A cerimônia japonesa do chá

Há alguns meses, só para variar um pouquinho, tivemos hóspedes em casa . Um casal com a filha, moram nos EUA. Essa minha amiga é de origem japonesa e, por coincidência, tinha uma prima que não via há muitos anos morando aqui em Londres. A prima veio deixar alguma coisa aqui em casa para ela e, acabei a conhecendo rapidamente.

Mas claro, que a convidei para entrar e conversamos um pouco. Pelo que entendi e, para ser sincera, nem tinha entendido tão bem assim, essa prima e o marido eram como representantes da cultura japonesa e ofereciam cursos sobre a cerimônia do chá por essas bandas.

Fiquei muito curiosa a respeito e, na minha ignorância, perguntei se a gente poderia ir um dia a uma dessas cerimônias, no esquema como se fosse ir até lá e tomar um chá da tarde, da mesma maneira que iríamos em alguma casa comercial especializada.

Ela explicou mais ou menos que não era bem assim, que a casa era um tipo de escola e, eventualmente, eles faziam alguma demonstração. Novamente, não entendi muito bem, mas aceitei. Demonstrei meu interesse e se surgisse alguma oportunidade, ótimo! Sem grandes expectativas, também não queria ser invasiva. Sei lá, quando a gente não conhece tão bem a cultura, e eu não conheço, poderia estar dando alguma rata, né? Melhor não forçar nada.

Até que há cerca de um mês ela me procurou pelo whatsapp e fez o convite para que participássemos de uma sessão. Era um dia em que os alunos do marido estariam colocando em prática seus dotes como anfitriões. Achei o máximo! Claro que quero!

Perguntei se tinha algum tipo de preparação, alguma coisa que eu precisava saber, alguma vestimenta definida, enfim, mas não havia muitos detalhes. Para mim, tinha um certo “que” de mistério e resolvi também não me preocupar, simplesmente estaria aberta e atenta ao que viesse. Infelizmente, não podia fotografar, assim que adianto que não tenho imagens.

Muito bem, aviso adicionalmente que contarei minha experiência como leiga. Descobri que a cerimônia do chá não é simplesmente um tipo de refeição, é bem mais amplo, é uma filosofia de vida. Portanto, não seria em algumas horas de um domingo que eu teria alguma legitimidade para falar profundamente do assunto. Mas achei tão bacana que vale o registro.

Começa logo na entrada, você tem a sensação de ter passado em algum tipo de teletransporte, onde de um lado da porta é Londres e do outro, alguma cidadezinha no Japão. Juro! E, obviamente, já se tira os sapatos ali mesmo. Até aí, normal, na minha casa é igualzinho, os sapatos são barrados logo de cara!

Fomos recebidos pela prima da minha amiga, vestida em seu quimono japonês, assim como as pessoas envolvidas na preparação de todo evento. Chegamos um pouco antes, como recomendado, e ficamos em uma sala pequena, recebendo algumas informações, aguardando nossa hora e todos convidados se juntarem. Éramos um grupo de 7 convidados, incluindo a prima da minha amiga, que fala português e foi nos orientando como deveríamos nos comportar durante toda a cerimônia.

Foi nesse momento que comecei a perceber que o buraco era mais embaixo, ficou mais do que claro que não era somente ir até lá e tomar um cházinho. Ao mesmo tempo, ressalto que não era nada tenso para mim, era mais uma preocupação em não fazer nada que ofendesse ninguém, mas fui deixada bastante à vontade. Bastava que copiasse o que a “primeira convidada” fizesse (explicarei um pouco adiante esse papel).

Pois bem, a tradição Urasenke chado é baseada nos princípios de harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. A ideia é aprender a importância real de como se comportar e viver. São princípios simbolizados e executados durante uma determinada cerimônia, mas que são metáforas e regras a serem seguidas na vida de maneira geral. Bom, isso foi o que entendi nessa pequena experiência.

Uma coisa que achei muito interessante é que, na cerimônia, você aprende a ser anfitrião e convidado. Ou seja, não basta entender o que é servir ou como fazê-lo, você também precisa entender como se comportar para receber o que alguém está te oferecendo. A humildade e a gratidão são vias de mão dupla.

Os papéis do grupo são definidos com clareza. Havia uma anfitriã, uma ajudante, a primeira convidada e os outros convidados. Todos os convidados são servidos individualmente, com a devida sequência de reverências e na ordem em que serão sentados. Essa ordem de entrarmos na sala de chá e nos sentarmos foi estabelecida assim que chegamos, ainda na sala de recepção. A anfitriã é a figura principal, quem recebe os convidados, define desde os aperitivos até a decoração da sala, escolhe as louças, prepara o chá e serve os convidados. A ajudante, como o nome sugere, ajuda a anfitriã. A primeira convidada é como se fosse uma convidada especial, ela é sempre servida primeiro e tem inclusive a responsabilidade de ajudar a manter o bom entretenimento dos convidados, enquanto a anfitriã está ocupada.

Muito bem, seguindo essa ordem definida dos convidados, fomos primeiro levados ao jardim para lavarmos as mãos e a boca. Isso é feito individualmente, você tem que esperar sua vez e há uma maneira padronizada para fazê-lo. É como um ritual de purificação.

Daí, seguimos para uma sala forrada por tatame e decorada com um arranjo floral. Entramos na ordem definida e se senta sobre os joelhos, em semi-círculo. Eu tenho problemas nos dois joelhos, infelizmente, e só consigo sentar de pernas cruzadas. Não é o padrão, mas não foi um problema.

A anfitriã estava nervosa e parecia emocionada, era sua primeira vez oficialmente executando a cerimônia. Achei bacana, me senti honrada de alguém estar tão preocupada em me servir bem.

Entendo esse conceito, de uma maneira muito mais intuitiva e informal, percebi que também usava vários dos príncípios utilizados na tal cerimônia. Quando recebo alguém em casa, minha ambição é que essa pessoa se sinta como um rei ou rainha! Que saiba que os detalhes foram pensados para cada convidado. Às vezes, é difícil quando o grupo é grande, mas essa é a intenção durante toda a preparação de cada evento.

A anfitriã nos serviu uma entrada fresca, biscoitos e chocolate, além do chá. Tudo é feito individualmente e se serve uma pessoa por vez. Começando sempre pela “primeira convidada”. Há um conjunto de reverências e agradecimentos que se faz para quem oferece, para quem recebe, para seu vizinho… até para a louça utilizada! Falando assim, parece um exagero, mas acredito que isso seja uma demonstração de respeito e gratidão. Na prática, é bonito. Acho que a gente deveria demonstrar mais às pessoas quando estamos gratos, nem que seja por um gesto de gentileza.

Ter que esperar sua vez é algo que te faz exercitar a paciência. Ao mesmo tempo, gera uma sensação de tranquilidade. Você sabe que terá sua vez e quando ela irá acontecer, então, não há necessidade de ansiedade. Entender que os outros também terão seu tempo e atenção, traz uma sensação de harmonia, equilíbrio. Não sei se me explico, mas é parecido a fazer um tipo de meditação.

Ou seja, são gestos simples, mas com analogias importantes que podemos trazer para nosso estilo de vida e comportamento. Como coloquei no início, mais do que uma mera cerimônia, é uma filosofia.

Poderia gastar toda uma tarde descrevendo os detalhes e os papéis de cada participante, mas acho que a ideia principal foi passada. Na verdade, muito mais do que uma descrição, o que vale é toda a experiência.

E sou muito grata por tê-la vivido.

PS: para quem se interessou pelo assunto, esse é o website da Urasenke Foundation, e se estiver por Londres, eles fazem algumas apresentações com os alunos no The British Museum. Em 2019, estarão nos dias 12 e 26/ julho; 9/agosto; 27/setembro; 12/outubro; 8 e 22/novembro e 13/dezembro. É grátis e aberto ao público!