O paradoxo do sonho

Sei quando ando escrevendo pouco porque os amigos começam a me enviar e-mails, assim meio que como não querem nada… me perguntando se está tudo bem… porque o blog está meio parado…

Pois está tudo bem sim, é que por uma questão de prioridades, esses últimos dois meses estou bastante focada na viagem para Paris e no estágio que vou fazer.

Sei que o mundo continuou girando e acompanho as notícias, mas estou um pouco egoísta e tratando da minha vida, que é a única que por direito posso controlar o mínimo possível.

Por mais que um estágio em Paris soe completamente sedutor e interessante, a verdade é que há mais de dez anos não trabalho para ninguém, não cumpro ordens, não tenho horário fixo. Tenho mais de quarenta anos e vou começar em uma área nova, numa função que nunca exerci profissionalmente. Vamos complicar um pouco? Será em outro país, com um chef que não conheço e em um idioma que até falo, mas não domino.

Não quero passar a impressão errada de que não estou gostando, porque me meti nessa encrenca com meus próprios pés, em sã consciência e, não vou negar, amarradona! Mais do que isso, recebi total suporte do Luiz e dos meus amigos. Mas também não vou tirar onda que acho moleza. Eu tenho medo.

É mais ou menos como esquiar, pelo menos, como foi para mim. Ficava enrolando naqueles montinhos de neve, para o tempo passar enquanto Luiz esquiava de verdade. Afinal, ele não iria para uma estação sozinho e eu não queria privá-lo da experiência. Em algum momento, aquela mediocridade me cansou e entre o tédio e o medo… melhor arriscar montanha abaixo. Às vezes, me pergunto se sou corajosa ou simplesmente não tenho a menor paciência!

Como costumo dizer, minha vida ficou bem melhor a partir do momento que perdi a dignidade. Você passa a encarar os micos com muito mais tranquilidade.

Assim que no fundo, sei que meus riscos não são altos. Na pior das hipóteses, volto para casa e pronto, com a serenidade de quem tentou. Certo?

Uma pinóia, né? Só se não fosse quem sou. Como é que posso voltar para casa achando que não fiz bem? Fiz menos do que poderia? E o pior, por alguma razão idiota, como não entender bem alguma tarefa. Para mim, esse primor que sou na arte do improviso, é meu pior pesadêlo!

E vamos combinar, tem coisa mais apavorante que a possibilidade próxima de realizar um sonho? Saber que em pouco tempo você vai comparar a situação real com algo idealizado? Tem algo mais injusto que uma expectativa? E, ao mesmo tempo, para que ter sonhos e planos sem que haja a intenção verdadeira de perseguí-los e concretizá-los? Para mim, é um paradoxo insolucionável!

Enfim, outra vez não quero passar a impressão errada, estou otimista, feliz pacas com a oportunidade e tentarei aproveitar o melhor possível. É só um desabafo dessa eterna contradição, talvez felizmente, que é a vida, ou é a minha.

Ou talvez, seja só o outono e meu inferno astral.

O retorno dos hóspedes

Nossa casa sempre foi de alta rotatividade, principalmente, depois que mudamos para Espanha. Mas acontece que por uma combinação de motivos, essa frequência diminuiu bastante nos dois últimos anos.

Por um lado, eu mesma não parei muito em casa, com idas de emergência para o Brasil. Por outro, a imigração andou pegando pesado com os brasileiros e espantou os turistas daqui.

Da minha parte, felizmente isola, as coisas se aquietaram e passei a ir menos ao Brasil. Também os turistas brasileiros começaram pouco a pouco a se interessar por Madri novamente. Não sei se por isso, mas nossa casa voltou a ser paradeiro de amigos. 

Se normalmente nós já somos animados, imagina quando vem gente visitar! Em dois fins de semana diferentes, vieram duas amigas, ambas brasileiras vivendo no exterior e ambas com energia para a noitada madrileña. Daí é correr para o abraço, né? As noites acabavam bem cedo, tipo 5 ou 6 da manhã!

Voltamos a frequentar o El Junco, que continua com ótima música e até anda menos esfumaçado, acredite se quiser. Depois rodávamos um pouco pelos inferninhos das redondezas e acabávamos no Kabocla.

No terceiro fim de semana consecutivo, viria outro amigo da Suíça, mas acabou ficando parado em Paris por causa da greve. Aliás, coisa que não falta na França é greve.

Pensei então, que seria mais tranquilo. O único compromisso que tinha era a inauguração da coqueteleria de um amigo, na sexta-feira passada, pela hora do almoço. Muito bem, Luiz conseguiu se liberar mais cedo, coisa que me impressionou, pois tem trabalhado direto até por volta dàs 21h, quase todos os dias. Às 15h, conseguimos chegar na tal coqueteleria, que aliás, está uma graça.

Vinhozinho daqui, sushi dali, conversa com amigos… o pessoal indo embora… e aí, seguimos? Fazer o que, né? Seguimos, é lógico.

Fomos para o Mercado de San Miguel pelo finzinho da tarde e superamos o desafio quase impossível de conseguir uma mesa. Umas nove garrafas de vinho e vários belisquetes depois, uma amiga sugeriu ir em um bar de tango.

Só meio bêbados mesmo Luiz e eu toparíamos ir a um argentino de propósito, mas que ninguém nos ouça, o lugar era bem simpático e serviu um bife à milanesa redentor.

Pouco depois da hora que a Cinderela vai embora, foi batendo um cansaço daqueles. Já nem aguentava comer nem beber nada! Minha capacidade de conversar havia decrescido radicalmente e ainda tínhamos um almoço no dia seguinte. Uma das amigas inclusive dormiu literalmente na mesa. Então, mesmo dando vontade de ficar mais um pouco e seguir, melhor voltar para casa.

No dia seguinte, acordamos ótimos! Também, bebida boa, bem alimentados, bom astral, pessoais legais… beleza! Mas admito que estava bem cansada e Luiz não parecia muito melhor.

Sem problemas, fomos em um almoço na casa de outra amiga. Um pratinho básico, leve: feijoada! Quer saber, caiu muito bem e não tomamos nem uma gota de álcool, afinal, um abuso de cada vez. Por outro lado, imagina a lombeira que bateu depois!

Fomos para casa descansar um pouco, com o plano de assistir um amigo tocar à noite. Muito bem, nem sei como não choveu nesse dia, porque à noite eu pedi arrego. Luiz, você está assim louco de vontade de sair hoje? Porque se tiver que ir, eu vou, mas vontade mesmo estou é de ficar derretida no sofá e bem cobertinha.

Quando sair da rotina é passar um sábado à noite tranquilos em casa, é sinal que a vida não está nada mal, ou então, é que não temos muito juízo.

Domingo foi preguiçoso também, já espero que o próximo fim de semana seja bastante agitado, porque é feriado e temos programação para absolutamente todos os dias. Melhor armazenar energias.

Na verdade, nem precisou chegar o fim de semana, porque o agito começou ontem, quarta-feira. Foi show do Seu Jorge e Almaz. Um showzaço! Adoramos! A gente curte Seu Jorge desde os tempos do Farofa Carioca e tinha uma expectativa alta para essa apresentação. Coisa que é um pouco perigosa, porque expectativas são sempre difíceis de se cumprir. Digo que dessa vez, foram superadas! Achei que funcionaram muito bem como grupo, super complementares e fazendo uma música realmente nova. Experimental, no sentido de se utilizar uma experiência, não simplesmente provar para ver o que dava. Achei surpreendente a mescla do rock, meio Led Zeppelin, com muito de jazz também, e ao mesmo tempo raízes afro-brasileiras, samba e sei lá mais o que. Enfim, digo isso mais para dar referências, porque não precisam de comparações, foram bastante originais. E vamos combinar, o que é a voz do Seu Jorge? Fala sério! Como um cidadão daquele tamanho pode ser tão leve? E ao mesmo tempo, bastante forte, quando recitou “Negro Drama”, do Racionais’ MCs, foi de arrepiar. Valeu.

Feriado de 12 de outubro

Já caminha para os seis anos que moramos em Madri e sigo perdida em relação aos feriados. A gente só descobre quando não dá mais tempo de se programar para nada. É verdade que nunca gostamos de seguir o fluxo turístico da galera e isso contribui para uma certa falta de interesse. Acontece que em função da “crisis”, muita gente tem evitado viajar e isso me deixou um pouco mais alerta às possibilidades de pequenas escapadas.

Bom, digo um pouco mais alerta, porque ainda não cheguei ao estágio de evolução do planejamento, né? Mas esse último feriado, ponte de 12 de outubro, consegui me interar mais ou menos uma semana antes.

O chato é que havíamos combinado de ir sábado para a casa de uma amiga e segunda-feira havia uma super festa de aniversário. Coloquei na balança… senti muito… mas pensando bem, só teria outra chance de dar uma fugida com Luiz no ano que vem, então resolvemos viajar.

Comecei buscando lugares nos arredores de Madri, mas acabei encontrando um website ótimo, com hotéis que ofereciam cursos de cozinha por todo mundo, esse aqui http://es.escapio.com/hoteles-con-curso-de-cocina

Primeiro busquei os hotéis espanhóis, mas para variar, nenhum aceitava meu gato. Sim, porque o Jack ia conosco. Daí não resisti e busquei os franceses que estivessem mais próximos da Espanha. O mais próximo que me interessou, ficava perto de Toulouse, há mais ou menos 9 horas de Madri. Pensei que Luiz não ia querer dirigir tanto, mas enviei o link para ele assim mesmo.

Pois ele topou na hora e eu fiquei amarradona! Trata-se de um pequeno hotel de charme, com meia dúzia de quartos, em uma cidade minúscula chamada Cuq Toulza, há cerca de 40 minutos de Toulouse. Um dos proprietários, é também o chef da cozinha e, além dos jantares deliciosos, oferece cursos de gastronomia de um dia. Para quem se interessar, o local se chama Cuq en Terrasses e o link é esse http://www.cuqenterrasses.com/

 

O planeta sabe que amo a França de paixão, nem sei porque gosto tanto, mas é dessas coisas que não se explicam e nem importa. Era uma oportunidade de unir vários prazeres e utilidades. Podia descansar com Luiz e meu gato em um lugar calmo e charmoso, além de ter a experiência de cozinhar em um restaurante, com o chef também me dando as intruções em francês. Como se fosse um preparativo para o estágio que farei em novembro.

Muito bem, na sexta-feira 8, Luiz trabalhou pela manhã e conseguiu se liberar pela hora do almoço. Saímos de casa por volta dàs 14 horas, junto com nosso felino que aguentou bravamente mais de 9 horas de estrada, afinal, pegamos muito trânsito ao sair de Madri e já estava bem escuro quando chegamos pelo sudoeste da França.

A primeira boa surpresa foi ao chegar. O hotel é um casarão bem cuidado, mas com poucos quartos, acredito que a lotação não passe de umas 15 pessoas. E, acredite se quiser, estava cheio. Por isso, nos acomodaram em um chalet, logo em frente, também do hotel. Ou seja, pelo preço de uma suíte, ficamos em uma casa só nossa, com direito a salão, quarto, 2 banheiros e cozinha.

 

Chegamos tarde, pelas 23hs. Então, já não esperávamos jantar. Honestamente, tinha dúvidas se chegaríamos com alguém acordado no hotel! Na prática, estavam acordados sim e os hóspedes começando a se recolher para os quartos. Portanto, ainda nos deu tempo de pedir uma garrafa de vinho, queijos e levar para nosso chalet privado e relaxarmos da viagem antes de dormir.

 

No sábado, acordamos tarde e fomos conhecer as redondezas. O hotel serve café da manhã e jantar. No café, geralmente a gente dormia, e o almoço, aproveitávamos para circular um pouco.

 

No primeiro dia, já embarquei em um cassoulet, prato típico da região. Dando assim, início aos trabalhos gastronômicos e ao processo engordativo!

O jantar foi no hotel. Um dos proprietários nos perguntou se tínhamos alguma restrição alimentar e disse que não. Mais tarde entendemos que o chef prepara uma única opção de menu, motivo pelo qual nos perguntaram antes se havia algo que não comíamos. Esse menu inclui um amuse-bouche, uma entrada, prato principal, queijos e sobremesa. Não preciso dizer que acompanhamos com vinho, né? Uma delícia!

No restaurante, havia dois grupos de amigos, um certamente de americanos e outro que parecia de ingleses. Mais tarde ficamos sabendo que os americanos eram clientes da casa e já era o terceiro ano que voltavam.

Muito bem, acabou o jantar e sentimos uma certa movimentação no ambiente. O chef veio para o salão o outro proprietário começou a distribuir um livro com letras de músicas e o pessoal começou a se posicionar.

Como é que é? Vai rolar um karaoquê francês?

No restaurante há uma pianola, que é como um piano que você pedala e ele toca sozinho. Os proprietários tocavam e cantavam, diga-se de passagem muito bem, e a gente acompanhava!

No início, eu e minha frescura achamos que seria meio cafona e bizarro, mas a verdade é que foi ótimo! Nos divertimos para burro e cantamos quase tudo, inclusive o que não conhecíamos. O repertório ia de Besame Mucho até Les Miserables, tinha de tudo! A maioria das músicas em inglês e francês.

 

Por volta das 23hs, eles deixavam de tocar e os hóspedes iam se encaminhando aos seus aposentos.

No domingo, era o dia da nossa aula de cozinha. Sim, eu disse “nossa”! Luiz se animou a fazer também! Considerando que sua especialidade é pipoca de micro ondas e, quando casamos, ele pensava que o leite nascia na geladeira… fazer aula com um chef na França é um feito herculano! Um certo amigo nos recomendou cuidado para que ele não queimasse a água!

 

Pelas 11 da manhã, nos encontramos com o chef, havia mais um hóspede, francês de Toulouse, que se interessou em fazer o curso. Consiste em preparar uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Ao final, sentamos e almoçamos a comida que nós mesmos preparamos.

Entre nós, essa era a maior preocupação do Luiz. Cozinhar, tudo bem, mas comer o que ele ia preparar… era outra coisa!

Vou logo quebrando o suspense e avisando que ele mandou muito bem, fato que me encheu de orgulho! E dito isso, conto o que fizemos.

A entrada foi um Crumble des Tomates; o prato principal um frango recheado com queijo de cabra, pinholes e figos; e a sobremesa uma Tarte Tatin aux Epices. Assim que tiver um tempinho, dou as receitas por aqui.

Crumble de Tomates
Poulet Farci Aux Figues et Fromages de Chevre
Tarte Tatin aux Epices

 

No final, almoçamos todos juntos e foi bem divertido. Na minha opinião, ficou tudo uma delícia. São receitas simples, que podem ser preparadas com antecedência e fazem vista.

Ainda que devo admitir que o impagável foi ver o Luiz de avental mandando ver na cozinha!

 

Foi quando ficamos sabendo que não seria servido o jantar, porque o chef fazia aniversário e comemoraria com seus amigos essa noite no hotel. Sem problemas, já estava pensando onde jantaríamos, quando fomos convidados a participar! Ou seja, domingo ainda fomos de “bicão” a uma festa de aniversário!

Na segunda-feira, fomos passear em Toulouse, almoçamos por lá. A cidade é bem simpática e tem um centro bonitinho. Comemos bem, sem grandes frescuras, mas ingredientes bastante frescos.

Na volta para o hotel, esticamos até Revel e algumas cidades minúsculas ao redor de Cuq Toulza. Mas não animamos muito a caminhar, porque começou a chover. Resolvemos morgar pelo hotel mesmo até a hora do jantar.

Como dá para perceber, adotei novamente minha postura foie gras e passava os dias de boca aberta sendo alimentada e tomando vinho! Pergunta se reclamei.

O jantar foi no próprio hotel, bem elaborado e tudo muito gostoso. No final da refeição, nós já sabíamos do esquema e tratamos de nos posicionar rapidamente junto ao pessoal da cantoria. Quem diria que ia virar freguesa do karaoquê improvisado e amarradona!

Enfim, cantamos até quase meia noite, quando já dava vergonha de pedir mais uma música aos donos que deviam estar exaustos!

Terça-feira, acordamos um pouco mais cedo, conseguimos tomar um bom café da manhã e pé na estrada novamente! Acho que chegamos em Madri por volta das 20h, sãos e salvos. Jack um pouco de saco cheio da estrada, mas feliz da vida por voltar para casa.

Preciso dizer que adorei? Vamos combinar, para quem não tinha nada planejado, um feriado perdida no sudoeste da França, não foi nada mal.

A fábula da princesa no reino da burrocracia

Era uma vez, no reino encantado da burrocracia, uma princesa estrangeira que vivia encastelada. Sua vida não era exatamente ruim, diga-se de passagem, tinha conforto, segurança e sempre encontrava alguma maneira de se divertir.

Uma parte considerável dos amigos da corte do seu país de origem, acreditava que ela recebia uma série de privilégios reais, que nunca passaram de lenda da carochinha. Afinal de contas e de contos, em terra de cego, quem tem um olho é angustiado. Está condenado a nunca conseguir compartilhar uma experiência por inteiro. Ou de sequer quererem ouvir suas experiências, porque nada diferente poderá ser melhor.

Pelas noites, às vezes ela se fantasiava de plebéia e ia se misturar pelas tabernas da cidade, onde apesar do odor acre e esfumaçado, era onde podia relaxar e ser quem era de verdade. Descobriu que nem era a única princesa, havia várias. Além do mais, entre princesas e plebéias, estrangeiros e nativos nem existia tanta diferença assim. Por algum motivo misterioso, quando o sol se punha, todos se pareciam muito. Talvez fossem as harpas mágicas dos druídas musicais, mas essa já seria outra fábula.

De tempos em tempos, por ser estrangeira, a princesa era enviada ao Castelo de Kafka para atualizar sua documentação. Apesar da frequência com que o fazia, nunca conseguia entender o caminho, porque a cada vez o trajeto era alterado pelo gosto dos bruxos burrocráticos, que precisavam garantir suas importantes funções no reino.

Em determinada renovação de documento, a princesa foi acompanhada pela maga advogada, que também não conhecia todos os caminhos secretos, mas possuía uma lanterninha com poderes de identificar alguns atalhos.

Ao se encontrarem, a princesa reclamou que já morava no reino da burrocracia há mais de cinco anos e, portanto, era seu direito receber um visto de trabalho. A maga lhe mostrou uma circular dizendo que sim, ela tinha esse direito e perguntou se ela queria uma cópia desse papel.

A princesa teve vontade de sugerir um local para que o tal papel fosse introduzido, mas era muito educada e a maga muito simpática. Se restringiu a dizer que uma circular não tem efeito nenhum enquanto em seu documento estivesse escrito que não a autorizava trabalhar.

A maga concordou que era absurdo e que o reino provavelmente fizesse de propósito, pois era uma maneira de fazer que os estrangeiros ficassem como cachorros,  correndo atrás dos próprios rabos.

Perfeito maga, e o que fazemos então? Porque isso é inaceitável!

A maga se lembrou que tinha um amigo bruxo, muito simpático e acessível (para ela), entrou por um atalho e foi com a princesa conversar com ele. Expôs a situação a ele, que concordou com o fato da princesa poder trabalhar, pelo tempo que levava no reino. Inclusive, citou a mesma circular que a maga havia comentado. A princesa repetiu que o papel não adiantava muito enquanto constasse em seu documento por escrito que ela não podia trabalhar.

O bruxo concordou, e admitiu que realmente muitos outros nobres estrangeiros encontravam esse problema. A princesa novamente teve pensamentos em linguagens inapropriadas à sua educação. A maga perguntou se, nesse caso, não era possível remover a maldita frase do documento, já que era um direito comprovado da princesa. Ele respondeu que sim, entrou no seu computador mágico e removeu a frase apertando um botão de deletar com seus dedos mágicos! Piscou para a maga, fez meia dúzia de brincadeiras e assim, em minutos, a situação foi resolvida.

A princesa ficou pasma! Por um lado, radiante por finalmente, após cinco anos de perrengue, resolver seu problema, ter um mínimo de dignidade cidadã restaurada. Por outro, revoltada em saber que tudo que vem enfrentando seguia regras tão rígidas que eram capazes de serem alteradas, manualmente, com um botão apertado por um bruxo, que na hierarquia dos bruxos, nem estava em um nível tão alto assim.

Como a princesa não era idiota, ela não poderia ser feliz para sempre, mas seria feliz. E sabendo que essa história se não for ilegal é imoral, era melhor que virasse uma fábula.

Novidades na província!

Semana passada foi intensa! Na verdade, nem posso dizer que foi toda a semana, porque quase tudo se concentrou na quinta-feira. Então, vou cortar o blá blá blá e vamos direto ao assunto.

Foi assim, acordei pelas oito da matina, com Luiz sussurrando: sua cidadania espanhola foi aceita, achei que valia a pena te acordar!

Hein?! (meu cérebro pela manhã é próximo ao de um macaco filhote)

Quase todos os dias ele checava pela internet o status dos nossos processos. O dele foi aprovado há um par de semanas atrás e estávamos na espectativa do que aconteceria com o meu. Em teoria, seria a mesma coisa, mas já me sacanearam tanto com documentação nesse país que sou gata escaldadíssima! Achei mais prudente aguardar.

Finalmente, no dia 22 de setembro, mais ou menos dois anos depois de iniciarmos o processo, a minha cidadania foi aprovada!

Fiquei brincando dizendo, bem que achei que hoje acordei con una mala leche… joder… é que já era espanhola!

Muita calma nesse momento, isso quer dizer que ainda temos que jurar bandeira, tirar certidão de nascimento e só depois poderemos tirar o DNI (carteira de identidade espanhola) e o passaporte. Ou seja, vai mais um ano de burocracia, mas dessa vez sabemos que a resposta é sim. É outro ânimo!

Voltando à quinta, claro que comecei a quicar na cama e levantei logo em seguida, sem nem acreditar! Doida para ligar para meus pais, mas ainda era muito cedo no Brasil. Não sabia se contava para alguém, se devia ficar quieta, acho que precisava de um tempo para realizar que era verdade antes de divulgar.

Ainda pela manhã, me ligaram da ótica, seus óculos ficaram prontos! Pois é, agora eu uso óculos! Usei óculos por uns 4 anos, quando era garota, talvez entre os 7 e 11 anos, por aí. Mas o problema regrediu e, até o momento, ia muito bem obrigada. De repente, não mais que de repente, minha vista esquerda começou a piorar e ficar bastante incômodo para ler e usar o computador. No início da semana, quando caminhávamos pela rua, Luiz me arrastou para uma ótica (os exames aqui são feitos em uma ótica normalmente) e constatamos que sim, precisava de óculos! Os quarenta sempre mandam a conta em algum momento!

Tudo bem, nem cheguei a me estressar, escolhi um óculos bem estiloso, fico com cara de professora intelectual! Achei curioso no mesmo dia em que a cidadania foi aprovada, também mudar meu visual. Teve gostinho de ritual de passagem.

Cara de inteligente!

 

Para completar, meu amigo francês me confirmou o estágio em Paris. E se nada mudar, isola, devo começar em 15 de novembro a trabalhar com um chef na área de catering.

Enquanto isso, na sala de justiça, toco a estudar francês! Peguei uns livros fáceis de ler também, para dar uma praticada. Estou bastante empolgada e agora tenho que escrever rápido porque preciso terminar meu dever de casa! Fui!

Bolo de caneca

Essas são daquelas receitas que a gente recebe por internet e, para ser sincera, não conheço a fonte original, único motivo pelo qual não atribuo os merecidos créditos.

De qualquer maneira, acho que compensa repassar, pois são fáceis e rápidas.

BOLO NA CANECA E NO MICROONDAS 

Você bate os ingredientes na própria caneca com um garfo e põe no micro-ondas por 3 minutos. A massa crua é mais mole que a de um bolo normal mas é assim mesmo. Não aumente a farinha ou terá um bolo duro.
 
Bolo de caneca
Você prepara na própria caneca que irá consumir e em apenas 3 minutos no micro-ondas.

Ingredientes:
– 1 ovo pequeno
– 4 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 2 colheres (sopa) rasas de chocolate em pó
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (café) rasa de fermento em pó
Modo de Preparo: Coloque o ovo na caneca e bata bem com um garfo.
– Acrescente o óleo, o açúcar, o leite, o chocolate e bata mais.
– Acrescente a farinha e o fermento e mexa delicadamente até encorpar.
– Leve por 3 minutos no microondas na potência máxima.
 
Dicas: A caneca deve ter capacidade de 300 ml.
– A medida de colher é sempre rasa.
– Você pode servir este bolo com coberturas, caldas, castanhas e sorvete. E pode comer quente.
 
 BOLO DE CHOCOLATE NA CANECA
(Rende 2 porções)

– 2 canecas com capacidade de 150 ml
– 1 gema
– 6 colheres (sopa) de leite condensado
– 1 colher (sopa) de manteiga 
– 1 colher (sopa) de leite
– 2 colheres (sopa) de chocolate em pó
– 5 colheres (sopa) de farinha de trigo peneirada
– 1 colher (café) de fermento químico
– 1 clara batida em neve

Cobertura: Leite condensado misturado com chocolate em pó a gosto
Em uma tigela ponha a gema, o leite condensado, a manteiga, o leite e o chocolate em pó. Bata com batedor de arame vigorosamente por três minutos. Acrescente a farinha de trigo e o fermento, e misture bem. Junte a clara em neve e incorpore à mistura, mexendo com delicadeza. Distribua nas canecas e asse por 25 minutos, a 180 graus em forno preaquecido. Se preferir, asse-o em forno micro-ondas. Nesse caso, apenas 3 minutos em potência máxima bastam. Retire do forno e, enquanto ainda estiver quente, faça alguns furos com um palito e despeje o leite condensado misturado com o chocolate. Decore como quiser.
 

BOLO DE LARANJA NA CANECA
(Rende 1 porção)
 
– 1 ovo
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 4 colheres (sopa) de suco de laranja
– 5 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (café) de fermento químico

Cobertura
– 2 colheres (sopa) açúcar de confeiteiro
– 3 colheres (chá) de suco de laranja
Coloque o ovo na caneca e bata com o garfo. Adicione o óleo, o açúcar e o suco de laranja e misture. Agregue a farinha, o fermento e misture até uniformizar. Leve por três minutos ao micro-ondas em potência máxima. 
Modo de fazer : Junte tudo e cubra o bolo.
Dica: Vale trocar o suco de laranja pelo de limão. Mas, para essa substituição, em vez de 4 colheres (sopa) do sumo da laranja, use 2 colheres (sopa) do limão, pois o sabor é mais acentuado.
 

BOLO DE LEITE DE CÔCO NA CANECA
(Rende 1 porção)
 
– 1 ovo
– 2 colheres (sopa) de leite de coco
– 2 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 5 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (sopa) rasa de coco ralado
– 1 colher (café) de fermento químico

Cobertura
– 2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro
– 3 colheres (chá) de leite de côco
– Côco ralado
Despeje o ovo inteiro na caneca e bata. Em seguida, junte o óleo, o açúcar, o leite de coco e misture bem. Acrescente a farinha, o fermento e mexa até a massa ficar uniforme. Leve por três minutos ao microondas na potência máxima. Cubra o bolo e polvilhe coco ralado.
Dica: Depois de preparar a massa, passe manteiga e polvilhe farinha em outra caneca e despeje a massa. Assim, o doce não gruda e não quebra ao desenformar.
 

BOLO DE FUBÁ COM GOIABADA NA CANECA
(Rende 1 porção)
 
– 1 ovo
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 4 colheres (sopa) de leite
– 2 colheres (sopa) rasas de fubá
– 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (café) de fermento em pó

Cobertura
– 2 colheres (sopa) de goiabada
– 1 colher (sopa) de água
Derrame o ovo na caneca e bata com o garfo. Acrescente o óleo, o açúcar, o leite e o fubá e misture. Coloque a farinha de trigo e o fermento e mexa até dar o ponto. Leve por três minutos no microondas em potência máxima. 
Modo de fazer: Pique a goiabada, junte a água e ponha no microondas por um minuto. Espalhe sobre o bolo.
Dica: Em vez de goiabada, cubra o doce com geléias de sabores diferentes.  

 

BOLO DE CENOURA DE CANECA

Ingredientes
– 1 cenoura pequena
– 1 ovo
– 3 colheres de sopa de óleo de milho
– 1 pitada de sal
– 3 colheres de açúcar.
– 4 colheres de sopa rasa de trigo

Cobertura
– 1 colher de Nescau
– 1/2 colher de manteiga
– 1 colher de açúcar
– 1 colher de leite
Modo de preparo: Raspe a cenoura e corte em pedaços pequenos, coloque no processador, junto com o óleo e o ovo.. bate até a cenoura ficar bem triturada. Coloque na caneca, o trigo, o açúcar e o fermento , junte a cenoura batida e misture bem.. Meu micro-ondas é antigo.. acho que mais forte.. 2 minutos foi o tempo exato.
Cobertura: Misture tudo numa xicara de chá e leve ao micro-ondas por 40 seg. retire, bata bem deixe esfriar e cubra o bolo.

 

CANECA DE PÃO DE QUEIJO

 
– 1 ovo pequeno
– 4 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 1 pitada de sal
– 4 colheres (sopa) de queijo parmesão ralado
– 4  colheres (sopa) de polvilho azedo
– 1 colher (café) de fermento em pó           
– margarina para untar
Modo de preparo: Bata todos os ingredientes no liquidificador, e unte a caneca com margarina, coloque esta mistura até a metade da altura da caneca e leve no microondas por 3 minutos em potência media retire e polvilhe o queijo parmesão para decorar.
Rendimento: 2 canecas

 

CANECA DE BOLO SALGADO
– 1 ovo pequeno
– 4 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) óleo
– 4 colheres (sopa) de farinha de trigo
– 1 colher (café) de fermento em pó
– 1 pitada de sal
– 1 fatia de queijo mozzarella
– 1 fatia de peito de peru
– ½ tomate picado sem semente
– orégano e queijo parmesão para decorar

 

Modo de preparo: Misture todos os ingredientes menos a decoração numa caneca de 300 ml, misture bem e leve no microondas em potência alta por 3 minutos e decore com orégano e queijo parmesão e folhas de salsinha.
Rendimento: 1 caneca

 

CANECA DE PUDIM DE LEITE CONDENSADO
– 1 lata de leite condensado
– 1 e ½ lata de leite
– 3 ovos
– gotas de baunilha para perfumar

Calda: 6 colheres (de sopa) de açúcar ; 6 colheres(de sopa) de água
Modo de preparo: Em um recipiente misture os ingredientes do pudim (pode ser manual ou no liquidificador) misture bem os ingredientes e reserve. Para calda coloque o açúcar e água, leve ao microondas por 3 minutos em potência alta, coloque a calda na caneca e coloque a mistura na metade da caneca, faça isso em 4 canecas, leve uma de cada vez ao microondas por 3 minutos em potência alta. Decore com um pouco de calda.
Rendimento: 4 canecas

CANECA DE PETIT GATEAU
– ¾ lata de leite condensado
– ¾ caixa de creme de leite
– 3 ovos pequenos
– ½ lata de chocolate em pó
– 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
– 1 colher (café) bem rasa de fermento em pó
– margarina para untar

Ganache:
– 100 g de chocolate ao leite
– 70 ml de creme de leite
– 1 saco de confeitar descartável

Decoração:
– 4 bolas de sorvete
– folhas de hortelã e calda de chocolate

Modo de preparo: Bata  todos os ingredientes em um liquidificador, coloque a mistura ate a metade da altura da caneca, já untada com margarina, e com o saco de confeitar coloque no meio da massa crua um pouco do ganache, leve ao microondas por 3 minutos, sirva com uma bola de sorvete de creme e folhas de hortelã.
Rendimento: 4 canecas

Aula de francês em Madri

Ontem foi minha primeira aula particular de francês. Gostei.

Em princípio, queria fazer em casa mesmo, já que é o mesmo preço. Entretanto, agora para setembro não daria tempo de se agendarem. Como não queria perder nem mais um dia, topei fazer na própria Aliança Francesa, em um horário também um pouco mais tarde que o solicitado.

Às vezes é bom dar uma chance ao caos, porque para ser sincera, até que gostei de ir até lá, me força a sair de casa e ir com a cabeça voltada para isso. É possível que acabe seguindo esse mesmo horário que era provisório.

Desde fevereiro que não falo uma palavra em francês, não tenho com quem praticar. Falar sozinha como uma doida em conversas imaginárias é meio bizarro, então, fui perdendo a fluência. Cheguei a pensar que havia perdido tudo, o que dá um pouco de desânimo, mas não é meu primeiro idioma aprendido, já sei que assim que a gente esquenta os motores, começa a vir de algum lugar escondido no cérebro e você fala.

Então, lá fui eu e minha cara de pau para a aula. O professor é do sul da frança, um sotaque mais claro que o parisiense, melhor para quem está aprendendo, eu acho. Minha primeira impressão foi boa, pareceu simpático e seguro.

Começamos a conversa em espanhol, para explicar o que estava pensando, porque queria ter as aulas, se ele poderia dar um enfoque no vocabulário relacionado à gastronomia etc. Ele me fez uma proposta de como conduzir o curso, falou sobre o método dele e senti firmeza.

Não deixava de ser engraçado, considerando que sou brasileira, ele francês e estávamos nos entendendo em espanhol, para ter aulas de francês em Madri. Mais estranho ficou quando pedi para ele ligar o ar condicionado e ele teve dúvidas porque o comando estava em inglês, e eu traduzi. Que babel!

Muito bem, a partir daí ele me disse para seguirmos em francês, até para ele avaliar em que nível estava.

Olha, é o seguinte, uma coisa que já entubei há anos é não ter vergonha de falar errado. Porque pior é ficar travada resistindo e não falar nada. Sendo assim, j’engatê la primerrá e saí tentando falar o melhor possível. Obviamente, algumas palavras eu invento no caminho, mas modéstia às favas, até que saiu mais natural do que imaginava.

Ele me deu uma animada dizendo que estava falando bem, havia um ou outro erro que ele foi me corrigindo e chamando atenção. Mas o importante é que conseguia me comunicar e me fazer entender, se não por um caminho, por outro.

Beleza, então vamos nessa!

Achei legal que ele também começou a me passar vocabulário de cozinha, como nomes de panelas diferentes, por exemplo. Não precisamos falar só sobre isso, mas é uma área importante para mim.

Saí da aula toda empolgada. Por um lado por ter gostado, mas principalmente por ter começado a fazer alguma coisa nesse sentido, dado mais um passo. Faz nossas metas parecerem mais reais. Se elas serão alcançadas é outra história, mas detesto improvisar, principalmente quando não preciso. Estou pleiteando um estágio em uma área onde nunca trabalhei antes, em outro país e com a barreira da língua. Se puder pelo menos amenizar algum desses pontos, muito melhor, né?

Pois que assim seja, vamos ver como evolui e depois eu conto.

Bon courage!

Santa echinácea!

Quando temos animais por algum tempo, parece que vamos desenvolvendo um tipo de instinto de bicho. Rola uma certa simbiose que às vezes chega a ser engraçada, seu animal fica um pouco parecido com você e vice-versa.

Entendemos sua língua, seus sinais e seus hábitos. Bom, também pode ser um estágio de loucura, mas hoje vou fazer de conta que é só poder de observação. É um pouco como mãe de bebê muito novo, que aprende os sons e significados diferentes que cada choro quer dizer: fome, dor, manha, sono…

A gente aprende a distinguir sintomas por maneira indiretas. Nem sempre é pelo que não está bem, pode ser pelo que não está igual. Pode ser por coisas que ele faz ou pelo que ele deixa de fazer.

Minha gata, a que morreu, tinha uma maneira muito especial de me avisar quando tinha uma infecção urinária, fazia xixi fora da caixa de areia, bem do meu lado. Mesmo que isso fosse na nossa cama… Bastante desagradável, mas vamos combinar, uma maneira bem inteligente e direta, quase apontando para a raiz do problema. Gatos são limpíssimos, pelo menos os meus nunca fazem absolutamente nada fora da caixa, ou seja, era um sinal claríssimo que alguma coisa estava errada. Nos seus últimos meses, com a asma acelerada, precisava tomar injeções de tempos em tempos e era melhor adiar o máximo possível. Aprendi a notar quando sua respiração mudava, a escutar seus pulmões com a orelha colada na sua barriga e, pode acreditar, chegava a cheirá-la, como se fosse felina também. Concordo que a parte de cheirar era meio absurda, mas era absolutamente instintivo.

Jack é saudável, mas é um senhor de quase 11 anos, bastante para um gato, principalmente gordinho como o nosso. Bom, pelo menos me diziam que com seu peso provavelmente tivesse uma vida mais curta. Nós optamos que ele fosse feliz, que comesse o quanto quisesse. E verdade seja dita, seu peso nunca me preocupou, porque ele não engordou de repente, ele sempre foi assim, desde filhote é grande e guloso. Acontece que seu peso é estável, ele não continua engordando, o que para mim significa que esse é seu peso ideal. Eu gosto dele gordo. Francamente, como é que um gato meu seria mal alimentado? Mas nunquinha!

Não notava nada que pudesse significar que tinha algum problema de saúde. Estava comendo normalmente, intestinos funcionando igual, a locomoção diminuiu com a idade, mas sem nenhum sinal de dor. Acontece que tinha uma coisa que me incomodava, que parecia estar faltando. Jack estava menos pateta.

Ele é nosso pateta feliz, essa é uma das suas principais características. Ele é meio bobão, brincalhão como um filhote e está sempre feliz. De uns tempos para cá, achava ele muito comportado, quieto, continuava ronronante, mas não fazia mais besteiras. Achei que podia ser da idade, mas sabe quando alguma coisa não bate?

Queria dar uma injeção de ânimo nele! Em casa, quando acho que precisamos de mudanças, mudo nossa alimentação, incluo ingredientes que funcionam para aumentar a endorfina ou algum tipo de vitamina específica. Mas como fazer isso com um gato? Quer saber, Jack, você vai entrar na homeopatia, vamos aumentar sua resistência!

Comprei echinácea, que é uma planta considerada antibiótico natural. Vem em cápsulas de 250 mg, em pó. Até onde pesquisei, não achei contra indicação, é um produto natural. Divido a quantidade por três e misturo esse pó com uma colher de chá de patê A&D, da Hills. Ele nunca gosta de nada da Hills, mas esse patê é imbatível! Há mais ou menos um mês ele toma essa mistureba uma vez ao dia, na hora que vou, digo, vamos (eu e Jack) tomar nosso café da manhã.

Olha, não posso garantir que foi por isso, mas de uma semana para cá, começo a notar diferença no seu comportamento. Voltou a ser um pateta, doido para fazer uma besteira! Corre pela casa, mia para as pombas na janela, voltou a fazer perseguições imaginárias a seus ratinhos de brinquedo, sobe em lugares mais complicados e hoje cismou que estava na hora de me acordar de qualquer maneira, com direito a pata na cara e bigodes fazendo cosquinha no meu nariz.

Até um tipo de cisto sebáceo, que estava em seu rabo, estourou sozinho. Pode ser seu corpo reagindo.

Pelo sim e pelo não, echinácea nele!

Entre mais altos que baixos, vamos seguindo

Na terça-feira, acordei com a corda toda, naqueles dias que você está cheia de bom humor e energia. Pensei, perfeito, preciso fazer duas coisas muito importantes hoje, me matricular no pilates e no francês.

Para mim, uma coisa dificilmente é uma só, são pontas que se unem. Já há algum tempo me preparo para um ciclo novo e preciso fazer alguma coisa para que ele siga seu curso.

Preciso cuidar melhor do meu corpo, a gente pode chamar de saúde, de vaidade, do que quiser, mas cada vez tomo mais consciência que tudo cobra seu preço e quanto melhor me cuidar agora, menor sofrimento depois. Digo menor, porque que ele virá, virá, mas pode ser amenizado e razoável.

Quero entrar no pilates há séculos, mas sempre tem algo que atrapalha, uma viagem, o preço, o local, o mês errado… chega! Achei um bom centro a 5 minutos da nossa casa. Não tem milagre, é caro. Paciência, eu que tome menos vinho! Já fiz a matrícula no mesmo dia que pedi as informações, porque se trago o folheto para casa, os problemas iam continuar aparecendo. Assim não tinha desculpa.

De lá mesmo, segui para a Aliança Francesa, para me informar sobre as aulas. O curso só iniciaria em outubro, o que me faria perder um mês. Então, decidi começar o mais rápido possível com aulas particulares.

O que acontece é que estou tentando fazer um estágio com um chef em Paris. Em princípio, meu amigo francês está me ajudando a conseguir alguma coisa a partir de meados de novembro. Não sei se vamos conseguir, se vai dar certo e blá, blá, blá. Mas nunca tenho certeza de nada mesmo, então, pelo sim e pelo não, resolvi me preparar de toda maneira. Na pior das hipóteses, melhoro em um dos idiomas e tenho um plano.

Ter planos é fundamental.

Voltei toda animada para casa, feliz por estar tomando algum rumo que se parecesse à normalidade, um gostinho de rotina temporária. Senti um calafrio, porque reconheci a sensação que tive em Atlanta, quando voltava serena de um supermercado, pensando que poderia me adaptar ali. Nessa mesma noite, descobrimos que tinha dado uma merda generalizada na empresa e que provavelmente não ficaríamos mais no país, e isso com nossa mudança no meio do oceano. Mas essa foi outra história que já contei aqui em algum lugar. O que importa dizer agora é que aprendi a reconhecer essa calmaria antes da tempestade.

Felizmente, também aprendi a disfrutar da calmaria até o último minuto. Porque tempestades dão e passam.

Estava tão contente na terça, que nem me dei conta que não havia tido nenhuma notícia do Brasil naquele dia. Depois estava meio ocupada com os preparativos da feijoada, me toma uma semana de trabalho.

Na quarta-feira, procurei minha mãe pelo MSN para contar as novidades. Quando achei, ela me escreveu que ia me ligar. A gente sempre se escreve, porque é muito mais prático e sai mais em conta, a gente fala pouco por telefone, só quando é muita coisa para explicar.  “Vou te ligar”, tradução: deu merda! Chegou a tempestade.

Resumindo a ópera, os pontos da barriga do meu pai estouraram em casa. Ele precisou voltar para o hospital e colocar um tipo de tela, porque só a pele não estava aturando. Ficou internado até domingo. Não é que tenha sido grave, mas é difícil de ver, sai muito sangue e minha mãe perdeu o controle, estava bastante fragilizada. Por sorte, meu irmão estava em casa e ajudou a segurar a barra. É uma porrada atrás da outra e isso vai minando a resistência das pessoas. A minha também. Fiquei mal porque me pegou meio vulnerável, tinha baixado um pouco a guarda quando a gente descobriu que ele não tinha outro tumor. Perguntei se ela queria que eu voltasse ao Brasil, mas ela falou que não era necessário, que ele já estava bem.

Fiquei na dúvida se deveria adiar a feijoada do Luiz. Ao mesmo tempo, o esquema estava todo montado, as camisetas estavam prontas, as carnes descongeladas, as bebidas compradas… e aí, o que faço? Como é que vou cozinhar assim? E logo feijoada, vou salgar essa bosta toda, cassilda! Por outro lado, a maior expectativa gerada, se adio agora, claro que todo mundo entende, mas só vai atrair uruca e pena. Não é disso que a gente precisa.

Então, entre uma choradinha e outra, achei mais produtivo melhorar a cara e tocar o barco. Agradecimento especial ao Martinho da Vila e ao Arranco de Varsóvia que não saiu do som, acho que o CD até gastou na música dizendo que “a vida vai melhorar”. Pois melhorou. Acho que cada um tem sua maneira de rezar, a minha é bem esquisita. Talvez tenha fé no otimismo.

Na quinta-feira, minha primeira aula de pilates. Cheguei com um pouco de vergonha de quem não tem muita idéia do que se trata, mas achei que não seria prudente ir dizendo logo de cara que queria ficar igual a Madonna. Fui preparada psicologicamente para não me afetar caso pegasse uma professora antipática e grosseira, o que não aconteceu. Na verdade, ela foi bem atenciosa e gentil, o que ajuda muito.

Não parece nada você se exercitar deitada, ainda que a tal cama pareça um objeto medieval de torturas. Acontece que se exercita e eu gostei. Vou voltar.

Cheguei em casa mais animadinha e Luiz me diz que tínhamos uma reunião no apartamento de uma amiga do trabalho, para fazer e tomar caipirinhas, lembra? Claro que não lembro. Achei que era só um comentário, não havia entendido que era um compromisso marcado e não tinha a mais remota vontade de encontrar ninguém. Mas era o pessoal do trabalho dele e isso para mim, entra na categoria “trabalho-tem-que-ir-e-fazer-seu-papel”.

Foi bom ter ido, no final das contas, o pessoal era bem legal, foi descontraído e divertido, funcionou para espairecer e pensar em outras coisas. Além do mais, ela tem uma terraza ótima e a temperatura estava perfeita. Eu realmente devo estar ficando velha, porque a temperatura agora me afeta diretamente o  humor. Engraçado que já nem é um assunto coringa para evitar momentos de silêncio constrangedor, passei a gostar de conversar sobre o tempo.

Enfim, aproveitei a maré de relaxamento e quando cheguei em casa, fui cozinhar e adiantar algumas coisas para sábado.

Na sexta-feira, acordei com a campainha, era a senhora vizinha de baixo. Havia um vazamento no apartamento dela e precisava entrar em contato com o proprietário. Não estou acreditando que isso está acontecendo hoje! Nas vésperas de ter quase 40 pessoas em casa, tudo que eu preciso é de um banheiro interditado e uma vizinha aborrecida! Respira fundo! Ahummmmm…

Falei com o proprietário, que por sorte é um amigo e super gentil. No mesmo dia ele enviou o responsável pela obra, que tratou de acertar o problema imediatamente, enquanto eu seguia enlouquecida na cozinha.

Vamos complicar um pouquinho mais? Levantei com a maior dor nas costas, parecia muscular e não um problema de verdade, mas era bem incômodo. O resto da musculatura não estava dolorida. Pensei que eu era uma zebra em começar a ginástica um dia antes do pico de trabalho para a feijuca, mas já era. Tratei de colocar a cinta na coluna, para não piorar e fui mandar a pera no fogão.

Não sei que raio fiz que o fogão pirolítico total começou a acender todas as luzezinhas ao mesmo tempo e não havia cão que o fizesse sair do loop e ligar. Nem sei se fiz realmente alguma coisa, porque quando fico agitada parece que a energia sai pelas mãos e toco a pifar coisas! Pensa, Bianca, é um equipamento eletrônico! Fui na chave geral, desliguei e religuei toda a energia da casa (afinal, não sei qual é a chave específica do fogão). Acredite se quiser, funcionou!

Muito bem, vamos começar outra vez! Quando os operários foram embora, pelo menos, podia cantar sozinha como uma louca! Logo fui entrando em automático e me convertendo na polva de sempre.

Quando o fuso permitiu, falei com meus pais, como todos os dias, e as coisas corriam no seu curso. Ele deveria deixar o hospital pelo domingo, ainda que minha mãe preferisse que ele ficasse um pouco mais. Não posso dizer que fiquei tranquila, não estou até agora, mas também não havia nenhum perigo iminente.

Comecei a arrumar a casa, mas preferi esperar o Luiz chegar para me ajudar, porque fiquei com medo de piorar as costas. A gente faz uma revolução para abrir espaço e tornar o ambiente mais prático.

Pelas tantas, fui dormir com tudo encaminhado. Arroz, couve de mentira, farofa, laranja, vinagrete, carne seca desfiada, calabresa acebolada, tudo de direito! Só faltava refogar o feijão, que já estava pronto curtindo as carnes, mas é que o refogadinho gosto que seja na hora. No dia seguinte, o Luiz só precisava pegar o bolo encomendado, pão e gelo.

Uma coisa curiosa, há duas regras de festa que nunca batem com as nossas. A primeira delas é aquela história de marcar um horário antes do desejado, porque as pessoas vão atrasar; a outra é chamar uns 10% a mais de convidados porque alguém sempre falta. Considerando que a feijuca estava marcada para às 15hs, com uns 30 convidados em mente e o primeiro dos 38 amigos presentes chegou às 14:30hs… cada um que tire suas conclusões. Só digo que não nos surpreendeu, a gente conhece o esquema e para mim, quanto antes comece, melhor!

Verdade que pelas 14hs, Luiz postou uma foto da feijoada no facebook, coisa que deve ter sugerido a galera que  não se atrasasse porque a coisa ia a sério.

 

Quem está na chuva, é para se queimar, já dizia Vicente Mateus. E já acompanhei logo o primeiro convidado na cachacinha pura, envelhecida como deve ser.

 

O único momento de preocupação para mim é na hora de esquentar a feijoada, porque preciso tomar muito cuidado para não pegar no fundo e, ao mesmo tempo, garantir que tudo chegue quente à mesa. Não é uma tarefa simples se você não está em uma cozinha industrial. E, nesse caso, ajuda é pior, a probabilidade que eu queime alguma coisa é imensa, viro um bulldog antipático e rosno se alguém chegar perto! Não quero nem papo!

 

Fora esse momento de tensão, o resto, aproveito tudo! Chuto o pau da barraca mesmo, é todo mundo de casa! E na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba…

Rolou uma batucadinha para animar. Não foi a mesma coisa sem nosso amigo músico puxador oficial das canções, que voltou para o Brasil. Mas deu para a gente se divertir. Sabe que, às vezes, quando rola aquele coro de vozes cantando junto, bate até uma emoção! E agora sei quantas pessoas cabem na sala (ou espalhadas pelo apartamento).

 

Houve uma certa rotatividade, teve gente que foi mais cedo, gente que chegou mais tarde, gente que foi e voltou… Pelas tantas, fui fazer mais arroz com duas amigas e começamos outra vez!

Não tenho idéia de que horas acabou, todos os relógios da casa piscavam porque a luz caiu um par de vezes. Só sei que não tive condições de fazer absolutamente nada! Costumo ajudar o Luiz com a arrumação da casa, porque só vamos dormir com as coisas organizadas, mas dessa vez, capotei!

Pela manhã, escutei uma esfregação para lá e para cá e achei que era melhor ficar bem quietinha, me fazendo de morta, coisa que nem foi difícil, já que estava mortinha mesmo! Quando me atrevi a levantar, a casa estava limpa e cheirosa, nem parecia que havia passado um tufão no dia anterior.

Ressaca zero! Nem acreditei, só agradeci! Assim que consegui juntar cré com lé, liguei para o Brasil e meu pai tinha recebido alta. Menos uma encrenca! Ufa!

Ficamos sossegados o resto do domingo. Saímos para jantar aqui perto, abriu um brasileiro novo na Calle Santa Brígida e fomos lá conferir. Aproveitamos e descemos com o resto do lixo, garrafas etc. Missão cumprida!

E, a propósito, não salguei a comida. Atrevo-me a dizer que foi uma das melhores feijoadas que fiz! Aos amigos que não puderam vir, sinto de verdade, não é falta de carinho, é falta de espaço mesmo. E os que vieram, definitivamente, trouxeram um astral perfeito e deixaram a casa muito mais feliz.

A tal da ração humana

Nessa última ida ao Brasil, estávamos de carro com um amigo, quando olho para o lado e vejo uma vitrine com o seguinte cartaz: temos ração humana.

Hein?! Agora entre as tribos paulistanas se encontraria alguma de canibais?

Não entendi nada, mas como Luiz e meu amigo continuavam conversando como se nada parece realmente anormal, deixei para lá.

Uns dois dias depois, recebo um e-mail de uma amiga de Madri, me pedindo se era possível levar para ela ração humana! Como assim? Isso está me perseguindo!

Enfim, foi ela quem me disse que se tratava de um tipo de dieta “da moda”… e que a irmã dela já tinha perdido uns 9 kg! Mulherada, vamos combinar, para perder 9 kg a gente come até cocô em pó, fala sério!

Bom, fiquei interessada, mas não achei a tal da ração para vender, nem me lembrava mais onde foi a bendita loja em que havia visto o anúncio na vitrine.

Muito bem, assim que cheguei em Madri e tive um pouco mais de tempo, resolvi investigar pela internet e achei algumas receitas caseiras. A gente mistura uma série de ingredientes ricos em fibra, tritura, e esse pó se toma com leite, iogurte ou suco. Pelo que entendi, a proposta é substituir uma ou duas refeições, dependendo de quanto peso se queira perder, por essa bebida turbinada. A idéia é que toda essa fibra vá mudando um pouco seu metabolismo, de maneira que seu intestino funciona melhor e o corpo absorve menos gordura. Além do mais, ao substituir uma refeição, você também estará diminuindo as calorias consumidas.

Olha, a essa altura do campeonato, não custa tentar, Luiz e eu resolvemos dar uma chance para a tal da ração. Começamos a tomá-la no café-da-manhã, e no jantar durante a semana. Fim de semana é liberado. Luiz toma com leite integral, tomo com leite semi-desnatado ou iogurte. No jantar, além da ração, como uma salada e alguma proteína magra. Luiz toma só a ração. Almoço normal, procurando não abusar durante a semana.

Em princípio, me pareceu prático e o sabor é bom, neutro com um toque de aveia ou castanha. Vamos ver com o tempo se funciona mesmo e depois conto por aqui se a gente deu conta.

Adaptei a receita para os ingredientes que encontro por essas bandas, e para quem também quiser tentar, segue abaixo:

Ingredientes: (todas as colheres são de sopa)

–         5 colheres de farelo de aveia

–         5 colheres de farelo de trigo

–         5 colheres de gérmen de trigo

–         5 colheres de lecitina de soja

–         3 colheres de quinua em flocos

–         1 colher de levedo de cerveja

–         1 colher de castanha-do-pará

–         1 colher de amêndoas

–         1 colher de semente de gergelim

–         1 colher de semente de linhaça

–         1 colher de gelatina natural

Bater todos os ingredientes juntos no liquidificador e guardar em um pote na geladeira. Essa quantidade nos dá para mais ou menos 5 dias, vai depender de quantas vezes ao dia se consuma. Se aconselha a não guardar essa mistura por mais de 10 dias. Melhor fazer fresco semanalmente.

Tomar entre uma e duas colheres de sopa, misturadas ao leite de vaca (de preferência desnatado), leite de soja, iogurte ou suco natural.

Eu não usei, mas algumas receitas também incluem o guaraná em pó, que de manhã deve dar uma boa energia, entretanto não encontro por aqui. Se não conseguir tomar sem açucar, melhor optar pelo mascavo. E se sentir falta de um pouco de sabor para não enjoar, recomenda-se o cacau em pó.

É fundamental beber bastante água durante o dia, afinal, a fibra só funciona a seu favor quando seu organismo está bem hidratado.

Ventos de outono se anunciando

A temperatura melhorou bastante, o outono começa a colocar o nariz na porta, tentando entrar. Por mim, que seja bem vindo!

Do Rio, tive excelentes notícias da parte do meu pai. Resulta que a obstrução era nada além de pedras renais, uma bobagem que ia fazendo seu estrago. Nosso maior medo é que fosse um ou mais tumores, porque nem quero dizer o que isso significaria. Mas não era, e isso é o que importa. A parte chata é que precisou abrir um corte de uns 15 cm e ele ainda está bem dolorido. O fato é que já está em casa e dor é coisa que dá e passa.

Sendo assim, fiquei mais tranquila para ir tocando a vida.

Na sexta-feira, fomos jantar com um casal de amigos que morou aqui em Madrid no ano em que chegamos. Só para variar um pouquinho, fomos no Trifón, é claro! Preciso voltar lá de vez em quando, para confirmar que o mundo segue em seu lugar. Chutamos o pau da barraca com uma garrafa de Calvario e outra de Mauro, reserva especial. Como aperitivo de fim de noite, ganhei uma dose cavalar de Blue Label!

Na sequência, fomos ao El Junco, onde fazia séculos que não íamos em função da cigarrada a ser aspirada. Mas foi legal voltar lá, íamos muito com esses amigos por alí e não foi nada mal relembrar os velhos tempos. Depois resolvemos fazer um pouco da via crucis, de bar em bar, começando pelo Kabocla. O plano era voltar pela Calle Espiritu Santo, parando um pouco nos inferninhos, o que sempre me soa meio contraditório.

O caso é que assim que entramos no Kabocla, encontramos um amigo para lá de Marrakesh e super emotivo, porque acabava de descobrir que o pai faleceu. Putz, foi um baque! Fiquei muito triste por ele e ao mesmo tempo me tocou fundo o pensamento que poderia estar na mesma situação.

O casal de amigos que estávamos resolveu ir embora, já estavam um pouco cansados e obviamente a gente não prosseguiria na noite. Ficamos um pouco mais para dar uma força para esse amigo e logo voltamos para casa.

No sábado, o programa dos amigos era ir ao Patio Maravillas, lugar que vale uma explicação. Aqui há um movimento dos Okupas, que são pessoas que invadem locais desocupados para viver. Mais ou menos como uns sem-terra urbanos, só que não vinculados a um partido político. Normalmente, as invasões são realizadas com o único propósito de moradia e por gente em condições muito precárias. Mas em determinado momento, houve um grupo mais organizado e preparado que acabou transformando o prédio ocupado em um tipo de espaço cultural alternativo auto gestionado. Assim que nesse prédio invadido, encontramos cursos de yoga, classes de idioma ou de dança, ensaios musicais, palestras e uma série de outras atividades.

Eventualmente, também promovem algumas festas. Foi o caso desse último sábado, quando um DJ conhecido nosso estava promovendo uma festa brazuca, um projeto chamado Radio Banana. A entrada foi gratuita e só se pagava o que se consumisse no local. Não que alguém se importasse que você levasse sua própria bebida, tudo muito democrático e civilizado.

Acho que são uns quatro andares, abertos, com aquela cara de obra inacabada. O espaço para a festa foi logo no primeiro andar, um salão de pé direito alto, umas colunas de ferro e vários sofás e cadeiras que, provavelmente, foram recolhidos da rua. Até o banheiro estava funcionando e me pareceu surpreendentemente limpo, o único inconveniente é que era melhor ir acompanhada, pois no local das portas, havia cortinas de plástico.

Resumindo, gostei. É bem perto de casa e devo voltar lá outras vezes. Engraçado que tive a preocupação de sair bem documentada, afinal a polícia anda dando uma dura danada na busca de imigrantes ilegais. Diz a lenda que inclusive tem uma cota de pessoas para pegar por dia, meio sinistro, né? Pensei logo, uma festa de brazucas em um prédio invadido… claro que a polícia vai aparecer por lá. Mas não apareceu, foi tudo bastante normal. Aliás, a maioria nem era de brasileiros.

Infelizmente, outra notícia triste, o pai de mais um amigo também havia falecido. Inacreditável! Fiquei meio comovida, por razões evidentes.

No domingo, nem quis saber de rua. Tinha feito um molho a bolognesa durante a semana, daqueles que ficam horas cozinhando. Na verdade, fiz exatamente no dia que meu pai operou. Não queria sair de casa para ter notícias e acabei caçando coisas para fazer que me tomassem tempo. Ficou saboroso, mas um pouco salgado. Não tem jeito, se não estiver totalmente bem, salgo a comida, é impressionante! Ainda assim, uma amiga trouxe uma pasta fresca deliciosa e ficou para almoçar.

Acabou passando a tarde aqui em casa, acho que não estava com vontade de voltar para a dela. Então, também acabou me ajudando a dar uma limpa no quarto de hóspedes.

Desde que nos mudamos, entulhei o tal quarto com uma série de trabalhos antigos. Não tinha onde colocá-los, mas me dava pena desaparecer com eles. Cheguei a conclusão que precisava abrir espaço para o novo entrar, quando a gente se apega muito ao passado, é difícil chegar a criatividade. E assim foi, alguma coisa essa mesma amiga levou e o resto, desmontei e me desfiz.

Toda primeira terça-feira do mês, a prefeitura promove um tipo de bota fora de móveis ou trastes que você queira se desfazer e não sabe onde. Por exemplo, como você faz para jogar fora um sofá? É mais complicado que parece. Então, nesse dia, a gente faz uma limpa em casa e coloca as coisas na porta. Sempre tem uma galera que passa procurando alguma coisa que precise, algumas furgonetas que recolhem aparelhos elétrico-eletrônicos em qualquer condição ou metais que possam ser derretidos, roupas, enfim, tem de tudo. No início da madrugada, passa um caminhão da prefeitura recolhendo o que sobrou. Acho uma iniciativa bem bacana e ninguém tem vergonha de pegar as coisas que precisa na rua.

Enfim, essa terça-feira foi hoje e era o pretexto que tinha para me livrar do que estava ocupando tanto espaço em casa. Espero que desocupe espaço na minha cabeça também e deixe entrar idéias novas, frescas e melhores.

Agora comecei a escrever um livro, um projeto que venho matutando há um bom tempo, mas não me sentia preparada para escrever uma ficção. Honestamente, não sei se estou pronta, mas resolvi tentar assim mesmo e ver o que acontece. Tem sido complicado eleger uma fórmula, primeiro tentei narrar como espectadora, mas não gostei muito do resultado. Resolvi incorporar uma das personagens e redigir na primeira pessoa, como estou mais acostumada a escrever. Achei bem mais interessante, mas é bizarro ao mesmo tempo, porque não é uma biografia e a personagem que encarnei não corresponde a minha realidade. É estranho entrar em outra pele e ter que pensar e sentir como se fosse outra pessoa. Vamos ver no que dá.

Na segunda-feira, ontem, foi aniversário do Luiz. Portanto, essa semana, cozinho para um batalhão! No próximo sábado será a sua famosa feijoada. Temos menos convidados do que o ano passado, não porque queremos, mas é que o apartamento é bem menor. Não caberia todo mundo, uma pena. De qualquer forma, acho que será animado, sempre é. Eu gosto dessa confusão, mesmo me dando um trabalho danado. Além do mais, temos muitas razões para comemorar.

Final de verão em Madri

Não lembro se aterrizamos na quarta ou na quinta-feira, mas já na sexta, marcamos de sair com os amigos que estavam pela cidade. Por ainda ser agosto, Madri estava vazia e tranquila, gosto assim também, tem suas vantagens. O problema é que é um calor do cão e deixa todo mundo muito preguiçoso.

Demos sorte e na sexta a temperatura estava mais amena. Conseguimos sentar ao ar livre sem grandes problemas, só tivemos que chegar cedo ao local. Bom para por o papo em dia.

Por um momento, achei que poderia ter esquecido o espanhol, considerando que me desligo radicalmente, mas logo voltou. Uma coisa engraçada, porque chegou um ponto que achei haver estacionado no castelhano e que nunca perderei o jeito de gringa. O que é em parte verdade. Mas agora no Rio, ouvindo o portunhol da galera, percebi que já não falo assim. Não que reclame deles, de certa forma, acho bacana esse atrevimento de não saber falar bem, mas não se intimidar e mandar na lata aquele idioma koisistrana. É divirtido escutar.

Não sei se já contei por aqui, mas o ano na espanha começa em setembro e não em janeiro. Porque agosto, o auge do verão, quase tudo e todos entram em férias. Esse ano foi um pouco atípico em função da famosa crise, mesmo assim, ainda é significativo. Então, todos os cursos, aulas e afins iniciam em setembro.

Gosto de ter dois inícios de ano, porque até inconscientemente força a gente a fazer novos planos, rever prioridades e reiniciar ciclos.

Dentro desse contexto, conseguimos fazer nosso primeiro encontro de Lulus do ano! Estava encantado e nem me lembro mais há quanto tempo tentamos fazer um e não conseguimos compatibilizar as agendas. É sempre legal conversar com a mulherada, compartilhar um pouco as emoções. Depois a gente sempre termina se acabando de rir e exorcizando os problemas às gargalhadas.

Já teve aniversário de amiga… já teve via crucis de bar em bar… já teve show de brazucas… e la nave va...

Os restaurantes que gostamos começam a abrir essa semana. Sim, os restaurantes também fecham em agosto! Achei até bom porque precisava segurar a boca um pouco, a gente sempre se passa um pouco no Brasil.

Essa semana entrou uma frente fria, na minha opinião excelente! A temperatura caiu para um nível humano e trouxe bons ventos!

Porque ontem tivemos duas grandes notícias, a primeira delas chegou para mim, meu amigo francês me ligou, acho que conseguirei um estágio em Paris para catering, o que seria fenomenal! Deve ser por novembro ou dezembro, então não quero comemorar muito até se concretizar, mas é um plano e dos bons!

A segunda notícia foi bombástica e chegou minutos depois! A cidadania espanhola do Luiz acaba de ser aprovada! Ainda rola uma burocracia, mas agora sabemos que a resposta é sim! Quanto a minha, ainda está em estudo. Geralmente, minhas respostas saem depois das dele o que me deixa em expectativa e dependência constantes, mas tudo bem, uma coisa de cada vez e começamos por bom caminho.

Hoje, meu pai opera no Rio, a tal da obstrução no ureter. A cirurgia é daqui a pouco e espero ter em breve mais notícias para comemorar. Pulei da cama cedo, como se adiantasse. O Rio está cinco horas atrás e só vou ter alguma informação mais tarde. Mas quem disse que dava para parar de quicar? Enfim, vamos aguardar e esperar que a boa maré permaneça!

Ainda em São Paulo

Passada a exposição, relaxei um pouco com a sensação de missão cumprida. Bom, digo que relaxei, mas não descansei, porque a agenda ainda era longa.

Na sexta-feira, chegou um casal de amigos do Rio e uma amiga de Florianópolis. Então, decidi fazer no sábado pela manhã, outro mini vernissage para quem não conseguiu ir na quarta-feira anterior. Foi também uma amiga de Brasília, mas essa conseguiu ir no dia da inauguração oficial. Muita honra, né?

De maneiras que, no sábado, ainda houve um gostinho a mais de exposição. Foi legal porque além dos amigos de fora de São Paulo, havia os que tinham filhos e era complicado sair à noite, os que ficaram presos no trabalho até mais tarde, enfim, acabou indo mais gente do que imaginava. De lá, almoçamos com alguns amigos na rua da galeria mesmo e seguimos para casa, com nossa amiga de Floripa na tentativa de descansar um pouco antes da noite chegar. Claro que não descansei nada, mas tudo bem, pelo menos conversamos mais um pouco.

Porque no sábado à noite, os amigos paulistas organizaram uma festa para a gente encontrar todo mundo. Sempre é mais legal uma reunião em casa, a gente fica mais à vontade e mesmo que não seja muito tempo, dá para matar um pouco da saudade.

Foi o máximo! Mas para ser sincera, estava um pouco nostálgica. É bacana ver as pessoas bem, seguindo suas vidas, mas em paralelo também dá um pouco a sensação de perda por não estar tão próxima. Sei que não perdi nada, ganhei outras coisas, mas acho que sempre será assim.

Disse tchau, mas não me despedi de ninguém. Não quero mais me despedir de ninguém!

A partir de domingo, tirei o pé um pouco do acelerador, porque Luiz estava exausto e querendo férias das férias. Tudo bem, vai, havíamos encontrado a maioria das pessoas pelo menos uma vez.

E quem não encontramos, paciência! Todos os dias anunciei onde estaríamos para quem pudesse se programar. Fazemos o maior esforço para atravessar o oceano e neguinho não arruma um diazinho que possa sair um pouco mais cedo do trabalho, ou sábado que não precisaria de babá… ou a desculpa que seja, fazer o que? Fatalidades acontecem e entendo, mas fora isso, quem quis nos encontrar, achou tempo, a gente fez o possível!

O período em que estivemos na cidade, tentei viver como se morasse lá novamente. Não temos planos de sair da Espanha, mas tantos amigos e conhecidos voltaram para o Brasil nos últimos meses que é difícil não pensar no tema. E foi estranho olhar a cidade assim.

Achei São Paulo enorme outra vez! Lembro que quando mudei para lá, as distâncias me impressionavam, não cabia tudo na minha cabeça. Logo fui me acostumando até achar normal, inclusive as duas horas diárias dispensadas em engarrafamentos. Agora achei o trânsito ainda pior e tudo parecia tão longe! E para lembrar dos caminhos? Luiz e eu fazíamos uma força danada! E olha que circulávamos muito, mas muito bem pela cidade. Foi frustrante, outra vez a sensação de perda. Tudo bem, não é tão grave, só esquisito. A memória foi voltando gradualmente e, ao final de uma semana, não me sentia tão estrangeira.

Há uma coisa que acredito que estranharia muito se voltasse, que é esse negócio de só andar de carro. Enquanto não conhecia outra alternativa, não sentia falta, mas agora que faço tudo caminhando, seria muito difícil abrir mão da liberdade que os pés te trazem.

Mas enfim, também não tem porque me encucar muito com isso. Como disse, não temos planos de sair da Espanha agora.

No dia 17 de agosto, pegamos o avião de volta para casa. Bom vôo, chegamos bem. Tudo no lugar, sem faltar nenhum pedaço. Cheguei a esquecer o nome da minha rua, putz!

A cabeça é sempre a primeira a viajar e a última a voltar, mas uma hora volta. Já voltou.

Ajuda encontrar um felino gordo e carinhoso, morrendo de saudades! Quem acha que gato não liga para gente, conhece muito pouco dos bichanos. Jack estava bem, não perdeu peso nem parecia estressado, mas me seguiu a primeira semana inteira até para ir ao banheiro! Pelo sim e pelo não, resolvi dar equinácea todos os dias para ele, misturada a um patê de gatos que ele ama, assim aumentamos a resistência do nosso velhinho que fará seus onze anos em breve.

Entramos rápido na vida madrileña, mas isso conto na próxima vez!

Chegando em São Paulo…

Nosso sobrinho foi nos buscar no areroporto. Ficamos na casa da minha cunhada e foi bom e estranho ao mesmo tempo. Porque moramos um ano nessa casa, antes dela reformá-la e mudar para lá. A reforma que ela fez foi bacana, o lugar era o mesmo e se reconhecia nitidamente, mas detalhes como uma parede, uma janela aberta e a dinâmica própria que imprimimos nos nossos lares, fazem parecer contraditoriamente tudo muito diferente, como se fosse outra casa.

Assim como homens se confundem com seus trabalhos, mulheres se mesclam com suas casas, como se casa e corpo fossem parte de uma coisa só.

E o tempo inteiro que estive na cidade essa sensação me acompanhou, um deslocamento de tempo e espaço malucos, como se nunca tivesse saído, tudo se parecia à rotina e, em paralelo, tudo tão diferente. Voltar a uma cidade como outra pessoa, faz a cidade também parecer outra.

Viajei me enganando e buscando o alívio de alguns momentos em que estaria tudo as mil maravilhas, perfeito! Fazendo de conta que não sei que a vida é sempre parte boa e parte ruim, e tudo ao mesmo tempo. Eu tenho problemas, minha família tem problemas e amigos tinham problemas, porque a vida perfeita não existe. A diferença é que já fui menos cética e mais otimista, e isso me faz falta de vez em quando.

No Rio, fomos a um show do Arranco de Varsóvia, uma amiga do Luiz faz parte desse grupo, por sinal, muito bom. O repertório é do Martinho da Vila, que já gostava, mas prestei mais atenção nas letras e fiquei fã. Voltando à apresentação, o Arranco fez um arranjo muito feliz com as músicas: Casa de Bamba e Canta, Canta Minha Gente. Foi a música que me acompanhou o resto da viagem, como um mantra de otimismo.

… na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba… na minha casa ninguém liga pra intriga, todo mundo xinga, todo mundo briga… se tem alguém aflito, todo mundo chora, todo mundo sofre… mas se tem alguém cantando, todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo samba e ninguém se cansa, pois a minha casa é casa de bamba… canta, canta, minha gente, deixa tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar… 

E, às vezes, a gente tem que apostar que vai dar certo ou não faz nada nunca!

Com essa exposição foi assim, não foi a primeira vez que era chamada a expor nessa galeria, acontece que esse negócio de fazer uma produção inteira em outro país, me parecia bastante complicado. Houve uma hora em que vi um mínimo de possibilidade e resolvi que ia fazer e pronto, porque se a gente pensa muito no que pode dar errado, em quanto custa, na trabalheira… ficamos paralizados! Quanto ao Luiz, sabia que me apoiaria no que desse, somos um time muito bom. Então, vamos nessa, precisa dar certo!

E deu, deu tudo certo. Claro que houve os bastidores de suspense, trabalho, problemas, mas isso é assim mesmo, se funciona no final, deu certo.

Entre o dia 8, o domingo que cheguei, até dia 11 de agosto, quando foi o vernissage, fiquei só por conta disso, com Luiz devidamente recrutado a me ajudar. Acabamos a montagem na terça-feira, pelas dez e pouco da noite, assim podia ficar tranquila no dia da inauguração.

Pausa feminina: obviamente na quarta-feira pela manhã, a primeira coisa que fiz foi ligar para minha cabelereira favorita e achar um horário para ela me atender! O que pode dar errado na vida se nosso cabelo estiver perfeito? Praticamente nada! Foi ela quem lembrou de me perguntar se também queria fazer as unhas. Putz! Claro, como pude me esquecer disso? Sim, mão e pé (ainda que o sapato fosse fechado). Fundamental: roupa que emagreça, pareça elegante e alternativa ao mesmo tempo, como que me empenhei em estar bem arrumada, mas não me preocupo tanto assim com a opinião alheia. Maquiagem que dá um trabalho do cão para parecer o mais natural possível, que você acorda assim de manhã, sem nem uma olheira nem manchinhas na pele, só deu uma pintadinha básica nos olhos. Beleza, autoestima revigorada, tô pronta!

Brincadeiras a parte, é difícil explicar a sensação que bate, é uma ansiedade que te deixa eufórica e em pânico ao mesmo tempo. Expor-se é sempre um exercício e tanto, porque é um risco, nunca deixará de ser. Mas é absolutamente viciante a adrenalina gostosa que antecede a chegada na galeria e ver que o resultado me agrada, de chegar o primeiro convidado, de ver o primeiro rosto conhecido, de saber que algum trabalho vendeu e vai para a casa de alguém e outras pessoas verão, de ver gente que nunca conheci e compartilhar um pouco de mim agora através de uma peça. É assim desde a primeira vez que expus. E é por esses momentos que posso acreditar que a vida vai melhorar.

Acho que até fisicamente eu mudo! A pele parece que fica diferente, sei lá, felicidade exala, alegra os generosos e quem te quer bem. Pena que esses momentos voam e passam como em cinco minutos, mas tudo bem, vale a pena. Sorte a nossa de ter a memória e o registro para usar como munição nos tempos mais difíceis.

Houve a época em que acreditei que podia tudo e tenho uma eterna nostalgia por essa sensação, porque a vida só podia melhorar, não havia outra alternativa. Agora sei que as notícias ruins chegarão, é só uma questão de tempo. Na verdade, nem há essa sequência de coisas boas e ruins, é tudo misturado, predominando um ou outro lado da balança. Em compensação, também aprendi a tomar até a última gota do que é bom, para não ficar com tanta sede quando a seca chegar. No saldo de coisas positivas e negativas, no fundo, ainda acho que a vida vai melhorar.

 

PS: Pessoal, na medida do possível, tentei preservar o rosto das pessoas, mas se alguém se incomodar em aparecer, me avise que retiro a foto, ok?

E para quem quiser conhecer a versão do Arranco de Varsóvia das músicas do Martinho da Vila, segue o link Canta Canta de Arranco de Varsóvia.

Fim de férias

E cá estamos novamente! Tem tanto tempo que não escrevo que custa pegar o jeito! Após quase um mês no Brasil, está difícil pegar no tranco. Não digo que estivesse sem internet, mas considerando a frequência com que a utilizo normalmente, estive radicalmente menos conectada. Escrever toma tempo e viver também, nesse caso, escrever poderia ficar para depois. O que é muito mais difícil, porque se perdem os detalhes… e o diabo mora nos detalhes.

Não é apenas uma questão de tempo, é também uma opção por canais de comunicação diferentes. Duas das minhas maneiras de expressão mais importantes são a escrita e a arte, e como já anunciado anteriormente, nos últimos dois ou três meses, priorizei a arte. E sempre é bom lembrar quem somos em essência, ainda que nunca sejamos uma coisa só.

Mas enfim, como é que foi no Brasil? Vou tentar me liberar da ordem cronológica das coisas e me concentrar no que me importava fazer, apoiar a família, realizar uma exposição e rever os amigos. De quebra vieram mais um monte de coisas, mas sempre giraram em torno desses pontos.

A origem da minha ida agora foi a exposição. Claro que iria de qualquer maneira, mas a data teve esse motivo. Porque ir só pela exposição me custaria muito caro, já que o transporte é por minha conta. Portanto, precisava conciliar tudo ao mesmo tempo, o que exige uma certa logística.

Quem acompanhou a saga ainda não terminada em relação à saúde do meu pai, sabe que houve um período em que fui ao Rio quase que de três em três meses, o que não é mole, psicológico nem financeiramente. Esse último ano, com um ou outro susto, sua situação esteve mais estável, e me deu a chance de conseguir me planejar. Bom, na medida do possível que é me planejar, né? Mas o que importa é que funcionou.

No dia 21 de julho, embarquei com uma exposição inteira na mala! Luiz me encontraria no Rio, uma semana depois. Passado o suspense da bagagem chegar, passar pela alfândega e tal, a verdade é que deu tudo certo. Chegaram sem um arranhão os 50 trabalhos emoldurados, 2 esculturas de acrílico e 200 pêndulos de vidro para uma instalação; tudo isso em 3 malas, uma delas negociada com a companhia para não pagar excesso de bagagem.

Fiz escala em São Paulo, onde fica a Galeria, deixei tudo direitinho por lá, resolvi as últimas pendências do vernissage, encontrei a família paulista e, logo no dia seguinte pela manhã, embarquei para o Rio.

É o ideal chegar pelo menos uma semana antes do Luiz, assim tenho um pouco mais de tempo para dar atenção à família e resolver pepinos de médicos ou documentação. Quando Luiz chega, além disso, também quero rever os amigos, ir nos restaurantes favoritos etc etc… e daí já viu, não paro um minuto, juro! Ele reclama um pouco que não dou trégua, mas entende que não tem outro jeito. Depois, quem mandou casar com uma imparável? Até tento segurar um pouco a onda, ou fazer alguma coisa enquanto ele descansa, mas mesmo assim, reconheço que para os seres humanos razoavelmente normais, o pique é meio pauleira!

Capítulo médicos pessoais: fiz check up e fui no mastologista, já que a recomendação espanhola é cultivar cistos e comer muita tortilla para evitar um câncer. A primeira mamografia aqui é recomendada após os 50 anos! Não estou inventando, li isso em um centro de saúde pública! Bom, resumo da ópera, tirei mais 3 cistos para minha coleção, o que dá um total de 8 retirados. Fora a delícia que é cada punção, tudo certo, mas não posso dar mole, porque aparentemente será assim até a menopausa.

Capítulo médico paterno: acompanhei uma consulta do meu pai no seu clínico geral, onde ele dizia que estava perfeito, não sentia nada demais, só uma tossezinha chata que ele queria saber o que podia tomar (porque se dependesse dele, ele se auto medicaria, mas a gente não deixou). Pois é, depois do exame, verificou-se que ele estava com uma pneumonia básica! Agora já está bom da pneumonia, mas o quadro geral é o seguinte, ele está no meio de um tratamento para dissolver um coágulo no pulmão, isso é feito com um anticoagulante pesado, chamado Marevan (eu acho que o nome é esse). Por isso, teve que interromper o tratamento do câncer de bexiga, porque a sonda poderia provocar uma hemorragia. No caminho, descobriu que está com uma obstrução no ureter, o que pode ser algo simples ou outro tumor. Não pode deixar isso assim até acabar o tratamento do coágulo do pulmão, porque um dos rins, o que esse canal obstruído alcança, já diminuiu de tamanho e ele não pode correr o risco de perdê-lo, afinal, toma muita medicação e isso sacrifica os rins. Muito bem, então o que se faz é o seguinte, agora que ele ficou bom da pneumonia, vai parar de tomar o Marevan (que tem larga duração no organismo) e tomar injeções de anticoagulante com duração de 24 horas. Nas vésperas da cirurgia do ureter, ele para de tomar a tal injeção e só volta quando estiver tudo cicatrizado, o que deve ser entre uma e duas semanas. De momento, também apareceu um tal de derrame na pleura (taquiupariu!), mas segundo o médico, isso não é tão grave e está administrado. Ele deve fazer a tal da intervenção no ureter pelo dia 2 ou 3 de setembro. Apesar desse parágrafo imenso, ele aparenta estar bem, juro! Vai ao clube todos os dias, que é logo em frente… faz a feira duas vezes na semana e compra comida para todo um batalhão; parte dessa comida vai para o lixo, parte está tornando sofisticadíssimo o paladar da faxineira e sua filha, afinal elas agora não sabem mais viver sem comer salmão semanalmente… joga na internet e reclama o tempo inteirinho… assiste todos os jornais com as mesmas notícias a todo volume… o de sempre. Daí, quando meus amigos me perguntam como vai meu pai, me dá uma preguiça danada de explicar tudo isso e resumo, ele não está bom, mas está bem!

Compramos um apartamento pequeno, em sociedade com meu irmão, perto da casa dos meus pais. Um sala e quarto bem jeitozinho que meus pais reformaram e, quando viu o resultado final, meu irmão mesmo se animou a ir morar lá. Achei bom, porque pelo menos é um apoio próximo em caso de emergência. Tive vontade de fazer uma textura nas paredes, até levei material para fazer algumas gravuras, mas francamente, não sobrou tempo. De qualquer maneira, foi muito bom ter novamente a sensação de ter um apartamento, alguma referência fixa de casa, ainda que seja um imóvel para investimento.

Quando Luiz chegou, começamos a encontrar os amigos. Brincava dizendo que fazia encontros no atacado, porque no varejo estava complicado. Pelo facebook ou por e-mail, anunciava onde iríamos à noite e quem pudesse se juntava. Foi bem legal e mandei minha relativa abstinência alcóolica para o saco! Se voltasse minha labirintite, pelo menos havia um bom motivo! Não tive nenhuma crise, mas uma tonturinha ou outra me acompanham até hoje, estou aprendendo a me relacionar com elas. Em compensação, pelas últimas saídas em bares com amigos, pós-Belmonte e pós-muita cachaça, o dia seguinte me lembrou que sou resistente, mas não imune! Tudo bem, vamos combinar que em mais de duas semanas chutando o pau da barraca, um diazinho de ressaca, tô no lucro!

O Rio de Janeiro está lindo! É a primeira vez que volto ao Brasil e acho o Rio melhor! Não sei o quanto a violência regrediu, mas a sensação de violência diminuiu radicalmente. A energia da cidade é outra! Podem ser meus olhos, mas acho que não, Luiz teve a mesma opinião. Minha explicação se deve a dois motivos, a pacificação dos morros e a lei seca. A pacificação dos morros melhorou a autoestima dos moradores e trouxe mais segurança para o asfalto. A lei seca fez com que as pessoas passassem a buscar programas noturnos em seus próprios bairros e tem muito mais gente caminhando nas ruas. Acredito que a Copa e a Olimpíada tenham muito a ver com isso também, abriu um leque de oportunidades. Enfim, seja o motivo que for, o Rio está bombando!

No dia 8 de agosto, dia dos pais, almoçamos com os nossos no Clube do Leme. Fiquei feliz que consegui pegar algum dia assim! Difícil saber quando a gente vai conseguir reunir nossos pais e mães outra vez na mesma mesa, espero que em breve. Meu irmão e meu primo também estavam conosco.

As malas já estavam prontas em casa e, assim que o almoço terminou, meu irmão nos levou ao aeroporto e seguimos para São Paulo. Até esse momento, havia desencanado um pouco da exposição, mas a consciência que estava chegando a hora, revirou meu estômago de nervoso novamente.

Mas a continuação dessa história, vai ficar para depois!

Viajando até fim de agosto

Queridos amigos e leitores,

Viajo hoje à noite para o Brasil. Estou quicando de ansiedade e saudade da família e dos amigos, isso sem falar da exposição que foi preparada com muita dedicação e, pela primeira vez, também com carinho.

Seguirei com acesso à internet, mas não sei quando terei tempo e tranquilidade para escrever, assim que pode ser que as coisas andem meio desatualizadas por essas bandas blogueiras. Prometo tentar não ser tão relapsa e ir contando a viagem aos poucos.

Aos que ficam, que tenham um verão revigorante e aproveitem a melhor parte dos dias ensolarados! Aos que estão espalhados pelo mundo, que consigam desconectar um pouco da rotina! E aos amigos brasileiros, que se preparem para uma boa farra!

Fui!

Convite para a exposição em São Paulo: O Papel e a Arte Aceitam Tudo

Convido para minha próxima exposição em São Paulo, na Galeria Area Artis (Rua Normandia, 92). O vernissage será no dia 11 de agosto, às 20:00hs. A exposição vai até o dia 28 de agosto.

Apresento 50 trabalhos em papel, originais e inéditos. A proposta segue abaixo com maiores detalhes.

O Papel, e a Arte, Aceitam Tudo

Sou louca por papéis! Adoro seus cheiros e texturas, entro em lojas especializadas como quem entra em uma confeitaria, me dá vontade de comê-los. Às vezes, gosto tanto de um papel que me custa trabalhar sobre ele, parece sobrar, ele também é interessante vazio.

Diz o ditado popular que o papel aceita tudo. Há alguns anos descobri o prazer da escrita e o que vivo parece mais real depois que registro. Talvez por melhor compreender ou pela possibilidade de compartilhar, quem sabe, mas o fato é que de uma maneira ou de outra, um papel pode ser um pequeno universo pessoal que aceita a verdade que você acreditar ou eleger. Como mágica, a palavra escrita parece valer mais que a falada. O papel é tão generoso quanto ambíguo.

A arte também é uma forma de linguagem, não tão direta quanto a palavra, ainda que dela possa se beneficiar. Portanto, me interessou jogar um pouco com a idéia e testar, literalmente, essa possibilidade. Será mesmo que o papel aceita tudo?

Imediatamente, ganhei liberdade e me senti tranquila revisitando desenhos, técnicas e materiais deixados de lado, por mim mesma, por não parecerem tão especiais. Há algum tempo me empurram goela abaixo o que deve ser considerado genial, geralmente coincidindo com algum discurso de alguma figura importante no meio. Sim, eleva-se a discussão a um patamar superior, mas em um ambiente onde não existe polêmica, portanto, nada floresce nem revoluciona. Não há coragem onde não há risco, e mata um bocado de espontaneidade.

O que me importa nesse momento é jogar com esses pequenos mundos individuais que cada papel permite. E buscar o que há de repetição como forma de identidade e na criação de universos pessoais.

Esse é o convite que faço, que não se busque a explicação correta nem o que se deveria entender. É exatamente o que você vê. Goste ou não goste, entenda ou não entenda, mas sob seus próprios parâmetros. O que proponho é um exercício de liberdade.

E sim, desde o tradicional lápis aos materias considerados incompatíveis ou improváveis, o papel aceitou tudo.