tudo certo! Verdade que em um par de semanas, mudei de país com dois gatos, organizei casa, hóspedes e festa. Só para variar um pouquinho, né?

Esse ano não tínhamos grandes surpresas, decidimos logo passar em casa, novamente com hóspedes, dessa vez agendados há meses, e os amigos que puderam. Não queria me estressar com viagem, nem com transporte público, nem com grandes decisões, nem com mudanças, nem com nada! Foi ótimo!

A “Ilha dos Cachorros” (Isle of Dogs) não decepcionou! Perto da meia-noite, fomos para o pier que fica logo em frente ao apartamento para abrir as champagnes e assistir o pipocar de fogos pela nossa “orla”. Quem não tem Copacabana… se vira pelo Tâmisa mesmo, e vamos combinar, nada mal! Adorei!

A festa foi bem família e tranquila. Os excessos se restringiram à orgia gastronômica e etílica, porque, afinal de contas, alguém sair da minha casa com fome é ofensa gravíssima! Ano novo tem que começar com tudo de direito! Onde há fartura, miséria não encosta! E que assim seja!

Não me queixo do ano passado. 2018 teve seus sustos, mas não foi um ano ruim para mim, simplesmente, passou voando como um cometa, mas apesar dos pesares, foi marcado por um tipo de paz que eu precisava muito. Eu precisava descansar, dar um tempo, focar no meu umbigo, não fazer nada, não ter expectativas muito altas… só queria ficar sossegada! Mas já fiquei, passou! Pronta para a pauleira novamente!

Esse ano promete! Luiz começou em emprego novo (ainda por Londres, muita calma nesse momento), temos uma super festa de Bodas de Prata programada (sim, galera, esse ano faremos 25 aninhos de casados), estabeleci várias “resoluções” que espero cumprir pelo menos em parte e, em novembro, farei 50 aninhos! Fala sério, estimulante!

Assim que estou otimista com os próximos acontecimentos! Eu amo finais e inícios de ano e sinto que esse será um daqueles anos especiais! Bom, se não for originalmente, a gente vai fazer com que ele seja! Que 2019 nos traga muitas oportunidades, que consigamos realizar planos e sonhos, que nada nos falte, principalmente saúde! Seguimos aqui, vivos, juntos, firmes e fortes. O resto, a gente dá um jeito!

Feliz Ano Novo!

O primeiro ano do resto da minha vida!

Cheguei a Londres no meio de dezembro de 2017, depois de uma verdadeira saga contada por aqui. Quase que 3 anos exatos passados no Brasil e, finalmente, fiz o caminho de volta para as bandas européias. Bom, depois do Brexit, mais ou menos européias, mas tudo bem, até o momento, não nos afetou tanto.

Acho que de todas as sensações que tive nesse recomeço, definitivamente, a principal foi de alívio, em todos os sentidos. Não digo que tenha sido fácil, porque tivemos (e sei que teremos) nossos famosos episódios de montanha-russa, mas em geral, tenho aquele sentimento de conseguir descansar um pouco, tomar algo de fôlego. Nunca sabemos quando será nossa próxima tempestade, mas sei lá, por que também não acreditar que o pior pode já ter passado. Quem sabe agora possa ser a melhor parte da minha vida.

Durante esse período, precisei retornar 2 vezes ao Brasil. Sim, caríssimos, em menos de um ano! A primeira delas, em fevereiro, foi muito bacana e importante, precisava fazer meu ritual de encerramento de ciclo de uma maneira positiva. E fiz. Talvez tenha sido a única vez que fui ao país para me divertir e aproveitar na última década.

Em junho, precisei ir novamente ao Rio. Em princípio, o motivo seria bem legal, o nascimento de meu sobrinho. Aproveitaria para ver o apartamento em São Paulo e resolver algumas pendências. Mas não foi assim, na verdade, foi um completo pesadêlo!

Para começar, precisei adiantar minha viagem. Minha mãe havia feito uma cirurgia de catarata e deu alguns probleminhas. Nada que fosse exatamente grave, mas porque era na vista deixou ela muito nervosa, achando que ia ficar cega, de maneira que as informações chegavam para mim meio fora de proporção. Quer saber, fui um pouco antes e agendei com uma oculista que gosto muito, para eu ter uma opinião mais clara. Esse, que teoricamente era o problema grave, provou-se o menor deles! Sim, era um problema, a literal história de que pimenta nos olhos dos outros… mas foi muito mais por abalar minha mãe emocionalmente do que pelo problema em si. Era só uma questão de paciência e acompanhamento. Tudo muito bom, tudo muito bem! Após a consulta com a minha oculista de confiança, entendi melhor o que estava acontecendo, também fui com minha mãe no oculista dela e achei ele bastante correto, enfim, sabia que resolveria. Como se resolveu ao longo dos meses.

Daí, aproveitei que estava no Rio mesmo e tive a infeliz ideia de ir ao mastologista que me acompanhava dar uma checada nos meus últimos exames. Havia me aparecido um cisto suspeito na mamografia que fiz em Londres. Fiz um ultrassom para confirmar, em outro laboratório, mas ainda em Londres e tudo estava ok. De maneiras que fui fazer a consulta mais por desencargo de consciência e para perguntar se não seria bom fazer uma punção e ficar livre dos cistos maiores. Assim não me apareceriam nos próximos exames.

Estava tranquila, o susto com o cisto suspeito havia sido resolvido no mês anterior com o ultrassom. Isso foi em uma terça-feira pela manhã, meu sobrinho nasceria no mesmo dia, à noite. Fui com minha mãe à consulta.

A partir daí, a coisa ficou surreal. O médico, vendo meus exames, começou a falar em mastectomia. Oi? Pedi para minha mãe sair da sala e eu poder conversar com mais clareza. Exatamente, ele começou a dizer que eu deveria estar com câncer, mas era uma cirurgia relativamente simples, eu retirava as mamas e na mesma cirurgia já colocava o silicone… 

A minha sorte é que não surto nesses momentos, meu primeiro instinto foi tentar entender o que estava acontecendo e me restringi a fazer perguntas práticas. Mas como assim mastectomia? O cisto é pequeno, não sabemos ainda se é malígno e a ultrassonografia diz não haver nenhuma alteração significativa em relação aos últimos exames (que ele mesmo havia confirmado anteriormente que não eram preocupantes!). É mas, as mamas já estão cheias de cistos… Ué, e cisto vira câncer? Não, mas… Um grilinho no meu ouvido berrando, essa história não te soa meio comercial? Tipo, mas toda mulher não quer colocar silicone mesmo? Entretanto, a possibilidade da doença era real e o histórico da minha família não ajuda. Bom, doutor, não moro mais no Brasil, nem tenho plano de saúde aqui. Se eu tiver que tratar, será em Londres. Então, vamos fazer o seguinte, me encaminhou para realizar uma ressonância das mamas. É um exame feito com contraste e bem definitivo. Na minha cabeça pensando, esse não deveria ser o primeiro passo antes de me apavorar?

Na recepção, do lado de fora do consultório, foi a cerejinha do bolo. O médico virou-se para minha mãe, aquela que pedi para sair da sala justamente para não ficar nervosa, e disse: está com todo jeito de câncer.

Ao invés de marcar a ressonância por telefone, considerando o tempo limitado que tinha, corri direto para o laboratório, expliquei a situação e acredito que também por ser particular e não por convênio, me encaixaram no mesmo dia. Eu e minha mãe com aquelas caras de nádegas esperando o exame. O resultado deveria sair em uma semana, mas talvez meu médico conseguisse recebê-lo antes.

Nesse clima tão feliz, fomos para maternidade esperar meu sobrinho nascer. Minha vida é cercada por dualidades, assim que não posso dizer que estava bem, mas tentei pensar em outras coisas mais positivas e aproveitar o momento. Meu sobrinho nasceu grande, forte e saudável! E minha sobrinha, acostumada ao posto de rainha absoluta da família, tinha todos os ciúmes possíveis e imagináveis do irmão. Essa parte, até que foi divertida.

Chegamos em casa tarde e estava exausta! Minha mãe, checando seu passaporte, se poderia vir para Inglaterra quando ficasse boa dos seus olhos. E eu pedindo calma, não sabemos o que vai acontecer. Nem tenho certeza do que tenho ainda!

No dia seguinte, descansando um pouco na cama, entra minha mãe, aos prantos, no quarto, dizendo que nós duas estávamos com câncer ao mesmo tempo! Como é que ia ser? Havia ela também feito alguns exames e seu médico acabara de avisar que tinha uma lesão no seu pulmão, bem pequena, mas que precisava ser checada. Lá fui eu ligar para o médico dela para entender do que ela estava falando. Felizmente, ele é bem cauteloso e calmo, não deu nenhum diagnóstico definitivo, mas com toda razão, não podia fazer de conta que nada estava acontecendo. Nos indicou um outro médico especialista para conversarmos.

Sim, de um dia para o outro, nosso mundo inteiro virou pelo avesso! Estava muito difícil pensar. Dava aquela vontade insana de perguntar ao universo, falta mais nada não? Mas e o medo de aparecer mais alguma coisa!

Luiz me apoiando à distância, buscando informações de quais os passos deveríamos tomar em Londres, no caso de precisar me tratar. Conseguiu marcar uma consulta com meu médico “de cabeceira” para logo após minha chegada prevista. 

Conseguimos marcar uma consulta com o médico do pulmão da minha mãe. Expliquei a importância de estar com ela durante a consulta e que, em breve, viajaria para o exterior. Ele abriu uma brecha em sua agenda e nos atendeu. Foi uma consulta tranquilizadora, não no sentido de descartar o problema, mas na forma de tratá-lo. Minha mãe se acalmou um pouco mais também, porque entendemos que, na pior das hipóteses, se fosse uma lesão malígna, a cirurgia seria feita por robô, é pouco invasiva e curativa. Ou seja, eles retirariam uma pequena parte do pulmão e é vida normal, sem quimio nem radioterapia. Pediu também um exame tão definitivo quanto o meu, em palavras extremamente leigas, as células cancerígenas gostam de açúcar. Então, eles injetam um tipo de contraste de glicose, que faz com que essas células cancerígenas absorvam e brilhem. Enfim, a grosso modo, se brilhar é malígno.

Contando agora, parece tudo muito ordenado. Mas na prática, as coisas foram acontecendo totalmente emboladas e com emoções diferentes em paralelo por situações extremas. No meio desse furacão, estava tentando entender o que eu tinha e como proceder. Se, por exemplo, eu deveria atrasar minha volta para Londres e fazer uma biópsia no Brasil… se o resultado do meu exame sairia antes ou depois de viajar… meus exames anteriores estavam presos no laboratório que fiz a ressonância… e minha mãe, se precisasse operar, como seria? Onde estaria? Tudo muito confuso.

E, a propósito, que fique claro, não, não tenho a menor vontade de “aproveitar para colocar silicone”, não me passa pela cabeça, estou muito satisfeita com meus pequenos peitos normais!

Passei uma noite em claro pensando, levantei séria, mas com muita clareza e um plano. Primeiro, se estivesse com câncer: foda-se, encaro e não vou morrer disso! Se for malígno, ainda é muito pequeno, o que tivesse que fazer, faria. Em outras palavras, entubei. Absorvi o golpe. Não estando mais tonta, minha lucidez falou mais alto. Eu tinha exames de anos anteriores, feitos no Brasil, onde nada de errado apareceu e o laudo era integrado mamografia e ultrassom em português. Eu tinha uma mamografia feita em um laboratório em Londres, onde aparecia algo suspeito, mas nada definitivo, porque eles compararam unicamente com a imagem da mamografia anterior, se muito, porque tinha praticamente certeza que não analisaram o laudo, afinal era em português. Finalmente, consegui em Londres outro mastologista (brasileiro) que fez o ultrassom e comparou tudo aos exames anteriores e me disse que não havia alterações significativas, nem qualquer motivo para me preocupar. Cistos eu tenho, vários! Mas isso nada tem a ver com câncer! Então, como raios alguém pega esses mesmos exames e me tira da cartola que preciso fazer uma mastectomia de ambas as mamas? Quer saber, tenho exames de todos os lados, com idiomas e talvez com critérios diferentes, estou comparando chocalho com banana. Vou pedir novos exames, outra mamografia e outra ultrassonografia, no mesmo laboratório dos meus exames anteriores no Brasil. Assim, comparo chocalho com chocalho e, mesmo havendo algum problema, pelo menos há uma coerência, uma uniformidade no diagnóstico para iniciar um tratamento em Londres. Porque do jeito que estava, era até difícil explicar ao meu futuro médico o que eu tinha!

Só havia um probleminha, esse laboratório era em São Paulo e estava no Rio. Dane-se, vou. Tentei marcar o exame em São Paulo, mas tinha outro detalhe, precisava de um pedido médico, mesmo que fosse feito sem plano de saúde. Não queria pedir ao mastologista que me atendeu, então lembrei da minha ginecologista em São Paulo, que também é minha amiga. Foi a melhor coisa, porque ela acabou conseguindo me encaixar em uma médica hiper fera em exames e diagnósticos. Minha ginecologista dividiu comigo que, no passado, ela havia sido recomendada a fazer uma mastectomia e essa médica descobriu que ela só tinha um cisto de gordura, nada demais. Ou seja, mulheres, atentas! Não surtem porque apareceu um cisto e busquem outras opiniões!

A única coisa é que só consegui marcar essa consulta, em São Paulo, no dia anterior da minha volta para Londres, foi tudo muito corrido. Exatamente no dia que minha mãe também faria o exame dela no Rio. Não pude acompanhá-la, nem ela a mim.

Só de ter esse caminho e essa aceitação me fez sentir mais forte. Não estava feliz, claro, mas tinha uma direção e as coisas começaram a clarear. De certa forma, me surpreendi com minha própria resiliência.

Um dia antes de ir para São Paulo, fazer a consulta com a nova mastologista, saiu o resultado da minha ressonância de mama: apenas cistos! Toda essa loucura e eu só tinha cistos! Não sabia se celebrava, se me aborrecia, uma mistura completa de sensações. Mas certamente, a principal sensação era de alívio! De toda maneira, resolvi manter a consulta com a médica de São Paulo, afinal, chega um momento em que você não sabe bem em quem ou o que acreditar! Encurtando a história já longa, a consulta com ela foi ótima, super detalhada e não tinha nada que indicasse remotamente câncer, muito menos uma mastectomia!

Mas essa certeza, só tive às vesperas de voltar para Londres. Assim que, por mais que tentasse dividir minha cabeça e meu coração em departamentos, não aproveitei o suficiente a alegria da chegada de um sobrinho, nem tive a paciência necessária de administrar os ciúmes da sobrinha. Fiz o que deu, no limite da minha capacidade! Porém, tenho a consciência que essa é uma sensação só para mim, eles não terão essa memória.

O resultado do exame da minha mãe saiu pela manhã e meu voo era à noite. Lembra que ela fez um exame que se brilhasse era malígno? Pois é, a bosta do exame brilhou. O meu não era câncer, mas o dela era. Embarquei para Londres com essa notícia na bagagem. 

Voltei para casa sem a sensação de missão cumprida. Afinal, havia deixado um rabo gigante para trás! Não sabia se teria que voltar ao Rio ou não, por causa da minha mãe. Mas a verdade é que resolvi aceitar que sou humana e tenho meus limites, preciso cuidar de mim ou não vou ter fôlego para cuidar de ninguém. Em uma das nossas conversas, quando tudo indicava que ambas estávamos doentes, num acesso de preocupação e responsabilidade materna do: como você vai tratar disso lá sozinha e eu não posso ir! Minha resposta foi direta e mais cortante do que gostaria, tenho força suficiente para vencer essa merda 3 vezes! O câncer não me derruba e não vou morrer disso, a única que pode me derrubar é você, se cair por minha causa, porque daí eu caio junto. Depois até me arrependi de ter dito, foi um momento de cabeça quente.  Adianto que um par de meses depois, deu tudo certo com a cirurgia da minha mãe e essa história é mais dela que minha, conto apenas para encerrar esse pedaço. Tenho a impressão que uma parte dela ter demonstrado tanta positividade, foi sua maneira de tentar “me ajudar” a não ficar tão preocupada do lado de cá. Talvez ela tenha entendido meu momento. E quer saber, ajudou mesmo! Outra parte, será por seus próprios motivos e cabe a ela contar ou não. Do meu lado, só posso dizer que me encheu de orgulho e admiração por sua força e coragem.

Nem sei descrever o que foi chegar em casa, brincar com meus gatos e encontrar Luiz! Não quero nem imaginar precisar passar por tudo isso sem o apoio de um parceiro como ele. Acho que, de modo geral, sei aproveitar a vida e as oportunidades que ela me apresenta. Mas não há como negar que quando passamos por essas situações críticas, repensamos nossa postura, nossos hábitos, nossas prioridades… Ainda por cima, considerando que já estou mesmo em uma fase de reavaliação da própria identidade, essa avalanche de sentimentos teve um efeito viral! Apesar dos pesares, acho que o saldo foi positivo, tem me ajudado a colocar tudo em outra perspectiva.

E contei toda essa história, porque facilita entender o contexto de alguns caminhos que tenho escolhido e posturas que tenho assumido.

Faz quase um ano que cheguei ao lado de cá do oceano. Não sei se ficaremos mesmo por Londres, mas sinto que agora está decidido e claro que meu lar é nessa margem direita, pelas bandas européias. Está na hora de começar a achar ao menos um vaso grande para minhas raízes aquáticas. Talvez precise podá-las um pouco. Quero sossegar,  me preparar para o outono que estou vivendo, cortar os galhos secos.

E não conto isso triste, nem contente, só aliviada, em paz. Podendo ser quem sou e podendo mudar o que não quero mais ser, eu posso! Estou pronta para viver o novo resto da minha vida!