… Marrocos, uma viagem diferente (parte II)

No segundo dia da viagem, acordamos por volta das 9 da manhã. Na verdade, às cinco já havia escutado a primeira oração berrada, mas estava tão cansada que pareceu um sonho.

Contratamos um tipo de mini excursão, uma van nos levou às montanhas para conhecer as cascatas de Ourika. Seguimos em direção ao Atlas, quando descobri que inclusive há uma estação de esqui na montanha mais alta. Pensei que talvez devêssemos ter levado casacos, não havia pensado na mudança de clima pela altitude, mas o guia nos tranquilizou dizendo que a temperatura estaria amena. E estava.

Diferente do que me preocupava, meu irmão estava bem empolgado, feliz por pisar na África. Para mim também era importante, foi minha primeira vez em solo africano e isso me parecia emocionante. Havia a possibilidade de dormir uma noite no Sahara, idéia que não fez grandes ilusões nem no Luiz, nem no meu irmão. Em outras ocasiões, nem cogitaria nada parecido, mas ali fiquei com vontade.

Bom, você contrata só passeios, mas sempre te empurram alguma loja no caminho e você descobre quando já está dentro dela. Isso é um pouco chato, mas você vai aprendendo a se defender. Depois, estava acompanhada não de um, mas de dois cavalheiros, portanto resolvi assumir que estava em uma cultura machista em que ninguém ia me dar pelota mesmo, então relaxei e encarnei a donzela protegida, pronto.

Aliás, isso foi engraçado, tive a sensação de proteção por toda a viagem. Aquele sentimento de que nada de mal pode te acontecer. Meu alerta instintivo para perigos não se disparou uma só vez. Ainda que também não tenha me distraído dos riscos, porque nunca se sabe.

Mas voltando ao passeio, essas montanhas são o território do povo Berbere, cujo nome sempre me soa como uma ilha paradisíaca: Beri Beri, Bora Bora… Enfim, é uma zona pobre, onde as casas parecem camaleões camuflados de terra. A paisagem é bonita e mais verde. Não que seja tão exuberante, mas no contraste chama muito a atenção.

 

Paramos em alguns pontos do caminho. Meu irmão se animou a tirar foto em um camelo, achei divertido, mas não tive vontade de montar em outro.

Também atravessamos uma ponte que devia estar presa com orações, mas a paisagem valia à pena.

Visitamos uma cooperativa de mulheres que produzem produtos de argan, um tipo de amêndoa que só existe no Marrocos e possui várias propriedades medicinais, estéticas etc.

 

Finalmente, paramos para almoçar, em um restaurante recomendado pelo guia. O lugar era simples, mas limpo e a comida gostosa. Não há muita variedade de cardápios, mas de maneira geral, a comida nos pareceu saudável e equilibrada. Comemos ao ar livre e sem pressa.

 

O que não sabíamos é que logo na sequência de um farto almoço, subiríamos a montanha a pé, para ver as cascatas. É tudo assim, você vai descobrindo as coisas no meio do caminho, não é nada muito explicado ou determinado.

Um segundo guia nos foi apresentado, um rapazinho berbere que subia rápido na nossa frente. Bastante simpático e solícito, o que me fez pensar que ao final aquele sorriso nos custaria alguma coisa.

 

Subimos de golpe até as primeiras cascatas, a comida entalada na goela. A quantidade de água não é impressionante, a paisagem é mais bacana. Quando vi a segunda subida cheia de gente se amontoando pelas pedras, resolvi empacar e esperar por eles de onde estava. Eles seguiram e sentei em uma rocha com vista privilegiada. Pelos meus pés passava água da cascata seguindo seu curso para baixo, na lateral algumas árvores e para cima o restante da montanha em pedra cinza, uma árvore enorme chorona bem centralizada e uma vegetação esporádica verde musgo. Não tinha uma máquina fotográfica comigo e a paisagem mais bonita da viagem, talvez de muitas viagens, só existe na minha memória.

Perto de mim, notei uma senhora com a cabeça coberta por véu me olhando de vez em quando, doida para conversar. E eu, que já não gosto de falar com estranhos, sorri. Trocamos meia dúzia de frases em francês, para passar o tempo, e logo avistei o guia com meu irmão e Luiz descendo de volta. Nos despedimos e fui encontrá-los para terminar a descida.

Havíamos decidido dar uma gorjeta ao rapaz no final do trajeto, afinal de contas, nosso passeio já estava pago com tudo incluído, era uma gentileza. Mas pouco antes de encontrarmos nosso guia oficial, ele nos parou e cobrou uma quantidade absurda. Luiz não teve dúvida, ligou para o Riad, conversou com o gerente, que pelo telefone mesmo resolveu o assunto com os guias.

E para quem pensa que depois disso nosso guia oficial se aborreceu, se engana. Foi como se nada tivesse acontecido. Mais tarde, descobrimos que ele e o gerente do Riad eram irmãos. No caminho veio conversando com Luiz em uma língua que misturava francês, espanhol e ruídos, mas se entendiam. Ele (e a torcida do flamengo) achava que Luiz parecia árabe, o que era visto como algo positivo. Vinham os dois no banco da frente cumprimentando o pessoal pela rua.

As montanhas estavam bem movimentadas, durante a semana é parado, eles sobrevivem do turismo nos fins de semana. Passamos por vários quiosques e restaurantes onde só haviam pessoas que pareciam locais. O guia nos disse que eles comem ali  normalmente e não tem nenhum problema. Um turista come e logo passa mal.

 

Na volta ao Riad, ainda paramos rapidamente pela praça Jemaa el Fna para meu irmão conhecer. Mas não demoramos, porque tínhamos planos para o jantar.

 

Foi só o tempo de tomar um banho e descansar um pouco e nos encontramos na recepção. Juntaram-se a nós duas meninas espanholas que já havíamos visto pelo Riad. Simpáticas, logo nos tornamos um só grupo e fomos todos juntos ao Chez Ali.

 

O Chez Ali é um tipo de casa de show que eles chamam de Fantasia. É um complexo que gira em torno de um local onde há apresentações com cavalos e homens armados. Eles recriam um treinamento militar onde os cavalos chegam correndo a determinado ponto e todos os homens devem atirar ao mesmo tempo. Como é um espetáculo, eles também fazem exibições de equilíbrio sobre os cavalos, uma parada com tribos diferentes, cada qual com seus trajes e costumes, e, pasmem, o show culmina com um tapete voador! É um pouco cafonão, mas acho que há coisas que precisam ser vistas pelo menos uma vez. Sabendo abstrair o fato que turista tem que pagar alguns micos, a gente consegue ter uma idéia do que é a vida nas tribos e de como é dura.

 

Meu irmão ainda estava animado para seguir na noite, mas o restante de nós estávamos todos podres. Decidimos voltar para o Riad, tomar chá e fumar a shisha junto com o gerente, que a essa altura, era meio que parte do grupo.

O chá foi comprado por uma das meninas espanholas, com a promessa de ter efeitos especiais, digamos assim. A gente não acreditou muito, mas valia pela gaiatice. O gerente foi buscar sua shisha e fomos nós seis para o pátio interno do Riad. Não demorou muito para nos acabarmos de rir com qualquer bobagem, desde o ronco escutado de um dos hóspedes, afinal, estávamos em uma casa, até as posições engraçadas do gerente fumando, que passou a ser apelidado de homem tartaruga.

Preocupados em estar incomodando os outros hóspedes, perguntamos ao gerente se havia algum problema estarmos ali aquela hora, no que ele, que bem estava se divertindo, respondeu de ombros rindo: náa… estão dormindo! Motivo para rirmos mais meia hora. Pensando bem, acho que o tal chá devia ter algum efeito.

O astral não podia ser melhor, mas o sono estava batendo. Combinamos de sair todos juntos no dia seguinte, não tão cedinho.

Fui dormir exausta, lembrando do primeiro dia, que nem queria sair do quarto. Agora queria que o dia seguinte chegasse logo, ainda tinha muito o que fazer.

… continua

2 comentários em “… Marrocos, uma viagem diferente (parte II)”

  1. Eu andei de camelo e dormi uma noite no deserto debaixo das estrelas (foi fascinante). Eles trazem, cama, colchão, cobertor e o jantar. A gente come em um breu danado, assim que a melhor solução foi fazer como os locais e comer com a mão. No final do jantar os pratos foram lavados com areia. Na manhã seguinte eu acordei bem cedinho e no alto de uma duna vi o sol nascer.

    Uma experiência inesquecível. Principalmente considerando que na noite seguinte (já em um hotel). Fui acordada no meio da noite com uma tempestade enorme. E nós que achamos que no deserto não chovia e por isso tinhámos passado a noite debaixo das estrelas no dia anterior.

    Pura sorte de principiante…

  2. Oi Bianca

    Suas fotos estão ótimas, voce esta coradinha e o Luiz um gato de rosa.
    Os lugares são bem diferentes, algumas fotos parece que voce vai dar de cara com Omar Shariff.
    E seu pai vai bem?
    E a festa de aniversário, como foi?
    Beijos

    Marianne

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