Chegando em São Paulo…

Nosso sobrinho foi nos buscar no areroporto. Ficamos na casa da minha cunhada e foi bom e estranho ao mesmo tempo. Porque moramos um ano nessa casa, antes dela reformá-la e mudar para lá. A reforma que ela fez foi bacana, o lugar era o mesmo e se reconhecia nitidamente, mas detalhes como uma parede, uma janela aberta e a dinâmica própria que imprimimos nos nossos lares, fazem parecer contraditoriamente tudo muito diferente, como se fosse outra casa.

Assim como homens se confundem com seus trabalhos, mulheres se mesclam com suas casas, como se casa e corpo fossem parte de uma coisa só.

E o tempo inteiro que estive na cidade essa sensação me acompanhou, um deslocamento de tempo e espaço malucos, como se nunca tivesse saído, tudo se parecia à rotina e, em paralelo, tudo tão diferente. Voltar a uma cidade como outra pessoa, faz a cidade também parecer outra.

Viajei me enganando e buscando o alívio de alguns momentos em que estaria tudo as mil maravilhas, perfeito! Fazendo de conta que não sei que a vida é sempre parte boa e parte ruim, e tudo ao mesmo tempo. Eu tenho problemas, minha família tem problemas e amigos tinham problemas, porque a vida perfeita não existe. A diferença é que já fui menos cética e mais otimista, e isso me faz falta de vez em quando.

No Rio, fomos a um show do Arranco de Varsóvia, uma amiga do Luiz faz parte desse grupo, por sinal, muito bom. O repertório é do Martinho da Vila, que já gostava, mas prestei mais atenção nas letras e fiquei fã. Voltando à apresentação, o Arranco fez um arranjo muito feliz com as músicas: Casa de Bamba e Canta, Canta Minha Gente. Foi a música que me acompanhou o resto da viagem, como um mantra de otimismo.

… na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba… na minha casa ninguém liga pra intriga, todo mundo xinga, todo mundo briga… se tem alguém aflito, todo mundo chora, todo mundo sofre… mas se tem alguém cantando, todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo samba e ninguém se cansa, pois a minha casa é casa de bamba… canta, canta, minha gente, deixa tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar… 

E, às vezes, a gente tem que apostar que vai dar certo ou não faz nada nunca!

Com essa exposição foi assim, não foi a primeira vez que era chamada a expor nessa galeria, acontece que esse negócio de fazer uma produção inteira em outro país, me parecia bastante complicado. Houve uma hora em que vi um mínimo de possibilidade e resolvi que ia fazer e pronto, porque se a gente pensa muito no que pode dar errado, em quanto custa, na trabalheira… ficamos paralizados! Quanto ao Luiz, sabia que me apoiaria no que desse, somos um time muito bom. Então, vamos nessa, precisa dar certo!

E deu, deu tudo certo. Claro que houve os bastidores de suspense, trabalho, problemas, mas isso é assim mesmo, se funciona no final, deu certo.

Entre o dia 8, o domingo que cheguei, até dia 11 de agosto, quando foi o vernissage, fiquei só por conta disso, com Luiz devidamente recrutado a me ajudar. Acabamos a montagem na terça-feira, pelas dez e pouco da noite, assim podia ficar tranquila no dia da inauguração.

Pausa feminina: obviamente na quarta-feira pela manhã, a primeira coisa que fiz foi ligar para minha cabelereira favorita e achar um horário para ela me atender! O que pode dar errado na vida se nosso cabelo estiver perfeito? Praticamente nada! Foi ela quem lembrou de me perguntar se também queria fazer as unhas. Putz! Claro, como pude me esquecer disso? Sim, mão e pé (ainda que o sapato fosse fechado). Fundamental: roupa que emagreça, pareça elegante e alternativa ao mesmo tempo, como que me empenhei em estar bem arrumada, mas não me preocupo tanto assim com a opinião alheia. Maquiagem que dá um trabalho do cão para parecer o mais natural possível, que você acorda assim de manhã, sem nem uma olheira nem manchinhas na pele, só deu uma pintadinha básica nos olhos. Beleza, autoestima revigorada, tô pronta!

Brincadeiras a parte, é difícil explicar a sensação que bate, é uma ansiedade que te deixa eufórica e em pânico ao mesmo tempo. Expor-se é sempre um exercício e tanto, porque é um risco, nunca deixará de ser. Mas é absolutamente viciante a adrenalina gostosa que antecede a chegada na galeria e ver que o resultado me agrada, de chegar o primeiro convidado, de ver o primeiro rosto conhecido, de saber que algum trabalho vendeu e vai para a casa de alguém e outras pessoas verão, de ver gente que nunca conheci e compartilhar um pouco de mim agora através de uma peça. É assim desde a primeira vez que expus. E é por esses momentos que posso acreditar que a vida vai melhorar.

Acho que até fisicamente eu mudo! A pele parece que fica diferente, sei lá, felicidade exala, alegra os generosos e quem te quer bem. Pena que esses momentos voam e passam como em cinco minutos, mas tudo bem, vale a pena. Sorte a nossa de ter a memória e o registro para usar como munição nos tempos mais difíceis.

Houve a época em que acreditei que podia tudo e tenho uma eterna nostalgia por essa sensação, porque a vida só podia melhorar, não havia outra alternativa. Agora sei que as notícias ruins chegarão, é só uma questão de tempo. Na verdade, nem há essa sequência de coisas boas e ruins, é tudo misturado, predominando um ou outro lado da balança. Em compensação, também aprendi a tomar até a última gota do que é bom, para não ficar com tanta sede quando a seca chegar. No saldo de coisas positivas e negativas, no fundo, ainda acho que a vida vai melhorar.

 

PS: Pessoal, na medida do possível, tentei preservar o rosto das pessoas, mas se alguém se incomodar em aparecer, me avise que retiro a foto, ok?

E para quem quiser conhecer a versão do Arranco de Varsóvia das músicas do Martinho da Vila, segue o link Canta Canta de Arranco de Varsóvia.

5 comentários em “Chegando em São Paulo…”

  1. As fotos da vernissage mostram um astral muito bom. Dá gosto de ver. Me sinto realmente como se estivesse estado lá. PARABÉNS!!

  2. Adorei amiga, estava “echando de menos” essa movimentaçao no blog.
    Beijosss
    E sim, canta forte canta alto que a vida vai melhorar…

  3. Oi Bianca, depois que essa fase dual passar voce vai ver que na vida tudo è atitude, e que todos os sentimentos estao somente na superficie, debaixo dessa superficie reina uma grande paz.
    Olha Bianca eu odeio arte moderna com todas minhas forças isso tenho de dizer, mas quando vi por tras das fotografias suas coisas achei lindo, ja tinha achado que tinha algo diferente quando voce falou de sua relaçao com o papel, e è exatamente a mesma que tenho com a madeira. Sò que nunca tinha conseguido por isso em palavras tao bonitas.
    Achei uma ricura seu trabalho com as contas de vidro, um material que adoro.
    Tudo que aprendi pra viver bem e melhor me veio dos livros, e claro eu te recomendo um livro como um presente um livro especial bom, que a mim com minhas neuras e fantasmas ajudou muito, se chama Metodo Sedona pode comprar por internet.
    Bianca parabens voce me fez mudar de opiniao sobre a arte, e me fazer mudar de opiniao é digamos uma missao bem impossivel.
    Um beijo.

  4. Oi Bianca

    Adorei a escolha das fotos, o clima foi bem esse mesmo alto astral.
    E pra quem gostou do trabalho em vidro eu gostaria de informar para deixar alguns com inveja, eu fiquei com ela, e vai ter um lugar especial na minha “nova” casa. Depois eu te mando a foto de onde escolhi o lugar de honra.

    Beijos

    Marianne

  5. Obrigada, meninas!

    O astral foi alto mesmo, até porque estava cheio de amigos legais!

    Nossa, Antonia, que responsabilidade! 🙂 Fico feliz que mais uma porta tenha se aberto para a arte contemporânea, acho mesmo que é um universo bastante amplo e sempre haverá algo que você tenha mais ou menos afinidade. Depois vou buscar o livro.

    Marianne, então deu tudo certo na desmontagem da instalação? Depois me manda a foto do lugar!

    Besitos a todas!

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