Entre mais altos que baixos, vamos seguindo

Na terça-feira, acordei com a corda toda, naqueles dias que você está cheia de bom humor e energia. Pensei, perfeito, preciso fazer duas coisas muito importantes hoje, me matricular no pilates e no francês.

Para mim, uma coisa dificilmente é uma só, são pontas que se unem. Já há algum tempo me preparo para um ciclo novo e preciso fazer alguma coisa para que ele siga seu curso.

Preciso cuidar melhor do meu corpo, a gente pode chamar de saúde, de vaidade, do que quiser, mas cada vez tomo mais consciência que tudo cobra seu preço e quanto melhor me cuidar agora, menor sofrimento depois. Digo menor, porque que ele virá, virá, mas pode ser amenizado e razoável.

Quero entrar no pilates há séculos, mas sempre tem algo que atrapalha, uma viagem, o preço, o local, o mês errado… chega! Achei um bom centro a 5 minutos da nossa casa. Não tem milagre, é caro. Paciência, eu que tome menos vinho! Já fiz a matrícula no mesmo dia que pedi as informações, porque se trago o folheto para casa, os problemas iam continuar aparecendo. Assim não tinha desculpa.

De lá mesmo, segui para a Aliança Francesa, para me informar sobre as aulas. O curso só iniciaria em outubro, o que me faria perder um mês. Então, decidi começar o mais rápido possível com aulas particulares.

O que acontece é que estou tentando fazer um estágio com um chef em Paris. Em princípio, meu amigo francês está me ajudando a conseguir alguma coisa a partir de meados de novembro. Não sei se vamos conseguir, se vai dar certo e blá, blá, blá. Mas nunca tenho certeza de nada mesmo, então, pelo sim e pelo não, resolvi me preparar de toda maneira. Na pior das hipóteses, melhoro em um dos idiomas e tenho um plano.

Ter planos é fundamental.

Voltei toda animada para casa, feliz por estar tomando algum rumo que se parecesse à normalidade, um gostinho de rotina temporária. Senti um calafrio, porque reconheci a sensação que tive em Atlanta, quando voltava serena de um supermercado, pensando que poderia me adaptar ali. Nessa mesma noite, descobrimos que tinha dado uma merda generalizada na empresa e que provavelmente não ficaríamos mais no país, e isso com nossa mudança no meio do oceano. Mas essa foi outra história que já contei aqui em algum lugar. O que importa dizer agora é que aprendi a reconhecer essa calmaria antes da tempestade.

Felizmente, também aprendi a disfrutar da calmaria até o último minuto. Porque tempestades dão e passam.

Estava tão contente na terça, que nem me dei conta que não havia tido nenhuma notícia do Brasil naquele dia. Depois estava meio ocupada com os preparativos da feijoada, me toma uma semana de trabalho.

Na quarta-feira, procurei minha mãe pelo MSN para contar as novidades. Quando achei, ela me escreveu que ia me ligar. A gente sempre se escreve, porque é muito mais prático e sai mais em conta, a gente fala pouco por telefone, só quando é muita coisa para explicar.  “Vou te ligar”, tradução: deu merda! Chegou a tempestade.

Resumindo a ópera, os pontos da barriga do meu pai estouraram em casa. Ele precisou voltar para o hospital e colocar um tipo de tela, porque só a pele não estava aturando. Ficou internado até domingo. Não é que tenha sido grave, mas é difícil de ver, sai muito sangue e minha mãe perdeu o controle, estava bastante fragilizada. Por sorte, meu irmão estava em casa e ajudou a segurar a barra. É uma porrada atrás da outra e isso vai minando a resistência das pessoas. A minha também. Fiquei mal porque me pegou meio vulnerável, tinha baixado um pouco a guarda quando a gente descobriu que ele não tinha outro tumor. Perguntei se ela queria que eu voltasse ao Brasil, mas ela falou que não era necessário, que ele já estava bem.

Fiquei na dúvida se deveria adiar a feijoada do Luiz. Ao mesmo tempo, o esquema estava todo montado, as camisetas estavam prontas, as carnes descongeladas, as bebidas compradas… e aí, o que faço? Como é que vou cozinhar assim? E logo feijoada, vou salgar essa bosta toda, cassilda! Por outro lado, a maior expectativa gerada, se adio agora, claro que todo mundo entende, mas só vai atrair uruca e pena. Não é disso que a gente precisa.

Então, entre uma choradinha e outra, achei mais produtivo melhorar a cara e tocar o barco. Agradecimento especial ao Martinho da Vila e ao Arranco de Varsóvia que não saiu do som, acho que o CD até gastou na música dizendo que “a vida vai melhorar”. Pois melhorou. Acho que cada um tem sua maneira de rezar, a minha é bem esquisita. Talvez tenha fé no otimismo.

Na quinta-feira, minha primeira aula de pilates. Cheguei com um pouco de vergonha de quem não tem muita idéia do que se trata, mas achei que não seria prudente ir dizendo logo de cara que queria ficar igual a Madonna. Fui preparada psicologicamente para não me afetar caso pegasse uma professora antipática e grosseira, o que não aconteceu. Na verdade, ela foi bem atenciosa e gentil, o que ajuda muito.

Não parece nada você se exercitar deitada, ainda que a tal cama pareça um objeto medieval de torturas. Acontece que se exercita e eu gostei. Vou voltar.

Cheguei em casa mais animadinha e Luiz me diz que tínhamos uma reunião no apartamento de uma amiga do trabalho, para fazer e tomar caipirinhas, lembra? Claro que não lembro. Achei que era só um comentário, não havia entendido que era um compromisso marcado e não tinha a mais remota vontade de encontrar ninguém. Mas era o pessoal do trabalho dele e isso para mim, entra na categoria “trabalho-tem-que-ir-e-fazer-seu-papel”.

Foi bom ter ido, no final das contas, o pessoal era bem legal, foi descontraído e divertido, funcionou para espairecer e pensar em outras coisas. Além do mais, ela tem uma terraza ótima e a temperatura estava perfeita. Eu realmente devo estar ficando velha, porque a temperatura agora me afeta diretamente o  humor. Engraçado que já nem é um assunto coringa para evitar momentos de silêncio constrangedor, passei a gostar de conversar sobre o tempo.

Enfim, aproveitei a maré de relaxamento e quando cheguei em casa, fui cozinhar e adiantar algumas coisas para sábado.

Na sexta-feira, acordei com a campainha, era a senhora vizinha de baixo. Havia um vazamento no apartamento dela e precisava entrar em contato com o proprietário. Não estou acreditando que isso está acontecendo hoje! Nas vésperas de ter quase 40 pessoas em casa, tudo que eu preciso é de um banheiro interditado e uma vizinha aborrecida! Respira fundo! Ahummmmm…

Falei com o proprietário, que por sorte é um amigo e super gentil. No mesmo dia ele enviou o responsável pela obra, que tratou de acertar o problema imediatamente, enquanto eu seguia enlouquecida na cozinha.

Vamos complicar um pouquinho mais? Levantei com a maior dor nas costas, parecia muscular e não um problema de verdade, mas era bem incômodo. O resto da musculatura não estava dolorida. Pensei que eu era uma zebra em começar a ginástica um dia antes do pico de trabalho para a feijuca, mas já era. Tratei de colocar a cinta na coluna, para não piorar e fui mandar a pera no fogão.

Não sei que raio fiz que o fogão pirolítico total começou a acender todas as luzezinhas ao mesmo tempo e não havia cão que o fizesse sair do loop e ligar. Nem sei se fiz realmente alguma coisa, porque quando fico agitada parece que a energia sai pelas mãos e toco a pifar coisas! Pensa, Bianca, é um equipamento eletrônico! Fui na chave geral, desliguei e religuei toda a energia da casa (afinal, não sei qual é a chave específica do fogão). Acredite se quiser, funcionou!

Muito bem, vamos começar outra vez! Quando os operários foram embora, pelo menos, podia cantar sozinha como uma louca! Logo fui entrando em automático e me convertendo na polva de sempre.

Quando o fuso permitiu, falei com meus pais, como todos os dias, e as coisas corriam no seu curso. Ele deveria deixar o hospital pelo domingo, ainda que minha mãe preferisse que ele ficasse um pouco mais. Não posso dizer que fiquei tranquila, não estou até agora, mas também não havia nenhum perigo iminente.

Comecei a arrumar a casa, mas preferi esperar o Luiz chegar para me ajudar, porque fiquei com medo de piorar as costas. A gente faz uma revolução para abrir espaço e tornar o ambiente mais prático.

Pelas tantas, fui dormir com tudo encaminhado. Arroz, couve de mentira, farofa, laranja, vinagrete, carne seca desfiada, calabresa acebolada, tudo de direito! Só faltava refogar o feijão, que já estava pronto curtindo as carnes, mas é que o refogadinho gosto que seja na hora. No dia seguinte, o Luiz só precisava pegar o bolo encomendado, pão e gelo.

Uma coisa curiosa, há duas regras de festa que nunca batem com as nossas. A primeira delas é aquela história de marcar um horário antes do desejado, porque as pessoas vão atrasar; a outra é chamar uns 10% a mais de convidados porque alguém sempre falta. Considerando que a feijuca estava marcada para às 15hs, com uns 30 convidados em mente e o primeiro dos 38 amigos presentes chegou às 14:30hs… cada um que tire suas conclusões. Só digo que não nos surpreendeu, a gente conhece o esquema e para mim, quanto antes comece, melhor!

Verdade que pelas 14hs, Luiz postou uma foto da feijoada no facebook, coisa que deve ter sugerido a galera que  não se atrasasse porque a coisa ia a sério.

 

Quem está na chuva, é para se queimar, já dizia Vicente Mateus. E já acompanhei logo o primeiro convidado na cachacinha pura, envelhecida como deve ser.

 

O único momento de preocupação para mim é na hora de esquentar a feijoada, porque preciso tomar muito cuidado para não pegar no fundo e, ao mesmo tempo, garantir que tudo chegue quente à mesa. Não é uma tarefa simples se você não está em uma cozinha industrial. E, nesse caso, ajuda é pior, a probabilidade que eu queime alguma coisa é imensa, viro um bulldog antipático e rosno se alguém chegar perto! Não quero nem papo!

 

Fora esse momento de tensão, o resto, aproveito tudo! Chuto o pau da barraca mesmo, é todo mundo de casa! E na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba…

Rolou uma batucadinha para animar. Não foi a mesma coisa sem nosso amigo músico puxador oficial das canções, que voltou para o Brasil. Mas deu para a gente se divertir. Sabe que, às vezes, quando rola aquele coro de vozes cantando junto, bate até uma emoção! E agora sei quantas pessoas cabem na sala (ou espalhadas pelo apartamento).

 

Houve uma certa rotatividade, teve gente que foi mais cedo, gente que chegou mais tarde, gente que foi e voltou… Pelas tantas, fui fazer mais arroz com duas amigas e começamos outra vez!

Não tenho idéia de que horas acabou, todos os relógios da casa piscavam porque a luz caiu um par de vezes. Só sei que não tive condições de fazer absolutamente nada! Costumo ajudar o Luiz com a arrumação da casa, porque só vamos dormir com as coisas organizadas, mas dessa vez, capotei!

Pela manhã, escutei uma esfregação para lá e para cá e achei que era melhor ficar bem quietinha, me fazendo de morta, coisa que nem foi difícil, já que estava mortinha mesmo! Quando me atrevi a levantar, a casa estava limpa e cheirosa, nem parecia que havia passado um tufão no dia anterior.

Ressaca zero! Nem acreditei, só agradeci! Assim que consegui juntar cré com lé, liguei para o Brasil e meu pai tinha recebido alta. Menos uma encrenca! Ufa!

Ficamos sossegados o resto do domingo. Saímos para jantar aqui perto, abriu um brasileiro novo na Calle Santa Brígida e fomos lá conferir. Aproveitamos e descemos com o resto do lixo, garrafas etc. Missão cumprida!

E, a propósito, não salguei a comida. Atrevo-me a dizer que foi uma das melhores feijoadas que fiz! Aos amigos que não puderam vir, sinto de verdade, não é falta de carinho, é falta de espaço mesmo. E os que vieram, definitivamente, trouxeram um astral perfeito e deixaram a casa muito mais feliz.

10 comentários em “Entre mais altos que baixos, vamos seguindo”

  1. Que legal!A feijoada teve direito a camiseta personalizada e tudo! Deve ter sido realmente muito divertido. Sua feijoada tava com uma cara de gostosa!
    Estava organizando uma para o mes de julho com direito a roda de samba e exposiçao de artistas brasileiros mas quebrei o pé e tive que cancelar tudo.
    Se Deus quiser, vou fazer outra em novembro.
    Que bom que seu pai ja esta em casa. Assim vc fica mais tranquila…

  2. Amigaaaaaaaaaa, caraca que tanto de coisas e vc ficou bem quietinha heim!!! Que bom que como sempre tudo acaba dando certo neguinha Blanca! Olha, essa feijoada realmente FICOU MARAVILHOSAAAAAAAAAAAAA, eu comi, lanchei e jantei rsrsrs agora haja raçao humana hehehe.
    Que bom que teu pai ja esta em casa neguinha e sim, ter planos faz toda uma diferença em nossas vidas !!!

    Beijoss

  3. Ai, hoje mesmo pensei nisso: a vida anta tão, tão boa que tenho certeza que daqui a pouco vem um furacãozinho. Só resta esperar e saber que, de fato, a alegria e a tristeza passam mais cedo ou mais tarde.
    Adorei as fotos da feijoada.
    Fiz o primeiro feijão da minha vida faz 2 semanas… fiquei com invejinha da beleza que ficou essa feijoada.
    Um dia tento!
    🙂

  4. Oi, Anna Karine! A gente faz essa feijoada todo ano, no aniversário do Luiz e sempre tem camiseta personalizada com alguma foto do ano anterior. É o abadá 🙂 Tomara que sua feijuca de novembro dê certo! Passei pelo seu blog para conhecer, legal, depois vou voltar com mais calma. Vi que você vai ao Brasil agora, aproveita para trazer os ingredientes! Não acho tudo por aqui, tenho que fazer um certo contrabando… rs. Besitos

  5. Oi, Didis! Luiz já congelou as “quentinhas” no mesmo dia, para a gente não ter a tentação de quebrar a dieta… hehehe… só no fim de semana mesmo! Agora, toca na ração humana… putz! Besitos

  6. Oi, Dany! Como já diz o chavão, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe… é assim mesmo, quando não é tudo ao mesmo tempo, né? O jeito é ir aproveitando enquanto está bom e segurar a onda durante as tempestades, porque elas também passam. O primeiro feijão a gente nunca esquece… Tenta a feijuca um dia desses, se quiser algumas dicas, pode perguntar! Besitos

  7. oi Bianca, as vezes a gente espera um trem e so passa um caminhaozinho, muito boa a sua feijoada.
    Quanto ao fogao mesmo com pequenas variaçoes de temperatura ele pode desprogramar, entao voce aperta a tecla de encendido dez segundos apaga tudo, espera dez segundos e aperta outra vez 10 degundos funciona lindamente, e para aquecer sem queimar fogo no quatro espera uns minutos baixa pro dois, pode deixar la depois de quente no 1 e nao tem jeito de queimar.
    Bem e nao sei se voce conhece o grelo que è uma couve galega que voce encontra nos mercados, è igual a nossa couve manteiga so que mas pequena, e diria que mais saborosa.
    A tempestade sim que vira mas nao tem de ser no dia do aniversario do Luiz.
    Um beijo.

  8. Se tem alguém aflito
    Todo mundo chora
    Todo mundo sofre
    Mas logo se reza
    Prá São Benedito
    Prá Nossa Senhora
    E prá Santo Onofre…

    Mas se tem alguém cantando
    Todo mundo canta
    Todo mundo dança
    Todo mundo samba
    E ninguém se cansa
    Pois minha casa
    É casa de bamba
    Pois minha casa
    É casa de bamba
    Pois minha casa
    É casa de bamba…

  9. Oi, Antonia!

    Não foi só desprogramação, ele pirou mesmo 🙂 Tentei ficar apertando a tecla um tempo, como a gente faz também quando usa sem querer a trava de segurança, mas dessa vez não funcionou. Enfim, logo voltou ao normal, felizmente. No “fogo” baixinho ele não queima, mas você viu o tamanho das panelas? Fiz quantidade para umas 50 pessoas, porque sempre faço um pouco a mais. Se esperasse ferver no 1… ia levar 3 dias… heheheh… o jeito foi ir mexendo mesmo! Mas isso foi só no refogado, porque a cebola e o alho descem e pegam embaixo da panela, para fazer a feijuca foi tranquilo deixar no fogo baixinho que ia bem. Até que já estou acostumada com o fogão e achei melhor que o de cerâmica (mas o de fogo é imbatível!).

    Conheço o grelo e a berza, mas nem sempre a gente encontra, depende da época do ano. Sei que na Galícia tem o ano todo, mas aqui não, aparece mais nas mercearias pelo inverno. O que usei dessa vez, que também substitui bem e é facílimo de encontrar, foi a folha da acelga. Fazendo cortadinha igual a couve à mineira, refogadinha com bastante alho, bacon e azeite… hummmm… fica show!

    Ai, tá me dando fome outra vez!

    Besitos

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