40 dias de cativeiro

Hoje completo 40 dias em distanciamento social por conta do COVID-19, a palavra quarentena já não é apenas uma maneira de falar.

Muita gente fez diários desses momentos, talvez eu devesse ter feito para me lembrar de maiores detalhes no futuro, mas para ser sincera, até perdi um pouco a noção do tempo durante esse período. O que nem foi de todo mau, porque se logo no início alguém me contasse que eu ficaria mais de 40 dias nessa situação, sem uma previsão definida de saída, provavelmente eu tivesse surtado de cara!

Admito que não dei importância quando tudo começou na China, me parecia distante e exagerado. E, de repente, o que deveria ser uma marola entrou como um Tsunami, devagar e constante.

No início de março, fui a Madri e não a turismo. Fui para resolver alguns problemas pendentes que tinham certa urgência. Eu não tinha um pingo de medo do vírus, sigo não tendo medo de ficar doente, mas essa é uma outra história que não vem ao caso agora. O fato é que não estava levando a sério e não tinha ideia que tudo escalaria tão rápido. E, sem querer tirar minha responsabilidade, acho que a maioria das pessoas também não imaginava que se tomaria essa proporção.

Portanto, me expus bastante. Estive em dois aeroportos de alto tráfego, Heathrow e Barajas, peguei dois voos, andei de metrô, ônibus, a pé, fui a restaurantes e bares, dividi comida, abracei amigos, estive em pelo menos três ou quatro estabelecimentos públicos para resolver os assuntos que precisava… e voltei para Londres.

Na ida, estava tão centrada no meu próprio umbigo e com as complicações que tinha que resolver, que nem tive tempo de pensar em vírus. Mas ao longo da viagem, comecei a notar que algo estava diferente, meio que fora de ordem. Os aeroportos estavam bem vazios, assim como os voos, as próprias ruas de Madri, apesar do comércio todo aberto, não tinham o movimento habitual. Não consegui comprar álcool gel em nenhuma farmácia (eu usava com frequência mesmo antes da pandêmia, para mim era uma compra que fazia parte da minha rotina).

No voo da volta, a passageira indiana que vinha do meu lado higienizou o banco, a janela e a bandeja em frente. Confesso que achei engraçado. Acabou que ela mudou de lugar para ir sozinha e eu vim deitada nos três bancos, incluindo o dela, higienizado. Para ver o quanto eu estava preocupada!

Mal cheguei em casa, tentei revisar minhas compras pela internet que chegariam no dia seguinte (como também sempre fazia por costume) e não consegui, o website completamente colapsado! A pulga bateu na orelha, será que eu era a única boba sem me preocupar? Porque quando só você está tranquila… talvez não estivesse vendo o tamanho real da encrenca! Quer saber, e se rolar um isolamento, como já havia iniciado na Itália? Ou mesmo se não rolar quarentena, se as pessoas surtarem e começarem a comprar por pânico, vai faltar mercadoria… Nós somos estrangeiros aqui, não estamos acostumados com país que viveu guerra, eles reagem muito mais rápido que a gente! Pensei, acho melhor eu ficar mais esperta! Saímos no mesmo dia para ir ao supermercado.

Prateleiras vazias… papel higiênico esgotado… tudo meio estranho. Resolvi fazer um pequeno estoque de alimentos não perecíveis, até porque nem cabe grandes estoques em casa mesmo. Consegui comprar papel higiênico, Luiz havia encomendado máscaras e álcool gel com antecedência, afinal, meu marido é virginiano e, pelo sim, pelo não…

Também pelo sim, pelo não, iniciamos uma quarentena voluntária. A ideia foi dele, eu achava um exagero sem tamanho. Acontece que, assim que deixei Madri a cidade fechou as fronteiras, de certa forma, dei uma sorte tremenda de sair nos 45 minutos do segundo tempo. De toda maneira, como coloquei antes, havia me exposto bastante e, no fundo, na dúvida, não queria colocar outras pessoas em risco. Pensei, vá lá, um par de semanas não vai me matar de tédio, seguro a onda e depois reclamo bastante com Luiz, pronto!

Eu não sabia ainda, mas estava em fase de negação.

Essas duas primeiras semanas foram as piores de toda quarentena, pelo menos até agora. Nós tínhamos férias marcadas, meu irmão vinha do Brasil, celebraríamos nosso aniversário de casamento, estávamos preparando a casa para receber meus primos no início de abril… enfim, tínhamos uma série de planos bacanas que foram adiados, na minha cabeça, por uma porcaria de uma gripe!

E mesmo não levando nada disso tão a sério, mesmo estando absolutamente frustrada e me sentindo confinada, mesmo num mau humor do cão… fiquei em casa.

O par de semanas culminou com nosso aniversário de casamento. Acabei tendo a ideia de fazer uma festa virtual, como contei há alguns posts e, apesar dos pesares, foi bem legal.

Mas quando a festa acabou, segui bebendo um pouco mais, a ficha me caiu finalmente que o bicho tinha pegado e que não era uma onda rápida, não seriam apenas duas semanas e não seguiríamos iguais. Londres decretou quarentena oficial, não era mais uma opção nossa.

Acordei séria e com a sensação de perda. Acho que foi meu fundo do poço, não sei se estava deprimida, talvez, para mim é um pouco difícil reconhecer. Mas o golpe foi duro, passei alguns dias triste e observando bastante.

Ok, não me restava nada além de absorver o golpe, respirar fundo, tocar o chão e impulsionar para cima. Não tinha jeito, precisávamos passar por isso e nos preparar para o que vem pela frente. Não era mais o que eu queria fazer, mas o que poderia fazer.

O que de bom eu poderia e posso tirar dessa experiência e como me preparo para o pior que possa acontecer?

E, a partir desse momento, sem chavões ou clichês, comecei a melhorar. Porque passei a atuar no pouco que podia efetivamente controlar, ou seja, minha própria cabeça. Adianto que ainda passo por altos e baixos, mas sem sofrer ou me sentir presa.

Seria muito difícil eu ter outra oportunidade como essa para realmente parar tudo que estava fazendo e me observar, pensar e legitimamente mudar. Eu resolvi aproveitar essa chance, foi minha opção. E isso, eu podia controlar.

Como também foi minha opção não entrar na paranóia de falar ou ter contato com outras pessoas. Cumpro o distanciamento, cumpro as regras de segurança e os protocolos por respeito e disciplina, mas o medo não entrou na minha rotina.

Acredito que não seja só eu, imagino que outras pessoas devam ter experiências parecidas, ou pelo menos, parecidas em algum momento. Afinal, os seres humanos não são tão originais como imaginam. Temos a tendência a repetir determinados comportamentos. E hoje essa é uma das razões pela qual compartilho essa vivência, porque talvez alguém que leia possa estar passando agora pelo pior do confinamento e, quem sabe, seja bom saber que pode melhorar.

Passado o tédio profundo, as fases de negação e depressão, comecei a ter vontade de fazer meditação, de cortar o cabelo, de comer o que tivesse vontade, de tomar vinho durante a semana… a gente começa a prestar mais atenção em atividades rotineiras, resgata prazeres em pequenas coisas, o bom humor começa a voltar… até que entende, de verdade, que a liberdade está muito mais dentro de nós mesmos.

Não estou dourando a pílula, sei que tenho uma posição cômoda para pensar assim, é verdade. Mas isso não tira a dificuldade da equação. E não estou dizendo que fica tudo uma maravilha, não fica, mas melhora. Estou aprendendo a viver sinceramente o meu presente. Tenho me esforçado bastante nesse sentido e isso fez minha vida melhor.

Ainda assim, penso no futuro, porque acho importante a gente se preparar para todas as mudanças que virão e, nesse sentido, minha maior preocupação é ao inevitável período de recessão que enfrentaremos. Isso sim me tira um pouco o sono, acho que virá por aí uma fase pós-guerra onde a atitude consciliatória e solidária será fator crítico de sucesso. Vejo essa atitude na Europa, não vejo ainda nas Américas. Como a onda começou mais tarde por lá, espero que isso mude, por bem ou por mal.

Atualmente, busco mais notícias sobre economia do que sobre o vírus. Na verdade, sobre o COVID-19 tenho até evitado ler a respeito, infelizmente acho que a imprensa mundial tem feito um imenso desserviço tratando o tema como uma notícia que vende. Acho que é uma ala que ainda não entendeu que o mundo mudou. A sensação que tenho é que, por não saber exatamente o que mais dizer sobre o vírus, afinal é tudo novo em muitos sentidos, a mídia tem sempre tido a tendência a voltar a divulgar o que sabe como funciona com seu público. Uma pena, estão perdendo um bonde gigantesco e uma grande janela para ajudar!

Termino por aqui, dizendo que estou cautelosamente otimista em relação à Europa e Inglaterra, acho que passaremos ainda por alguma turbulência forte, mas aterrissaremos em razoável segurança.

O que tenho visto à minha volta tem me surpreendido positivamente em relação às pessoas, até me emocionado muitas vezes. Por incrível que pareça, o bem dá sinais que está ganhando. Não podemos nos iludir, talvez seja porque não atingimos um ponto tão drástico. Mas também talvez seja porque, no fundo, haja mais pessoas boas do que ruins. É nisso que decidi acreditar, esse é o cão que alimentarei, porque quero ser boa também.

Sigo preocupada em relação ao Brasil, acho que as pessoas estão confusas e desgovernadas por que caminho seguir e é muito complicado só contar com a sorte. Mas sobre isso, não temos controle.

Portanto, foco nas decisões em que cada um pode controlar. Se o que está fora está difícil de enxergar, olhe para dentro. Se não sabe em quem acreditar, acredite nos seus instintos e ponha os mais frágeis em primeiro plano. Se pode ficar em casa, fique. Não saia por capricho nem por ansiedade, o preço é alto. Você estará arriscando a saúde de quem não tem essa opção. Pense duas, três, dez vezes se realmente é necessário. E se não tiver outra maneira, saia com cautela, cumpra os protocolos, use a máscara, se cuide e cuide de quem está ao seu lado.

Não há outra maneira de sair dessa que não seja coletivamente. Não é hora de dividir, se você ainda não entendeu que nessa partida não há ganhadores, está jogando errado.

8 comentários em “40 dias de cativeiro”

  1. Bi, Como sempre, muito legal o conteúdo e super bem escrito…
    Do meu lado, passei por medos que não conhecia!
    …você escreveu muito bem sobre o (des)ervico da imprensa!!! Incrível….
    Estou louca para ver o futuro e o mundo novo que vem aí..
    Beijos
    Ana

  2. Oi, Ana! Muito obrigada!Ainda estou entendendo todo esse processo e também descobrindo medos e forças que não conhecia, interessante você tocar nesse ponto.Tenho a impressão clara de já estar em um mundo diferente, mas não acho que essa ficha tenha caído no geral, não sei… Minha visão está literalmente limitada a sensações e percepções que tenho desde dentro de casa. Como você, também curiosa com o futuro, mas tentando dar meu foco no presente. Beijos

  3. Querida Bi, você me fez lembrar da última vez que fiz algo fora de casa, e foi naquele dia contigo por aqui, rimos muito naquele almoço! Mal sabíamos naquele momento que Raúl quase tinha razão quando cantou “o dia em que a terra parou”, infelizmente não foi só um dia… a terra parou, minha amiga. Ontem mesmo li um texto muito interessante, do Scott Berinato, ele dizia que esse desconforto que estamos sentindo é luto. E assim é… Só nos cabe esperar – de preferência no presente – pra não se atormentar tanto. Um forte abraço!!!

  4. Oi, Katia! Como me lembro… de rir muito quando o vizinho disse que não era para você sair de casa… Mas o bom é que rimos de muitas outras coisas também e acho que essa energia boa que captei aí me ajuda como combustível agora 😉 Obrigada! Acho que essa música do Raúl bateu para todo mundo dessa geração, de arrepiar, né? Mas a questão do “luto” que você tocou é bem interessante, ainda não havia me dado conta, mas cabe bem. Beijão

  5. No início debochei da “quarentena de duas semanas”. Semana que vem completaremos 60 dias em casa. Também tive meus dias ruins (incrível como a gente se reconhece nos relatos dos outros), mas agora estou em paz. O único que por vezes ainda me deixa triste é me dar conta de que já acostumamos com a vida assim. Gosto, prefiro (talvez seja minha única saída) acreditar que as coisas positivas do “depois” serão superiores.
    Bjos para vcs!

  6. Oi, Tati! Concordei com tudo! Acho que enfrentaremos grandes dificuldades, mas também quero acreditar que o lado positivo irá superar! Beijo para vocês ❤

  7. Bi, não me canso de admirar sua lucidez em tratar de temas sejam bons, ou ruins. Aqui no Brasil estamos passando por momentos não muito bons, assim como vocês aí. E, para piorar a situação, uma briga fratricida entre os três poderes da República torna tudo mais difícil. Mas dias melhores virão. Tenho esperança e certeza. Beijo e abraço no Luiz.

  8. Muito obrigada, Romildo! Muito gentil 🙂 Sim, o momento não é fácil, também acredito que dias melhores virão e sairemos dessa juntos! Beijo para vocês!

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