E na hora que penso, agora ferrou, resta tentar… “with a little help from my friends”…

Para quem não fala inglês, a tradução de “with a little help from my friends” é “com uma ajudinha dos meus amigos“, referência da música que ganhou fama na voz do Joe Cocker e foi tema de série.

Como o diabo e boa parte das minhas histórias reside nos detalhes, vou contar uma parte da saga anterior dos bastidores que ficou faltando, a viagem maluca que fizemos para assinar a procuração em Portugal, a mesma usada para comprar a Quinta do Vianna.

Abre parênteses e vamos esquecer a Quinta por um minuto. Nós temos dupla nacionalidade, brasileira e espanhola, mas é como cidadãos espanhóis que vivemos na Europa. Aqui na Inglaterra, toda nossa documentação é atrelada aos documentos espanhóis e, a possibilidade de viver em Portugal algum dia também é vinculada a essa situação.

Pois bem, nossos passaportes e identidades venciam no mesmo dia, em maio e poderíamos renovar com até 6 meses de antecedência. Até aí, lindo! Só tinha um problema, estávamos todos em lockdown rigoroso! Não conseguíamos viajar, nem tinha voo! Era impossível agendar qualquer coisa no consulado espanhol de Londres. Quando chegou abril, a gente começou a surtar…

Em paralelo, uma história não tão grave, mas que estava acontecendo. Minha carteira de motorista (espanhola) venceu no ano passado e renovei em março de 2020. Exatamente uma semana antes da pandemia estourar, estive em Madri para resolver pepinos, aproveitei para renovar a carteira. Teoricamente, a habilitação seria enviada por correio para a casa de uma amiga, que nunca a recebeu! Estourou o raio do COVID e isso foi embolando cada vez mais. A verdade é que ninguém sabia a duração dessa loucura, sempre esperávamos que já fosse resolver e com isso o tempo foi passando.

Em outubro, quando fui a Portugal conhecer a Quinta comprada, aproveitei uma oportunidade que surgiu na mesma semana e comprei também um carro. Velhinho, mas muito bem conservado e bom para aguentar o tranco de estrada de terra. Pode me chamar de louca, como é que comprei um carro para ficar em um quinta que nem era minha ainda? Mas enfim, foi uma boa oportunidade e aproveitei. O carro ficou guardado esse período com meu primo.

Acontece que, se tinha um carro e precisaria dirigir, também voltou a necessidade de resolver o “mistério da carteira de motorista”, perdida no limbo! Óbvio que nada é fácil e o número da DGT (Departamento de Trânsito espanhol) era daquele de 3 dígitos, que você só consegue ligar se estiver no país. E eu não estava! Lá fui eu pedir socorro para uma amiga: liga lá para mim, por favor! Descobre, pelo menos, onde está minha carteira! Responderam para ela que estava na própria sede da DGT, em Madrid, e que precisaria buscar pessoalmente. Se não fosse pessoalmente, minha representante precisaria levar uma procuração e o original da minha identidade (ou uma cópia autenticada, eles dizem “copia compulsada“). Bom, ok, pensei, assim que as fronteiras abrirem, vou lá buscar minha carteira. Isso em outubro.

Lógico que fronteira abriu coisa nenhuma… o tempo passou e chegou março! Agoniada, resolvi tentar outra vez, mas a primeira amiga que ligou para mim (e era a do endereço onde minha carteira estava direcionada) viajou para o Brasil e ficou alguns meses por lá, sem conseguir voltar. Caraca, para quem eu peço esse favorzinho enjoado? É difícil até explicar a história, que dirá resolver!

Bem sem graça, procurei uma outra amiga que gosto muito e pedi, sem nenhuma obrigação, você poderia me ajudar a resolver essa encrenca? Ela foi super gente boa e me ajudou a solucionar o tal mistério da carteira e a marcar um horário para buscá-la na DGT. Outro detalhe, na total impossibilidade de se fazer uma procuração pelo consulado espanhol ou de autenticar minha identidade, enviei o documento original para ela por correio! E todos os papéis que eu tinha do processo, protocolo etc. Ela com a maior boa vontade do mundo, mas nada de conseguir uma data na instituição para agendar e buscar a carteira.

Nisso, chegou abril e aquela agonia dos passaportes vencendo… abriram uma brecha para viagens entre Inglaterra e Espanha, mesmo assim, só se fosse por absoluta necessidade. Super burocrático, milhões de formulários, 4 PCRs para cada um, quarentena na volta… um inferno! Mas era possível!

Bianquita somou 2 +2 = 22! Vou botar tudo no mesmo pacote! Luiz, vamos aproveitar essa brecha, renovar os passaportes e identidade (na Espanha você faz isso em um único dia e já sai de lá com os documentos novos) e vou eu mesma buscar a carteira de motorista na DGT. Daí, a gente aluga um carro e vai dirigindo até Portugal. As fronteiras terrestres são sempre mais fáceis, a gente tem o passaporte espanhol, o carro com placa da Espanha, o termo de compromisso de compra e venda da Quinta assinado e eu sou registrada como moradora em Braga. Ninguém precisa saber que a gente foi da Inglaterra. Fazemos a procuração para meu primo e deixamos as coisas por lá encaminhadas também. Convenhamos, um plano completamente insano, mas bastante prático, certo?

Aqui há um dito popular que adoro, “if there’s is a will there’s a way“! A tradução literal seria, onde há um desejo há um caminho. Ou seja, se há uma real vontade que algo aconteça, sempre haverá uma maneira de conseguir. Ou na popular versão tupiniquim, fé, foco e foda-se!

E vamos combinar, não é que eu quisesse simplesmente passar férias ibéricas, a gente precisava muito resolver tudo isso! Não estávamos inventando nada!

Certo, mas temos dois gatos! Quem fica com os bichanos por uma semana? Procura daqui, procura dali… no final do ano passado, o filho de uma amiga da minha mãe precisava vir para Londres. Ele tinha tudo muito estruturado, mas era fundamental ter um endereço aqui para correspondência e documentação. Não seja por isso, ajudamos no que pudemos e, sinceramente, na maior boa vontade. Porque sim e porque sempre que precisamos, alguém nos ajuda também! Acabamos ficando amigos. Pelas voltas que o mundo dá, justamente esse novo amigo faria um treinamento relativamente próximo à nossa casa, justo quando precisávamos viajar! Resumo da ópera: ficou ele aqui cuidando dos bichanos enquanto a gente viajava! Mais karma positivo que isso, impossível!

Claro que foi um perrengue alucinado… a Inglaterra chegou a abrir fronteira para Portugal… mas Portugal fechou fronteira para Inglaterra… achar hospedagem em Madri foi enrolado… conseguimos AirBnB… na semana anterior, Espanha e Portugal resolveram fechar fronteira também… agendar trocentos PCRs… fomos parados na fronteira terrestre na ida e na volta, mas os documentos que levei justificavam as entradas e saídas… nosso voo de volta de Madri para Londres foi cancelado… Luiz conseguiu remarcar… e lógico que deu tudo certo!

Contando só uma gracinha no meio desse turbilhão, na hora de preencher os formulários da volta para a casa, Luiz ficou na dúvida se dizia que tinha ido para Portugal ou não. Eu já disse logo, eu não vou dizer! Por que? A gente tomou todos os cuidados possíveis, para que vou criar uma razão para encrencarem? Eu acho que era legal, mas na dúvida, melhor ficar quieta. O caso é que nós dois chegamos a ser meio bobos de tão “caxias”, a gente gosta de fazer tudo certinho! Ele vira para mim todo dramático, com aquele olhar de indignação decepcionado: e você vai… meeeentirrrrr? Oi? Sério? Depois de todo esse estresse ele quer ser mais certinho que os próprios ingleses? Respondi gutural e maiusculamente: VOU! Vou mentir! Vou fazer o que eu precisar fazer! I’m a woman in a mission! Ele resmungou um pouquinho, mas pergunta se colocou no formulário dele que foi para Portugal? Na volta para casa, inclusive recebemos um elogio do agente britânico de imigração ao mostrarmos nossos documentos: nossa que organizados!

Bom, mas contei o final sem contar o meio da história. Espanha estava com suas restrições, mas os restaurantes e comércio estavam abertos. Para a gente que já levava 5 meses fechados em casa, foi uma brisa fresca! As ruas de Madri tem um burburinho alegre de fundo, de gente falando e eles não falam baixo, risadas, reclamações… e eu amo! Assim que, com todo perrengue e toda a tensão, a gente estava feliz pacas de estar ali!

Conseguimos mesa no nosso restaurante favorito, El fogón de Trifón! O dono também se tornou um grande amigo e sempre que vamos lá, temos essa sensação de estar em casa. Havia mais de um ano que não podíamos nos encontrar. Coincidiu de irmos justo no dia em que ele havia sido vacinado contra Covid, nós havíamos sido vacinados também. Nosso encontro foi uma festa!

Fomos quase que em segredo para Espanha, por vários motivos, primeiro porque seria praticamente impossível encontrar alguém com a agenda maluca que estávamos! Depois, porque tinha até medo de anunciar nas redes sociais, o governo achar que fomos passear e multar a gente! A multa era a bagatela de £10 mil. E, claro, entendemos a preocupação das pessoas em evitar saídas e encontros nesse momento, algo que compartilhávamos. Admito que um lado meu sentia uma falta gigante de marcar um encontrão daqueles e abraçar todo mundo, outra vez será!

Bom, mas queria falar um pouco mais dessa questão de como somos privilegiados por nossos amigos e também pela família que muitas vezes exerce esse papel. Aliás, constantemente essa coisa de amizade e família é simbiótica.

Enfim, lembra da minha amiga que conseguiu descobrir sobre minha carteira de motorista e estava com meu documento original? Então, precisava encontrá-la antes de ir renovar a documentação, o que era uma excelente desculpa para a gente se ver. Na maior boa vontade, ela se candidatou a nos buscar no aeroporto, favorzão que aceitei de bom grado! Acabamos jantando juntos e foi uma delícia, a gente gosta muito deles! Verdade que não era um grupo grande, mas tenho valorizado também esses encontros limitados entre dois casais ou poucos amigos, a gente consegue dar mais atenção individual e conversar melhor.

E havia também outro amigão, que não víamos há anos! Nos conhecemos em Madri, ele ficou várias vezes lá em casa com nosso gato quando a gente viajava, temos muitas histórias… daí ele mudou para Hong Kong… nós mudamos para Inglaterra… nós fomos para o Brasil… voltamos para Inglaterra… ele voltou para Madri e, finalmente, uma chance da gente se encontrar na mesma cidade! Maravilha, bora jantar! Atualizamos os anos de conversa e contamos para ele porque estávamos indo para Portugal.

Pouquíssima gente sabia sobre a compra da Quinta. E nem porque eu quisesse guardar grandes segredos, afinal, como costumo brincar, minha vida é um blog aberto! Eu não tenho essa paranóia de achar que alguém pode torcer contra e tal, até porque, quando sei sobre os projetos dos meus amigos, fico amarradona! Mas para mim, não fazia sentido sair divulgando algo que poderia nem rolar! Na minha opinião, o negócio só está fechado despois de assinada a escritura! Mas enfim, o fato é que ele curtiu muito a história e trocamos algumas mensagens sobre isso depois!

Dali seguimos para Portugal, onde nossos primos, como sempre, deram o maior apoio para a gente resolver as coisas. Vamos combinar, eles visitaram a Quinta antes da gente, foram nossos olhos e ouvidos para fechar o negócio, meu primo topou ser nosso procurador e acabou também assinando a escritura em nosso nome. Por mais que nós tentássemos ser organizados ou não incomodar, seria absolutamente impossível fazer esse negócio sem o suporte deles.

Tudo bem, mas uma vez fechada a compra, agora estávamos no sufoco seguinte: como é que a gente vai fazer para isso funcionar? Porque as fronteiras melhoraram, mas seguem limitadas, as viagens seguem complicadas e caras. Nós temos as duas doses da vacina, mas o tal passaporte de viagem dos vacinados ainda é um ideal não implantado. E nós precisamos urgente de pessoas trabalhando na Quinta do Vianna! Mesmo que contrate pessoas é fundamental ter alguém por lá cuidando.

Conseguimos marcar passagem para ficar uma semana em Portugal, resolvendo os incêndios! Vamos no dia 12 de junho e ficaremos até dia 18.

Ok, tudo muito bom, tudo muito bem… mas outra vez, com quem ficam os gatos? Eu já sem cara de pedir para as pessoas… lembrei de um casal de amigos… perguntei toda sem graça… eles toparam! Vou deixar a casa igual a um hotel! Comidinha na geladeira, tudo para eles adorarem ficar aqui!

Seguindo o bonde, com a escritura fechada, me deu a ideia de criar um perfil no Instagram, uma outra categoria aqui no blog… enfim, começar a divulgar o projeto. Em princípio, para nossos amigos mesmo, mas quem sabe no futuro, se converta em algo mais comercial. Não sei, vamos descobrir com o tempo. A verdade, é que gosto de compartilhar situações felizes, principalmente em um momento em que tudo parece tão sombrio. E, assim como eu busquei tantas informações sobre a vida às margens do Douro, talvez outras pessoas também tenham a curiosidade de saber como é. Se posso ajudar alguém a viver um pouco dessa aventura conosco, virtualmente ou pessoalmente, por que não?

Depois, tem o outro lado da moeda, porque tem um monte de coisas que não sei ou não consigo fazer sozinha. Feliz o dia em que aprendi a ser menos orgulhosa e a aceitar ajuda! Não é incomum que, ao expor uma situação, do nada me aparece alguém com uma resposta, uma dica, um contato… e eu escuto!

Dito isso, lembra daquele nosso amigo que encontramos em Madri e contamos sobre a Quinta? Então, lendo a história aqui no blog, ele teve uma ideia e nos procurou. Com a pandemia, ele não está trabalhando direto ou poderá trabalhar remoto. Ou seja, está com tempo e não é casado, não tem raízes ou nada que o prenda. Nos perguntou, quer que eu more lá por uns meses? Para ele seria uma experiência diferente, onde não precisaria de um salário, mas também não teria custos. Ele não se importa que a casa esteja velha e precisando de reformas, a vista é um desbunde e o trabalho é interessante. E para a gente, seria uma tranquilidade ter alguém morando lá direto, cuidando da casa e resolvendo os pepinos das vinhas. Mesmo que tenhamos que contratar ajuda, com alguém lá administrando facilita horrores! Além de não termos que nos preocupar com fronteiras fechando e abrindo. Sabe aquelas situações onde parece que todo mundo ganha? Conversa daqui, conversa dali, vamos nos encontrar em Portugal na semana que vem e ver o que rola. Torcendo para dar certo, desde que seja bom para ambos os lados!

E fiz questão de contar tudo isso hoje, porque sempre falo das sagas, aventuras e encrencas que a gente se mete, e vamos combinar, não são poucas! Mas a vedade é que dificilmente conseguimos resolver tudo sozinhos. Quantas vezes, quando a gente acha que não tem mais jeito, ou o que raios a gente vai fazer… a ajuda aparece! Às vezes de amigos antigos, outras de absolutos desconhecidos que acabam por se tornar amigos novos. E acho tão bom e sou tão grata que sempre que existe alguma maneira de também ajudar outra pessoa, para mim é um privilégio! Acredito sinceramente na gentileza que gera gentileza!

Portanto, hoje agradeço aos meus amigos e amigas, aos que me ajudaram diretamente ou que simplesmente estão aí, aos que serão amigos um dia, aos estranhos que abracei pelo caminho com a sensação mútua de pertencer e também aos que precisaram de mim e me deram essa oportunidade de retribuir ao universo.

Porque é uma delícia saber que na hora em que o bicho pega, sempre contamos com nossos amigos! Eu acredito em vocês e me torno melhor porque sinto que essa crença é recíproca, mesmo nos meus projetos mais improváveis ou absurdos. Por vocês acreditarem em mim, eu sou.

Muito obrigada.

A saga dos bastidores

Como Luiz costuma dizer, vocês olham as cachaças que eu tomo, mas não os tombos que eu levo! Entretanto, prometi que vou contar tudo, então, vamos lá!

Podemos dizer que, oficialmente, essa saga específica começou há cerca de um ano, quando iniciamos nossa busca de uma propriedade rural em Portugal, por volta de junho de 2020. Até encontrarmos o que queríamos, levou alguns meses e o contrato de compra e venda foi assinado em outubro. Mas, enfim, essa parte da história, em que compramos através de uma visita virtual, já foi contada na crônica passada.

Bom, sabíamos que haveria uma razoável espera até toda a documentação ficar pronta. E para nós, essa era uma espera bastante positiva, pois ganhávamos tempo para entender um pouco melhor em que encrenca a gente estaria se metendo!

Fora a questão das viagens durante a pandemia! Era um tal de abre e fecha fronteira a toda hora! Ou melhor, um tal de fecha e fecha mais ainda, porque abrir que é bom… estava difícil! E aí, como você contrata gente para trabalhar? Como você faz obra? Meus primos ajudaram bastante, mas não dá para você contar com os outros para resolver seus pepinos sempre, né? Nem seria justo! Todo mundo tem seus próprios problemas para resolver e vamos combinar, em tempos de COVID, ninguém estava tão tranquilo assim.

E o que era essa documentação? É o seguinte, nessa região do Douro Vinhateiro, há uma série de regras rigorosas em relação à construção nos terrenos e ao plantio das vinhas. O que pessoalmente, concordo, porque precisa mesmo haver esse tipo de controle ou a coisa vira bagunça.

Não pode chegar um indivíduo por lá e resolver plantar qualquer casta de uva porque o terreno é dele! Precisam ser as castas da região. É bom para quem quer ser produtor de vinho, porque também é uma certa garantia de boa qualidade. Da mesma maneira, as construções também são regulamentadas, você tem um máximo de metragem que pode construir de acordo com o tamanho do terreno, não pode distoar arquitetonicamente, há uma limitação de cores…

Essa parte é um pouco técnica, mas acho que vale explicar e se não quiser saber, é só pular alguns parágrafos.

Basicamente, você tem dois tipos de terreno, que eles chamam de “artigo”. São eles: o artigo rústico, para plantio e o artigo urbano, para construção. Em um artigo rústico, você não pode construir nem a pau! Só pode plantar e, ainda assim, respeitando as regras da região. O artigo urbano é só a construção, que por sua vez, tem um limite de metragem quadrada. Eventualmente, você consegue expandir um pouco esse limite, mas muito pouco e precisa se aprovar o projeto na câmara.

Isso quer dizer que, por exemplo, a nossa Quinta não é simplesmente um terreno com duas casa dentro, são 11 artigos, sendo 9 rústicos e 2 urbanos. O somatório desses 11 artigos são aproximadamente 3 hectares de terreno com duas construções. A escritura é uma só, mas descreve especificamente cada um desses 11 artigos. E cada artigo tem um valor separado, ou seja, tivemos 11 preços diferentes e a somatória desses preços é o valor total da escritura.

Imagina você indo a um supermercado e comprando 11 artigos, quando você for pagar no caixa, paga tudo junto, é uma compra só, mas na nota vem separado o valor de cada ítem. É igual.

A tributação e honorários na hora de fazer a escritura e registro da propriedade não é nada simples. Começando pela parte mais fácil, porque é fixo independente do preço do imóvel (valores referentes a junho/2021), foi cobrado pela escritura €375,00, mais €165,00 de consulta do registro predial, mais €500,00 de registro dos prédios. Inclua-se os honorários do notário, aproximadamente €750,00 (adicionados de 23% de IVA). Esse é o básico! Mas tem os impostos para cada artigo, que são o IMT e o Imposto do Selo. O imposto do selo também é fixo e igual para todos os artigos, no valor de 0,8%. Mas o tal do IMT varia completamente!

E aí começa a complicação, o IMT para artigos urbanos é de 1% do valor declarado e dos artigos rurais é de 5%. E se o artigo urbano for sua habitação permanente, ela é isenta de IMT. Até aí parece simples, né? Só que tem um detalhe, você tem o valor total da compra, certo? Mas sabe quem define quanto desse valor vai para cada artigo? Você!

Por exemplo, vamos supor que você tenha comprado 3 artigos, 2 rústicos e 1 urbano, por €100. É você que decide como distribuir, dá no mesmo dizer que os 2 rústicos valem €10 cada um e o urbano vale €80… ou que um rústico vale €10, outro vale €70 e o urbano vale €20… tanto faz, desde que no final, a conta some os €100. Daí, claro, como os artigos rústicos pagam maior imposto, todo mundo quer botar o valor maior no artigo urbano!

E pode? Pode, mas tem uma pegadinha…

A escritura é um documento público e os vizinhos, por lei, tem prioridade na compra dos artigos. Se algum vizinho descobrir que o terreno foi vendido, pode ir lá buscar por qual valor e, se estiver num valor muito baixo, ele pode entrar na justiça e ter a prioridade na compra. E ele pode fazer isso em até 6 meses depois da escritura lavrada. Ou seja, se você colocar um preço muito ridículo nos artigos rústicos para se livrar do imposto, corre o risco de se aborrecer com os vizinhos e até perder a compra!

E se está complicado para você que leu com tudo mastigadinho e explicado, imagina para a gente descobrir todo o processo?

Muito bem, mas chega de tecnicidade, vamos voltar à saga!

Lembra que eu falei lá atrás que precisávamos esperar a documentação da Quinta ficar pronta? Lembra que falei também que as regras de construção e produção nessa região são muito específicas? Então, a casa principal da nossa propriedade havia sido construída em 1951, antes mesmo de toda essa regulamentação atual. O que queria dizer que, mesmo não havendo sido uma construção ilegal, e não foi, não estava dentro dos padrões vigentes e, portanto, a venda não poderia ser efetivada e a escritura não poderia ser lavrada. Foi essa adequação da casa dentro das regras atuais que levou 7 meses para ser resolvida! Boa parte desse atraso se deu pela pandemia, entretanto, outra parte grande era burocracia. No fundo, a gente nunca teve grandes dúvidas que seria resolvido, afinal, não era ilegal e o proprietário tinha toda a documentação em nome dele, mas sabíamos que não seria rápido e não tínhamos ideia de quando terminaria.

O problema, caríssimos, é que as vinhas não esperam a burocracia se resolver. Entre outubro e fevereiro, não havia muito trabalho a ser feito, mas a partir daí, a coisa começa a acumular e, ao menos a poda das vinhas precisava ser realizada. Começou o jogo de empurra! O proprietário querendo nos cobrar pelo serviço ou que nós mesmos fizéssemos o trabalho e a gente naquela situação de, como é que vou pagar por um serviço de uma propriedade que não é minha e não sei se vai ser ou quando vai ser? E vamos combinar, o problema da documentação era dele, não nosso! A gente estava sendo legal pacas em esperar pacientemente!

Fizemos a seguinte proposta: você cuida das vinhas e, independente de quando a venda seja efetivada, você fica com a produção desse ano. É o que eles chamam de arrendamento da terra. Pareceu-me bastante justo, nós abriríamos mão da produção de 2021, mas não teríamos que esquentar a cabeça, não teríamos custos, nem precisaríamos buscar gente para trabalhar.

Essa intermediação foi feita pela corretora do imóvel e eles aceitaram. Ótimo! Para nós, estava resolvido, fiquei tranquila.

Só que não… porque chegou março e a gente, de repente, recebe a ligação dele “preocupado” porque o tempo estava passando e estava no limite para fazer a poda e nada…

Oi?

Ele insistiu que foi um mal entendido, que foi a corretora que fez confusão, que ele já tinha até se mudado de lá… enfim, não acreditei! Depois, em outras ocasiões, a gente percebeu que ele sempre mudava a história de acordo com a própria conveniência. Mas não importa, porque as vinhas precisavam ser podadas, independente de quem estivesse falando a verdade. Resumindo a ópera, meia dúzia de historinhas mais e um preço que foi o dobro do combinado… pagamos nós o raio da poda das vinhas e paciência!

Aliás, para quem pretende estabelecer algum tipo de negócio por essas bandas e tem a ideia romântica do caipira super honesto, pode esquecer! Não diria que é exatamente uma desonestidade, mas é lei de Gerson total! Verdade que pode acontecer em qualquer lugar e também tem muita gente boa, mas melhor não se distrair. Porém, uma vez que tenha a confiança estabelecida, aí é outra história.

Muito bem, chegou abril, nada da documentação ficar pronta e a água começou a bater no joelho… porque agora era questão de pouco tempo e as fronteiras entre Inglaterra e Portugal seguiam super fechadas!

Mas sabe aquela história de que não peço mais que meus caminhos estejam abertos, só peço os obstáculos corretos? Pois então, assim foi. Nossos passaportes e identidades espanholas venciam em maio e não estávamos conseguindo agendar a renovação através do consulado aqui de jeito nenhum! Quando chegou abril, deu medo da gente ficar sem documento válido, trava a vida toda, né? Nós vivemos na Inglaterra como cidadãos espanhóis que somos.

Então, descobrimos uma brecha para poder viajar entre Inglaterra e Espanha. Porque se fôssemos de férias, haveria uma multa de £10.000. Você só poderia viajar em caso de necessidade. E entre essa lista de “necessidades” constava a questão dos documentos. Luiz sem vontade de ir… com medo de ficar preso em quarentenas… de ser multado… a gente foi mesmo na raça! Daí, veio a ideia mirabolante de alugar um carro na Espanha e atravessar a fronteira terrestre para Portugal, sem dizer que morávamos na Inglaterra. Foi um sufoco danado, contarei essa outra saga em algum momento, mas o importante é que deu tudo certo.

A gente não sabia quando teria outra oportunidade de viajar para lá, por isso, aproveitamos essa brecha e fizemos uma procuração para o meu primo comprar em nosso nome. Luiz, finalmente, conheceu a Quinta e deixamos tudo encaminhado para a realização do negócio. Isso foi em abril.

Fiz questão de fazer a procuração com o mesmo advogado com poderes notariais que lavraria a escritura futuramente, para não correr o risco de haver nenhuma divergência! Inclusive, descobrimos que foi no mesmo local que a própria escritura anterior havia sido feita.

Colocamos a bola na frente do gol e voltamos para casa. Ainda assim, com todos esses detalhes cuidados, sabe a probabilidade de alguma coisa não dar certo? Pois é…

Mas deu tudo certo! Um mês após todo esse trâmite e cantar muito para Ganesha, recebi o contato da corretora. A documentação estava pronta!

Cerejinha do bolo, o proprietário encontrou um documento que provava que a casa havia sido construída antes da regulamentação atual e, portanto, como estava isenta das novas regras, poderíamos fazer a escritura quando quiséssemos. Caso você esteja se perguntando se esperamos esses 7 meses à toa, porque essa venda já estaria careca de poder ser realizada… sim! Mas dane-se, porque esse erro foi exatamente o que possibilitou que a Quinta fosse nossa e na hora em que poderia ser!

Não havia voos para irmos novamente assinar pessoalmente, mas não foi nenhum problema, afinal, estava tudo encaminhado para meu primo assinar por procuração e assim foi!

Escritura lavrada em 27 de maio de 2021, quinta-feira, noite de super lua cheia!

Para quem acha que finalmente está tudo resolvido e a gente pode relaxar… entendeu nada, inocente! Agora é que o bicho vai pegar! Por enquanto, foi só aquecimento!

E tudo bem, cada coisa a seu tempo e vamos aprender pelo caminho! Às vezes, a gente precisa saltar no abismo e torcer para não ser tão alto ou ter água para absorver o impacto! Acreditar que vai dar certo é um excelente começo e acreditamos que sim, agora é trabalhar duro!

A Quinta do Vianna

Tudo começou há uns dois anos, quando fomos passar Natal de 2019 com nossos primos em Portugal, eles haviam se mudado recentemente para Braga. Na realidade, ela é a minha prima de verdade, mas está casada há séculos, assim como eu, e nossos maridos também se dão muito bem, de maneira que nos chamamos todos de “primos” e facilitamos a história!

Até aquele momento, meu plano com Luiz era de nos aposentar em Madri, por milhões de motivos que nem vou entrar em todos os detalhes agora, mas entre eles, o fato de termos muitos amigos que consideramos nossa família extendida.

Enfim, a estadia na casa dos primos durante o Natal fez a gente repensar essa questão da aposentadoria e de onde morar. Francamente, acredito que, quando somos adultos, nós mesmos elegemos a nossa família em função da afinidade. Acontece que quando essa afinidade bate e ainda por cima existe o real grau de parentesco… o sangue fala alto e pesa na decisão. E pesou!

Saí de lá revendo meus paradígmas e avaliando: por que não Portugal? Não seria bacana poder envelhecer perto de quem a gente conhece e gosta? Além do que, minha mãe e a mãe da minha prima são super unidas. Se algum dia elas precisarem morar conosco, facilitaria muito estarmos próximas e em um lugar onde ambas falem o idioma.

E assim, tudo começou, a ideia estava plantada na minha cabeça! Mas… será que Luiz toparia? Pois conversamos e ele achou válido analisar a possibilidade.

Em termos financeiros, o custo dos imóveis em Portugal é muito mais atraente! Principalmente, porque não estávamos interessados em Lisboa. Queríamos algo na região do Porto, de preferência, Braga e arredores. Chegamos a quase fazer uma proposta em um uma casa na mesma rua da minha prima, mas não deu certo.

A essa altura do campeonado, Bianquita já havia aberto o leque e começado a investigar outras possibilidades na região. Comecei a vasculhar websites de busca a propriedades e a história de ter uma quinta, foi ganhando espaço na minha imaginação.

Quinta é um terreno, como um sítio, por exemplo. Esses terrenos são chamados “artigos”. Cada artigo pode ser rústico (plantação), urbano (casa/construção) ou de natureza mista (parte plantação e parte construção). Eu queria uma quinta de natureza mista, onde eu pudesse morar e cultivar a terra.

Cada vez mais, me interessava um lugar onde eu pudesse plantar, produzir minha própria energia, hospedar pessoas, organizar eventos, ter um pequeno restaurante… enfim, uma propriedade autossustentável, com uma gama de possibilidades.

Só tinha um pequeno detalhe, eu nunca tive a menor experiência agrícola na vida! Não entendo chongas de terra! Sou urbana até os ossos! O que vou fazer no meio de Portugal profunda e rural?

Ah, mas o Luiz entende do assunto, certo?

… claro que não! Acho que talvez menos que eu! A ideia maluca foi mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa!

Luiz sabia que eu vinha buscando oportunidades por terras lusitanas, mas nem imaginava o tamanho da encrenca! Honestamente, nem foi algo que saiu inteiro planejado no mesmo dia, a ideia foi desenvolvida aos poucos. Não sou uma pessoa que tem sonhos, nem sei se isso é uma coisa boa ou não. Mas outro dia, li algo como “não tenho sonhos, tenho planos”, e me senti totalmente identificada. Não sonho, eu planejo e faço. E, apesar de só poder falar por mim, acho que Luiz também é assim.

Até que por meados de 2020, compartilhei o pensamento com Luiz. Por sua vez, me olhou num primeiro momento como quem olha para um ET! Mas alguns segundos depois, senti que avaliava seriamente a possibilidade. No fundo, sabia que ele tinha gostado. Provavelmente, mais por mim do que por ele, mas a ordem dos fatores nem sempre altera o produto. Dei o tempo dele amadurecer a ideia, mesmo porque, não havia pressa.

Estávamos em pleno início de pandemia do COVID, há uns 3 meses fechados em casa e, não tenho a menor dúvida, que essa situação teve grande influência nas nossas decisões. Como todos, no princípio quase enlouqueci, mas encontrei meu caminho, com muita meditação e muito canto de mantras! Percebi que meu corpo é a única casa que posso controlar e que levo comigo para onde for. Nada mais parecia me assustar. Por quantas mudanças nós já passamos? Quantas vezes nos reconstruímos? E por que não? Além do que, nós dois somos um time e tanto!

Luiz não só comprou a ideia, como adicionou e incorporou de tal maneira que hoje posso dizer que o plano é nosso! Óbvio que ele profissionalizou a história… me pediu para fazer “business plan“… foi buscar investidores… e eu pensando, caracas, o povo ali nem endereço definido tem! Cada vez que você pergunta onde alguém mora ou onde encontrar é algo como: duas ruas depois da igreja… à direita da casa rosa antes da praça… na bomba de gasolina…

O que importa é que estava decidido! Era nosso novo plano e parecia bastante interessante! Um lugar para vivermos nossa pré-aposentadoria, que nos proporcionasse algum tipo de renda e boa qualidade de vida. Eu cuidaria nos primeiros anos, enquanto Luiz manteria seu emprego e garantia as contas pagas. Ficaríamos nessa ponte-aérea até que pudéssemos fazer uma transição definitiva, no que é possível chamarmos algo de definitivo na nossa vida!

Perfeito! Tudo muito bom, tudo muito bem… mas como a gente coloca isso em prática? Porque como disse, estávamos em plena pandemia e as viagens eram super complicadas, às vezes nem eram possíveis!

Entretanto, acho que por volta de junho, conseguimos marcar uma semana em Portugal, hospedados na casa dos primos. Explicamos tudo a eles, que adoraram saber que teriam companhia muito em breve e se propuseram a ajudar no que pudessem. Aliás, apoio fundamental, como já contarei!

Com a viagem marcada, selecionei pela internet as propriedades que nos interessavam e entrei em contato com os corretores. A intenção era ter todas as visitas agendadas e não perder tempo, afinal, sabe-se lá quando poderíamos viajar novamente!

A primeira Quinta que nos interessou, ficava em Vila Marim, muito próxima a Mesão Frio, com uma vista do Rio Douro de impressionar! Era a favorita do Luiz, mas quando entrei em contato com a corretora, ela já estava sendo negociada e por um preço acima do que nós poderíamos pagar naquele momento. Paciência! Se não é essa, outra será!

Viajamos para Portugal e passamos uma semana ótima e super produtiva! Além da delícia de ver a família, sair um pouco, mudar a rotina… fomos visitar várias propriedades com os primos! Chegamos a fazer proposta em uma delas e marcar assinatura do compromisso de compra e venda… mas o proprietário amarelou na hora de assinar o contrato! Putz, ninguém merece!

Mas também não sofremos! Nessa minha nova fase de vida, penso logo em Ganesha me colocando os obstáculos corretos pelo caminho. O que é nosso viria e pronto!

Tivemos que voltar para Inglaterra, quando nos esperava uma mudança de endereço, uma complicação danada que nem vem ao caso aqui, mas o fato é que só pude pensar em voltar para Portugal pelo final de setembro, início de outubro.

Lá fui eu fuçar na internet outra vez! Quando, de repente, me aparece as fotos da tal primeira Quinta que Luiz gostou, em Vila Marim. E eu pensando… ué, mas não havia sido vendida? Será que o anúncio ficou esquecido aqui? Na dúvida, liguei para a corretora novamente.

Pois não havia sido vendida, o negócio havia furado! Depois viemos entender que a pessoa que tentou comprar da primeira vez o faria através de hipoteca bancária e a documentação estava um pouco enrolada. O banco não espera, mas a gente poderia esperar. Acontece que sempre tem um detalhe, não é mesmo? Havia outro cliente marcado para visitar justamente naquele final de semana e as chances de vender eram boas.

Não conseguíamos marcar passagem para a mesma semana, afinal, as viagens continuavam complicadas. Mas consegui que meus primos fossem visitar no nosso lugar, antes do outro cliente que estava marcado. Acompanhamos toda a visita virtualmente pela câmera do celular, com Luiz no meu ouvido ansioso: fecha agora, fecha agora!

E assim foi! Acreditamos no julgamento dos primos, que afinal, conheciam nossos gostos e o que estávamos buscando. E, claro, pelas imagens que acompanhamos, nos pareceu um ótimo negócio! No final da visita, pelo celular mesmo, fechamos com a corretora: te envio o depósito como sinal e parte do pagamento agora por transferência bancária! Mas não quero que o o próximo cliente vá visitar a propriedade.

Exatamente dessa maneira, compramos uma Quinta vinícola em outro país, que será nossa casa e fonte de renda na pré-aposentadoria, ou seja, foi literalmente, pelas câmeras de um celular, sem visitar pessoalmente!

Na semana seguinte, em outubro de 2020, consegui passagem e visitei o local… sem o Luiz, que não pôde viajar. Nem vou fazer suspense, eu amei o lugar! Arrependimento zero! Gostei ainda mais do que através das câmeras e das fotos. Aliás, ainda bem, né? Porque os 10% de sinal estavam pagos e não tinha volta!

Aproveitei a semana para abrir conta em banco, me registrar como residente na casa dos primos… enfim, começar a preparar a estrutura. E, porque não devo ter um pingo de juízo, acabei comprando também um carro para ficar lá! Foi uma oportunidade, meu primo vende automóveis e apareceu um Kia pé-de-boi, preço bom, com 20 anos de idade, mas baixíssima kilometragem e muito bem cuidado. Pronto! Fica resolvido isso também!

Agora era só esperar a documentação ficar pronta para terminarmos de pagar e assinarmos a escritura. Honestamente, não tínhamos nenhuma pressa, com todas as viagens dificílimas e nosso exímio desconhecimento dos trabalhos necessários, o tempo estava a nosso favor.

A pandemia ficou mais complicada ainda, o ano virou e só conseguimos ir novamente a Portugal em abril de 2021. Em outro momento, contararei a saga que foi, mas finalmente Luiz conheceu a propriedade, 6 meses depois de negociada! A documentação não estava pronta, mas poderia ficar a qualquer momento. Por isso, tivemos a boa iniciativa de fazer uma procuração para meu primo.

Foi a melhor coisa que fizemos, porque em maio, após uma espera de 7 meses, a documentação foi regularizada! E como não poderia deixar de ser, essa história foi coroada com a escritura sendo assinada pelo meu primo, através de uma procuração!

O que importa é que agora é oficial, somos os felizes proprietários de uma propriedade em Vila Marim, com 3 hectares e produção de 7 mil pés de uvas! Prometo contar todos os detalhes, em breve!

Hoje, venho registrar que no dia 27 de maio de 2021, nasceu a Quinta do Vianna! Aqui, compartilharei essa aventura entre erros, acertos, sustos, descobertas, alegrias, preocupações, aprendizado e muito trabalho! E quem quiser fazer parte dessa aventura conosco, seja mais que bem-vindo!

Transtorno bipolar e depressão

Há alguns dias, um amigo me pediu ajuda para editar um texto que ele mesmo escreveu. Deixo claro que era uma edição sobre a forma de escrever, não sobre conteúdo. O texto é um depoimento verídico de uma pessoa que sofre de transtorno bipolar. O que me chamou atenção foi ser a primeira vez que li o ponto de vista de quem tem o problema. O que a pessoa sente, o que passa pela cabeça nos momentos de crise e, o principal, o que quem está de fora pode fazer para ajudar.

A intenção dele em, generosamente, se expor e compartilhar essa experiência é de ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação, estendendo-se também aos familiares.

Achei bacana! Acredito que realmente possa contribuir, esclarecer ou aliviar um peso e, por isso, abri o espaço no meu blog para divulgar seu texto. Frisando que não sou profissional na área e o depoimento não é meu. Mas se quiserem fazer alguma pergunta, ele mesmo pode responder nos comentários. Por isso, peço aos meus queridos e queridas leitoras que tentem não julgar, apenas procurem entender um outro prisma da situação. Você também pode ajudar alguém!

Abra seu coração e boa leitura!

Meu nome é Fernando, tenho 41 anos de idade e tenho uma doença mental, o transtorno bipolar.

Há muito tempo quero escrever sobre isso e tenho adiado. Mas hoje resolvi fazê-lo porque acredito poder ajudar outras pessoas em situação semelhante. É um assunto muito pessoal e que pouca gente que passa efetivamente pelo problema consegue escrever a respeito. Frequentemente, lemos a opinião de alguém que convive ou até parece conhecer a questão. Mas não há nada como a própria experiência para esclarecer o que sentimos e como nos ajudar.

Fui diagnosticado há mais de 20 anos com transtorno bipolar, um dos muitos tipos de depressão. Não sou especialista no assunto e esse não é um texto técnico, mas por sentir na pele tentarei explicar de forma bem simples o que se passa na nossa cabeça e no nosso corpo quando estamos em momentos de crise.

Essa doença mental é marcada por ciclos de mania/hipomania e depressão.

No ciclo de mania/hipomania, os principais sintomas são: hiperatividade, muita disposição, pensamento muito acelerado e sem muita capacidade de raciocínio, irritabilidade constante e insônia. Por conta disso, é comum que a gente se envolva em problemas sérios envolvendo riscos de compras sem controle, comer de forma exagerada, uso de álcool ou drogas, envolvimento frequente em brigas etc. Nem tudo se manifesta de uma vez, nem todas as pessoas tem os mesmos sintomas e a intensidade deles varia entre os portadores. Por isso, o diagnóstico é difícil e, muitas vezes, o tratamento não é o adequado.

Mas vou falar mesmo sobre a depressão, que para mim é muito pior e mais difícil de suportar. E o principal, sozinhos não conseguimos passar por ela.

Então, vamos lá! No momento em que estamos vivendo e convivendo com essa pandemia do Corona vírus, toda nossa rotina foi alterada de forma brusca. Isso faz com que aumente muito a probabilidade de se acionar algum “gatilho”. Gatilho é o termo que os médicos usam quando algum evento cria um caminho ou abre portas para quem tem predisposição à depressão faça com que ela se manifeste. Por exemplo, a perda do emprego, alguma doença, perda de algum familiar, ou até eventos menores podem ser a chave que liga o que até aquele momento estava lá, mas sem se manifestar.

É importante entender que depressão não é um simples tipo de tristeza, não necessariamente tem uma causa concreta, é literalmente uma doença, é um desequilíbrio de substâncias químicas do cérebro. Não é fraqueza, não é escolha e, principalmente, não é falta de Deus.

Vocês não diriam a um diabético, que também tem desequilíbrio na produção de insulina, para  pensar positivo, para rezar ou orar e continuar a comer doces e carboidratos descontroladamente ou não usar a medicação. Não vai ficar tudo bem simplesmente se a pessoa mudar a atitude, é um processo químico. É a mesma coisa.

Por que então as pessoas seguem dizendo essas coisas para quem tem depressão ou outra doença mental? É muita desinformação e, infelizmente, leva a preconceitos absurdos. E o mais grave, faz com que quem tenha a doença, ao invés de pedir ajuda, ainda se culpe mais ou se sinta pior.

Para tentar fazer as pessoas que ainda não entenderam que depressão é uma doença mental, tentarei descrever o que sentimos nesse período. Os pensamentos ficam muito confusos, desordenados ou lentos, não raciocinamos normalmente. Nessa fase mais aguda da depressão é difícil escrever, explicar as coisas de forma clara. 

É uma sensação de morte eminente, sentimos medo sem motivo, nos assustamos com tudo. A distração e a distância de pensamento fazem isso. É tanta tristeza e uma dor por dentro inexplicável, você não sabe de onde vem. A dor é física, o corpo dói, eu particularmente tenho enxaqueca e dores nas costas tão fortes que, às vezes, não consigo me vestir. O cansaço e o desânimo que sentimos é tanto que o respirar necessita esforço. Nessa época, precisamos respirar fundo, falta ar, a gente se sente um nada, vazio por dentro, um estorvo, um incômodo a todos que nos rodeiam. A única vontade de verdade que temos nesse período é de morrer. Aquela sensação de ter caído num buraco escuro e perceber que de lá nunca mais conseguiremos sair.

Eu não estou exagerando, na verdade, sentir o que sentimos e insistir em continuar demanda muita coragem e força.

Temos necessidade de estar sozinhos, mas não queremos nos sentir sós, precisamos ter em quem confiar. Porque quando começamos a afundar, e a gente afunda, precisamos ganhar tempo e ter alguém em quem nos segurar. A família e os amigos de verdade nesse momento são essenciais. Nunca soltem a nossa mão!

É tanta confusão de pensamento, tantos pensamentos negativos e eles se manifestam aos montes. Não conseguimos controlar, às vezes, conseguimos fugir um pouco, mas não dura muito tempo. Muitas vezes, sentimos inveja, até raiva da normalidade dos outros. E a grande maioria de nós, fica revoltado ou agressivo, responde com rispidez, de forma grosseira, alterada e desproporcional. Tudo fica amplificado! Cria uma revolta que é difícil explicar de onde vem e isso não é proposital, eu garanto a vocês! Perdemos a capacidade de raciocínio, os nervos ficam em carne viva.

Mas sei também que, quem está do outro lado, convivendo com alguém assim, sofre com isso. E acredito que seja difícil entender na totalidade como podem ocorrer tantas alterações. Às vezes, vocês respondem, retrucam e os desentendimentos surgem. Eu não culpo vocês, o melhor seria fingir que não ouve, mas sei que é muito difícil.

Nos sentimos no meio de uma multidão, mas sozinhos, sem nenhum rosto conhecido, sem nenhuma referência, não nos encontramos, não sabemos mais de verdade quem somos.

Para terem uma noção do sentimento de vazio, vou tentar dar um exemplo, quando perdemos uma pessoa querida, ficamos com um sentimento de luto, abre um buraco dentro da gente. Sei que muitos já passaram por isso. A sensação que temos se assemelha a essa perda. Entretanto, é como se não fosse só a perda de uma pessoa, mas de todos que conhecíamos, parece que ficamos sozinhos, sem mais ninguém. Sentimos um vazio, um desconsolo que não acaba e não podemos fugir, não há como se esconder, ela nos persegue. Sinto vontade de chorar e, na maior parte das vezes, faço quando ninguém vê. Sei que isso assusta, causa preocupação, e se você estiver por perto nessa hora, não precisa perguntar, falar nada. Seja apenas o ombro a acolher esse choro, ele é sem motivo, é necessidade de jogar para fora um pouco desse vazio, dessa tristeza que a gente sente e parece que se não fizermos isso, iremos nos engasgar.

Não é fácil para mim escrever sobre esse tema, mas em palavras não sei fazer diferente, nós também nos sentimos assustados, dá medo, e o maior medo é que isso nunca acabe. E a sensação é que nunca vai acabar mesmo.

Na fase da depressão, costumo sentir fome, mesmo depois de acabar de comer, é o tempo todo! Mas descobri, depois de muitas recaídas (lembram que tenho transtorno bipolar, a depressão é alternada em ciclos), que isso não é fome. É a sensação de vazio, de desemparo que dá sinais interpretados de forma errada no corpo. Eu comia. Era uma maneira de fugir do que sentia, ganhava muito peso e depois que o pior período passava, odiava a imagem que via no espelho. Aprendi com muito custo a separar a vontade de comer da real necessidade. Mas eu não consigo me controlar o tempo todo. Minha estratégia foi escolher um dia, geralmente na folga, para saciar o desejo contido a semana toda. E tem funcionado até agora. Atividade física nessa época é fundamental, seja caminhar, andar de bicicleta… enfim, ajuda muito mesmo! Serve para a gente espairecer, esquecer os pensamentos ruins que nós sentimos. Mas é praticamente impossível fazer isso sozinho, preciso de ajuda e ser acompanhado. Sem um grande incentivo, o cansaço e o desânimo tomam conta. Por isso, é essencial que alguém nos apoie nesse momento e, inclusive, serve para nos aproximar, reforça os laços que ficam desgastados. Mais uma vez, a participação da família e amigos é fundamental.

Viram como precisamos de ajuda? Mas não sabemos pedir e nem como. Essa ajuda, esse socorro precisam constantemente partir de quem está à nossa volta. Sentir tudo isso e ficar sem saber o que fazer é complicado, tanto para nós que adoecemos como para quem nos vê dessa forma.

Por isso, caso você conviva com uma pessoa depressiva, é importante estar atento à uma série de mudanças que descreverei agora. Os primeiros sintomas que surgem e são bem visíveis são: apatia, tristeza sem motivo, alterações de sono, apetite, confusão mental, irritação, raiva, muito cansaço e desânimo. Se esses sintomas aparecem sem nenhum motivo aparente e persistem por mais de duas semanas, é hora de investigar.

A ida ao médico o quanto antes é o melhor. É importante marcar o médico e ir acompanhado de alguém de confiança. O diagnóstico precoce é essencial e os remédios para depressão precisam ser administrados de forma gradual. A melhora também é gradativa.

Agora, imaginem desde o acordar até o adormecer se sentirem dominados por esse conjunto de sensações negativas e opressivas, vocês suportariam sozinhos? Seria muito difícil! Espero ter conseguido esclarecer como o apoio e compreensão são essenciais e que trata-se de uma doença como qualquer outra. Uma doença que precisa ser compreendida e, principalmente, tratada.

O respeito é muito importante sempre! Guarde seu julgamento, suas opiniões e crenças para você. Tanto quem está doente como a família que acompanha, estão já muito desagastados, cansados e preocupados. São necessárias uma série de adaptações até a estabilização da pessoa que sofre de depressão. Comentários e sugestões não acrescentam nada, não ajudam.

E para vocês, os amigos e familiares que se encontram nessa situação agora, não desanimem! Tem tratamento, tem solução. Com união, compreensão e principalmente a ajuda de quem está próximo, é possível dar um fim a esse sofrimento. E algo fundamental: nunca abandonem o tratamento depois de melhorarem! A depressão clássica (a mais comum), se não for tratada com acompanhamento contínuo, tem recaídas sérias, que na maioria das vezes são bem mais intensas e de recuperação mais demorada.

Caso você que esteja lendo estiver passando por isso agora, ou se já passou e sentir vontade de me perguntar a respeito, de comentar alguma coisa, compartilhar sua experiência, pode ficar à vontade, estou aqui para ajudar. Caso não queira ser identificado, pode me mandar como mensagem privada que preservo o anonimato sem problema.

Não tenho vergonha, nem receio em me expor. Não me sinto melhor ou pior que ninguém por ter transtorno bipolar e ter passado por várias crises de depressão. A nossa vida é cheia de desafios, esse  é mais um, e que só prova o quanto somos fortes e quando estamos unidos, podemos vencer qualquer batalha. E novamente volto a reforçar, nunca soltem a nossa mão, é peso demais pra gente suportar sozinho.Todo mundo, independente de sua condição, precisa de alguém!”

Sabor agridoce

Hoje é dia 17/03/2021 e acordamos aqui na Inglaterra com a melhor notícia que poderíamos ter: nossa vacinação contra o COVID será amanhã! Difícil acreditar que esse dia, FINALMENTE, chegou!

O interessante é que amanhã, dia 18/03/2021, também é nosso aniversário de casamento, faremos Bodas de Crisoprásio por 27 anos de matrimônio! Nem sabia o que era crisoprásio, parece até que a gente está escrevendo errado. Mas para os curiosos como eu, é o tipo mais valioso de quartzo cripto, uma pedra rara e desejada. Sua cor é verde-maçã, que também é a cor da cura e da esperança.

A história ainda foi melhorada, porque minha mãe também receberá sua primeira dose da vacina na mesma data que nós. Bom, isso esperamos, pois sua vacinação no Rio de Janeiro já foi cancelada por duas vezes. Mas acreditamos e torcemos muito que agora ela consiga.

Assim que meu dia começou absolutamente eufórico e feliz! Vontade de sair contando para todo mundo e compartilhar esse momento tão alegre!

Porém, pouco depois de começar a dividir o fato, caí na dura realidade que talvez estivesse sendo cruel. Porque deve ser muito duro para quem não tem nem perspectiva de receber a vacina escutar uma notícia assim. Ainda há muita gente sofrendo muito com isso, muita gente com medo e muita gente que perdeu família, amigos, emprego…

A pandemia foi nos cercando e se encarregou de não deixar ninguém passar absolutamente ileso. Quem hoje não foi afetado diretamente? Alguém conhece qualquer pessoa que não tenha perdido alguém com essa insanidade? Antes estava distante… logo escutamos falar… pronto era o amigo de um amigo… e foi se aproximando de nós sem nenhuma piedade até nos roçar ou mesmo nos alcançar.

Não tem jeito galera! Sabe aquela história de que “se não for para todos, não é para nenhum”? É a sensação que tenho agora, como um sabor agridoce, quase um paradoxo, um lado meu é pura felicidade e outro é dor de saber que ainda há tanta gente angustiada, precisando dessa dose como eu.

Mas enfim, um passo de cada vez!

Hoje escolho a felicidade da celebração e o otimismo de dias melhores! Hoje quero dizer que estamos cada vez mais perto de solucionar essa etapa. Hoje eu quero te contar que quando chega nossa vez a gente não esquece de quem ainda falta, nem de quem se foi e não pode mais. Ontem foi outra pessoa, hoje sou eu, amanhã será você! E vai dar tudo certo! Calma, a vez de cada um vai chegar e essa loucura vai passar.

Há um ano eu estava a essa altura organizando minha primeira festa de casamento virtual, com um músico amigo nosso fazendo um concerto, tudo à distância. A primeira quarentena havia acabado de iniciar. Estava quase conformada de não poder fazer uma super festa, mas ainda muito aborrecida por não poder ir ao menos a um restaurante bacana celebrar com Luiz.

Amanhã, nenhum restaurante ou casa de festas me faria mais grata e contente do que o centro de vacinação me fará. E ainda por cima, seremos Luiz e eu vacinados juntos, em sequência. Meu amigo, meu amor e meu parceiro de todas as horas, nunca tão literalmente! E quando estivermos voltando para casa, sei que minha mãe também terá esse privilégio. Foi o melhor presente que eu poderia receber. E se tem uma coisa que esse vírus duzinfernu me ensinou foi a rever nossas prioridades e perspectivas.

Sim, o sabor é agridoce, porque a vida é doce e amarga ao mesmo tempo e eu hoje tenho certeza que gosto dela desse jeitinho mesmo!

Os obstáculos corretos!

Há cerca de um ano, tenho enveredado por um interessante caminho de canto de mantras e, em paralelo, estudado um pouco da mitologia dos deuses e deusas hindus por trás de toda essa filosofia. Acho que a analogia das histórias, em geral, nos ajuda a entender o inconsciente coletivo. Enfim, nem vou me prolongar muito nesse tema, mas vou contar rapida e muito amadoramente sobre um dos deuses mais adorados do hinduísmo: Ganesha.

Ganesha é aquele deus com cabeça de elefante, é conhecido como o senhor dos obstáculos. Muita gente devota pede a ele que abra seus caminhos. Inclusive, são os cantos a Ganesha que também abrem os rituais.

Acho a mitologia sobre sua criação muito intrigante. Há versões ligeiramente diferentes e essa é minha favorita. Ganesha é filho de Shiva e Parvati. Reza a lenda que Shiva sempre saía de casa e passava trocentos anos meditando e, quando regressava, nunca lembrava de avisar a Parvati. A deusa, por sua vez, se irritava muito em ser interrompida nos seus banhos de beleza e purificação por seu marido que chegava a hora que bem entendia.

Em uma dessas viagens meditadivas de Shiva, Parvati estava lá meio solitária e resolveu então que queria ter um filho. Veja bem, Parvati era uma deusa super poderosa, se ela queria criar um filho dela com Shiva, ele nem precisaria estar presente, ela criava e pronto! E assim, nasceu Ganesha, um menino barrigudinho, simpático e muito poderoso! E não, ainda não tinha cabeça de elefante.

Pois muito bem, Parvati foi tomar um dos seus famosos e longos banhos e não queria ser interrompida por ninguém, de nenhuma maneira! Assim que chamou Ganesha e lhe deu essas instruções: meu filho, você se planta aqui nessa porta e não deixa passar absolutamente ninguém! Sem exceções!

Ganesha, obedecendo sua mãe, se plantou na porta de casa e ali ficou!

É lógico que durante esse banho, chegou Shiva em casa, doido para entrar, e encontra esse menino na porta que lhe impede a passagem. Shiva se invoca todo e fala para ele algo como, “mermão, tá maluco? Sou eu, Shiva, um super deus! Eu moro aí, dá uma licença que vou entrar“. Ganesha, barra a entrada e avisa logo: aqui ninguém passa!

Shiva, meio de saco cheio, vai chamar seu tremendo exército e manda retirarem aquele menino da porta que ele quer passar. E lá foi o exército de Shiva, inutilmente tentar tirar o menino… e nada! Foi caindo um por um! Seu general volta e avisa a Shiva: olha, não vai rolar! Não sei quem é esse menino, mas ele é muito poderoso!

Daí com aquela confusão toda, começaram a acordar outros deuses, o pessoal querendo saber o que estava acontecendo e tal. Nisso, desce o deus Vishnu, tenta passar pelo Ganesha também… e nada!

Shiva e Vishnu já meio mordidos com aquela história e sem entender de onde vinha tanto poder, fazem um plano. Vishnu diz que vai distrair Ganesha, enquanto Shiva vai por trás e corta sua cabeça. E assim fizeram, cortaram a cabeça e mataram o pobre do Ganesha.

Bom, nisso, Parvati termina seu banho e escuta aquela algazarra toda e quando chega na porta, descobre o Ganesha decaptado. Imagina uma mãe vendo isso? Ela fica uma fera e parte para cima do Shiva: você está louco! Você acabou de matar nosso filho!

Shiva todo desconcertado, como assim nosso filho? Nem sabia que eu tinha filho! E Parvati não queria nem saber: Shiva, se vira e ressucita o Ganesha agora!

Então, Shiva chama seu exército e lhes incumbe a missão de encontrar uma cabeça para o filho. Lá sai o exército atrás de uma cabeça e encontram um elefante. Daí eles pedem permissão ao elefante para levarem sua cabeça e ele permite (o elefante precisava deixar, não podia ser uma cabeça decaptada assim sem mais nem menos).

A cabeça do elefante é implantada no garoto e ele volta à vida ainda mais poderoso e agora, com a forma que é conhecido, corpo de menino e cabeça de elefante.

Shiva e sua galera de deuses perguntam a Parvati: estamos desculpados? Assim está bem?

E Parvati diz, ainda não, exijo que a partir de agora todo o ritual celebrado se inicie com reverências ao meu filho, Ganesha! Os deuses topam e ficam todos felizes e satisfeitos!

Por isso, todos os rituais começam com saudações a Ganesha e, também por essa história, ele é conhecido como o senhor dos obstáculos. Ainda que muita gente também o chame de “removedor de obstáculos”.

E contei essa história, porque há um detalhe nessas entrelinhas que me faz toda a diferença do mundo! O real papel de Ganesha não é remover seus obstáculos, e sim te dar os obstáculos certos. Não é apenas uma questão semântica, acredito que há toda uma atitude diferente por trás disso. Hoje, quando tenho algum impecilho em meu caminho, ao invés de me irritar ou querer que ele seja removido, eu penso: pode ser o obstáculo certo.

A filosofia que guia essa maneira de pensar é que Ganesha pode remover, mas também pode te colocar obstáculos. Nem sempre o que queremos é o melhor para a gente. Eventualmente, precisamos nos exercitar e aprender a passar por dificuldades.

Eu não tenho o luxo da fé, para os sortudos que acreditam em um poder maior, é a boa e velha historinha de que um deus não te dá um problema que você não tenha condição de resolver. Acho essa frase sempre muito mal usada pelas pessoas e em péssimas ocasiões, mas o ponto é, independente da sua razão, por fé, por lógica ou por mera atitude, quando você passa a ver os problemas como os “obstáculos corretos”, sua perspectiva muda completamente.

Não sou perfeita nem tão evoluída, mas consegui estabelecer esse hábito de a cada encrenca ou aparente fracasso, simplesmente pensar: pode ser o obstáculo correto. Sinal que devo ir por outro caminho. Ou sinal que preciso me preparar melhor. Ou sinal que ainda não é agora… Enfim, automaticamente, muda minha energia e sinceramente, vejo como uma oportunidade. Pois ao invés de ficar reclamando como sou injustiçada, ou por que tudo é tão difícil, imediatamente meu foco muda para o que preciso fazer diferente. E, pumba! Minha perspectiva aumenta na hora!

E essa é uma das coisas que acho mais bacana na mitologia em geral, e nesse caso específico, na mitologia hinduísta, como a gente pode aprender com essas histórias a pensar diferente!

Além disso, ampliando-se para o canto de mantras, como essas vibrações e sons adquirem efeito de palavras mágicas.

Está com um problema? Como direcionar o foco para outro lado? Como mudar sua energia? Eu canto! Ganesha, vamos lá, me dá os obstáculos corretos e apaziguados! Oṁ gaṇapataye namaḥ! Pronto! Ganesha tá na causa, agora é comigo! O que preciso fazer para resolver?

Olha, admito que minha vida mudou muito no último ano! Lógico que não foi só por isso, é apenas a famosa ponta do iceberg, mas foi definitivamente um passo essencial para o bem.

E se melhorou minha vida, por que não iria melhorar a sua? Sei lá, se não estiver fazendo nada… da próxima vez que surgir um problemão daqueles, e a gente sabe que vai surgir, tenta o exercício de se perguntar: e se for o obstáculo correto?

Wolverine e suas 7 vidas

As últimas 3 semanas tem sido de absoluto sufoco com nossa família humano-felina. Para quem não sabe, temos dois gatos há cerca de 7 anos, adotados na primeira vez que moramos em Londres, o Wolverine, com 9 anos de idade e a Phoenix, com 11.

Muito bem, Wolverine tem alguns pequenos problemas respiratórios, nada muito grave, como se fosse uma asma leve que administramos sem remédios, só acompanhando.

Há umas 3 semanas eles começou a ficar estranho, respirando mal e se escondendo da gente. Alguma coisa parecia incomodar sua garganta… enfim, estava esquisito. Levamos ele ao veterinário e, em princípio, parecia ser algo respiratório, por causa do seu histórico. Sendo assim, tomou uma injeção de esteróides e voltou para casa bem. Ficou de tomar uma segunda injeção um par de dias depois.

Na segunda injeção, ao invés de melhorar, piorou. Na verdade, começou a piorar exponencialmente e a expelir uma secreção avermelhada por uma das narinas. Parou de comer e beber água, totalmente letárgico, ficamos bem assustados. Levamos novamente ao veterinário.

A veterinária teve a presença de espírito de olhar dentro da boca do gato, afinal, estava estranho a tal da secreção sair por apenas uma das narinas. E descobriu que estava com um abcesso no lado esquerdo do céu da boca. Algum tipo de infecção. Era isso, inclusive, que o estava impedindo de comer, ele até tentava, mas não conseguia.

Esse é um sinal muito importante para quem tem gato. Os felinos, quando sentem que chegou sua hora, param de comer, ficam completamente sem apetite. Ou seja, enquanto o gato quer comer, há esperança!

Muito bem, Wolverine precisou ficar internado e passou por um procedimento cirúrgico, com anestesia geral, para limpar a área e fazer uma biópsia. Fraco do jeito que estava, apertou o coração do risco da cirurgia e da anestesia, mas ele aguentou bem o tranco. Entrou no antibiótico generalizado, enquanto a biópsia não ficava pronta.

Entretanto, nada do gato melhorar… e nada de sair o resultado da biópsia. Voltou para casa depois de uns 5 dias internados, com antibiótico oral. Mas não respondeu bem ao tratamento, a infecção piorou e precisou ser internado novamente…

… e passou pelo segundo procedimento cirúrgico com anestesia geral, ainda mais fraco e há duas semanas comendo o mínimo para sobreviver e tomando fluídos injetáveis.

A essa altura, por mais que tivesse esperança que ele melhorasse, o quadro não era nada promissor e eu estava muito angustiada em fazer o bicho passar por tanto sofrimento, sem saber sequer se tinha alguma possibilidade de melhora. Porque afinal, nada de sair o resultado da biópsia!

Honestamente, aceito bem morte e vida, mas tenho muita dificuldade em lidar com sofrimento e estava pronta para uma eutanásia e parar com a agonia do bichinho, que já levava 2 semanas com dor e faminto. Estava tomando analgésicos, mas a gente sabe que dói assim mesmo.

Mas o que parecia ser uma piora, afinal, além do abcesso no céu da boca, estourou outro na lateral da garganta, na verdade era o corpo tentando expulsar o que provocava a infecção. E o que estava acontecendo era que havia tanto pus envolta da ferida que os antibióticos não faziam efeito. Nesse segundo procedimento cirúrgico, eles limparam bastante o local e colocaram um dreno externo na altura da garganta.

Adicionalmente, saiu o resultado da biópsia e felizmente deu negativo para câncer. Ou seja, era realmente uma infecção cascuda, mas com chance de curar.

Então, vamos para briga com tudo que tiver direito!

Nesse meio tempo, também saiu o resultado da cultura que fizeram da bactéria que estava afetando o gato e ele passou a tomar um coquetel de antibióticos mais focado para o caso específico dele.

A nossa torcida era que, finalmente, com a ferida “limpa” e acessível aos antibióticos e o remédios certos, ele começasse a melhorar. No primeiro dia, para ser sincera, o veterinário estava bem preocupado e frustrado com a falta de resposta do corpo.

Mas… no segundo dia… nosso guerrerinho começou a reagir! Também, acho que havia meio mundo torcendo e enviando energias positivas para o bichano! Bianquita enlouquecida cantando mantras para Ganesha! Mentalizando “di cum força mesmo” para ele melhorar!

No terceiro dia, começamos a realmente acreditar que podíamos ser cautelosamente otimistas e, a partir daí, foi ladeira acima! Ao todo, contando a primeira e segunda internações, ele ficou 13 dias em tratamento intensivo na clínica veterinária. De enlouquecer qualquer dono de bicho! Luiz ligava duas vezes por dia para ter notícias e colocava no viva voz para eu participar.

Na sexta-feira passada, pudemos trazê-lo para casa! Nem sei explicar o tamanho do alívio que é tê-lo aqui, comendo, com o olhar vivo e ronronando feliz! Temos levado ele diariamente para tomar antibiótico injetável, mas é rápido e logo voltamos todos para casa. Hoje é segunda-feira, e ele em princípio recebeu alta dos remédios.

Mas seguro morreu de velho e sei lá… acho que estou com “trauma de guerra” e ainda não relaxei de vez. Na quinta-feira, vamos levá-lo para um check up. Não queremos deixar que ele tenha uma recaída e vamos monitorar muito de perto esses próximos dias sem remédio.

Pois é, vamos brincar um pouco para deixar a coisa mais leve. Recapitulando, lembra que estamos nessa batalha há 3 semanas, incluindo 2 procedimentos cirúrgicos, 13 dias de internação, consultas, remédios etc… e não temos plano de saúde para os felinos! Ui… Veja bem, não é uma reclamação, porque para mim, os veterinários e as enfermeiras fizeram um milagre! Só não saí abraçando todo mundo porque está proibido! Wolverine deve ter gasto umas 3 vidas! Mas não saiu exatamente barato… Então, nesse momento, estamos rifando um rim do Luiz e minha córnea esquerda para pagar a conta! Qualquer contribuição, a família agradece!

E conto isso porque acho que quem tem bicho, ou faz plano de saúde ou faz uma reserva para emergências (nosso caso). Porque se já é um sufoco tendo condição de cuidar do animal, imagina sem poder pagar um tratamento… Deve ser desesperador! Animais de estimação são parte da nossa família, a gente sente como se fosse uma pessoa, porque é um ser vivo e absolutamente próximo, convivemos diariamente e é uma relação de carinho e troca imensa!

Bom, mas não temos apenas um gato e, enquanto isso na sala de justiça, tivemos que administrar uma “faixa de gaza” em casa. Durante esse período de tratamento, isolamos Wolverine no primeiro andar e, claro, Bianquinha dormindo no sofá com ele de castigo; e Phoenix no segundo andar, grudada no dono dela.

Os dois gatos são muito apegados um ao outro e estávamos muito preocupados como a Phoenix ia reagir. Na prática, nesse tempo que Wolverine ficou fora de casa, ela reagiu bem melhor do que esperávamos, ficou muito carinhosa e próxima a Luiz e eu. Entretanto, agora estamos em uma fase de reaproximação dos bichanos. Não é instantâneo, quando você tem mais de um gato e há esses períodos de ausência, principalmente quando um deles vem de um hospital e os cheiros são outros, é necessário se administrar os primeiros contatos.

Por sorte, Wolverine é o dominante, ela nunca o ataca. Ele está mais tranquilo e, claro, no céu de estar em casa novamente. Mas ela ainda está estranhando um pouco. Vamos esperar agora a natureza se encarregar de acalmar as coisas.

E é isso! Nosso Wolverine honrou seu nome de X-Cat e vem reagindo heroicamente! Está um pouco desconfiado ainda conosco, mas muito carinhoso. Não guardou mágoa, não ficou aborrecido porque o deixamos no hospital, ficou grato e contente porque o trouxemos de volta. Ainda não posso acabar essa história com um “e foram felizes para sempre“, temos um caminho e os obstáculos corretos para vencer. Mas assim é a vida, sou grata por cada momento de alívio e, por isso, hoje celebramos!

2020/2021

E cá estamos, finalizado 2020, um ano paradoxalmente par e ímpar ao mesmo tempo!

Escrevo um pouco atrasada, afinal, entrou janeiro, mas quer saber de uma coisa? Se algo aprendemos esse ano foi a ter menos pressa, o tempo pode efetivamente ser relativo.

Não era o final que esperávamos, mas chegar com saúde nessa data não deixa de ser uma vitória! Creio que podemos dizer que somos, de certa forma, sobreviventes de uma guerra mundial e com um inimigo comum entre todas as nações.

Não que todas tenham entendido e lutado da mesma maneira, mas é um fato, o inimigo é único e tal como um super vilão digno da Marvel, é invisível! O interessante é que, assim como os demônios indianos, não é totalmente mau nem totalmente bom. O vírus é o que é, escolhe por seus próprios padrões, devasta ou fortalece.

Tenho muito respeito e empatia por quem sofre ou sofreu suas piores consequências, de verdade, porque foi foda (me desculpem os mais educados) e tenho consciência dos meus privilégios. Mas não vim aqui falar de sofrimento ou de problemas, porque quem está se afogando não quer peso extra e sim uma bóia ou um farol para se auto-orientar.

Desapego é meu lema há anos, nem sei mais se por aprendizado ou porque faz parte da minha natureza. E agora mesmo, nem mais importa a razão e sim que é um fato. E como isso ajudou?

Ajudou a não perder tempo sofrendo ou tentando encaixar uma maneira de viver onde não cabia mais. Ajudou a não gastar energia reclamando da máscara ou não achar a vida horrível porque o bar estava fechado. Ajudou a me privar de prazeres que nunca me assustaram, mas que poderiam prejudicar pessoas que nem conheço. Ajudou a olhar para frente, não para trás, e perguntar: quais são as regras agora? O que temos para hoje?

E, entre nós, muitas das “novas regras” faziam parte da minha rotina! Lavar bem as mãos e manter boas condições de higiene, usar álcool gel (sim, quem me conhece sabe que uso há anos!), fazer compras por internet, cozinhar e cuidar da casa, trabalhar em home office… tudo isso eu fazia! Admito ter potencializado, mas um pouco neurótica eu já era!

E a saudade de pessoas que não podia encontrar? Sério? Eu nem lembro se houve algum período da minha vida que não senti saudades de alguém! Sou colecionadora de saudades! Sejam bem-vindos à minha vida desde… sempre! Na verdade, as alternativas geradas, como vídeo conferências, me fizeram mais próxima das pessoas que amo e vivo distante há décadas!

Verdade que sinto falta de dar uma boa festa, de falar com estranhos, de abraçar os amigos… lógico que sinto falta! Mas também imagino como vai ser bom e o quanto vou valorizar esses momentos que prezo tanto!

O que sim considero uma sorte grande é não estar sozinha em casa. Ter um “partner in crime“, um cúmplice constante e recíproco, fez tudo mais fácil. Mas isso também acontece há muito tempo, não é uma novidade.

Por coincidências ou por escolhas, minha vida e a do Luiz já nos preparava para o que enfrentamos no ano passado. Não posso falar no nome dele, por isso, vou falar no meu. Literalmente, desde criança fui adestrada a administrar a distância, a saudade, a autossuficiência… e adulta tenho o caos como aliado, não porque seja minha preferência, mas porque é quando sou mais forte. A mudança e, consequentemente, a adaptação (afinal é a única opção) fazem parte da nossa rotina desde quando nem me lembro mais! E isso, caríssimos, nos deu um olho em terra de cegos.

Ouvi muitas queixas sobre a privação da liberdade e confesso a vocês, com toda a humildade (que finalmente aprendi esse ano), eu nunca me senti tão livre! Digo e repito que não quero voltar a ser a pessoa que era antes de março de 2020. E não porque me achava má pessoa, mas porque acredito sinceramente que hoje sou melhor, vivo melhor, entendo melhor. Evoluí e sem um pingo de vergonha de dar um tapinha nas minhas próprias costas!

Queridos e queridas, para quem chegou até aqui, não importa se concordamos ou não, estamos no mesmo barco, o time de quem sobreviveu! Muito obrigada por sua companhia e será um prazer iniciarmos juntos 2021. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a vida nos separe…

… e a gente se encontre numa reunião do zoom! 😉

51

Dia 9 de novembro de 2020, fiz 51 anos de idade! Essa sou eu, no dia do meu aniversário, com maquiagem e sem filtros.

Eu amo de paixão dar uma boa festa, mesmo sem nenhum motivo significativo. Portanto, se há uma razão, essa vontade se multiplica. No ano passado, tivemos dois motivos de grandes festas em casa, nossas bodas de prata e meu aniversário de 50 anos. Havia orçamento para apenas uma celebração, o que não reclamo, apenas descrevo. Então, optamos pela festa de bodas de prata.

Os 50 anos foram bem celebrados também, mas apenas entre Luiz e eu.

Decidi assim, deixar o festão para o ano seguinte e celebrar os 51 em grande estilo. E o diabo são as expectativas… Eu sempre sou contra a criá-las, mas às vezes é mais forte do que eu. E sim, criei uma expectativa gigantesca em realizar uma super comemoração no meu aniversário. Havia tema e tudo: a festa da boa ideia!

Preciso nem explicar, né? Aconteceu o impensável no planeta, uma pandemia mundial! De quebra, um “lockdown” fresquinho iniciando-se na semana anterior aos meus planos celebrativos! Mais uma vez, a grande festa que já havia se conformado em ser pequena, foi adiada.

É lógico que não era sobre uma festa, era apenas a gota d’água. O cansaço em recomeçar, a sensação de andar para trás, a preocupação com as notícias que vieram e virão.

Passada a frustração e o inferno astral, cá estou, com ânimo e fôlego renovados! Pode tirar seu cavalinho da chuva, Sr. COVID, como diria minha avó, sou pau de dar em doido! E agora, uma experiente jovem senhora!

O final do ano se aproxima, sei e entendo o quanto as pessoas praguejam sobre 2020. Mas sinceramente, já fiz as pazes com ele… na verdade, fiz há meses! Está perdoado! A quantidade de coisas que realizamos esse ano não foi pequena. Foi foda, mas seguimos aqui, com a perigosa sensação de invencibilidade. Faz tempo que não me sinto tão forte, segura e tão calma. Em parte, talvez pela idade, mas acredito que em boa proporção se deveu ao que esse ano nos ensinou. Da maneira mais dura, mais louca, mas aprendi.

Eu sei exatamente quem sou. Meu corpo é meu lar e estou confortável em casa, dentro da minha própria pele. A vida é uma constante mudança, o tempo passa, minha idade passa…

E tudo bem, porque tudo muda e isso também vai passar.

“Estupro culposo”, mais uma vergonha para a lista brasileira!

Muito bem, não sou advogada, mas gosto de me informar. Então, para quem não entendeu o tamanho do absurdo envolvido, vai uma ligeira explicação jurídica para leigos. Quando um assassinato é cometido, ele pode ser “culposo” ou “doloso”.

Um assassinato “culposo” é aquele onde, apesar da vítima haver morrido, não havia essa intenção. Por exemplo, uma briga entre dois estranhos em um bar, de repente, um deles leva um soco e quando cai, bate a cabeça e morre. O crime aconteceu, a vítima morreu, mas o criminoso que o matou talvez só quisesse machucá-lo, não esperava que ele morresse.

Já um assassinato “doloso” é quando o crime foi premeditado. Existia uma vítima escolhida, o criminoso foi lá e deu um tiro na cabeça de fulaninho de tal.

Essa é a diferença: o “doloso” é um crime planejado e o “culposo” é um crime onde não havia a intenção de matar.

Mas, por exemplo, não existe um “assalto culposo ou doloso”, assalto é assalto! Não existe esse negócio de “eu nem queria roubar, mas estava ali…”. Se roubou, existia a intenção de roubar, ponto! Não tem discussão! Como não existe “sequestro culposo”, ninguém sequestra outra pessoa sem perceber que sequestrou!

Da mesma maneira que “estupro culposo” simplesmente NÃO EXISTE! Na cabeça de quem um homem estupra sem querer? Isso é uma verdadeira aberração jurídica! Praticamente um deboche da sociedade e dos direitos individuais.

Peço desculpas aos mais sensíveis pela baixaria que vou escrever no próximo parágrafo, mas infelizmente, uma boa interpretação de texto é algo em extinção no Brasil, portanto, não é mais possível se escrever com metáforas. É preciso falar diretamente e dar nome aos bois!

Vamos lá, para você, homem que é incapaz de sentir empatia imaginando que poderia ser sua mãe ou sua irmã, vamos fazer o seguinte, faz de conta que foi com você! Você, homem branco e hétero (só para contextulizar), saiu com um amigo que conhecia há pouco tempo, mas era um cara legal, do seu time, votou no mesmo presidente que você… e então, foram juntos para um clube dançar e, quem sabe conseguir “pegar mulher“. Você bebeu mais do que deveria e não percebeu que seu amigo colocou drogas na sua bebida, o que te fez apagar. Daí seu amigo foi lá e comeu seu cu, deixou provas no seu corpo, sêmen e sangue. Você acorda confuso, meio drogado, sem entender nada, vai para casa ensanguentado cheio de dor e humilhado. Pensa que denunciar seu “amigo” será uma razão de constrangimento total, porque todo mundo vai dizer que você bem que queria, fala sério? Vão pensar que na verdade você deve ser mesmo um enrustido… E quer saber, pensando melhor, seu amigo nem teve a intenção de te estuprar… é que você estava ali, meio inconsciente, quando ele percebeu… estava com o pau duro dentro do seu cu! Ups, foi algo que ele mal notou que estava fazendo! Pois é, esse seria um estupro culposo

Alguém acha engraçado? Eu acho triste!

Veja bem e entenda o caso, a menina denunciou; apresentou provas; apresentou testemunhas; fez exames e entregou prova de sêmen e rompimento recente do hímen… faltou o que? A vítima estava no local exercendo sua profissão honestamente, trabalhando! A menina era virgem, e não digo isso porque acredito que ela precisasse ser, mas apenas para ressaltar que nem os mais canalhas e conservadores teriam algum argumento ridículo e preconceituoso para colocar.

Como não havia mais sombra de dúvida que o crime aconteceu, o que restou? Tirar da cartola uma modalidade de crime que NÃO EXISTE! E assim, mais uma vez, culpar a vítima! E, de quebra, defamar bastante a menina, afinal já é praxe nesse meio, eles estão acostumados.

Se essa aberração não for remediada imediatamente, podem se preparar mulheres, porque nunca mais nenhum jogador de futebol, político ou qualquer homem branco e rico será encriminado por estupro no Brasil! Independente de quantas provas forem apresentadas. Afinal de contas, uma nova categoria de coitados deficientes intelectuais foi gerada: homens que estupram sem querer!

Pessoalmente, não vejo como uma briga de mulheres ou uma demanda feminista (que sou). Acho que deveria incomodar a qualquer pessoa, qualquer ser humano. De toda maneira, me sinto grata quando percebo também os homens entendendo e se juntando à causa.

O que podemos fazer? Pressão! Chega de só divulgar o rosto e o nome da vítima! O estuprador se chama André de Camargo Aranha. O nome do promotor que alegou estupro culposo é Thiago Carriço. O nome do advogado que humilhou a vítima se chama Cláudio Gastão da Rosa Filho. O nome do juiz que aceitou todo esse absurdo e absolveu o estuprador se chama Rudson Marcos. E espero que, dentro da legalidade, eles não tenham um minuto de paz pelo mal e injustiça que estão tentando propagar.

Para quem se interessar em fazer alguma coisa, há uma petição virtual aqui http://chng.it/hLTsFzxC. Eu assinei. Não é uma petição que resolve, mas ajuda a dar voz para que o caso não seja abafado.

E quando a gente acha que vai melhorar…

Dá-lhe outra quarentena pelas fuças!

Pelo que tenho observado à nossa volta, acho até que estamos levando toda essa pandemia maluca de uma maneira razoavelmente leve! Fazer o quê? Aprendemos a não enlouquecer.

E sim, nosso tipo de trabalho e condição social favorece, não nego, entendo que não é igualmente fácil ou difícil para as pessoas. A desigualdade existia antes e segue existindo. É cruel, não é justo, mas é assim desde que o mundo é mundo. Acho até que esse período ajudou a olharmos um pouco melhor para nosso lado e, honestamente, tenho presenciado iniciativas bonitas de tentar ajudar o próximo.

Dito isso, egoistamente, junto a esse segundo “lockdown”, me veio também uma onda de frustração pessoal. Porque está bastante perto do meu aniversário e o planeta sabe o quanto eu amo oferecer uma festa e celebrar! Sim, é sobre meu umbigo, eu sei, vou trabalhar melhor isso na minha cabeça, mas me deu uma baixada de bola e certa desanimada.

Aos protocolos de segurança, já me acostumei, faço automaticamente sem reclamar. Se era o preço para alguma libertade, pago feliz! E acho que poderiam reforçar o uso desses protocolos, sem fechar novamente o comércio, os restaurantes e os bares. Mas como costumo dizer, o que acho ou deixo de achar não vale nada. E lá vamos nós para uma segunda temporada do “fique em casa”!

Curiosamente, em março, havia viajado para Madri quando toda a história ainda era nebulosa e, na volta, resolvido fazer uma quarentena opcional por respeito aos demais. Antes do meu tempo de reclusão acabar, foi declarada no país a primeira quarentena oficial, o que tornou meu isolamento mais longo que o das pessoas ao redor.

Pois acaba de acontecer algo semelhante. Viajei para Portugal para resolver alguns assuntos que não poderiam esperar. Obviamente, tomei todas as precauções, não apresentei nenhum sintoma na volta, mas cumpro 14 dias de isolamento obrigatório em função da viagem. Meu isolamento se encerraría no dia 06/11. Daí, no final da semana passada o primeiro ministro anunciou que um novo lockdown entrará em vigor a partir do dia 05/11!

Sério! Um dia antes? Lá vou eu partir para o isolamento com duas semanas de antecedência outra vez!

Mas nem é o pior! O que me deixou bastante chateada é que 9 de novembro é meu aniversário. Nem tinha a expectativa de fazer nada grande demais, mas pelo menos, uma reuniãozinha com amigos que sei que estão se cuidando. E pensei também em contratar um amigo músico para fazer um concerto virtual ao vivo. E o principal: agendado um jantar em um restaurante muito legal com o Luiz. Pois é… a resposta é “não” para todas as alternativas acima!

E isso, sem falar que já adiei duas vezes uma ida ao Brasil. A primeira seria em setembro. Troquei para novembro, com a intenção de passar meu aniversário com a família. No mês passado, desisti de vez e cancelei a passagem. Cansei de adiar planos. Agora só planejo o que posso cumprir.

É, sei que podia ser pior… sei que não devia reclamar… mas caraca, já deu, né? Na boa, sou voluntária para qualquer vacina experimental que aparecer! Cobaia, amarradona! E isso porque nem gosto de tomar vacina nenhuma!

Bora lá, Bianquita! Partir para nova temporada de meditações… Deixa eu ir cantar meus mantras que é o melhor que faço!

Como alugar apartamento em Londres e, sim, na Inglaterra também tem pilantra! Atenção!

A frequência em relação à desonestidade é relativamente pequena e ainda surpreende, o que considero muito positivo, mas existe. As maiores vítimas costumam estar entre as classes economicamente mais baixas e imigrantes, o que é normal, os abusos são sempre mais frequentes com quem não tem voz. Entretanto, ninguém está livre e é bom conhecer seus direitos.

Mas vamos começar pelo que é mais comum. A primeira coisa que você precisa decidir é a periodicidade do aluguel. Você pode alugar um imóvel como contrato de curta duração (short let), que varia desde poucos dias até 6 meses. Costuma-se pagar um valor maior para esses aluguéis, uma média de 50% mais caro por semana. São apartamentos que vem com tudo, móveis, utensílios etc. Normalmente, incluem internet e as contas (água, gás, energia… exceto telefone), pode incluir também limpeza, dependendo do acordo.

A outra opção e mais comum para quem é residente, são os aluguéis de longa duração (long let), com um período típico de um ano. Após esse tempo, você tem a opção de sair ou o proprietário pode pedir que você saia. É sempre uma negociação, mas costuma girar entre 1 e 3 anos, com uma cláusula de rompimento a partir de 1 ano (pode ser de 6 meses, mas raramente aceitam um período tão curto). Essa cláusula se chama “break-clause“. Isso quer dizer que, se você sair ou se o proprietário pedir para você sair antes de um ano, quem fizer esse pedido pagará multa contratual (e as multas são altas!). A partir desse tempo, você só precisa notificar o proprietário com 1 ou 2 meses de antecedência (tudo escrito no contrato).

Há uma outra opção de aluguél que é compartilhando com outra pessoa (shared accomodation), bastante utilizada por estudantes. Nem todo imóvel aceita, no próprio anúncio eles já dizem se aceitam ou não.

Os preços dos aluguéis na Inglaterra geralmente são dados por semana, ainda que sejam pagos por mês. Nos anúncios, eles até facilitam e falam do preço mensal, mas de toda maneira, é calculado por semana. Por exemplo, o valor é £700 semanal. Daí você divide esse valor por 7 e multiplica por 30. Seu valor mensal será £3.000 (=(700/7)*30). E não simplesmente se multiplica os £700 por 4 semanas, o que daria £2.800. A lógica até faz algum sentido, afinal, há meses com 5 semanas. Mas enfim, assim é calculado o valor. Esse preço inclui condomínio e, eventualmente, pode até incluir água ou internet, mas não é tão comum nos aluguéis de longa duração.

Adicionalmente a esse valor do aluguel, você também precisa pagar a “Concil Tax“. Que é um imposto direcionado para a região onde você mora. Conceitualmente, é como se fosse um IPTU só para seu bairro. Cada zona da cidade tem um tipo de conselho diretor, eleito pelos moradores daquela mesma região, que decide como esse orçamento será alocado. Como será distribuída a coleta do lixo, se precisa de mais policiamento, como manter os parques, se há incentivo em descontos aos moradores para frequentarem academias de ginástica, como manter centros comunitários, bibliotecas… enfim, tudo o que aquela comunidade específica demanda. Essa taxa não é nada baixa, varia de bairro para bairro e pode chegar até quase 10% do seu valor mensal de aluguel. Ou seja, é importante estar atento na hora de definir seu orçamento para moradia. É um valor anual, pago mensalmente enquanto você morar no local.

Há uma série de websites de busca para encontrar um imóvel, mas acho que os mais conhecidos são o Zoopla e o Righmove. As imobiliárias também tem seus próprios websites, mas costumam anunciar em paralelo nesses dois links.

É possível alugar um imóvel diretamente com o proprietário, mas não é tão comum. Eu acho que o risco é maior. E é aí que você realmente precisa começar a ter cuidado. Aconselho a procurar um bom agente imobiliário, de uma agência conhecida, que você veja que o escritório existe.

Porque o que acontece é o seguinte, não tem muito esse conceito de fiador por aqui, cada um é responsável por seu próprio nariz. Por isso, costumamos deixar uma “caução” depositada, atualmente, o normal é o equivalente a um mês e meio de aluguel. Mas vamos por etapas.

Depois que você visita o imóvel e demonstra seu interesse, é necessário fazer um “holding fee“, que nada mais é do que uma taxa de reserva. Isso quer dizer que, enquanto a imobiliária e o proprietário estão checando sua documentação, eles não podem seguir anunciando e mostrando o apartamento. Quando a sua documentação é aprovada, esse “honding fee” é retido e descontado do valor do aluguel que você precisa pagar sempre do mês a vencer (ou seja, você paga o mês antecipado). Caso sua documentação não seja aceita, eles te devolvem esse dinheiro.

Atenção! Cuidado quando antes de você sequer visitar o imóvel, a pessoa com quem falou no anúncio já comece a te cobrar o tal do “holding fee”. Desconfie quando o anúncio parece bom demais para ser verdade. Fotos de apartamentos maravilhosos por um preço imperdível! Não existe isso aqui, esquece! Erros gramaticais, inglês esquisito… E, principalmente, NUNCA pague um centavo antes de visitar o apartamento! Não custa dizer, verifique também se as fotos correspondem ao apartamento que você está visitando.

Muito bem, você foi visitar o apartamento e gostou? Peça o cartão de visitas do corretor (Letting Agent). Verifica se ele tem um email da empresa, se há um website da imobiliária… coisas simples, que não custam nada. Agora, uma vez que ele tenha te mostrado o imóvel pessoalmente, tenha te dado o cartão de visitas, você provavelmente já checou se a imobiliária existe… enfim, não há muito por que desconfiar. Se você se interessou pelo imóvel, melhor deixar logo o raio do “holding fee” para mostrar que você tem a real intenção de fechar negócio.

Outra coisa, o mercado imobiliário é aquecido. Caso você deixe para pensar muito ou não faça reserva, provavelmente vai perder o negócio. Não é um problema você dar condições razoáveis para assinar um contrato, por exemplo: preciso que troque o carpete que está muito usado; só alugo com máquina de lavar-louças… enfim, condições que você provavelmente até deu previamente ao corretor. Eles costumam ser bem tranquilos com isso, na pior das hipóteses, vão dizer não. Mas não conte com grandes negociações de preço. No geral, eles anunciam no valor correto para alugar. Claro que você tem todo direito de tentar baixar o preço… mas não tenha grandes expectativas.

A parte burocrática costuma levar, no mínimo, uma semana. Eles checam tudo! E, vamos combinar, está certo, né? Bom, até que aprovam sua documentação. Daí é que vocês vão assinar o contrato. Peça uma minuta para ler antes da assinatura! E LEIA MESMO!

A maioria dos contratos são padrão e muita gente parte do princípio que algumas coisas estão escritas, mas não serão efetivamente cobradas. Não caia nessa! Se está escrito, eles podem cobrar sim! Deixe claro e esclareça suas dúvidas. Não é problema nenhum você questionar cláusulas dos contratos, ninguém fica ofendido com isso!

E sim, nós já tivemos experiência com proprietária trambiqueira! Por exemplo, o apartamento havia sido anunciado com garagem, então não colocamos a garagem no contrato, porque parecia óbvio, né? Só que não… Mesmo com emails trocados com a imobiliária falando da garagem, por não constar no contrato, deu pau e ficou por isso mesmo!

Resumindo: leia, questione, corrija, negocie! Tudo preto no branco, por escrito! E só assine quando estiver realmente confortável. Está na dúvida? Busque outro apartamento, busque outra imobiliária!

Por outro lado, o contrato está certinho? Show! Esse documento existe para proteger ambas as partes.

Na assinatura desse contrato você precisa pagar um depósito fiança, como disse antes, normalmente o equivalente a um mês e meio de aluguel, mas pode variar entre 6 a 8 semanas. Adicionalmente, se paga também o aluguel do primeiro mês adiantado. E a partir dos próximos meses, você pagará sempre no mesmo dia acordado, a mensalidade adiantada. Recomendável fazer por transferência bancária, porque o comprovante da transferência funciona como seu recibo. É normal que esse depósito seja feito através da imobiliária e você pode deixar pré-agendado no banco todos os meses.

É fundamental você fazer um inventário (Inventory Check)! Costuma ser pago pelo próprio inquilino, mas vale cada centavo! São relatórios muito detalhados em relação a como você recebeu o imóvel. Às vezes, você não se preocupa tanto nesse momento com isso, mas é exatamente onde o proprietário desonesto tenta te passar a perna. Ao final do contrato, o proprietário pode tentar buscar desculpas ridículas para não te devolver seu depósito e ficar com seu dinheiro.

Nossa, e eles fazem isso? Fazem! A última proprietária trambiqueira do apartamento que moramos fez de tudo para nos passar para trás! E… se ferrou! Mas vou contar essa história na sequência. O bicho pegou para ela exatamente porque tínhamos TU-DO documentado!

O inventário é um excelente recurso para você se proteger. Outro recurso importante é o que eles chamam de “Tenancy Deposit Protection Certificate“, a imobiliária fica com o seu depósito retido como garantia durante o período de alguel. A imobiliária só pode te devolver o depósito com a aprovação d@ proprietári@; entretanto, esses proprietários também não recebem o depósito caso não provem que houve real motivo. Isso te dá o tempo de, por exemplo, entrar na justiça contra um proprietário que esteja usando de má fé.

Você pode receber orientação gratuita de como proceder nesses casos de disputa em relação à devolução do depósito em website do próprio governo, aqui.

Recomendo outro website muito útil com informações gerais em relação aos alugueis, chama-se MrSuperAdvisor.

E se, infelizmente, você precisar partir para uma disputa na corte, achei informações muito úteis nesse website da Shelter. Eles orientam a enviar uma carta com determinado modelo oficial aos proprietários, avisando que será dada entrada no processo (letter before action template). Nessa carta, a gente usa os termos oficiais, dá um prazo para resposta, diz que a partir dessa data nos damos o direito a entrar com o processo, sem maiores notificações, e que despesas serão adicionadas por conta do perdedor. Fiz igualzinho e foi batata! No dia seguinte a proprietária pilantra parou de nos ignorar respondeu à imobiliária e nos reembolsou integral. No caso, anexei os dois relatórios do inventário, de entrada (check in) e saída (check out), ou seja um documento que comprovava que entregamos o apartamento em melhor estado do que recebemos – viu como foi importante? Ela sabia que eu tinha como provar, que ela ia perder o processo e sairia mais caro que simplesmente devolver nosso depósito.

Foi desgastante, mas acho que ela agora vai pensar duas vezes antes de se fazer de engraçada novamente. Enfim, passou! Lição aprendida e espero que possa ajudar alguém que se encontre na mesma situação. Ou melhor, que nem entre em roubada parecida, porque sabe no que precisa prestar atenção.

Um pequeno detalhe que passou batido, quando receber o inventário, cheque se está de acordo. Teste os equipamentos, utensílios, tudo! E qualquer divergência, notifique imediatamente por escrito (email).

Vale dizer que só tivemos problema com essa única proprietária pilantra! A imensa maioria das pessoas é correta! Mas é aquela história, as regras e os contratos são feitos exatamente para os momentos de divergência. E eles podem acontecer.

Honestamente, cuidamos muito bem de todos os lugares que moramos! Independentemente de como somos tratados, nós tratamos as pessoas com o respeito que acreditamos ser correto. É frequente devolvermos os imóveis alugados melhores do que recebemos. Afinal, não importa por quanto tempo, pode não ser nossa casa, mas é nosso lar.

E como foi a mudança?

Deu tudo certo! Claro! A gente sabe que, de uma maneira ou de outra, no final dá certo e pronto!

Fiz toda a preparação praticamente sozinha, com algo de apoio do Luiz. Mas quem empacotou 99% das caixas fui eu mesma! E tudo bem, porque esse era o combinado.

Foi até legal, porque acabei gravando vários vídeos tutoriais de como fazer uma mudança e tenho planos de abrir um canal no Youtube falando a esse respeito. Vamos combinar, experiência me sobra. Quem sabe, ajude alguém por aí. Porque sei que esse é um fator grande de estresse para as pessoas normais.

O que importa é que estamos totalmente instalados em uma casa charmosérrima em Windsor! Não é tão grande, mas tem o tamanho perfeito para nós. A cada dia que passa, mais eu gosto do lugar! A energia é boa, me sinto bem aqui e os gatos estão super felizes, o que sempre é um bom sinal!

Com exatas duas semanas após a mudança, demos nossa primeira festa! Na verdade, era o aniversário do Luiz, quando nós sempre oferecemos uma feijoada, já famosa. Mas também usamos o pretexto para fazer a inauguração da casa. Festa discreta, provavelmente a recepção com menos gente que demos na nossa vida, 7 adultos e uma criança, e com todos os cuidados para seguir os protocolos de segurança. E quer saber, até que aproveitei bastante! De certa forma, tivemos mais tempo para conversar com as pessoas e dar mais atenção individualmente.

Ainda há muito o que conhecer nas redondezas, afinal além do pouco tempo que temos por aqui, estamos evitando bares e restaurantes. Primeiro por uma questão de segurança, mas também porque finalmente resolvemos seguir uma dieta a sério. Tudo uma questão de tempo e posso dizer que hoje sou bastante mais tolerante e paciente do que era no início desse ano.

Resumindo, apesar dos pesares… da correria… das dúvidas sobre onde morar… de proprietários que, querendo ou não, nos deixaram na mão por um par de vezes… de todo o perrengue operacional que é uma mudança física… e tudo isso durante uma pandemia que mais parece uma praga bíblica… estou feliz pacas e acho que foi o melhor que poderia nos acontecer!

Isso quer dizer que, pelo nosso histórico, daqui a no máximo uns 6 meses, Luiz deve receber alguma proposta para mudar de país… Brincadeirinha gente! Mas juro que às vezes até fico grilada de estar tão satisfeita aqui!

Um dia de cada vez e hoje agradeço por estar onde estou, com saúde e por ter um lar que possa acolher amigos e família!

Mudança número 47… yep!

E lá vamos nós mais uma vez! Para você que me acompanha, sabe que quando digo que é a minha quadragésima sétima mudança não é uma força de expressão, é literal!

… mas Bianca, você não se cansa de mudar não?

Canso queridos, mudar é chato e trabalhoso, juro que não procuro, simplesmente, não reajo contra. Se é para ir, vamos e pronto! Ainda que, admito, com toda a experiência desenvolvida ao longo desses anos, é bem mais fácil para a gente do que para a maioria das pessoas normais.

Encurtando o suspense, ao final do mês de agosto, mudaremos para Windsor, cidade onde fica o famoso Castelo de Windsor, ou melhor, a casa da rainha.

Mas para os que, como eu, gostam dos detalhes, vou contar a história desde o começo. E adianto que, só para variar, foi outra saga!

Vamos do início, quando achamos esse apartamento que moramos atualmente ficamos bastante felizes por alguns motivos. Primeiro, era no mesmo edifício em que morávamos, assim seguia perto do nosso vizinho que já virou família. Segundo, era mais barato e, finalmente, porque tinha varanda. Além do que, sendo no mesmo prédio, a mudança foi bem mais simples.

Quando recebemos as chaves e entrei pela primeira vez no apartamento vazio, me dei conta que ele havia sido deixado bastante sujo, diferente do que nos haviam dito. A proprietária nos disse que haviam feito uma limpeza profissional! Bom, só se o profissional era um açogueiro, ou quem sabe, um encanador! Porque profissional de limpeza… certamente não era.

Para completar, percebi detalhes bastante desagradáveis que não pudemos notar nas visitas ao imóvel. Por exemplo, o esmalte do vaso sanitário por dentro já descascando, azulejos quebrados… enfim, coisas básicas e que você nem gasta muito dinheiro para consertar, mas que demonstravam o desleixo que a proprietária tinha com o imóvel.

Felizmente, tudo registrado no inventário de quando entramos. Assim, temos um documento oficial de como recebemos o apartamento.

Tive o pressentimento que não havia sido uma opção tão boa assim. No fundo, nem falei nada para Luiz, mas havia me arrependido de cara pela troca. Porém estava feito, então o jeito era fazer com que se tornasse um lugar mais bonito, limpo e com uma energia melhor. O que acho que conseguimos.

Em paralelo a isso, nós havíamos alugado um apartamento com direito à garagem. Como não temos carro, perguntamos se ela nos daria um desconto e poderia alugar a garagem para outra pessoa. Ela não aceitou. Ok, então, ficamos sem o desconto, mas obviamente, com a garagem! Isso foi registrado em uma série de emails, mas não colocamos por escrito no contrato de aluguel, afinal, o apartamento já havia sido anunciado com a vaga, certo?

Deveria ser óbvio, só que não. Logo que recebemos as chaves, não nos passaram o controle remoto da garagem. Como não tínhamos carro, não tivemos nenhuma urgência em reclamar. Estávamos ocupados com outras coisas. Daí, mais ou menos um mês depois de mudar, íamos dar uma festa e quis pegar os controles para um casal de amigos poder estacionar o carro.

Para nossa surpresa, a proprietária se negou a entregar, disse que alugamos o apartamento sem garagem e o filho dela estava usando a vaga.

Oi?

Trocamos “trocentos” emails, mostrando as mensagens e provando que o apartamento foi anunciado com a vaga etc… e não adiantou nada! Ela simplesmente ignorava as mensagens e a imobiliária lavou as mãos! É surreal, eu sei, mas foi exatamente o que aconteceu.

Poderíamos ir para justiça brigar, mas quem quer passar por todo esse perrengue, sendo que nem temos carro! Era o desaforo, porque certamente ela alugou essa vaga para outra pessoa e ganhou de nós e do outro, né? Decidimos que assim que vencesse a cláusula de um ano de contrato para deixar o imóvel sem multa, sairíamos daqui.

Houve outros detalhes que vou poupar a paciência de vocês, mas que deixaram claro a atitude desonesta da proprietária, que sempre se fazia de desentendida para levar vantagem em tudo. Resolvemos tentar não nos aborrecer, começamos a buscar novos lugares para morar e mudaríamos de casa em 27 de junho, quando fazia um ano de contrato. Nem um minuto a mais!

Como Luiz estava trabalhando muito de casa, começamos também a pensar na possibilidade de sair de Londres, porque é bastante caro morar aqui. Poderíamos aproveitar e mudar para uma cidade mais legal e onde poderíamos estar em um apartamento ou casa maior.

Decidimos que seria Brigthon, porque a cidade é uma graça, tem praia, vida noturna agitada… enfim, tem vida e nos sentimos muito bem lá.

Maravilha, tudo decido… tudo certo… estoura o raio do COVID! Quarentena e o escambau! Ninguém sabendo o que aconteceria no mundo! Paramos tudo e resolvemos ficar bem quietos por aqui mesmo, fazer o que? Nem tinha a possibilidade de ver imóveis, muito menos fazer uma mudança. Fora que a gente não sabia se teria emprego, se continuaríamos aqui, estava tudo muito confuso para encaixar uma mudança no meio!

Chegou junho e os ventos começaram a se acalmar. Como quem não quer nada, comecei a olhar se havia outro imóvel aqui perto do nosso, na mesma rua, quem sabe…

Incrivelmente, vagou outro apartamento no mesmíssimo edifício! Praticamente o mesmo valor, melhor conservado, maior um pouquinho e uma posição melhor no prédio, de frente para o Tâmisa.

Lá fomos nós ver o apartamento, de máscara e tudo! Não seria uma mudança tão complicada e nos livrávamos da proprietária uruca!

Assim foi, fizemos a proposta, o proprietário do outro apartamento topou e demos o aviso aqui que sairíamos. A gente precisa avisar com dois meses de antecedência quando vai deixar o imóvel.

Tudo muito bom, tudo muito bem, as fronteiras começaram a se abrir e fomos para Portugal, para casa dos nossos primos. Ando com um olho grande para morar por aquelas bandas e queria visitar algumas possibilidades. Viagem ótima! Aproveitamos bastante, mesmo seguindo todos os protocolos de segurança. Eu já entubei o novo normal e vida que segue! Cumpro os protocolos automaticamente e tudo bem!

No finalzinho da viagem, recebemos uma notícia bomba: o proprietário do apartamento que íamos nos mudar desistiu de alugar, preferia vender! Só que havia passado quase um mês e já havíamos anunciado que saíriamos daqui!

…e a gente vai para onde agora?

Poderíamos pedir para continuar no apartamento que estávamos, mas vamos combinar, como todo o histórico acima relatado, a gente não queria mais ficar aqui! Não tinha mais clima! Conto os dias para ir embora como uma presidiária!

Sendo assim, toca a procurar outra casa no meio dessa confusão do vírus!

Nesse caso, resolvemos abrir o leque da localização e saímos dando tiro para todo lado! Apenas uma coisa estava decidida, queríamos um apartamento de três dormitórios, seja lá onde fosse!

Na verdade, apesar de toda preocupação, a confusão do COVID acabou jogando um pouco a nosso favor, porque os preços de aluguel reduziram e tínhamos agora a oportunidade de alugar em lugares que eram mais caros antes.

Na nossa lista reduzida de lugares, os finalistas eram um apartamento em Brighton e uma casa em Windsor.

Nosso primeiro favorito era o apartamento, bem de frente para o mar, um tamanho ótimo e cheinho de armários! Fizemos proposta super felizes! Só havia um probleminha, o prédio não aceitava animais! O dono do apartamento até tentou negociar com o condomínio, queria alugar para a gente, mas após uma semana, o condomínio negou de vez.

Havia ainda a casa em Windsor. Nós havíamos gostado, mas em comparação ao apartamento, ela perdia. Os quartos são um pouco pequenos e acho a cidade de Brighton mais animada. Daí ficou um pouco daquele gosto de perda no início.

Mas sabe de uma coisa, a gente não é de sofrer pelo leite derramado. Se não der, não deu, paciência. A semana que levou para o condomínio de Brighton votar se poderíamos morar com os gatos ou não também serviu para pensarmos na casa com outros olhos. E a verdade é que a casa também tem muitas vantagens. Serão três quartos, que mesmo pequenos, oferecem bastante mais espaço do que temos hoje. A cozinha é ampla e clara e tem portas francesas que dão para um jardim pequeno, de fácil manutenção, bem charmoso e com a possibilidade de fazermos churrasco, coisa que a gente adora! Vamos combinar que esse ano está meio que perdido mesmo e ainda teremos meses pela frente de limitações. Estar em uma casa ajuda muito!

Windsor não tem a mesma balada de Brighton, mas a noite está bastante prejudicada de toda maneira. Os clubes e casas noturnas nem estão abrindo ainda! E na vida diurna, acho que não perde em nada, pelo contrário. Temos uma série de passeios ao ar livre que poderemos fazer a pé ou de barco. E a cidade é mais elegante, digamos assim. Além de bem mais próximo para o Luiz, caso ele tenha que voltar a trabalhar no escritório alguns dias da semana.

Adicionalmente, também temos amigos muito queridos que estarão mais perto e ficaram super felizes da gente ir para lá. A empolgação deles me contagiou, comecei a imaginar os encontros e as coisas que podemos aproveitar pelas redondezas.

Ou seja, no fim das contas, acho que foi a melhor opção mesmo! Assim que, nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, achamos uma casa para ir!

E agora que contei a saga de achar moradia, tem a outra mini-saga da realização da mudança. Em princípio, como nós íamos nos mudar dentro do mesmo edifício, nem precisava contratar ninguém, era fácil! Mas para outra cidade, a coisa muda de figura e assume novas proporções.

Lá foi Bianquita cotar empresa de mudança! Já havia começado a ver alguns preços, mas não podia ir muito além, porque nem a cidade para onde mudaríamos estava definida! Seria uma história muito difícil de explicar. E agora, estava super corrido para pesquisar e negociar. Tive que fechar meio que às pressas, porque era literalmente o último dia para poder reservar espaço na rua em Windsor para fazer a mudança. Esses procedimentos burocráticos tem prazos rígidos a serem seguidos. Novamente, fechamos em cima do gongo! Mas fechamos!

Talvez pudesse negociar melhor preço, mas à essa altura, estou feliz em conseguir resolver. Da onde veio esse, virá mais! Deixa a economia girar, paciência!

Só outro detalhe, disse que estamos seguindo a vida normalmente, mas lógico, estou falando do novo normal. Eu não me arrisco mesmo! A gente segue os protocolos direitinho!

Portanto, não quero nem saber de ninguém aqui em casa empacotando e manuseando nossas coisas. Fora que sabe-se lá de onde vem as caixas, que costumam ser reaproveitadas. Seguro morreu de velho…

Isso quer dizer que quem está empacotando tu-do sou euzinha mesmo! Comprei as caixas e o material pela Amazon, saiu inclusive mais barato do que usando o da companhia de mudanças. E, vamos combinar, modéstia às favas, garanto que tenho mais experiência do que qualquer empacotador profissional no mercado! Fora que vou fazer com muito mais cuidado.

A gente muda no dia 29 de agosto. Comecei a empacotar tudo ontem, dia 10. Assim faço com calma e organização. Não precisava estar fazendo o calor duzinfernus que está fazendo agora, mas penso que isso deve estar me ajudando a emagrecer, pronto!

Pensando seriamente em fazer uns tutoriais sobre mudança! Será que posso ganhar dinheiro com isso?

É… tá fácil para ninguém…

Estava eu lendo um artigo sobre a peregrinação à Meca em tempos de COVID-19. A tradicional peregrinação acaba de iniciar, em 29/07, com as devidas restrições.

Foram super sérios, sinceramente, achei bacana! Cada participante precisa respeitar um período de quarentena… reduziram o número de peregrinos para se manter a distância de segurança… fizeram testes… ofereceram o ihram, tapete de oração, máscaras, desinfetantes etc. Até aí, achei muito organizado e civilizado!

Foi quando li sobre o kit pedras: foram distribuídas pedras esterelizadas para o apedrejamento de Satã…

Oi?

Ok, tá bom, tá certo! Claro que entendi a proposta, mas só eu achei que soa surreal?

Quando até Satã precisa ser apedrejado com pedras esterelizadas… a coisa tá feia mermão! Será que na porta do inferno já tem um potinho de álcool gel? Será que quando você passa nas mãos sai graxa ao invés de álcool? Tipo assim, pegadinha do Demo…

É… tá fácil para ninguém…

Querida amiga,

Poderia ter te escrito antes, mas soaria como despedida e você não iria gostar. Eu não iria gostar. Por isso, não vou me despedir de você, vou te fazer um brinde!

Eu lembro do dia em que te conheci, apresentada por uma amiga em comum. A partir desse encontro, houve vários outros, frequentamos muitas festas, dançamos forró, cantamos juntas, rimos pacas juntas, não sei se choramos juntas, acho que não. Se choramos, não lembro.

Você cuidou do meu gato, eu fui no hospital com você. Te apresentei vários amigos, você me apresentou outros tantos, às vezes parece que somos todos de uma única grande família que se conhece desde sempre.

Exceto pela insensibilidade dos médicos madrilenhos, nunca ouvi você reclamar ou falar mal de ninguém. E nunca ouvi uma única crítica sobre você! Pensa em uma pessoa do bem, positiva e gentil com absolutamente todos!

Corajosa e aventureira com letras maiúsculas! Não me recordo agora conhecer ninguém que houvesse praticado esportes radicais e viajado tanto como você! Saltar de pontes, voar de asa delta, mergulhar… nada te assustava ou, se assustava, nunca te impediu de seguir adiante e experimentar. Viver no limite.

Nenhuma doença jamais iria te definir. Honestamente, a maior parte do tempo que compartilhamos, eu nem pensava a respeito. A gente tinha muito mais o que fazer! Você entendeu rapidamente que ninguém tem dia certo para partir, não temos esse controle. Mas como viver cada dia sim, essa decisão é nossa. E, com você, aprendi isso de verdade, pelo seu exemplo, seu legado. Não foi lendo uma frase piegas de um texto qualquer, foi tendo o privilégio de te ver viver por 11 anos aproveitando e fazendo valer cada dia da sua vida. Você me acostumou a presenciar milagres.

Ainda me emociona ver sua imagem ou ouvir sua voz em algum audio, mas confesso que não chorei muito. Quando o choro quer chegar, eu engulo, como aprendi a engolir cada momento rápido de tristeza em que te encontrei e senti que seu tempo acabava. Porque eu jamais te olharia com qualquer resquício de pena.

Guerreiros e guerreiras conhecem e são donos dos seus destinos, se vão lutando. Não morrem, apenas partem orgulhosos e serenos com a sensação de dever cumprido.

Pode ir em paz, querida. Saúde!

Vidas pretas importam

Há alguns dias quero escrever sobre o tema e não sabia como. Em primeiro lugar, porque sou branca. Ainda que meu DNA seja misturado, não faz tanta diferença, minha aparência é européia. Além do mais, nunca passei por nenhum período sério de dificuldade financeira, o que não quer dizer que seja rica, mas definitivamente, privilegiada.

Se me sinto culpada por ser branca e privilegiada? Não, não me sinto culpada. Mas não creio que seja esse o ponto! Nunca foi. O ponto é: o que faço com isso?

Eventualmente, escrevo sobre racismo ou preconceitos de modo geral, quando acho que de alguma forma posso colaborar. Mas dessa vez, me pareceu um movimento diferente, talvez pelo momento em que surgiu. Minha dificuldade é porque estou tentando ainda entender a dimensão dessa questão. Caberia a mim vir aqui e explicar alguma coisa? Porque eu acho que nunca vou conseguir explicar com a mesma propriedade que o faria uma pessoa negra.

Ao mesmo tempo, não acredito que não tocar no assunto ajude. O que fiz, então? Dei um passo atrás e observei. Tentei buscar uma melhor perspectiva, a de quem vive o problema todos os dias.

E acredito que a melhor postura que nós brancos podemos ter nesse primeiro momento é recuar, observar e aprender. Tentar realmente ouvir o que as pessoas pretas estão dizendo. Precisamos falar mais baixo, ou mesmo fazer silêncio e dar voz a quem não está sendo escutado.

Quando a gente diz que “todas as vidas importam, não só as pretas…”, “e a vida dos índios…”, “e o aborto…” ou traz outros temas complicados de preconceito para a discussão, como, machismo, liberdade de gênero etc, estamos na verdade tirando o foco do problema em questão! É lógico que todas as vidas importam! É claro que há outros preconceitos no planeta! Mas não dá para colocar tudo no mesmo pacote e resolver! Vamos por prioridade, por urgência.

Sabe quando você vai para o hospital e entra na emergência? Então, eu mesma estive um par de vezes, em hospitais públicos (europeus). Ninguém vai para a emergência de um hospital porque está feliz ou saudável! Todo mundo ali tem dor, tem incômodo, tem risco… e, certamente, quando estive no banco de espera foi difícil e dolorido. Mas, ao mesmo tempo, tinha a convicção de que não estava correndo risco de vida. De verdade, confiei na triagem que fizeram e, se chegou alguém mais grave que eu, que passe minha frente, foda-se! Problema meu, não tinha espaço para mimimi, eu não estava morrendo, mas alguém podia estar.

Então, queridíssimos, minha vida não é um mar de rosas, trabalhei e trabalho pacas! Ainda que me considere privilegiada, já sofri também, por ser mulher, por ser imigrante… consigo relacionar e ter empatia por quem passa por qualquer tipo de preconceito. Pelo menos, tenho uma ideia do que é. A diferença é a seguinte, uma coisa é eu perder uma vaga no trabalho por ser imigrante ou ter um salário menor que um homem; outra completamente diferente é ter um policial com o joelho na minha garganta! Todos são problemas. Mas qual é o mais urgente? Qual deveria ser a prioridade?

Ficou mais ou menos claro? Desenho?

Não foi um caso isolado. Não foi uma coincidência. Não foi um simples acidente. E a gente não pode mais olhar para o lado, ou apenas pedir paz. Não tem paz sem justiça! Não tem paz com o joelho na sua garganta!

Não há movimento que realmente revolucione sem o apoio de classes dominantes! Eu não acredito, por exemplo, em um movimento feminista que não tenha respaldo masculino. Assim como não vejo possível um movimento anti-racismo ter sucesso enquanto não tiver apoio dos brancos. Ainda que esse apoio não seja total, o que seria utópico, é fundamental que tenha massa crítica! O volume faz muita diferença.

O fato é, como dar esse suporte fora da área de protagonismo ou sem paternalismo? Não vejo outra maneira que não seja: ouve o que eles estão falando, caraca! Sabe o que eles estão falando? Eles estão dizendo: vidas pretas importam!

E, se vidas pretas importam, por que morrem tantas pessoas negras sem a gente se revoltar? Por que a gente olha em volta nas salas de aula das escolas particulares e não acha estranho não haver praticamente ninguém negro? Por que a gente sai para jantar nos restaurantes e não parece esquisito que os negros do local estejam apenas nos postos de trabalho? Por que as cotas são tão polêmicas? Por que a imensa maioria das bonecas são brancas? Quantos super-heróis negros você conhece? E se nada disso te incomodou, você acha que é uma atitude normal? Você realmente acha que não é racista? Você acha que basta simplesmente não ser racista, ou seja, não fazer nada contra? Porque eu só consigo pensar que não fiz o suficiente.

Eu não sei exatamente o que fazer para ajudar, mas de verdade, quero muito. Porque é o mínimo que posso fazer como ser humano. Caso tenha algum leitor preto ou preta, estou aberta a te ouvir e, se isso colaborar de alguma maneira, também disposta a amplificar seu discurso.

Vidas pretas importam.

Desvios do Caminho de Santiago

Uma pequena pausa para os comerciais! Acabo de lançar meu segundo livro! Está à venda através das plataformas da Amazon do seu país. Basta buscar por: Bianca Rocha, Desvios do Caminho de Santiago. Estão disponíveis as versões impressa e e-book, em português.

A ideia de trilhar o Caminho começou a rondar pela minha cabeça por volta de 2006, quando ainda morava em Madri. Em maio de 2007, meus planos se concretizaram.

Em um primeiro momento, não me via em uma fase de grandes transformações e minhas expectativas eram baixas. Não buscava revelações nem respostas, apenas queria usar o privilégio de poder pensar um pouco na vida fora do contexto habitual. Queria ocupar o pensamento com coisas básicas, como, quantos quilômetros vou andar, o que comer, onde dormir… Acreditava que esse era um luxo primário que nem todos querem ou podem dispor.

Obviamente, nem tudo foi como planejei. Conscientemente ou não, mais do que um roteiro rural, tratava-se de uma jornada interior, um encontro com quem eu era.

Portanto, conto no livro sobre a primeira vez que estive no Caminho de Santiago Francês, quando decidi caminhar pouco mais de 200 Km, partindo da cidade de Pontferrada até Santiago de Compostela. Quando escrevi esse depoimento, não sabia que voltaria a realizá-lo por outras três vezes, todas elas experiências bem diferentes. E muito provavelmente, retornarei em outros momentos. Nem tudo penso da mesma maneira, afinal lá se vão cerca de 13 anos, mas procurei manter o que havia escrito e sentido naquele momento.

Convido vocês a participarem dessa viagem comigo! Buen Camino!

Alguns links de compra para facilitar: Livro impresso e e-book no Brasil; Livro impresso e e-book em UK; Livro impresso e e-book na Espanha; Livro impresso e e-book nos EUA.