Um casamento em casa

Em algum momento por aqui, já contei como Luiz e eu nos casamos. Para quem não sabe, nós casamos porque eu ia trocar de carro. Pelo menos, assim tudo começou.

Não tenho paciência agora em repetir toda a história, então vou me concentrar só no trecho que vem ao caso, nós éramos bastante jovens e não tínhamos a menor idéia de como era casar, o procedimento em si. Nunca tive a mais remota expectativa de me casar, juro, nunca tive a menor vontade de usar um vestido de noiva, nem nada. Assim que quando tomamos a decisão, acreditávamos que para nos casar era só irmos em um cartório, assinar um papel e pronto.

Para o completo desespero dos meus pais, principalmente da minha mãe! Porque, como assim eu ia me casar e pronto, sem nem fazer uma festinha de nada! Resumindo a ópera, ela nos convenceu a fazer não só uma festinha, mas um festão para mais de trezentos convidados! Onde a propósito, praticamente não nos preocupamos com nada, a não ser o fato de aparecer no dia e casar. Foi minha mãe quem organizou tudo, obviamente adorando ter as rédeas das decisões.

Eu ainda não sabia o quanto esse ritual de passagem era importante para a família e só descobri o quanto era importante para mim (para nós) também durante a festa. Se nós não houvéssemos feito uma, não posso dizer que me arrependeria, porque a gente não se arrepende do que não conhece. Mas depois de entender todos os símbolos e do quanto eles nos ajudam a estabelecer laços de memória, virei um tipo de embaixadora das festas de casamento.

Podem ser grandes ou pequenas, de dia ou de noite, simples ou sofisticadas, não importa! Cada celebração tem seu estilo e sua beleza, mas precisa existir esse momento em concreto. E acho que é fundamental que exista alguém assistindo. Pode ser só mais um casal, podem ser seus pais ou um milhão de amigos, mas precisa ser testemunhado e compartilhado. Faz parte do ritual de compromisso e faz diferença.

Muito bem, dito isso, fica mais fácil entender porque quando um casal aqui em Madri anunciou seu casamento durante uma reunião de amigos, a minha primeira pergunta foi: e a festa? Aliás, foi a cobrança geral e imediata de absolutamente todos os amigos presentes!

O rosto da noiva foi de completa interrogação, provavelmente muito parecido ao meu há 17 anos atrás. Vontade, pareceu que ela tinha, mas sem muita idéia do que e como fazer. Disse que a sala no cartório onde era o casamento era muito pequena e mal cabia os pais do noivo. Não daria para convidar ninguém. Ela não sabia como organizar uma festa, o noivo viajava logo em seguida a trabalho, não ia conseguir ajudar na preparação, ambos não haviam se preparado para os custos de um evento.

Não seja por isso, a gente ajuda! Todo mundo colocando pilha para eles fazerem alguma coisa.

Primeiro lugar, onde? Uma amiga e nós oferecemos a casa, acabou sendo aqui. Outra amiga que foi a madrinha, a noiva e eu, começamos a organizar tudo. Em casa cabem 30 pessoas, dentro desse número, chama quem você quiser, só me passa uma lista de confirmados para me programar.

Ainda que o casamento fosse aqui, me preocupava em não me meter tanto, afinal, esse momento é deles, principalmente da noiva. Então, procurei no início mais ouvir do que dar palpite. De repente, comecei a achar que talvez ela estivesse como eu lá atrás e o que ela precisava era justamente de alguém que dissesse o que fazer.

Então, a gente pode fazer assim, posso oferecer o coquetel de presente de casamento? A noiva ficou meio sem graça, com medo de dar muito trabalho. Mas honestamente, dessa maneira ficava muito mais à vontade para me divertir e caprichar. A madrinha ofereceu canapés, a mãe do noivo disse que queria fazer umas empanadas e os convidados trariam as bebidas. Os noivos ofereceram o bolo e a champagne. Beleza, resolvido, festa completa e não ficava pesado para ninguém.

Com carta branca para decidir as comidinhas e uma semana para prepará-las, fiquei igual a pinto no lixo, doida para botar para quebrar! Afinal de contas, é o primeiro casamento que fico responsável pelo buffet, digamos assim. Muito legal, né? Queria que fosse especial sem ser totalmente exótico, que tivesse um toque de elegância, mas fosse despojado, afinal era tudo muito informal.

O resultado final foi o seguinte, três convidados trouxeram algo de comer, que foram os canapés (madrinha), as empanadas galegas (mãe do noivo), tortilhas espanholas (mãe do noivo) e camarões (irmã do  noivo). Fiz caldinho de moqueca, gâteau de cenouras trufadas, vieiras crocantes, kibe com pinholes ao molho de yogurt e hortelã, mini beef Wellington, croustillant de cordeiro, pastel thai de kani ao curry, foie gras, queijos e pães. O bolo foi encomendado de outra amiga, os bolos dela são divinos! Lindos e deliciosos! Esse foi de nozes com recheio de baba de moça.

Couscous de frango
Mini beef Wellington

 

Kibinho com pinholes

Vieira crocante

Foi engraçado estar em casa e não ser a anfitriã. De certa maneira, me deixava mais tranquila para ficar na cozinha sem a preocupação de atender aos convidados. Luiz custou um pouco mais a relaxar, às vezes eu precisava dizer para ele parar de atender a porta e fazer de conta que estava na sala de outra pessoa.

Pensei em fazer a representação de um casamento, meio que na brincadeira, mas para que o símbolo estivesse presente. Durante a semana, baixei a marcha nupcial para ter na trilha sonora. Perguntei se Luiz topava fazer o padre, ele não quis. Pedi para outro amigo que topou, mas estava meio sem graça. Na hora mesmo, ele sugeriu um terceiro amigo, que nunca imaginei que fosse aceitar e topou em dois segundos! Na verdade, embarcou no personagem, pediu um livro preto emprestado para fingir de bíblia, desenterramos uma fantasia de padre (de halloween que tinha em casa), um crucifixo enorme e uns óculos de não sei quem emprestados. Tudo isso feito meio escondido no quarto aos cochichos.

Uma outra amiga fotógrafa ficou de prontidão e Luiz responsável pela trilha sonora no momento certo. Aparecemos assim na sala e foi aquela bagunça, é lógico! Representação completa! O padrinho entrou com a noiva, que havia ganho um bouquet de rosas de presente de um convidado e já serviu para entrar no casório de mentira. A madrinha ficou esperando com o padre falsificado e o noivo. A prima do noivo e eu fomos ajoelhadas na frente, como daminhas de honra, com as alianças em um porta copos. Enfim, uma farra! O padre arrasou na cerimônia, um show a parte, muito engraçado! E todo mundo dando seu pitaco, é claro!

 

Depois a noiva tirou uma das rosas desse bouquet que ela ganhou e jogou para a mulherada. Bom, confesso que nos casamentos de verdade, quando era solteira, eu me escondia nesse momento. Odiava a disputa desesperada pelo bouquet da noiva! Quando era obrigada a ir, ficava lá atrás onde não havia a menor possibilidade de pegá-lo! Mas assim de brincadeira, eu adoro! Todas as convidadas, inclusive as casadas, foram disputar a tal flor do bouquet! Que, lógico, também tinha sua própria trilha sonora!

Luiz finalmente achou uma função na festa para se distrair, brincar com o ipad e o som! Descobriu que por não ser o anfitrião, não precisava ficar o tempo todo tão atento ao conforto dos convidados, e portanto, podia se divertir com o brinquedo novo da casa. Aliás, é realmente ótimo e útil nas festas.

Bolo cortado, brinde aos noivos, tudo nos conformes! Missão cumprida!

 

Acho que ficamos até umas cinco da matina ou por volta disso. Fui dormir feliz, quem sabe tenha saldado minha dívida cármica de ter feito minha mãe quase maluca quando disse que não queria festa no meu casamento! Quem diria que anos depois, estaria eu mesma fazendo questão absoluta da festa dos outros!

E agora, podemos colocar no currículos das nossas festas que até um casamento aconteceu!

17 comentários em “Um casamento em casa”

  1. Olá Bianca

    Isso é que foi!!! Pelas fotos parece uma delicia!! parabens pelo buffet 🙂 que grande festa de casamento!!! iihh
    beijinhos

  2. Que lindo Bianca!
    Com certeza, os noivos nunca vão esquecer esse momento e a delicadeza dos amigos…
    Eu entendo bem o q disse, pois também não sonhava com vestido de noiva, festa…somente depois que vivi isso descobri o quanto o momento é especial, único. Hoje sou fã assumidíssima desse universo dos casórios. Felicidades aos noivos!

  3. Chica, e voce arrebentou no buffet ! 🙂
    Foi realmente tudo de otimo !!!
    Agora uma coisa, até hoje ainda nao vi as fotos da jogada do bouquet rsrsrs . Beijoss

  4. Oi, Renata! Bom te ver por aqui, seja bem vinda!

    Oi, Andrea! Pois é, com certeza essa era a maior das intenções, registrar um momento bonito na memória. Como você também sentiu na pele, a gente só entende a importância depois, né? Bom que demos sorte e alguém nos avisou! 🙂

    Obrigada, Didis! Não quis postar as fotos deles no face, até aqui procurei algumas que não deixassem os rostos evidentes. Afinal de contas, nós éramos só o buffet, né? kkkkkkkkkk Mas se você me prometer que não publica, te envio pelo Picassa 😛

    Besitos

  5. Oi Bianca

    Essas fotos com os pratos foi voce mesma que fez? Que legal!
    Voce tá craque, ficaram com uma aparência linda, adorei!
    Devia fazer mais casamentos e ganhar uma graninha.

    Parabens aos noivos.

    Beijos

    Marianne

  6. Oi! Foi, fiz os pratos e as fotos, para começar a ter algum registro. Mas sabe o que acho que faltou, alguma referência de tamanho. São todos pequenos, tamanho aperitivo. No que depende de mim, bem que gostaria de fazer outros e ganhar uma graninha sim… heheheh… mas tenho limitação de número de pessoas, porque no momento, trabalho sozinha. Acho que os eventos virão ao seu tempo, meu plano é trabalhar em jantares para no máximo 15 pessoas e coquetel pode ser umas 30. Mas só me interessa pequena escala em um nível legal. Besitos

  7. Olá Bianca, já sou leitor do seu blog a bastante tempo, porém até hoje nunca comentei, adoro a maneira como você escreve, já ri muito de coisas que você contou, já viajei junto em algumas, refleti em outras, essa agora me surpreendi com sua iniciativa, gostei muito das fotos e do arranjo de seus pratos, torço para que quando você iniciar seu empreendimento gastronômico seja um sucesso, talento é o que não te falta, mais uma vez muito sucesso e obrigado por compartilhar tantas historias conosco, um abraço.

  8. Oi, Fernando! Muito obrigada! Adoro quando algum leitor “calado” se anima a comentar… heheheh… Seja bem vindo! Besitos

  9. Que legal! Que boa historia.
    Falando sobre casamento, to no começo do segundo livro depois de Comer, rezar e Amar (Commited). E no começo ela está no norte do Vietnam (adoro!) perguntando às Hmongs (que falam tudo na tua cara, tb adoro) sobre a opiniao delas sobre casamentos. To adorando! Ela tem que se casar às pressas mas ainda assim, enquanto a papelada nao sai, aproveita pra pesquisar sobre o tema em várias culturas. Adoro! Vc tava lendo esse , ou o Comer, Rezar e Amar?
    beijos!

  10. Oi, Suz! Eu li o Comer, Rezar e Amar. Depois me empresta os outros? Tenho que tomar vergonha e sentar um dia contigo para conversar sério sobre sua viagem, no que diz respeito à gastronomia 🙂 Hoje me enviaram um link de um guia bem legal, o Makansutra (não confundir com Kama Sutra!). Besitos

  11. Biancaa, que post mais lindo!
    Fiquei emocionada! Quando o Edu voltar vou mostrar pra ele também!
    Vocês realmente fizeram do nosso dia, uma data inesquecível! Foi tudo maravilhoso, perfeito, todos se divertiram muito, elogiaram muito a sua comida, que estava sensacional! Impossível não repetir e deixar de comer mesmo sem fome.

    Nós dificilmente teremos como agradecer o dia 4 de fevereiro maravilhoso que passamos.

    Minha sogra é sua fã (aliás, ficou um prato dela na sua casa?)

    E se quiser colocar alguma foto, fique tranquila e nada disso de que vocês foram só o buffet, viu?! heheheh
    Não é que estou enrolando…agora decidi que vou revelar todas e fazer um álbum real, porque, afinal, casamento não é algo de todo dia como churrasco que vc vai e coloca umas fotos no Facebook hehehe

    Exagerei no elogio? Isso foi só uma pequena parte 🙂

    Mil Beijões!

  12. Olha quem apareceu! A noiva! 😀 Obrigada a vocês por partilharem esse momento conosco! Como você pode perceber, nós adoramos! Acabou que para a gente também será uma festa inesquecível!

    É meio que “regra do blog” eu não colocar fotos dos outros ou citar nomes, uma maneira de garantir a privacidade das pessoas. Assim ninguém fica preocupado de vir aqui em casa e ter no dia seguinte um “x” vermelho pintado na testa… hehehe… às vezes, abro uma exceção com muito cuidado e perguntando antes.

    E eu fiquei fã da sua sogra também, ela é uma fofa! O prato dela está aqui sim, desde o dia do casório deixei sobre a bancada para não esquecer de te falar, mas obviamente minha estratégia não está funcionando, porque sempre me esqueço!

    Ah, e achei a idéia de fazer um álbum de verdade perfeita! Está certa, que mané album de facebook… ahahahaha…

    Besitos miles

  13. Bianca,

    Que tal por as receitinhas? Adoraria aprender a fazer o beef wellignton e o gateau de cenouras trufadas. 😉

  14. Oi, Bel! Coloco sim! Estou viajando agora, mas na volta eu posto as receitas no “Tá na mesa”. Enquanto isso, se você for no meu blogroll, procura o blog da Juliana, sabores e expressōes, tem uma receita de beef Wellington ótima! Besitos

  15. arrasou, estava tudo MARAVILHOSO, tudo alem de delicioso super bem apresentado, tudo perfeito. aii e as vieiras, rsrsrs ainda penso nelas, rsrs beijos e aproveita muito a viagem.

  16. SENSACIOANAL!!!!!!!! Mesmo sem conhecer os noivos senti a vibração dessa festa linda. O que são essas comidinhas? Assim vc me mata de saudades. Um bj grandão para vcs!!!!!!!!!!!!

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