E lá vamos nós!

Eu e a torcida do flamengo andamos na correria de fim de ano! Não é que me faltassem inspiração e histórias para escrever, faltava era vontade de sentar e me concentrar nisso.

Procurei pensar menos no Natal e todas as suas conotações, algumas que gosto, outras que me irritam. Gosto do pretexto para procurar a família e os amigos, da decoração das ruas e das casas, das luzes e das comidas. Não gosto da saudade. Odeio a culpa e as obrigações.

Às vezes, a gente pensa que está imune, mas uma frase ou um momento podem nos derrubar. Faz umas duas semanas, li um comentário que não era para mim: fulana, vamos fazer as compras hoje à tarde?

Bobagem, né? Mas não faço compras de Natal há anos. Muito menos divido esse momento com alguém. Foi quando me dei conta que há seis anos não passo um Natal em família no Brasil e, portanto, não se justificam as compras. Luiz e eu não temos datas para nos presentear, adultos sem filhos se compram brinquedos durante todo ano. Não vou negar que no início foi um alívio poder estar fora dessa muvuca e exploração que é comprar em dezembro. Mas não sei porque, esse ano me deu saudade de parar e pensar no que dar para as pessoas queridas, o que elas iriam gostar de ganhar?

Não quis fazer festa, não quis cozinhar e não quis chamar ninguém. Acho que foi uma pirraça pessoal, do tipo, se não pode ser perfeito, não quero mais ou menos. Quem sabe estando bem longe, a gente se esquecia um pouco de que dia é. Tenho a tendência a fugir das pessoas na proporção direta de quanta ajuda preciso. Cada um com sua loucura.

A árvore de Natal ficou desmontada sobre a mesa por bem uma semana, toda hora passava por ela e falava sozinha. Para que vou te montar? Nem vou estar aqui mesmo… não tem presentes para colocar embaixo… ninguém vai ver… hsasssgross$%^&… mas anima a casa… Luiz e Jack também são família… tá bom, vai, montei! E gostei, ficou bonita.

Tenho a sorte e a vocação para ser feliz. Ou talvez, seja uma opção.

Amanhã cedo, dia 24, pegaremos a estrada Luiz, Jack e eu. Vamos para Grenade sur l’Adour, em um hotelzinho charmoso e que abrirá no Natal por nossa causa, fica meio escondido na margem de um rio e tem uma das melhores cozinhas do planeta! Sabe o que quero fazer lá? Na-da! Nada de várias maneiras!

Na sequência, Paris. No final das contas, depois do cancela daqui e se enrola dali, um amigo do trabalho do Luiz, que mora na cidade e vai viajar nas festas, nos cedeu seu próprio apartamento no mesmo período. Ou seja, ainda vai sair  “de grátis”!

Bom, nada na vida é tão simples, entre esse apartamento e o seguinte que aluguei para janeiro, há uma diferença de uns 3 dias, onde ficaremos em um hotel. A parte chata é que Jack não vai gostar nada de tanta mudança para lá e para cá, sendo que a última delas, precisarei fazer sozinha, já que Luiz precisa voltar para Madri. Afinal, alguém tem que trabalhar nessa casa, né? Mas tudo bem, também não é nenhuma sangria desatada, só vou parecer uma retirante pelas ruas com gato, mala, caixa de areia etc.

Estou me preparando psicologicamente para frequentar uma classe de francês com uma turma de adolescentes pelas manhãs. Felizmente, imagino que as tardes serão um pouco mais adultas, já que serão preenchidas por aulas de gastronomia. As noites durante a semana serão provavelmente monótonas, mas posso aproveitar para escrever e cuidar do Jack. Vou levar um laptop, mas ainda não sei como funcionará a internet por lá, é sempre um suspense.

E, pasmem, até um telefone celular novo eu ganhei! Quem me conhece sabe que sou um desastre com telefones e que celular para mim funciona como despertador. Há cinco anos uso um pré-pago do tempo das cavernas, com duas teclas, do jeito que gosto, uma vermelha e uma verde, o suficiente. Agora tenho um N97, com tantas funções que imagino que ele seja capaz de passar roupa e dirigir! Mas sabe de uma coisa, bem que estou gostando.

Saber que vou aprender e receber tanta informação nova é muito estimulante. Acho que será bom também um pouco de distância física de Madri, olhar de fora ajuda a por as coisas sob perspectiva. E como digo de brincadeira para “picar” os espanhóis, será bom sair do “pueblo” e morar um tempinho na Europa.

E é isso, povo pelo mundo afora, as próximas notícias serão dadas em solo francês.

Por agora, quem tem família por perto, aproveite a sorte! Quem não tem, amigos também são família. Comam o que é gostoso sem culpa e bebam no limite de não perturbar os outros e sem dirigir.

Feliz Natal!

Tudo certo e nada resolvido, enquanto isso, vamos cantar

Dormimos com tudo reservado, redondinho, acordamos com a resposta do hotel do Natal nos avisando que iam fechar e não entenderam como conseguimos reservar por e-mail; os amigos de Bordeaux resolveram viajar e perguntaram se podíamos ir um pouco depois; e o apartamento do reveillon não aceitava animais. Como assim? Tudo de uma vez!

Felizmente, o apartamento de janeiro, o mais importante e complicado para mim, continua reservado direitinho (isola!).

Achei chato, porque procurar tudo outra vez é um porre, mas não cheguei a me aborrecer. Sei que tem momentos que tudo parece meio esfumaçado e confuso, mas logo o caos vai se organizando e damos um jeito.

Bom, encurtando o suspense, nesse momento, temos hotel novamente para o Natal e o estudio que vou morar em janeiro. Falta achar um lugar para ficar em Paris no reveillon.

O hotel do Natal é em uma cidade pequena no sul da França, em uma região que adoramos e que se engorda um quilo por dia. O plano inicial era de esquiar nesses dias, mas o joelho do Luiz não concordou muito com essa idéia. Portanto, ao invés de queimar calorias, vamos ganhá-las! Na verdade, esse era o problema da reserva, o carro chefe do hotel é seu restaurante, que estaria fechado no dia de Natal. Mas Luiz negociou com eles que podemos comer em outro lugar nesse dia, além de não ser nossa primeira vez no lugar, então, eles abriram uma exceção e dormiremos por lá mesmo.

Quanto a Bordeaux, também sem problemas, vamos direto para Paris. Uma pena não encontrar nossos amigos, mas para o Jack é até melhor ter menos uma parada no caminho. Por mais bonzinho que ele seja e acostumado a viajar, sempre tem um período de adaptação ao lugar que dormimos.

E o reveillon… não sei, mas já veremos.

Enquanto isso, na sala de justiça, ou melhor, na Sala Clamores, na quinta-feira um amigo fez seu show em homenagem a Raul Seixas. Depois do coral, passamos por lá para dar uma prestigiada. Após sua apresentação, abriu-se para uma jam session. Estávamos com uma amiga cantora que me perguntou se topava ir com ela dar uma canja. Eu com uma tosse do caramba, mas pensando bem, por que não? Ainda mais que o microfone principal era dela! E lá fomos Luiz e eu dar uma palhinha.

No sábado, um brunch de aniversário e na sequência a despedida de uma amiga querida, que está voltando para o Brasil depois de amanhã.

A esposa do aniversariante tem uma farmácia e pedi a ela alguma medicação para minha tosse persistente. Ela me deu um xarope daqueles! Bom, tenho uma estranha e divertida reação a xaropes, fico como se estivesse meio bêbada. Não é que potencialize se eu beber, só o xarope me deixa mais alta que algumas doses de whisky. Portanto, em um brunch onde o líquido mais forte que tomei foi um suco, estava larari larará!

A despedida da nossa amiga foi em um bar, o Kabocla. E o pessoal do coral, do qual ela faz parte,  também foi dar uma palhinha antes do show oficial. Cantamos cinco músicas, duas delas, uma surpresa para a amiga que se vai.

Sabendo que ia cantar, queria amenizar a tosse e tomei mais uma dose do xarope. Com a cigarrada que rola nos bares madrileños, é impossível aguentar sem beber e, afinal de contas, caipirinha leva limão, fonte de vitamina C. Ou seja, passei uma noite bastante divertida.

Não sei como raios saiu minha voz no microfone e pode ser que isso seja bom. Mas o importante e que não tossi enquanto cantava. Também batucamos nossos tamborins em duas músicas. Demos umas escorregadas, mas os amigos da platéia, talvez por gentileza, disseram que ficou legal.

Porque estava divertido, ou quem sabe pelo efeito do xarope, a noite passou rápido.

Na saída, nos despedindo do amigo músico, acho que devíamos fazer nosso Natal antecipado, afinal vamos nos desencontrar. Um churrasco de inverno? Talvez. Que dia? Esse não dá… nem esse… nem esse… E amanhã? Amanhã dá!

No taxi para casa, pensei que não tinha carne para churrasco, mas tinha ingredientes para uma feijoada pequena. No mesmo minuto, me deu um desejo incontrolável de comer uma feijuca e assim, acabei a madrugada, dessalgando as carnes.

Domingo, acordei sem um pingo de ressaca, afinal de contas, bebendo muito menos estava completamente alucinada. Econômico esse negócio de xarope! Fui direto para cozinha iniciar os trabalhos.

Estávamos em três casais e uma criança e demos conta de quase uma panela de feijoada. Excelente para o dia seguinte a uma chutada de balde.

Hoje minhas amigas lulus-bruxas vem aqui em casa, é dia de reunião da nossa irmandade das perucas coloridas. O grupo já não é o mesmo, pessoas vão e vem, ainda que todas sejam lembradas nos nossos encontros. Agora mais uma volta para o Brasil e vou sentir saudade, mas não estou triste, porque todo mundo tem seu caminho a seguir.

Ai, chega de 2009 já! Agora quero mais é começar o próximo!

E o fim do ano chegou!

É muito engraçada essa relação que temos com o tempo, às vezes a gente sente a passagem de cada minuto e outras ele voa sem a gente se dar conta. De vez em quando, me atrapalho nos dias da semana, outras fico um pouco perdida entre passado e futuro.

Sei que tudo depende do que estamos passando e isso é relativo entre as pessoas. Uma coisa é fato, não sei que raios acontece, mas da segunda quinzena de novembro até o fim do ano, o tempo dispara para quase todo ser humano.

A noite de reveillon é o fechamento de um ciclo mundial, não há como não nos influenciar, conscientes ou não, existe um grande poder no conhecimento de um fim seguido por um recomeço.

Não sei quantos anos se passaram dentro de 2009, mas sei que fui extremamente feliz e profundamente triste. Saí do olho do furacão, celebrei com a família, cheguei a Santiago caminhando pela terceira vez, fiz 15 anos de casada, tomei sol, organizei churrascos, cozinhei, meu pai teve câncer, me preocupei com minha mãe, senti a probabilidade genética do meu futuro, tive muita raiva, ajudei a ganhar batalhas, não engravidei, me senti sozinha, fui enganada, fui invejada, ganhei amigos, perdi amigos, cortei o cabelo, perdi a paciência, meu gato chegou aos 10 anos, perdoei, fui perdoada, ganhei coragem, fui protegida, esqueci e lembrei de quem sou algumas vezes, bebi mais do que devia, falei mais do que devia, calei o suficiente, comi o que tive vontade, fiz menos sexo do que deveria, tomei vinhos fantásticos, trocamos de carro, quis sair correndo um monte de vezes, quis matar algumas pessoas, senti saudade de muita gente, provei sabores, me entristeci por problemas de amigos, chorei sozinha, comemorei vitórias de amigos, chorei acompanhada, chutei o balde, me acalmei, fiz 40 anos, me fantasiei, viajei, pisei na África pela primeira vez, andei pouco, tive muita preguiça de acordar pelas manhãs, agarrei meu gato, dormi abraçada com Luiz, voltei a ter carteira de motorista, cantei, toquei tambores, fiquei doente de cama, lembrei que tinha um sonho, fiquei eufórica por saber que tinha um plano, corri atrás, fui apoiada… e escrevi tudo para um dia lembrar quem fui. Se der sorte, chegará o momento em que não lembrarei muito bem.

Enfim, chegou dezembro e sobrevivi, se me falta algum pedaço, não faz falta, tenho mais do que preciso. Verdade que menos do que queria, mas isso é sempre assim e talvez seja o que nos mova.

Queria passar esse fim de ano no Brasil, e não porque tivesse presentimentos, culpas ou obrigações, é só porque estava com saudade mesmo. Mas não deu.

Vou ser sincera, não estava no clima de fazer festa em casa, aqui em Madri. Talvez seja porque acabei de fazer uma grande, ou porque gente que gosto não estará, ou só porque é inverno. Meio que deixei o caos se encarregar.

Um amigo entra no MSN, vamos passar o reveillon em Paris, se animam? Vamos traduzir para a língua da Bianca: macaca, quer banana?

Fui conversar com Luiz, com meus 35 argumentos do porquê seria uma boa idéia. Não foram necessários, ele topou de cara. E ainda sugeriu que fôssemos de carro, ficava mais fácil levar o Jack.

Levou meio segundo para pensar, espera aí, quero estudar em Paris no ano que vem, estava na dúvida se janeiro ou fevereiro. Nesse caso, janeiro seria perfeito, porque já estaria lá e ficava de uma vez! Por que não?

Começou a maratona para achar onde ficar, conciliar os cursos… e ainda estou um pouco nisso, toma um tempo danado! Fico vesga de tanto navegar na internet! De qualquer maneira, não tem preço acabar um ano com planos para o próximo.

E o plano A é sair de Madri no dia 24 de dezembro, Luiz, eu e Jack. A noite de Natal será entre nossa pequena família em algum lugar na fronteira com a França. De lá, devemos dormir uma ou duas noites em Bordeaux, na casa de amigos, e seguir para Paris.

O interessante é que depois disso, minha cunhada também se animou a nos encontrar, junto com seu namorado e nosso sobrinho (que falando assim parece um menininho, bom, eu olho para ele e vejo um menino, mas já é um homem). Um outro casal de amigos que mora em Londres também está pensando no assunto. Ou seja, Ano Novo em Paris promete ser bem mais movimentado do que havíamos imaginado e estou achando ótimo.

Pelo dia 28, a gente deve chegar em Paris. Luiz fica até passarmos o reveillon e eu sigo até o fim de janeiro, com o gato a tiracolo. Imagina se ia deixar meu felino! Depois, a idéia é Luiz me visitar nos fins de semana, fora suas viagens a trabalho, seria complicado arrumar um esquema para alguém tomar conta do Jack toda hora.

Dia 4, começo um curso de francês, farei um intensivo de 20 horas semanais. As aulas são diárias, de 9 às 13hs. Putz! Lá vou eu voltar a acordar cedo, mas tudo bem, estou bem animada. E na parte da tarde, cursos de gastronomia. Não tenho tudo fechado, mas já fiz mais ou menos um cronograma do que me interessa mais e em que escolas.

Minha mãe ficou louca para passar uma semana lá comigo. Mas tudo vai depender de como esteja meu pai. Por lá a situação não está ruim, mas difícil. Meu pai agora está fazendo tratamento com Mitocin, ao invés de BCG, vamos ver se reage melhor e não volta a ter novos tumores. Em princípio, isso seria até meados de janeiro. O problema é que a porcaria da bactéria – klebsiella Pneumoniae chama a infeliz – não tem deixado ele em paz e isso está complicando um pouco a situação. Como nada chega sozinho, ontem soube que minha mãe pode ter que operar o menisco, que não é uma cirurgia grave, mas dentro desse quadro é outro complicador. E para ferrar de vez, minha tia, irmã dele, que quebra um galho do tamanho de um bonde, também está com problema nos rins. É um problema antigo, mas agora se aproxima de uma situação limite e talvez precise entrar na diálise. Pausa para um palavrão, puta que pariu três vezes! Já fiquei triste, já fiquei chateada, mas como diria a mãe do Bambi, a vida é assim.

De positivo, acho que a ficha do meu irmão caiu e ele tem apoiado bastante. Tem mais gente na família também que dá uma força e eles tem muitos amigos presentes. Não resolve, mas ameniza.

Quem sabe até janeiro possa dar a notícia que o tratamento do meu pai resolveu, minha tia conseguiu se controlar com alimentação e adiar um pouco mais a diálise, minha mãe descobriu que era só uma inflamação no joelho e todos seremos felizes para sempre!

E a festa de aniversário?

Foi ótima! Começamos encarando logo a sexta-feira 13. Entre estigmas e bruxas, recebemos os amigos.

Confesso que estava um pouco apreensiva, morrendo de medo que desse algum problema com meus pais no Brasil, coisa que  não aconteceu. Gostaria que tivessem vindo e eles também, mas nem sempre a vida é perfeita. Pelo menos, veio meu irmão. E tudo estava dando tão certo, que nem seria justo reclamar.

Com a festa em si, estou acostumada e facilitei minha vida servindo tudo que já podia estar na mesa e tivesse pouca necessidade de manutenção e reposição. Queijos, azeitonas, canapés, caviar, pastinhas, frutos secos… nada que precisasse de pratos, porque não gosto de descartáveis, só uso quando realmente é necessário. Mas nos quarenta, queria um mínimo de glamour, né? Mesmo assim, até o momento do pessoal chegar, fiquei bastante ocupada. De bebida, só servi champagne e cerveja, por mim, só serviria champagne, mas quebrei o galho dos amigos. Luiz e meu irmão, me ajudavam na reposição das garrafas durante a festa. Nesse caso, além das minhas taças de cristal, precisei completar com descartáveis mesmo, paciência. Metade das taças se quebraram durante a festa, mas tudo bem, precisava de mais espaço nos armários e os próprios convidados iam se encarregando de solucionar os cacos de vidro.

Menos mal que dessa vez, liberei os sapatos. Além de frio do lado de fora, única possibilidade para os amigos fumantes, o pessoal vinha fantasiado e sei que às vezes os sapatos também fazem parte do disfarce. Portanto, meu gato ficou preso no quarto até de manhã.

Na decoração, fui ajudada por uma amiga, que também fez o bolo. Tenho vergonha da hora do parabéns, é comum nas festas de aniversário me fazer de morta e não cantar. Mas dessa vez, queria tudo que tivesse direito!

 

Eu queria porque queria me fantasiar de loba! Ao mesmo tempo, não queria usar uma máscara ou um macacão horroroso de pelo, afinal, precisava cumprimentar as pessoas e sair bem nas fotografias. Puxa, queria ficar mais bonita, né? Ninguém merece passar o aniversário fantasiada de saco! Então, acabei improvisando alguma coisa que gostei do resultado.

 

Meu irmão se inspirou na grama artificial usada na sala e se fantasiou de juiz de futebol, dava cartão vermelho para quem não estivesse bebendo.

 

Luiz… bom, Luiz se fantasiou de alguma coisa esquisita, mistura de exorcista, monstro do pântano e um cruz credo! Estava realmente assustador.

 

E assim recebemos as pessoas, que diga-se de passagem, também capricharam nas suas fantasias. Bruxas, elfas, magos, monstros, sol, noite, Fantasma da ópera, Umpa Lumpa, Elvira, hippie, árabes, gnomo, She-ra, borboletas, anjos, vampiros, anos 70, andróide blade runner, cortesã medieval, bobo da corte… teve de tudo!

Convidei deus e o mundo e o destino que se encarregasse de fazer caber em casa. No final, algumas baixas no próprio dia da festa pela gripe que se espalhou pela cidade, uma pena. Vieram por volta de umas 50 pessoas, ando mais seletiva.

A música foi ao vivo, com a Lenna Pablo, que é uma fera! Tocou com o Tinho e o Thiago. Também eram convidados da festa e isso garantiu um som de qualidade excelente e um repertório black que adoro. Tenho outros amigos músicos que gostaria que cantassem também, mas dessa vez não deu.

 

Bom, com esse arsenal, me preocupava um pouco a reação dos vizinhos e tentei amenizar a situação. As janelas foram bem fechadas e o chão todo forrado com a grama artificial da varanda, com borracha embaixo. Pedi para o pessoal fumar e conversar na varanda de cima, que é mais isolada; na da sala, onde ficou a cerveja, o som vai para o quarto da vizinha ao lado. Não sei o quanto isso abafou o barulho, mas o importante é que ninguém reclamou. Provavelmente, além dessas providências, os vizinhos foram tolerantes.

Para mim, a noite sempre passa muito rápido, mas passou e me diverti para burro! Por volta das cinco da matina, uma boa parte dos convidados havia partido, ficou a diretoria. É a hora que me lembro que praticamente não comi durante à noite e, com menos gente para alimentar, lá fui eu para cozinha fazer huevos rotos e calabreza. Sentados no chão, parecíamos em um acampamento, tomamos nosso café da manhã e fofocamos um pouco.

Às seis da manhã, quarenta garrafas de champagne e cento e alguma coisa latinhas de cerveja depois, os últimos convidados partiram.

Luiz e eu fomos limpar o chão de casa e arrumar um pouco a confusão, para poder soltar o Jack. Por volta dàs sete, fomos dormir. Eu já nem conseguia mais pronunciar as palavras direito.

Ao meio dia tocou o interfone. Pulamos da cama de golpe com o coração disparado! Tinha certeza que seria algum tipo de intimação do condomínio para deixar o edifício! Mas eram só flores, um casal que não pode comparecer. Respirei aliviada, ainda que o mundo parecesse do avesso.

Sei que quando fiz 30 anos, contratei um DJ. Quando fiz 40, uma banda. Desconfio que nos 50, melhor contratar uma equipe médica e deixar de plantão!

…e foi mais ou menos assim

Alguém alugando apartamento em Paris?

Queridos leitores,

Estou atrás de um apartamento em Paris para o período de 29 de dezembro de 2009 a 30 de janeiro de 2010. Vocês conhecem alguém que alugue?

Pode ser bem pequenininho, mas precisa ser dentro de Paris, preferência pelas zonas 6 e 14. Também precisa aceitar animais, porque vou levar o Jack, meu educadíssimo gato, com excelentes referências!

Quem puder me ajudar, agradeço muito!

… Marrocos, uma viagem diferente (final)

Chegou domingo, 9 de novembro, meu aniversário! Finalmente, faria os esperados 40 anos! Agora sim, era uma bauzaca que se preze!

Inevitavelmente, às cinco da matina acordamos com a oração, que nesse dia foi especialmente longa, ou assim pareceu.

Nos levantamos por volta das dez da manhã e tomamos um café sem pressa e sem grandes planos. Decidimos caminhar pelas ruas de Marrakech por nossa conta e risco.

A cidade já não me parecia perigosa, havia me acostumado. Mas podia ser bem confusa e não era muito difícil se perder nos becos e vielas, que mais pareciam labirintos sem nomes ou indicações. Nós não tínhamos mapa da Medina, havia um pregado na parede do Riad, o qual demos uma olhada para nos localizarmos melhor. Diferente do que falsamente se prega das mulheres, tenho um excelente senso de direção e detesto perguntar o caminho.

Pois saímos nós três, a pé, em direção à praça Jemaa el fna, principal da cidade. O início do trajeto era fácil, tinha memorizado. Até que chegamos a uma trifurcação. Sabia que o da direita era o caminho do carro, mas pela direção, seria o do meio ou o da esquerda. Começamos no do meio, mas Luiz achou que estava errado, voltou e pegou o da esquerda. Algumas pessoas nos olharam e um rapaz de bicicleta parou e perguntou onde estávamos indo. Nos avisou que aquele era o caminho para o curtume, se quiséssemos ir a praça, deveríamos seguir pelo meio.

O engraçado é que ele olhava para o Luiz com o olhar meio confuso, até que não aguentou e perguntou de onde ele era. Luiz respondeu, brasileiro. Ele sorriu, como quem finalmente entende a charada, dizendo que parecia um marroquino. Claro! Todo mundo achava que Luiz era árabe ou algo do gênero!

Depois desse episódio, acertamos todo o caminho, com meu irmão duvidando um pouco se sabíamos o que estávamos fazendo ou se deveríamos parar e perguntar. Mas Luiz e eu já estamos acostumados a sensação de descobrir trajetos e lugares, o que me parece bem mais divertido que perguntar.

 

É bem provável que a aparência do Luiz tenha nos livrado de um certo assédio. Muita gente reclama de ser abordada ao incômodo pelas ruas e mercados, mas nós passávamos bem tranquilos. Facilitou também estar de óculos escuros. Ao não saberem para onde olhava, não sabiam qual era meu interesse. O que me liberou para observar tudo em volta. Não quer dizer que ninguém falasse conosco, mas nada que fosse realmente desagradável.

Cada vez me sentia mais à vontade na cidade. Gosto de caminhar pelas ruas, e os “souks”, ou mercados, são um capítulo à parte. Visualmente é muito familiar à Andaluzia, sendo que na Espanha as coisas estão mais conservadas. Mas se nota claramente a influência cultural no sul espanhol.

A maioria das tendas é de roupas e objetos de decoração e são muito parecidas entre si. Pelo menos para mim, chamavam mais atenção as lojas de temperos e o aroma que exalam pelas ruas, tudo tem um pouco de cheiro de comida. Há muitos lugares para comer também e estão sempre movimentados, mas não nos atrevemos. Os açougues não tem refrigeração para as carnes, é tudo exposto nos balcões. Passamos por uma loja cheia de pequenos botijões de gás, o que me fez apressar o passo com medo daquilo explodir.

Os gatos passeiam livremente, parecem ser bem vindos. Vi gente alimentando e deixando água disponível. Já os cachoros se vê pouco. Na cultura muçulmana o cão é considerado sujo. O gato pode entrar em casa, o cachorro não.

Finalmente, vi uma roupa que me interessou. Luiz topou negociar para mim, porque eu não tenho o menor saco. Comprei uma túnica branca e prata comprida para usar na mesma noite e uma azul turquesa mais informal. Meu irmão também se animou para comprar para minha mãe e a namorada dele. Servi de modelo para todas as roupas e já não aguentava mais colocar tanta túnica!

É engraçado como prestam atenção em quem está passando pela rua. No meio de tanta gente, tentam identificar quem é da onde e se é um possível comprador. Passamos por um senhor sentado em frente a uma loja, no que ele nos diz em português arrastado: obrigada! Não sei como ouviu nossa conversa, já que nem falamos tão alto assim, mas puxou papo, perguntou da onde éramos e disse que tinha família em São Paulo. Conversamos um pouquinho, ele convidou para ver seus tapetes, agradecemos e nos despedimos.

Uma das coisas que os vendedores tentam fazer é apertar sua mão enquanto você passa na frente da loja. As pessoas ficam sem graça em não retribuir o aperto de mãos e quando você vê, já se envolveu em uma negociação chata. Um único vendedor tentou fazer isso comigo, mas ignorei. Depois, sei que na cultura muçulmana, um homem nunca deve estender a mão primeiro a uma mulher. Logo, também poderia usar a mesma prerrogativa. Luiz vinha logo atrás negando e ninguém me perturbou mais.

Afinal de contas, estava acompanhada do meu marido saudita e era uma moça de família, porque também nos seguia meu irmão. Fiquei de onda com Luiz, dizendo que os “brimos” estavam invejosos porque ele faturou a francesinha, nacionalidade que sempre me atribuem.

Passeamos pela caótica Jemaa el fna, que nesse momento estava até relativamente tranquila. Decidimos comer alguma coisa por ali. No primeiro dia, a guia nos indicou um restaurante na praça, dizendo que era confiável. Sabe-se lá o que isso significaria, mas Luiz achou o restaurante ao lado mais bonitinho. Realmente, parecia melhor, ainda que estivesse um pouco desconfiada. Arriscamos. Meu irmão e eu comemos um macarrão  meio sem graça, mas também sem maiores consequências. Verdade que já não aguentava mais tomar água com gás! Luiz se atreveu em um omelete, possível causador de uma dor de barriga por uma semana. Sobrevivemos, e a vista era ótima.

 

Na saída ainda fomos negociar uma mala para meu irmão, que agora com menos limite de peso por bagagem, precisava distribuir melhor suas coisas. Até que conseguiram bom preço, mais o Luiz, porque meu irmão também não tinha muita paciência para negociar. Eu saía de perto, demonstrando a maior indiferença possível, além de conveniente para mim, poderia servir na negociação.

Tivemos que voltar para o Riad de taxi, meu irmão se recusou a voltar arrastando a mala. Pois lá fomos nós na aventura de nos meter em um taxi, sem taxímetro é óbvio. Até que nem fomos muito roubados, só um pouquinho.

Quase chegando ao Riad, encontramos o gerente saindo, ia buscar as duas espanholas na praça. Perguntou se queríamos ir junto e topamos. Achava divertido andar de carro no meio daquela confusão, principalmente porque não era eu quem dirigia. Antes de chegar em Marrakech, cogitamos alugar um carro, coisa que nesse momento nos parecia a pior decisão do mundo!

Passeamos um pouquinho até encontrar as meninas. O gerente era divertido. Um marroquino muito sorridente, solteiro convicto e de aparente mentalidade aberta. Às vezes me parecia que queria ser amigo, mas tinha um pouco de receio de misturar a relação de trabalho. A simpatia em Marrakech sempre vem acompanhada de uma etiqueta com preço. A dele era natural, mas sabia deixar claro que estava trabalhando.

 

Chegamos todos ao Riad no fim da tarde. Eu me sentia como se morasse ali há algum tempo, havíamos visto tanta coisa. Tomamos mais chá, fumamos a shisha, eu pouco, com medo da alergia ao tabaco.

 

Chegou a hora do jantar e da nossa pequena comemoração familiar. Havia dito ao gerente que era meu aniversário e se ele poderia nos sugerir um lugar especial. Ele nos reservou no “Dar Dif”, não tenho certeza se escreve assim, pois não encontrei referências, mas em árabe “dar” significa “casa” e “dif”, hóspedes.

Vesti minha túnica branca comprida e me senti feliz por estar em um traje marroquino autêntico, quem sabe pareceria um pouco mais local. Na saída do Riad, pela primeira vez me senti observada. Luiz comentou, você está chamando atenção. E eu, mas não faz sentido, justo no dia que me vesti de marroquina? Será que estou vestida de noiva e não sei? Perguntamos ao guia e ele disse que não, era uma roupa de festa normal, bonita.

Bom, não entendemos bem. Talvez fosse o fato dele parecer árabe, comigo vestida com um traje marroquino, é possível que as pessoas esperassem que também usasse um véu. Ou simplesmente tivessem achado a roupa bonita.

Enfim, chegamos ao restaurante e era um lugar bem elegante, um enorme pátio interno coberto e de pé direito muito alto, azulejos em tons predominantemente azuis, chão de mármore, mesas grandes e bem espaçadas umas das outras, o que garantia privacidade nas conversas.

E sim, a recepcionista e todas as garçonetes tentavam falar com Luiz em árabe.

Duas mesas enormes, com mais de dez homens cada uma, parecia jantar de empresa. Fizeram um papel um pouco ridículo durante a dança do ventre. Fiquei na dúvida se estava mais interessados na moça ou nisso demonstrar uns para os outros. Homem é muito bobo! Mas a menina dançava muito bem.

A música era ao vivo e os músicos passearam um pouco pelo salão. O cantor parecia em transe eufórico, o sorriso mais intenso que vi e o olhar de quem estava em outro lugar. Tive vontade de entender o que ele estava cantando.

O jantar foi bem farto e a comida muito boa. Não há muita variação de cardápio, mas o tempero me agrada.

Um pouco depois de terminar, vejo uma mocinha saindo da porta da cozinha com uma torta de aniversário. Frio na espinha, isso só pode ser para mim! Pois é, o gerente do Riad me dedurou e vieram as garçonetes e os músicos cantar parabéns em alguns idiomas. Talvez em outra época tivesse morrido de vergonha, mas a verdade é que curti e aproveitei.

 

Telefonamos para meus pais, que estavam com vontade de estar lá também. Ligamos para uma amiga para acordá-la, ela tem mania de fazer isso com a gente e foi nossa revanche. No mais, curtimos a noite e tomamos champagne.

Pedimos uma champagne árabe, que me pareceu excelente. Na hora de pagar a conta, descobrimos porque. Haviam “substituído” por Dom Pérignon, cujo preço era ligeiramente diferente. Nem quis saber, estava acompanhada de dois cavalheiros e não ia estragar meu aniversário justo no final, que resolvessem enquanto fui ao toilet. Estavam com cara meio aborrecida quando voltei, mas não tive vontade de perguntar.

Em Marrakech, não importa o nível do lugar onde você esteja, é preciso prestar atenção.

Na saída, o gerente do Riad nos esperava. Meu irmão, para variar, queria esticar a noite, mas todos estávamos um pouco cansados e decidimos encerrar por ali mesmo.

Nosso vôo de volta sairía no fim da manhã seguinte. Fui embora com gosto de quero mais, me sentia diferente de quando cheguei ali, literalmente mais velha, mas em um bom sentido.

Os 40 que esperei tanto chegaram, tão longe e tão perto de casa. Da maneira que mereci, sem fantasias, de verdade, com o que é melhor e o que é pior, humano. Ninguém pisa na África e volta indiferente. Mas cada um com sua própria experiência.

Tenho avaliado muito as relações de confiança. Passei os últimos anos forjando minha natureza em confiar nas pessoas e parar de ser tão autosuficiente. Eu realmente me esforcei. Agora já não sei. Sinto falta da sensação de imunidade que dava minha segurança em contar comigo.

Aprendi em Marrakech que tudo é relativo e tem um preço, até os sorrisos tem um preço. Às vezes, é mais honesto que seja em dinheiro.

Gosto das casas com pátio interno, dos riads, de construir meu próprio mundo protegido. Mas sinto muito falta das janelas abertas, caminhar na rua e observar as pessoas. Gosto de gente e que gostem de mim, mas essa recíproca nem sempre é verdadeira. E às vezes detesto gente e as coisas que são capazes de fazer, outras faço pior.

Como diria meu sábio e escatológico amigo, merdas cagadas não voltam ao cú. O jeito é seguir adiante, da melhor maneira possível.

Aprendi também que boa parte das minhas eternas angústias vem da consciência do fato de ter escolha. Eu tenho escolha e isso é muita coisa. Acabei de ver um monte de gente que não tem. Conheço um monte de gente que não tem.

Chegamos em Madrid no dia 10 de novembro, finalzinho da tarde. Cansada, mas feliz. Não deu muito tempo para descansar, nem para absorver tudo que tinha visto e aprendido. Na sexta-feira 13 estava marcada um festão em casa e ainda havia muito que organizar.

… Marrocos, uma viagem diferente (parte III)

No terceiro dia da viagem estava me transformando em uma terrorista! Às cinco da matina queria explodir a torre de onde saía aquela oração infernal! Porra, tem que rezar às cinco da manhã? Não dá para ter fé um pouquinho mais tarde? Calma Bianca, passa a merda do óleo de laranjeira nas têmporas e dorme outra vez!

Na segunda vez que acordei, meu humor estava bem melhor. Já tomamos café com as duas espanholas e assim fomos nos entrosando para seguir o dia. Combinamos com o gerente do Riad, que nesse dia seria nosso guia. Saímos de carro para tentar conhecer o restante dos lugares considerados mais importantes.

Primeiro fomos a zona do curtume. É um lugar grande com vários tanques a céu aberto, onde tratam e tingem couro e tecidos. O aroma é de sangue seco e bosta de pombo, e não é uma maneira figurativa de falar, ambos componentes estão presentes no processo. O que eles fazem é te dar um raminho de hortelã na porta, para você cheirar enquanto está lá dentro. Uma das meninas mal aguentava o cheiro, o restante de nós, ainda que não achando nada agradável, tolerava bem. Na saída, é claro que você é obrigada a visitar a loja de produtos de couro e tapetes. E começa todo aquele lenga lenga de demonstrações e negociação de preço.

 

Seguimos para o Jardim de Agdal. Não se deve esperar vegetação exuberante, nada além de oliveiras e terra seca. Há um palácio, acho que do século XII, não muito bem conservado e um gigantesco piscinão, onde nadam peixes alimentados pelos visitantes. Ainda assim tem uma beleza exótica, muito ajudada pela cor do céu e do reflexo do sol na água. Também se pode ver a cidade de Marrakech de outra perspectiva.

 

De lá, uma das meninas pediu para parar em algum lugar com banheiro e o guia parou em um bar. Obviamente, só havia homens e ela disse que não saltaria sozinha nem morta, no que eu estava de acordo. Paramos todos então para tomar um café. Resolvi aproveitar a oportunidade e ir ao banheiro também. Isso antes de descobrir que se tratava de um buraco no chão, o que me fez desistir no mesmo momento. Na mesa, a gente morria de rir do episódio.

Fomos conhecer o bairro de palmeraie, ou palmeiral. Como o nome indica, é uma zona repleta de palmeiras, ainda que hoje só comporte 1/3 do que costumava ser, a seca foi cruel. Nessa área se encontram uma série de mansões e condomínios de luxo. É ultrajante. Passar por um imenso campo de golf com grama verdinha me deu raiva.

 

Seguimos para o Jardim Majorelle, conhecido como o jardim de Yves Saint Laurent. O lugar é um charme e muito bem conservado, elegante mesmo. E, felizmente, o banheiro era normal. Ali também funciona uma cafeteria/restaurante bem charmoso. Luiz queria almoçar por lá, o que teria sido uma boa opção. Mas havíamos combinado com o guia que nos esperava na porta.

 

Almoçamos dentro da Medina, em um restaurante que combinava comida árabe com italiana. Uma fome de leão!

 

O trajeto feito de carro era uma emoção à parte. Parece incrível ver aquele tumulto de gente, animais, bicicletas, motos, carros, todos ao mesmo tempo e se entendendo com uma naturalidade impressionante. Os espelhos retrovisores são ignorados ou dobrados para dentro, só servem para atrapalhar a passagem e machucar alguém. Sua função é olhar para frente. Ninguém para, um chega para cá, outro para lá e funciona! Não vi um único acidente! Meu irmão e Luiz iam se contorcendo no banco incrédulos, até que resolveram gravar em vídeo a experiência. Não foi das vezes mais confusas, mas dá para ter uma idéia do que se trata.

Pensando que acabou? Nada, nos dirigimos ao Palais Bahia e para as Tumbas. E a essa altura já não aguentava conhecer mais nada!

Mas antes de voltar para o Riad, ainda tínhamos que parar em uma última loja. Não tem como fugir. Essa pelo menos, como era uma loja muito grande, você não era tão assediado. O curioso é que nós três entramos na loja separados das meninas, que pularam conhecer as tumbas. Mas lá dentro, o vendedor vendo que elas estavam procurando alguém, sinalizou que seus amigos, nós, estávamos no andar de cima. Não me pergunte como, mas todo mundo na loja sabia com quem estávamos e onde estávamos hospedados.

Voltamos para o Riad, meio mortos, mas com programação para o jantar. Tomamos chá no pátio para relaxar um pouco e subi para o quarto antes do Luiz.

 

Havia retornado a sensação de incômodo, tinha muitas informações ambíguas de coisas que gostava e outras que detestava. Fiquei viajando com o reflexo da luz fraquíssima de uma enorme lanterna de metal pendurada no teto. O som das orações outra vez invadindo o quarto como um lamento. Cheiro de ervas. Quarto vermelho. Cidade vermelha. Cama gigante. Som dos burros gritando. Rostos cobertos. Sede. Campo de golf verde. Terra seca. Meninos jogando futebol na rua. Cheiro de curtume. Cheiro de hortelã. Tudo muito desigual.

Chegou a hora do jantar e fomos ao Le Tobsil, recomendação de uma amiga. Uma das espanholas foi jantar conosco, a outra preferiu passear sozinha pela praça Jemaa el Fna. Não nos pareceu prudente, mas cada um sabe de si. O gerente do hotel nos acercou ao restaurante. Você não consegue parar na porta, mas quando faz a reserva, uma pessoa vem te buscar no horário combinado.

Então, no horário combinado, lá estava um homem com um manto marrom, que parecia saído de algum filme e nos levaria à sede de uma sociedade secreta. Nos embrenhamos com ele em becos escuros e ruelas suspeitas, até parar em uma porta que se abre ao paraíso. O contraste maluco dos diversos mundos paralelos de Marrakech.

Jantamos em uma mesa coberta por pétalas de rosa e ao som de música ao vivo. Uma voz exótica, que parecia ter duas pessoas cantando na mesma garganta. A saída do restaurante, ajudada pelo vinho, ainda parecia mais mágica que a entrada. O mesmo homem do manto marrom nos levou de volta ao nosso guia. Tudo parecia ir se encaixando.

 

A espanhola havia combinado de encontrar não sei quem em outro lugar, meu irmão ainda seguia animado querendo continuar a noite, o guia, que era o gerente do Riad, topou nos acompanhar, então lá fomos nós para o Le Comptoir Darna.

O lugar fica em um bairro bem diferente de tudo que havíamos visto. Mais moderno, parecia outro país. No andar de baixo, um restaurante elegante, e no de cima um lounge. O gerente do Riad cumprimentou as meninas da recepção e subimos diretamente. Ele parecia conhecer toda a cidade, o que provavelmente era verdade.

A frequência era de estrangeiros curiosos, árabes ricos e suas prostitutas de olhar indiferente. A música altíssima era boa, tocada ao vivo por músicos que passeavam pelo local. Minha garganta ardeu pelo fumo e achei bizarro estar tão menos à vontade ali do que nas ruas misturadas da Medina.

A espanhola foi encontrar seu amigo e ficamos eu, Luiz, meu irmão e o gerente do Riad. Curioso estar acompanhada de três cavalheiros em um local onde os solteiros eram discretamente caçados. Mas ninguém me ameaçou.

Conseguimos uma mesa. Conversar era impossível pela altura da música, a poltrona tremia junto com a batida dos tambores. Em pouco tempo a batida do meu coração acompanhava a percussão e fui ficando claustrofóbica. Luiz e o gerente pareciam cansados, mas quietos, meu irmão em transe absoluto no seu planeta feliz. Impressionado com a música e com a bailarina de dança do ventre, nem notou que havia vários bilhetes de moedas diferentes presos na sua roupa.

Embarco profundamente nos mundos que conheço, e pular de um universo para outro em tão pouco tempo, me deixava confusa. Respirei aliviada quando decidiram ir embora, no mesmo momento que chegava a amiga espanhola, também um pouco aborrecida.

Gostei de haver conhecido o lugar, e todos os outros lugares desse dia. Mas já me fazia falta um pouco de sossego. No dia seguinte, era meu aniversário e o único plano que queria era acordar com calma, ter um dia normal e um bom jantar.

… continua

Essa música tocou no Le Comptoir Darna e meu irmão passou TODO o resto da viagem cantando!

… Marrocos, uma viagem diferente (parte II)

No segundo dia da viagem, acordamos por volta das 9 da manhã. Na verdade, às cinco já havia escutado a primeira oração berrada, mas estava tão cansada que pareceu um sonho.

Contratamos um tipo de mini excursão, uma van nos levou às montanhas para conhecer as cascatas de Ourika. Seguimos em direção ao Atlas, quando descobri que inclusive há uma estação de esqui na montanha mais alta. Pensei que talvez devêssemos ter levado casacos, não havia pensado na mudança de clima pela altitude, mas o guia nos tranquilizou dizendo que a temperatura estaria amena. E estava.

Diferente do que me preocupava, meu irmão estava bem empolgado, feliz por pisar na África. Para mim também era importante, foi minha primeira vez em solo africano e isso me parecia emocionante. Havia a possibilidade de dormir uma noite no Sahara, idéia que não fez grandes ilusões nem no Luiz, nem no meu irmão. Em outras ocasiões, nem cogitaria nada parecido, mas ali fiquei com vontade.

Bom, você contrata só passeios, mas sempre te empurram alguma loja no caminho e você descobre quando já está dentro dela. Isso é um pouco chato, mas você vai aprendendo a se defender. Depois, estava acompanhada não de um, mas de dois cavalheiros, portanto resolvi assumir que estava em uma cultura machista em que ninguém ia me dar pelota mesmo, então relaxei e encarnei a donzela protegida, pronto.

Aliás, isso foi engraçado, tive a sensação de proteção por toda a viagem. Aquele sentimento de que nada de mal pode te acontecer. Meu alerta instintivo para perigos não se disparou uma só vez. Ainda que também não tenha me distraído dos riscos, porque nunca se sabe.

Mas voltando ao passeio, essas montanhas são o território do povo Berbere, cujo nome sempre me soa como uma ilha paradisíaca: Beri Beri, Bora Bora… Enfim, é uma zona pobre, onde as casas parecem camaleões camuflados de terra. A paisagem é bonita e mais verde. Não que seja tão exuberante, mas no contraste chama muito a atenção.

 

Paramos em alguns pontos do caminho. Meu irmão se animou a tirar foto em um camelo, achei divertido, mas não tive vontade de montar em outro.

Também atravessamos uma ponte que devia estar presa com orações, mas a paisagem valia à pena.

Visitamos uma cooperativa de mulheres que produzem produtos de argan, um tipo de amêndoa que só existe no Marrocos e possui várias propriedades medicinais, estéticas etc.

 

Finalmente, paramos para almoçar, em um restaurante recomendado pelo guia. O lugar era simples, mas limpo e a comida gostosa. Não há muita variedade de cardápios, mas de maneira geral, a comida nos pareceu saudável e equilibrada. Comemos ao ar livre e sem pressa.

 

O que não sabíamos é que logo na sequência de um farto almoço, subiríamos a montanha a pé, para ver as cascatas. É tudo assim, você vai descobrindo as coisas no meio do caminho, não é nada muito explicado ou determinado.

Um segundo guia nos foi apresentado, um rapazinho berbere que subia rápido na nossa frente. Bastante simpático e solícito, o que me fez pensar que ao final aquele sorriso nos custaria alguma coisa.

 

Subimos de golpe até as primeiras cascatas, a comida entalada na goela. A quantidade de água não é impressionante, a paisagem é mais bacana. Quando vi a segunda subida cheia de gente se amontoando pelas pedras, resolvi empacar e esperar por eles de onde estava. Eles seguiram e sentei em uma rocha com vista privilegiada. Pelos meus pés passava água da cascata seguindo seu curso para baixo, na lateral algumas árvores e para cima o restante da montanha em pedra cinza, uma árvore enorme chorona bem centralizada e uma vegetação esporádica verde musgo. Não tinha uma máquina fotográfica comigo e a paisagem mais bonita da viagem, talvez de muitas viagens, só existe na minha memória.

Perto de mim, notei uma senhora com a cabeça coberta por véu me olhando de vez em quando, doida para conversar. E eu, que já não gosto de falar com estranhos, sorri. Trocamos meia dúzia de frases em francês, para passar o tempo, e logo avistei o guia com meu irmão e Luiz descendo de volta. Nos despedimos e fui encontrá-los para terminar a descida.

Havíamos decidido dar uma gorjeta ao rapaz no final do trajeto, afinal de contas, nosso passeio já estava pago com tudo incluído, era uma gentileza. Mas pouco antes de encontrarmos nosso guia oficial, ele nos parou e cobrou uma quantidade absurda. Luiz não teve dúvida, ligou para o Riad, conversou com o gerente, que pelo telefone mesmo resolveu o assunto com os guias.

E para quem pensa que depois disso nosso guia oficial se aborreceu, se engana. Foi como se nada tivesse acontecido. Mais tarde, descobrimos que ele e o gerente do Riad eram irmãos. No caminho veio conversando com Luiz em uma língua que misturava francês, espanhol e ruídos, mas se entendiam. Ele (e a torcida do flamengo) achava que Luiz parecia árabe, o que era visto como algo positivo. Vinham os dois no banco da frente cumprimentando o pessoal pela rua.

As montanhas estavam bem movimentadas, durante a semana é parado, eles sobrevivem do turismo nos fins de semana. Passamos por vários quiosques e restaurantes onde só haviam pessoas que pareciam locais. O guia nos disse que eles comem ali  normalmente e não tem nenhum problema. Um turista come e logo passa mal.

 

Na volta ao Riad, ainda paramos rapidamente pela praça Jemaa el Fna para meu irmão conhecer. Mas não demoramos, porque tínhamos planos para o jantar.

 

Foi só o tempo de tomar um banho e descansar um pouco e nos encontramos na recepção. Juntaram-se a nós duas meninas espanholas que já havíamos visto pelo Riad. Simpáticas, logo nos tornamos um só grupo e fomos todos juntos ao Chez Ali.

 

O Chez Ali é um tipo de casa de show que eles chamam de Fantasia. É um complexo que gira em torno de um local onde há apresentações com cavalos e homens armados. Eles recriam um treinamento militar onde os cavalos chegam correndo a determinado ponto e todos os homens devem atirar ao mesmo tempo. Como é um espetáculo, eles também fazem exibições de equilíbrio sobre os cavalos, uma parada com tribos diferentes, cada qual com seus trajes e costumes, e, pasmem, o show culmina com um tapete voador! É um pouco cafonão, mas acho que há coisas que precisam ser vistas pelo menos uma vez. Sabendo abstrair o fato que turista tem que pagar alguns micos, a gente consegue ter uma idéia do que é a vida nas tribos e de como é dura.

 

Meu irmão ainda estava animado para seguir na noite, mas o restante de nós estávamos todos podres. Decidimos voltar para o Riad, tomar chá e fumar a shisha junto com o gerente, que a essa altura, era meio que parte do grupo.

O chá foi comprado por uma das meninas espanholas, com a promessa de ter efeitos especiais, digamos assim. A gente não acreditou muito, mas valia pela gaiatice. O gerente foi buscar sua shisha e fomos nós seis para o pátio interno do Riad. Não demorou muito para nos acabarmos de rir com qualquer bobagem, desde o ronco escutado de um dos hóspedes, afinal, estávamos em uma casa, até as posições engraçadas do gerente fumando, que passou a ser apelidado de homem tartaruga.

Preocupados em estar incomodando os outros hóspedes, perguntamos ao gerente se havia algum problema estarmos ali aquela hora, no que ele, que bem estava se divertindo, respondeu de ombros rindo: náa… estão dormindo! Motivo para rirmos mais meia hora. Pensando bem, acho que o tal chá devia ter algum efeito.

O astral não podia ser melhor, mas o sono estava batendo. Combinamos de sair todos juntos no dia seguinte, não tão cedinho.

Fui dormir exausta, lembrando do primeiro dia, que nem queria sair do quarto. Agora queria que o dia seguinte chegasse logo, ainda tinha muito o que fazer.

… continua

Telaraña no Teatro Lara

Sei que estou devendo alguns textos, é que mal tenho parado em casa, mas pode deixar que já coloco tudo em dia… um dia! 🙂

Porque hoje dei uma passada rápida no blog para fazer a propaganda do show da Vanessa Borhagian. O musical infantil chama-se “Telaraña“, mesmo nome do CD lançado inclusive no Brasil. Será no sábado, 21 de novembro, às 12:00hs. O Teatro Lara fica na Corredera Baja de San Pablo, 15.

Para quem estiver por Madri, recomendo! Além de um programa familiar bem divertido, há várias participações especiais, entre elas a de alguns integrantes do nosso coral, o Dumbaiê.

 

Esperamos vocês por lá!

Marrocos, uma viagem diferente

Há cinco anos atrás, quando chegamos na Espanha, algumas pessoas sugeriam a viagem ao Marrocos. Nunca tive vontade antes e acho que foi a decisão correta naquela época. Cada experiência tem seu tempo e seu porquê. Acho que isso deve ser diferente entre as pessoas, mas para mim, a escolha por Marrakech nunca foi turismo.

Acredito que seja a melhor dica que possa dar, não é um local para ir a passeio e sim para aprender e sentir.

Acho difícil escrever esse texto, porque minha lógica é por natureza ocidental e cartesiana. Sou feliz em poder fugir da linha reta, mas me custa um exercício. Um exemplo, as línguas orientais são escritas em outra ordem e com desenhos, isso quer dizer que uma pessoa ocidental lê com a parte esquerda do cérebro, uma oriental lê com a direita. Não é apenas uma questão cultural, a cabeça funciona de outra maneira. Pessoalmente, só vejo possível entender uma cultura diferente pensando diferente também.

Então, para os ocidentais mais ansiosos, adianto que tudo correu bem e que aproveitei o máximo possível. Para os que queiram viajar e compartilhar, um pouco de paciência, porque não posso escrever diretamente o que é tão subjetivo. Não há tradução. Da boca de um marroquino, não escutei nem sim nem não, tudo é relativo. Portanto, também é difícil dizer simplesmente gostei ou não gostei, porque depende.

Mas vamos por partes. Há alguns meses atrás, quando meu irmão decidiu vir para meu aniversário, começamos a escolher destinos de viagem, uma maneira de aproveitar melhor a travessia do oceano. Desde o princípio, sugeri uma ida ao Marrocos, achava que estava pronta para isso e que poderia ser uma experiência exótica também para ele. Luiz conseguiu tirar um par de dias de férias, juntamos com o feriado de 9 de novembro e deu certo. Saí de Madri com Luiz no dia 6 de novembro, às sete da matina; meu irmão saiu de Londres e deu a volta no mundo para chegar no mesmo dia pela meia noite.

Tanta coisa aconteceu perto da viagem, que acabei por me esquecer de levantar grandes expectativas. Só pensei no assunto quando sobrevoávamos a cidade para pousar, Luiz cochilando e eu olhando para baixo todas aquelas construções cor de barro, quadradas, como um enorme favelão. Putz! E se for uma roubada? Convenci Luiz a tirar férias… meu irmão vem do Brasil e fará umas três escalas para conseguir chegar hoje… e se for uma merda?

Quando saltamos do avião e vi aquele aeroporto pequeno, cor pêssego, com cara de antiguinho, meu primeiro pensamento foi: taquiupariu, meu irmão vai me matar! Com Luiz então, putz, preferia nem olhar! Procurava pensar que ele já sabia onde havíamos nos metido. Depois era meu aniversário, qualquer coisa poderia fazer chantagem sentimental, pronto.

Optamos por ficar em um Riad dentro da Medina. A Medina é como se fosse o coração da cidade, é a parte mais antiga, cercada por 14 km de muro grosso, com 19 portas. Riad é o nome dado a uma casa com pátio interno. Dentro da Medina, há uma série de Riads, que no passado foram palácios de pessoas importantes, e se transformaram em pequenos hotéis. Nós ficamos no Riad Khamssa, indicado por amigos.

Desde Madri, contratamos junto ao Riad alguém que fosse nos buscar no aeroporto, achamos mais prudente. Não é difícil pegar um taxi ali, mas eles não seguem taxímetro. Tudo, absolutamente tudo, que se paga em Marrakech é negociado e isso pode ser bastante irritante.

Não tivemos problemas, o cidadão nos esperava e falava algo de espanhol. Subimos em uma van em bom estado de conservação e lá fomos para o Riad. No caminho, uma zorra: bicicleta, burro, gente, motos, carros… A primeira vista, tudo parece feio, sujo e pobre. Não sabia muito bem o que pensar.

Quase chegando – ainda não sabíamos disso nesse momento – a van parou para subir um rapaz arrumado normal que conversava com um tipo que me parecia um mendigo. Achei que fosse carona. Minutos depois, o carro estacionou e entendi que ele era do Riad e que nos acompanharia o restante do trajeto a pé.

Vou ser muito sincera, esses 30 ou 40 metros a pé me fizeram pensar estar entrando em alguma favela bem pobre. Por ali havia um estacionamento de burros (sim, de burros!) e cheirava a bosta! E falando em burro, só pensava onde havia ido amarrar minha égua! Finalmente, entramos em um beco e enquanto tentava me lembrar se havia levado gilete para cortar os pulsos, abre-se uma porta para um lugar lindo. Juro, lindo! Um oásis.

Sentamos no pátio para tomar um chá, sem saber se já poderíamos subir para o quarto ou se deveríamos esperar, a comunicação não era difícil, mas às vezes parecia confusa. Justamente, porque sempre esperamos respostas diretas, coisa que nunca aconteceu. Conhecemos o gerente do Riad, um marroquino muito simpático, mescla de árabe com berbere, que no restante da viagem foi quem nos orientou.

A porta do quarto não tinha chave, afinal, um Riad é uma casa. No início, ficamos sem saber se poderíamos deixar dinheiro ou documentos assim dando sopa, perguntamos ao gerente e ele nos informou que não havia nenhum problema. Acreditei, relaxei e hoje posso dar meu depoimento que não me faltou um grampo. Nos hospedamos em um quarto chamado Marrakech, que é um charme.

Como havíamos saído muito cedo de Madri, resolvemos dar uma deitadinha para descansar, comer pelo Riad mesmo e sair no início da tarde para conhecer a cidade caminhando. Contratamos um guia que chegaria pelas 14:00hs.

Deitada em uma cama gigante, não sabia o que pensar. Era tudo ambíguo, por um lado, queria alguma desculpa para ficar toda a viagem fechada naquele quarto seguro, limpo e elegante. Por outro, sabia que era só um quarto, a vida estava do lado de fora e precisava passar por isso.

Não é a pobreza que me incomoda, é a desigualdade que me faz sofrer. O que vi não era tão diferente do Brasil, mas o fato de estar há algum tempo fora me coloca em uma redoma. É muito bom não precisar pensar diariamente que meu conforto não é uma regra geral. Lembrar dessa sensação de impotência, da consciência da miséria, da fome, da sede, me dói. Não é culpa, mas saber que estou constantemente do lado forte da corda, por puro acaso, é assustador. E se estivesse do outro lado?

Descemos para comer no próprio Riad. Antes de viajar, ouvimos mil recomendações, algumas um pouco exageradas, outras prudentes. É importante tomar água engarrafada, melhor que seja com gás, para não correr o risco de ser enganado. Não se deve comer coisas cruas, procurar restaurantes confiáveis e por aí vai. Dizem que na Índia, até para se escovar os dentes, melhor que seja água mineral. E não, não escovei os dentes com água mineral e não tive nenhum problema.

Muito bem, logo de cara nos serviram uma salada de tomates e pepino. Fiquei meio na dúvida, mas acho que às vezes é necessário se correr algum risco. Seria falta de educação não comê-la e quebramos a regra logo na primeira refeição. Nada de mal aconteceu. Aliás, a comida estava uma delícia! Além disso, comemos kafta com batatas fritas e uma abobrinha divina! Acho que nunca comi uma abobrinha tão gostosa! Mas pelo sim e pelo não, a partir de aí, só água com gás, ou refrigerante, e sem salada crua. Também não vamos abusar da sorte.

Fomos informados que nosso guia havia chegado. Pedimos para fazer uma caminhada pela cidade, até a praça Jemaa el Fna. Na minha cabeça, ele seria moreno, com alguma roupa típica e falaria mal algo de espanhol ou francês.

Minha primeira surpresa, a guia era uma mulher. Uma marroquina de pele clara, que falava um espanhol muito bom. Isso me deu confiança, se ela chegou sozinha caminhando por ali, não poderia ser um lugar perigoso.

Nos embrenhamos por becos e vielas, no meio de um monte de gente e animais juntos. Perguntei se era seguro caminharmos sozinhos pela rua e ela me disse que sim, não teríamos problemas. Só alertou que se estivéssemos a pé, melhor voltar antes das 22:00hs. Também nos aconselhou a andar mais à direita nas ruas, porque o que nos parecia uma calçada era uma rua normal, onde passava carros, motos, bicicletas, de tudo.

Algumas pessoas nos olhavam, mas sem assédio, não me incomodavam, eu também estava olhando. Procuro manter o respeito, não acho nenhuma graça na estética da pobreza. Fico muito ofendida, por exemplo, com as excursões que fazem nos morros cariocas. Não tenho nenhuma vergonha, o que está lá, está lá, mas acho uma falta de respeito subir o morro em carros de safari, como em um zoológico: olha como a gente pobrezinha vive! Procurava ter isso em mente ao passear pela cidade.

Uma das coisas que realmente me fazia mal era o tratamento com os animais de trabalho. Cada burrico que olhava, me dava vontade de chorar. Sofridos, subjugados, muito difícil.

Tudo me parecia muito duro, muito pouco. Pessoas feias, peles enrugadas, mãos inchadas, roupas sujas. E aquele som saindo das mesquitas chamando para a oração. Eu não rezo, mas entendi o gesto de se ajoelhar, ou da reverência das orações muçulmanas, porque só tinha vontade de me jogar no chão, baixar a cabeça de vergonha e pedir perdão pelos desperdícios.

O que não sei muito bem como explicar é que foi exatamente a partir daí que comecei a aproveitar a viagem. Talvez antes estivesse tentando entender com a razão, e só com a emoção me foi possível entrar em sintonia com o lugar.

Porque da mesma forma que tudo era tão difícil, eles estavam ali vivos, eram reais. As mãos sujas eram de quem tinha trabalho, as rugas eram de quem tinha idade para chegar até elas e quando a água é um bem tão precioso, por que se preocupar tanto que as roupas estejam assépticas?

A vida não é sempre justa, nunca foi, nunca será. Quando só existe uma opção, não há certo ou errado, há o que precisa ser feito. Na maioria dos olhares, não vi tristeza nem alegria. Tristeza é luxo de quem tem escolha.

Entramos em uma antiga Medersa, que eram colégios para meninos. Os que moravam na cidade, voltavam para suas casas; os que vinham de outras aldeias, dormiam no próprio local, como um colégio interno. O maluco é vir em uma rua com o aspecto tão pobre e antigo, e de repente, você passa por um portão e está em outro planeta!

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Essa é outra característica importante para entender a cidade, todas as construções são feitas para dentro e não para fora. As casas tem pouca ou nenhuma janela para o exterior. Era uma maneira de se preservar a intimidade dos moradores e, ao mesmo tempo, que as mulheres da casa não tivessem visão da rua e de quem passasse por ela. O mundo é para dentro da sua casa, para sua família. O capricho arquitetônico está sempre no interior, do lado de fora são quadradões sem graça.

Verticalmente, as construções me pareciam camadas arqueológicas. Na parte de baixo, materiais do século XII, subia um pouco o olhar, e apareciam tijolos com concreto, continuava mais um pouco e havia um mar de antenas parabólicas!

Continuamos nossa caminhada e fomos ao museu de Marrakesh. A mesma coisa, de fora, não se dava nada e por dentro maravilhoso. Ali nossa guia contou sobre como funcionava o hamman marroquino, diferente dos turcos, não há piscinas. Há também três salas intermediando temperaturas que vão do frio ao quente e o banho é feito com um balde e sabão esfoleante. Há um espaço para ablação, nesse caso, o ato do muçulmano se lavar antes das orações (a palavra tem outros significados).

Religiosamente, os marroquinos são considerados mais abertos. Essa é sempre uma questão muito relativa. Se encontra mulheres totalmente tapadas caminhando pela cidade, mas também é normal vê-las com véu sem cobrir o rosto ou totalmente sem véu, como nossa própria guia.

Há prostitutas, mas não pelas ruas, e não é difícil comprar álcool, o que leva um monte de saudidas até lá para exercerem sua hipocrisia. Casas alugadas em condomínios de luxo para festas e orgias não são algo incomum.

Em nenhum momento fui abordada com desrespeito. Estar acompanhada de um marido com cara de “brimo” ajuda muito. Também procurei ser discreta, não havia a menor necessidade de andar pela rua com roupas curtas ou decotadas, coisa que vi mais de uma vez.

Há mesquitas espalhadas por toda a cidade e de cima de suas torres saem auto falantes chamando a população islâmica para rezar. O muçulmano deve rezar ao menos cinco vezes ao dia. Então, às vezes você está andando e vê alguém com um balde lavando-se para rezar, ou levando seu tapete para algum canto virado para a Meca. Até na estrada vi um carro parado, com dois homens ao lado, em seus respectivos tapetes, rezando. Ou seja, deu a hora deles, pararam o carro ali mesmo e mandaram ver.

Não me pareceu fanatismo. Imagina em determinados horários toda uma cidade com a energia voltada para a mesma direção. É forte.

Mas o comércio não para. Ainda que se chame em horários específicos, as pessoas se revezam. É fundamental que sejam cinco vezes ao dia, mas não precisa ser na mesma hora.

Entre nós, com todo respeito, o duro é que a primeira oração é às cinco da matina! Ninguém merece! Luiz lembrava daquele humorista, Leandro Hassum, e queria subir no terraço e berrar: para com essa gritaria! Ele é Deus, todo poderoso, ele escuta se rezar baixo também!

Enfim, seguindo com nosso passeio, lógico que tivemos que encarar as lojas que os guias sempre colocam a gente, não tem jeito. É uma saia meio justa, mas já avisamos de cara que não estávamos para compras. Ela responde, sem problemas, é só para olhar… eles sempre respondem isso, mas é sempre intimidador.

Na primeira loja, de coisas de decoração, enfeites, espelhos etc, passamos ilesos. Até porque, nem que quisesse poderia comprar, tínhamos limite de peso na bagagem.

A segunda loja foi meu ponto fraco, porque era de ervas e temperos. Não sei que raios sabia o vendedor, mas simplesmente ele saiu explicando exatamente as ervas que me interessavam. Juro, não havia aberto minha boca! E sim, levei um monte de coisas. Entre elas, um óleo a base de laranjeira, que prometia acalmar se esfregada uma pequena quantidade próximo às têmporas. Saí da loja com ele e usei todos os dias.

Depois dessa loja, a guia queria nos levar em uma outra de tapetes de qualquer jeito. Mas, educadamente, recusei… umas cinco vezes!

Passamos pelos “souks”, que são os mercados de tudo que se possa imaginar. As ruas cheiram a temperos e comidas. Novamente não fomos assediados, não sei se pela presença da guia. Seguimos para a praça principal da cidade, Jemaa el Fna, que em árabe significa algo como gente queimando no inferno. Bom, a essa altura, estava bem à vontade no inferno, quase tudo me parecia normal.

Essa praça é um caos! Tem barraquinhas de comidas, hipnotizadores de serpentes, domadores de macacos, leitores de sorte, gente pintando o corpo de henna, carroças, músicas diferentes tocando ao mesmo tempo, pessoas com trajes de antigos vendedores de água posando para fotos (e cobrando, é lógico), turistas passeando, moradores de passagem, carregadores, gatos, bicicletas, motos… tudo isso junto!

E eu, absolutamente calma, não sei se pelo óleo de laranjeira. Por alguns momentos, chegou a passar na minha cabeça que seria capaz de morar ali.

Acho que voltaríamos caminhando, mas demos uma canseira tão grande na guia que ela resolveu pedir um taxi. Aliás, ela era bem simpática, mas já demonstrava um certo cansaço. Nós também.

A volta de carro foi uma aventura ainda maior que andar. É uma zorra tão grande que você acaba relaxando, eu pelo menos assumi que aquilo deveria ser normal, ninguém parecia se irritar e tudo fluía.

O último trecho que precisávamos caminhar nas ruelas, o mesmo que fizemos pela manhã quando chegamos, não me parecia mais assustador, só um pouco feio. Os cheiros já eram normais e memorizei o caminho, caso resolvêssemos fazê-lo sozinhos.

Jantamos no próprio Riad, nem foi por preocupação, era cansaço mesmo e o lugar era muito agradável. Tomamos um vinho marroquino, bem correto por sinal, e resolvemos dar uma cochilada até a hora do meu irmão chegar. O despertador tocou e não nos demos conta, acordamos com ele entrando no quarto e a gente sem saber que dia era!

Ele estava exausto e meio gripado, me deu os presentes que nos haviam enviado, pegou um trimedal que Luiz levou e conversamos um pouco. Queria checar que expectativas ele tinha sobre a cidade para não se decepcionar no dia seguinte. Na verdade, ele estava bem tranquilo em relação a isso, então acabei ficando mais tranquila também.

Logo fomos dormir, afinal esse foi apenas o primeiro dia e tínhamos ainda muita coisa para ver.

Continua…

Pai em casa, carteira na mão e a caminho de Marrocos!

Ontem à tarde meu pai recebeu alta do hospital, uma grande notícia! Em casa, tudo é mais fácil. A gente ainda não sabe exatamente quais os próximos passos, mas tem um monte de coisas na vida que a gente também não sabe, então vamos descobrindo a seu tempo.

 

Meu irmão vai aproveitando sua viagem. Encontrou uma amiga em Londres, assim que não ficou tão perdido. Seguirá amanhã direto para Marrakesh, onde nos encontraremos.

 

Hoje consegui finalmente fazer o canje da carteira de motorista e já estou habilitada a dirigir legalmente na Espanha! Esperei por isso cinco anos, não digo que ansiosamente, porque conduzir não me fazia falta, mas agora que deu certo, fiquei feliz. Bom, só falta aprender a dirigir o complicadíssimo super mega carro do Luiz, que tem tantos botões que precisarei de um curso de pós graduação para entender! De momento, sei ligar o rádio!

 

Daqui a pouco saio para o coral, preciso ensaiar voz e tamborim. Ainda estou meio perdida na batucada, era tão mais simples quando era criança e tocava de ouvido os instrumentos do meu pai. Agora o ouvido escuta direito, a cabeça sabe o ritmo e a mão não acompanha. Putz! Tudo bem, vou treinar.

 

Amanhã, praticamente de madrugada, sai nosso vôo com destino ao Marrocos. Estou morta de curiosidade para fazer essa viagem! Voltamos no dia 10 de novembro.

 

A festa do dia 13 está encaminhada, mas fico um pouco agoniada se está tudo certo… se vai faltar bebida… se tem comida suficiente… se os vizinhos vão reclamar… se faltou alguém… caraca! Não é que esteja nervosa, estou histérica como uma noiva!

 

Eu devo estar esquecendo alguma coisa…

 

 

“Canje” da carteira de motorista brasileira pela espanhola

A troca da carteira de motorista de um estrangeiro pela espanhola se diz “canje”. Há mais ou menos cinco anos, quando chegamos em Madri, só poderíamos ter a carteira, ou carnet de conducir, se fizéssemos as provas teórica e prática novamente. Luiz não podia esperar e foi obrigado a fazer auto escola e provas outra vez. Como não tinha pressa, muito menos saco, resolvi esperar o tal do canje.

Finalmente, esse ano foi tudo regulamentado e no fim de agosto começaram a marcar as datas para realizarmos o procedimento. Abaixo conto todo o processo que passei e já adianto que não sei nada além disso. Vivo legalmente em Madri e minha carteira de motorista brasileira estava regularizada e válida.

A primeira coisa a se fazer é marcar a “cita”, ou seja, a data para ir até a DGT (Dirección General de Tráfico) entregar seus documentos. O telefone é 902 300 175. Ter em mãos seu NIE/DNI e carteira de motorista brasileira, você informará esses números, além do nome da sua mãe (o que imagino que todos saibam de cor).

Está demorando em média dois meses para conseguir uma data, mas isso pode variar bastante. Com sua data marcada, convêm checar pelo website se sua solicitação foi aceita ou está pendente de alguma informação por esse link.

Os documentos necessários são:

–         NIE/DNI – original e cópia

–         Carteira de Motorista Brasileira – original e cópia

–         2 fotos tamanho carnet

–         Certificado médico e psicotécnico

O certificado médico é o mesmo que se tira ao frequentar uma auto escola. No meu caso, fiz na Plaza Manuel Becerra, 18; tel 91 402 0973. Custou 30 euros e foi bem rápido e simples. Basicamente é um exame de vista e meia dúzia de perguntas, se você toma alguma medicação, tem algum problema etc. É necessário levar uma foto igual as que você levará para o carnet de conducir. A validade é de três meses.

A sua carteira de motorista brasileira é entregue na DGT, você literalmente faz a troca. Não adianta se fazer de esperto e dizer no dia que a esqueceu, ninguém é bobo. 

Pois muito bem, com sua cita marcada e aceita e seus documentos em mãos, comparecer na DGT, que fica na Calle de Arturo Soria, 125. Você vai no primeiro andar, confirma sua cita, pega uma senha de atendimento e um formulário para pagar a taxa de 26 euros. Não é necessário ir a nenhum banco, há caixas nesse mesmo andar que recebem a taxa. Depois é só subir para o quarto andar, com sua senha, e aguardar ser chamado. Esperei umas 30 pessoas, não foi muito demorado, pode depender do horário.

No mesmo dia, recebi uma carteira de motorista provisória, válida por três meses. Ou seja, você já pode sair de lá dirigindo legalmente. Durante esse período, a carteira definitiva deverá chegar pelo correio.

Agora é só esperar.

E la nave va

Passada a ressaca das notícias e uma noite mais ou menos de sono, tudo bem. Nem saiu o resultado da biopsia ainda, vai que eram só três tumorezinhos merreca, né? Bom, o objetivo do dia é que meu pai saia do hospital, hoje já faz 11 dias que está por lá e, se conheço a peça, nesse momento estará infernizando todos os médicos e enfermeiras para darem logo a alta.

Enquanto isso, na sala de justiça… a vida foi seguindo. Meu irmão chegou bem em Londres e está adorando a cidade. Acabei não indo encontrá-lo, mas ele conhece gente por lá e está se virando.

No fim de semana, tivemos uma festa à fantasia, aproveitando o Halloween. Luiz estava especialmente assustador e ainda tivemos a cara de pau de encontrar uns amigos no Mercado de San Miguel antes da festa.

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No domingo, encontramos um casal de amigos de Brasília, ele estudou comigo no colégio. Ontem jantamos novamente e até que foi bom para dar uma espairecida. Fomos ao El Rincón de Jaén comer uma prancha de mariscos escandalosa. Regime para o saco, mas acho que a quantidade de ácidos que havia no meu estômago deve ter consumido tudo, e o que sobrou o álcool do vinho queimou.

Na semana passada, ganhei meu presente de aniversário, um conjunto de facas de chef enroladas no seu estojo de couro. Luiz costuma dizer que sou uma mulher meio esquisita, amo acessórios de cozinha e ferramentas. Piro com panelas e sou completamente tarada por facas! Vai entender. Mas adorei, e se conseguir ir para Paris fazer os tais cursos de culinária, já tenho meus instrumentos. Acredito nos poderes dos uniformes de super heróis, o hábito pode não fazer o monje, mas faz com que ele entre no clima. Chegar com minhas próprias armas enroladinhas em seu estojo negro, me deixa mais poderosa. Assim como caminhar com minhas botas de peregrina me elevam a postura dos ombros. Quantas vezes saio pela rua meio mais ou menos e logo me lembro, tudo bem, estou com minhas botas e juntas já atravessamos montanhas.

Amanhã entrego os documentos para validar a carteira de motorista. Dizem que está dando muitos problemas, não sei se é exagero, logo vou saber. Estou um pouco ansiosa para resolver isso, melhor ir de botas! Depois de cinco anos sem dirigir por essas bandas, parece algo tão distante da minha realidade que mal consigo lembrar do tempo em que um volante era a extensão dos meus braços, meus carros tinham nomes masculinos e o mundo era retangular. De qualquer maneira, sempre bom ter a possibilidade.

Consegui terminar de limpar os armários. Esse ano custou mais me desfazer das coisas, mas a renovação, de tudo, é necessária. O novo só chega quando percebe que há espaço, sejam roupas, oportunidades ou amigos. Anteontem entrou uma lua cheia imensa, perfeita para virar loba e só me faltam poucos dias. Exatamente no dia 9 ela começa a minguar e o ciclo se encerra. Daí é recomeçar.

Esse guarda-roupa fim dos 80 é de matar! Mas a raiva do Lobão não sai de moda.

Próximos capítulos

As notícias não são horríveis, mas não são tão boas. Mantive o humor por esses dias, mas verdade que meu estômago e a uma alergia doida para se estabelecer andam me avisando que não vou tão bem quanto pareço. Todo mundo tem seus problemas e não tenho porque amargar a vida alheia. Al mal tiempo, buena cara.

Meu pai acabou de fazer um misto de exame e cirurgia para ver como andava a bexiga. A parte boa é que onde o tumor foi retirado cicatrizou direitinho. A ruim é que surgiram mais três pólipos, que acabam de ser extraídos também. De certa maneira, era esperado – pela medicina, não por nós – e está sob controle. Há muitas maneiras de ver essa notícia e amanhã verei da melhor delas, mas agora estou muito puta. Queria um fim de novela, com todos felizes para sempre, mas ainda estamos nas cenas dos próximos capítulos, cheias de suspense e pontas sem resolver.

Outra vez, um leão por dia, uma coisa de cada vez. Por hoje, a cirurgia correu bem e a previsão de alta hospitalar é para amanhã.

Novembro: agenda cheia

O próximo mês chega com muitas novidades.

 

Gostaria que a primeira delas fosse a saída do hospital do meu pai e tudo se encaminha para isso. Tenho falado com eles todos os dias e a situação parece seguir seu curso positivo. Duas tias chegam no Rio no fim dessa semana, a irmã do meu pai e a prima da minha mãe. Elas não só fazem companhia, como ajudam a segurar a onda, então, fico feliz que estarão por lá. Quando três bruxas se juntam, cada uma evocando seus próprios fantasmas, ninguém segura.

 

Domingo, meu irmão embarca para essas bandas de cá do oceano. Chega na segunda-feira por Londres e talvez o encontre por lá, mas minha ida não está decidida ainda. Depende de algumas coisinhas que tenho que resolver por aqui.

 

No mesmo domingo, chega em Madri com sua esposa um amigo do colégio de Brasília. Queria tentar pelo menos jantar com eles, porque há o risco de embarcar logo no dia seguinte.

 

No dia 5 de novembro, fi-nal-men-te, farei a convalidação da minha carteira de motorista. Correndo tudo bem, no mesmo dia se recebe a carteira provisória e já passo a ter direito a conduzir na Espanha. Essas coisas só acredito vendo, mas a minha parte está feita.

 

Nesse mesmo dia 5, no Brasil, um amigo lançará seu livro, O Caminho e os descaminhos de Santiago de Compostela. A notícia me deixou feliz por vários motivos. O primeiro é um pouco óbvio, pelo título, se pode deduzir o tema do livro e o quanto me interessa. Depois porque caminhamos juntos um bom trecho, e para quem leu aqui pelo blog “Desvios do Caminho”, ele é um dos dois brasileiros que fizeram toda a rota e nos acompanharam nos últimos 200km. Seguimos amigos e tive o privilégio de ler o livro enquanto estava sendo escrito. Recomendo, do que existe publicado (e olha que pesquisei!) acredito estar entre os melhores. E agora, um pouco de gaiatice da minha parte, porque como se trata de uma história real, sou uma das personagens e estou achando o máximo! Para quem tem a sorte de estar pelo Brasil e se interessar pelo livro, segue a divulgação.

conviteLuizPaulo 

Continuando com a atribulada agenda, no dia 6, Luiz e eu embarcaremos para o Marrocos. Meu irmão seguirá direto para lá desde Londres com destino a Marrakesh. No dia 9, meu aniversário, comemoraremos por ali mesmo. Ficaremos juntos até o dia 10, quando voltamos para Madri e meu irmão segue para Barcelona até dia 12, depois ele também vem para cá e fica até o fim de semana.

 

Sexta-feira 13, a esperadíssima festa dos 40 anos! Consegui improvisar minha fantasia de loba. Não está perfeita, mas é divertida, assim como a vida. A bebida está praticamente toda comprada, só vou servir champagne e cerveja. Por mim, nem serviria cerveja, mas é bom dar uma opção. O bolo, uma amiga vai fazer e ela é uma craque, com certeza ficará lindo! Eu morro de vergonha de cantar parabéns, mas esse ano já entubei. Quanto às comidinhas, vou facilitar meu lado e voltar à velha fórmula dos queijinhos, pastinhas e canapés. Não quero saber de pratos, nem de nada para esquentar. A música está em negociação, mas acho que será ao vivo. Enfim, está encaminhado.

 

E está pensando que acabou? Na-na-ni-na-não!

 

Dia 21, tem show da Vanessa Borhagian, sobre seu CD Telaraña e o pessoal do coral participa. Isso quer dizer que faremos parte da apresentação no Teatro Lara. Durante o mês, ensaiaremos músicas, coreografias, batucadas e otras cosillas más. Quando estiver um pouco mais perto, farei a propaganda por aqui com maiores detalhes.

 

Tá bom ou quer mais?

 

 

A parte boa do fim de semana

Tirando o susto tradicional de domingo, o fim de semana foi ótimo!

 

Na sexta-feira, fomos jantar com o casal de amigos espanhóis que conheci em Paris. Ele trabalha com Luiz. Ficou muito claro nosso interesse em comum pela boa comida e vinhos de personalidade, portanto, iniciamos um tour gastronômico, onde cada um quer encontrar um restaurante melhor que o outro. Desagradável, né? Mas alguém tem que fazer o sacrifício…

 

Dessa vez, a escolha foi deles, e começaram logo com o padrão por cima! Así me gusta! Fomos ao Urkiola Mendi , cozinha de influência Vasca, em Arturo Soria. O lugar já entrou para minha lista de favoritos. É o básico, fresco e bem feito. Entre otras cosillas más, excelentes croquetas de chorizo, cocotxas no ponto perfeito e um chuletón espetacular!

 

Tomamos dois vinhos muito interessantes, ambos de Mallorca. O primeiro, se chama 4 kilos, estou desenvolvendo um carinho especial para vinhos com títulos esdrúxulos! Como curiosidade, o nome “4 kilos” veio de “4 milliones de pesetas”, o modesto investimento inicial da bodega. Para quem não sabe, o espanhol usa essa expressão “kg” para dinheiro. O segundo vinho, foi o Ànima Negra ou Àn Negra. Não disse que agora meu negócio é nome esquisito? Outra curiosidade, a palavra Ànima, significa alma. O primeiro vinho nos mostrou que de maneira despretenciosa, mas com coragem e esforço, podemos alcançar resultados surpreendentes. O segundo, elevou nosso espírito. Adicione-se a companhia super agradável, conversa boa e comida excelente. Um single malt para finalizar e poderia voltar para casa engatinhando!

 

Cogitei um charuto, mas era só o começo do fim de semana e pensei que não queria uma crise alérgica logo agora. Alguns prazeres me custam muito caro no dia seguinte, estou tentando amadurecer. Além do Luiz dizendo assertivo na minha orelha: me-lhor-não! Não sei se ele dizia isso por mim, ou por ele, no caso de também não se conter.

 

No sábado, por volta do meio dia o telefone tocou. Outro casal de amigos nos chamando para ir ao centro da cidade. Eles queriam nos apresentar um brasileiro que está aqui há três meses. Abri metade de um olho, uma preguiça danada, e a primeira coisa que fiz foi olhar pela janela. Esperava aquele tempinho para lá de sem graça. Acontece que o dia estava lindo! Ok, então vamos para La Latina.

 

Primeira parada, Taberna Txakolí, na Cava Baja. Esse local é especializado em pinchos vascos, e para quem não quer sentar e fazer uma refeição, é uma ótima pedida. O único problema é que muita gente sabe disso e vive entupido! Nesse dia estava agradavelmente sem fumaça de cigarro, coisa rara. Ainda era cedo para beber alguma coisa, praticamente meu café da manhã, então fomos com calma.

 

De lá, resolvemos dar uma esticada até o Mercado de San Miguel que está um show! Com um pouco de determinação territorial, conseguimos ocupar uma das poucas mesas. Até que Luiz teve a feliz idéia de ir buscar uma garrafa de cava, ou melhor, a primeira garrafa de cava. Cada hora um se levantava e ia buscar algum petisco, frutos secos, queijinhos, jamón, salpicão de mariscos, camarão no azeite… o cava acabava… mais uma garrafa… E assim, permanecemos até umas nove da noite.

 

No domingo, o tempo parecia bom também e aproveitamos para terminar com a carne de churrasco que restava no congelador. Estou naquela fase de desocupar espaço da geladeira. Mas daí só bebi água, nem coca-cola me animei, afinal de contas, como se pode notar, estamos de regime! Putz! Não sei quem é mais cara-de-pau!

 

Tudo ótimo até chegar a noite, quando descobri que meu pai estava internado. Por mais otimista que esteja, sempre preocupa um pouco. Melhorou quando descobri que minha tia está indo para o Rio nessa quinta, porque como meu irmão está vindo para cá, minha mãe não fica tão sozinha. Assim, todos ficamos mais tranquilos. Há uma boa probabilidade do meu pai sair do hospital antes do meu irmão vir, o que seria o melhor. Vamos aguardar.

 

Hoje o dia amanheceu mais bonito ainda, daqueles de sair de camiseta! Definitivamente, o outono está nos dando uma trégua.

 

Voltei a usar o Wii Fit. Quer dizer, ainda não consegui estabelecer uma rotina, mas foi um começo. Realmente, deve funcionar, porque passei uns dois dias com a musculatura toda dolorida. Minha resistência para caminhada também caiu. Essa questão do condicionamento físico é muito ingrata! Você leva um ano para ficar bem e com um mês de nada que pare de se exercitar, pronto, já nota diferença.

 

Aliás, bem lembrado, deixa eu dar uma malhadinha que uma dose de endorfina só me fará bem!

Trauma de domingo à noite

Eu sofro do trauma de domingo à noite. Desde criança, quando escutava a musiquinha dos Trapalhões, já sentia a proximidade da segunda-feira. Na hora do Fantástico então, pronto, havia acabado o fim de semana.

 

O tempo foi passando e casei. Meu primeiro ano de casada foi na Ponte Aérea Rio – São Paulo, está contado por aqui em alguma crônica do passado. Ficava a semana trabalhando em São Paulo e nos fins de semana ia para o Rio encontrar o Luiz, que ainda morava por lá. Portanto, no finalzinho de cada domingo, me aguardava mais uma semana sozinha. Fazia falta uma diciplina espartana para me despertar feliz pela manhã e não desperdiçar o tempo me lamentando que estava quase na hora de ir. Mas a gente aprende. Começava a segunda-feira, quando inevitavelmente acordava me dizendo que daquela semana não passava, pela hora do almoço eu pediria demissão. Chegava a hora do almoço e não me sentia tão sozinha, nem tão infeliz. Podia aguentar até sexta-feira. E assim se passou quase um ano, de semana em semana. Foi difícil, duro, mas sendo muito honesta, eu não era infeliz. Havia escolhido esse caminho. Quase nunca temos controle do nosso futuro, mas ajuda muito decidirmos logo no início que vai dar certo.

 

Olhar para frente e decidir que vou chegar bem, me ajudou a passar aquelas semanas, me ajudou a atravessar os Pirineus e me ajudará sempre que eu precisar.

 

E por que estou contando isso? Porque a saga do domingo me persegue! Por causa do tratamento que meu pai está fazendo, vira e mexe ele tem alguma infecção mais barra pesada e tem que ser internado para tomar antibiótico na veia, literalmente! As canalhas das bactérias poderosas praticamente precisam tomar remédio na boquinha! Nas últimas três ou quatro vezes que foi internado, porque já comecei a perder a conta, o barata voa mesmo acontece no domingo. De modo que quando o fim de semana começa muito quieto, me dá até medo de checar os e-mails. Sério, quando o MSN toca no domingo, já me arrepia!

 

Dessa vez, foi no sábado, mas só soube ontem à noite, ou seja, para mim, continuam os traumas de domingo! Na verdade, ele vinha com febre durante a semana, mas enrolou até o último segundo para ir ao hospital, ele já entendeu que quando é assim vão interná-lo e resiste (e enlouquece quem está em volta também!). Foi meio que à força para o hospital no sábado e ficou por lá, é claro. Provavelmente, se dependesse dele, enrolaria mais um pouco e domingo seria aquela merda generalizada, né? Mas enfim, menos mal.

 

Sim, já estava esperando por isso, não foi uma surpresa, mas você fica até o último minuto pensando que podia estar enganada. O padrão é cerca de uma semana de internação, às vezes menos, quando ele pentelha muito os médicos. De qualquer maneira, resolvi decidir que vai acabar bem.

 

Meu irmão está com passagem comprada para vir nesse fim de semana. Nós estamos com viagem marcada para o Marrocos. E na sequência tem a festa de aniversário totalmente encaminhada. A gente esperou até o último minuto para marcar as coisas, mas em algum momento, precisávamos contar que ele estaria bem. Não podemos passar os meses adiando tudo na hipótese do meu pai piorar. A vida precisa seguir seu curso e eu preciso acreditar que vai dar tudo certo, ou certo na medida do possível.

 

Não é muito difícil saber o que quero de aniversário.