110 – Monotemática

Ando ansiosa e monotemática. Quase não consigo pensar ou falar nada que não seja ou não esteja relacionado ao Caminho de Santiago. Agora falta pouco mais de uma semana para começá-lo. Nem acredito.

 

No último mês, tenho andado diariamente em ritmo pesado por pelo menos duas horas, faça chuva ou faça sol. Não tive nenhuma bolha, o que é muito animador. Ou seria anima-dor? Porque todo dia me dói, ou o joelho, ou a coluna, ou os pés, ou os músculos…. Está melhor, porque antes doía tudo junto ao mesmo tempo.

 

Hoje me perguntaram se estava preparada fisicamente. Respondi pela primeira vez que estou e com a consciência tranquila. Não quer dizer que acredite que vá ser fácil, mas finalmente acredito que é possível.

 

Acontece que acho que essa parte física talvez não seja a mais complicada. Ou mal ou bem, sempre se pode caminhar menos ou mais devagar. É o que o Caminho representa  e suas possíveis consequências que tem me posto para pensar.

 

Essa semana uma amiga me trouxe uma reportagem da Newsweek que tratava desse tema, de uma certa onda que parece haver surgido no que diz respeito ao redescobrimento do poder da peregrinação. Estaria eu nesse movimento mundial sem ter me dado conta? Pois se já está difícil entender meus próprios motivos, imagina tentar entender o dos outros. Resolvi deixar um pouco de lado o inconsciente coletivo e concentrar no meu umbigo.

 

Tenho curtido muito cada passo que é dado. Comprar equipamento, testar as roupas, amaciar os sapatos, ler, planejar, pesar, abrir mão do vinho, acordar mais cedo e andar até as pernas anestesiarem. Surpreendentemente, aproveito momentos antagônicos ao meu estilo de vida.

 

A questão é que me caiu uma ficha intrigante. Todo esse tempo tenho procurado manter as expectativas no seu devido lugar. Não me vejo em uma fase de grandes transformações, não vou buscar revelações nem respostas. Só quero usar o privilégio de poder pensar um pouco na vida fora do contexto habitual. Quero as metáforas, quero ocupar minha cabeça com coisas básicas, com os próximos quilômetros, o que vou comer e onde vou dormir. Esse é um luxo primário que nem todos querem ou podem. Mas me ocorreu que essa história pode se inverter. Percebi que estava me preparando para não mudar e não me decepcionar com isso, simplesmente caminhar. Até hoje, não havia contado com uma probabilidade concreta: e se funcionar? E se eu tomar grandes decisões? E se minha vida mudar? A única coisa que não me preparei até agora é justo o que todo mundo normalmente busca ou relata.

 

A verdade é que se for olhar mais de perto, já mudei. A forma com que tenho tratado meu corpo, a saúde, os limites e a maneira de ver as coisas não é definitivamente a mesma. Portanto, entre crenças e descrenças, melhor não subestimar o poder do caminho.

 

Confesso que isso me assustou um pouco, mas acho que essa consciência foi um passo importante. Não sei o que vai acontecer e não posso por o carro diante dos bois, mas devo estar atenta a possibilidades diferentes. Preciso de um amuleto rápido.

 

Proteção eu tenho, não posso reclamar. Gente do bem tem cruzado meu caminho e o caos conspira a favor. Tive companhia para caminhar por praticamente todo o treinamento, conheci pessoas que tem compartilhado informações preciosas, não estarei sozinha durante o trajeto e Luiz me apoia. É um excelente começo que espero poder retribuir em algum momento.

 

Por agora, só posso dizer que preciso ir e preciso andar…

 

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

 

Candeia

111 – Troca de Pele

Hoje é quarta-feira, dia 23 de maio. Nesse domingo, pela manhã, chega em Madri a amiga que fará o Caminho de Santiago junto comigo. Viajaremos de trem no domingo à noite e chegaremos em Pontferrada na madrugada de segunda. É o único hotel reservado, considerando que chegar quase às 4 da matina e procurar um lugar para ficar pode não ser uma boa idéia.

 

No dia 28, descansaremos e conheceremos a cidade. No dia seguinte, iniciamos a caminhada para valer. Serão 200 Km a pé até Santiago de Compostela, mas prefiro pensar na quilometragem de cada dia, assim só preciso andar 25.

 

A partir de Pontferrada, fiz um roteiro baseado em informações de amigos, guias e websites. Como não queremos, pelo menos a princípio, ficar nos tradicionais albergues, procurei as cidades com alguma estrutura de hoteizinhos ou pousadas. Os preços, inclusive, são muito razoáveis e um pouco de privacidade e conforto não é mal. Em teoria, não parece difícil, mas vamos ver na prática.

 

De qualquer forma, tento não ser tão rígida, o planejamento é bom para ir entrando no clima e se preparar para o percurso. Mas treino é treino e jogo é jogo. Então, melhor ter algumas cartas na manga e alternativas de acordo com o que formos passando pela estrada.

 

Devemos levar entre 8 e 10 dias para chegar a Santiago. Às vezes acho que prefiro mesmo fazer em 10 dias. Não sei se vale à pena apressar a chegada. Como já comentaram comigo e concordo, talvez seja melhor curtir bem o caminho.

 

Nossos maridos, que também são amigos, não quiseram caminhar. Correndo o risco de ser mal interpretada e sendo brutalmente sincera, achei melhor assim. Uma opção é exatamente o que a palavra significa, uma escolha, se for obrigatório não faz o menor sentido. Depois, acho que independente de ir sozinha ou acompanhada, o caminho é absolutamente individual. A companhia traz um pouco mais de segurança. Mas nesse momento, preciso da minha solidão e de algum silêncio. Sei que minha amiga respeitará essa condição e farei o possível para não atrapalhá-la também.

 

…tá bom, tá bom… vou levar o celular, afinal ninguém é de ferro! Não ficarei 10 dias sem falar com o Luiz, mas nem morta!

 

O marido da minha amiga deve nos encontrar no primeiro fim de semana, pelo meio da caminhada. Ele se ofereceu para, nessa parte do percurso, levar as mochilas ou quem sabe uma caroninha. No fundo, acho que ele imagina que a essa altura o que mais a gente desejará é um pouco de mordomia. Mas a verdade é que tenho praticamente certeza que não.

 

Engraçado, porque assim que soube que ele nos encontraria, lógico que me animei, será bom ver um rosto conhecido e para ela mais ainda. Automaticamente, quando olhei o roteiro pensei que talvez fosse melhor pular uma das cidades caminhando e ir direto a outra de carro, onde a estrutura de hotel é melhor, assim ele aproveitaria mais o fim de semana e nós ganharíamos um dia de caminhada. Pois me peguei absolutamente triste com essa idéia.  Afinal de contas, qual seria a graça? Não devo satisfações sobre o caminho a ninguém, só fiz a credencial peregrina por uma questão de segurança e porque gosto de um ritual. Então, por que me sabotaria e pularia uma parte? Na-na-ni-na-não, continuo achando que será ótimo encontrá-lo, quem sabe o descanso da mochila por um dia até tope, mas salvo alguma lesão física (isola!), da estrada ninguém me tira!

 

Já o Luiz, vai direto de carro para Santiago de Compostela, nos encontrar no fim do caminho. Eu mesma pedi. Não faço questão que ele esteja no trajeto, mas tenho o pressentimento que a presença dele será importante para mim no final. Se não der, paciência, outra vez, foi minha a escolha. Mas que ia gostar, bem que eu ia.

 

Nem tudo é tão sério e muitas vezes me divirto com as piadinhas que fazem comigo. Tem duas que cada vez que lembro fico rindo sozinha.

 

Uma delas foi um dia que estávamos com amigos em um bar e de lá, quando íamos para outro lugar, ficou aquela dúvida se a pé ou de taxi. E eu, por mim, vou andando! E o Luiz, agora tudo ela quer caminhar, e ele e uma amiga ficavam para mim: run Forest, run!

 

Outra, Luiz e amigos imaginando os outdoors que deveriam haver pela estrada do Caminho de Santiago. Propaganda de hotel com foto daquela banheira maravilhosa de hidromassagem e o texto: caminhe, mas fique no hotel “X”, 5 estrelas.

 

O mais hilário é como fico ridícula caminhando com o “modelito peregrina” pelas calçadas de Madri. Claro que preciso treinar vestida a caráter. Não tem nada demais, mas fica gozado quando fora do contexto. Quem é que sai para andar na rua com botas de trekking, um único “stick” de montanha, imitando um cajado, e mochila? Pior, para ter certeza de quantos quilos estou carregando, coloco na mochila uns pacotes de arroz e feijão. Ou seja, ainda por cima levo comida para passear!

 

E o bonezinho que comprei, com um tipo de saia atrás da nuca, para proteger melhor do sol? Até eu quando me olho no espelho tenho vontade de rir, imagina os outros? Esse, para ser franca, não tive coragem de sair na rua. Vai ficar para a estrada mesmo. Tudo bem que uso meus óculos escuros da invisibilidade, mas dignidade tem limite!

 

Fora que mulher é fogo! Minha amiga e eu conversando pelo skype sobre os preparativos… aquele assunto sério, elevado… de repente vira ela, e o melhor você não sabe, tenho uma amiga que fez o Caminho e perdeu 12 kgs! E eu, jura, beleza! A gente pode patentear a Dieta de Santiago, é só caminhar pelo menos 100 km, comendo mal e dormindo pouco… Chegamos a conclusão que na pior das hipóteses a gente ia emagrecer! Se não me encontrar nem me elevar enquanto ser humano, ao menos minha bunda ficará mais dura, pronto!

 

Enfim, um pouco de bom humor também ajuda! Alivía o nervoso que dá por se aproximar do início. Ai, que mêda!

 

Nessa última semana tivemos hóspedes. Fica corrido conciliar os treinos e principalmente a cabeça que vai longe, mas com boa vontade a gente dá um jeito. Talvez até tenha sido bom mudar em parte o tema da conversação.

 

Um dos programas que fiz com eles foi levá-los a um hamman, ou banho turco. É um excelente lugar para relaxar. Além das piscinas térmicas, a gente faz uma massagem no final. A massagem que escolhi foi esfoliante. Aproveitei e, quando cheguei em casa, fiz esfoliação no rosto também. De repente me vi pensando, que engraçado, hoje resolvi abandonar toda a pele morta. Até minha pele mudei.

 

Outra vez não sou a mesma, outra literal troca de pele, ainda que não tenha certeza do que isso signifique. Também não sei se estou no preparo físico ideal, mas é o melhor que já estive.

 

Vou, estou pronta.

 

Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes (Walt Whitman)

O prazer de comer em Madri

Eu amo comer bem. Isso não é tão óbvio quanto parece, conheço um monte de gente que come para matar a fome, ou por culpa, ou por ansiedade. Eu como com prazer. Fico aborrecida se preciso comer mal ou correndo. Bom, e se estou faminta sou insuportável, praticamente perigosa.

 

Quando digo séria ao Luiz, estou com fome, ele começa a se virar como quem pertencesse a um esquadrão antibombas. Eu já disse que felizmente não nasci mendiga, porque na hora que a fome batesse seria capaz de qualquer coisa. Tenho certeza que seria uma assassina!

 

É claro que não estou falando só de comida e acho que essa é a grande sacada da mesa que o povo, por impossibilidade ou distração, passa batido. Comer é todo um momento.

 

Sabe onde gosto mais dos espanhóis? Nos restaurantes, comendo. É quando adoro ouvir o sotaque e a conversa alheia. A mesa espanhola é conservadora, mas informal, generosa e farta. 

 

O espanhol é bruto e imperativo, assusta um ouvido destreinado. Até que você entende que maneira certa e errada depende do ângulo em que se observe. Reclamo um monte do atendimento por essas bandas, até que há pouco tempo entendi que bom atendimento para um espanhol é ser atendido rápido.

 

Você ainda não sentou direito na mesa e o garçon já está te perguntando o que quer beber. Juro, às vezes você literalmente não terminou de sentar. Levei quase cinco anos para entender que ele não faz isso só porque está com pressa para resolver a vida dele; ele faz isso porque é o que o cliente (espanhol) quer. E pensando bem, quando recebo alguém na minha casa, uma das primeiras perguntas que faço, antes de iniciar a conversa, é exatamente o que quer beber.

 

Boa parte nem vai te dar o cardápio e pergunta o que quer comer. Como assim, como vou advinhar o que tem no restaurante? Bom, primeiro porque os restaurantes tem o cardápio muito parecido, mas principalmente, porque quem é “de casa” está pouco se lixando para o que está escrito. Muito mais fácil perguntar diretamente o que está mais fresco, ele te pergunta, carne ou pescado. Pronto, para que drama?

 

Quando você elogia a comida, ficam orgulhosos; se sobrar ficam ofendidos. Com alguma intimidade, colocam o resto no seu prato e reclamam que você não comeu tudo. E você trate de comer!

 

Uma vez dissemos no Taberna La Daniela que tinham a melhor tortilha de batatas de Madri, absoluta verdade. A garçonete gritou – sim gritou mesmo – do salão para o balcão do bar, Jositoooo, que han dicho que tu tortilla es la mejor de Madrid! E nós vimos o Jose, sempre seríssimo e de poucos sorrisos, ficar vermelho como uma beterraba, só faltou chorar de emoção!

 

No Trifón, onde nossa falta de cerimônia nos livra da reserva, o diálogo pelas 22:00hs é mais ou menos assim, Mike hay sitio? Luisitoooo, macho, que estamos a tope! Vale, vente pa cá que te hago un rincón! Ressalto que ele não diz “te acho” um lugar, ele diz “te faço” um. A propósito, deve ter bem uns dois anos que a gente não escolhe o vinho que vai tomar ali. Na melhor das hipóteses, quando estamos acompanhados, ele faz sinal com a mão para o Luiz para saber a faixa de preço.

 

Às vezes, queria ter um gravador, porque só escrevendo acho que não consigo repetir o conteúdo das situações. Porque conta a entonação, a ironia e a velocidade que vem os diálogos. Para mim, há dois que são os campeões:

 

O primeiro no próprio Trifón. Estava com um amigo que pediu uma cerveja sem álcool. Ricky responde na lata, no hombre, que aquí no hay esas mariconadas! Caraca, foi genial! Lógico que ele estava brincando, mas adorei o humor atrevido.

 

O segundo no El Rincón de Jaén, restaurante saindo gente pela janela de tão cheio. O corredor lotado do povo esperando a vez para mesa. Grita alguém do balcão: mesa para cinco de Juan! Imagino que o Juan e seus quatro acompanhantes começaram a se dirigir para as mesas. Grita respondendo rápido o garçon que a mesa ainda não estava pronta. O cidadão do balcão emenda na hora, Juaaan tomate más una caña y no te vayaaas! Ficou claro que Juan é o cliente, né? Pô Juan, a mesa não tá pronta, toma aí mais uma cerveja!

Pokito a poko

Vale, venga, vou fazer as pazes com as palavras. Palavras me trazem de volta às pessoas, mas às vezes preciso voltar mais devagar.

 

Como foi por esses dias? De tudo um pouco. Passei um suspense paterno, melhorou. Passei pelas minhas crises, vai, melhorou também. E que bom que é verão e os dias são claríssimos e ensolarados.

 

Tomei um Vega Sicilia, que abuso. Descobri que também vai muito bem com galinha. Não uma qualquer, uma marinada e assada, feita bem devagar. E naquele momento, que vinho abrimos? Foda-se, que seja um Vega! Sou mais feliz porque tenho bom paladar, saúde para desfrutá-lo e companhia para compartilhar.

 

Inauguramos a piscina. Não estou nêga, mas já tenho uma cor mais saudável. Não chamei trezentos amigos, não estou pronta ainda, mas quero estar. Não gosto de coração pequeno.

 

Por esses dias já contei que trabalhei numa exposição de um amigo. É fogo como a arte ainda mexe comigo. Eu nego, renego, mas ela me pega de jeito.

 

A comunidade imparável acabou. Não sei se a culpa foi minha, não sei se alguém teve culpa. Sei que me aborreci, tive coisas mais importantes para resolver e deixei para lá. No dia em que recebi a mensagem que havia acabado, fiquei triste e nem fazia parte mais. A vida é assim, tem ciclos. E não fiz nada.

 

Na sexta-feira cheguei em casa meio cansada. Na verdade, cheguei cansada para burro! Mas era aniversário da outra imparável e tinha certeza que estava atrasada para a super-mega-festa-animadíssima dos nossos três milhões de amigos. Abri meus e-mails correndo para saber onde ir e recebi a mensagem que ela desanimou, não ia mais comemorar.

 

Hein? O que raios está acontecendo com o mundo? Todo mundo cansou?

 

Eu pensei em não fazer nada. Não era meu aniversário, vai que ela nem queria comemorar. Luiz estava chegando de Barcelona exausto, talvez fosse melhor deixar para lá. Mas de repente, a idéia de deixar para lá me deixou puta! Não posso esperar cada porre para dizer às pessoas que elas são importantes e já estava de saco cheio de não fazer nada.

 

Catei o telefone e liguei para minha amiga aniversariante, sem chance! A outra doida, que já estava deitada, não levou nem duas frases para ser convencida e em alguns minutos a confusão estava armada.

 

Nós e a Cinderela nos encontramos no Moulin Rose, quase meia noite, de lá seguimos para a famosa Sala Sol, onde outra amiga negociou a entrada, paga meia dúzia e não enfrentamos fila. A noite foi ótima! Chegamos em casa pelas 6 da matina, ainda com fome. Fui fazer entraña, que é um corte de churrasco. Sim, nosso café da manhã foi churrasco! Ainda bem, porque depois só consegui dar o ar da graça pelas 19:00hs.

 

Levantamos, sem muito pique para grandes farras, mas com fome. Fomos à uma churrascaria, a Brasa y Leña,  ver um amigo tocar, tudo bem light, pode acreditar.

 

Ainda na sexta, combinamos um churrasco no domingo. Mas como ninguém estava muito confiável, não sabíamos se ia rolar. Trocamos alguns telefonemas. Por que não? Mas só se acabarmos cedo porque segunda-feira todo mundo está ocupado. Beleza.

 

Domingo, acordamos bem, sábado foi tranquilo. E vou logo avisando que a culpa foi toda do Luiz, porque eu havia separado minha garrafinha de vinho para o churrasco. Afinal de contas, não tomo cerveja. Ele me pergunta, você vai tomar vinho? Estou levando cachaça. Ah, bom, então tá, tomo a cachaça…

 

Pois é, não preciso contar muito mais, né? Foram duas garrafas grandes e uma pequena de cachaça. E isso porque acabou cedo! Não vou contar tudo que aconteceu, até porque boa parte nem lembro! Melhor assim.

 

Na segunda-feira, eu, caxias como sempre, acordo preocupada para ir terminar a montagem da exposição. Felizmente, liga meu amigo antes, nem precisa, estamos quase no final, pode ficar tranquila. Diferente do pobre do Luiz que teve que ir para o tronco.

 

Na terça-feira, morgamos, dormimos cedinho.

 

Na quarta, fui caminhar com uma amiga no parque do Retiro. Ela está treinando para o Caminho de Santiago. Eu sempre estou treinando, porque nunca se sabe. Tenho planos malévolos de ir em setembro, mas vai depender de como as coisas caminhem pelo Brasil.

 

Na volta, Luiz e eu resolvemos jantar fora e conhecer um assador perto da onde moramos, a Casa José María. Fica na Calle Alejandro González, 8. Um show! Recomendo. Comi uma merluza recheada com gambas, setas e gulas. Atendimento educadíssimo e comida excelente!

 

Claro que com essas atividades já ganhei um quilo extra e estou pouco me lixando! Não aguento mais ouvir a mulherada falar em dietas! Meninas, a não ser que vocês realmente estejam uma vacas, eles não ligam para uma barriguinha! Eles também tem!

 

Hoje foi o vernissage da exposição que ajudei. Foi ótimo também! Não ficamos muito porque me deu fome, para variar um pouco. Daí fazer o que? Ligar para o Trifón, tem lugar? Vem que a gente dá um jeito. Aí vamos, né?

 

… andaba perdia de camino pa la casa, cavilando en lo que soy y en lo que siento, pokito a poko entendiendo, que no vale la pena andar por andar, que’s mejor caminá pa ir creciendo… volvere a encontrarme con vosotros, volvere a sonreir en la mañana, volvere con lagrima en los ojo, mirar al cielo y dar las gracias…

Ok, o clipe é brega, mas a música é boa 🙂

Exposição de um amigo em Madri

Andei meio sumida. Em parte, por uma preguiça danada em escrever, mas também porque andei trabalhando! Yes!

 

Tenho um amigo artista plástico que mora aqui há mais ou menos o mesmo tempo que a gente. Gosto muito do trabalho dele e olha que anda difícil pacas me agradar. Fiquei muito cética em relação à arte contemporânea por essas bandas, mas às vezes bate um ar fresco e é bom ver uma luz no fim do túnel.

 

Muito bem, esse amigo chama Marlon de Azambuja e foi convidado a fazer uma exposição no Matadero de Madrid. Como o próprio nome indica, o lugar é um antigo matadouro que foi renovado e se transformou em um imenso espaço cultural.

 

O projeto do Marlon é uma instalação gigantesca, que imagino ocupar bem uns 300 m2. Logo, ele precisou de ajuda para executá-la e fui dar uma força com outros amigos dele.

 

Montagem de exposição costuma ser um trabalho bem peão de obra, muito diferente do glamour do vernissage. Mas eu adoro! O pior é que adoro até quando a exposição não é minha! Bom, a não ser quando o artista é pentelho, e quanto mais inseguro, mais pentelho, aí ninguém merece. Felizmente, não é o caso e sempre que posso, topo ajudá-lo.

 

Enfim, importa que ficou bem bacana e recomendo a visita. A inauguração é dia 23 de julho, às 21:00hs, no Matadero de Madrid, Paseo de la Chopera 14. Fica aberta até dia 20 de setembro. É uma intervenção que pertence à série Potencial Escultórico e é realizada com fita adesiva sobre a estrutura arquitetônica do espaço Abierto x Obras.

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E para quem, como eu, gosta de uns bastidores…

Trabalho em execução
Trabalho em execução

 

Oli, o cãozinho zumbi colaborando
Oli, o cãozinho zumbi colaborando

 

Essa é a fitinha que a gente passou nesse espaço minúsculo!
Essa é a fitinha que a gente passou nesse espaço minúsculo!

 

Queria malhar braço? Vai construir uma parede!
Queria malhar braço? Vai construir uma parede!

 

No andaime, o Marlon, embaixo a Amanda, minha companheira de passar a fita
No andaime, o Marlon, embaixo a Amanda, minha companheira de passar a fita

Uma rapidinha

Aqui no wordpress há uma opção que te dá uma série de estatísticas, entre elas há uma chamada termos de motor de busca, que consiste em expressões que as pessoas pesquisam, no google por exemplo, e que fazem encontrar seu blog. Termos que constam em algum conteúdo publicado.

Muito bem, de vez em quando dou uma lidinha nessa lista para saber o que faz pessoas que não conheço chegarem aqui no buraco da fechadura.

É divertido, mas hoje encontrei o melhor termo de todos: whisky queima gorduras?

Alguém efetivamente acreditou nisso e resolveu pesquisar! Pior, chegou no meu blog assim! Por favor, se você está me lendo agora, precisamos ser amigas!

Brunch em Madri

Uma pausa para assuntos mais amenos, sou louca por brunch. Acho um luxo acordar tarde no fim de semana e fazer essa refeição que é metade almoço, metade café da manhã.

 

Mas não faz parte da cultura espanhola, pelo menos por enquanto. Como as tradições européias custam a se modificar, acho difícil que caia no gosto popular. Ainda assim, há público para isso, como se diz por aqui, gente com mais mundo. O problema é achar um lugar que se atreva a atender esse público.

 

Pois achei. Na verdade, uma amiga me disse, fomos comprovar e valeu à pena. Un brunch como dios manda! Servido nos sábados e domingos até às 16:00hs, coisa que achei fundamental, quem quer acordar correndo no fim de semana? Custa $19, tudo incluído e é bem farto, nesse dia nem jantei.

 

E como o que é bom, a gente recomenda, é a La Tapería da Calle San Bernardo.

 

Essa mesma amiga me falou de outro lugar, que em breve vou experimentar e se for bom, conto aqui também.

De trás para frente

Ok, escrever em parte é disciplina, então deixa eu montar nessa bicicleta e logo lembrarei. Porque vontade, vontade mesmo, está me custando a entrar. Não será por falta de assunto e acho melhor começar a registrar antes que se perca no tempo ou eu perca a coragem. Já nem sei o que quero escrever primeiro.

 

Vou começar pelo que é mais difícil de lidar, porém mais fácil de escrever, porque racionalizando fica mais simples. Meu pai está internado outra vez, evitando o suspense que já ficou para trás, está bem. É uma infecção urinária persistente, que precisa ser curada antes de continuar o tratamento com BCG, para a bexiga. O problema é que no início, havia a suspeita de ter infiltrado pelos rins, seja lá o que isso signifique. Sei que ele foi para o CTI, o que me parecia despropositado para uma infecção urinária. Ou era excesso de cuidado, ou eu é que não tinha todas as informações. Agora acho que foi um misto dessas duas coisas. Importa que ontem ele foi liberado do CTI e estava indo para o quarto. É possível que tenha alta em uns três ou quatro dias, a previsão inicial era de uns dez dias, ou seja, melhorou.

 

Sim, me assustou, fiquei na dúvida se tinha que ir para o Brasil outra vez, não queria sair de casa para esperar as notícias, toda aquela história. Enfim, consegui manter a calma até ter uma definição melhor do quadro, não aprendi, mas estou aprendendo. Estou aprendendo que agora é assim, dias bons e outros nem tanto, mas exagerando um pouco, não posso sair correndo a cada espirro. Eu, que sou de extremos, talvez seja obrigada a aprender a dosar.

 

Voltando o filme, nesse domingo, antes de saber dessa história, montamos a piscina aqui em casa. Verão passado aproveitei um monte e fiquei nêga, por improvável que pareça. Esse ano quase não tive vontade de montá-la, praticamente me forcei porque o curso das coisas deve continuar. Agora estou sem ânimo de aproveitá-la, ainda não entrei nem uma vez, mas vou entrar com ou sem vontade.

 

No sábado, fomos ao Kabocla ver nosso amigo tocar. Foi divertido e surreal, estava bom, mas diferente. No fundo, acho que para mim foi uma tentativa de voltar e às vezes me esqueço que os caminhos de volta também mudam, porque não sou o umbigo do mundo, portanto não sou a única a mudar, todos tem seu curso. De alguns amigos me aproximei, de outros perdi a confiança, soube que tinha razão e de maneira incoerente, quis não tê-la. Depois não me importou mais. Agora sim se tratava do meu umbigo e por alguns instantes tive o gosto da sensação de poder tudo outra vez, se faltava confiança era em mim, esse era um problema meu, e não falta mais.

 

Anteriormente, na quinta-feira, fomos à despedida de uma amiga, onde conheci outras pessoas. Ando com vontade de conhecer outras pessoas, preciso aumentar um pouco o mundo. Uma delas começou a me perguntar coisas bastante íntimas e não me incomodou. Sabia que me perguntava por seus próprios motivos, tem decisões a tomar. Conversávamos sobre visto de trabalho, como foi para eu vir só com o visto de residência e tal. Até que chegou na pergunta principal, se você soubesse que era assim, você viria?

 

Sim, viria. Mas viria sabendo do que se tratava. O fato seria o mesmo, mas mudaria a atitude. Expectativas são quase inevitáveis, mas são uma merda! Sou perfeitamente capaz de abrir mão da vida profissional formal por algum tempo, talvez até muito tempo. Mas é insuportável que fique implícito que, se não a tenho, é porque no fundo, eu é que não me esforcei o suficiente. Isso é uma tremenda injustiça, e o mais injusto é que acreditei nela. Não acredito mais. Não posso mudar o passado, mas posso mudar a atitude.

 

Não faço arte por hobby, não escrevo para ocupar o tempo, não preciso de um subemprego ilegal para pagar contas, não volto para o mundo de negócios porque não quero e não trabalho porque não posso. Ponto final.

 

Próxima página? Nem idéia. Talvez pegar uma piscina.

Participação na rádio Onda Madrid

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Ontem foi um dia legal, fizemos algo diferente. Nossa professora do coral  foi convidada para dar uma entrevista no rádio e, como entre suas atividades estão as aulas, nosso grupo também foi chamado para dar uma palhinha.

 

E lá fomos nós! No final do dia, nos reunimos para a gravação do programa.

 

Não é minha primeira vez, é a segunda. A primeira foi em São Paulo e a entrevista era comigo. Foi a respeito de uma exposição no Banco Central, uma amiga tinha um programa de rádio e me chamou. Quase morri de vergonha até porque, nesse caso, além de ser sozinha, não havia gravação, era ao vivo.

 

Dessa vez foi muito mais tranquilo, em grupo tudo é mais fácil e só quem realmente precisava se expor era a entrevistada. Acho que também ajudou o fato de já termos gravado em estúdio antes. Ao fim da entrevista, o locutor pediu que alguém do coral também desse um depoimento e não, não fui eu.

 

Além das músicas de divulgação de seu CD novo, nós cantamos diretamente três músicas. A primeira começou mais ou menos, depois melhorou. As outras duas, acho que saíram boas. Importa que foi bastante divertido, acho muito interessante fazer coisas que nunca imaginei estarem ao meu alcance, e ainda por cima, na Espanha.

 

E é isso, para quem quiser ouvir a entrevista, será na rádio Onda Madrid – 101,3 e 106 FM. O programa se chama La Tarde en Juego, com o locutor esportivo Jose Vicente Delfa. Passará no domingo, 05/07, às 14:30hs de Madrid e 9:30hs do Brasil. Pode ser ouvido através do endereço http://www.telemadrid.es/contenidos/html.pag?pagina=pag_48

 

A maior parte das canções do programa são tiradas do CD Telaraña. Nesse CD, o coral participa da música Desafio e no rádio, canta ao vivo três músicas: o Nkosi sike da África do Sul, Bella Luna do Paralamas e um canon em baião.

 

A voz do Luiz é mais fácil identificar, já que é a única masculina. Eu faço segunda voz com uma amiga, à esquerda, são as duas vozes mais agudas.

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E abaixo são alguns dos participantes do nosso coral, o Cantoria Dumbaiê

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E por que não uma propagandazinha? O CD Telaraña é da Vanessa Borhagian, que conta com a participação de vários amigos, entre eles, o pessoal do Dumbaiê.

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Qualquer coisa é coisa nenhuma, é nada

Esperei a poeira baixar para pensar melhor sobre isso, mas mantive a mesma opinião, só menos sarcástica e juro, sem rancor.

 

Há muitas frases que falamos, expressões que usamos, que de tanto escutarmos e repetirmos, aceitamos como verdade ou como certo. Tenho um prazer ácido em provar que não, ou pelo menos, não para mim.

 

Descobri há pouco tempo que detesto a frase: qualquer coisa é só pedir, ou chamar, ou avisar, o que seja. O que me incomoda é o “qualquer coisa”. Quantas vezes vi algum amigo ou alguém que me importa em uma situação difícil e disse a clássica frase: pô, fulano, qualquer coisa…

 

Eu achava que estava ajudando com isso, mas a verdade é que não. Ajudei em que? A lembrar que ele tem um problema? Que pode contar comigo? Contar com o que? Com qualquer coisa? Qualquer coisa não é merda nenhuma!

 

Em um quarto de hospital, precisando de um monte de coisas e tendo diversas pessoas oferecendo qualquer coisa, percebi que não poderia contar com quase nada e com praticamente ninguém. E não é porque não acreditasse na sinceridade de quem oferecia, mas porque não tinha a menor idéia do que estavam falando. Qualquer coisa era dormir no hospital? Fazer uma visita? Emprestar dinheiro? Telefonar? Me fazer perder tempo? Que raios era qualquer coisa?

 

Ninguém tem a obrigação de oferecer nem fazer nada, todo mundo tem seus problemas para resolver. Não é uma cobrança, foi só uma ficha que me caiu. Primeiro, se eu não pedir ajuda com clareza, ninguém vai entender o que preciso, essa responsabilidade é minha, esse problema é meu. Segundo, por outro lado, se não oferecer algo concreto,  ninguém saberá com que contar.

 

Eu me prometi que a partir de então vou me policiar e cada vez que me oferecer para ajudar alguém, vou tentar não ser leviana e perder cinco minutos pensando em que realmente seria útil, se estou disposta a realizar, e fazer uma proposta específica. Ou não farei nada, mas também não perderei o tempo de quem tem problemas a resolver e ainda por cima, tem que me achar legal porque ofereci qualquer coisa.

 

Ah, e qualquer coisa desculpa aí, hein?

Alguém prende a bruxa!

E o Michael Jackson morreu… caraca!

 

Não acho que era exemplo de vida para ninguém, tampouco imagino que realmente quisesse ser. Mas não dá para ser indiferente e me peguei perguntando, por que me importou?

 

Porque marcou uma época, porque fez diferença na história moderna da música, gostem ou não gostem. Não tem mídia que sustente um fenômeno nessa proporção, sem algum conteúdo real. Lembrar das suas músicas e coreografias nos faz lembrar de nós mesmos em algum lugar do passado.

 

E não é que o danado conseguiu que até sua morte fosse extraordinária? Foi precoce em absolutamente tudo!

 

De antemão já fico cansada do que virá por aí de declarações secretas, amizades profundas de cinco minutos, teorias de conspirações, brigas judiciais, regravações e por aí vai. É uma pena a perda de um ícone.

 

Infelizmente, pela proporção de sucesso mundial, foi para a segunda linha do obtuário Farrah Fawcett, a super pantera. Outra que me remete ao passado. Quem das minhas contemporâneas não brincou de “As Panteras” no colégio? É verdade que a gente queria mesmo ser a “Kelly”, mas nossas mães se entupiam de laquê e tintura loira para ficar com o cabelo da “Jill”. Ninguém queria ser a pobre da “Sabrina”, era considerada muito magrela, para ver como os padrões de beleza são mutáveis.

 

Sinto por ela também, sinto pelos dois. E sinto pelo pensamento mórbido que tive, um foi do coração, outra de câncer; meu pai teve ambos problemas e está aí, na luta. Ponto para ele! Ídolos são importantes, também são seres humanos com suas próprias famílias e problemas, mas no fim das contas, nos importa mais, ou deveria nos importar, as pessoas próximas. São as que fazem diferença real nas nossas vidas.

 

E falando nisso, vai tudo bem no Rio. Meu pai já está independente novamente. É lógico que não adianta a gente esperar que ele fique totalmente bom, mas dentro do quadro de expectativas realistas, não posso me queixar. Minha mãe também está tentando aprender a se desligar um pouco e seguir sua vida e eu estou aprendendo a tomar conta da minha.

A arte, as palavras e o tempo

Há algum tempo atrás, me dei conta que escrever, de certa forma, me afastou das artes plásticas. Não precisava ser assim, mas é que no meu caso, parte da motivação visceral de trabalhar com arte era a de me comunicar e interagir. Como me custa muito falar, criar códigos artísticos me serviu como uma ferramenta e tanto. De repente, descobri que a palavra escrita podia suprir essa necessidade, talvez por isso eu escreva muito parecido como falo, só que mais organizado. A palavra é mais direta e arriscada. Não foi o único motivo, mas cada dia tenho mais certeza que foi o que viabilizou.

 

O que é engraçado é que agora, quando não estava com a menor vontade de falar ou escrever, me peguei desenhando. Bom saber tocar mais de um instrumento, enlouquecemos mais devagar.

 

Vou me desviando das bruxas, acho que como todos. Segundo os noticiários, blogs e afins, a vida no planeta não está nada fácil. Entre acidentes aéreos, crises, gripe suína e protestos no Irã, às vezes dá tempo de tomar um bom vinho e lembrar que desde que o mundo é mundo shit happens, e é melhor aproveitar antes que nos toque. Melhor tomar fôlego antes de mergulhar. Como acabo de nadar até a margem, ainda não dá para correr que estou cansada, mas dá para tomar um solzinho.

 

Em casa, foi difícil voltar, vivo me perdendo pelo caminho, mas cheguei. Talvez sejam os emblemáticos 40 também chegando. Nos 20, não somos muita coisa, mas podemos ser quase tudo; nos 30 é o equilíbrio perfeito, temos experiência, tempo e várias portas a serem abertas. Nos 40, ou temos orgulho de alguma coisa que fizemos no passado para nos agarrarmos como referência, ou corremos o sério risco de optar por uma vida medíocre. Claro que podemos mudar, construir, mas só frente às portas que abrimos, as outras já eram, foi nossa opção. Acho que abri muitas portas, mas se foram as corretas e suficientes, só saberei com o tempo.

 

Tempo, tempo, tempo… estou sempre pensando nele.

 

Quer saber, chega! Tá bom de filosofia por hoje, melhor pensar no que realmente importa na vida de uma mulher moderna e preocupada com sua participação na engrenagem do universo: estou magra! Como dizem os espanhóis, toma!

Entrevista no blog Expatriadas

Há mais ou menos um mês, antes de viajar ao Brasil, fui convidada pela Carmem a dar uma entrevista no seu blog, o Expatriadas. Aceitei na hora porque acredito na importância de se compartilhar experiências. Recomendo a visita, acho um blog interessante para qualquer pessoa e imperdível para quem mora fora do seu país de origem.

Quem quiser saber o que eu e outras expatriadas pensam, é só ir aqui www.expatriadas.com

Em Madri

Cheguei na segunda-feira, dia 15 de junho. Por enquanto, o que mais faço é dormir, não tenho vontade de falar nem de escrever. Minha garganta se aliou comigo e perdi a voz, assim não posso falar mesmo. Quem sabe quando ela ficar boa, ponha a boca no mundo outra vez.

 

A situação do meu pai é a seguinte, coração controlado, marcapasso funcionando. Falta resolver o problema do atrio, que pode ser com medicação ou com uma futura intervenção. E câncer de bexiga, assim, com todas as letras, o nome próprio é carcinoma urotelial papilífero de baixo grau infiltrando córion. Camada muscular própria livre de neoplasia. É isso.

 

Sim, é possível tratar e assim faremos. Nossa família já passou por isso algumas vezes, portanto, temos o otimismo suficiente para saber que há soluções e realismo suficiente para saber quanto custa.

 

Não tenho planos de voltar ao Brasil esse ano, a não ser por uma situação de emergência. Ou seja, enquanto não voltar, é bom sinal.

 

Agora é tocar a vida.

Ufa!

Finalmente, meu pai teve alta do hospital e já estamos em casa. Ufa! Não está tudo resolvido, o caminho é longo, mas sem estar internado fica muito mais fácil.

Ainda estamos um pouco tumultuados, principalmente porque ele tem muita dificuldade em se locomover. Depois de ficar deitado por um mês, é difícil mesmo voltar a caminhar. Mas achamos que ao longo da semana ele se recupera, amanhã deve vir uma fisioterapeuta aqui em casa.

O coração está sob controle, vai precisar fazer revisões e blá blá blá, mas isso é assim mesmo. Acho até que está melhor do que antes.

Quanto à bexiga, ainda não sabemos bem como será o tratamento. Mas o tumor, que era malígno, foi todo retirado, não estava muito enraizado e não deu metástase. Portanto, não é um câncer muito agressivo, dá para tratar e já entubamos.

Agradeço mais uma vez aos amigos, antigos e novos, pela torcida, apoio, orações, macumba, reza forte, novenas, energias positivas e afins.

Tudo correndo como vai agora, devo voltar para Espanha no domingo. Considerando que todo dia sou obrigada a escutar sobre detalhes mórbidos do acidente da Air France, será uma delícia enfrentar as turbulências tropicais! A propósito, já passei por um CB, urubu na turbina e pouso em fim de furacão. Na vinda para cá, o avião interrompeu a decolagem na metade por problema no motor. Melhor acreditar que sou imune!

Coração biônico em funcionamento

O marcapasso foi finalmente colocado no fim da tarde de sábado, 06 de junho.

Entramos na justiça contra o plano de saúde, ganhamos e mesmo assim não deram resposta. Com isso, fomos para cima do hospital com a liminar e, pelo que entendi, agora eles é que brigam com o plano. Quando isso terminar, explico por aqui passo a passo, e outras pessoas podem conhecer melhor seus direitos. Boa parte nem sabe que existe essa possibilidade e os planos se aproveitam disso como urubus.

A parte mais difícil passou. Entretanto, seguimos na montanha russa, às vezes fico feliz porque parece que tudo se resolveu, me animo, faço planos, tento me agendar para encontrar amigos. Em seguida, descubro que sempre faltam mais dois ou três dias que se prorrogam todos os dias.

Mas ao que interessa, meu pai passa bem e a cirurgia foi bem sucedida. Ele ainda apresenta arritmia no atrio, coisa que não podia ser controlada por medicação antes do marcapasso. Agora ele já está recebendo a tal medicação para isso. Acreditamos que nos próximos dois dias se consiga definir a dosagem de medicação para ele voltar para casa, além de fazer uma certa reabilitação para seus movimentos. Ele está há um mês na cama, o que complicou sua locomoção, é normal.

Agradeço às pessoas que tem sido muito solidárias conosco e dado bastante apoio. No que puder ajudar um dia (espero que vocês não precisem), a recíproca é verdadeira.

O leão do dia

Quando a gente acha que vai resolver, tudo se complica outra vez.

A condição do meu pai é estável, ele está bem. Acontece que decidiram ontem à noite tirar o marcapasso provisório, até onde entendi, para diminuir o risco de infecção. Passamos toda a semana escutando que esse era o aparelho que dava segurança a ele nesse período, de maneira que agora estamos todos assustados em contar com a sorte.

Tudo bem que ele está em um bom hospital e blá blá blá, mas a idéia não é simplesmente socorrê-lo rapidamente, mas evitar o problema. 

Agora soube que o plano de saúde já negou duas vezes o pedido do tal super marcapasso com desfibrilador, pedem outros relatórios médicos e tal. Enquanto esperávamos desconfortáveis era uma coisa, agora esperamos com medo.

Já pedi a quem conheço e a quem não conheço. Alguém sabe como ajudar?

Sem muitas novidades

Vai tudo caminhando bem, mas devagar.

A cirurgia da bexiga foi bem sucedida. Conseguiu extrair todo o tumor, mas ainda não temos resultado da biopsia, nem previsão e, honestamente, nem pressa. Na sexta-feira passada ele tirou a sonda e no fim de semana foi normalizando as atividades urinárias. Ainda há um pouco de sangramento, mas parece ser normal, é parte da cicatrização.

O marcapasso provisório foi trocado de lugar. Até onde entendi, faz parte do procedimento, há um limite de tempo para ficar em cada veia. Foi mais fácil dessa vez, a primeira demou mais de 2 horas para conseguirem acertar tudo, dessa foi mais simples e ao invés de estar no pescoço, está no peito, o que dá um pouco mais de mobilidade e comodidade. Mesmo assim, ele não pode levantar da cama.

Continuamos aguardando a aprovação do plano de saúde para a colocação do marcapasso definitivo. É um saco, mas a princípio está dentro da previsão que os médicos nos deram.

Hoje peguei o turno da tarde no hospital. Pela manhã, fui até a polícia federal, no aeroporto, para renovar meu passaporte. Foi tranquilo, o novo deve ficar pronto no dia 9, ou seja, já volto para Madri com tudo resolvido. Estava um pouco preocupada com isso, porque se deixasse para renovar na Espanha, através do consulado, costuma demorar uns dois meses. Imagina se preciso viajar às pressas outra vez? Isola! Mas preciso contar com essa probabilidade.

Amanhã, pego o turno da manhã no hospital e chego umas 6 da matina. É cedo para burro! Mas até acho melhor, porque passa mais depressa, é a hora do barata voa no quarto, porque tem café, banho etc. Dá mais trabalho, mas é menos monótono. O evento do dia costuma ser a hora do número 2, nunca imaginei que um simples cocô gerasse tamanha torcida! Caraca! Acho que se fosse comigo, com toda essa mobilização, expectativa e platéia, eu ia acabar implodindo!

Andei vendo fotos do que anda acontecendo enquanto estou por essas bandas, é divertido. Também estou voltando a falar com as pessoas, às vezes estou meio cansada e com preguiça de repetir tudo que está acontecendo, mas agora que todo mundo já sabe mesmo, fica mais fácil.

E ando com uma vontade de tosar o cabelo… sei não, mas se der um tempinho, acho que cometerei uma loucura!

Outro dia

Hoje acordei melhor, acho que é porque dormi um pouco mais. Agora resolvemos fazer um esquema de revezamento, minha mãe vai cedo, umas 6 da manhã para o hospital e eu vou pela hora do almoço, troco  com ela, e fico até umas 21:30. Estávamos ficando as duas o dia inteirinho e é muito cansativo. Como por esses dias temos mais a esperar do que fazer, resolvemos assim. Não precisamos dormir, porque como ele está em uma unidade intensiva, é gente entrando a noite inteira no quarto e ele está todo monitorado. Só durmo em casos especiais, como quando ele fez a cirurgia da bexiga, por exemplo.

Pela manhã ele tirou a sonda e conseguiu ir ao banheiro, o que deu uma animada. Engraçado como em hospital a gente volta a preocupações tão básicas e se perde totalmente o pudor. Os pacientes parecem que voltam a ser nenéns e se controla se comeu, se foi ao banheiro…

O marcapasso foi pedido, e agora já prevemos uma certa lenga lenga. O plano também já devolveu, requisitando maiores esclarecimentos. É que como não poderia deixar de ser, o aparelho que ele precisa é o super master plus bodoso dos marcapassos. Vamos torcer para que esse ping pong não demore muito.

Meu pai está cooperativo para burro! Até de se estranhar, acho que percebeu que não há outra alternativa, mas também sei que essa cooperação tem prazo de validade.

Hoje vou tentar não pensar muito na minha casa, não dá para voltar mesmo. Vou aproveitar e renovar meu passaporte, em Madri demora muito. No domingo, se der, dou uma fugidinha para encontrar amigos.

Acho que semana que vem será meio pauleira, melhor me preparar.

Não sou Poliana

De modo geral, me considero uma pessoa otimista, não adianta muito ficar me lametando. Mas também não sei viver no mundo de Poliana e ficar agradecendo a cada problema, porque tem gente que está muito pior. Quem estiver pior, sinto muito, mas hoje estou de saco cheio.

Meu pai já leva duas semanas no hospital, estou longe de casa, sem previsão de voltar. E de cara também sei que quando voltar, na melhor das hipóteses, será sem tudo estar resolvido. Não tenho a menor ambição de assumir um papel heróico, minha vontade real é de ir embora e que alguém tomasse conta de tudo e me dissesse que está tudo bem.

Deve ser pior não ter pai, deve ser pior não ter condições para se tratar, deve ser pior ficar longe… mas nesse momento, isso não me consola em absolutamente nada. Alguém acha que não me lembro disso? Que não havia pensado nessas possibilidades? Isso não ajuda, não resolve nada pensar que poderia ser pior.

Mesmo antes desse quiprocó todo acontecer, me peguei algumas vezes na rua olhando para senhores idosos de aparência independente e pensei, por que meu pai não está assim? É egoísmo mesmo, faria minha vida mais fácil e mais feliz. Em algum momento também chegará minha vez.

Hoje é a apresentação do coral, deve começar em no máximo duas horas, em Madri. E eu aqui no quarto do hospital, vigiando um pouco de sono e a falta de simancol alheia. É impressionante a capacidade que as pessoas tem de se tornarem estúpidas e começarem a fazer perguntas e comentários idiotas por não saberem o que dizer. Não fazem por mal, mas vou perdendo a paciência.

Em quartos de hospital a gente entende literalmente a expressão “ver o tempo passar”. Mesmo quando a gente não tem nada para fazer, fica com a sensação de ter os dias roubados. Os dias em Madri, nessa época, são bonitos e longos, estão bonitos aqui também.

Não está tudo tão mal, temos progressos diários, mas essa indefinição de tempo de espera para cada etapa vai minando a resistência. Ele não sabe quanto tempo precisará ficar amarrado na cama, minha mãe não sabe quanto tempo levará até poder acordar em hora de gente, eu não sei quando dormirei na minha casa outra vez. É uma merda, com todas as letras.

Meus planos de maternidade foram para as cucuias de vez, já era. Não adianta ficar dando murro em ponta de faca. Essa vida não é para mim. Os simbólicos 40 anos não serão tão diferentes assim e em algum momento vou achar alguma vantagem nisso.

Pronto, escrevi, agora o problema não é mais meu, é da tela do computador.

Daqui a pouco devem começar a chegar as visitas, sempre anima um pouco. E lá vou eu repetir tudo outra vez, assim também vou me convencendo. Sim, está tudo bem, agora ele aguarda a cicatrização da bexiga, de onde foi retirado todo o tumor. O resultado oficial da biopsia sai pela próxima segunda-feira. Independente desse resultado, o marcapasso definitivo foi pedido e acreditamos que o plano de saúde deva aprovar até o meio da semana que vem. Com o marcapasso definitivo, tudo melhora, porque ele é liberado da cama e provavelmente receberá a alta do hospital em seguida. E aí, vamos ver como seguimos o tratamento da bexiga, mas só de não estar internado já ajudaria muito.

O aniversário da minha mãe é no meio de junho. Ela nasceu dia 16, mas foi registrada em 18, ou seja, acabamos comemorando os dois dias. Enfim, seria um presentão poder comemorar em casa.