O prazer de comer em Madri

Eu amo comer bem. Isso não é tão óbvio quanto parece, conheço um monte de gente que come para matar a fome, ou por culpa, ou por ansiedade. Eu como com prazer. Fico aborrecida se preciso comer mal ou correndo. Bom, e se estou faminta sou insuportável, praticamente perigosa.

 

Quando digo séria ao Luiz, estou com fome, ele começa a se virar como quem pertencesse a um esquadrão antibombas. Eu já disse que felizmente não nasci mendiga, porque na hora que a fome batesse seria capaz de qualquer coisa. Tenho certeza que seria uma assassina!

 

É claro que não estou falando só de comida e acho que essa é a grande sacada da mesa que o povo, por impossibilidade ou distração, passa batido. Comer é todo um momento.

 

Sabe onde gosto mais dos espanhóis? Nos restaurantes, comendo. É quando adoro ouvir o sotaque e a conversa alheia. A mesa espanhola é conservadora, mas informal, generosa e farta. 

 

O espanhol é bruto e imperativo, assusta um ouvido destreinado. Até que você entende que maneira certa e errada depende do ângulo em que se observe. Reclamo um monte do atendimento por essas bandas, até que há pouco tempo entendi que bom atendimento para um espanhol é ser atendido rápido.

 

Você ainda não sentou direito na mesa e o garçon já está te perguntando o que quer beber. Juro, às vezes você literalmente não terminou de sentar. Levei quase cinco anos para entender que ele não faz isso só porque está com pressa para resolver a vida dele; ele faz isso porque é o que o cliente (espanhol) quer. E pensando bem, quando recebo alguém na minha casa, uma das primeiras perguntas que faço, antes de iniciar a conversa, é exatamente o que quer beber.

 

Boa parte nem vai te dar o cardápio e pergunta o que quer comer. Como assim, como vou advinhar o que tem no restaurante? Bom, primeiro porque os restaurantes tem o cardápio muito parecido, mas principalmente, porque quem é “de casa” está pouco se lixando para o que está escrito. Muito mais fácil perguntar diretamente o que está mais fresco, ele te pergunta, carne ou pescado. Pronto, para que drama?

 

Quando você elogia a comida, ficam orgulhosos; se sobrar ficam ofendidos. Com alguma intimidade, colocam o resto no seu prato e reclamam que você não comeu tudo. E você trate de comer!

 

Uma vez dissemos no Taberna La Daniela que tinham a melhor tortilha de batatas de Madri, absoluta verdade. A garçonete gritou – sim gritou mesmo – do salão para o balcão do bar, Jositoooo, que han dicho que tu tortilla es la mejor de Madrid! E nós vimos o Jose, sempre seríssimo e de poucos sorrisos, ficar vermelho como uma beterraba, só faltou chorar de emoção!

 

No Trifón, onde nossa falta de cerimônia nos livra da reserva, o diálogo pelas 22:00hs é mais ou menos assim, Mike hay sitio? Luisitoooo, macho, que estamos a tope! Vale, vente pa cá que te hago un rincón! Ressalto que ele não diz “te acho” um lugar, ele diz “te faço” um. A propósito, deve ter bem uns dois anos que a gente não escolhe o vinho que vai tomar ali. Na melhor das hipóteses, quando estamos acompanhados, ele faz sinal com a mão para o Luiz para saber a faixa de preço.

 

Às vezes, queria ter um gravador, porque só escrevendo acho que não consigo repetir o conteúdo das situações. Porque conta a entonação, a ironia e a velocidade que vem os diálogos. Para mim, há dois que são os campeões:

 

O primeiro no próprio Trifón. Estava com um amigo que pediu uma cerveja sem álcool. Ricky responde na lata, no hombre, que aquí no hay esas mariconadas! Caraca, foi genial! Lógico que ele estava brincando, mas adorei o humor atrevido.

 

O segundo no El Rincón de Jaén, restaurante saindo gente pela janela de tão cheio. O corredor lotado do povo esperando a vez para mesa. Grita alguém do balcão: mesa para cinco de Juan! Imagino que o Juan e seus quatro acompanhantes começaram a se dirigir para as mesas. Grita respondendo rápido o garçon que a mesa ainda não estava pronta. O cidadão do balcão emenda na hora, Juaaan tomate más una caña y no te vayaaas! Ficou claro que Juan é o cliente, né? Pô Juan, a mesa não tá pronta, toma aí mais uma cerveja!

3 comentários em “O prazer de comer em Madri”

  1. Oi Bianca

    Eu gosto de restaurantes que voce já tem uma certa intimidade com o garçon, o barman, é muito melhor. A comida claro tem que ser boa também pois sou chata pra comer, mas quando essas coisas estão juntas eu me sinto em casa. Ai tem gente que diz: “mas de novo nesse restaurante…”. Santa ignorância.
    Beijos

    Marianne

  2. Oi, Marianne! Eu gosto de variar, para ir conhecendo lugares novos, você sabe que a gente gosta de sair. Mas os melhores, sempre é bom repetir. Quando você faz amizade com o pessoal então, realmente é muito melhor, é outra experiência. A comida é a alma do negócio, não dá nem para começar a conversar se a comida for medíocre, mas honestamente, acho que isso é obrigação em um restaurante, o diferencial é o atendimento e o ambiente. Besitos

  3. Muito bom! essas tiradas que saem nos bares e restaurantes sao otimas! e olha que eu também custei a entender o tratamento dos espanhóis, mas agora to super adaptada e nao acho mais nada ruim, só rio e conto pros outros! como vc faz….hehehee

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