… Marrocos, uma viagem diferente (parte III)

No terceiro dia da viagem estava me transformando em uma terrorista! Às cinco da matina queria explodir a torre de onde saía aquela oração infernal! Porra, tem que rezar às cinco da manhã? Não dá para ter fé um pouquinho mais tarde? Calma Bianca, passa a merda do óleo de laranjeira nas têmporas e dorme outra vez!

Na segunda vez que acordei, meu humor estava bem melhor. Já tomamos café com as duas espanholas e assim fomos nos entrosando para seguir o dia. Combinamos com o gerente do Riad, que nesse dia seria nosso guia. Saímos de carro para tentar conhecer o restante dos lugares considerados mais importantes.

Primeiro fomos a zona do curtume. É um lugar grande com vários tanques a céu aberto, onde tratam e tingem couro e tecidos. O aroma é de sangue seco e bosta de pombo, e não é uma maneira figurativa de falar, ambos componentes estão presentes no processo. O que eles fazem é te dar um raminho de hortelã na porta, para você cheirar enquanto está lá dentro. Uma das meninas mal aguentava o cheiro, o restante de nós, ainda que não achando nada agradável, tolerava bem. Na saída, é claro que você é obrigada a visitar a loja de produtos de couro e tapetes. E começa todo aquele lenga lenga de demonstrações e negociação de preço.

 

Seguimos para o Jardim de Agdal. Não se deve esperar vegetação exuberante, nada além de oliveiras e terra seca. Há um palácio, acho que do século XII, não muito bem conservado e um gigantesco piscinão, onde nadam peixes alimentados pelos visitantes. Ainda assim tem uma beleza exótica, muito ajudada pela cor do céu e do reflexo do sol na água. Também se pode ver a cidade de Marrakech de outra perspectiva.

 

De lá, uma das meninas pediu para parar em algum lugar com banheiro e o guia parou em um bar. Obviamente, só havia homens e ela disse que não saltaria sozinha nem morta, no que eu estava de acordo. Paramos todos então para tomar um café. Resolvi aproveitar a oportunidade e ir ao banheiro também. Isso antes de descobrir que se tratava de um buraco no chão, o que me fez desistir no mesmo momento. Na mesa, a gente morria de rir do episódio.

Fomos conhecer o bairro de palmeraie, ou palmeiral. Como o nome indica, é uma zona repleta de palmeiras, ainda que hoje só comporte 1/3 do que costumava ser, a seca foi cruel. Nessa área se encontram uma série de mansões e condomínios de luxo. É ultrajante. Passar por um imenso campo de golf com grama verdinha me deu raiva.

 

Seguimos para o Jardim Majorelle, conhecido como o jardim de Yves Saint Laurent. O lugar é um charme e muito bem conservado, elegante mesmo. E, felizmente, o banheiro era normal. Ali também funciona uma cafeteria/restaurante bem charmoso. Luiz queria almoçar por lá, o que teria sido uma boa opção. Mas havíamos combinado com o guia que nos esperava na porta.

 

Almoçamos dentro da Medina, em um restaurante que combinava comida árabe com italiana. Uma fome de leão!

 

O trajeto feito de carro era uma emoção à parte. Parece incrível ver aquele tumulto de gente, animais, bicicletas, motos, carros, todos ao mesmo tempo e se entendendo com uma naturalidade impressionante. Os espelhos retrovisores são ignorados ou dobrados para dentro, só servem para atrapalhar a passagem e machucar alguém. Sua função é olhar para frente. Ninguém para, um chega para cá, outro para lá e funciona! Não vi um único acidente! Meu irmão e Luiz iam se contorcendo no banco incrédulos, até que resolveram gravar em vídeo a experiência. Não foi das vezes mais confusas, mas dá para ter uma idéia do que se trata.

Pensando que acabou? Nada, nos dirigimos ao Palais Bahia e para as Tumbas. E a essa altura já não aguentava conhecer mais nada!

Mas antes de voltar para o Riad, ainda tínhamos que parar em uma última loja. Não tem como fugir. Essa pelo menos, como era uma loja muito grande, você não era tão assediado. O curioso é que nós três entramos na loja separados das meninas, que pularam conhecer as tumbas. Mas lá dentro, o vendedor vendo que elas estavam procurando alguém, sinalizou que seus amigos, nós, estávamos no andar de cima. Não me pergunte como, mas todo mundo na loja sabia com quem estávamos e onde estávamos hospedados.

Voltamos para o Riad, meio mortos, mas com programação para o jantar. Tomamos chá no pátio para relaxar um pouco e subi para o quarto antes do Luiz.

 

Havia retornado a sensação de incômodo, tinha muitas informações ambíguas de coisas que gostava e outras que detestava. Fiquei viajando com o reflexo da luz fraquíssima de uma enorme lanterna de metal pendurada no teto. O som das orações outra vez invadindo o quarto como um lamento. Cheiro de ervas. Quarto vermelho. Cidade vermelha. Cama gigante. Som dos burros gritando. Rostos cobertos. Sede. Campo de golf verde. Terra seca. Meninos jogando futebol na rua. Cheiro de curtume. Cheiro de hortelã. Tudo muito desigual.

Chegou a hora do jantar e fomos ao Le Tobsil, recomendação de uma amiga. Uma das espanholas foi jantar conosco, a outra preferiu passear sozinha pela praça Jemaa el Fna. Não nos pareceu prudente, mas cada um sabe de si. O gerente do hotel nos acercou ao restaurante. Você não consegue parar na porta, mas quando faz a reserva, uma pessoa vem te buscar no horário combinado.

Então, no horário combinado, lá estava um homem com um manto marrom, que parecia saído de algum filme e nos levaria à sede de uma sociedade secreta. Nos embrenhamos com ele em becos escuros e ruelas suspeitas, até parar em uma porta que se abre ao paraíso. O contraste maluco dos diversos mundos paralelos de Marrakech.

Jantamos em uma mesa coberta por pétalas de rosa e ao som de música ao vivo. Uma voz exótica, que parecia ter duas pessoas cantando na mesma garganta. A saída do restaurante, ajudada pelo vinho, ainda parecia mais mágica que a entrada. O mesmo homem do manto marrom nos levou de volta ao nosso guia. Tudo parecia ir se encaixando.

 

A espanhola havia combinado de encontrar não sei quem em outro lugar, meu irmão ainda seguia animado querendo continuar a noite, o guia, que era o gerente do Riad, topou nos acompanhar, então lá fomos nós para o Le Comptoir Darna.

O lugar fica em um bairro bem diferente de tudo que havíamos visto. Mais moderno, parecia outro país. No andar de baixo, um restaurante elegante, e no de cima um lounge. O gerente do Riad cumprimentou as meninas da recepção e subimos diretamente. Ele parecia conhecer toda a cidade, o que provavelmente era verdade.

A frequência era de estrangeiros curiosos, árabes ricos e suas prostitutas de olhar indiferente. A música altíssima era boa, tocada ao vivo por músicos que passeavam pelo local. Minha garganta ardeu pelo fumo e achei bizarro estar tão menos à vontade ali do que nas ruas misturadas da Medina.

A espanhola foi encontrar seu amigo e ficamos eu, Luiz, meu irmão e o gerente do Riad. Curioso estar acompanhada de três cavalheiros em um local onde os solteiros eram discretamente caçados. Mas ninguém me ameaçou.

Conseguimos uma mesa. Conversar era impossível pela altura da música, a poltrona tremia junto com a batida dos tambores. Em pouco tempo a batida do meu coração acompanhava a percussão e fui ficando claustrofóbica. Luiz e o gerente pareciam cansados, mas quietos, meu irmão em transe absoluto no seu planeta feliz. Impressionado com a música e com a bailarina de dança do ventre, nem notou que havia vários bilhetes de moedas diferentes presos na sua roupa.

Embarco profundamente nos mundos que conheço, e pular de um universo para outro em tão pouco tempo, me deixava confusa. Respirei aliviada quando decidiram ir embora, no mesmo momento que chegava a amiga espanhola, também um pouco aborrecida.

Gostei de haver conhecido o lugar, e todos os outros lugares desse dia. Mas já me fazia falta um pouco de sossego. No dia seguinte, era meu aniversário e o único plano que queria era acordar com calma, ter um dia normal e um bom jantar.

… continua

Essa música tocou no Le Comptoir Darna e meu irmão passou TODO o resto da viagem cantando!

3 comentários em “… Marrocos, uma viagem diferente (parte III)”

  1. Você mostrou a foto dos pratos do Le Tobsil (apetitosa, acho que estou com fome), mas não falou se a comida por aí é boa… Que tal? E os vinhos… dá pra arriscar algo local?

  2. Oi, Augusto!

    A comida é boa sim. A única coisa é que o cardápio marroquino é sempre muito parecido (frango ao limão, couscous, kafta, cordeiro, saladas). Eu gosto, mas depois de alguns dias me parece repetitivo e é difícil surpreender. No caso do Le Tobsil, acho que impressiona mais pelo ambiente, digamos, pelo conjunto da obra do que pela gastronomia em si. Para complicar um pouco, nesse dia nós almoçamos tarde e fomos para lá sem muita fome. De qualquer maneira, achei que valeu muito a pena e é um lugar que gostaria de voltar, muito charmoso.

    Quanto ao vinho, sabe que é bonzinho? Nada extraordinário, mas correto, honesto e de preço acessível, uma ordem de grandeza de uns 15 euros. Não sei quantos produtores há em Marrocos, mas nos restaurante só se vê um tal de CB (Cuvée Barrique), merlot e cabernet sauvignon. Ou seja, não procuraria por aqui esse vinho, mas estando lá, não é uma opção ruim, dá para arriscar.

    Besitos

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