Chegando em Viena

Ano passado, quando fomos ao Brasil em agosto, durante uma festa com boa quantidade alcoólica na cuca e um charutão nos pulmões, combinamos com um casal de amigos de São Paulo que nos encontraríamos nesse carnaval para esquiar em algum lugar da Áustria. Para quem achava que era papo furado, aviso que a promessa etílica foi devidamente mantida. 

Eu amo carnaval, mas esse ano tocou ao Luiz escolher e ele prefere esquiar. Tudo bem, mas pelo menos vamos dar uma paradinha em Viena? Não conhecia a cidade e tinha bastante curiosidade.

Portanto, no dia 4 de março, partimos de Madri para Viena, com escala em Frankfurt. Não há vôo direto para lá e detesto escalas, mas paciência. Nós costumamos viajar bastante leves, o que não foi verdade dessa vez. Malas para quase 10 dias de viagem, precisava de roupas de inverno, tanto informais, quanto mais arrumadinhas para sair à noite e isso sem contar que as roupas e botas de esqui tomam o maior espaço.

Assim que no total tínhamos 4 malas e uma mochila. E isso porque Jack não foi, caso contrário, ainda teríamos sua bagagem. Uma amiga dormiu aqui em casa para ficar com nosso felino.

Chegamos no check in e descobrimos que não eram 2 malas de 20kg por pessoa e sim até 2 malas, com o máximo de 20kg as duas. Putz, uma mala de 10kg de excesso de peso. Paciência, na volta a gente se rearranja e vem mais uma mala de mão. E por que estou contando essa história? Porque obviamente, uma das malas não chegou em Viena conosco, justamente a que levava meus sapatos e minhas botas de esqui. Tentei não me estressar e acreditar que chegaria. Já nos extraviaram malas antes e sempre chegou.

Aterrizamos no hotel pelas oito da noite e nossos amigos brazucas chegariam mais tarde. Achamos melhor sair para jantar, porque não sabia como funcionavam os horários por lá e corríamos o risco de ficar sem restaurante aberto para comer. Com o tempo, descobrimos que os lugares não fecham tão cedo assim, mas nesse momento a gente não sabia.

Fomos a um restaurante perto do hotel, indicado pela própria recepcionista, muito simpática por sinal. Lugar agradável, boa comida e, porque não, uma champanhezinha que ninguém é de ferro. Luiz ia monitorando pelo celular a chegada dos nossos amigos. Eles saíram de São Paulo e fizeram uma escala em Milão.

Voltamos para o hotel e eles ainda não haviam chegado. Descobrimos que ali mesmo havia um bar interessante, frequentado por gente da própria cidade e não apenas pelos hóspedes. Resolvemos esperar pelo bar, sem grandes pressas para subir ao quarto.

Lendo a impressionante carta de bebidas, não é que tinham cachaças? Sim, no plural, cachaças! O que acontece é que nosso contrabandista favorito se mudou para China e agora nosso estoque de cachaças está evaporando a olhos vistos. Resultado, desprezamos os vinhos e whiskies e caímos na marvada!

Algumas doses depois, chegou o casal de amigos, foi só o tempo deles largarem as malas no quarto e se juntaram à mesa conosco. E não é que nosso encontro deu certo! Saímos de cantos diferentes do mundo para nos encontrar na Áustria!

Só teríamos o sábado em Viena e no domingo, seguiríamos para uma estação de esquis. Portanto, tentamos não acordar tão tarde no dia seguinte, para aproveitar o máximo que desse, mas sem grandes afobamentos. Nos encontramos para o café da manhã e resolvemos passear a pé pelo centro da cidade. Um dos amigos já havia estado por lá e a gente preferiu não esquentar tanto a cabeça e seguí-lo por onde ele nos guiasse. Falei que só queria ir a um Museo, o Belvedere, para ver os trabalhos do Klint e que seria legal se a gente conseguisse assistir a um concerto.

Na saída do hotel, passei pela recepção, por via das dúvidas, mas sem grandes expectativas de encontrar a mala. Pois não é que havia chegado! Maravilha, assim já fui passear mais sossegada.

Rodamos pelo centro da cidade que é bem charmoso, passamos pelos principais edifícios históricos e entramos na catedral de teto colorido. Paramos para comer no Sacher e de sobremesa, me atraquei com a famosa torta de chocolate com damasco.

 

Descobrimos como chegar no Belvedere e lá fomos nós ver, entre outros, os trabalhos do Klint. Uma visita que tinha tudo para ser a tradicional e previsível visita a museu, se não fosse pela mania do meu digníssimo marido de falar apontando e cutucando as coisas (e pessoas). Em um desses empolgados comentários sobre um quadro do Klint, lá foi ele e seus dedões enormes apontando bem de pertinho, até que conseguiu encostar no vidro que protegia o quadro. Obviamente havia um sensor por segurança e o alarme do museu disparou! Sim meus amigos, Luiz conseguiu disparar o alarme anti roubo do Belvedere! Micão dos bons!

É aquele momento que você espera aparecerem guardas armados de metralhadoras apontando para a sua cabeça! Mas a verdade é que nada aconteceu. Provavelmente, não era o primeiro turista cutucão, e as câmeras registraram ele se afastar do quadro com aquela cara de ops-fiz-merda. Fomos saindo de fininho meio desconfiados e quando pareceu que não íamos levar nenhuma bronca, foi aquela sacanagem com o Luiz e a história virou a piada da viagem! Você já tem essa cara de “brimo”, eles tem um histórico com os turcos e você ainda tenta roubar o Klint… A polícia vai esperar a gente lá no hotel, para não ter escândalo aqui! Enfim, dali até o fim da viagem, Luiz passou a ser conhecido como “o turco”! Considerando que nossa integridade física foi garantida, até que foi bem divertido.

Esqueci de contar que durante o dia, conseguimos comprar entradas para um concerto. O problema é que pela falta de antecedência, só havia lugares em pé. No fundo, acho que é uma coisa legal que eles fazem, você tem as cadeiras com os preços diferenciados por local e é bem caro. Mas atrás do teatro, eles vendem para você assistir de pé, pelo preço bastante acessível de 5 euros. Não é nada confortável, mas populariza e dá a oportunidade de qualquer pessoa ter condição de assistir a um concerto clássico ou uma ópera.

Começava às 19h30, de maneira que voamos do Belvedere ao hotel para tomar um banho rápido e já sair para o teatro. Nesse dia, tocou a filarmônica de Viena e eles realmente são bárbaros! Mas admito que depois de um dia bem movimentado, foi cansativo assistir ao concerto de pé. Acabamos nos esparramando pelo chão e assisti quase tudo de olhos fechados. Até porque, sentada no chão, meu visual era um mar de bundas, o que não tinha nada a ver com o fundo musical! No último quarto do concerto que durou duas horas, houve algumas desistências e consegui um bom lugar para ver o palco. Luiz já havia desistido e foi para o bar do teatro tomar uma champagne e nos esperar. Apesar dos pesares, valeu muito à pena.

Bom, minhas viagens não são viagens se não forem gastronômicas. E lógico que havia pesquisado alguns restaurantes que queria ir. Nesse dia, fomos ao Korso, ficava bem perto do teatro. Achei que seria boa opção por ser em um hotel (Bristol), então, provavelmente ficassem abertos até mais tarde. Não nos arrependemos, comemos divinamente bem! Optei pelo menu degustação de três pratos, todos acompanhados por seus respectivos vinhos. De entrada, vieiras preparadas de três maneiras diferentes com alcachofras de Jerusalem. Belisquei a bisque de lagosta do Luiz, que estava di-vi-na! De prato principal, uma vitela no ponto e textura perfeitos, com folhas de mostarda refogadas e batatas cozidas. Os vinhos eram austríacos, não guardei os nomes, mas me surpreenderam positivamente. Eram bem melhores que os alemães que já provei, e que não são meu forte. Jantar nota 10! Ambiente agradável, comida no ponto perfeito, atendimento muito gentil e companhia excelente!

Passava da meia noite e resolvemos encerrar nosso dia. No domingo cedo os meninos foram buscar o carro alugado para seguirmos viagem. Por volta do meio dia, deixamos Viena em direção a uma cidade chamada “Going”. O que claro, gerou mais mil piadinhas, afinal we were going to Going!

Vou ali e já volto!

Amanhã viajo para a Áustria, vamos esquiar! Ficaremos fora até dia 13 de março. Não sei se conseguirei escrever de lá, acho que é bem possível, pois levaremos nosso novo brinquedinho, o iPad. Mas se estiver ocupadíssima e sem vontade de parar para escrever, na volta conto tudo.

O Plano A é parar em Viena um par de dias, engordar um pouco, e seguir para uma estação de esqui desesperada para expulsar todas aquelas tortas divinas dos meus quadris! Não deixa de ser uma motivação para o esporte!

É minha primeira vez no país, assim que tudo é novidade. Um casal de amigos brasileiros, de São Paulo, vai nos encontrar por lá. Então, acho que pode ser bem divertido.

O vôo é com escala e detesto escalas! Por conta disso, acho que não vou levar meus esquis, só as botas. Jack fica em casa com uma amiga que vai dormir aqui para cuidar do nosso mimado felino, que contraditoriamente é um antisocial, mas se deprime em dormir sozinho, vai entender!

E é isso, vou ali e já volto! Tchau!

Cafeína, meu doce e velho vício que se vai…

Pois é, no ano passado andei tendo uns piripaques do tipo labirintite. Fui logo aconselhada por uma amiga: só precisa cortar café, chocolate e álcool. No que me deu vontade de perguntar se também deveria cortar os pulsos! Se ainda por cima tivesse que cortar sexo, podia me matar de uma vez porque não sobrou muita coisa!

Muito bem, não posso dizer que tenho juízo, mas cuido muito do que entra pela minha boca e num pequeno impulso de maturidade resolvi ser razoável e tentar cortar ao menos os excessos. Pensei que se não me cuidasse, poderia chegar o dia em que fosse realmente obrigada a eliminar essas três tentações da minha vida; então, melhor reduzí-las e assim viabilizar seu consumo por mais anos. Minha lógica é um pouco torta, mas foi uma maneira de me motivar.

Chocolate, impossível viver sem, mas diminuí muito, deixo apenas para o limite da gula e para aquela época do mês onde ele é o melhor amigo de uma mulher!

Álcool, veja bem, não dá para deixar de tomar um bom vinho, só se eu estiver mesmo em coma! Mas deu para cortá-lo durante a semana. Ajudou o fato do Luiz estar de dieta há meses. Foi até bom para nosso orçamento.

Restava ele: o café! Ai, o café…

Bebo café desde que tomava mamadeira. Porque no meu tempo (olha a fala de idosa!) não tinha esse negócio de criança que não podia tomar cafeína. Na verdade, nós nem pensávamos na composição do café, café era café e pronto.

Acredito que até começar a trabalhar, era uma consumidora normal. Depois, admito que passei dos limites, minhas doses diárias de cafeína passaram a ser cavalares. A possibilidade de acordar e não haver café era apavorante! Junkie total!

Como a maioria dos vícios, pelo menos dos que já ouvi falar, não é só a substância em si, mas todo o gestual que gira em torno dela. E no caso do café, para mim beirava ao ritual. Desde a preparação, ao aroma, ao local onde bebo, o toque quente da xícara na minha mão…

(Falando nisso, vou na cozinha buscar um cafezinho e já volto)

Acontece que não sentia nenhum grande efeito, além do prazer de tomar um bom café. Meu corpo estava tão acostumado, que podia tomar um balde depois do jantar e não faria minha noite de sono diferente. E talvez essa falta de efeitos relacionados a uma droga tenha me feito acreditar que toda essa bobagem em torno da cafeína era um tremendo exagero. A típica frescura de americano.

Nessa mesma época que me perguntava se deveria cortar ou não cortar a cafeína – eis a questão! – uma amiga próxima teve problemas sérios em relação à sua pressão arterial. E tornando curta uma longa história, ela estava com um tipo de overdose de cafeína. Ela exagerava muito mais do que eu, porque  no caso dela não era só o café, também incluía coca-cola, medicação, enfim, outras coisas que possuíam a substância. Ela teve que excluir a cafeína a nível zero no ato.

Ops! Como é que é? Isso pode matar? Foi a primeira vez que me toquei que o buraco era mais embaixo. Veja bem, não estou aqui em uma cruzada contra a cafeína e muito menos contra o café, pelo contrário, acho que tem seus benefícios. Simplesmente estou dizendo que o excesso pode efetivamente ser perigoso. Aliás, como quase tudo na vida.

Achei que zerar de vez o consumo do café seria um pouco demais. Como coloquei antes, grande parte da minha dependência incluía o ritual, portanto, comecei a substituir o café em casa por descafeinado. Até porque o sabor é muito bom e o aroma é perfeito. Ou seja, passei a tomar uma única dose de café normal diário e complementava com descafeinado.

Comecei a ter dores de cabeça e sonolência todos os dias, não tem milagre. E se por um lado foi incômodo, por outro, me fez ver que realmente estava viciada, não era uma força de expressão. Era mais do que psicológico, era físico. Foi quando tomei a decisão de cortar de vez a pequena dose diária e migrar para o descafeinado em definitivo.

Nunca mais na vida vou tomar um café normal? Vou. Mas em circunstâncias muito específicas e pouquíssimo. Levei meses com dores de cabeça, como em uma desintoxicação, mas agora passou e não quero fazer isso outra vez. O engraçado é que se por alguma dessas exceções tomo um café normal, passou a me acelerar um pouco o coração ou me fazer as mãos tremerem ligeiramente. Muito louco isso! Tomava litros antes e não me dava nada, tomo uma merreca agora e tenho esses efeitos!

Ou estou ficando velha, ou é um bom sinal. Provavelmente, ambos.

Um casamento em casa

Em algum momento por aqui, já contei como Luiz e eu nos casamos. Para quem não sabe, nós casamos porque eu ia trocar de carro. Pelo menos, assim tudo começou.

Não tenho paciência agora em repetir toda a história, então vou me concentrar só no trecho que vem ao caso, nós éramos bastante jovens e não tínhamos a menor idéia de como era casar, o procedimento em si. Nunca tive a mais remota expectativa de me casar, juro, nunca tive a menor vontade de usar um vestido de noiva, nem nada. Assim que quando tomamos a decisão, acreditávamos que para nos casar era só irmos em um cartório, assinar um papel e pronto.

Para o completo desespero dos meus pais, principalmente da minha mãe! Porque, como assim eu ia me casar e pronto, sem nem fazer uma festinha de nada! Resumindo a ópera, ela nos convenceu a fazer não só uma festinha, mas um festão para mais de trezentos convidados! Onde a propósito, praticamente não nos preocupamos com nada, a não ser o fato de aparecer no dia e casar. Foi minha mãe quem organizou tudo, obviamente adorando ter as rédeas das decisões.

Eu ainda não sabia o quanto esse ritual de passagem era importante para a família e só descobri o quanto era importante para mim (para nós) também durante a festa. Se nós não houvéssemos feito uma, não posso dizer que me arrependeria, porque a gente não se arrepende do que não conhece. Mas depois de entender todos os símbolos e do quanto eles nos ajudam a estabelecer laços de memória, virei um tipo de embaixadora das festas de casamento.

Podem ser grandes ou pequenas, de dia ou de noite, simples ou sofisticadas, não importa! Cada celebração tem seu estilo e sua beleza, mas precisa existir esse momento em concreto. E acho que é fundamental que exista alguém assistindo. Pode ser só mais um casal, podem ser seus pais ou um milhão de amigos, mas precisa ser testemunhado e compartilhado. Faz parte do ritual de compromisso e faz diferença.

Muito bem, dito isso, fica mais fácil entender porque quando um casal aqui em Madri anunciou seu casamento durante uma reunião de amigos, a minha primeira pergunta foi: e a festa? Aliás, foi a cobrança geral e imediata de absolutamente todos os amigos presentes!

O rosto da noiva foi de completa interrogação, provavelmente muito parecido ao meu há 17 anos atrás. Vontade, pareceu que ela tinha, mas sem muita idéia do que e como fazer. Disse que a sala no cartório onde era o casamento era muito pequena e mal cabia os pais do noivo. Não daria para convidar ninguém. Ela não sabia como organizar uma festa, o noivo viajava logo em seguida a trabalho, não ia conseguir ajudar na preparação, ambos não haviam se preparado para os custos de um evento.

Não seja por isso, a gente ajuda! Todo mundo colocando pilha para eles fazerem alguma coisa.

Primeiro lugar, onde? Uma amiga e nós oferecemos a casa, acabou sendo aqui. Outra amiga que foi a madrinha, a noiva e eu, começamos a organizar tudo. Em casa cabem 30 pessoas, dentro desse número, chama quem você quiser, só me passa uma lista de confirmados para me programar.

Ainda que o casamento fosse aqui, me preocupava em não me meter tanto, afinal, esse momento é deles, principalmente da noiva. Então, procurei no início mais ouvir do que dar palpite. De repente, comecei a achar que talvez ela estivesse como eu lá atrás e o que ela precisava era justamente de alguém que dissesse o que fazer.

Então, a gente pode fazer assim, posso oferecer o coquetel de presente de casamento? A noiva ficou meio sem graça, com medo de dar muito trabalho. Mas honestamente, dessa maneira ficava muito mais à vontade para me divertir e caprichar. A madrinha ofereceu canapés, a mãe do noivo disse que queria fazer umas empanadas e os convidados trariam as bebidas. Os noivos ofereceram o bolo e a champagne. Beleza, resolvido, festa completa e não ficava pesado para ninguém.

Com carta branca para decidir as comidinhas e uma semana para prepará-las, fiquei igual a pinto no lixo, doida para botar para quebrar! Afinal de contas, é o primeiro casamento que fico responsável pelo buffet, digamos assim. Muito legal, né? Queria que fosse especial sem ser totalmente exótico, que tivesse um toque de elegância, mas fosse despojado, afinal era tudo muito informal.

O resultado final foi o seguinte, três convidados trouxeram algo de comer, que foram os canapés (madrinha), as empanadas galegas (mãe do noivo), tortilhas espanholas (mãe do noivo) e camarões (irmã do  noivo). Fiz caldinho de moqueca, gâteau de cenouras trufadas, vieiras crocantes, kibe com pinholes ao molho de yogurt e hortelã, mini beef Wellington, croustillant de cordeiro, pastel thai de kani ao curry, foie gras, queijos e pães. O bolo foi encomendado de outra amiga, os bolos dela são divinos! Lindos e deliciosos! Esse foi de nozes com recheio de baba de moça.

Couscous de frango
Mini beef Wellington

 

Kibinho com pinholes

Vieira crocante

Foi engraçado estar em casa e não ser a anfitriã. De certa maneira, me deixava mais tranquila para ficar na cozinha sem a preocupação de atender aos convidados. Luiz custou um pouco mais a relaxar, às vezes eu precisava dizer para ele parar de atender a porta e fazer de conta que estava na sala de outra pessoa.

Pensei em fazer a representação de um casamento, meio que na brincadeira, mas para que o símbolo estivesse presente. Durante a semana, baixei a marcha nupcial para ter na trilha sonora. Perguntei se Luiz topava fazer o padre, ele não quis. Pedi para outro amigo que topou, mas estava meio sem graça. Na hora mesmo, ele sugeriu um terceiro amigo, que nunca imaginei que fosse aceitar e topou em dois segundos! Na verdade, embarcou no personagem, pediu um livro preto emprestado para fingir de bíblia, desenterramos uma fantasia de padre (de halloween que tinha em casa), um crucifixo enorme e uns óculos de não sei quem emprestados. Tudo isso feito meio escondido no quarto aos cochichos.

Uma outra amiga fotógrafa ficou de prontidão e Luiz responsável pela trilha sonora no momento certo. Aparecemos assim na sala e foi aquela bagunça, é lógico! Representação completa! O padrinho entrou com a noiva, que havia ganho um bouquet de rosas de presente de um convidado e já serviu para entrar no casório de mentira. A madrinha ficou esperando com o padre falsificado e o noivo. A prima do noivo e eu fomos ajoelhadas na frente, como daminhas de honra, com as alianças em um porta copos. Enfim, uma farra! O padre arrasou na cerimônia, um show a parte, muito engraçado! E todo mundo dando seu pitaco, é claro!

 

Depois a noiva tirou uma das rosas desse bouquet que ela ganhou e jogou para a mulherada. Bom, confesso que nos casamentos de verdade, quando era solteira, eu me escondia nesse momento. Odiava a disputa desesperada pelo bouquet da noiva! Quando era obrigada a ir, ficava lá atrás onde não havia a menor possibilidade de pegá-lo! Mas assim de brincadeira, eu adoro! Todas as convidadas, inclusive as casadas, foram disputar a tal flor do bouquet! Que, lógico, também tinha sua própria trilha sonora!

Luiz finalmente achou uma função na festa para se distrair, brincar com o ipad e o som! Descobriu que por não ser o anfitrião, não precisava ficar o tempo todo tão atento ao conforto dos convidados, e portanto, podia se divertir com o brinquedo novo da casa. Aliás, é realmente ótimo e útil nas festas.

Bolo cortado, brinde aos noivos, tudo nos conformes! Missão cumprida!

 

Acho que ficamos até umas cinco da matina ou por volta disso. Fui dormir feliz, quem sabe tenha saldado minha dívida cármica de ter feito minha mãe quase maluca quando disse que não queria festa no meu casamento! Quem diria que anos depois, estaria eu mesma fazendo questão absoluta da festa dos outros!

E agora, podemos colocar no currículos das nossas festas que até um casamento aconteceu!

A idade da base

Não sei se esse texto fará algum sentido para um homem, mas tenho quase certeza que o universo feminino entenderá.

Se houvesse um desses programas para adivinhar a idade de uma mulher ao visitar seu banheiro, não teria nenhuma dúvida, direto para seu estojo de maquiagem!

Entre os 13 e 15 anos, acho que eu não poderia so-bre-vi-ver sem um lápis de olho. Pintado principalmente por dentro da pálpebra inferior, aquela que a gente aprende mais tarde que é errado pintar porque borra. Mas por algum motivo, quando você tem 13 anos acha simplesmente lindo! Sombra, só se for preta! E geralmente é o próprio lápis contornando os olhos por cima também. Deve ser algum complexo de Cleópatra, sei lá!

Ainda na adolescência, você cisma com batom vermelho! Independente da sua cor, não importa! Na minha época ainda tinha um infeliz de um batom paraguaio permanente, que durava horas e não saía com água. Nos corredores do colégio, a gente descobria que ele era o máximo porque você beijava sem borrar! Aquela porcaria devia tingir a boca da gente! Era uma embalagem plástica verde com uns detalhes em dourado. Ninguém merece!

Bom, pelos meus 16 anos, veio a mal fadada época New-Wave-Punk-qualquer-coisa-esquisita. Daí a gente usava sombras coloridas e blush era fundamental! Aprendi logo a colocar o blush de maneira a afinar as bochechas, ainda que pesasse uns 45 kgs no máximo e não precisasse afinar absolutamente nada! Eu devia parecer uma caveira travesti!

Felizmente, esse período passa. A gente começa a trabalhar e, pelos 20 anos, a qualidade da maquiagem melhora drasticamente, assim como nosso senso estético. A máscara de cílios passa a ser sua melhor aliada. Você coloca e parece que seu rosto se levanta, nem precisa mais de nada. Com o tempo, um pontinho de sombra branca bem no começo dos olhos (no lugar onde nasce a remela), dá uma iluminada show!

Vai chegando pelos 30 e um delineador vem bem, aliás, muito bem! Além disso, você começa a entender porque existe o pó compacto.

O pó compacto é só uma preparação para o que você só vai entender mesmo pelos 40 anos: a tal da base.

Pois é gente, devo dizer que cheguei à idade da base… É dureza! Não há maquiagem que preste se não começar por ela.

O problema é que olho para frente agora e imagino qual será a próxima fase? O que falta em termos de recurso? Cimento branco?

Olho para as senhorinhas espanholas e vejo as mesmas sombras coloridas, o batom vermelho e o blush marcado do passado! Será que assim como tendemos a nos comportar como crianças quando envelhecemos, nossas maquiagens também voltam ao estilo original?

Alguém pode me matar se isso acontecer? Por favor!

Codega

Tenho uma amiga que acha a melhor coisa do mundo realizar os sonhos alheios! Conheço ela o suficiente para saber que é sincero e acho o máximo! Entendo, por um lado, o princípio da generosidade e, por outro, o da consciência do quanto recebemos em troca, como experiência e aprendizado. É como se a energia da gentileza se alegrasse e te abrisse passagem para um nível de felicidade.

Ela chegou ao ponto de conseguir fazer isso propositalmente, sem constrangimentos e, ainda assim, mantendo a espontaneidade. Juro! Não alcancei esse nível de altruísmo, mas sim que o compreendo e me sinto bem realizando, se não sonhos, porque me parece bastante pretencioso, mas pequenos desejos, coisas que nem me custam tanto, mas podem ter impacto na vida das pessoas.

Não faz tantos anos, entendi o que talvez seja meu papel no mundo. De uma maneira simplificada, me tocou correr riscos, experimentar e depois voltar para contar o que aprendi a quem quiser escutar. Ainda que não corra riscos fantásticos ou totalmente extraordinários, como escalar picos nevados (ainda), me dei conta que a maioria das pessoas também não está tão interessada assim em conhecer a sensação de congelar o nariz ou perder um braço. Às vezes, importa mais compartilhar algo prático, mundano e possível. E que assim mesmo, assusta um monte de gente.

Essa semana, estava lendo “Comer, Rezar, Amar” e aprendi uma palavra nova que adorei: codega. Era um tipo de profissão que surgiu em Veneza, na idade média. Tratava-se de um sujeito que era contratado para andar na sua frente à noite, com uma lanterna acesa, mostrando-lhe o caminho, espantando ladrões e demônios. Na verdade, acho que era mais para o povo não se perder mesmo, considerando que Veneza é realmente um labirinto, e certamente espantar ladrões e aproveitadores, mas os demônios deixaram a função mais poética. A metáfora de trazer segurança e proteção pelo escuro é linda!

Não tenho força, treinamento ou coragem de sair por aí espantando bandidos de carne e osso, mas adoraria ser uma codega para medos e demônios alheios. Sempre tive a sorte de carregar a sensação constante de ser protegida. A sensação pode corresponder a algo real, irreal ou surreal, não importa, porque enquanto estiver comigo funciona como um amuleto poderoso. Mas só há pouco tempo, descobri como é aconchegante e realizadora a sensação de proteger.

E tenho um monte de protegidos, declarados ou secretos.

Passei a vida inteira dizendo que não gosto de cuidar de ninguém. Não sei exatamente quem queria convencer com essa bobagem, provavelmente eu mesma. Porque toda vez que paro para reparar um pouquinho só, me percebo tomando conta de todo mundo que está em volta. Eu tomo conta até dos cachorros que andam sem colera na rua! Só consigo relaxar quando tenho certeza que existe um “dono” e sei que ele não está sozinho. Talvez seja o momento de assumir esse terrível desvio de personalidade que reluto tanto! E afinal, qual é mesmo o problema? Por que reluto tanto?

E por que surgiu toda essa elocubração?

Esse ano de 2011 surgiu com bastante otimismo, tanto da minha parte como de muitos amigos. Pode ser apenas por ser início de ano, onde o otimismo prevalece, mas as previsões de maneira geral pareciam boas.

E, realmente, uma série de amigos meus tiveram começos de ano com portas muito interessantes e promissoras se abrindo. Fiquei, honestamente, feliz por todos eles, sem exceção! Todos mereceram.

Mas não vou negar que me passa aquela ponta de pensamento, será que comigo também vai se abrir uma porta em breve? Quando será minha vez? O que de bom vai me acontecer? Será que deslancho para algum lado? Será que me falta dar algum passo? Se o universo está se abrindo em oportunidades, não quero perder por não estar prestando atenção.

Abro um parênteses para contar uma outra história, até porque na verdade, o que quero dizer é o resultado de um emaranhado de histórias diferentes e em tempos diferentes, mas que de alguma maneira, me fizeram mais sentido hoje.

Voltando, uma vez estávamos dando um jantar em casa para um casal de amigos, que gentilmente elogiavam meus talentos artísticos e culinários. Agradeci e brinquei mais ou menos sério que um dia gostaria de ter um talento que pudesse me dar algum dinheiro! Afinal, nenhum dos meus “talentos” atualmente paga contas! No que meu amigo me respondeu de bate pronto, como algo lógico: você tem o Luiz. Veja bem, essa frase poderia ter a interpretação machista do marido responsável pelas contas da casa, mas tenho certeza absoluta que não foi o que ele queria dizer. O fato é que ninguém faz praticamente nada sozinho. De uma forma ou de outra, sempre dependemos de alguém em algum nível, financeiro, operacional, emocional, afetivo etc. Nesse caso, o dinheiro, por exemplo, é uma forma literal, mas ele nunca é um fim por si só, ou não deveria ser. O que ele quis dizer é que éramos uma equipe bizarramente equilibrada.

Nem tudo na vida é tão simples e no fundo acho bom não estarmos totalmente satisfeitos, pois essa ansiedade da busca também pode ser bastante produtiva. Mas, nesse momento, vou me ater ao fato de que praticamente tudo de importante na vida é sempre feito por mais de duas mãos. É tão pretencioso acreditar que se alcança metas totalmente sozinho, como é um desperdício não desfrutar do mérito alheio quando você, de alguma maneira, teve uma participação.

Não estou falando de reconhecimento. Reconhecimento é legal, massageia o ego. Mas o que estou dizendo é que também é bastante recompensador saber que você contribuiu para o sucesso de alguém. Porque no fundo, é seu sucesso também, mesmo que apenas uma parte dele.

Há um tempo atrás, escrevi a biografia de uma amiga. Foi um trabalho a quatro mãos, ela me passava o conteúdo e eu dava a forma. Ao longo desse trabalho, entendi porque ela me procurou, o livro era um presente para o filho e havia seus motivos que não vem ao caso, mas ela precisava de ajuda para transmitir esse conteúdo de uma maneira que ela não sabia como. Fui chamada à responsabilidade, não por ela, mas pela situação. Eu poderia simplesmente lavar minhas mãos e limpar o texto, sem me envolver ou me preocupar tanto. Mas o fato é que me envolvi, me emocionei algumas vezes e me preocupei sinceramente em como o filho receberia esse presente. Por ser a história dela, procurava ao máximo possível usar suas expressões e maneira de pensar. Porque o importante era ele reconhecer sua mãe, não uma personagem que eu inventava ou que me faria sentir melhor. O presente era dela para ele, eu era apenas a intermediária, quase uma tradutora. Ao mesmo tempo, me colocava direto na posição do filho, de como ele poderia ler da maneira mais leve e carinhosa possível. Ou em outras palavras, como não costumo gostar de admitir, estava cuidando dos dois, queria que tudo desse certo.

Resumo da ópera, essa semana ela me manda uma mensagem avisando que ia entregar o livro a ele naquele dia. Ai, meu santo, que nervoso! Parecia que eu tinha alguma coisa a ver com isso… até porque, eu tinha mesmo! No momento que pus meu dedinho, querendo ou não querendo, eu tinha a ver com isso! O bem deles era o meu bem também.

Não vou fazer suspense, deu tudo certo e, pelo o que ela me contava, foi muito bacana. Fiquei uma mistura de feliz com aliviada, mas o que eu nunca esperava era que o filho também me escrevesse hoje. E confesso que foi o que me tocou mais fundo e fez cair a ficha do quanto eu pude fazer parte de uma história que não era minha, pelo simples fato de querer que tudo ficasse bem. Por assumir uma responsabilidade com o outro. Era de se esperar que depois de meses escrevendo sobre a história de uma amiga próxima e do seu filho, sentisse que conhecia os dois. O que não imaginei é que um rapazinho com idade para ser meu filho também pudesse me reconhecer tanto simplesmente pela maneira que escrevi.

Ele me disse que foi o presente mais bonito que já recebeu na vida. O presente é da mãe dele, é claro, mas vamos combinar, nem que fosse só embrulhando o pacote do presente mais bonito que alguém recebeu na vida, não é o máximo? Eu nem sei explicar o tanto que eu fiquei feliz!

E por esse grão de areia, viajei na maionese o dia inteiro! Fiquei entrelaçando todas essas histórias.

Fiz até uma lista dos meus melhores presentes na vida, porque não consegui ainda eleger o presente mais bonito, the ultimate gift!

–         Um cordão com uma placa de ouro do mês de novembro com um brilhante no dia do meu aniversário: presente dos meus pais, eu era garota, acho que uns 10 anos e me senti muito adulta ganhando uma jóia.

–         Uma aliança de brilhantes que ganhei da minha avó por parte de mãe. Foi motivo de briga no começo. Minha mãe se recusava a me dar porque eu era muito criança e ela achava um absurdo eu ganhar uma aliança, coisa de mulher casada! Porque afinal, eu nem entenderia o valor daquilo! Minha avó dizia que a aliança era dela e ela dava para quem ela quisesse a hora que ela quisesse! A solução foi ela me dar, mas minha mãe guardar até eu ficar mais velha. Guardou durante anos e me deu pouco tempo antes de eu ficar noiva (pela primeira vez, quando a propósito, desisti de casar).

–         Um jogo de porcelana polonesa que minha avó por parte de pai havia ganhado de presente no seu próprio casamento. Ela também me deu por ter ficado noiva. Quando desisti de casar, perguntei se ela o queria de volta e ela disse que não, só não queria que desse para mais ninguém, era meu para quando eu casasse com quem bem eu entendesse. Casei anos depois com Luiz e trouxe o jogo comigo. Tenho ele até hoje, nunca me rachou um prato por todas essas trocentas mudanças em três países diferentes.

–         Uma tábua de passar roupa do meu irmão quando casei de verdade. Ele era universitário na época e provavelmente era o mais caro que ele podia pagar na minha lista de presentes.

–         Meus dois gatos, quando fiz 30 anos, ganhei do Luiz. A gatinha morreu em Atlanta, com 5 anos. Jack segue gordo e feliz conosco, caminhando (bem lentamente) para seus 12 anos.

–         Um álbum que ganhei da minha mãe, com uma coletânea de fotos dos momentos mais importantes desde que eu era bebê até ficar adulta e sair de casa.

–         Meu sobrinho me deixar levá-lo em uma loja de brinquedos no dia do seu aniversário, sozinho, e escolher o que quisesse ganhar, sem limite de preço ou tamanho. E para quem não acredita na espontaneidade infantil, ele nunca escolheu o mais caro ou maior, mas o que ele mais queria de verdade.

–         Uma caneta Mont Blanc que dei para Luiz quando estávamos namorando. Me custou um mês de salário, mas achava o máximo ele usar no bolso a mesma caneta que seu gerente e seu diretor!

–         Um trenzinho de cristal para o meu pai, quando descobri que ele adorava esses objetos. Sempre foi dificílimo achar alguma coisa diferente para o meu pai que não fosse comida.

–         Ops! Para quem mesmo eram os presentes?

Pois é, de repente aconteceu outra vez! Porque começou a ficar difícil separar o que era presente, dar ou receber?

Não sei que portas vão se abrir para mim esse ano, mas lembrei de outras que ajudei a abrir e que nem foram para mim. Mas no final, sim que foram. A felicidade de quem está a minha volta é a minha felicidade, faço parte dela e não tenho porque não desfrutá-la. Talvez eu esteja esperando muito do futuro e já tem um monte de coisas acontecendo todos os dias. Talvez eu esteja muito “masculina” e tenha voltado a relacionar minha vida a um trabalho remunerado. Um dia ele vai aparecer, se tiver que aparecer, mas a essa altura nem sei mais se é o mais importante que posso fazer. Na melhor das hipóteses, se eu realmente tiver sorte, será apenas uma ferramenta para algo maior.

Cuidado com o que desejas…

Hoje é dia dos namorados na Espanha, na verdade, também em alguns outros países, porque é dia de San Valentín.

Desejei então, que Luiz chegasse cedo do trabalho e, ardente, não quisesse  mais sair da cama… ele chegou pela hora do almoço porque  não aguentou trabalhar mais do que isso, gripadaço, deitou e não saiu da cama até agora com uma febre daquelas!

Acho que o pedido deveria ter sido mais específico… joder! (por exemplo)