Um pouco mais perto de resolver

Na quinta-feira, 21 de maio, embarquei para o Rio, com direito a interromper a decolagem na metade por problema no motor do avião, ou seja, tudo que você quer ouvir antes de uma viagem de mais de 10 horas. Depois de uma lenga lenga, trocamos de aeronave, o que me pareceu muito sensato, e até que a viagem foi tranquila. Cheguei quase às 23:00hs, hora do Brasil, 4 da matina no meu fuso horário.

Já desembarquei com notícias preocupantes, felizmente com a solução em andamento. Meu pai teve naquele mesmo dia, no fim da tarde, mais duas arritmias com desmaio, o que em princípio parecia uma má notícia. Acontece que ele é tão sortudo que isso aconteceu exatamente na frente do seu cardiologista, o que trata dele há onze anos e foi visitá-lo para saber como andavam as coisas, nem era consulta. Claro que foi um tremendo susto, toda aquela confusão, mas o resultado é que se descobriu o que estava causando as arritmias, ou seja, não será mais necessário o tal exame que ele precisaria fazer através de catéter e blá blá blá, e a solução é um marcapasso (não sei se escreve junto ou separado). Na mesma noite ele colocou um marcapasso provisório e aguarda a colocação do definitivo.

Portanto, a parte cardiológica está mais tranquila e caminhando para uma solução muito positiva. Ótimo.

Entretanto, não é o único problema. Ontem ele fez mais uma tomografia da bexiga e arredores. A parte boa é que não encontraram mais nada nas redondezas, o que ainda que não nos tenha sido dito dessa maneira, quer dizer o seguinte, se for malígno, não deu metástase. E de cara é menos mal. Mas como ele não pode fazer a tomografia com contraste, não tivemos muito mais informação sobre a tal “massa” da bexiga, a não ser que está meio grande, parece ter uns 4cm.

Na segunda-feira, depois de amanhã, ele fará a biopsia e só assim teremos certeza absoluta da encrenca. Outra vez temos uma parte positiva, como a situação cardiológica dele está mais controlada, eles não farão só biopsia, vão aproveitar e tentar tirar o máximo possível lá de dentro. Isso quer dizer que se for benigno, estará praticamente tudo resolvido.

Ele está bem, sem dor e admito que bastante cooperativo, para quem conhece a fera. Está no CTI, mas pode ter acompanhante e receber visitas, seus amigos tem comparecido em peso. Ele não tem cara de doente, nem nós ficamos fazendo drama. Continuamos no esquema de resolver um leão de cada vez.

Acho que nosso domingo será muito longo, quero pular logo para terça-feira.

E lá vai a cavalaria

Bom, não tenho muito mais informações que antes, mas conversei com o médico no início da noite de quarta e tive uma que me fez decidir ir. Para ficar esperando se é maligno ou benigno, ou seja lá que raio for, espero por lá. Embarco na quinta, 21 de maio. Por causa do fuso horário, chego na própria quinta-feira pelo fim da tarde. Estou meio na correria para arrumar tudo, quando der, dou notícias. Mais provável que seja pelo Twitter.

Não há motivo para pessimismo, ainda tem muita água para rolar. Minha mãe já está muito cansada e com dificuldade de entender o que está acontecendo, portanto, acho que agora posso ajudar em alguma coisa.

Obrigada pela força e podem continuar na torcida que todo apoio é bem vindo!

Besitos, Bianca

127 – Vamos a próxima batalha

Na segunda-feira, fui dormir preocupada, mas otimista, as coisas pareciam estar se resolvendo bem. Na verdade, estão. Na terça, comecei o dia com um e-mail broca, novo problema em paralelo. Muita calma nesse momento porque ainda não temos certeza do tamanho da encrenca.

 

Mas admito que baixou um pouco a moral, por isso digo que precisamos comemorar de vitória em vitória, nos dá energia para esses momentos.

 

Vamos aos fatos, porque ontem também entendi melhor todo o quadro. Minha mãe teve a idéia de ligar o laptop no quarto do hospital e converso com eles pela webcam. Foi o melhor do dia, imagens são diretas, não tem tradução. Hospitais não me impressionam, muita gente associa às doenças, associo à cura.

 

Estou contando isso porque geralmente tenho as informações que minha mãe vai me passando por telefone, com meu pai do lado corrigindo tudo e dizendo que está tudo ao contrário. Ou seja, imagina a precisão, né? Procuro me fixar nas palavras chave, vou pesquisar o que significa pela internet e faço uma média. Sou praticamente a Dra. Google.

 

Ontem, ouvi ao vivo a médica (de verdade) especializada em arritmias conversando e explicando tudo aos dois. É o seguinte, meu pai teve uma arritmia no atrio, que aparentemente é um local menos perigoso (nem me pergunte, menos perigoso do que? Não tive interesse, muita informação). Essa arritmia foi revertida, mas o resultado, pelo que entendi, ficou um pouco aquém do ideal. A situação cardiológica dele nesse momento está estabilizada, com remédios claro, mas sem um risco iminente. Pelo histórico médico do meu pai, seu coração é um pouco inchado e bombeia o sangue com menos intensidade, isso faz com que possa surgir coágulos – que são obviamente perigosos. É muito provável que tenha sido um desses coágulos que gerou a isquemia cerebral, ou AVC, que ele teve no ano passado. Muito bem, essa é a razão pela qual ele toma anticoagulante. Bom, ainda que a situação tenha se estabilizado, não se resolveu e não há uma garantia que ele não teria outra arritmia, portanto, o próximo passo indicado seria tentar descobrir se essa arritmia que ele teve foi causa ou consequência, e a partir daí tomar as medidas necessárias. Para isso, é recomendado um estudo eletrofisiológico, que pelo que entendi seria um tipo de cateterismo cardíaco para avaliar a parte elétrica do coração, ou mais diretamente ainda, verificar onde nasce o problema, que tipo é, e cauterizar, se necessário. No caso de se reverter de vez, maravilha, caso contrário, ele pode, por exemplo, usar um aparelho desfibrilador, mas aí já é um passo a frente, vamos por etapas.

 

Muito bem, esse estudo eletrofisiológico seria realizado nesse sábado, até que tivemos uma nova informação. Ele está passando por um check up geral, e nisso descobriram que havia uma massa na bexiga. O que isso quer dizer? Não sabemos, pode ser um monte de coisas, por exemplo, um coágulo ou um tumor. Nenhuma frase que inclua a palavra tumor me agrada, melhora se é acompanhada da palavra benígno, mas como disse, não sabemos. Para tanto, ele fará uma biopsia no início da semana que vem. E foi com essa notícia que acordei na terça.

 

Passado o momento puta-que-pariu-que-merda-e-agora, esfriei a cabeça. Como disse um amigo por esses dias, maktub, maktub… Pode não ser grave e hoje em dia, quase tudo tem tratamento. Não adianta se lamentar, o bom é que ele é forte e tem condições para ser atendido por uma excelente equipe médica, o que é uma sorte grande. Então, mais uma vez, vamos entender os próximos passos.

 

A biopsia deve acontecer pelo início da semana que vem. Por que não agora? Porque, em função do coração, ele praticamente come anticoagulante com farinha. Ou seja, qualquer pequeno orifício aberto nesse momento, sangraria que é uma beleza. Só seria feito em caso de emergência urgentíssima, o que felizmente, não é o caso. Portanto, precisam de cerca de uma semana para que seja seguro realizar esse procedimento.

 

Em função dessa biopsia, o exame eletrofisiológico e o tratamento do coração ficou para depois. Porque nesse momento, ainda que não resolvido, seu problema da arritmia está controlado e monitorado. Precisamos saber qual é o tamanho da encrenca na bexiga primeiro. Entretanto, ele não pode deixar o hospital nesse período, não seria seguro deixar de monitorá-lo e a medicação não é de todo simples de ser aplicada.

 

Resumo da ópera, temos brincando mais umas duas semanas de hospital.

 

Cheguei a conclusão que ainda não é o momento de ir ao Brasil. É complicado viajar sem a menor previsão de volta. Além do mais, agora mesmo, no máximo faria companhia no hospital. De acordo com o resultado dessa biobsia, vou decidir a necessidade da cavalaria, ou mais precisamente, da cavala. Desde que claro, ninguém grite por socorro antes, daí eu vou.

 

Daqui a pouquinho minha mãe deve me chamar no MSN e ligar a webcam no quarto do hospital, parece um Big Brother, que apelidei de Big Father.

 

Em princípio, não teremos grandes novidades até o início da semana que vem, eu acho. Mas como cada dia é uma aventura, vamos ver o que nos aguarda por hoje.

126 – Movimento, susto e expectativa

A semana começou agitada e prometia continuar assim. Até aí, normal. A temperatura aumentando, o sol saindo, dá mesmo mais vontade de aproveitar a vida.

 

Acho que pela terça ou quarta-feira, tive um pesadêlo com meu pai. Ele perdia a consciência, tentava segurá-lo mas não aguentava o peso. Não tenho vontade de contar exatamente como foi, mas como todo pesadêlo, a gente acorda mais assustada com a sensação do que com o fato em si. Fiquei pensando se deveria contar à minha mãe, mas cheguei a conclusão que isso só assustaria. A gente também sonha com o que tem medo e poderia não significar absolutamente nada. Passei o dia meio encucada em receber alguma notícia, mas como nada de mal chegou, relaxei. Só um sonho ruim.

 

Confesso que tive uma atitude infantil em não ligar nem procurar no dia seguinte. Acho que foi um pouco de negação, do tipo, notícia ruim chega logo, se não chegou nada, está tudo bem. O fuso horário também não tem colaborado muito e sempre falo menos com minha família nessa época. De maneira que falta de alguma notícia em um ou dois dias não chega a ser preocupante. Depois disso, mesmo que a gente não se encontre, deixamos recados por e-mail ou MSN.

 

Tudo bem, as trinta e duas coisas que tinha para fazer me tiraram isso da cabeça. Honestamente, não pensei mais a respeito.

 

Na quarta-feira, era aniversário de uma das Imparáveis no Kabocla. Passei primeiro em uma exposição, na galeria onde trabalha um amigo artista divertido. De lá, fui direto para o Kabocla, encontrar com os amigos e o Luiz que estava meio desanimado, mas acabou não resistindo e aparecendo por lá também. Como havia saído de casa cedo, não consegui fazer uma refeição light e não quis comer pela rua para estragar tudo. Luiz parou em uma lanchonete antes de me encontrar, porque  não tinha almoçado. Não quis acompanhar, muita tentação olhar um hamburguer e não dar uma mordidinha. Assim que cheguei no aniversário azul de fome! Um mau humor do cão! Na verdade, não é que fique de mau humor, fico só meio violenta. Tudo bem, resolvi jantar uma caipirinha sem açucar, me convencendo que era praticamente uma saladinha de frutas. Belisquei as comidinhas do aniversário, porque ninguém é de ferro, mas juro que me segurei bastante. O maior pecado foi comer um pedacinho de bolo, que estava divino, como já havia caminhado uns 7 ou 8 km naquele dia, então, tudo bem. Não saímos tão tarde assim, Luiz trabalhava cedo no dia seguinte.

 

Na quinta-feira, foi dia de coral. Estamos ensaiando para a apresentação do dia 28. Até que rendeu bastante, somos menos pessoas agora, mas prefiro um grupo menor comprometido do que um grupo grande de gente que fica entrando e saindo, faltando e tal. Por esses dias, notei que havia melhorado a voz, está mais firme e afinada, sinto que consegui algum progresso nos últimos dois meses, coisa que tinha a sensação de haver estacionado. Percebo isso em outras pessoas também, inclusive no Luiz. Enfim, muita água pela frente, mas é bom que seja água em movimento. Preciso retomar o projeto percussão.

 

Na sexta-feira era feriado, dia de San Isidro. Logo, a quinta se converteu em sexta e lá fomos nos para La Latina, o bairro mais castizo de Madri. Nem viemos em casa para não dar preguiça, seguimos direto depois do coral. La Latina é normalmente muito animado, mas nessas datas fica especial, os bares montam balcões virados para rua, há shows gratuitos, enfim, é uma comemoração callejera (de rua). Não ficamos até tão tarde, apesar de ser feriado, Luiz trabalharia de casa e o dia prometia não ser nada simples.

 

Na sexta-feira, o dia amanheceu bonito, mas o clima meio denso. Fiquei fazendo hora na cama, enquanto escutava Luiz descascar seus abacaxis cabeludos em uma conferência atrás da outra. Quando vi que aquilo poderia durar o dia todo, fui cuidar das minhas coisas e pensar na comida. Claro, porque comida de dieta, como já disse várias vezes, dá trabalho.

 

Chegou a tarde, toca o telefone, era meu irmão. Temos nos falado mais ultimamente, não estou mais aborrecida, nem tenho energia para isso. De qualquer maneira, nos falamos por internet, assim que de cara sabia que era problema. A frase começou com um não precisa se preocupar, o pai está bem, mas… O que na minha cabeça soa como, está vivo, mas deu merda! Presta atenção, aprende e decide!

 

Escutei. Na quinta-feira, de manhã cedo no Rio, meu pai desmaiou na frente da minha mãe. Por sorte, ele estava sentando no computador, o que fez com que o tombo não fosse tão drástico. Minha mãe tentou segurá-lo, mas ele é muito pesado, começou a gritar, veio meu primo que é bem grande e está passando uns dias por lá e na sequência meu irmão. O esforço era para ele não cair da cadeira, porque levantá-lo do chão é muito difícil. O desmaio foi breve, ele voltou a si sem dor e sem saber muito bem o que havia acontecido. Claro que minha mãe deve ter se assustado muito, porque até ele abrir os olhos, pensou o pior.

 

Bom, foram para seu cardiologista, que o atendeu de imediato, constatou uma arritmia cardíaca e o enviou ao hospital. Foi bem atendido e com bastante rapidez, fundamental nesses casos. Mas só foi possível um quarto no CTI para internação no fim da tarde, que seria madrugada aqui na Espanha. Acharam que iam me assustar em avisar naquele momento, o que entendo. Na sexta pela manhã, tarde daqui, fiquei sabendo de toda a história.

 

Meu irmão passava pelo telefone uma certa tranquilidade nervosa, se é que isso existe. Como algo que fosse sério, mas que estava sob controle. Liguei para minha mãe, que estava parecida, preocupada, mas segurando a onda. Acho que estava pensando que poderia ficar aborrecida com ela por ninguém ter me falado antes. Imagina se teria o direito de cobrar isso. Quando a gente está no olho do furacão, primeiro a gente tenta resolver, depois lembra do resto. Acho um absurdo esse pessoal que fica cobrando dos outros o que deveria ser feito, quem acha que faz melhor que tome a frente e faça, marketing não salva a vida de ninguém. Sei muito bem o que é estar em uma situação de emergência. Sim, prefiro saber e ajudar, mas acho que eles fizeram o melhor que estava ao alcance.

 

Impossível não lembrar da porcaria do sonho e não me sentir uma idiota por não ter querido ouvir. É difícil ter o dom maldito que pode me tranquilizar, mas também pode me tirar a esperança. Uma coisa de cada vez.

 

Falei com meu pai também e gostei do que ouvi. A situação não era fácil, mas ali ainda tem guerra. Perguntei para minha mãe se queria que fosse para o Brasil e ela me respondeu que no momento não via necessidade. Trocamos meia dúzia de brincadeiras por telefone, porque hospital com mau humor ninguém merece. Tentei entender então os próximos passos.

 

Ele faria no dia seguinte um exame para saber se havia algum coágulo no coração. Caso não houvesse, no mesmo procedimento, dão um tipo de super choque no coração para reverter a arritmia. Caso tenha algum coágulo, ele passa a fazer um tratamento, que é arriscado, um saco e blá, blá, blá… até poder dar esse choque. A questão é que isso não garante resolver o problema, é uma tentativa com boas chances de sucesso. Ou melhor dizendo com todas as letras, se não fizer e tiver outra arritmia pode ser fatal. Diante dos fatos, acho que a decisão, ainda que não agradável, era bastante simples: tem que fazer e pronto.

 

Desliguei o telefone e fiquei quieta, tentando absorver toda a história. É óbvio que a vontade é de entrar em um avião correndo, mas é preciso decidir isso com a cabeça mais fria. A gente também aprende que é prudente deixar seus recursos para quando haja uma necessidade real. Achar que só você resolve as coisas é muito prepotente.

 

Pensei que meus pais não estavam sozinhos. Meu pai estava sendo muito bem atendido, por médicos que confio. Minha mãe tem família e amigos próximos. Meu irmão parecia segurar a onda, às vezes as pessoas precisam ter a chance de mostrar sua maturidade. Então, naquele momento, nenhuma variável estava sob meu controle. O melhor que tinha a fazer era esperar o tal procedimento do dia seguinte e a partir daí decidir (e perguntar) se minha presença era necessária.

 

Muito bom, minha cara, cruzar os braços e esperar!

 

Lembrei de algo quase engraçado, uma das coisas que queria exercitar nesse último Caminho, na verdade, na minha vida, era isso de perder o controle das variáveis sem surtar. E quando me perguntei se seria capaz, me surpreendi com a calma que pensei, estou preparada.

 

É verdade que tinha energia de um furacão acumulada e resolvi caçar o que fazer em casa, sem me afastar muito do telefone. Qualquer coisa que fizesse o tempo passar. O bom é que fiquei incrivelmente produtiva! Tem trocentas plantas nas varandas e ainda não havia feito a poda da primavera, toquei tamanho barata voa que encheu um saco de lixo negro que cabia uma pessoa dentro! Estamos falando de uns cento e poucos metros quadrados podados e faxinados! Fiquei produtiva pacas!

 

Cuidar de plantas era coisa da minha avó materna, habilidade que herdou meu pai. Só adulta vim descobrir que também era capaz. Considerando que minha primeira planta foi um cactus e morreu, evoluí um universo! De maneira que não havia melhor atividade para navegar entre meus fantasmas. O tempo passou e estava serena quando chegou a noite. Preocupada, mas bem.

 

Jantamos em casa. Abri um vinho. Não exagerei, tomei o suficiente para abrir a boca um pouco. Diazinho do cão! E eu que achava que só quem teria problemas para resolver fosse o Luiz! Problema de trabalho é um saco, mas problema de saúde é foda! Sorry!

 

Pelo sim, pelo não, fui monitorando preços de passagem pela internet. Sempre bom ter alternativas.

 

Sábado não acordei tarde, mas também não adiantava muito. Porque com 5 horas de diferença horária, só teria alguma informação útil bem depois.

 

Falei com minha mãe, que me confirmou que fariam o exame naquele dia e me explicou melhor o procedimento. A vantagem é que não precisa abrir, se faz pela boca e esôfago, chama transiofágico, ou algo assim. Meu pai estava tranquilo, ele não é de se impressionar com isso, só fica de saco cheio e querendo ir embora para casa. Acho que o que ele mais reclamava é que tinha que ficar de jejum!

 

Acontece que aí tinha um dado importante para mim. No meu pesadêlo, uma das coisas que me impressionava bastante é que meu pai aparecia com uma mancha na boca e entre o coração e o estômago. Em um primeiro momento, me parecia que esse podia ser um problema, mas quando fiquei sabendo que o procedimento passava por ali, de uma maneira meio torta, achei boa notícia. Porque podia não ser o problema e sim o procedimento! Eu sei, para uma pessoa normal isso não deve fazer muito sentido, mas para mim fez e fui invadida por um certo otimismo.

 

Encurtando a história, ele fez o tal exame e não havia coágulos. Essa era uma notícia excelente. Tomou o tal choque, mas em um primeiro momento, não estava claro se havia revertido a arritmia. Só à noite soubemos que sim. Tá pensando o que? Derrubar a fera dá trabalho. Ufa, leão do dia!

 

A gente passa a comemorar as vitórias, mas com cautela. Não é pessimismo, é estratégia, uma guerra se vence em várias batalhas. Comemore de menos, a moral baixa; comemore demais, suas defesas baixam. No sábado, eu comemorei.

 

A primeira previsão de saída era na segunda-feira, hoje. Achei meio precoce, opinião oposta a do meu pai. Mas hoje mesmo soubemos que deve demorar um pouco mais o que achei uma decisão acertada. Ele está adequando dosagem de uma medicação séria, pelo que entendi, anticoagulante, e ainda que se tenha revertido a arritmia, não se chegou a uma conclusão definitiva do que a causou. Considerando que da primeira vez que tomamos conhecimento, uma arritmia causou o AVC e da segunda vez foi todo esse rolo, não se pode brincar com essas coisas e ficar correndo o risco te ter outra.

 

A próxima previsão de deixar o hospital é pela quarta-feira. Nessas coisas não adianta ter pressa, tem que sair com segurança. Sigo na expectativa e no plantão telefônico internético. Rapadura é doce, mas não é mole não!

125 – A dieta de Santiago

Alguém conhece um casal que vai para o Caminho de Santiago, anda mais de 100 km e engorda? Pois é, muita falta de vergonha! E o pior, nem um pingo de arrependimento.

 

O caso é o seguinte, enquanto mulher, assim que examino aquele maldito ponteiro da balança ultrapassar o limite de segurança, surto! Dieta já!

 

O problema é que a dura vida de uma atleta baladeira, gulosa, e ainda por cima pertencente ao clã dos Imparáveis, dificulta muito essa determinação.

 

Chegamos numa terça-feira à noite. Minha primeira providência foi fazer um arroz fresquinho para comer com carne moída, caldo de feijão e farofa. Estava com desejo. Caí na besteira de me pesar depois disso! A retenção de líquidos normal da caminhada, todos os chutes em todos os baldes possíveis durante a viagem e ainda por cima com a refeição light acima, culminaram em uma absurda diferença de 4 kgs a mais! Caraca!

 

No dia seguinte a dieta estava iniciada, resolvi nem esperar a famosa segunda-feira.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, primeiro dia de dieta é aquela fome insana, mas comprei comidinhas frescas, ingredientes saudáveis, ótimo. À noite fomos no show do Douglas no Akbar e ainda aproveitamos para ir caminhando. Porque óbvio que coloquei Luiz também nessa dieta.

 

Chegando lá, encontramos vários amigos, aquela felicidade e tal. Depois do tradicional oi-tudo-bem-como-foi-o-caminho, a primeira pergunta: não quer um risólis de camarão? Está melhor do que a coxinha!

 

Olha, é porque eram amigas queridas, senão juro que dava nelas! Mas tudo bem, porque estava com meu espírito elevado, resisti heroicamente aos salgadinhos e nem bati em ninguém. Whisky, nem estava afim de tomar, não foi sacrifício.

 

Na quinta-feira, Luiz ainda de férias até o fim da semana, as refeições foram agradáveis. Gosto de comidas leves também, elas simplesmente dão mais trabalho, porque exige mais criatividade e variedade de legumes, frutas e verduras. E o mais importante, 3 dos 4 kg excedentes já haviam sido eliminados. Animador!

 

Foi noite de coral, onde tivemos duas ótimas notícias! A primeira é que haverá apresentação nossa na Casa do Brasil no dia 28 de maio. A segunda é que o CD da nossa maestra, no qual temos uma participação, tem data para ser lançado, em 6 de junho na Casa de Américas. Depois falarei com mais calma sobre esses dois eventos.

 

Continuando, na sexta-feira, fim de tarde, fomos a um aniversário de criança. Outra vez, aquela resistência espartana para não sair radicalmente da dieta. Bravamente, me controlei.

 

De lá, o plano era encontrar com os Imparáveis que marcaram de sair. Show! Estava com saudades do pessoal, só faltava descobrir onde a gente se encontraria.

 

Pois os canalhas não marcam em uma pizzaria! Ninguém merece, né? Eu já não ligo para pizza, e vamos combinar que a pizza espanhola não é nenhum campeão de audiência. Ou seja, vou injerir dois milhões de calorias por alguma coisa que nem acho tão boa assim? Só podem estar de sacanagem comigo!

 

Tomamos uma decisão arriscada. Vamos jantar em casa mesmo e encontrar com eles mais tarde, só para beber alguma coisa e seguir com a noite. É óbvio que depois do banho, pijamita e ostras gratinadas, isso nunca aconteceu.

 

Sábado, tínhamos uma festa para ir, que julguei ser noturna. Felizmente, Luiz descobriu às 11 da manhã que estava marcado para às 14:00hs; caso contrário, encontraríamos os anfitriões com cara de sono. Correria para me arrumar, já pensando que mais uma vez passaria pela provação de um almoço. Demos sorte, não era almoço sentado, havia uma série de comidinhas super gostosas e várias opções leves, servido à americana. Aliás, foi bem agradável e conhecemos gente nova.

 

Tentamos marcar alguma coisa com os Imparáveis na volta, mas estavam todos de ressaca. Então, jantamos sozinhos no El Fogón de Trifón, estava sentindo falta de lá, fazia um tempinho que não íamos. Jantamos bem, mas não exageramos. Até que na hora do aperitivo, ganho um chupito de blue label. Vou recusar? É falta de educação!

 

Então tá, mas tudo bem, porque na sequência fomos ao show da Lenna Pablo na Tempo Club e gastei boas calorias dançando. Ótimo show, como sempre! Encontramos com um casal de amigos, demos uma passada no Brasileirinho, estava meio caído, saímos e seguimos para o Kabocla, que estava bem cheio. Mas não ficamos, dali encerramos.

 

No domingo, morgação. Em determinado momento não aguentei e fui caminhar, sinto falta de ar puro. A televisão me cansa e me tira a paciência. Por que a programação é sempre mundialmente ruim? Aproveitei para ver se o jardim de rosas do Parque do Retiro estava florido e estava. Vou tentar fotografar qualquer hora dessas.

 

Segunda-feira, encontro de Lulus aqui em casa. Seguramos a onda. O bom é que meninas estão sempre tentando emagrecer alguma coisa, então um cardápio leve é bem vindo. Em encontros de mulheres, a gente come cenoura e fica feliz da vida acreditando que está emagrecendo imediatamente! Bom, um vinhozinho para acompanhar, porque ninguém é de ferro.

 

E vou te contar, o que estou tomando de chá deve estar baixando represas! Tomo aquele chá vermelho, diz a lenda que queima gorduras. O importante é acreditar!

 

Ontem veio aqui em casa uma amiga que quer fazer o Caminho de Santiago, queria informações. Estou me tornando uma especialista no assunto! Outro amigo está no meio dele nesse mesmo momento, é sua segunda vez, a gente troca dicas. E sigo com a determinação de fazê-lo inteiro, a data já está martelando na cabeça e não paro de sonhar com isso, coisa que me levantou às 6:30 da matina. Isso não pode ser normal!

 

Hoje tem mais, mas ainda não aconteceu, então depois eu conto. Agora vou terminar de tomar essa porcaria desse chá!

124 – A gripe da Viúva Porcina

O bom de se isolar do planeta é que ficamos em um universo paralelo e as notícias nos atingem menos. Ainda assim, não dá para ficar completamente desinformada, principalmente se você viajar com um marido que continua usando o celular com internet e lendo o jornal, mesmo que esteja literalmente no meio do mato!

 

Pois em pleno Caminho de Santiago me dei conta que o mundo vivia o temor de uma nova epidemia! Uma tal de gripe suína, que aqui se diz “porcina”, e portanto, me soa como a Viúva Porcina de uma dessas novelas da globo.

 

Primeira coisa que veio na cabeça, pronto, cortina de fumaça novinha em folha! A gripe em si não me preocupou, todos os anos morre um monte de gente por gripe! Mas a quantidade de sangue que costuma custar uma cortina desse tamanho, isso sim me preocupa.

 

Como não estava nem um pouquinho interessada nessa história, pensei o seguinte, rola o tal vírus influenza, no passado já tomei vacina contra esse vírus. Gosto de carne de porco e estou acostumada a tê-lo em minha dieta. Seguramente, meu organismo já desenvolveu novas defesas para o vírus mutante e portanto, sou imune! Quase tão absurda quanto a teoria dessa pandemia, e absurdo por absurdo, fico com o meu mesmo que é mais divertido!

 

O curioso é que ainda que veja um grande alarde nos meios de comunicação, na rua, no dia a dia, parece que o povo não está nem aí! Bom, imagino que o México não esteja exatamente nessa tranquilidade, mas desconfio que boa parte do inconsciente coletivo – não tão inconsciente assim – resolveu ignorar mais essa conversinha para porco dormir. Como se diz por aqui, vamos deixar dessa “mariconada”!

 

Infelizmente, também não acredito na ingenuidade humana e certamente, mais uma vez, uma parcela vai ganhar muito com a desgraça alheia e isso é lamentável. Aos que, como eu, adoram uma teoria da conspiração, dois videos que estão circulando pela internet bastante interessantes.

Definitivamente, amo a democracia virtual!

 

123 – Aterrizando do Caminho de Santiago, a propósito, alguém quer me patrocinar?

Pois é, voltei. Ainda não estou no clima de escrever sobre o Caminho, mas já já vai bater. De qualquer maneira, decidi abrir uma categoria para isso. Tem muitas informações sobre esse assunto espalhadas pelas crônicas e vou tentar reuní-las, porque tem muita gente interessada. Eu mesma, fui uma sugadora de informações antes de cair na estrada. E o mais engraçado, depois de caminhar também, porque você quer reviver de alguma forma e buscar outras experiências.

 

E falando nisso, dessa última vez me deu vontade de fazer o Caminho inteiro de uma tacada, desde Roncesvalles. Sei lá, acho que estou preparada e a idéia de cruzar caminhando todo um país até o mar tem me seduzido. A questão é a seguinte, fazer até umas duas semanas, como estou acostumada, é razoável. Passar entre 30 e 40 dias, no esquema de costume, ou seja, evitando albergues e comendo bem, fica meio caro.

 

Se de alguma forma conseguisse unir as coisas, o que quer dizer, fazer meu caminho, reunir informações importantes, abrir um espaço para divulgá-las e finalmente, ganhar algo com isso, seria o mundo ideal! Que vou fazer, vou, já botei na minha cabeça. Qualquer coisa, recorro ao meu patrocinador oficial, meu digníssimo marido. Mas se pudesse pelo menos financiar meu próprio trajeto, não viria nada mal.

 

Portanto, lanço a pergunta no ar: Você quer me patrocinar? Conhece alguém que queira? Quer conversar a respeito?

 

Ofereço sair de Roncesvalles com um gps na mochila e uma idéia na cabeça. Posso mapear toda a rota, fotografar a paisagem e descrever as estruturas. Atualizo a quilometragem dos pontos de parada, farmácias, fontes, albergues, hotéis, restaurantes etc.

 

Qual a diferença do que já existe? Olha, pesquisei para burro e não é difícil encontrar guias, mas eles geralmente contam uma viagem bastante austera e espiritual. Me proponho a contar a parte prática, a viagem espiritual é toda sua!

 

Honestamente, quando estava no Caminho pela primeira vez, além dos questionamentos profundos e tal, muitas vezes o que precisava era saber onde tinha o próximo banheiro, se precisava levar um cantil pesado de água, se jogasse minhas meias fora poderia comprar outras na próxima parada, se resolvesse caminhar um pouco mais encontraria uma pousada e por aí vai.

 

Não tenho a menor intenção de julgar a maneira certa de se fazer o Caminho, até porque, acho que cada um deve tomar suas próprias decisões. Mas posso dar alternativas e quem quiser que escolha sua dose de sofrimento. Tem gente que acha o máximo ficar nos albergues, encara como uma oportunidade de conhecer pessoas, por exemplo. E é verdade. Outras precisam de uma boa noite de sono em um quarto privado por uma questão de saúde, caso contrário não são capazes de andar no dia seguinte. E também é verdade. E venho eu dizer quem está mais certo? Eu, hein!

 

Enfim, posso fazer isso com bom humor e boa vontade. Modéstia às favas tenho muita  energia e o maior bom gosto para comidas e vinhos. Mas não posso dizer que um lugar é bom se ele for ruim, mesmo que seja um potencial patrocinador. Não pretendo tornar o Caminho em algo absolutamente comercial, dou dicas, mas aviso de cara que não é um lugar para fazer turismo. Aliás, posso dar várias dicas turísticas também, mas definitivamente, esse não é o lugar para isso. E também não preciso de um chefe para me dizer o que fazer no Caminho, para tanto, fico com meu marido-patrocinador, que já está acostumado que eu faça tudo ao contrário mesmo! Não preciso de lucro, me basta por financiar o trajeto.

 

E se você se animou em fazer o Caminho, quiser me perguntar alguma coisa ou quiser me encontrar por lá em algum trecho, é de graça!

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Mais algumas notícias

Bom, nao teve fumeiro (e o teclado continua sem til). Esse negócio que todo domingo tem é lenda. Algum grupo precisa bancar o tal do fumeiro, caso contrário, nao rola. Apenas em dias comemorativos específicos (que nao sei quais sao) ou em anos santos (que tambem nao sei quais sao). Enfim, mas pelo menos a missa dessa vez nao falava de infidelidade no casamento, foi um pouquinho menos chata. A trilha sonora continua muito boa. A igreja continua um mercado de peixe, eventualmente alguém pede por alto falante para o pessoal lembrar de onde está e calar a boca. Mas tudo isso faz parte, e quando você já sabe, tenta ficar na sua redoma protegida pelas roupas de peregrino.

Após a missa, alugamos um carro. Luiz estava meio machucado e achamos que nao compesava piorar a situaçao, já havíamos chegado a Santiago. Acontece que dessa vez, queria porque queria ir até Finisterre e Muxía. O carro foi uma boa soluçao. Rodamos toda essa regiao, que depois eu conto, é um capítulo à parte. Sentar na última pedra do fim do mundo com o sol se pondo nao tem preço. E sim, é lindo!

Mas acabamos decidindo nao dormir por lá e após uma longa história que depois conto também, chegamos quase às 22:00hs em um lugar show! Fica entre Dopro e Padrón, meio escondido. Resolvemos dormir aqui mais uma noite.

Estamos bem. Nao tenho nenhuma dor, na verdade continuo com vontade de caminhar. Luiz melhorou bastante, ainda está usando tornozeleira e tem menos vontade de bater em alguém. A ficha ainda deve estar caindo também, é muito mais difícil da primeira vez que se chega a Santiago, muita informaçao, mas isso contará ele, se quiser.

E agora, acho que só escreverei desde Madrid.

Besitos a todos, Bianca

Em Santiago de Compostela

Chegamos!

O último dia, fizemos mais lento. Luiz estava bem dolorido e eu queria aproveitar um pouco mais esse trecho.

A entrada em Santiago continua muito dura. Tentei prevenir o Luiz, mas sabe como é, essas coisas sao diferentes quando você experimenta. A gente sempre chega com um pouco de dor, ou com bastante, e precisa atravessar uns 3 km de cidade, se sentindo um ET até a Catedral explodir do seu lado esquerdo. Mas já sei que depois a ficha vai caindo, a gente melhora e finalmente deve dar algum tipo de demência, porque nao podemos esperar para fazer outra vez.

Hoje é a missa do peregrino, estamos torcendo para ter fumeiro, mas nao é certeza. Descobriremos em breve. Depois seguiremos até Finisterre.

Quando chegar em Madrid, dou mais notícias, porque tem uma chata desconhecida do meu lado me olhando aqui sem parar para usar a internet!

Besitos, Bianca

Dando notícias

Estou em Melide, no terceiro dia de caminhada. Até agora, tudo bem. Tenho uma bolha pequena no dedao, mas é daquelas que nao incomodam, ou talvez eu já nem ligue. (nao tem til nesse teclado)

Chove pra burro! A única vantagem é que a temperatura fica ótima para caminhar. Mas o circuito lama ou bosta continua o mesmo.

Luiz reclama que dói o pé, que dói nao sei o que… mas no fundo, acho que ele está gostando. E estamos fazendo uma média de 5km por hora, o que nao é nada mal.

Sim, claro que tomamos vinho! Definitivamente estou elevando meu espírito! 😛 Nao emagreci um grama! Acho que estou fazendo o Caminho Gourmet! E falando nisso, recomendaçoes ao meu amigo que vai fazer o Caminho agora: em Sarria, vai comer carne no restaurante do Hotel Roma, perto da estaçao de trem, o chuletón é um escândalo! Há uns 5 km antes de Portomarín, tem um bar/albergue show em uma casa de pedra, chama ¨Mercadoiro¨. E comemos o churrasco também naquele¨A Brea¨, antes de Palas del Rey. Hoje é dia de ¨pulpo¨.

Vou nessa que acaba meu tempo de internet. Nao sei onde encontrarei outro locutorio, talvez só em Santiago. Tenho atualizado os dias pelo twitter, que pode ser lido no canto inferior direito dessa tela do blog.

Besitos, Bianca

Viajando entre 25 de abril e 8 de maio

Queridos amigos e leitores,

Lá vamos nós! Nem acredito que chegou! Amanhã pegamos um trem até León, no domingo outro trem até Sarria e de lá iniciaremos o Caminho.

O plano A é o seguinte, 100km parando em:

28/04 – Portomarín

29/04 – Palas del Rey

30/04 – Melide

01/05 – Arzúa

02/05 – Rúa

03 e 04/05 – Santiago de Compostela

Saíndo tudo bem, e deve sair porque esse trecho com alguma experiência é quase moleza, vamos decidir se iremos a Finisterre caminhando ou de outra maneira. Se formos caminhando, devem ser 80km em três dias, parando em Negreira, Olveiroa e Finisterre. Agora, se a gente encher o saco, simplesmente pegamos um ônibus e vamos curtir a praia em Finisterre, pronto!

E no dia 8 de maio, pegamos o caminho da roça! Até porque nossa amiga que fica em casa cuidando do Jack vai viajar.

Entre esse período, não tenho nem idéia se poderei checar internet. Portanto, paciência se os comentários demorarem a ser aprovados, e-mails serem respondidos etc. Nem adianta ligar para meu celular que ele continua sendo um excelente despertador. Na volta a gente conversa à vontade e conto tudo! 😛

Até breve!

Besitos, Bianca

Pudim de Maria Mole – receita da Kátia

Ingredientes:

– 2 caixinhas + 2 colheres (sobremesa) de pó para maria mole
dissolvidas em 1 xícara (chá) de água fervente
– 2 latas de leite condensado
– 2 latas de creme de leite com soro (ou 500ml de nata para montar, para os que moram na Espanha)
– 1 caixinha de leite de coco
– 1 medida (da lata) de leite
 
Calda:

– 2 xícaras (chá) de açucar refinado
– 1/2 xícara (chá) de água
 
Preparação:

– Bata tudo no liquidificador e leve para gelar de um dia para o outro numa forma para pudim caramelizada com metade da calda, a outra metade deixe para jogar por cima quando desenformar.
– Desenformar 10 minutos antes de servir.
– A calda é só cozinhar uns 10 min até caramelizar

122 – Corrida de toldos

Não escrevi errado, não suporto corrida de touros, quis dizer corrida de toldos mesmo. Conhece? Não? Então, vou explicar como nasce um esporte importante.

 

Tudo começa com os famosos imparáveis juntando-se para um churrasco em dia chuvoso. Churrasco só não combina com chuva se você bebeu pouco. Para a gente, é uma simples circunstância.

 

Muito bem, na varanda onde foi o churras, há dois toldos. Assim que começou a pingar, foi um de cada lado baixá-los para a gente não se molhar tanto. Olho para cima, vejo um dos toldos um pouco na frente do outro e falo de farra, fulano tá ganhando!

 

O pessoal – onde segundo minha amiga Imparável fã número um do Fado Junior, o mais lento voa – começa a maior torcida aos berros para ver quem consegue arriar o toldo primeiro! Os dois entram na brincadeira no mesmo minuto e começam a rodar as manivelas freneticamente para vencer a corrida!

 

Pronto! Inventada a corrida de toldos!

 

Daí para frente, a cada vez que começava ou parava de chover, ia um par diferente participar do desafio. Acompanhados, é claro, de gargalhadas e urros insanos. Só não se diverte quem não quer, né não?

 

A propósito, a campeã foi a Imparável light, e sem nem fazer força!

 

121 – Câmera lenta

Por que quando queremos que algo aconteça logo, parece que a vida fica em câmera lenta? Eu, que já sou a paciência em pessoa, nesses momentos fico uma pilha! Os dias não vão mal, pelo contrário, até bem animados, felizmente. Mas é que quando encuco com uma coisa, cassilda, fica martelando na cabeça até acontecer.

 

Está difícil dormir, porque passo toda noite pensando em trechos do Caminho. A paranóia está crescendo, porque agora também conheço pessoas! Será que voltei a ter amigos imaginários? O curioso é que as pessoas que encontro nos meus sonhos falam idiomas diferentes e outro dia aconteceu uma coisa incrível, quando me dei conta, o diálogo era em italiano! O interessante dessa história é que pouco depois de vir morar na Espanha, perdi totalmente o italiano que falava antes. Ainda entendo boa parte, mas na hora de responder ou formular uma frase, sai em espanhol. Estão guardados na mesma gaveta, sei lá. Pois então, depois de mais de quatro anos, de repente, as frases e expressões começaram a me voltar em sonhos, achei legal. Pelo menos, agora sei que o idioma continua lá guardado em algum lugar, e no momento que exercitar, ele volta.

 

Bom, essa é a loucura nova, porque tenho a antiga. Não consigo usar i-pods e afins, me dá nervoso no ouvido. Por outro lado, amo andar com músicas e sempre caminho ao som de alguma. Sim, ouço vozes na minha cabeça, mas pelo menos elas só cantam, ainda não me mandaram matar ninguém! E agora que ando às vezes com Luiz (calma, o de verdade, não imaginário), vou falando para ele quem está cantando no momento.

 

Nas últimas semanas consegui dar uma evoluída nos treinamentos e o condicionamento físico já não me preocupa mais. Os imprevistos não posso controlar, e é por isso que se chamam imprevistos, então relaxei. A perda do controle é também um exercício que preciso fazer.

 

Mas, enfim, tenho pensado muito nesse fenômeno que é a peregrinação nos últimos anos. Eu sei que não há nenhuma novidade na peregrinação, mas ninguém me tira da cabeça que atualmente vivemos um momento diferente. Há um movimento em massa nessa direção e por algo será. E como outra das minhas loucuras é a da teoria da conspiração, me empaquei a entender esse enigma. Digo entender, porque resolver nem me atrevo, pelo menos, não nesse momento.

 

Uma das primeiras grandes perguntas para uma bela teoria da conspiração é sempre: quem ganha o que com isso? E aí há um outro macete para os malucos de plantão, quando muitos ganham pode ser apenas oportunismo; quando um ou poucos ganham, há uma chance razoável da situação estar sendo manipulada.

 

Nesse caso, por exemplo, há um monte de pessoas e instituições que ganham, mas sempre me parece mais oportunismo que manipulação. Ou seja, não é o que gera, é o que aproveita a onda. E, veja bem, não necessariamente é algo ruim ou prejudicial. Não vejo mal em um pueblo sobreviver porque o Caminho de Santiago passa por ali, ou seja, se foram abertos restaurantes, mercados etc, foi para atender uma demanda existente. Portanto, não são conspiradores.

 

Mesmo a igreja católica, que costuma ser a conspiradora mor em muitas situações, nesse caso, também não vejo como a grande impulsionadora do novo movimento. Talvez seja a que mais se beneficie, até aí, nenhuma novidade e nada incoerente.

 

Falo do Caminho de Santiago por ser o que mais tenho informação, talvez seja o mais famoso também. Acontece que tem pipocado trilhas de peregrinação pelo mundo e a quantidade de peregrinos cresce exponencialmente. Por que?

 

As pessoas costumam gostar das respostas chavão, que o homem quer se aproximar da sua espiritualidade, ou da religião, deixar o materialismo de lado e blá blá blá. Ou quem sabe, virou moda, e um monte de ovelhinhas resolveu seguir a maré. Pode ser em parte, acho que sempre haverá um pouco de tudo. Mas tendo a discordar por um motivo muito simples, não me enquadro nesse perfil e tenho a convicção que sou peregrina. E aí, como é que fica?

 

Porque eu estive lá e mais de uma vez. A questão da espiritualidade é uma maneira mais fácil de explicar algo subjetivo, de concretizar, mas vai muito além disso. E a coisa de maria-vai-com-as-outras, leva a mal não, ninguém encara essa história só por curiosidade. Às vezes a gente não quer dizer o porquê, é difícil, mas cada um sabe o seu porquê.

 

Pois por uma questão de lógica, resolvi abordar o tema por um outro prisma, o qual conheço bem. Se sou peregrina e tenho meus motivos, efetivamente, esses motivos são legítimos para uma peregrinação. Não tenho a pretenção que sejam os únicos, mas é um começo.

 

Na minha experiência pessoal, só consegui encontrar um sentimento em comum em praticamente todos os peregrinos, a busca.

 

A busca é o eterno dilema humano, quem somos, para onde vamos e por que? Às vezes, por falta de uma resposta melhor, ou da total impossibilidade de uma resposta, essa questão é resolvida através da fé. No meu caso, ateísta de carteirinha, não é exatamente assim, mas respeito a fé das pessoas. Quando elas dizem que rezam por mim, ou preferem acreditar que no fundo eu acredito, eu é que não sei disso… acho engraçado, fazer o que? É bonitinho, bem intencionado, então deixo para lá. Não é fácil para todo mundo entender que há outras possibilidades de pensamento e não está em mim mudar ninguém.

 

Mas voltando, talvez por isso exista essa confusão conceitual da peregrinação se embolar com a religião ou espiritualidade. Mas meu ponto aqui é que acredito que o enfoque é outro. A minha questão é, por que as pessoas resolveram que essa busca deveria ser feita caminhando? Aos preciosistas, ok, também pode ser de bicicleta ou a cavalo, dane-se, o princípio é muito parecido. Estamos falando da mesma coisa em perspectiva.

 

Por que, de uma hora para outra, tanta gente ao mesmo tempo resolveu que suas inquietações, que suas buscas são melhor resolvidas caminhando? Cá entre nós, é verdade. É bem melhor caminhando, mas como todo mundo teve essa idéia de repente? Instinto? Voltar ao básico, ao essencial, aos seus próprios sentidos.

 

É muito esquisito, mas começo a reconhecer peregrinos, como se fosse uma raça visualmente perceptível. Afinidade da experiência compartilhada. Eu não sei porque, nesse momento só me intriga, mas não é o mais importante.

 

O que importa é que estou voltando. Outro ponto em comum, todo peregrino volta quando pode. Se não pode voltar ao mesmo caminho, adapta o caminho à própria vida. No final, dá no mesmo.

 

 

120 – Várias coisas

Um monte de coisas picadinhas acontecendo e eu com uma preguiça danada para escrever. Afinal de contas, escrever me faz revisitar momentos, alguns quero, outros não.

 

Por esses dias, ficou pronto meu NIE, documento espanhol. Demorou só um ano e dois dias! Considerando que é válido por dois anos, metade da validade foi comida no processo. Mas, enfim, está pronto e em mãos. Portanto, agora tenho direito a ir e vir por mais um tempinho sem dar grandes satisfações, ou seja, saí da prisão domiciliar, agora estou só sob condicional. E tenho que parecer muito feliz por isso. Ok, Fernando Pessoa, se tudo vale a pena se a alma não é pequena, então vamos aproveitando o que é bom.

 

A exposição de agosto em São Paulo furou. Infelizmente, envolve um investimento que não posso garantir agora. Não é exatamente trivial você morar em um país e fazer uma individual do outro lado do oceano. Talvez em outro momento ficasse mais frustrada, mas já ando meio cética, ou anestesiada, sei lá, ando sem muita paciência para ficar me aborrecendo. O caos se encarregará de eleger o melhor momento.

 

Claro que estou em cólicas para chegar logo o dia da viagem e minha prioridade hoje é o Caminho. Estava me achando pouco preparada, mas nos últimos dias, dei uma recuperada. A gente perde o condicionamento muito rápido, mas por outro lado, tenho conseguido recuperar mais rápido também. Imprevistos acontecem, alguns bons outros não. Sempre me lembro da segunda vez que fui e precisamos voltar porque me machuquei feio. Costumava me lembrar dessa história como um imprevisto que me impediu de continuar por uma questão física. Semana passada me bateu um insight meio óbvio, que não completei o roteiro que havíamos nos programado, mas completei um trecho difícil inteirinho bastante machucada. Me ocorreu que, apesar dos pesares, só completei esse trecho porque estava muito bem preparada. Depois curei, voltei, fiz mais quilometragem do que nunca, sem nem uma bolhinha de nada! Foi melhor do que a primeira vez? Não, nem melhor nem pior, foi outra coisa, completamente diferente. Isso me trouxe mais confiança, não é definitivo, é só um trecho, se não der certo, posso tentar outra e outra vez. E também, o que é dar certo? De maneira geral, depende muito mais de como você interprete a situação do que dos fatos em si.

 

Segurei um pouco o ritmo das baladas, mas só um pouquinho, porque imparável que se preze, cai em tentação. O que posso fazer, ficam colocando jacas na minha frente, eu piso todas.

 

Na quinta-feira, conhecemos um casal de amigos do meu irmão, estavam em lua de mel por essas bandas. Ligaram para meu celular, aquele objeto inútil que é um excelente despertador, e deixaram um recado. Claro que ouvi depois deles saírem, mas deixaram o nome do hotel. A gente estava pronto para fazer uma caminhada, sim, com aquela roupinha peregrina de costume. Pensamos, a gente pode ir andando até lá, já cobre metade da quilometragem diária, e se eles tiverem chegado, a gente sai para tomar alguma coisa. Bom, começou assim, acabou de madrugada em um bar de jazz. Luiz e eu ainda voltamos caminhando para casa.

 

Enquanto isso, na sala de justiça, a mais nova imparável, cuja a prova de iniciação consistia em fazer esfirras, sugeriu nos encontrarmos no fim de semana. Conversa vai, conversa vem, pensei, também podia fazer um quibe… e por que não, uma festa árabe? Verdade seja dita, me pareceu divertido fazer uma festa árabe no sábado de aleluia. Foi na nossa casa e cada um trouxe alguma coisa dentro do tema, além  de pedirmos para que viessem vestidos de brimos.

 

Como uma imagem vale mais que mil palavras, vou mostrar que a gente recebeu as pessoas assim.

 

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Juro! Quando ainda estava me arrumando, crente que estava abafando, me aparece Luiz com essa cara na porta do banheiro! Quase tive um treco! Caraca, casei com o Mohamed?

 

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Não foi uma festa tão grande, no que conseguimos fazer reunião pequena. Mas os amigos, como sempre, entraram na brincadeira e ficou engraçado. Nenhum vizinho reclamou. Ainda não sabemos se era por estarem viajando no feriado, ou porque ficaram com medo de sermos terroristas.

 

Domingo deu a maior preguiça de andar, ainda por cima fazia um friozinho. A primavera ainda não estabilizou, mas não reclamo, os dias estão bonitos e finalmente anoitecendo mais tarde. Luz!

 

E agora, adivinha o que vou fazer? Ai, que saudade das minhas botinhas queridas…

 

 

Pausa para comerciais: Buraco da Fechadura Social

Queridos amigos e leitores, é o seguinte, o Luiz, digníssimo senhor meu marido, tem uma amiga dos tempos de colégio chamada Carmem. Ela hoje mora na Florida e tem um filho chamado Guilherme, por volta de uns 10 anos.

 

E o que a gente tem com isso? Só estou contando para dizer que a história na sequência é verídica, sendo assim, quem quiser, pode contribuir sem medo de estar fazendo papel de bobo.

 

O Guilherme nasceu com um defeito congênito chamado Diastematomyelia, que a Carmem pode explicar melhor para quem estiver curioso. Mas resumindo a história, uma das consequências é uma grande dificuldade de locomoção. Daí ele experimentou um aparelho chamado Bioness L300, o qual fez com que, pela primeira vez, ele andasse, e até corresse, sem cair ou tropeçar.

 

Até aí, ótimo! O problema é que o seguro de saúde não cobre os custos do tal aparelho e a mãe está com dificuldades para comprá-lo. Por isso, resolveu pedir ajuda aos familiares e amigos para juntar os US$ 6.200. E é aí que entramos, contribuindo e ajudando a divulgar a informação. Divulgar a informação significa indicar o website, por favor, não repassem o caso nessas correntes malucas que ninguém acredita. Não há um limite mínimo de contribuição, é o que quiser ou puder dar, nós enviamos a nossa por PayPal.

 

Para saber maiores detalhes, entender como pode enviar sua contribuição e acompanhar o caso, o blog do Guilherme é http://walkingwithgui.blogspot.com/

 

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119 – Falta pouco

Falta muito pouco para a próxima caminhada, o que me deixa monotemática. É difícil não pensar ou não falar nisso, invade a minha vida e é bom. Continuo saindo e fazendo as coisas normalmente, mas sempre bate um pouco de ansiedade. Por mim, já estava lá.

 

Paciência, precisamos esperar quase três semanas. Sairemos de Madri em direção a León em 25 de abril. Ali só dormiremos e pegaremos outro trem para Sarria, de onde iniciaremos a caminhada até Santiago. Serão mais ou menos seis dias de andanças para cobrir os últimos 100 km. Chegando em Santiago, vamos decidir se seguimos a pé para Finisterre, vai depender do estado físico e da sinalização. É que encontro informações descasadas desse trecho, entre Santiago e Finisterre, então melhor perguntar por lá mesmo. Aparentemente, mudou bastante nos últimos anos.

 

As passagens de trem de ida estão compradas e as posadas reservadas. Tem um lado legal que é o de chegar e descobrir onde dormir, mas a verdade é que já conheço esse trecho de cor e salteado, então porque não escolher o que sei que é melhor? Depois, da última vez que estive por aquelas bandas, havia uma invasão de alemães e estava bem difícil encontrar um bom local para ficar, porque afinal de contas, alemão reserva tudo com dois anos e meio de antecedência, acho que eles programam até as idas ao banheiro!

 

Tenho um certo carinho pelos lugares que me hospedei e até de retornar nas posadas estou gostando. O planejamento perdeu o objetivo de controle e passou a ser simplesmente uma comodidade e um jeito de revisitar momentos. De qualquer maneira, sei que cada vez é diferente, por mais que se reconheça os rostos locais, as comidas, o cavalo que parece um cachorro, a velhinha arqueada, as vacas que vão perdendo os chifres, as ovelhas e seus pastores, os cães de trabalho, as conchas de diversas texturas, o barro, os horreos, os sotaques, a garoa… Algumas noites sonho com partes do Caminho e quando ando pelas ruas vejo os vários sinais.

 

Fisicamente, não estou no melhor momento do mundo, até porque a primavera acaba de entrar. Mas tenho condições e esse trecho não é complicado, há seus desafios, mas muito razoável e também dividi as paradas de maneira que não ficasse tão puxado. Agora, se a gente resolver esticar a pé para Finisterre, devem ser uns três dias mais difíceis, isso é que não consigo confirmar, porque tenho informações de quilometragens diferentes. Também não tem problema, porque como já seria na segunda semana, na primeira a gente ganha condicionamento.

 

Minhas botas estão macias e dei mais uma mão de cera impermeabilizante. Comprei camisetas novas e outra calça, as minhas antigas estavam fatais. Acho que nunca tive roupa com tanta tecnologia na vida! As camisas tem fio do caramba a quatro, antimofo, proteção solar, sem odores… só faltam cozinhar e fazer cafuné. Deve ser um pouco de mentira, né? Mas enfim, até que são bonitinhas, secam bem rápido e são levíssimas, o que importa. Já comecei a testá-las e adotei o visual peregrino para todos os lugares que vou, ainda bem que dessa vez estou com menos pinta de mendiga. Agora só pareço uma maluca andando assim na cidade, porque claro que também estou treinando com a mochila. Ainda não tive coragem de sair com o bonezinho de caçar borboletas, porque também não faz tanta diferença no treino. Pior o Luiz, que sai de bermudas com aquelas botas de trekking! Fica parecendo um tirolês bem passado, mas a gente precisa apoiar, sabe como é, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza… A verdade é que quando treinamos juntos somos uma dupla meio bizarra, acho que as pessoas em volta ficam com um pouco de medo. Tudo bem, no Caminho estaremos mais do que normais.

 

Mudei um pouco a dieta, mais carboidrato e fibras. Cortei o whisky e a cachaça, porque demoram mais a sair do corpo e tiram energia, o vinho pode. Tenho três semanas para corrigir a postura das costas, vou tentar fazer mais alongamentos. Os joelhos, acho que consegui acertar, mas sempre preciso prestar atenção neles. Cuidado absoluto aos pés, daqui até a data da viagem, nada de saltos altos.

 

E vou nessa que ainda preciso fazer os 10 km de hoje.

 

118 – Uma das melhores partes de envelhecer

Sexta-feira passada fui a um casamento, festa pequena e restrita aos amigos próximos. Eu adoro casamentos, seja de que maneira forem, porque as pessoas não são iguais, portanto é razoável que cada ritual siga o estilo dos seus. O que importa é que o momento exista e simbolize o início de um ciclo novo.

 

Pois esse foi um jantar para umas 30 pessoas mais ou menos, não contei, mas acho que é uma boa ordem de grandeza. Presentes alguns dos imparáveis que se conhecem há mais tempo, mas nesse dia, todos estávamos comportados. As meninas subiram, literalmente, no salto; e os meninos também deram sua caprichada.

 

Entraram os noivos, felizes e emocionados como deve ser, haviam casado oficialmente pela manhã. Na festa, um convidado se fez de padre e improvisou uma minúscula cerimônia bem humorada. Assim, poderíamos partir para a celebração.

 

Encerrado o jantar, o amigo músico ocupou seu posto e foi rapidamente acompanhado por três crianças e um adulto, onde honestamente, nos custava saber quem era mais criança. Uma coreografia frenética e divertida, onde os meninos pareciam se sentir dançarinos perfeitos em passos improváveis.

 

Levantamos também para engrossar a pista de dança. Foi quando notei que a mesa se enchia de garrafas… de água! Engraçado isso, porque somos um grupo que gostamos de sair e nos divertir, o que geralmente é regado a álcool. Nesse dia, com todo o tipo de bebida disponível, decidimos todos ao mesmo tempo que queríamos água! Parecia combinado e não foi, sintonia pura.

 

Depois de pouco tempo, fomos incentivados a cantar em coro com quem sabia. Aceitei sem a menor relutância. Passei distraída com as brincadeiras, até que em um único momento me veio a consciência que estava cantando, com um microfone e tudo, em plena festa de casamento! Eu?

 

Tudo bem, não era sozinha, não era em um estádio de futebol, e muito menos para estranhos, mesmo assim, posso assegurar que essa seria uma cena absolutamente impossível em um passado próximo.

 

O intrigante, pelo menos para mim, é que não corresponde ao fato de acreditar que canto melhor, ou de estar liberada pelo teor alcóolico, ou de considerar um desafio. Nada, era só divertido. Até brinquei com minha amiga, pronto, está provado que também pagamos mico sóbrias, né?

 

No caminho para casa, vim viajando na maionese sobre essa deliciosa sensação de liberdade, que não tem outra explicação que não seja o fato de estar envelhecendo. Digo no gerúndio, porque não me sinto velha, mas essa é sempre uma sensação relativa. Cada vez mais tenho menos medo de fazer o ridículo, porque descobrimos que nem é tão ridículo assim, e se for, é só uma fração dentro de uma perspectiva muito maior. E que passa.

 

Tenho mais vontade de dizer para as pessoas que gosto delas, que sinto saudades, de falar com estranhos e de contar minha vida.

 

Quando vejo hoje uma senhora idosa dançando e cantando sozinha como uma louca, não sou condescendente e não acho graça da mesma maneira que achei dos meninos enlouquecidos dançando. A loucura infantil é relevada pela falta de entendimento que é loucura, a madura é admirável porque é corajosa. Acho bonito a coragem de alguém que talvez já não tenha a mesma lucidez, mas que também talvez, não dê mais a mínima para isso.

 

Em síntese, tenho poucos medos imaginários, quase nada que chegue a paralizar. Em compensação, tenho a consciência que os medos que persistem são definitivos e, ainda que remediáveis, sem solução. Há dias que eles me assustam, mas hoje não.