Nacionalidade espanhola, perguntas frequentes (texto em espanhol)

Recebi o texto abaixo, bastante extenso e completo, sobre dúvidas em relação à nacionalidade espanhola. Aviso que não responderei comentários com dúvidas, porque não sou advogada nem ganho nada com isso. Simplesmente, repasso a informação que pode ser útil, ok? Boa sorte!

Perguntas Nacionalidad

Descarrego

Dia 12 de maio de muitos anos atrás, era um domingo, dia das mães. No sábado, estávamos todos em casa, incluindo minha avó por parte de mãe, conversando sobre o almoço do dia seguinte e surgiu o assunto que era uma pena que não estivessem as duas avós, para esse momento. Ninguém falou, mas as duas estavam doentes e é lógico que era impossível não pensar que talvez pudesse ser o último dia das mães com ambas.

Pois me candidatei, posso buscá-la, se ela quiser. Morávamos no Rio, e ela estava em sua casa, em Cabo Frio. Na época da estrada antiga, umas duas horas e meia de carro, que não sei por que raios parecia uma distância enorme para todos.

E assim foi, no domingo pela manhã acordei bem cedo e fiz um bate-volta com minha avó por parte de pai e minha tia, que estava junto em Cabo Frio. Minha avó fez todo o trajeto de olhos fechados e com uma expressão dolorida, mas sem se queixar. Viemos as três mulheres praticamente em silêncio até o Rio e chegamos para o almoço de dia das mães.

Na mesa, como não podia deixar de ser, o clima mudou, ninguém parecia triste, aborrecido ou doente. Foi um almoço de família absolutamente normal, ou pelo menos, é assim que me lembro dele.

Não me lembro o que foi dado de presente para minha avó por parte de mãe, mas para minha avó por parte de pai foi dado um relógio de pulso. Lembro de ter passado na minha cabeça que precisava de um relógio também e por que dar um relógio para alguém que já não se importava mais com que horas era? Depois me pareceu um pensamento absurdo, me senti até um pouco culpada, essas bobagens que a gente pensa sem querer muito.

Lembro dela sentada no sofá com as pernas esticadas, virou-se para mim e me chamou para agradecer o presente. A maneira que ela me olhou me paralizou, fiquei imóvel por alguns segundos olhando para ela, com as pessoas praticamente me empurrando, vai lá, ela quer te dar um abraço para agradecer. Mas nós duas sabíamos que não era isso, foi nossa despedida. Durante essa madrugada ela faleceu.

Oficialmente, dia 13 de maio. Mas na minha cabeça, sempre me vem o 12 primeiro, pois foi quando nos despedimos. Então, na noite de 12 para 13 acendo uma vela, faço minha oração de ateísta, afinal ela não era e eu tenho sua voz na minha memória rezando a Ave Maria, e vou dormir enquanto a vela se gasta naturalmente e se apaga pela madrugada.

Minha outra avó, por parte de mãe, faleceu no mesmo ano. E é difícil falar de uma sem falar da outra, deve ser parecido ao sentimento de mãe, que não quer que um filho se sinta enciumado ou menos considerado. Mas a verdade é que na minha memória, elas sempre aparecem juntas.

Em uma noite, não me lembro que dia de outubro, minha mãe e eu começamos a conversar porque estávamos meio agoniadas em relação a minha avó, esses pressentimentos estranhos. Minha mãe nunca suportou dirigir e não queria ir sozinha. Outra vez, me candidatei, mas eu dirijo! Claro que vou!

No mesmo dia em que chegamos, durante a madrugada, ela passou mal e fomos levá-la ao hospital, de onde já não deixaram que ela saísse. No dia seguinte, à tarde, ela também me olhou do jeito que eu conhecia e havia visto naquele mesmo ano. Da nossa maneira, também nos despedimos. Mais tarde ela entrou em coma. Dessa vez, não pude trazê-la no carro, mas fui atrás da ambulância até o Rio, onde ela faleceu não muito depois de chegar, no dia 9 de outubro.

Fiquei com essa impressão de ter ido buscar as duas para morrerem em paz no Rio. O que de uma maneira estranha, me fez muito bem. É lógico que senti muito, mas fui uma privilegiada em poder me despedir das duas de maneira digna, como elas mereceram. Elas se foram com a consciência que não estavam sozinhas ou desatendidas.

Por isso, não conto como histórias tristes, mas como parte da vida. Não quero esquecer, porque me ajuda com a saudade.

As duas eram espíritas, de alguma maneira mais ou menos declarada. Bom, na verdade, eram espíritas também, sempre foi uma coisa meio misturada com outras religiões.

Uma das minhas avós chegou a ter um congá dentro de casa, meio escondido no quarto de empregada. Porque afinal de contas, ninguém no Brasil gosta de se assumir macumbeiro. Mas todo mundo conhece alguma coisa e no fim de ano vão pular 7 ondas vestidos de branco. Enfim, nem posso dizer que ela era realmente macumbeira, porque também frequentava assiduamente a igreja Batista, entre outras igrejas que ela ia conhecendo no caminho. Falou para ela que era de Deus e do bem, estava valendo!

Em uma época que meu irmão ficou bem doente, aparecia gente de todas as religiões que se pode imaginar para rezar para ele lá em casa. Nem sei de onde eles vinham, não cobravam, não exigiam nada, rezavam. O mais assíduo era um espírita kardecista e até hoje meu irmão tem um quadro do Doutor Bezerra de Menezes, que era um tipo de guia espiritual do tratamento dele. O fato é que ele foi curado, muito provavelmente pela medicina, mas como não vamos dizer que não ajudou o amor, as boas energias, as orações… Então, por que não distribuir o mérito com quem no mínimo quis ajudar?

Cresci nesse ambiente de fé democrática, digamos assim. Nunca fui obrigada a seguir ou acreditar em nada e nunca me ofendeu aceitar e conviver com crenças que não tinha. Acreditando ou não, cresci entre histórias de espíritos, batendo a cabeça no congá, colégio católico, santos, orixás, premonições, intuições, números, novenas, simpatias… tudo junto! E porque não era obrigada, aceitava sem precisar concordar ou julgar. Fantasmas e demônios não me assustam. Não sei se eles existem, mas se existirem, também serão parte da vida.

Não vamos confundir as coisas, sou ateísta, continuo sendo. Ou simplesmente, não preciso de uma explicação única e racional para tudo. Mas algo importantíssimo aprendi, rituais são fundamentais! Qualquer ritual, desde que seja feito com respeito. As energias positivas ou negativas que você empenha fazem toda a diferença do mundo.

E vindo dessa mistureba, pode acreditar, sou craque em rituais e símbolos!

Muito bem, assim que soubemos que nossos passaportes e DNIs espanhóis seriam entregues no dia 12 de maio, fiquei confiante. Se fosse 12 de outro mês, não ia gostar pelo número, mas de maio sim. Afinal, tinha uma bruxa me protegendo.

Precisava de um ritual, lógico! Uma festa-ritual, pronto! E que dia? No próprio 12 era quinta-feira, complicado. Na sexta-feira 13, parecia ideal, se fosse em outra sexta-feira 13, provavelmente, mas justo no dia da morte da minha avó, ainda que me parecesse homenagem, alguém poderia se ofender. Depois alguns amigos também não podiam na sexta, beleza, sinal que tem que ser no sábado, dia 14 de maio. Fechado!

Há muito tempo precisamos selecionar a dedo quem chamar, porque não cabe em casa. Mas dessa vez, por tudo que nos custou estar onde estamos, tudo que não queria era seguir o lema “não cabemos todos”! (Nas eleições passadas, essa frase foi bastante usada pelo Rajoy, do PP, contra os imigrantes na Espanha – ¡No cabemos todos!) Daí, pensei em fazer em turnos, começando às 16 horas e seguindo até o último convidado que aguentasse!

O tema foi “Festa do Descarrego”, vamos combinar, quem não precisa dar uma descarregada de vez em quando, né? Pedimos que, se possível, as pessoas viessem de branco para entrar na brincadeira.

E claro, independente de raça, cor ou religião, todo mundo entrou na brincadeira!

 

Uma amiga conseguiu me trazer um pé de arruda (uma saga para conseguí-lo!), e duas me trouxeram pés de espada-de-são-jorge, muito legal!

Na entrada, onde já ficou um dos arranjos de espada-de-são-jorge, os convidados eram recebidos com um passe de arruda, água e sal grosso. Quem quis, colocou um raminho de arruda atrás da orelha e aviso que um monte de gente quis.

Os convidados trouxeram as bebidas e fiz as comidinhas, coisas de botequim: caldo de feijão, sanduíche de pernil, bolinho de bacalhoada, quibe, empanada de carne, ovos de codorna, ovos coloridos, salpicão de frutos do mar, salada de frango, queijos diversos, patês, batatinhas, frutos secos, azeitonas.

No centro da mesa, um arranjo com sal grosso em formato de estrela de 6 pontas, 7 velas, 1 defumador, alho, água limpa e pedra marroquina para atrair boas energias. Ao lado, um vaso de sal grosso, 1 pé de arruda e outro pé de espada-de-são-jorge. Era nosso canto para o descarrego. Quem quisesse, anotava em um papel amarelo o que quisesse mandar embora e queimava ali mesmo! Está pensando que alguém teve medo ou vergonha? Nada! Pois foram 2 bloquinhos inteiros descarregados!

 

Depois, no corredor, foram coladas no chão 7 fitas azuis. Usávamos nossa imaginação que eram as 7 ondas da praia que a gente quisesse, fazíamos um pedido do que queríamos que acontecesse e pulávamos as 7 ondas!

Pronto, todo mal havia ido embora e havia a esperança de melhorar!

E sabe aquela história dos turnos? Pois é, só funcionou para definir uma hora de chegada, porque ninguém queria ir embora, o que pessoalmente interpretei como um elogio, sinal que estavam gostando, certo? Só foi mesmo quem tinha crianças ou precisava trabalhar, o resto seguiu animadamente no descarrego. Não tenho certeza de quantas pessoas apareceram, mas em ordem de grandeza, contando com as crianças, acho que umas 70! Outro número muito bom! Infelizmente, acho difícil que a gente consiga dar outra festa desse tamanho, não nesse apartamento, mas adorei que essa tenha dado certo.

Mais ou menos pelas 3 e alguma coisa da manhã, depois de umas onze horas de festa, os últimos convidados se foram. Alguns foram descendo o lixo, outros nos ajudaram a arrumar a casa, uma amiga ficou para dormir e também nos ajudou com a limpeza, de maneira que pelas 4 e alguma coisa fomos dormir com a casa limpinha e razoavelmente bem arrumada.

Minha vida não é perfeita e nunca será, acho que a de ninguém é. Mas vou contar uma coisinha, entre nós, só queimei um ou outro papelzinho para dar o exemplo e mostrar como fazia, mas foi até difícil me lembrar do que queria reclamar. Fiz um único pedido às 7 ondas. E se algum dia fizer outro ritual parecido, acho que nos faltou um terceiro espaço, o de agradecer. Provavelmente, seria onde mais me concentraria. Agradeço vir da família que vim e ter as experiências que tive, agradeço pelo meu amor, agradeço pelos meus amigos, agradeço por quem está a minha volta e agradeço por poder compartilhar esses momentos.

E vamos malhar!

Nas últimas duas semanas, ando malhando como uma douda! Cinco vezes na semana, faça chuva ou faça sol.

Verdade que a motivação principal é a operação biquini. Chegando o verão, todo mundo quer colocar as asinhas de fora e não fazer feio. Além do mais, em junho vou ao Brasil e vamos combinar que a mulherada do Rio se cuida, né? Intimida. Eu já chego branquela, pelo menos vou tentar chegar sarada!

Exageros à parte, porque já não tenho mais a esperança de ter barriga tanquinho, tenho uma segunda motivação importante, preciso dormir!

Fui criança hiperativa, adulta menos, até achei que estava curada, digamos assim. Mas de uns tempos para cá, parece que regredi e simplesmente parei de dormir. E isso porque nem cafeína estou tomando há vários meses!

Tudo bem, já sei como isso funciona, preciso queimar energia. Então, resolvi me acabar de fazer exercício e unir o útil ao saudável (porque agradável não é, né?). O Wii foi devidamente ressucitado e incluímos no pacote os joguinhos da bicicleta e da aula de dança. Sigo no Pilates e correndo. Comecei a perder peso devagar, o que foi ótimo. Ainda tenho preguiça de começar a malhação, mas depois me sinto muito bem e até me passo um pouco.

Mas dormir que é bom, continua sendo difícil. Tudo bem, comecei há pouco e tenho que dar um tempo para o corpo entrar no ritmo. Por isso, também voltei a tomar a melatonina, o que ajudou.

O bom é que Luiz se empolgou, ele já havia perdido bastante peso e agora resolveu começar a malhar também. Em casa, mas é um começo. Sempre mais fácil se cuidar quando os dois estão em uma onda parecida.

E agora, deixa eu correr para a “aula de dança” antes do Luiz chegar, porque queima calorias pacas, mas com alguém assistindo é muito mico!

Jantando na ONU

Ainda era segunda-feira e ainda pairava no ar um ligeiro impacto da notícia da morte do Osama. Muito menor do que imaginava, diga-se de passagem, acho que passou tanto tempo que as pessoas já estavam meio saturadas da história.

Mensagem no celular, aniversário de uma amiga, jantar na casa dela no mesmo dia. Luiz tendo que acordar cedo no dia seguinte, mas pensamos em pelo menos dar uma passadinha para um abraço de parabéns. Fomos.

Essa amiga mora no centro da cidade, em um apartamento enorme, compartilhado por umas 8 pessoas, eu acho. Lembrava muito uma república de Ouro Preto, em ambiente e aparência. Ela é a única brasileira da casa.

O que me chamou atenção nesse dia foi a diversidade de nacionalidades presentes no evento informal. Havia iraniano, iraquiano, espanhol, paquistanês, romeno, irlandês, brasileiro, italiano, inglês… e depois já nem me importava em perguntar! Parecia uma reunião da ONU, só que mais divertido.

A música foi em sua maioria brasileira, mas alternando-se com danças persas, romenas ou seguindo a nacionalidade de quem mais se candidatasse a pular no meio da roda. E quem não participava dançando, ou tocava um instrumento ou batia palmas acompanhando o ritmo. Mas de alguma forma, todos faziam parte do conjunto da obra.

Estamos acostumados a navegar entre torres de Babel, mas nesse dia especificamente, veio como um ar fresco de paz no meio de notícias turbulentas. Tolerância, respeito e alegria. Ficou bonito.

E se algum dia eu tiver que me lembrar dessa segunda-feira, é essa a parte que vou escolher.

Dia nublado

Segunda-feira, 2 de maio de 2011, feriado. Aqui na Espanha, o dia do trabalho é dia primeiro, igual ao Brasil. Eu achava que havia sido transferido para o dia seguinte por cair em um domingo, mas segundo um dos meus leitores, eles não fazem isso aqui, é feriado por ser dia da comunidade de Madri.

Muito bem, acordei assustada quando olhei o relógio marcando quase 10 da manhã e Luiz ainda do meu lado: você perdeu a hora, não vai trabalhar? Não, era feriado, havia me esquecido completamente.

Fiquei fazendo hora na cama até escutar a voz do Luiz vindo do quarto do computador dizendo que o Bin Laden morreu!

A notícia me pegou meio de surpresa e levei algumas horas até absorver. É daquelas notícias que você não sabe se deve se sentir aliviada ou se assustar mais. O mundo árabe (se é que podemos considerar toda essa unidade) anda muito estranho. Atualmente, depois de conhecer um pouco melhor o emaranhado de culturas e estando tão mais perto geograficamente, olho tudo com muito mais cautela. Muita teoria da conspiração ainda virá por aí.

Fui para internet me informar um pouco melhor, afinal parecia uma história meio mal contada. O que lia não batia com as imagens. Uma morte sem cadáver, uma mansão luxuosa de um milhão de dólares que mais parecia um barracão, uns muros merreca que qualquer assaltante carioca pularia sem problemas expostos como se fossem fortalezas medievais. Menos, né? Realmente, acho que a grande dificuldade era sua localização e a garantia de uma operação sigilosa até o último momento.

Fico dividida. Por um lado, não há como negar que o 11 de setembro mudou para pior a vida do mundo ocidental e sim, lógico que Osama teve muito a ver com isso. Mas uma execução é uma execução e sempre me choca, independente de que lado venha. Não tenho pena nem tristeza por ele, muito menos penso que não foi justo, só não sinto vontade de comemorar.

De certa forma, hoje fomos obrigados a reviver em fast foward uma década de tristeza referente aos ataques, não só nos EUA, mas toda uma onda de mortes e violência de todos os lados. Porque dia 11 foi só um começo marcado, me lembro desse dia, sei onde estava e com quem estava e como parecia irreal e distante da minha vida. Pois na semana passada, reconheci o local do último atentado em Marrocos (28 de abril), já almoçamos exatamente ao lado de onde a bomba explodiu. El último camello de la fila camina tan deprisa como el primero, o que toca a um, toca a todos.

Que ao menos seja o fim de um ciclo ruim. Liberdade deveria ser vida, não morte. Amanhã começará outra guerra, infelizmente, mas espero que essa noite as pessoas possam ter um pouco de paz.

Semana Santa, que de santa não teve nada!

Respeito a crença de cada um, mas não sou religiosa. Para ser bastante sincera, gosto da Semana Santa simplesmente por ser feriado.

Na Espanha isso é coisa séria, saem umas procissões que  na minha opinião são bem assustadoras. O povo usa aqueles capuzes tipo ku klux klan, pagam penitência, se chicoteiam, andam descalços pela rua, levam santos pesadíssimos nas costas para lá e para cá… um festival de horrores! Não passo nem perto, mas gosto é gosto e fé é fé.

Enfim, nosso feriado começou na quarta-feira, quando fomos conhecer um lugar perto de casa chamado Olé Lola.  Achei bem legal, tem um ambiente charmoso, iluminação confortável, com drinks e comidinhas. Isso no Brasil pode ser lugar comum, mas aqui não. À noite, ou você sai para comer, em um restaurante, ou para beber, em um bar. A grande maioria dos bares, com raras exceções, não tem nada à noite que você possa beliscar, é basicamente bebida.

Portanto, chegamos, tomamos nossa garrafinha de vinho e beliscamos várias coisas para conhecer o cardápio. Acabou o vinho e fiquei olhando o bar. Falei com Luiz que queria rever o fato de não gostar de drinks. É que sou de bebidas puras, nunca gostei muito de misturar nada. Gosto de vinho, whisky e cachaça, pronto. Os drinks sempre me parecem doces e enjoativos demais. De qualquer maneira, não gosto de me limitar em sabores e resolvi que é hora de rever esse conceito. Luiz tomou a frente e tratou de me convencer que nem todos os drinks são doces. Foi conversar com o barman para escolher uma bebida para mim.

Só vejo o barman dar aquela olhadinha para meu lado, e claro que a primeira coisa que ele interpreta é que eu deveria gostar de alguma coisa levinha e docinha. Luiz explicou para ele, veja bem amigo, não! Ela toma whisky cowboy! Desafio lançado, ele comprou a briga, ok, deixa que preparo algo especial.

Não é que gostei? Mudei um pouco minha atitude em relação ao que esperar, mas não me decepcionei, nem era docinho nem levinho. Acho que chamava Good Old Days, ou algo do gênero, com sabores destacados de whisky e laranja. Depois me animei e quis provar algo com vodka negra, mas daí já não gostei tanto porque a própria vodka é um pouco doce, com sabor de ameixa. Enfim, novas portas abertas, agora é descobrir caminhos.

Chegamos em casa e não sei porque me pareceu uma excelente idéia me atracar compulsivamente a uma caixa de chocolates! Putz, para que? Além da culpa, isso me enjoou terrivelmente no dia seguinte pela manhã, quando a propósito, precisávamos acordar cedo.

Churrasco marcado para começar às 11 horas (Por que? Por que?) e fora de Madri. Levantei bravamente, com aquele gosto enjoado de chocolate na boca, além de que certamente a quantidade de álcool misturado não deve ter feito nada de bom ao meu organismo. As curvas do caminho então… afê!

Chegamos na casa dos nossos amigos e a primeira coisa que fiz, após cumprimentar as pessoas, desculpe o desabafo escatológico, foi dar uma vomitadinha básica e colocar para fora aquele absurdo de açucar! Pronto, minha vida mudou e fui uma pessoa muito mais feliz!

O dia foi uma delícia! Estava previsto uma quinta-feira de chuva, o que até aconteceu, mas também abriu um sol delicioso e não previsto que deu para queimar o musgo e levantar o astral. Somos um grupo de exagerados, então é lógico que havia comida para três festas, mas demos conta do recado. Levamos instrumentos de percussão e também aproveitamos para tocar e cantar um pouco.

Uma parte das pessoas ficou para dormir, nós voltamos com mais um casal e uma amiga. Foi nosso amigo que dirigiu, ele não bebe e assim Luiz podia ficar tranquilo e todos voltarmos em segurança. Bom, porque chovia a rodo!

A sexta-feira foi mais tranquila. Cheguei a ligar para alguns lugares para ver se estavam abertos para jantar e nada. Pensei em dar uma voltinha à noite, porque sempre se encontra algo. Luiz tratou de me enrolar com a irresistível proposta de acordarmos cedo no dia seguinte para fazer compras em um outlet de marcas. Foi golpe baixo, mas entubei, também queria ir lá.

Sábado, fizemos compritas e passamos um dia calmo, até receber um convite: 19:30 na casa de um casal de amigos. Nesse horário, marcado sem antecedência, só podia ser algo levinho, né? Se nós não fôssemos quem somos, claro! Porque logo o anfitrião colocou uma mesa de montar no meio da sala e ficou com pinta de boteco. O amigo músico puxou o violão, o outro a gaita, um cajón, um tamborim e um caxixi, confusão montada! Em que país a gente estava mesmo? Após colaborar com o consumo de quase três garrafas de cachaça, cerveja (não para mim, que não tomo), tacos mexicanos, calabresa acebolada, quibe e otras cosillas más, voltamos para casa nem sei que horas!

Um amigo que é câmara e estava na festa de boteco, nos convidou para assistir o jogo que ele ia filmar no dia seguinte. Achei o programa super diferente e daria uma ótima crônica assistir um jogo ali bem de pertinho, junto à imprensa. Infelizmente, se para eu acordar no domingo estava complicado, para Luiz estava impossível. Acordou passando mal, coisa rara de acontecer. Acho que o fígado dele devia estar pedindo arrego! Resultado, não fomos, ficou para uma próxima vez. O mais radical feito àquela noite foi tomar uma canjinha.

Na segunda-feira, acordei cheia de culpa. Aliás, “cheia” seria uma boa definição, estava era gorda mesmo! Depois de todos esses abusos, a balança se mexeu para o lado que não me agradava. Quer saber, vou começar a correr hoje!

Já havia um tempo ensaiando, mas sempre acontecia algo que logo virava uma desculpa e não ia. Na segunda, nem a chuva fraca me parou, it’s now or never! Fui. Só que primeiro, não sei correr, posso andar rápido como uma louca, mas quando corro perco o fôlego. Na verdade, acho que  não sei respirar direito. E depois desse feriadão, imagina, tinha a beleza, leveza e graça de um cruze de hipopótamo com albatroz. Tudo bem, tenho que começar de algum lugar. Fui alternando um pouco corrida e caminhada. Voltei com um pouco de dor no meu joelho mais fraco, mas satisfeita por ter feito alguma coisa para mudar. Hoje tem pilates, que estou adorando, só que não emagrece, é outra história. Então, vou tentar correr (ou andar muito rápido) nas segundas, quartas e sextas; e continuar com o pilates nas terças e quintas. Se conseguir fazer isso só essa semana, sei que nas próximas será mais fácil seguir. Coragem, Bianca, coragem! No pain, no gain!

Preciso me esforçar, porque desse jeito, como é que vou caber no vestido para a festa de casamento do William e da Kate? Íntima como sou da família real, não posso fazer feio…

Madri e sua noite incomparável

E a vida seguiu movimentada, principalmente, pelas noites madrileñas. Diga-se de passagem, apesar do planeta já saber, tenho lá minhas queixas em relação à Madri, como a qualquer outra cidade, mas a noite aqui é imbatível. Seja pelo prisma que você olhar, opções, preço, segurança, animação, qualidade da bebida (e quantidade também)… O único defeito era ser muito esfumaçada de cigarro, coisa que agora felizmente também já vem se corrigindo.

Outra coisa que é bastante comum por essas bandas, quando salimos de marcha, é não ficar em apenas um lugar. As casas tem horários de pico diferentes e a gente vai montando uma colcha de retalhos divertida pela madrugada do melhor local para aquele momento. E morando aqui no centro, com um bar ao lado de outro, é correr para o abraço!

Normalmente, saímos só nos fins de semana, Luiz acorda muito cedo para trabalhar. Mas a rua está cheia todos os dias e não é raro ele se deparar com o povo com cara de ressaca chegando, quando ele está saindo de paletó e gravata! Bizarro!

Prefiro muito mais sair com ele, assim que, mesmo não tendo a obrigação de acordar tão cedo, costumo seguir sua rotina, com algumas exceções. Uma delas na semana passada, foi aniversário do Kabocla, bar que frequentamos e, de qualquer maneira, Luiz tinha um jantar de trabalho e nem estaria em casa.

Pensei, conheço um monte de gente mesmo e não me incomodo em falar com estranhos, vou sozinha! Toda independente! Depois que falei que ia, confesso que me desanimou um pouco esse negócio de ir só, é chato, né? Mas estava decidida e na pior das hipóteses, se não me sentisse à vontade, voltava. Acabou que uma amiga me ligou dizendo que ia também, beleza! Nos vemos por lá. Por via das dúvidas, levei meu caxixi, vai que me deixam tocar… É engraçado, porque minha bolsa sai fazendo barulho de chocalho e parece que levo um guizo pela rua para não me perderem, mas tudo bem. Os instrumentos, ainda que não os domine, me funcionam como amigos. Também não domino meus amigos e não me importa, não é necessário. Talvez sejam amuletos, o fato é que me fazem companhia. Prefriro meu djembe, que é mais forte, se estou eu e meu tambor posso tudo, mas com meu caxixi estava bem acompanhada.

Não demorou muitos segundos até encontrar rostos conhecidos e em minutos estava à vontade. E quando a banda, amigos de sempre, me chamaram para acompanhar, me senti bem vinda e fui para o meu canto aprender. Acho um privilégio conhecer tanta gente legal e simplesmente relaxo, disfruto e toco o que estiver ao alcance.

Pelas três da matina, volto eu a pé, sozinha pela rua, me sentindo bem. Sem medo, sem culpa, livre. Isso não é o máximo? Deve haver luxos e drogas mais intensas, mas para mim liberdade é especial e para poucos.

Na sexta saímos juntos para um show de um amigo na Bogui Jazz, uma sala que ficou fechada muito tempo nem sei porque, mas que os músicos tem muito carinho, por algum motivo será.

Fui pela primeira vez e pretendo voltar. Preciso dizer que a acústica de modo geral nos lugares por essas bandas é bem ruim. Mesmo no El Junco, que amo pelo ambiente e pela seleção musical, deixa muito a desejar. Pois o Bogui Jazz tem seus méritos técnicos, o que já interpretei como respeito.

Depois veio um show impecável de um amigo, que adorei! Fomos bem iniciados na casa. O interessante é que o acaso nos favorece. Chegamos cedo, pegamos uma mesa pela lateral do palco. Daqui a pouco chega nosso amigo que vai tocar e nos apresenta uma amiga que iria dar uma palhinha e nos pergutou se nos incomodávamos se ela ficasse pela nossa mesa. Claro que não! Chegaram mais duas meninas e se juntaram, não tínhamos nem idéia que uma delas era filha do amigo que tocava e também daria uma palhinha. Resultado, ficamos na mesa dos músicos! Maravilha! Encontramos conhecidos e ainda fizemos amizade com o garçon, que descobrimos que era brasileiro! Resumo da ópera, amigos novos e mais um lugar muito legal para frequentar.

De quebra, um insight interessante, observando a percurssionista, me dei conta do que porque gosto tão mais de percussão. Porque conceitualmente, é como cozinhar você vai adicionando os temperos e é possível corrigir. Há mais de intuição do que matemática. Não é patisserie. Fiquei contente com essa descoberta.

Dia seguinte, não podíamos acordar muito tarde pois havíamos combinado um almoço. E era um filet à parmegiana, vamos combinar que o assunto era sério! Não é que estivesse bom, estava di-vi-no! Me atraquei com a carne coberta de mozzarela e um arrozinho criminoso! Na sequência, fomos para uma terraza papear e ver o tempo passar.

Quando chegamos em casa, Luiz se enfiou debaixo das cobertas para que não restasse dúvida em relação se sairíamos àquela noite! Nem me atrevi a falar nada e me enfiei nas cobertas também! E não foi nada mau!

Dupla personalidade… digo, cidadania

Cheguei em Madri no dia 6 de abril de 2005 e cravados seis anos depois consegui minha cidadania espanhola. Jurei a bandeira exatamente em 6 de abril de 2011. Nada a ver com o processo, foi a mais pura coincidência, que para ser mais curiosa ainda, cai justo no aniversário do meu irmão.

E assim, da noite para o dia, era tudo tão igual e ao mesmo tempo completamente diferente. Renasci. Exagero? Prometo que não, um dia você é uma pessoa e no outro acorda diferente, uma cidadã.

Essa gigantesca diferença está em um fator bastante simples chamado oportunidade. Ter uma oportunidade não te dá nenhuma garantia, mas te abre uma porta para poder realizar se realmente quiser. E isso faz toda a diferença do mundo, porque te faz livre.

Tenho a sorte de possuir vocação para a felicidade, mas confesso que nos últimos três anos, por uma série de fatores, ela tem sido muito mais uma opção do que um fator espontâneo. Porque muitas vezes ser feliz é uma escolha que você pode tomar ou não. Pois agora, estou feliz porque sim, nem precisei escolher ou fazer força. E não importa por quanto tempo dure, porque a vida é assim e nunca tive a ambição que essa sensação fosse eterna.

Simplesmente, me sinto livre. É possível que a gente mude ou se mude, ou talvez siga estando exatamente no mesmo lugar, tudo bem. Mas agora essa decisão é minha (nossa). E isso é muito bom, essa é a minha natureza, é onde sei quem sou.

Só tem um probleminha, como passei a ter dois aniversários, sou uma brasileira de escorpião e uma espanhola de áries, fala sério, combinaçãozinha dos infernos! Vou ficar insuportável!

Nascendo outra vez em outro país!

Hoje é dia 6 de abril de 2011. Pela manhã, juramos fidelidade à bandeira espanhola! Agora, oficialmente, além de múltipla personalidade, também tenho dupla cidadania!

Na prática, foi bem simples, estava marcado para chegarmos às 10h30, mas chegamos antes, umas 10 horas. Entregamos o protocolo na entrada e nos enviaram diretamente para uma outra sala com mais gente, umas 50 pessoas, talvez um pouco menos. Antes da hora marcada, pelas 10h15, um funcionário que parecia um juiz levantou e pediu para repetirmos em grupo o juramento, que era um parágrafo curto dizendo algo como: prometo respeitar a constituição e o rei de Espanha. Pensei que ia achar cafona, mas na verdade achei bem legal, deu um toque solene de ritual. Em seguida, ele chama um por um para assinar um papel e só, resolvido.

Agora é esperar a nova certidão de nascimento, que chega pelo correio, em um prazo aproximado de três meses. E sim, teremos uma nova certidão de nascimento espanhola, o que me dá muito em que pensar. Depois devemos ir com essa certidão para tirar nossa identidade como cidadãos espanhóis, o DNI, e, finalmente, com o DNI poderemos tirar o passaporte. Pequeno detalhe, depois de tirar o DNI também nos casaremos outra vez aqui!

Portanto, não, ainda não acabou, mas para mim é como encerrar um ciclo. Daqui para frente é só papel, mas o fato já está consumado.

O processo foi iniciado há mais de três anos, enfim, toda uma novela! Com tanto tempo de expectativa é difícil absorver tudo em um só dia. Porque não é apenas a burocracia da obtenção de um documento, mas todo o entendimento e incorporação de uma cultura, com o que há de bom e de mau em todo o trajeto. E é nesse sentido que para mim hoje se encerra um ciclo importante.

Em todo esse tempo me senti bem dividida, um pouco como cidadã de canto nenhum. Hoje me sinto adicionada, aprendi a ter mais de uma pátria e estou aberta a outras ainda, se vierem. Incluindo a minha de origem, onde já não sou a mesma brasileira. Não dói mais e mudanças boas também podem doer no começo. A palavra imigrante já não me ofende, porque há muito não caibo em uma descrição tão pequena. Ninguém deveria caber e também é culpa de quem veste a carapuça.

Na semana passada, quando a data de hoje foi marcada, saí do local feliz e leve como um passarinho. Hoje estou feliz também, mas de uma maneira muito diferente, mais séria, lúcida e emocionada. Porque fins de ciclos são pequenas mortes. E é bom que sejam, porque as limitações, que nos encurralam no início de cada um desses ciclos, logo se tornam hábitos e depois confortáveis desculpas. Até que você se perde um pouco entre o que você é e o que poderia ser se…

Muitas das minhas limitações estão prestes a acabar, em consequência, também minhas desculpas. Não tem mais “se”. A Jovem vem aí e o bicho vai pegar! Ainda bem que eu sou flamengo, mesmo quando ele não vai bem, algo me diz em rubro-negro que o sofrimento leva além e não existe amor sem medo.

Para o ritual de passagem, completei minha tatuagem, a que sempre deveria ter sido, mas eu não estava pronta.

Quando a gente é criança é gostoso se fantasiar, adutos também, é que quanto mais jovens, mais livres somos para não só viver um personagem, mas acreditar nele. Meninos costumam adorar se vestir de super-heróis e mudam até a postura para andar com suas capas e poderes fantásticos. Não saberia garantir, mas quase aposto que muitos rapazes fazem escondido as poses do homem-aranha fechados em seus quartos e sem testemunhas. Bom, espero que sim, me sentiria menos louca.

Enfim, quando era criança, tinha umas asas de anjo. Não me lembro como chegaram em casa, provavelmente complemento de alguma fantasia que se perdeu, mas as asas ficaram e eu era completamente alucinada por elas. Assim como os meninos iam com suas armas de brinquedo, eu ia com minhas asas para todo lado. E nenhum dos meus amigos imaginários achava estranho!

Outro dia, vendo um desses filmes antigos, gravados em super 8 (para quem ainda se lembra o que era isso), me vi em um aniversário. Todas as crianças arrumadinhas, eu também, bem arrumadinha. Daí eu me abaixo para apagar as velas e lá estão elas: minhas asas é claro! Quase me esborrachei de rir da completa falta de noção em achar que estava super natural. Bom, estava quase sobrenatural, mas tudo bem.

A idade, o bom senso e a vergonha tomaram seu curso e em algum momento, deixei minhas asas para lá. Ainda que, admito, mesmo adulta sempre que tinha uma oportunidade, dava um jeito delas voltarem em uma festa à fantasia ou na estampa de uma camiseta.

Pois agora estão cravadas na minha pele. Minhas asas estão tatuadas e de agora em diante posso carregá-las comigo para todo lado. 

Se eu posso ter nova certidão de nascimento é porque posso nascer outra vez. Se o fim de um ciclo é uma morte, o começo do próximo é ressurreição. Para cada fênix, seu par de asas! E agora, finalmente, tenho as minhas.

Um desses dias em que tudo dá certo

Há nem me lembro quantos meses, mas acho que foram bem uns oito, recebemos a data do governo para confirmarmos que queremos mesmo a cidadania espanhola concedida. Caía em primeiro de abril, dia da mentira. Parecia piada!

Temos um escritório de advocacia acompanhando o caso e tentamos de toda maneira adiantar essa data, e nada! Luiz fez um segundo contato com outro advogado que talvez conseguisse, mas que não havia dado mais notícias. Ficou por isso mesmo.

Essa reunião consiste em simplesmente ir ao departamento responsável com seu NIE (documento espanhol para estrangeiros) e a carta de concessão da nacionalidade. Daí eles marcam para você jurar a bandeira, ou seja,  prometer fidelidade ao rei e a constituição. O que na prática, acho que é assinar um papel. Muito bem, atualmente, entre essa reunião de primeiro de abril e a seguinte, leva mais uns três meses, depende muito da quantidade de gente sendo atendida. Portanto, essa era a nossa expectativa.

Luiz tirou o dia de folga, para nem se estressar com possíveis atrasos ou problemas. Acordamos cedo, nos arrumamos, tomei café com o que era possível passar pela garganta e lá fomos nós, de taxi. Marcamos com a advogada no local.

Um dia lindo! A melhor temperatura do ano e um sol de primavera simplesmente perfeito! Bom presságio, dias assim me deixam em um bom humor fenomenal. Segundo observado pelo Luiz, apesar de estar meio apreensiva, estava sorrindo.

Literalmente dentro do taxi, a caminho do local, toca o celular. Lembra do tal advogado que talvez conseguisse apressar a data? Pois é, era ele. Luiz explicou, mas já é hoje, estamos justamente a caminho de lá. Então ele pediu que a gente esperasse um pouco que ele ia ligar para lá. Nos entreolhamos com aquela cara de será? Daqui a pouco, o celular toca outra vez: procura a fulana, ela conhece seu expediente e tem uma brecha de data na semana que vem.

Bom, maravilha! Tudo que pode ser adiantado, nos ajuda um montão. Estamos tão acostumados a ser escaldados que nem queria muito me animar. Vamos um passo de cada vez. Além do mais, havia nossa advogada lá nos esperando e como a gente conta essa história sem criar nenhum conflito?

Para variar, chegamos cedo. Nós somos sempre adiantados com tudo. Ficamos na esquina tomando um solzinho para relaxar um pouco, enquanto esperávamos a advogada e imaginávamos como dizer o que para quem.

Daqui a pouco, liga nossa advogada, estava completamente enrolada e não conseguiria chegar a tempo, mas havia uma outra advogada do mesmo escritório no local que nos acompanharia. Veja bem, em outras circunstâncias, isso poderia ser um problema, mas a gente achou ótimo, porque a advogada que nos atenderia parecia novata e não iria fazer tantas perguntas. Simplesmente dissemos que tínhamos um conhecido que nos indicou falar com fulana, porque ela já tinha nosso expediente. E assim foi!

E não é que a fulana existia mesmo? E não é que ela conseguiu nos agendar para semana seguinte? E justo no dia do aniversário do meu irmão, dia 6 de abril. Que para quem não sabe, por alguma razão cósmica, bate sempre com alguma mudança positiva nossa. Excelente presságio!

Entre nós, vou confessar uma coisa, foi a primeira vez que minha ficha caiu mesmo que terei dupla cidadania. Preciso admitir que sentir concretamente que também seria espanhola me deixou feliz. Estava até meio emocionada, mas segurei a onda, afinal, preciso exercitar minha mala leche!

Ajuda muito o fato de não precisar perder nossa cidadania anterior, gosto de ser brasileira e é sempre melhor adicionar.

Cheguei em casa, liguei para meus pais para contar as novidades: agora tenho dois aniversários e vou casar outra vez aqui na Espanha! Maravilha, mais motivo para festas.

Como disse, Luiz tirou o dia livre, resolvemos aproveitar e saímos para almoçar bem! Fomos a um restaurante italiano ótimo aqui perto de casa, o Più di Prima.  Um vinho italiano para variar um pouco e celebrar.

Para completar a perfeição do dia, era sexta-feira! Ou seja, sem preocupações em acordar cedo no dia seguinte. Portanto, óbvio que queria sair à noite para seguir no alto astral e não foi preciso pensar muito para decidirmos ir ao El Junco. Era o show de uma conhecida e emendamos por lá mesmo. Encontramos os amigos queridos e já estava quase amanhecendo quando voltamos para casa!

Faz tempo que não tenho um dia em que sou tão feliz por tantas horas seguidas! E por dias assim, agradeço. Que venham muitos mais e que possa compartilhá-los!

E haja garganta!

Chegou a primavera! Com ela, um festival de alergias, como de costume. Eu me tornei alérgica em São Paulo, já era adulta e nem posso reclamar porque a minha não é das piores. Mas olho em volta e está todo mundo meio mais ou menos. Quando foi que o planeta se tornou tão alérgico? Até meu gato tem asma!

Felizmente, não deixo de fazer as coisas, mas minha garganta está um lixo! Tenho uma porcaria de uma tosse seca (alérgica) que não me deixa livre por meses, é realmente um saco!

Essa semana temos uma das últimas reuniões com o governo, para acertar nossa cidadania espanhola. Não temos certeza absoluta se já juraremos a bandeira ou será marcado o juramento. É mais provável que seja só marcado o juramento. Confesso que isso também tem me deixado ansiosa. Vou tocando o barco porque não dá para parar a vida, mas é difícil não passar pela cabeça de vez em quando. Como pode um pedaço de papel ser capaz de mudar tanto sua vida? Uma dia você não pode e o outro você pode, mas você segue sendo a mesma pessoa.

Conto isso porque acredito que minha tosse só vá passar depois dessa etapa superada. Antes preciso que esse sapo se desentale da minha garganta!

Por outro lado, falando em garganta, o canto tem surgido no meu caminho novamente. E com ele, o gosto pela percussão.

Em uma das últimas festas a gente soltou a voz e bateu a vontade de resgatar o coral. Vamos tentar, acho que pode ser bacana e tenho saudades de melhorar a voz. Minha amiga cantora também me chamou para uma palhinha em um show e estou amarradona! Ou seja, preciso acabar com essa tosse urgente!

Quanto à percussão, parei de ter aulas e para ser sincera, acho que dei uma estacionada. Mas agora, também nas últimas festas, rolaram umas batucadas ótimas! É a hora que aproveito para me misturar com quem sabe tocar e pegar alguma manha, do tipo monkey see, monkey do. Ajuda muito quando tem profissionais puxando, principalmente um violão bem tocado. Sem falar que os amigos são legais e dão a maior força. É verdade que onde todo mundo se conhece o risco do erro é bobagem, não atrapalha tanto (espero!).

E viva a tolerância dos vizinhos! 

Enfim, é primavera! E apesar dos seus pesares, adoro quando ela chega. Os dias começam a se alongar e a temperatura ameniza. Ainda está frio, porém não me queixo; gostaria de um pouco mais de sol, mas já chegará.

Uma celebração de boda e dois aniversários

O fim de semana foi bastante movimentado. Na sexta-feira, a festa dos nossos 17 anos de casados. No sábado, o aniversário de 50 anos de uma amiga. Ou seja, muitos anos juntos prometendo celebrações de peso. No domingo, ainda tínhamos dois convites naturebas para picnics, mas passamos porque ninguém é de ferro! E na terça, para completar, mais uma festinha surpresa!

Começando pela nossa festa, como contei antes, foi decidido meio que às pressas. Chegamos de Viena no domingo bem cansados e com a casa vazia de compras, tinha que providenciar tudo. Sem falar do eterno glamour de volta de viagem, onde você tem cestas e cestas de roupa suja para dar cabo! Mas enfim, todo o planeta sabia que os dias iriam passar e eu iria me animar, então, contei com a antecipação do ânimo para convidar as pessoas e confiei no caos.

Não inventei muita moda para não me complicar. Dei peso aos queijos e frios, comprados perto de casa no Mercado de Barceló, que aliás estou fã! Tudo de qualidade excelente e muito fresco! Admito que é Luiz quem me motiva a ir por lá, porque se depender de mim, fico com preguiça de carregar as coisas e peço tudo pela internet!

Bom, acabei fazendo mais algumas coisinhas: canapés de chalota caramelizada com maçã e de ovos de codorna com caviar; salmão defumado; quibe; molho de yogurt com pepininhos; creme de aspargos e batatinhas, frutos secos, azeitonas, enfim, nada que fosse muito trabalhoso, mas que ficasse gostoso e houvesse fartura. O pão tem que ser da Le Pain Quotidien e encomendei um bolo com uma amiga que é fera.

Convidamos os amigos que cabiam em casa e voilà: festa express!

 

Como sempre, tudo de bom, alto astral e batucada improvisada. Ainda nos faz falta um violão que puxe, mas fazemos o possível e a gente se diverte. O importante é celebrar esses momentos e não deixar passar em branco. Porque as tempestades nos dão um tempo, porém mais cedo ou mais tarde chegam para todos e precisamos ter as baterias recarregadas. Boas memórias funcionam como amuletos poderosos nos momentos difíceis. Que eles demorem bastante a chegar e quando cheguem, tenham sua intensidade reduzida dentro de uma perspectiva maior.

 

Pois bem, casa devidamente energizada e os últimos convidados se foram pouco depois das 5 da manhã.

Sábado estávamos mortinhos da silva, mas coragem que tem festão à noite para ir! E até mais fácil, porque não tínhamos que organizar nada!

Muito bem, a festa era de uma amiga que fazia 50 anos. É engraçado como essa data tem um peso forte, não tinha me dado conta do quanto ela está próxima até esse último fim de semana. Caminho para os 42 anos, já não está tão longe assim. Enfim, reconfortante saber que essa amiga comemorou os seus aninhos fechando um bar, com música ao vivo e tudo! Tribos distintas e que bem se relacionaram.

Da banda contratada, dois dos três músicos estavam na festa aqui de casa no dia anterior batucando, de maneiras que Luiz e eu fomos chamados para contribuir no caxixi, e lá fomos para o palco canjear. Tamanha intimidade, parecia até que também éramos parte da banda! Também, todos amigos, ninguém estava se importando muito!

O pessoal do coral estava por lá e no final da apresentação da banda a gente se animou a cantar um pouquinho. Há alguns meses não nos reunimos, demos um tempo do coro, essa palhinha despertou vontade na galera de voltar. Mas essa é uma outra história que conto depois.

 

Não me lembro exatamente que horas nos fomos, esperamos o parabéns e Luiz me pediu arrego!

Domingo, morgação total! Não colocamos nem o nariz na rua! Foi quando aproveitei para dar a notícia ao Luiz: terça-feira temos uma festa surpresa para ir! Ele me olha com aquela cara de desespero: outra? Calma, essa é cedo, às 19:30 no Kabocla!

Na terça ele conseguiu não chegar tão tarde do trabalho, já estava pronta e com o presente esperando. Felizmente, o Kabocla fica a uns 5 minutos caminhando da nossa casa.

Olha, eu tenho implicância com festa surpresa, não vou negar. Aliás, surpresas de modo geral, quase todas são estressantes ou dão confusão. Mas essa, juro que achava que daria certo desde o início. É que o aniversariante é muito boa praça, do tipo que se encaixa em qualquer programa com a maior tranquilidade.

E assim foi, festa ótima! Música excelente, ainda que os convidados não estivessem prestando muita atenção. É que em festa as pessoas se distraem, é normal, mas para mim é o oposto, é quase impossível não notar se a música é boa. Da mesma maneira que a música ruim me deixa agoniada e com vontade de sair logo do ambiente, não consigo abstrair, o que felizmente, não era o caso. Não saímos muito tarde, antes das 23h estávamos em casa. A maioria das pessoas também não esticou muito, exceto pelos amigos artistas e músicos, o resto trabalha cedo.

Hoje é sexta-feira, ainda não sei se faremos alguma coisa mais tarde, mas acho difícil. Luiz acordou às 4 da manhã, foi trabalhar em Bilbao ou algo assim. Acho que vai chegar morto, mas nunca se sabe… Às vezes, uma descansadinha e ele anima. Mas não vou insistir porque amanhã tem outro aniversário de uma amiga!

Todo mundo resolveu fazer festa de aniversário? Que bom!

De volta a Viena

Pegamos novamente a estrada em direção à Viena, afinal, tínhamos entradas para uma Ópera que começava às 19:30h. Foi o tempo de chegar no hotel, deixar as malas, trocar de roupa correndo e tocar para o teatro.

A ópera era “La Sonnambula”, de Vicenzo Bellini. Dessa vez, finalmente conseguimos um bom lugar sentados e não precisamos sofrer na geral. Eu adorei a experiência! O teatro é lindíssimo e é o máximo você ter os músicos tocando ao vivo. Mas preciso confessar uma coisa, imagino que a intenção do Bellini era escrever uma obra intrigante e dramática, acontece que a história me pareceu uma grande comédia e tive que controlar o tempo inteiro a vontade infantil de dar gargalhadas.

É o seguinte, trata-se do dia do casamento da Amina com o Elvino, um casal extremamente apaixonado e exultantes de felicidade ingênua e amor puro. Ou seja, dois chatos! A vilã é a Lisa, que trabalha no hotel onde eles vão se casar e tem um olho no Elvino, ela morre de inveja da Amina e acha que ela é que devia casar-se com ele. Suas caras de despeito durante a ópera é o que há de melhor! Começa com a festa que antecipa o casamento que será no dia seguinte. Muito bem, o Elvino já chega atrasado porque parou no túmulo da mãezinha dele e chega na festa com o retrato da falecida, desejando que a Amina seja tão boa como sua mãe, que tenha todas as suas virtudes e o faça tão feliz quanto ela fez ao seu pai. Hein? Como é que é? O cidadão chega para casar dizendo que quer que você seja igual a mãe dele? Vamos combinar, um babaca, né? Mas tudo bem, a chata da Amina acha tudo lindo.

Bom, no meio da festa chega um tal de um conde, muito mais gato que o Elvino e com pinta de canastrão italiano. Ele dá um certo mole para a Amina, que se comporta como uma lady, mas o Elvino morre de ciúmes. Cá entre nós, ele bem que merecia o chifre, mas a pateta da Amina é louca por ele e é toda compreensiva pedindo que ele confie nela e no seu infinito amor.

Daí todo mundo vai dormir e só fica a Lisa e o Conde. Rola um clima entre os dois, se dá a entender que rolou alguma coisa mais até que se ouve um barulho, a Lisa se assusta, sai correndo e deixa uma meia e um sapato no quarto do conde.

O conde vai ver o que está acontecendo e resulta que a Amina é sonâmbula e aparece toda fresquinha de camisola para o canastrão do conde. Ele se sente tentado em se aproveitar da situação, mas como um cavalheiro se sente comovido porque a Amina mesmo dormindo só fala do seu casamento com o amado Elvino. Por isso ele não faz nada, só espera ela terminar de se deitar no chão, a cobre com seu casaco e vai embora. Fala sério, não rolou nem uma mãozinha boba? Duvido! Historinha para boi dormir, né? Eu acho que a Amina estava bem é se aproveitando e tirando uma casquinha do conde. Mas vá lá…

A canalha da Lisa está assistindo tudo e quando o conde termina de cobrí-la com seu casaco, corre para acordar o Elvino e todos do hotel. Quando eles chegam e encontram Amina ali, com suas roupas íntimas e coberta com o casaco do conde é aquele bafão!

O idiota do Elvino tem um ataque de piti (essa coca é fanta!), desiste de casar com a Amina e sabe o que ele faz? Substitui a noiva! Chama a Lisa para se casar no lugar dela.

A otária da Amina sofre inconformada e vai dormir! Hã? No meio desse bafafá ela vai dormir?

Durante a celebração da festa dos novos noivos, a dona da hotel, que é como uma mãe para Amina, desmascara Lisa e diz que encontrou sua meia e seu sapato no quarto do conde! Outro bafão! O imbecil do Elvino consegue ser corno duas vezes na mesma noite!

Muito bem, o conde resolve esclarecer aquela história e conta que Amina é totalmente inocente. Ilustras os convidados sobre o sonambulismo. Esses não acreditam nessa historinha (nem eu).

Mas de repente… lembram que a Amina foi dormir? Pois é, aparece a Amina sonâmbula, com o mesmo sonho idiota sobre o Elvino. Como ela o ama…. que ele é o único da sua vida… que deseja que ele seja tão feliz como ela é triste agora (blarg!)… blá blá blá… aliás, lá lá lá…

E assim, fica provada a inocência de Amina. Elvino volta a querer casar-se com ela e tudo fica resolvido!

Tudo bem, pieguices à parte, eles cantam para caramba e os  músicos são fantásticos! Assim que valeu!

Saímos de lá famintos! Mas não tínhamos nada reservado. Havíamos passado por um lugar chamado The Ring que pareceu interessante e depois de rodar daqui para lá, decidimos tentar. Outra surpresa agradabilíssima! Seu restaurante, o At Eight é comandado por um chef super jovem e promissor. Fechamos a noite com chave de ouro, destaque para o prato principal, um mar e terra, coelho com panquequinha de lagosta de correr para o abraço!

Dali nos despedimos de nossos amigos. No dia seguinte eles seguiriam para Milão e nós teríamos mais um dia na cidade.

Acordamos com calma e fomos devolver o carro. Na volta, já ficamos passeando pelo centro. Aproveitamos para visitar uma exposição de fotografias da Trude Fleischmann no Wein Museum e bater perna sem grandes compromissos.

No jantar, queria chutar o pau da barraca e conseguimos uma reserva no Imperial. O restaurante é um pouco formal e vale ir mais arrumadinha, o atendimento é bastante gentil e te deixa à vontade, aliás como de maneira geral na Áustria. Comi um tartar de caranguejo dos deuses e um chateaubriand deliciosamente mal passado.

Viagem muito bem encerrada! No domingo, nosso vôo saía pelas 15:00hs. Assim que tínhamos tempo de acordar com calma, tomar nosso café e sair devagar para o aeroporto.

No check out, minha única má lembrança da Áustria, o completo desrespeito às filas. Sério, nunca vi nada parecido, tanto na estação de esquis quanto na cidade, nunca vi tanta gente ter tão pouco respeito às filas. Nesse sentido, são mal educados pacas! Contrasta com a gentileza que se encontra de modo geral. Não se respeitam as filas nunca! Não estava afim de me aborrecer e confesso que levei um tempo para sequer acreditar em tamanha cara de pau. Mas agora que sei do que se trata, se houver uma próxima vez, estou preparada para ser grossa! Mas tudo bem, como diz uma amiga minha, respira azul Bianca!

Lá fomos nós para o aeroporto, com saco para pegar uma conexão em Milão. Na sala de espera e com as malas despachadas, descobrimos que o vôo estava atrasado e, consequentemente, seria impossível seguir na conexão prevista. Fico eu na sala de espera e sai Luiz para ver o que consegue.

Volta ele dizendo que conseguiu nos trocar de vôo, agora iríamos via Frankfurt e tínhamos que correr para embarcar em uma sala ao lado. Mas nossas malas não vão para Milão? Aparentemente, eles trocariam a bagagem de avião. Ah, tá…

Parênteses: lembram que na ida tínhamos excesso de bagagem, né? Então, na volta resolvemos trazer uma mala de mão, com 10 kg. O que costuma ser a média de peso para bagagem de cabine. Na hora de embarcar, descobrimos que não eram 10 kg e sim 8 kg, coisa que ninguém daria tanta bola, a não ser o infeliz do filho de mãe na zona que nos embarcou e resolveu nos tomar como exemplo e pesar a bolsa na hora de entrar no avião! Senhor, sua bagagem tem 2 kg a mais, precisa entregar na porta do avião para eles despacharem. Luiz ficou com aquela cara de quem ia socar o indivíduo. Eu confesso que nem achei tão ruim, me estresso mais com o Luiz que com a situação, afinal, despachamos a tal da mala sem pagar nenhum excesso. Claro que pelo caminho vínhamos pensando se alguma das nossas malas chegariam ao destino conosco!

Muito bem, as três malas que íam para Milão e foram trocadas encima da hora chegaram perfeitamente, acredite se quiser! A mala que foi despachada na porta do avião não apareceu!

Taquiupariu, outra vez! Na ida e na volta! Lá fomos nós fazer a reclamação. E encurtando o suspense, apareceu no dia seguinte e trouxeram na nossa casa. Pequeno detalhe, moramos no terceiro andar de escadas e me entregaram aqui na porta! Se soubéssemos, melhor seria haverem extraviado todas e não teríamos que fazer tanta força!

Ainda tínhamos um jantar marcado nesse dia da chegada em Madri, mas nosso amigo mudou de planos. Uma pena, mas sim que estávamos meio cansados. A amiga que ficou em casa com o Jack nos fez almôndegas e bateu um bolão! Tudo que queria era agarrar meu gato gordo e dormir na minha caminha. Jack estava tranquilo, aparentemente nossa catsitter o conquistou devagarzinho. Mas acontece que somos seus donos há quase doze anos e ele estava que não se aguentava de felicidade, cheio de gracinhas e denguinhos para pedir atenção.

Enfim, missão cumprida! Ótimas férias com um pouco de tudo: cidade, natureza, noite, dia, amigos, paz, comilança, exercício, cultura, diversão, música, silêncio, alarme disparado em museu…

And that’s all folks!

Going to Going

Seguindo nossa última viagem austríaca, saímos no domingo de Viena em direção a Going. Para quem fala inglês, é um nome engraçado para uma cidade e gerou várias piadinhas e diálogos bizarros ou quase existencialistas: Where are we going? We’re going to Going! So, are we staying in Going? Are we leaving from Going?

Going é uma cidade pequeniníssima, praticamente de passagem, o que deixava seu nome, traduzido como “indo” em português, mais curioso ainda. Faz parte de um conjunto de quatro ou cinco cidadezinhas que comporta a estação de esquis Wilder Kaiser. Aliás, não era a única cidade de nome peculiar, a seguinte se chamava Ellmau, que na sonoridade seria como “O mau” em portunhol. Injusta associação, pois era onde havia o maior movimento de bares e restaurantes, além do único lugar para dançar da região.

O hotel Blattlhof foi escolhido pelo Luiz meio que às cegas por um desses websites de buscas. De maneiras que não tínhamos muita certeza do que encontraríamos pela frente. A verdade é que era um local bem simpático, aconchegante e agradável, com um atendimento para lá de gentil. Escolhemos o sistema de meia pensão, que incluía o jantar ao módico preço de 7 euros por cabeça. Pensamos que, mesmo que fosse ruim, não perderíamos tanto e valia arriscar. Gratíssima surpresa, pois era bem servido e muito gostoso. Além do que, no fim de um dia de esquis, você não quer muito assunto fora do hotel e nem havia tantas opções assim.

Não há muito o que contar sobre essa semana, na verdade, os dias eram bastante iguais, o que nesse caso era exatamente o que buscávamos. Acordávamos não tão tarde, íamos para a estação de esquis e nos dividíamos de acordo com o nível de cada um. Eu tratei de contratar um instrutor para me acompanhar e corrigir meus fundamentos. Luiz não gosta de esquiar sozinho, mas já estava acompanhado, portanto, não me preocupava. A partir das 14 horas, quando minha aula acabava, nos reuníamos para comer alguma coisa e dar uma volta pelo local. Chegávamos por volta das 18 horas no hotel, exaustos! Era o tempo de tomar um banho, descansar um pouco e descer para jantar. Nossos quartos eram ligados pela varanda e, às vezes, também tomávamos um vinhozinho e uns queijinhos antes de descer. Eles jantam e dormem cedo por lá, nas estações as noites não são tão valorizadas. Comíamos bem, tomávamos um vinhozinho e dormíamos cedo também. E o dia seguinte era praticamente igual ou muito parecido.

No nosso último dia em Going, único que não tinha aula de esquis contratada, resolvi mudar um pouco minha programação. Minhas canelas já estavam doendo das botas torturadoras de esquis e não tinha mais espaço para hematomas nas minhas pernas. Às vezes é difícil entender porque a gente faz isso de propósito e insiste em repetir! Galera, hoje a gente se separa, trouxe minhas queridas botas de trekking e vou fazer um pouco de trilha. Fazer mais do que três dias a mesma coisa começa a me incomodar. Eu gosto de esquiar, mas preciso de uns intervalos e logo tenho vontade outra vez.

Foi ótimo! Sou um animal social, amo companhia e meus amigos, mas sempre preciso de alguns momentos com meu umbigo para caminhar ou escrever e ordenar os pensamentos. Assim, quando os encontro, meu humor está muito melhor e estou até com saudades.

Uma coisa interessante é que ali descobrimos que a cidade faz parte da rota de um dos Caminhos de Santiago. Sem planejar, acabei me reunindo com parte do meu inseparável Caminho. Bom saber que ele sempre estará lá para batermos um papinho.

 

Enfim, na sexta-feira pela manhã, descansadíssimos, partimos de volta para Viena. Decidimos parar em Salzburg, para uma visitinha de algumas horas. O suficiente para conhecer a casa onde nasceu e morou Mozart, hoje é um museu, passear pelo centro da cidade à pé e almoçar. Nós quatro já estávamos um pouco saturados de tanta fritura e começamos nosso processo de “desintoxicação”. Luiz e eu comemos uma saladinha e nossos amigos uma bela sopa.

Não esticamos muito e partimos novamente para a estrada. Precisávamos chegar cedo em Viena, pois já tínhamos ingressos reservados para assistir uma ópera.

Nossos amigos se hospedaram em um NH no próprio aeroporto, pois partiriam de madrugada para Milão. Nós conseguimos uma promoção imperdível de um hotel 5 estrelas, o Hotel de France,  por um preço fenomenal bem no centro da cidade. Ficaríamos um dia a mais que eles.

Um intervalo para comemorar nosso aniversário de casamento

Depois eu termino de contar sobre a Áustria, agora estou ocupada! Hoje é 18 de março e fazemos 17 aninhos de casados!

Chegamos de viagem essa semana e não tinha nada em casa, de maneiras que estava com uma certa preguiça de fazer uma festa express. Mas sabe como é, já me conheço o suficiente para saber que a preguiça passaria e comecei a me organizar e esperar a inspiração bater. E claro, hoje tem festa! Meio improvisada, é que não dá para passar em branco.

Nosso casamento parte para o fim da adolescência e é preciso aproveitar os hormônios enlouquecidos e a falta de juízo. Afinal, no próximo ano ele será adulto, poderá até dirigir!

Agora deixa eu correr para a cozinha, tenho uma festa para terminar e muito o que celebrar! Depois eu conto!

PS: O reflexo no vidro não parece aquelas auréolas de anjo na cabeça do Luiz? Depois de 17 anos comigo, isso deve significar alguma coisa…

Chegando em Viena

Ano passado, quando fomos ao Brasil em agosto, durante uma festa com boa quantidade alcoólica na cuca e um charutão nos pulmões, combinamos com um casal de amigos de São Paulo que nos encontraríamos nesse carnaval para esquiar em algum lugar da Áustria. Para quem achava que era papo furado, aviso que a promessa etílica foi devidamente mantida. 

Eu amo carnaval, mas esse ano tocou ao Luiz escolher e ele prefere esquiar. Tudo bem, mas pelo menos vamos dar uma paradinha em Viena? Não conhecia a cidade e tinha bastante curiosidade.

Portanto, no dia 4 de março, partimos de Madri para Viena, com escala em Frankfurt. Não há vôo direto para lá e detesto escalas, mas paciência. Nós costumamos viajar bastante leves, o que não foi verdade dessa vez. Malas para quase 10 dias de viagem, precisava de roupas de inverno, tanto informais, quanto mais arrumadinhas para sair à noite e isso sem contar que as roupas e botas de esqui tomam o maior espaço.

Assim que no total tínhamos 4 malas e uma mochila. E isso porque Jack não foi, caso contrário, ainda teríamos sua bagagem. Uma amiga dormiu aqui em casa para ficar com nosso felino.

Chegamos no check in e descobrimos que não eram 2 malas de 20kg por pessoa e sim até 2 malas, com o máximo de 20kg as duas. Putz, uma mala de 10kg de excesso de peso. Paciência, na volta a gente se rearranja e vem mais uma mala de mão. E por que estou contando essa história? Porque obviamente, uma das malas não chegou em Viena conosco, justamente a que levava meus sapatos e minhas botas de esqui. Tentei não me estressar e acreditar que chegaria. Já nos extraviaram malas antes e sempre chegou.

Aterrizamos no hotel pelas oito da noite e nossos amigos brazucas chegariam mais tarde. Achamos melhor sair para jantar, porque não sabia como funcionavam os horários por lá e corríamos o risco de ficar sem restaurante aberto para comer. Com o tempo, descobrimos que os lugares não fecham tão cedo assim, mas nesse momento a gente não sabia.

Fomos a um restaurante perto do hotel, indicado pela própria recepcionista, muito simpática por sinal. Lugar agradável, boa comida e, porque não, uma champanhezinha que ninguém é de ferro. Luiz ia monitorando pelo celular a chegada dos nossos amigos. Eles saíram de São Paulo e fizeram uma escala em Milão.

Voltamos para o hotel e eles ainda não haviam chegado. Descobrimos que ali mesmo havia um bar interessante, frequentado por gente da própria cidade e não apenas pelos hóspedes. Resolvemos esperar pelo bar, sem grandes pressas para subir ao quarto.

Lendo a impressionante carta de bebidas, não é que tinham cachaças? Sim, no plural, cachaças! O que acontece é que nosso contrabandista favorito se mudou para China e agora nosso estoque de cachaças está evaporando a olhos vistos. Resultado, desprezamos os vinhos e whiskies e caímos na marvada!

Algumas doses depois, chegou o casal de amigos, foi só o tempo deles largarem as malas no quarto e se juntaram à mesa conosco. E não é que nosso encontro deu certo! Saímos de cantos diferentes do mundo para nos encontrar na Áustria!

Só teríamos o sábado em Viena e no domingo, seguiríamos para uma estação de esquis. Portanto, tentamos não acordar tão tarde no dia seguinte, para aproveitar o máximo que desse, mas sem grandes afobamentos. Nos encontramos para o café da manhã e resolvemos passear a pé pelo centro da cidade. Um dos amigos já havia estado por lá e a gente preferiu não esquentar tanto a cabeça e seguí-lo por onde ele nos guiasse. Falei que só queria ir a um Museo, o Belvedere, para ver os trabalhos do Klint e que seria legal se a gente conseguisse assistir a um concerto.

Na saída do hotel, passei pela recepção, por via das dúvidas, mas sem grandes expectativas de encontrar a mala. Pois não é que havia chegado! Maravilha, assim já fui passear mais sossegada.

Rodamos pelo centro da cidade que é bem charmoso, passamos pelos principais edifícios históricos e entramos na catedral de teto colorido. Paramos para comer no Sacher e de sobremesa, me atraquei com a famosa torta de chocolate com damasco.

 

Descobrimos como chegar no Belvedere e lá fomos nós ver, entre outros, os trabalhos do Klint. Uma visita que tinha tudo para ser a tradicional e previsível visita a museu, se não fosse pela mania do meu digníssimo marido de falar apontando e cutucando as coisas (e pessoas). Em um desses empolgados comentários sobre um quadro do Klint, lá foi ele e seus dedões enormes apontando bem de pertinho, até que conseguiu encostar no vidro que protegia o quadro. Obviamente havia um sensor por segurança e o alarme do museu disparou! Sim meus amigos, Luiz conseguiu disparar o alarme anti roubo do Belvedere! Micão dos bons!

É aquele momento que você espera aparecerem guardas armados de metralhadoras apontando para a sua cabeça! Mas a verdade é que nada aconteceu. Provavelmente, não era o primeiro turista cutucão, e as câmeras registraram ele se afastar do quadro com aquela cara de ops-fiz-merda. Fomos saindo de fininho meio desconfiados e quando pareceu que não íamos levar nenhuma bronca, foi aquela sacanagem com o Luiz e a história virou a piada da viagem! Você já tem essa cara de “brimo”, eles tem um histórico com os turcos e você ainda tenta roubar o Klint… A polícia vai esperar a gente lá no hotel, para não ter escândalo aqui! Enfim, dali até o fim da viagem, Luiz passou a ser conhecido como “o turco”! Considerando que nossa integridade física foi garantida, até que foi bem divertido.

Esqueci de contar que durante o dia, conseguimos comprar entradas para um concerto. O problema é que pela falta de antecedência, só havia lugares em pé. No fundo, acho que é uma coisa legal que eles fazem, você tem as cadeiras com os preços diferenciados por local e é bem caro. Mas atrás do teatro, eles vendem para você assistir de pé, pelo preço bastante acessível de 5 euros. Não é nada confortável, mas populariza e dá a oportunidade de qualquer pessoa ter condição de assistir a um concerto clássico ou uma ópera.

Começava às 19h30, de maneira que voamos do Belvedere ao hotel para tomar um banho rápido e já sair para o teatro. Nesse dia, tocou a filarmônica de Viena e eles realmente são bárbaros! Mas admito que depois de um dia bem movimentado, foi cansativo assistir ao concerto de pé. Acabamos nos esparramando pelo chão e assisti quase tudo de olhos fechados. Até porque, sentada no chão, meu visual era um mar de bundas, o que não tinha nada a ver com o fundo musical! No último quarto do concerto que durou duas horas, houve algumas desistências e consegui um bom lugar para ver o palco. Luiz já havia desistido e foi para o bar do teatro tomar uma champagne e nos esperar. Apesar dos pesares, valeu muito à pena.

Bom, minhas viagens não são viagens se não forem gastronômicas. E lógico que havia pesquisado alguns restaurantes que queria ir. Nesse dia, fomos ao Korso, ficava bem perto do teatro. Achei que seria boa opção por ser em um hotel (Bristol), então, provavelmente ficassem abertos até mais tarde. Não nos arrependemos, comemos divinamente bem! Optei pelo menu degustação de três pratos, todos acompanhados por seus respectivos vinhos. De entrada, vieiras preparadas de três maneiras diferentes com alcachofras de Jerusalem. Belisquei a bisque de lagosta do Luiz, que estava di-vi-na! De prato principal, uma vitela no ponto e textura perfeitos, com folhas de mostarda refogadas e batatas cozidas. Os vinhos eram austríacos, não guardei os nomes, mas me surpreenderam positivamente. Eram bem melhores que os alemães que já provei, e que não são meu forte. Jantar nota 10! Ambiente agradável, comida no ponto perfeito, atendimento muito gentil e companhia excelente!

Passava da meia noite e resolvemos encerrar nosso dia. No domingo cedo os meninos foram buscar o carro alugado para seguirmos viagem. Por volta do meio dia, deixamos Viena em direção a uma cidade chamada “Going”. O que claro, gerou mais mil piadinhas, afinal we were going to Going!

Vou ali e já volto!

Amanhã viajo para a Áustria, vamos esquiar! Ficaremos fora até dia 13 de março. Não sei se conseguirei escrever de lá, acho que é bem possível, pois levaremos nosso novo brinquedinho, o iPad. Mas se estiver ocupadíssima e sem vontade de parar para escrever, na volta conto tudo.

O Plano A é parar em Viena um par de dias, engordar um pouco, e seguir para uma estação de esqui desesperada para expulsar todas aquelas tortas divinas dos meus quadris! Não deixa de ser uma motivação para o esporte!

É minha primeira vez no país, assim que tudo é novidade. Um casal de amigos brasileiros, de São Paulo, vai nos encontrar por lá. Então, acho que pode ser bem divertido.

O vôo é com escala e detesto escalas! Por conta disso, acho que não vou levar meus esquis, só as botas. Jack fica em casa com uma amiga que vai dormir aqui para cuidar do nosso mimado felino, que contraditoriamente é um antisocial, mas se deprime em dormir sozinho, vai entender!

E é isso, vou ali e já volto! Tchau!

Cafeína, meu doce e velho vício que se vai…

Pois é, no ano passado andei tendo uns piripaques do tipo labirintite. Fui logo aconselhada por uma amiga: só precisa cortar café, chocolate e álcool. No que me deu vontade de perguntar se também deveria cortar os pulsos! Se ainda por cima tivesse que cortar sexo, podia me matar de uma vez porque não sobrou muita coisa!

Muito bem, não posso dizer que tenho juízo, mas cuido muito do que entra pela minha boca e num pequeno impulso de maturidade resolvi ser razoável e tentar cortar ao menos os excessos. Pensei que se não me cuidasse, poderia chegar o dia em que fosse realmente obrigada a eliminar essas três tentações da minha vida; então, melhor reduzí-las e assim viabilizar seu consumo por mais anos. Minha lógica é um pouco torta, mas foi uma maneira de me motivar.

Chocolate, impossível viver sem, mas diminuí muito, deixo apenas para o limite da gula e para aquela época do mês onde ele é o melhor amigo de uma mulher!

Álcool, veja bem, não dá para deixar de tomar um bom vinho, só se eu estiver mesmo em coma! Mas deu para cortá-lo durante a semana. Ajudou o fato do Luiz estar de dieta há meses. Foi até bom para nosso orçamento.

Restava ele: o café! Ai, o café…

Bebo café desde que tomava mamadeira. Porque no meu tempo (olha a fala de idosa!) não tinha esse negócio de criança que não podia tomar cafeína. Na verdade, nós nem pensávamos na composição do café, café era café e pronto.

Acredito que até começar a trabalhar, era uma consumidora normal. Depois, admito que passei dos limites, minhas doses diárias de cafeína passaram a ser cavalares. A possibilidade de acordar e não haver café era apavorante! Junkie total!

Como a maioria dos vícios, pelo menos dos que já ouvi falar, não é só a substância em si, mas todo o gestual que gira em torno dela. E no caso do café, para mim beirava ao ritual. Desde a preparação, ao aroma, ao local onde bebo, o toque quente da xícara na minha mão…

(Falando nisso, vou na cozinha buscar um cafezinho e já volto)

Acontece que não sentia nenhum grande efeito, além do prazer de tomar um bom café. Meu corpo estava tão acostumado, que podia tomar um balde depois do jantar e não faria minha noite de sono diferente. E talvez essa falta de efeitos relacionados a uma droga tenha me feito acreditar que toda essa bobagem em torno da cafeína era um tremendo exagero. A típica frescura de americano.

Nessa mesma época que me perguntava se deveria cortar ou não cortar a cafeína – eis a questão! – uma amiga próxima teve problemas sérios em relação à sua pressão arterial. E tornando curta uma longa história, ela estava com um tipo de overdose de cafeína. Ela exagerava muito mais do que eu, porque  no caso dela não era só o café, também incluía coca-cola, medicação, enfim, outras coisas que possuíam a substância. Ela teve que excluir a cafeína a nível zero no ato.

Ops! Como é que é? Isso pode matar? Foi a primeira vez que me toquei que o buraco era mais embaixo. Veja bem, não estou aqui em uma cruzada contra a cafeína e muito menos contra o café, pelo contrário, acho que tem seus benefícios. Simplesmente estou dizendo que o excesso pode efetivamente ser perigoso. Aliás, como quase tudo na vida.

Achei que zerar de vez o consumo do café seria um pouco demais. Como coloquei antes, grande parte da minha dependência incluía o ritual, portanto, comecei a substituir o café em casa por descafeinado. Até porque o sabor é muito bom e o aroma é perfeito. Ou seja, passei a tomar uma única dose de café normal diário e complementava com descafeinado.

Comecei a ter dores de cabeça e sonolência todos os dias, não tem milagre. E se por um lado foi incômodo, por outro, me fez ver que realmente estava viciada, não era uma força de expressão. Era mais do que psicológico, era físico. Foi quando tomei a decisão de cortar de vez a pequena dose diária e migrar para o descafeinado em definitivo.

Nunca mais na vida vou tomar um café normal? Vou. Mas em circunstâncias muito específicas e pouquíssimo. Levei meses com dores de cabeça, como em uma desintoxicação, mas agora passou e não quero fazer isso outra vez. O engraçado é que se por alguma dessas exceções tomo um café normal, passou a me acelerar um pouco o coração ou me fazer as mãos tremerem ligeiramente. Muito louco isso! Tomava litros antes e não me dava nada, tomo uma merreca agora e tenho esses efeitos!

Ou estou ficando velha, ou é um bom sinal. Provavelmente, ambos.

Um casamento em casa

Em algum momento por aqui, já contei como Luiz e eu nos casamos. Para quem não sabe, nós casamos porque eu ia trocar de carro. Pelo menos, assim tudo começou.

Não tenho paciência agora em repetir toda a história, então vou me concentrar só no trecho que vem ao caso, nós éramos bastante jovens e não tínhamos a menor idéia de como era casar, o procedimento em si. Nunca tive a mais remota expectativa de me casar, juro, nunca tive a menor vontade de usar um vestido de noiva, nem nada. Assim que quando tomamos a decisão, acreditávamos que para nos casar era só irmos em um cartório, assinar um papel e pronto.

Para o completo desespero dos meus pais, principalmente da minha mãe! Porque, como assim eu ia me casar e pronto, sem nem fazer uma festinha de nada! Resumindo a ópera, ela nos convenceu a fazer não só uma festinha, mas um festão para mais de trezentos convidados! Onde a propósito, praticamente não nos preocupamos com nada, a não ser o fato de aparecer no dia e casar. Foi minha mãe quem organizou tudo, obviamente adorando ter as rédeas das decisões.

Eu ainda não sabia o quanto esse ritual de passagem era importante para a família e só descobri o quanto era importante para mim (para nós) também durante a festa. Se nós não houvéssemos feito uma, não posso dizer que me arrependeria, porque a gente não se arrepende do que não conhece. Mas depois de entender todos os símbolos e do quanto eles nos ajudam a estabelecer laços de memória, virei um tipo de embaixadora das festas de casamento.

Podem ser grandes ou pequenas, de dia ou de noite, simples ou sofisticadas, não importa! Cada celebração tem seu estilo e sua beleza, mas precisa existir esse momento em concreto. E acho que é fundamental que exista alguém assistindo. Pode ser só mais um casal, podem ser seus pais ou um milhão de amigos, mas precisa ser testemunhado e compartilhado. Faz parte do ritual de compromisso e faz diferença.

Muito bem, dito isso, fica mais fácil entender porque quando um casal aqui em Madri anunciou seu casamento durante uma reunião de amigos, a minha primeira pergunta foi: e a festa? Aliás, foi a cobrança geral e imediata de absolutamente todos os amigos presentes!

O rosto da noiva foi de completa interrogação, provavelmente muito parecido ao meu há 17 anos atrás. Vontade, pareceu que ela tinha, mas sem muita idéia do que e como fazer. Disse que a sala no cartório onde era o casamento era muito pequena e mal cabia os pais do noivo. Não daria para convidar ninguém. Ela não sabia como organizar uma festa, o noivo viajava logo em seguida a trabalho, não ia conseguir ajudar na preparação, ambos não haviam se preparado para os custos de um evento.

Não seja por isso, a gente ajuda! Todo mundo colocando pilha para eles fazerem alguma coisa.

Primeiro lugar, onde? Uma amiga e nós oferecemos a casa, acabou sendo aqui. Outra amiga que foi a madrinha, a noiva e eu, começamos a organizar tudo. Em casa cabem 30 pessoas, dentro desse número, chama quem você quiser, só me passa uma lista de confirmados para me programar.

Ainda que o casamento fosse aqui, me preocupava em não me meter tanto, afinal, esse momento é deles, principalmente da noiva. Então, procurei no início mais ouvir do que dar palpite. De repente, comecei a achar que talvez ela estivesse como eu lá atrás e o que ela precisava era justamente de alguém que dissesse o que fazer.

Então, a gente pode fazer assim, posso oferecer o coquetel de presente de casamento? A noiva ficou meio sem graça, com medo de dar muito trabalho. Mas honestamente, dessa maneira ficava muito mais à vontade para me divertir e caprichar. A madrinha ofereceu canapés, a mãe do noivo disse que queria fazer umas empanadas e os convidados trariam as bebidas. Os noivos ofereceram o bolo e a champagne. Beleza, resolvido, festa completa e não ficava pesado para ninguém.

Com carta branca para decidir as comidinhas e uma semana para prepará-las, fiquei igual a pinto no lixo, doida para botar para quebrar! Afinal de contas, é o primeiro casamento que fico responsável pelo buffet, digamos assim. Muito legal, né? Queria que fosse especial sem ser totalmente exótico, que tivesse um toque de elegância, mas fosse despojado, afinal era tudo muito informal.

O resultado final foi o seguinte, três convidados trouxeram algo de comer, que foram os canapés (madrinha), as empanadas galegas (mãe do noivo), tortilhas espanholas (mãe do noivo) e camarões (irmã do  noivo). Fiz caldinho de moqueca, gâteau de cenouras trufadas, vieiras crocantes, kibe com pinholes ao molho de yogurt e hortelã, mini beef Wellington, croustillant de cordeiro, pastel thai de kani ao curry, foie gras, queijos e pães. O bolo foi encomendado de outra amiga, os bolos dela são divinos! Lindos e deliciosos! Esse foi de nozes com recheio de baba de moça.

Couscous de frango
Mini beef Wellington

 

Kibinho com pinholes

Vieira crocante

Foi engraçado estar em casa e não ser a anfitriã. De certa maneira, me deixava mais tranquila para ficar na cozinha sem a preocupação de atender aos convidados. Luiz custou um pouco mais a relaxar, às vezes eu precisava dizer para ele parar de atender a porta e fazer de conta que estava na sala de outra pessoa.

Pensei em fazer a representação de um casamento, meio que na brincadeira, mas para que o símbolo estivesse presente. Durante a semana, baixei a marcha nupcial para ter na trilha sonora. Perguntei se Luiz topava fazer o padre, ele não quis. Pedi para outro amigo que topou, mas estava meio sem graça. Na hora mesmo, ele sugeriu um terceiro amigo, que nunca imaginei que fosse aceitar e topou em dois segundos! Na verdade, embarcou no personagem, pediu um livro preto emprestado para fingir de bíblia, desenterramos uma fantasia de padre (de halloween que tinha em casa), um crucifixo enorme e uns óculos de não sei quem emprestados. Tudo isso feito meio escondido no quarto aos cochichos.

Uma outra amiga fotógrafa ficou de prontidão e Luiz responsável pela trilha sonora no momento certo. Aparecemos assim na sala e foi aquela bagunça, é lógico! Representação completa! O padrinho entrou com a noiva, que havia ganho um bouquet de rosas de presente de um convidado e já serviu para entrar no casório de mentira. A madrinha ficou esperando com o padre falsificado e o noivo. A prima do noivo e eu fomos ajoelhadas na frente, como daminhas de honra, com as alianças em um porta copos. Enfim, uma farra! O padre arrasou na cerimônia, um show a parte, muito engraçado! E todo mundo dando seu pitaco, é claro!

 

Depois a noiva tirou uma das rosas desse bouquet que ela ganhou e jogou para a mulherada. Bom, confesso que nos casamentos de verdade, quando era solteira, eu me escondia nesse momento. Odiava a disputa desesperada pelo bouquet da noiva! Quando era obrigada a ir, ficava lá atrás onde não havia a menor possibilidade de pegá-lo! Mas assim de brincadeira, eu adoro! Todas as convidadas, inclusive as casadas, foram disputar a tal flor do bouquet! Que, lógico, também tinha sua própria trilha sonora!

Luiz finalmente achou uma função na festa para se distrair, brincar com o ipad e o som! Descobriu que por não ser o anfitrião, não precisava ficar o tempo todo tão atento ao conforto dos convidados, e portanto, podia se divertir com o brinquedo novo da casa. Aliás, é realmente ótimo e útil nas festas.

Bolo cortado, brinde aos noivos, tudo nos conformes! Missão cumprida!

 

Acho que ficamos até umas cinco da matina ou por volta disso. Fui dormir feliz, quem sabe tenha saldado minha dívida cármica de ter feito minha mãe quase maluca quando disse que não queria festa no meu casamento! Quem diria que anos depois, estaria eu mesma fazendo questão absoluta da festa dos outros!

E agora, podemos colocar no currículos das nossas festas que até um casamento aconteceu!