Granada e sua Alhambra

Nos dirigimos para Granada, com Jack protestando pela segunda viagem de carro. Fomos pela serra de Ronda, para evitar engarrafamentos. Uma boa idéia para a gente, mas que deixou o gato totalmente mareado, mal saiu do meu colo. Por outro lado, a viagem era bem menos longa, umas três horas mais ou menos.

 

O hotel que escolhi, o Navas, ficava bem no centro da cidade, em uma rua com o mesmo nome, que descobrimos pouco antes ser de pedestres. Tudo bem, depois de um ligeiro stress de onde parar… essa rua é proibida… porque a multa… blá, blá, blá… chegamos no hotel. Nada extraordinário, mas limpo, bem localizado e com muito boa vontade em receber animais. Em terra firme, Jack relaxou rápido e nós fomos buscar o resto da bagagem e descobrir um lugar para almoçar pelas 16:00hs.

Nem foi difícil. Na própria rua havia um monte de bares com a pouca pressa dos Andaluzes e seus visitantes com menos pressa ainda. E no calor de 37 graus, que pareciam mais, quem estaria com pressa para alguma coisa?

Nessa noite resolvemos pagar uma de turista e nos meter em um show flamenco. Compramos um pacote de 24 euros por pessoa, que consistia em alguém vir te buscar no hotel, te levar para o show, com direito a um drink e te trazer de volta. Se quem está na chuva é para se molhar, então vamos, né?

O que não tinha entendido é que, antes do show, faríamos uma caminhada de quase uma hora a pé por Albayzín, o antigo bairro árabe. E já que íamos e voltaríamos de condução, por que não aproveitar e colocar meu saltinho básico de 10 cm? Pois é, caminhar por ladeiras de paralelepípedos com esse sapato completamente inadequado foi uma verdadeira via sacra! Menos mal que fui agarrada no braço do Luiz, me equilibrando naquelas pernas de pau. Mas tudo bem, inacreditavelmente sã e salva consegui chegar em algum lugar plano e com cadeiras, onde seria a apresentação.

O lugar que fomos se chama Los Tarantos, uma das cuevas de Sacromonte. A vantagem era ser um local bastante intimista, cujo tablado era no centro da sala. Ou seja, vimos tudo bem de perto, como é bom se ver uma apresentação de flamenco, e a verdade é que foi excelente, a melhor que já vi.

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A volta para o hotel foi bem mais simples, mas fiquei com vontade de conhecer melhor o bairro visitado. Obviamente, com sapatos adequados.

E assim foi. No dia seguinte, com minhas queridas botas de trekking, lá fomos nós explorar Albayzín e suas ladeiras. Muito melhor que na noite anterior. Honestamente, quando vi à luz do dia os lugares onde havíamos passado, me questionei como havia sido possível caminhar por ali de salto alto! Tudo bem, algum mico tinha que pagar.

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A vista de Alhambra inunda a cidade. Por onde você esteja, lá estão suas torres imponentes no alto. É hipnótico, você quer o tempo inteiro olhar para sua direção. Mas ainda não seria esse dia que a visitaríamos. Não sei desde quando, mas agora você precisa comprar os ingressos com antecedência, a maioria das pessoas compra por internet ou no próprio hotel onde estão hospedadas. É até possível conseguir entrar comprando ingressos na porta, mas só se houver ingressos sobrando, coisa que não é garantida.

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Muito bem, mas voltando a Albayzín, tinha um plano malévolo de almoçar em algum restaurante árabe. Eu gosto de comida espanhola, mas não consigo passar duas semanas seguidas comendo o mesmo tempero. Luiz e eu gostamos de variar um pouco. Encontramos um bem bonitinho, com decoração característica, onde comemos cuscus, kafta e salada de iogurt com pepino.

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No jantar, Luiz conseguiu reservar no Las Tomasas, indicação do casal de amigos espanhóis que conhecemos na primeira parte da viagem. É engraçado porque não tem letreiro, é uma porta onde se toca a campanhia, alguém te responde por um interfone e você entra como se fosse uma casa normal. Só ao descer que você percebe que consiste em uma grande terraza, bem de frente para a Alhambra. Não é muito formal, acho difícil ser formal com tanto calor, mas a comida tem seu toque de sofisticação. E ali tomamos um Hacienda Monasterio, enquanto a iluminação da Alhambra ia se modificando de acordo com o anoitecer.

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Voltamos caminhando para o hotel, providencial depois do exagero do jantar. Dessa vez, eu malandra, fui de sandalinha baixa e bem confortável.

De maneira geral, comemos muito bem. Meu restaurante favorito foi o Puerta del Carmen, na praça que leva o mesmo nome.

No domingo, achei que era boa idéia caminhar até a Alhambra, para conhecer o lugar, ver se era tão longe e se precisava mesmo ir de ônibus. Não precisava, poderíamos ir se quiséssemos, mas era razoável ir caminhando. Descobrimos também que não era totalmente fechada, havia lugares, como os jardins e o Palacio Carlos V, que podiam se conhecer de graça. Os ingressos comprados serviam para o Palacio Nazaries, Alcazaba e Generalife. Foi bom, porque adiantamos o passeio e ganhamos um pouco de tempo para o dia seguinte.

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Como ninguém é de ferro, resolvemos ir até os baños árabes, um Hamman, o mais antigo da Espanha. Não é o nosso primeiro, aqui mesmo em Madri tem um muito interessante. O lugar tem três piscinas, uma fria, uma quente e uma morna, além da sauna e um espaço para massagens. Foi muito bom, mas o de Madri é melhor, talvez não tenhamos dado muita sorte com o grupo que foi conosco, meio barulhentos. De qualquer forma, saímos de lá bem relaxados.

Nós dois gostamos da cidade. Achei bonita e misturada, eu adoro uma mistura. Achei divertido o sotaque, mudei um pouco a maneira de me vestir, acho que fui ficando um pouco moura. Luiz não aguentou o calor e praticamente raspou a cabeça. Sei lá, acho que fomos entrando no clima e nossa imagem foi acompanhando automaticamente.

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Chegou segunda-feira e finalmente, tcham, tcham, tcham, tcham, a tão esperada Alhambra! Vou ser sincera nunca havia ouvido falar em Alhambra antes de vir morar na Espanha. Um único amigo brasileiro, hóspede que tivemos, quis conhecê-la, ele é arquiteto e contou que era o sonho de quem cursava arquitetura conhecer o lugar. Foi ele quem me despertou essa curiosidade. Alguns meses depois, houve aquela história de votar nas 7 Maravilhas do mundo e os espanhóis ficaram ofendidíssimos porque ela não foi eleita, ainda que eles mesmos não tenham se preocupado em votar. Ficaram aborrecidos porque o resto do mundo, que mal sabia o que era Alhambra, não votou na dita maravilha.

Bom, não me importava muito a disputa de egos e de maravilhas, queria mesmo era conhecer a tal Alhambra. Não gosto de ficar comparando o que é mais bonito ou mais interessante, é comparar chocalho com banana, cada lugar tem seus próprios atrativos.

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Achei interessantíssimo, mas não, não fiquei impressionada. Provavelmente, por tanta expectativa e propaganda a respeito. Essa é a grande desvantagem, por falta de palavra melhor, em viajar e ver muita coisa, é cada vez mais difícil me impressionar. Às vezes, sinto falta da emoção que me provocava encontrar uma muralha medieval ou constatar que um simples tapete tinha a idade do meu país.

 

Enfim, ainda assim, achei que valeu totalmente à pena. É uma riqueza de detalhes fascinante, e tantos detalhes em algo tão gigantesco é realmente admirável. Foi bom ter conhecido uma parte no dia anterior, porque mesmo dessa maneira acabamos o dia mortos de cansados. É verdade que o calor não estava contribuindo em nada.

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Vou contar um segredo de liquidificador, nessa noite jantamos em um japonês, que nosso amigo de Granada não nos escute. Estava desesperada por um arrozinho e algo fresco e leve. Para nossa surpresa, o restaurante lotou, em sua maioria estrangeiros.

Na terça-feira, acordamos com calma, tomamos um bom café e partimos para a estrada rumo à casa. Jack deu menos trabalho, só de não ser serra ele relaxou um pouquinho, expliquei para ele que estávamos voltando para a casa e ele pareceu entender. Umas três horas e alguma coisa de viagem, chegamos em Madri, com um felino aliviado e exultante em reconhecer seus cheiros.

Luiz ainda tinha férias até o fim da semana, tempo que aproveitamos de maneira mais caseira. Pas mal, pas mal du tout!

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Pueblos Blancos

 

E aqui estamos novamente, em Madri. Novas idéias, mais relaxada, mais descansada e um pouco mais malvada. Outro ciclo terminado e prestes a começar o próximo, afinal de contas, é assim que levo a vida, de ciclo em ciclo. Hora de reinvenção. Logo chegará o outono, momento de se livrar das folhas secas, mas ainda é verão.

 

Aliás, um verão quentíssimo! O primeiro agosto que saímos de férias, porque sempre tentamos nos programar para ir na contramão da muvuca (contramão tem hífen? Ando meio confusa com as regras novas). Dessa vez não houve maneira, ou Luiz tirava férias agora ou perdia. Sendo assim, vamos nessa, mas precisava ser algo fácil porque também é complicado encontrar com quem deixar o gato nessa época. Ou seja, nosso peludo integrante da família acabou sendo o fator decisivo na escolha de onde ir.

 

Conhecíamos muito pouco o sul da Espanha, de Madri para baixo, só Sevilla e Córdoba. Em princípio, queríamos praia, tentei Tarifa e algumas outras, mas tudo lotado! Quando encontrava algum lugar razoável que tinha disponibilidade, não aceitava animais. Quer saber, a gente faz mesmo questão de praia? Dá para parar em Granada? Faz tempo queria conhecer Alhambra. Beleza, então vamos facilitar nossa vida.

 

Encontrei um hotel charmoso meio perdido nas montanhas, próximo a um pueblo minúsculo chamado Gaucín. Luiz conseguiu fazer a reserva no último bangalô, porque mesmo assim escondido, o lugar também estava cheio. Para ser sincera, não tinha entendido direito onde era, nem fiz questão.

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Resolvi que dessa vez iria sem expectativas. Essa foi uma resolução que tomei para quase tudo na minha vida nesse momento, não quero esperar nada, ou pelo menos, o mínimo possível. O que não quer dizer que não possa aproveitar o que é bom, continuo com fome, só que sem sede.

 

Fiz uma mala que para os padrões femininos era pequena, mas para meu padrão peregrino era grande, estava com vontade de me arrumar. Escolhi três livros bem diferentes entre si e pensei que se tudo desse errado, com o ar condicionado ligado e uma taça de vinho eu poderia ser uma mulher feliz.

 

Acontece que não deu nada errado.

 

Chegamos em um lugar ótimo, chamado Hacienda la Herriza. Como curiosidade, o significado da palavra “herriza” é: terreno pedregoso, por lo general en la cumbre de un cerro, que permanece inculto por su resistencia a la reja y escasa productividad. A definição descreve o lugar e sua geografia.

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Essa região é de uma beleza diferente a que estou acostumada, é árida, seca, pedregosa. Tem outras cores. As árvores são pequenas e tortas, muitas depiladas pela metade, provavelmente atrás de cortiça. Fica a uns 70 km de Marbella e a 35km do mar, na serra de Ronda. Passamos por uma série de moinhos de vento modernos e no alto da montanha verde escuro, identificávamos alguns pequenos aglomerados brancos. Bem de cima da montanha, onde se localizava o hotel, se via a rocha de Gibraltar, o que nesse momento, apesar de reconhecer a silueta como familiar, não tínhamos certeza absoluta se era mesmo.

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Acomodamos o Jack, que sempre se comporta muito bem nas viagens, ainda que fique meio tonto na serra, igual a dona. Fizemos reserva para jantar no restaurante do próprio hotel, para o qual me arrumei como se fôssemos ao melhor restaurante da cidade, ritual cumprido em todas as noites. Comer um churrasco em roupa de banho descalça é uma delícia, mas para tomar um bom vinho, gosto de me arrumar, sei lá, estava com vontade. Aliás, de modo geral era assim com os outros hóspedes também, durante o dia, todos descontraídos, e no jantar, ainda que sem excessos, arrumados. A maioria de estrangeiros, alemães, ingleses, o que nos deixou pensando como haviam ido parar ali.

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Bom, os ingleses até acho razoável. Tenho a impressão que eles perceberam que invadir países custava muito, além de pegar meio mal esse negócio de guerra, politicamente incorreto. Então, resolveram comprar toda a costa ibérica, pronto! Invasão pacífica!

 

Importa que jantamos tranquilos, mesmo com o atendimento confuso do primeiro dia, depois melhorou bastante.

 

A rotina da primeira semana se resumiu em acordar perto das 10 da manhã, tomar um bom café e circular pela região de carro. Depois fazer a siesta, ler, ir para a piscina e morgar até a hora do jantar.

 

Nada me parecia melhor no mundo do que deitar com um livro nas mãos, um gato preguiçoso nos pés, Luiz com seu próprio planeta literário do lado, janela aberta ou ar condicionado ligado. Acho que essa será minha descrição do paraíso.

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Muito bem, mas antes de chegar ao paraíso, circulávamos de carro pelas redondezas.

 

A civilização mais próxima era Gaucín, a 6 km, em um estrada vertiginosa, que não me animava nem um pouco a frequentá-la de noite. Mas de dia a cidadezinha era charmosa, toda branca, como todos os pueblos ao redor. Como curiosidade, havia centenas de esculturas de salamancas espalhadas por suas paredes. Tentei comprar alguma para trazer conosco, mas só encontrei uma dourada que não me interessou. Talvez faça eu mesma alguma no futuro próximo, ou simplesmente guarde na lembrança.

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Também fomos até Marbella, um tipo de Miami espanhola, não consegui definir bem, muitas informações. De qualquer maneira, almoçamos um Bogavante fenomenal, é um tipo de lagosta enorme e deliciosa. Não tomei nada além de água, sacanagem com Luiz que estava dirigindo.

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De lá, seguimos para La Línea de la Concepción, de onde se sai para Gibraltar. Primeiro queria cortar meus pulsos por não ter levado meu passaporte, coisa que em seguida, nem foi tão ruim assim. Quando a gente vai chegando e vê de longe a rocha de Gibraltar, dá uma emoção diferente, nem tanto por ela, mas por poder avistar a África logo em frente. Pode parecer bobagem, talvez seja, mas para mim, conseguir avistar o encontro de dois continentes foi muito emocionante. Fiquei igual a criança quando sabe que vai ao parque.

Na mão direita, Gibraltar; na esquerda, África. Não sobrou nenhuma para tirar o cabelo do rosto!
Na mão direita, Gibraltar; na esquerda, África. Não sobrou nenhuma para tirar o cabelo do rosto!

 

Há alguns anos atrás, combinamos com meu sobrinho, que na época devia ter pelos seus 5 anos, de ir ao parque. No dia de sairmos, ele estava tão excitado que não conseguia andar direito, caminhava pulando e rindo. É a imagem que registrei para quando uma coisa me empolga muito. Não posso andar pulando porque seria ridículo, mas bem que eu gostaria.

 

No entanto, preciso dizer que a cidade em si é horrivel. Não tem graça nenhuma. Muito melhor vista de longe, com todas as fantasias de uma ponte Rio-Niterói que unisse dois mundos. Não une dois mundos e nunca unirá. Não em um tempo que eu seja capaz de testemunhar.

 

Nas redondezas de onde estávamos, conhecemos Casares, um pueblo que de longe é bem mais charmoso que de perto. A vida nos dá metáforas bastante interessantes.

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Mas também conhecemos Ronda, uma cidade impressionante, construída sobre um penhasco. É cortada por um precipício, ligado por uma ponte do século XVIII, com uma altura de mais ou menos 130 metros.

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Fuçamos até encontrar uma trilha por baixo da cidade. Um calor senegalês! Luiz me desafiou, não quer ver onde dá? Onde está seu espírito aventureiro? Ok, ok, desafiada, lá fui eu, sozinha é claro, porque ele ficou esperando no carro, ver onde dava a tal trilha. Quando cheguei no topo, vi que ainda faltava muito. Quer saber, meu espírito aventureiro está com um calor danado! Para mim já é o suficiente o que vi daqui!

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Um pueblo que me chamou a atenção foi Genalguacil, nome para mim quase impronunciável em espanhol. Mas importa que é uma cidadezinha de artistas e por onde todas as ruas há obras de arte espalhadas, como se a cidade fosse a sala da sua casa. Nesse micro povoado escondido há um museo de arte contemporânea onde vi obras muito melhores que vejo em grandes exposições por essas bandas.

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Nem tudo foram rosas, ainda me preocupo bastante com o que passa com a família pelo Brasil. Preciso aprender a relaxar um pouco mais, acho que todos nós precisamos, mas tudo ainda é muito recente. Meu meio de comunicação com o planeta é a internet, e claro que estar escondida no meio do nada tinha suas vantagens, mas a conexão era péssima. Minha mãe, sabendo que estava viajando, parou de enviar mensagens. E eu, paranóica, encuquei que podia ser algum problema.

 

Uma vez, quando minha avó paterna era viva, mas começou a apresentar alguns problemas de saúde, dormi com ela uns dias no hospital. Ela roncava para burro e pela manhã, meio constrangida me perguntou se eu consegui dormir com o ronco. No que respondi com toda franqueza que estava achando ótimo! Quando ela roncava, sabia que estava respirando, ou seja, estava viva,  e conseguia cochilar também! Sim, é um comentário bastante inoportuno, mas somos assim, fazemos humor negro entre nós mesmos e nos divertimos com isso, mesmo nos piores momentos.

 

É basicamente o mesmo conceito, mãe, pode encher minha caixa postal, porque assim sei que você tem tempo e humor, logo, está tudo sob controle! Ela entendeu a mensagem e passou a me mandar alguma coisa todos os dias, mesmo que eu não pudesse ler.

 

A falta de conexão tinha suas vantagens. Luiz também não conseguia utilizar seu celular. Vamos combinar que é muito melhor jantar sem ele neurótico checando aquela porcaria a cada 15 segundos. Podia até ir ao banheiro tranquila que quando voltasse ele não estava enganchado no Sudoku e nas posições que acabou de galgar. Mal sabe ele que se aquela bosta de aparelho não fosse do trabalho, já teria atirado longe!

 

No hotel, conhecemos dois casais. Um de Madri, cujo marido serviu no Afeganistão durante quatro meses. Um milico que resitiu a granadas, mas se derreteu todo com meu gato.  E falando em granadas, o outro casal era de Granada, nosso próximo destino, e nos deu excelentes dicas de restaurantes, onde ir etc. Na nossa última noite no local, jantamos todos juntos e tomamos um Marques de Griñon 1986.

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Abrir qualquer vinho com mais de dois dígitos de idade me deixa exultante! Lá vou eu passear no parque novamente! Nessa mesma tarde, havíamos iniciado uma degustação às 19:00hs, da qual emendamos com o jantar, ou seja, estava meio elevada, mas feliz da vida.

 

E o vinho? Redondinho! Acho que eles acharam normal, mas eu viajei na minha taça, peguei carona na cauda do cometa, vi a via láctea, estrada tão bonita, brinquei de esconde esconde numa nebulosa… tudo de direito!

 

Com 2 kg a mais e 7 garrafas de vinho na bagagem, partimos para o próximo destino: Granada.

Férias

E falando no Pequeno Príncipe, me lembrei da raposa, a que dizia, tu es responsável pelo que cativas. Será?

 

Talvez, o problema é que não estou afim de ser responsável por ninguém, todos adultos, maiores e vacinados. É possível que a culpa tenha sido minha, por não me importar em ser assim naturalmente, posso ter esquecido das expectativas que levantamos nas pessoas. Mas acabei de me lembrar. Não tenho saco para grãos de areia que viram praias inteiras e não vou resolver problema nenhum. Raposas que se danem! O único que cuido é do meu gato.

 

Às vezes, perco completamente a vontade de ser uma pessoa melhor, férias ao meu ascendente canceriano. Conto mais com a lua e o sol em escorpião. Cinco segundos para apertar o botão “F”: cinco… quatro… três… dois… um… foda-se! Pronto, melhorei.

 

E falando em férias, amanhã viajamos por duas semanas. Vamos para algum lugar perto de Marbella e Málaga. Na volta, paramos por Granada, todo mundo diz que é maravilhoso. Deve ser. Em princípio íamos para as ilhas baleares, mas ficava complicado com o Jack, mudamos os planos. Como não estou afim de fazer porcaria nenhuma além de morgar no sol, para mim está bom.

 

Não sei se escreverei nesse período, espero que sim. Mas acho que estou mais para ler que escrever. Alguns livros na fila dos empacados na estante esperando seu momento. Engraçado como a gente precisa ir longe para não fazer nada.

É contracultura ou contra a cultura?

Para mim não importa o artigo, sou do contra mesmo.

 

Há dois dias navego pela internet hipnotizada com alguns vídeos no Youtube. Meus amigos de bom gosto musical podem se segurar na cadeira, são vídeos de funk com frevo e afins.

 

Faz algum tempo vi um vídeo do meu baile de debutantes. Pois é, para a felicidade geral da nação, tive que debutar. Menos mal que foi em um grupo de meninas, o mico é compartilhado. Tem um momento que você desfila e um narrador vai falando um pouco sobre você: onde nasceu, preferências literárias e musicais. Quase todas as meninas citam O Pequeno Príncipe como livro favorito e gênero musical como música suave.

 

Dava vontade de perguntar, mas O Pequeno Príncipe ainda é o livro favorito aos 15 anos? Vocês são retardadas? Nem sei exatamente o que queria dizer música suave, que raio de gênero é esse? O meu livro era O Louco, do Gibran, e meu estilo de música era o funk, na época me referia a James Brown. Perdeu 90% da ironia quando falado em tom formal pelo locutor, mas fazer o que, fiz a minha parte. E elas não eram retardadas, eram só meninas, eu também era.

 

Anos depois veio o funk carioca e relutei frente as baixarias que saiam dali, que música ruim, cassilda!

 

Muito bem, sou mestre em ter nuvens de pensamento que acredito ter uma conexão, mas fica faltando uma frase, ou imagem, ou situação, algo que conecte as idéias e me faça conseguir traçar uma analogia. Com o funk tinha algo assim, como alguma coisa tão ruim podia mobilizar tanta gente? Quando começo a achar que em volta tenho um número enorme de idiotas, me policio, porque provavelmente quem não entendeu o espírito da coisa fui eu.

 

Então um dia estava em Atlanta assistindo uma entrevista sobre Hip Hop e toda a polêmica sobre as letras, me chamou atenção especial uma resposta em relação ao machismo dessas letras. O cidadão respondeu algo mais ou menos assim, se alguém na prática fala alguma coisa dessas para uma mulher branca americana de classe média ou alta, ela perde o ar e quase desmaia. As mulheres de quem estamos falando passam por isso todo dia, não se intimidam, levantam a cabeça e respondem na mesma moeda: faço mesmo e daí? Eu gosto.

 

Não, não passo por isso todos os dias e se passar provavelmente darei uma resposta feroz, mas o ponto é que não sou e não fui criada nos mesmos valores. Acho minha vida melhor, mas às vezes me pergunto quem é mais livre nesse aspecto. Não dá para comparar chocalho com banana, na melhor das hipóteses, posso abrir um pouco a cabeça e entender a experiência.

 

Foi o que fiz e digo que hoje gosto de funk e me interessa muitíssimo esses movimentos absolutamente democráticos e subversivos. Continuo achando a batida maçante e tenho vergonha de cantar a maioria das letras, mas cheguei a conclusão que isso é só a ponta do iceberg. Gosto do que está embaixo da água. É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado.

 

Se a gente para e pensa, quem nunca cantou uma musiquinha sacana ou falou meia dúzia de baixarias? A diferença é que ficava entre quatro paredes. No morro as paredes são muito finas e o prazer sexual é praticamente o único gratuito. A música pôs isso para fora, liberou o que todo mundo já sabia.

 

Ouvidos mais sensíveis ou puritanos, nem percam o tempo abrindo o vídeo. Vai Varéria, bate palma aí… eu num disse… vai dá meeerrda…

Fiquei fã dos Malvados! E aê, tá gravano? Se liga mulé, se liga novinha… sempre fui vadião… eles sempre foram safadinho… agora vai ficá interessante, sá purque, vem cum nóis… tão nervosão… O Siri e o Maikinho dançam bem, mas o bombom manda melhor.

Muito bem, mas também há famílias. E as crianças, como ficam? Até onde entendi, foi como surgiu o frevo com funk (motivo pelo qual iniciei essa viagem) uma mistura dos dois ritmos, com letras menos pesadas, voltada para o público mais novo, ou como se diz, “os menó”. Virou uma febre e se alastrou com passos impossíveis, inclusive entre os adultos. Fiquei encantada com os meninos dançando! Bailarinos perfeitos!

Recomendo prestar atenção no número de visitantes, na linguagem e nos comentários. É difícil olhar alguma coisa que não seja os meninos dançando, mas vale à pena uma análise. Se isso não for inclusão digital, não sei o que é.

 

Gostei dessa idéia de duelo, uma disputa pacífica de habilidades. O difícil deve ser escolher o melhor. Deve ser bom fazer tão bem alguma coisa.

A propósito, voto no flamenguista!

Ainda por cima tem passinhos: jacaré, relógio, pika, foda… Favor reparar no rapaz de blusa preta, que faz descalço o que a bailarina faz com sapatilha de ponta e depois de muito treino!

A dança das crianças se espalhou para os maiores e achei verdadeiras pérolas! Há algo de trash, de produções improvisadas, de gente passando com sacolas no meio do clipe, da irmã olhando do canto da laje, de uma língua própria, gírias, estilo de vestir. Sem nenhum deboche, achei muito bom!

No próximo, meu favorito é o rapazinho de camisinha na cabeça! A concordância na dança é um pouco melhor que no nome do grupo.

E olha Os Malvados aí outra vez! Seguindo a tendência, com figurino e tudo!

Acho que alguém teve que tomar conta da irmã mais nova enquanto a mãe trabalhava. O resultado não foi nada mal, rola edição e tudo.

Não é que já me peguei pela casa cantando, essa é a dancinha do frevo com funk…

O bom e velho Jack Daniel’s

Para quem ainda não foi apresentado, Jack Daniel’s é o nosso gato. Um felino gordo, lindo e incrivelmente feliz. Todo gato tem uma personalidade complexa e intrigante, cada um te conquista exatamente por sua individualidade. Jack é o gato mais feliz que conheci.

 

Digamos que esperteza e agilidade nunca foram seus pontos mais fortes, essas características herdou a Buchannan’s, sua irmã da mesma ninhada. Aliás, a única fase em que o Jack não foi feliz, foi em seu luto pela Buchannan’s. Respeitei, ele é feliz,  não idiota. O tempo curou.

Jack e Buchannan com 3 semanas
Jack e Buchannan com 3 semanas

 

Buchannan é a cheia de personalidade, Jack nem se deu conta do que ocorria em volta, estava ocupado brincando
Buchannan cheia de personalidade, Jack nem se deu conta do que ocorria em volta, estava ocupado brincando

A Buchannan fui eu que escolhi, a mais arisca, mais independente e mais vermelha. Ali fizemos um acordo, ela me deixou escolhê-la e deixei que ela mandasse na casa, absolutamente soberana. Quando ela parou de crescer, adulta era menor que metade do Jack, soube que seu tempo seria limitado, mas essa decisão também era dela. Tomou conta de todos nós por cinco anos.

Jack e Buchannan adultos, a diferença de tamanho!
Jack e Buchannan adultos, a diferença de tamanho!

 

Jack me escolheu, não queria dois gatos. Foi ele quem escalou o meu colo e me deixou irresistível a opção de levá-lo. O interessante é que ele nem gosta de colo, simplesmente queria vir comigo. Um persa vive em média uns 15 anos. Gordinho assim como ele, acaba vivendo menos. Pois também fizemos um acordo, você vai ser o que quiser, comer o que quiser e ser feliz à vontade. Mas em troca, me deve um mínimo de 10 anos, morrerá de velhice no meu colo, você é meu.

 

Ele é meu. É louco pelo Luiz, mas sempre foi o meu gato.

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Em outubro ele completará 10 anos, cumpriu nosso acordo como um cavalheiro. Não é mais tão bobão, parece que a idade lhe trouxe algo de sabedoria, como se fosse humano. Ainda brinca e corre pela casa como um filhote, faz perseguições imaginárias a ratinhos de brinquedo. Mas para quem o conhece desde antes de desmamar, sabe que ele envelheceu. Seria um jovem senhor de 70 anos. Anda mais devagar, resmunga, não consegue pular mais alto que o sofá, precisa de mais atenção, é mais caprichoso com a comida, tem verrugas.

 

Ainda está bastante saudável, mas já começo a pensar que um dia se vai. Não sei como será andar sem ele se embolando nos meus pés, como será o som da casa sem seu ronronado, como será fazer a cama sem ele pular no meio dos lençóis, como será tomar café sozinha.

 

Acho que vou refazer nosso acordo.

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O estilo e elegância...
O estilo e elegância...
... ok, ok... nem tanto!
... ok, ok... nem tanto!

Domingo visual

Uma amiga me disse uma vez que as pessoas sempre tem algum sentido mais aguçado e quando vivemos com outra pessoa, conhecer esse sentido ajuda muito na convivência. Por exemplo, para alguém que é mais sonoro e tem o ouvido apurado, é difícil estar com outro barulhento. Ou se o sentido for o tato, é gente que gosta de ser tocada, sente mais falta de carinho. E por aí vai. Não sei se é comprovada cientificamente, mas me pareceu uma teoria razoável.

 

Sou visual ao extremo, olho querendo ver e vejo bem. Em contrapartida, tenho dificuldade em entender o que não vejo. Antes de entender uma história, entendo a imagem, depois traduzo em linguagem. Normalmente é um processo inconsciente, mas quando presto atenção, sinto que é assim que funciona a ordem na minha cabeça. A vantagem é me dar uma perspectiva extra de pensamento, posso entender o vermelho, não a palavra, a cor. A desvantagem é ser uma cética absoluta. Love me or leave me, não há concessão nem que quisesse. Vejo, logo existo. E talvez nem faça diferença para ninguém, mas faz para mim saber disso.

 

Ontem fomos ao show do Gilberto Gil. Nunca havia ido a nenhum, foi uma amiga quem me avisou. Fiquei com vontade, tem gente que precisa ser assistida pessoalmente. Quase todo mundo que gosto de ouvir, também gosto de ver, não consigo me lembrar de assistir a um show decepcionante de alguém que eu realmente gostasse de ouvir. Mas tem uma coisa que acho interessante, tem gente que eu nem ligo muito para a voz ou o repertório e de repente me animo a ver um show e gosto. É mais do que talento, é o tal do carisma. E nesse caso, só vendo.

 

Adorei o show, de verdade, acho que ontem finalmente entendi o Gil e seu carisma. Falando ele é mais ou menos, acho que chega uma hora em que você já disse tudo, não sobra muito. Além do mais, deve ser um saco cada vez que você abre a boca alguém esperar que saia algo genial. Houve um momento que achei engraçado, quando ele vira super casualmente e fala com o “Pedro”, na platéia. O Almodovar, é claro! Acho engraçado essa necessidade dos artistas contarem de quem eles são amigos, se fulano veio ao meu show, sou muito legal, se beltrano foi a minha exposição, sou bom para burro! Tudo bem, vai, é o jogo, acho que é isso que se espera mesmo e talvez também tenha que fazê-lo, pode ser que o que tenha me faltado seja passar um pouco de fome. De qualquer forma, vendo essa insegurança de a essa altura ainda sentir que precisa se afirmar, achei humano. Ele tinha dúvidas se o público o receberia bem e se estava gostando e entendendo o que ouvia, entendi isso como respeito. E vou deixar uma coisa clara, cantando essa insegurança não existia, ele sabia o que estava fazendo.

 

Gostei das suas dancinhas, algo entre o afro-indígena-espontâneo e o debochado. Óbvio que prefiro o debochado, ele pode dizer que não é, mas é sim. Uma hora não resisti e cantei no ouvido do casal de amigos da frente: vai lacraia, vai lacraia! Bad Bianca, bad girl…

 

Achei uma coisa bacana, o repertório do Gil é extenso e variado, ele pode cantar qualquer coisa e não parece artificial, sai naturalmente. Eu sei que o naturalmente costuma custar muito trabalho e esforço, mesmo assim, não é qualquer um que pode. Ele sim e faz bem, ao vivo, melhor ainda. Não notei muita mescla de elementos, muitos ritmos, mas entre si não se misturavam, achei até bem purista. E vamos combinar, o preparo físico e a leveza do cidadão não é brincadeira!

 

Como preciso de uma imagem, fico com o começo do anoitecer, à esquerda de longe o Palácio Real e a Almudena se iluminaram, à direita Luiz, na frente um casal de amigos e a uns três metros do meu nariz, Gil cantando Super Homem com um arranjo diferente. Fiquei com a impressão que era o arranjo de Só Tinha de Ser Com Você, sei lá, tinha algo de Jobim por ali. Ficou bonito. Esse conjunto de imagens me fez pensar que estava em Madri, acolhida, segura, ouvindo Gil em português. Quantas coisas tenho a oportunidade de ver e experimentar, quantas coisas ainda quero.

 

Devo admitir que tem algo que sinto muita falta dos shows no Brasil. Gosto de pista, gosto de estar de pé, sentada fico meio presa. Música tem um movimento natural, usar só o ouvido é pouco, preciso do resto do corpo. As pessoas aqui são muito educadas e assistem a tudo sentadas, até gol em estádio de futebol! Lá na galera do fundão, a brasileirada já havia começado a levantar, mas onde estava, nas cadeiras, nada, todos tão educadíssimos e eu me segurando. De vez em quando um ou outro dava aquela olhadinha para trás, acho que para ver se tinham apoio, só podia ser brasileiro. Tudo bem, me segurei o que pude, mas quase no final o Gil vem para o nosso lado e faz o gesto com os braços de levanta. Olha, podia ser que ele estivesse só chamando o pessoal para cantar, mas preferi interpretar que era para levantar e subi junto. Dane-se! E uma ova que eu ia sentar outra vez!

 

Não foi preciso, o povo se animou e começou a dançar, adorei!

 

Quando acabou, ganhamos uma carona providencial e voltamos direto para casa, afinal se aproximava a segunda-feira.

 

Antes de dormir, resolvi dar aquela última checadinha nas mensagens. Dois álbuns de fotografias do casamento de uma amiga, havia sido no fim do ano passado e não pudemos ir porque foi em São Paulo. Faz algum tempo, mas ela só me enviou as fotos ontem, essas coisas que a gente acha que fez ou deixa para outro dia e vai passando.

 

Não é que as fotos estivessem boas, é que estavam perfeitas! Lindas! Nossos amigos queridos felizes da vida. Sabia que havia sido assim, imaginei que haveria sido assim, mas ontem eu vi.

 

Toda, ou quase toda, a Diretoria presente em uma alegria contagiante. A família cresceu, a vida continuou e evoluiu como deve ser.

 

Fiquei feliz demais, juro, mas também foi me dando vontade de chorar e nem sei dizer o motivo, acho que foi saudade. Há mais ou menos um ano depois que estava em Madri, não sei, talvez dois anos, me desfiz de um mural de fotografias de praticamente todos nossos amigos; antes carrevaga ele comigo para cima e para baixo. Havia se transformado em um mural de saudades. Ontem foram as fotos que mexeram comigo novamente, dessa vez eram as que não estávamos. Deveríamos estar.

 

Eu sempre quero estar, sempre quero ver, mas às vezes não posso. Ontem deu para ver o show do Gil.

Bizarro e divertido

Eu boto fogo mesmo! Gosto de festa e de comemorações, o planeta inteirinho sabe disso. Portanto, se me avisou que é aniversário, a não ser que a pessoa diga explicitamente que não quer comemorar, boto a maior pilha.

 

Foi a vez da outra imparável aniversariante ter o momento não-sei-desanimei-será? Como assim, não me sacaneia! Claro que sim, óbvio que sim, sim, né? Então tá, marcado para sábado em um bar-que-ninguém-sabe-qual-é.

 

Luiz viajou na sexta para Suíça e acabou emendando no sábado, porque temos amigos por lá. Para mim não deu, porque não tinha com quem deixar o Jack e levá-lo era muita complicação para pouco tempo.

 

Sendo assim, para não chegar sozinha ao bar, fui com a aniversariante, que passou de carro aqui em casa mais cedo. Fomos buscar seu marido que é músico e estava tocando em um restaurante, para de lá ir tocar nesse bar.

 

Beleza. No carro, que dava a maior fome porque cheirava a pão de queijo e coxinha, ai que delícia, toca o celular. O show era somente de três, mas apareceu um quarto músico, convidado pela dona do recinto. Confusão armada e a gente nem tinha chegado. Momento no qual pensei como é bom não saber sobre os bastidores.

 

Entramos na rua, na nossa frente atravessam três mocinhas com aquela pinta para lá de suspeita, os meninos falam qualquer besteira e passamos. Quando paramos na porta para eles saltarem com instrumentos e salgadinhos, quem entra no bar? As três, lógico! Falei para minha amiga, tranquilo, aqui não dá problema, elas vieram a lazer e não a trabalho. E o pior, ou melhor, é que foi. As meninas ficaram na delas e não encheram o saco de ninguém, depois fiquei até com a consciência pesada da minha maldade, mas só um pouquinho.

 

Fomos estacionar o carro. Na volta, entrando no bar, pegamos no flagra a gerente no celular com a dona contando a confusão de que músico-toca-que-músico-não-toca, passei batido. Tocaram os quatro, não sei o que ficou resolvido em relação a pagamento.

 

Entrei, alguns amigos, legal. Duas com o bico na lua, não entendi muito bem, mas achei melhor ser educada. Às vezes, agradeço meu lado sangue ruim, porque na mesma hora liguei minha redoma que me torna imune e ignorei. Acho que ainda é resquício do fim dos imparáveis, mas juro que não tenho mais saco para essa história. Minha amiga eternamente preocupada, relaxa, relaxa! E eu, mas estou relaxada, e estava, aliás, se relaxasse mais dormia! O resto, animado, alguns ainda chegando. Aniversariante distribuindo copas, então tá, só por isso vou tomar uma caipirinha. Sem açucar, por favor!

 

Uma pena todos não poderem estar presentes, principalmente Luiz e minha dupla dinâmica etílica, mas tudo bem. Chegando o verão é mais difícil encontrar o povo mesmo. Até que, considerando a época, foi bastante gente. E me diverti.

 

Os salgadinhos foram devidamente atacados e estavam ótimos. Claro que de vez em quando chegava um bicão desconhecido e se engraçava com as coxinhas. Lá ia eu cutucá-los e dizer, pode comer, mas tem que dar parabéns à aniversariante que é ela! Apontando para minha amiga que só não ficava mais sem graça que os bicões, que davam parabéns e saíam de fininho.

 

Dali a pouco surge um dos amigos que, antes de falar direito conosco, entrou feito um torpedo procurando o “André”! Ninguém tinha a menor idéia de quem era o indivíduo e muito menos entendemos o que tinha acontecido. Foi um para cada lado, acho que se informar, sei lá. E eu pensando, o povo está meio bizarro hoje.

 

Olho para frente e vejo uma das amigas dançando sozinha animadíssima em seu planeta feliz, sem se dar conta de absolutamente nada que acontecia em volta. Putz, pensei, é para lá que vou. Oi, seu universo paralelo está mais divertido! Ali fiquei dançando no meu mundo feliz também.

 

Quer dizer, por um tempo, porque como já sei que vou para o inferno, não demora muito para começar a observar as pessoas e pipocarem apelidos na minha cabeça. Tinha o Bill Gates, uma barreira quase intransponível até o bar; a Poderosa Ísis, com aquele vestido branco e uns brilhinhos; o Homem-Nariz, vilão que rouba nosso oxigênio; a mocinha com vestido vermelho estampado anos sessenta e… acho que conheço aquele rosto. Será do orkut?

 

Meu amigo, que acabo de descobrir que é outro cáustico, inclusive ganhou muitos pontos comigo agora, pergunta, aquele não é o fulano do orkut? O antropóooooologo! Sim, porque a cada observação feita na comunidade, ele sempre faz um discurso e avisa que faz doutorado em antropologia. Parece advogado!

 

Ah, só pode ser, porque se eu achei e você achou… Não levou nem 5 minutos, chega a aniversariante, escuta, aquele ali não é o fulano do orkut? E nós três em coro, o antropóooooologo! Putz, vamos puxar conversa com ele? Pedir um autógrafo? Já sei, vou me apresentar como socióloga!

 

Até aí, estávamos nós três de farra. Acontece que não lembro mais porque, acabamos por chamá-lo de verdade e puxamos conversa. Minha amiga mais do que depressa, aponta para mim – só pode ser vingança porque fiquei mandando os bicões lhe darem parabéns – ela é socióloga! O cidadão se interessa, ah, é? Onde você se formou? Bianca, pensa rápido um lugar bem improvável: UnB, Brasília. Qual era a chance dele me responder eu também? Para quem conhece a Lei de Murphy = 100%. Começou a rolar as perguntas do tipo, lembra disso? E eu para minha amiga: me salva!

 

Ouvi a tese de doutorado que tinha algo a ver com antropologia, nutrição e hare krishna. Caraca, será que tomei muita caipirinha? Bianca, se concentra, você agora é so-ci-ó-lo-ga, lembra? Acabei prestando atenção e acho que fazia algum sentido, ou seria a caipirinha?

 

Acho que está na hora de ir embora.

 

Ganhei mais uma caronita da aniversariante e tive a mordomia de ser deixada na porta de casa, pelas 5 da matina. Para quem tinha se programado para um possível sabadozinho monótono, sozinha em casa… nada mal, né?

Troca de pele

Após um ano morando em Madri, mais de dois fora do Brasil, meu olhar novamente mudou. Em um primeiro momento, minha atenção era voltada para o exterior, para o que via ao redor, como quem observava. Agora, preciso confrontar o fato de que faço parte desse contexto, olho para dentro, como quem aprende.

 

Não estou segura se por consequência ou coincidência, às vezes é difícil diferenciar, mas preciso me reconstruir. A questão da identidade é minha prioridade, recorro à memória e à experiência vivida no meu limite.

 

De uma maneira ou de outra, continuo achando a vida difícil e interessante. Espero ainda ter um longo trajeto pela frente e, aos que decidirem participar desse caminho, sejam bem vindos!

1 – De sete em sete anos

Há uma teoria que planteia que mudamos de fase de vida, aproximadamente, de sete em sete anos. Verdade ou lenda, tenho observado que esses ciclos coincidem com minhas grandes fases de mudança pessoal. Acho que nos primeiros ciclos de sete, somos muito jovens e olhamos ao redor na busca de modelos. Depois esse processo passa a ser mais consciente, pelo menos, foi para mim.

 

A primeira vez que dei conta que estava me reconstruindo a sério foi no meu quarto ciclo, por volta dos 28 anos. Nesse momento, era consultora de negócios de uma multinacional, formada em Administração de Empresas como primeira colocada e pós graduada em Administração Financeira. Do que podia reclamar? Bem casada, bem empregada, ganhando bem, morando bem… Então, o que faltava? Da onde vinha aquela angústia toda?

 

Sempre fui meio precoce, o que não conto como uma vantagem, simplesmente acho que a vida me levou a isso. Desejei minha independência com uma gana fora do comum e entendi os mecanismos de poder muito rápido. Portanto, não foi tão difícil como imaginava, ou melhor, não tão demorado, chegar onde queria profissionalmente.

 

O problema é que, ao chegar, olhei em volta e tive aquela sensação de, mas era aqui? Foi para isso que corri tanto? E agora?

 

Meu nível de realização era baixíssimo e desproporcional ao grau de agressividade com que buscava os objetivos. Sofria uma culpa enorme de me sentir tão miserável estando tão bem, em um país onde os miseráveis sorriam. Briguei um bom tempo com esse sentimento e neguei de diferentes formas minhas reais vocações.

 

Tive a sorte de possuir um amigo que me introduziu aos mitos, o que me ajudou a entender e a passar por todo esse processo. Ainda que naquela época, agisse de forma muito intuitiva. No primeiro momento da minha crise existencial ele percebeu e me disse que o ambiente em que estava não me proporcionava mais elementos para crescer. Levei quase dois anos para entender exatamente o que aquilo queria dizer. Não tinha nada a ver com cargos, salários, sequer com profissão. Eu queria ser uma pessoa melhor. O contexto em que estava não me proporcionava mais as ferramentas necessárias, não era o suficiente. Precisava aprender generosidade e fé, exercitar outras dimensões de pensamento, expandir minha consciência. Mal sabia o rolo em que estava me metendo.

 

Entretanto, sabia que não gostava do que via no espelho. Queria ser diferente e tinha a oportunidade de me refazer como quisesse ou pudesse, mas sob meus parâmetros, não mais com a negação ou confirmação dos modelos ao redor.

 

No dia em que abandonei tudo e me dispus a tocar o fundo do poço, me perguntei quem queria ser de verdade. Independente de dinheiro, segurança, esforço, tempo, qualquer coisa, o que eu morreria se não fizesse? Depois de me perguntar por quase dois anos, finalmente me perguntei sem máscaras e sem mais nada a perder. A resposta veio imediata, como uma revelação bíblica.

 

Eu era uma artista e fugi minha vida inteira dessa vocação. O perfil que acreditava que um artista precisava ter era incompatível com a vida que acreditava que queria levar. Acontece que, nesse momento, essa tal vida que achava que queria levar era uma pequena fração de tempo, um quase nada. Eu não fazia nenhuma diferença e por um instante acreditei que poderia fazer. Dei meu salto para o precipício escuro e acordei viva no dia seguinte, artista.

 

Conversar isso com Luiz foi uma das situações mais difíceis que passei. Ele se casou com uma tentativa de executiva segura e resolvida e eu havia decidido que não era mais essa pessoa. Tive muito medo que ele não me amasse mais e sabia que não tinha outra alternativa, não podia voltar atrás. Foi quando descobri que, com todas as dificuldades, o mais importante para ele é que eu fosse feliz.

 

Ao longo dos anos, fomos dando nosso jeito e nos adaptando aos nossos novos caminhos. Ele também foi mudando, em um processo menos radical e aparente que o meu, mas mudou muito. E foi mais fácil aceitar minha própria mudança quando senti que também era mais importante para mim que ele fosse feliz.

 

Pouco mais de sete anos se passaram e aqui me encontro novamente com as perguntas de polícia rodoviária fazendo blitz: Quem sou e para onde vou?

2 – Visita da Diretoria

Morando há mais ou menos umas três semanas no apartamento novo, chegou o segundo casal de hóspedes, amigos de São Paulo. E para falar desses amigos, preciso voltar um pouco o tempo.

 

Em 1997, Luiz foi trabalhar em uma empresa que organizou um treinamento para seus funcionários com a duração de dois meses, em Campinas. Isso quer dizer que um grupo de profissionais ficou internado tempo integral em um hotel estudando. Quando se coloca tanta gente junta por um período tão longo, há duas alternativas: ou se matam, ou ficam amigos. Por sorte, a segunda opção vingou.

 

Nesse período, ainda trabalhava como consultora de negócios e, por uma coincidência formidável, parte do meu projeto acontecia em Campinas. Portanto, procurava visitar esse cliente ou na sexta ou na segunda-feira e, assim, passava os fins de semana no hotel com Luiz. E claro, acabei conhecendo o pessoal todo.

 

Resumindo, desse grupo surgiu um tipo de núcleo de amigos queridos, com os quais temos contato até hoje. Nos chamamos de “a Diretoria”. A Diretoria está sempre presente nas festas, fica até mais tarde e tem alguns privilégios secretos.

 

Quando os diretores se casam ou namoram sério, os respectivos e respectivas acompanhantes recebem o status de diretor. Mas antes, passam por uma prova de iniciação. Desse casal que nos visitou, ele é sócio-fundador, como nós, e ela passou na prova de iniciação com louvor.

 

Além disso, por outra coincidência, temos mais um casal de amigos, morando aqui em Madri, que também são sócio-fundadores. Logo, organizamos o primeiro encontro internacional da Diretoria, filial Madri. Estarmos todos aqui na maior farra e falando português, foi razoavelmente surreal.

 

Uma visita relâmpago, mas que aproveitamos muito e foi super divertida. Eles trouxeram o kit arataca completo, contendo carne seca, paio e cachaça. De quebra, ainda veio um vinho português muito bom, da família desse nosso amigo.

 

Não foi só a visita, foi ao que ela me remeteu. A memória desses amigos é muito importante para mim, faz parte das coisas que fiz certo e das erradas perdoadas, porque afinal somos amigos. É reconfortante saber que importa menos onde estamos e mais com quem. E foi muito bom.

3 – Feriado em Praga

Há um bom tempo senti que precisava ver Praga. Foi exatamente assim, senti que precisava ir. Não foi porque gostei de uma foto ou de um programa, foi uma intuição. A partir daí, comecei a sonhar com a cidade.

 

Sonhar com uma cidade desconhecida é um problema pois, nos nossos sonhos, tudo se encontra em condições extraordinárias de temperatura e pressão. Na vida real, quase nunca é assim.

 

Na Praga dos meus sonhos, chegava em uma viagem romântica com Luiz, nos hospedávamos em um super hotel de elegância despojada, fazíamos nosso roteiro cultural e gastronômico e, inclusive, arriscava algumas frases em tcheco.

 

Bom, começou que não me preparei bem para a viagem. Na tentativa de não aumentar mais ainda minhas expectativas, e considerando que não íamos sozinhos, tentei deixar as coisas um pouco ao acaso. Só na saída do aeroporto me dei conta que nem eu nem Luiz falávamos uma palavra do idioma, nem tinha idéia de onde ficava o hotel.

 

Quando tentávamos pegar um taxi, alguém que falava inglês ofereceu uma condução a um preço melhor. Vi que era uma van, mas Luiz não percebeu e topou. Nossa chegada começou assim, dividindo uma van com mais três casais estranhos, cada um indo para um hotel.

 

Enfim, pensei que havíamos começado meio mais ou menos, mas meu lado Polyana me dizia que poderia ser mais seguro assim, que era uma forma de conhecer outros pontos da cidade e tal. Chegamos ao centro histórico e fui me animando, me pareceu exótico e interessante. A van fez a primeira parada e me empolguei toda. Não durou mais que 30 segundos, até que percebi que não era meu hotel. A partir daí, a coisa se complicou mais, fomos o último casal a ser deixado e cada vez nos afastando mais do centro.

 

No caminho feio, fui murxando e entristecendo, muito decepcionada.

 

O hotel não era ruim, mas muito diferente do que havia idealizado.  Atravessamos um longo corredor de pé direito muito baixo e de onde tive vontade de voltar para casa. Chegando ao quarto, a primeira surpresa boa, era enorme, acho que uns 40m2.

 

Mal baixamos as malas, o telefone tocou. Alguns dos nossos amigos já estavam na recepção e saímos com eles. Caminhando pelas ruas, achei a cidade sem graça. Não conseguia mais disfarçar meu desânimo. Uma das amigas comentou que não estava achando nada demais na cidade, o que de certa forma me serviu de alívio por saber que não era a única.

 

Nesse momento, decidi tentar aproveitar um pouco. Se não pudesse ser a cidade, quem sabe um bar e a companhia das pessoas. Entretanto, a paisagem começou a ficar mais interessante. Encontramos um restaurante de aspecto agradável e com mesas ao ar livre. Sentamos por ali mesmo, começamos a beber e conversar.

 

Estávamos em três casais e um quarto casal chegou para nos encontrar. Conversa divertida e foi anoitecendo. Estava animada para dançar e descobri que embaixo do restaurante havia uma boite. Acontece que quando li o cartaz de propaganda dizia que havia “sexy dancers”. Ops! Que estranho, o lugar parecia tão normal.

 

A cozinha fechou e decidimos caminhar um pouco em direção ao centro da cidade. Logo notei que a frequência era muito masculina, muitos grupos de homens sozinhos e mocinhas de aparência ambígua.

 

Entramos na parte mais antiga da cidade. Caminhando pelas ruazinhas de paralelepípedos irregulares, finalmente, me senti chegando em Praga. Tudo mudou!

 

Passamos pela praça central, claro, muito turística, mas isso não me incomodou. Não tinha nenhuma chance do centro não ser turístico, simplesmente abstraí e me relacionei diretamente com a cidade, sem intermediários. Sua arquitetura era misturada e rara aos meus olhos.

 

Não pude deixar de notar novamente a incoveniente presença masculina. Não digo inconveniente por serem homens, mas por sua atitude perante o lugar. Descobri que é de praxe os ingleses irem em grupos para fazer suas despedidas de solteiros ou outras bandalheiras. Acho que turistas de outros lugares também, que pena.

 

Chegamos a Karlúv most, a ponte do Rei Carlos. É um dos pontos mais famosos da cidade. De lá vemos o Rio correr em diferentes níveis, com sua margem rodeada com os prédios, agora sim, dos meus sonhos. Também víamos o Castelo de Praga, que conheceria no dia seguinte.

 

Nossos amigos queriam entrar em algum lugar para dançar e curtir a noite. Para ser muito sincera, também queria, poderia dançar a noite toda. No caminho, ao ver aquela quantidade de homens muito jovens e muito bêbados e a tristeza das mulheres de vida não tão fácil, me senti mal. A cidade não merecia. Tive a impressão de estar na sala de visitas de uma senhora idosa e sábia que assistia em silêncio a falta de educação de seus hóspedes. Achei bom que o pó negro cobrisse os olhos das estátuas. Entre nós, Luiz e eu nos aproveitamos das desculpas fáceis de frio e sono, mas no fundo, abdiquei da balada por puro respeito. Desconfio que Luiz também.

 

Durante o dia, o astral do lugar melhora muito, e olha que sou uma notívaga!

 

Estávamos em um grupo de dez pessoas que chegaram de direções diferentes. Todos muito legais, mas para mim é muito difícil passear em um grupo tão grande em uma cidade que não conheço. Conciliar os gostos e os tempos de todos é uma arte que não domino. Sempre estou em uma velocidade diferente, quero comer outra coisa, parar em outro lugar… Enfim, sempre acho que estou atrapalhando. Achei que seria mais fácil nos separarmos durante o dia e nos encontrarmos, quando possível. Além do mais, acabou sendo necessário, pois Luiz teve que trabalhar todos os dias de manhã.

 

No fim da manhã de sábado, Luiz e eu nos dirigimos ao Castelo de Praga. Fomos sozinhos, mas sabíamos que nossos amigos estariam por lá. Assim, tentaríamos nos encaixar na programação nos momentos que nossos gostos coincidissem.

 

O dia estava chuvoso, mas não me atrapalhou. O Castelo não é um um único prédio, é todo um complexo contendo catedral, galeria de arte barroca,  torre, jardins etc. Leva-se uma boa parte do dia para conhecer tudo com calma.

 

Há algumas viagens atrás, me prometi nunca mais subir em nenhuma torre que não tivesse elevador! É sempre roubada! Mas dessa vez, Luiz me convenceu e subi os 287 degraus! Joder, tío que fuerte! Em compensação, a vista realmente me tirou o fôlego, ou será que foi a escada? Enfim, vi uma Praga linda! E cada vez gostava mais dela.

 

Visitando a basílica, descobrimos que no fim da tarde haveria um concerto de música clássica com a orquestra real de Praga. Como poderia perder essa? Eu amo concertos e se forem ao ar livre ou em igrejas, melhor ainda. As igrejas possuem uma acústica interessante e um tipo de energia que favorecem o clima, e não sou religiosa, simplesmente é um fato. Muitas vezes vejo cores e penso em outras dimensões. Totalmente sóbria, juro! Nesse dia, o que senti foi a música girando em espiral sobre a orquestra e alternando a iluminação para mais claro e mais escuro. Ficamos e viajamos com Mozart, Grieg, Sibelius, Dvorak. Mas foi Tchaikovsky quem me explicou o que faltava.

 

Não é comum me surpreender dessa maneira com uma cidade, levei um tempo para entendê-la. Gosto de muitos lugares, mas não me parecem mais novidade. Praga foi diferente de tudo, me surpreendeu em muitos sentidos, a começar pelo idioma que, mesmo sem entender absolutamente nada, me soava estranhamente familiar. Foi como um quebra-cabeças de fragmentos soltos, em que Tchaikovsky me deu um fio condutor. A música me ajuda a entender os lugares. É um idioma que não falo, mas entendo com fluência.

 

Ao fim do concerto, descemos a escadaria em direção a Malá Strana. Ia flutuando, feliz da vida. A maior parte das atrações já estavam fechadas e pudemos desfrutar a vista e o caminho com tranquilidade. Achei a região muito bonitinha e acho que talvez queira me hospedar por ali em uma próxima viagem. Passamos pelo museu de Kafka e nos dirigimos à Karlúv most.

 

A idéia era ir para o hotel trocar de roupa e encontrar com nossos amigos para jantar. Havia esfriado razoavelmente e eu de sandália e uma sueter fininha. Apesar do que, não sentia tanto frio assim, acho que meus hormônios enlouqueceram ou estou realmente resistente ao frio. Só que daí passamos pela praça e havia um show de rock. Era um tremendo contraste, considerando que acabávamos de sair de um concerto clássico, em uma igreja! Mas exatamente esse contraste nos pareceu divertido. Quer saber, que voltar para o hotel nada!

 

A banda não era má, e ouvir rock em tcheco me pareceu bizarro. Como sou uma palhaça, apesar de disfarçar bastante e ter um jeito sério, participei ativamente dos aplausos, dancei, fiz mímica de quem cantava os refrões… e tudo com a maior cara de quem sabia o que estava fazendo. Depois disse ao Luiz que adoraria saber do que estava participando. Já pensou se a gente estivesse no meio de um concerto de rock religioso? Pronto, depois disso ele não conseguiu mais parar de imaginar refrões de música crente na boca do roqueiro tcheco. Foi engraçado e definitivamente ajudou a espantar o frio.

 

Em seguida, entrou uma dupla de apresentadores e falaram um monte de coisas. Após uns dez minutos, completamente concentrados no discurso, Luiz e eu nos olhamos e nos perguntamos por que estávamos prestando tanta atenção… em tcheco! E o pior é que estávamos prestando a maior atenção mesmo,  nem era deboche!

 

Depois disso, resolvemos sentar em um dos bares da praça, com mesas exteriores, e esperar nossos amigos por ali. Apesar de ser um restaurante turístico, as cadeiras eram muito confortáveis, tinha aquecedores externos, a bebida era boa e os aperitivos bem caprichados. Aproveitei para comer um pouco antes do jantar. É que sou uma Magali e acabo comendo mais que todo mundo. Dessa maneira, quando sentasse para jantar com o grupo, não destoaria tanto.

 

Nesse meio tempo, entraram duas bandas, bem ruinzinhas, mas a essa altura, já estava com o astral alto e tomando meu vinhozinho. Então, tudo era festa. A primeira, era um trio de mocinhas tentando fazer algum tipo de dança sexy, mas que no fundo era bem cafoninha. Depois entrou uma banda que não sabemos se era turca, tcheca, cigana ou alguma coisa do gênero, mas com um jeitão de gipsy kings.

 

Nisso, os amigos chegaram e, enquanto decidiam onde comer, fugimos correndo para a praça e demos uma dançadinha, só para ter um mico em Praga. Jantamos em um restaurante que gostei, aliás, comi muito bem sempre. O bom gosto na preparação e apresentação dos pratos superou minhas expectativas. E o preço era muito razoável, considerando que o euro é bem mais forte que a moeda tcheca.

 

Depois do jantar, Luiz, eu e outro casal voltamos para o hotel. Queríamos aproveitar melhor o dia, que nos pareceu bem mais interessante.

 

Na manhã de domingo, Luiz trabalhou e só saímos próximo a hora do almoço. Queria ir a um restaurante tradicional ou que se parecesse a um. Fomos ao Sarah Bernhardt, restaurante do Hotel Paris, de pé direito alto, paredes em mozaico azul turquesa e luminárias douradas. Para completar o clima, um trio tocava jazz e bossa nova. Tomamos um brunch e nos encorajamos a experimentar o vinho local. O vinho branco não estava nada mal. Não tinha grandes personalidades, mas era ligeiro, agradável e combinou bem com a comida, cardápio internacional, mas com sotaque francês, principalmente nos queijos, toques orientais e uma interessante oferta de pescados defumados. Luiz se atreveu a experimentar o vinho tinto. Felizmente, não fui tão ousada, porque era bem ruinzinho. Voltou o mais rápido possível para o branco.

 

Chovia enquanto comíamos, mas não demorou muito a estiar. Assim que terminamos, pudemos voltar a caminhar pela cidade. Fomos até o bairro judeu, também bonito e com as lojas de marcas famosas. Nesse dia ocorreu uma maratona e estavam terminando de desmontar a pista que passava por ali.

 

De lá, resolvemos fazer um passeio de barco. Adoro um barco! Escolhemos um menorzinho em que o trajeto não fosse tão longo. O passeio não foi divino, mas deu para tirarmos boas fotos. Além disso, caiu a maior tempestade e estávamos bem abrigados. Outra vez, salvos da chuva.

 

Quis caminhar de novo por Malá Strana, e assim fizemos. Luiz ficou com vontade de ir ao banheiro e resolvemos sentar em um café. Poucos minutos depois de sentados e, novamente abrigados da chuva, caiu uma tromba d’água ainda maior. Pela terceira vez no dia, nos livramos do inconveniente de nos ensoparmos, não sei se por sorte ou se a velha senhora nos agradecia o respeito com sua educação discreta.

 

Passada a chuva, estava quase na hora de nos encontrarmos com um dos casais de amigos para assistir a um outro concerto de música clássica, em outra igreja. Há uma série de concertos em igrejas espalhadas pelo centro da cidade. Infelizmente, esse já não foi tão bom, não pelos músicos, mas achei o repertório demasiado religioso, me senti em um casamento chato. Vá lá, também não doeu.

 

Quando saímos do concerto, fomos nos encontrar com todos os amigos no Jazz Club Reduta. Fiquei muito empolgada com esse programa. O lugar fica na parte mais nova da cidade, que para ser sincera, não me pareceu tão nova assim. De qualquer forma, era um clube pequeno, com sofás verdes apertados e decorado com fotos de pessoas famosas que  o visitaram. O grande destaque foi dado as fotos do ex-presidente Clinton. Na verdade, nada disso importa em um bar de jazz, o importante é ter um bom whisky e música boa. E tinha!

 

Entraram no palco nada menos que dezessete músicos, um maestro e o cachorro do pianista. Não é que o pianista fosse um cachorro, ele levou seu cachorro mesmo, que inclusive passeava pelo local com a maior intimidade. Muito bem, com tanto homem no palco, me perguntei se isso daria certo. Só posso fazer um comentário: uau! Aliás, uau três vezes! O maestro se chama Milan Svoboda, e conduziu o show com guitarra, tuba, bateria, piano, baixo, quatro trumpetes, três trombones e cinco saxofones.

 

O único problema é que o local estava muito iluminado. Jazz pede uma luz mais baixa. Principalmente para mim, que faço caretas, bocas, toco com os dedos e conduzo junto. Puxa, no claro dá um pouco de vergonha, né? No escurinho o mico é menor e não preciso ficar me controlando.

 

Bom, o show foi dividido em duas partes. No fim da primeira, todos os amigos estavam com fome e queriam sair para jantar. Eu queria ter um filho pela orelha! Ensaiei ficar, mas percebi que Luiz ficou meio sem graça e com razão porque passamos quase o tempo todo do dia separados deles. Paciência, comprei o CD e na próxima ida a Praga o local estará definitivamente no meu roteiro.

 

Saímos pela rua tentando achar um lugar para comer,  já era bem tarde e não foi fácil. No final encontramos um até bonitinho, um tipo de cave. Para ser franca, mal consegui me concentrar na conversa, na minha cabeça ainda tocavam muitas músicas e tinha muitas informações para digerir. Estava em transe.

 

De lá fomos todos para o hotel em três taxis diferentes, com os quais negociamos os preços. Isso é uma coisa bem chata lá, os taxis quase nunca seguem taxímetro, você meio que chuta e negocia os valores que podem variar muito. Fora o fato que os homens me dão um pouco de medo. São muito grandes e com cara de mau.

 

Aliás, me senti uma baixinha! Como tinha gente grande! No Brasil sou normal, aqui na Espanha sou super alta, inclusive mais alta que boa parte dos homens. Mas ali eu não tinha a menor chance, fiquei pequena.

 

Na segunda-feira, nosso último dia de viagem, novamente Luiz trabalhou um pouco pela manhã e saímos na hora do almoço. Já tinha em mente onde queria almoçar, queria fechar com chave de ouro. Fomos a um restaurante bem na margem do Rio, com vista para a ponte, um cartão postal. Novamente, arriscamos o vinho tcheco, dessa vez um chardonnay que não decepcionou. Comi um tartar de salmão divino, um tempura de atum mal passado sobre pure de batatas com um toque suave de wasabi e uma torta de maçã com sorvete de nozes. Clima agradável e ensolarado, serviço simpático, dia perfeito.

 

Voltamos para o hotel com o primeiro taxista honesto da cidade e ainda deu tempo de nos despedirmos de nossos amigos na recepção. Nos sugeriram fazer o passeio de pedalinho, o que deve ser realmente interessante, mas com a quantidade de vinho que tínhamos na cuca, ni hablar! Demos uma cochiladinha básica e acordamos na hora de ir para o aeroporto.

 

Na fila para entrar no avião, reconhecemos rapidamente nossos companheiros latinos. Primeiro que espanhol adora fazer uma fila, eles começam super cedo a se juntar na porta. Ninguém despacha bagagem e para se acomodar tudo é um caos! Até que achei divertido e foi muito bom voltar a me sentir alta outra vez.

 

Sou do tempo em que o pouso de vôos internacionais era aplaudido pelos passageiros. Achei que isso fosse coisa antiga. E não é que a espanholada toda aplaudiu o pouso? Mas essa não foi a melhor parte. Na saída do avião, a senhora que estava na minha frente deu umas moedinhas de gorjeta para a aeromoça. Juro! A pobre da menina não sabia o que fazer. Não aguentei, caí na gargalhada de tão chocada, essa eu nunca tinha visto!

 

Voltar para casa foi um pouco difícil. Fiquei com gosto de quero mais. Não é só mais férias, é mais tudo. Queria saber mais da cidade, do país, da cultura, da língua… me deu vontade de ser um pouco tcheca. É verdade que a essa altura da minha vida, preciso ter muito cuidado com o que desejo.

 

Chegando ao apartamento, um felino gordo e carente nos aguardava ansioso. Meu gato me ajuda a achar melhor acabar uma viagem. Voltei diferente, mas aqui ainda é minha casa.

4 – A festa de inauguração do apartamento novo

Dia 20 de maio de 2006 foi nossa primeira festa no apartamento da Calle Montesa. Como meio mundo sabe, sempre que mudamos de casa, fazemos uma festa de inauguração, o que nos ajuda muito a começar com o pé direito. Amigos fazem que a energia do lugar melhore.

 

Uma coisa que acho legal é que, por motivos óbvios, as pessoas que Luiz conhece costumam ser muito diferentes das que conheço. Isso nunca foi um problema, pelo contrário, porque adoro conhecer gente de distintas tribos. E no fim das contas, todos passam a ser nossos amigos. Muito bem, quando damos uma festa maior, chamamos a todos e é uma mistura geral de profissões, vocações, idades e interesses. Ultimamente, também uma mistureba de nacionalidades. Mas não é que dá certo?

 

Essa festa foi bem informal, pedimos aos amigos para trazerem bebidas e fiz algumas comidinhas. Estava sem muita inspiração sobre o que cozinhar, mas uma amiga me passou duas receitas que foram um sucesso, uma de um antepasto de beringela e outra de um molho para comer com kani. Além disso, outra amiga trouxe um tabule que ajudou no clima de integração internacional, cultural, tribal ou sei lá como definir o que seríamos todos juntos.

 

Vieram mais de trinta pessoas. Considerando que não somos adolescentes e o apartamento é pequeno, era muita gente! Não tinha como convidar menos, aliás, infelizmente nem deu para convidar todos, quem sabe em uma próxima festa.

 

O som estava alto para burro e um vizinho veio pedir para baixar. Ele foi muito educado e tinha razão, baixamos. Mesmo assim, acho que incomodamos um pouco, vou tentar me redimir.

 

Não sei exatamente que horas acabou a festa. Só me lembro de perguntar aos últimos convidados se eles queriam ir ao El Junco para dançar e Luiz me dizer que já estaria fechando, pois eram quase cinco da manhã. Como assim? Para mim era no máximo umas duas e meia! Passou voando!

5 – El Fogón de Trifón

Muito, mais muito perto da nossa casa, tem um restaurantezinho chamado El Fogón de Trifón. Quase não chama atenção, parece um pequeno bar, com seu balcão apertado e cheio de gente conversando. Não é raro aqui se ter o bar em frente e o restaurante atrás ou embaixo. Nesse caso, o salón comedor fica atrás. Possui cinco mesas e isso não é maneira de falar, comporta um máximo de vinte e duas pessoas.

 

O lugar é tão pequeno que chega a intimidar na entrada, pois todos te olham. Entretanto, alguns segundos depois, o barman abre um sorriso largo, solta um simpático buenas noches e você se sente como se conhecesse os outros clientes, como  se fossem parte do mesmo grupo. O truque é responder buenas com jeito de que vai ali todos os dias.

 

Poucas vezes vi em Madri atendimento tão simpático e atencioso. Garçons preocupados com o que é servido e orgulhosos quando você elogia a comida. Parece que foi a mãe deles que cozinhou, é assunto pessoal. Cá entre nós, não é nada difícil elogiar, pois absolutamente tudo o que comemos é maravilhoso.

 

Meus destaques, dou para os chipirones encebollados, umas lulinhas aceboladas e o rabo de toro, nossa rabada. Enfim, difícil escolher um prato, porque tudo é bom. Não utilizam muitos ingredientes, é uma cozinha clássica e de uma simplicidade refinada. Eles sabem fazer o igual diferente e isso não é para qualquer chefe de cozinha.

 

Ontem fomos lá com um casal e outro amigo, todos espanhóis. Estamos tentando montar uma empresa, que não posso contar do que se trata porque é segredo secreto, totalmente diferente de tudo o que nós fazemos, dá para fazer em paralelo a nossas carreiras e o investimento é irrisório. Parece milagre, né? Também acho. A verdade é que sempre comemos, bebemos e nos divertimos muito mais do que trabalhamos. Acho que, no fundo, a tal da quem-sabe-empresa é um belo de um pretexto para nos reunir e comer bem. Ou seja, já começou como um excelente negócio, pelo menos para a gente.

6 – Valência, Dénia e o Cirque du Soleil

Há alguns meses atrás, compramos entradas para assistir ao Cirque du Soleil em Valência, junto com um casal de amigos. É difícil nos planejarmos com tanta antecedência, mas, nesse caso, foi a única maneira de conseguir bons ingressos.

 

Por coincidência, temos outro casal de amigos que tem casa em Dénia, uma pequena cidade de praia a cerca de 80km de Valência. Eles sempre nos ofereciam essa casa para nos hospedarmos e dessa vez aceitamos.

 

Fomos em dois casais e o Jack, meu gato gordo que não tive coragem de deixar para trás mais um fim de semana. Meu felino educadíssimo se comportou muito bem na viagem de ida e de volta, ele é muito internacional.

 

Há cerca de um ano e meio não ia a uma praia e estava muito animada com essa idéia. Tão animada, que me esqueci completamente que estávamos indo ver o show do Cirque du Soleil! Só no carro, na ida para Dénia, minha amiga comentou algo do espetáculo e me lembrei o porquê da viagem. Francamente, eu mesma me surpreendo com esse meu lado altista! Alguém tão desligada não pode ser normal!

 

Muito bem, a viagem durou umas cinco horas e chegamos em Dénia na sexta-feira, quase meia-noite. Em uma cidade pequena que vive de veraneio, é claro que estava praticamente tudo fechado. Mesmo assim, tentamos aproveitar um pouco. Por isso, deixamos Jack acomodado em casa e partimos guerreiros na busca de um bar.

 

No primeiro ensaio de movimento, gritamos em coro do carro: páaaaara! Ali!

 

Bom, movimento é jeito de falar, era mais assim algum sinal de vida. O local era um tipo de comércio com alguns restaurantes fechando, aquela coisa de garçonetes desmontando mesa, fim de festa mesmo. Daí, minha amiga ouviu música e fomos seguindo o som como quem segue o caminho feito em migalhas de pão. Soava Dire Straits, promissor. Vimos luzes no teto e acreditamos que poderia ser uma boite. Resumindo e acabando com o suspense, era um karaokê! Que mico!

 

Mas, na dúvida que fosse o único lugar aberto, sentamos por alguns minutos para eu e nossa amiga tomarmos um vinho ruim e Luiz e nosso amigo tomarem uma cerveja que parecia melhor. Estávamos de bom humor e conseguimos achar a situação engraçada.

 

Dalí, nos dirigimos ao casco histórico, como se costuma chamar o centro das cidades na Espanha. Era mais bonitinho e tinha aquele clima de cidade praiera que nem sabia que sentia tanta falta. Sentamos em um bar chamado Jamaica in. O lugar não era mal, mas também estava no fim de noite e não havia mais nada para comer. Ou melhor, tinha batata chips, uma tal de Lolita, que foi a pior batata que comi na minha vida.

 

Resolvemos dar a noite por encerrada e tentar melhor sorte no dia seguinte. Chegando em casa, preparamos uns sandubas de frango que havia trazido de Madri. Bateram uma bola. Claro que levei comida, logo eu, a gulosa! Ia correr o risco de chegar em uma cidade com os restaurantes fechados e dormir com fome, nunca!

 

No dia seguinte, não acordei tão tarde. Estava preocupada com o gás a ser ligado. É que simplesmente odeio banho frio e só de imaginar essa possibilidade, estremecia. No dia anterior, Luiz e nosso amigo não acertaram ligar o dito cujo, mas como estávamos com um pouco de pressa para sair, deixamos para fazer isso de manhã. Enfim, a manhã havia chegado e a primeira coisa que fiz foi cutucar o Luiz e pedir para ele tentar ligar o gás. Fui logo em seguida, para tomar café e tentar ajudá-lo. Apanhamos um pouco, mas no fim deu certo. Ufa! Banho quente!

 

Nisso, nossos amigos também levantaram e fomos para a praia. Como estava seca por uma praia! Normalmente, não ligava muito, mas acho que era porque sabia da facilidade de chegar até uma. De repente, praia se tornou algo tão distante e difícil que fui me esquecendo como era bom.

 

Não é só isso, é que sou muito branca e o sol sempre é sinônimo de trabalho e cuidado para mim. Perdi esse prazer. Fui bronzeada uma época, quando morava em Brasília. Juro que não é mentira. Nesse período tinha piscina em casa, ía ao clube todos os fins de semana e as férias eram sempre em região de praia. Ou seja, estava convencida que era morena! Tinha a pele curtida e colorida pelo óleo de côco com urucum.

 

Depois mudei para o Rio e a praia não era tão limpa. Das poucas vezes que tentei frequentar, voltava com alguma micose para casa e ficava arrasada. Depois, comecei a trabalhar e cada vez tinha menos tempo. O sol também mudou, ficou mais agressivo, já não podia mais usar bronzeador e minha pele se tornou indefesa sem proteção. Descobri que era branquela feito leite. E branquela me mantive ao longo dos anos. Além de ter passado por algumas experiências desagradáveis, como queimaduras nos pés por esquecer de passar protetor nessa região.

 

Enfim, depois de tanto tempo, o mar me chamava, dessa vez do lado mediterrâneo, tentava me convencer a recomeçar nossa relação. Aceitei o convite.

 

A princípio, estranhei um pouco a areia escura. Gosto daquela areia branca e fininha, mas em Dénia não é assim, é avermelhada e grossa. É época de algas vermelhas, o que também escurece um pouco o mar. Mas onde as algas permitem clareiras, a água é limpa e esverdeada.

 

Ainda por cima, encontramos um quiosque que alugava barracas e espreguiçadeiras. Aí foi correr para o abraço! Poderia morgar o dia todo.

 

Acontece que não tínhamos o dia todo, era sábado, dia do show do Cirque du Soleil. Queríamos chegar um pouco mais cedo em Valência, para dar uma volta na cidade e conhecer os arredores.

 

Fomos almoçar. Na saída da praia, havia um restaurante chamado “Chiringüito”, é como se chamam os quiosques aqui. O cheiro bom de peixe frito estava arrasador e, depois de uma breve  polêmica se almoçávamos ali ou em um restaurante grego, o tal do Chiringüito venceu. O lugar era aberto e administrado por uma família. A comida estava simplesmente de-li-ci-o-sa! Ainda tomei um vinho branco geladinho, na temperatura perfeita. Companhia agradável, vista para o mar, o que mais poderia pedir?

 

Deu a maior preguiça, mas precisávamos ir logo para Valência. E assim, fomos meio sonâmbulos no carro. Quer dizer, eu fui sonâmbula, porque Luiz foi apagado ninando uma garrafa de água. Realmente, invejo a capacidade que ele tem de dormir tão bem em qualquer lugar!

 

Achei a cidade uma graça! Pelo menos na parte do centro histórico, o que deu tempo de conhecermos. Gostaria de voltar lá com mais calma qualquer dia desses. A verdade é que mal pudemos caminhar pelo local e já estava na hora do show.

 

Saímos em disparada para o Cirque du Soleil, correndo sérios riscos de chegarmos atrasados e com Luiz estressadíssimo, dessa vez dirigindo. Fui orientando o caminho como pude, também não conhecia a cidade e não tínhamos um mapa. No fim, chegamos a dois minutos de começar o espetáculo. Na verdade, os palhaços já estavam entretenendo o público.

 

Caramba, como contar o espetáculo? O Cirque du Soleil não dá para explicar, tem que ver e ouvir, é uma experiência, simplesmente emocionante! Acho fabuloso como eles conseguiram fazer uma releitura do circo sem perder as origens e com a capacidade de impressionar gente que já viu um pouco de tudo. Esse show se chamava  “Dralion”. Em Atlanta, assisti ao “Allegria”. E sempre que houver oportunidade, assistirei aos próximos.

 

Quando acabou, voltamos os 80 km de carro para Dénia. Outra vez sonolentos, só que agora ia sonhando acordada.

 

É verdade que não consegui abstrair totalmente, tinha uma preocupação na cabeça. Na semana anterior meu avô internou, estava inchado com um problema renal. Pelo telefone, as notícias que me davam eram positivas, mas sempre fico na dúvida se é realmente assim, afinal de contas, ele tem 88 anos. Queria telefonar para Belo Horizonte, onde ele está, para saber se estava tudo bem. Mas ao mesmo tempo, também não queria ligar e receber uma má notícia. De qualquer forma liguei, mas tinha o telefone errado, faltava um número. Decidi telefonar de casa, no domingo, quando chegasse.

 

Acho estranho essa coisa da vida ser tão misturada. Estamos sempre no limite das ambiguidades. Prazer e dor, tristeza e alegria, medo e coragem… e a culpa sempre tentando se fazer presente, margeando. Estava um pouco dividida, mas optei por tentar me divertir. Afinal, meus pais tinham nosso telefone celular, se houvesse algo realmente ruim, me ligariam. No news, good news.

 

No dia seguinte, domingo, acordei doida para ir para praia. O tempo estava nublado, o que me desanimou um pouco. Mesmo assim, resolvemos ver no que dava. Ainda bem, porque o céu abriu e fez um dia estupendo! O mar, inclusive, estava mais limpo das algas.

 

Fizemos basicamente o mesmo programa do dia anterior, só que com menos pressa e sem o compromisso de ir a Valência. Morguei na espreguiçadeira alternando entre sol e sombra, mais sombra porque fiquei com medo da minha brancura. Aliás, não era nem de longe a mais branca, o que me fez sentir outra vez morena. Porque não dizer, morena e sexy, pois por sorte também não estavam presentes os corpaços jovens cariocas e, na comparação, até que me saí bem. Atenção meninas! Ministério da saúde adverte: praia espanhola faz bem ao ego.

 

Caminhei um pouco com os pés na água, minha maneira favorita de aproveitar a praia. Fiz de conta que queimava muitas calorias a serem devolvidas no almoço próximo.

 

Claro que novamente almoçamos no Chiringüito. O bom atendimento se repetiu. Pedimos outros pratos, para variar, e o que felizmente não variou foi o quanto estavam deliciosos. Um dos nossos pratos foram as kokotxas, pronunciado mais ou menos côcôtias, que é basicamente a parte da garganta do peixe, se é que peixe tem garganta. Costuma ser de merluza ou de bacalhau. É lógico que depois de uma dose de gaiatice e meia de vinho, voltamos aos cinco anos e as kokotxas se transformaram rapidamente em xoxotias ou algo que se pronunciasse parecido. O pior é ter que confessar publicamente que as xoxotxas, digo kokotxas do chiringüito, eram realmente saborosas. Ainda bem que foram de merluza e não de bacalhau.

 

Entonces, tentando aumentar um pouco o nível que já vai rasteiro, nossa preguiça também não variou, mas era hora de voltar para casa. Ai, que vontade de ficar uma semana! Por que nunca estou satisfeita?

 

No caminho de volta, Luiz veio chutando o balde. Acho que estava se divertindo com o brinquedo novo, um carro alugado poderoso que deu vontade nele de ter um. Para falar a verdade, também me deu vontade, mas estava mais preocupada com Jack, que mareou um pouco no início da estrada. Depois que entramos nas retas, segurou a onda e se comportou como um legítimo gato de ciganos.

 

Chegamos bem e com luz, anoitece tarde agora, por volta das 22:00 horas, às vezes depois. Madri animada e cheia de gente na rua. A primavera está se despedindo e o calor do verão chega com toda força.

 

Jack entrou em casa cheirando tudo, como sempre, e ao reconhecer seus cheiros e seus cantos ficou feliz da vida. Pode ser de ciganos inquietos, internacional e viajado, mas ainda é um gato e adora chegar no que é seu. Tenho muito que aprender com esse felino.

7 – Uma escultura do meu tamanho

Estou trabalhando em uma escultura do meu tamanho. Tem a minha altura, nos seus quatro eixos verticais, e o meu comprimento de braços abertos nos nove eixos horizontais. Os eixos horizontais são posicionados também em alturas do meu corpo. O material é aço e utilizo encaixes, ao invés de soldas, para que seja de simples locomoção.

 

O que deve ser evidente para todo mundo, só percebi hoje. Estou usando meu trabalho para me reconstruir. Mais uma vez.

 

Acho que entendo melhor o Caetano quando diz, como é bom saber tocar um instrumento. Não toco instrumentos, mas opero bem com ferramentas pesadas. Ainda não entendi o porquê, mas sei que há algo por aí.

 

Como as outras pessoas, também sempre fui incentivada à atividade intelectual e me custou muito entender e aceitar que ela me é absolutamente insuficiente. Incompleta. Preciso do labor físico, das origens, do essencial. É a única forma em que posso dar vazão a toda essa energia.

 

Quando era pequena, e até minha fase adulta, destruía relógios. Não fazia por querer, eles simplesmente não me suportavam. Os ponteiros se soltavam, o vidro rachava, a bateria acabava, a correia rompia…  fiz coleção de relógios quebrados. Cheguei a achar que tinha algum problema. Talvez realmente tivesse, difícil dizer. Mas quando não consegui mais explicações racionais, tentei improvisar alternativas. Por exemplo, mudei o relógio de braço e passei a usá-lo mais frouxo. Melhorou muito. Outra opção, foi usá-lo como colar, isso funcionou. Pois me ocorreu que poderia ser um tipo de energia canalizada, sei lá, que precisava controlar melhor.

 

Casar diminuiu meu número de relógios destruídos. Mas o impressionante é que, coincidência ou não, quando estou envolvida em um trabalho artístico, principalmente na parte de execução física, meus relógios duram mais.

 

Outra coisa interessante, um pouco difícil de contar, desde pequena também enjôo muito. Minhas respostas à ansiedade, nervosismo ou qualquer outra coisa que não queira fazer, se reflete no estômago. Passei quase trinta anos da minha vida vomitando. Quando criança, não me lembro quantas vezes fui levada à farmácia para tomar injeção de plasil. Fui a vários médicos e não havia nenhuma explicação. Com o tempo, fui controlando melhor. Sempre acontecia pelas manhãs. Dormia muito mal, acordava sonolenta, dava uma vomitadinha, escovava os dentes, me arrumava e saía para estudar e, quando adulta, trabalhar. Simples assim. Fazia parte da minha rotina e, depois de um tempo, achei que era normal, me acostumei. Não tinha nada a ver com bulimia, enjoava em jejum e nunca tive problemas alimentares. No resto do dia, não tinha outras reações anormais e era saudável.

 

Desde o dia em que me aceitei artista, eu nunca mais enjoei à toa pelas manhãs. Nunca mais, nem um dia. Como posso explicar? É óbvio e incrível ao mesmo tempo.

 

Hoje me dei conta de tudo isso e não tive peito de ir trabalhar na escultura. Precisava digerir esse pensamento um pouco melhor. Amanhã vou ao atelier encarar meus demônios. Vamos ver no que vai dar.

8 – A escultura vai andando, já o curso, se arrastando

Consegui trabalhar na escultura, que chamo assim por falta de um nome melhor, acho que é mais um objeto ou quase uma instalação, ainda não sei como definí-la. Mas aqui, se é tridimensional, eles chamam de escultura. Por mim, podem chamar de abacate, dá no mesmo.

 

O atelier de escultura da faculdade é bárbaro! Enorme! Você pode trabalhar com o que quiser: ferro, pedra, argila, resina etc. Tenho trabalhado na serralheria. Sou absolutamente fascinada pelas ferramentas, equipamentos e, principalmente, por todo aquele espaço.

 

Não há nenhum glamour, é muito diferente das exposições e vernissages, mas é onde a coisa acontece de verdade. Na prática, os locais de trabalho costumam ser empoeirados e, para um olho menos treinado, sujo mesmo. E eu, a neurótica obsessiva por limpeza, nem me importo. Fico quase que literalmente, como pinto no lixo.

 

Estive pensando, as ferramentas que gosto de usar quase sempre são de trabalho pesado e possuem algo de risco. Talvez seja a necessidade de controlar o destino, de ser capaz de mudar as direções, forjar o metal. Talvez seja uma maneira de aproximar o perigo. No início, sentia esse perigo naturalmente presente, agora preciso caminhar até ele e, assim, margear o limite.

 

Trabalho ultraconcentrada, não quero perder um dedo. E das pouquíssimas vezes em que me distraio, recebo um recado violento: presta atenção! É o momento em que não só busco a solidão, mas preciso dela.

 

Sei que saio do atelier vestida de peão de obra, músculos doloridos, desodorante vencido, com uma luva nojenta de suja e carregando uma mochila grande, eu que não carrego nem bolsa. Na boa, saio um trubufu! E mesmo assim, com vontade de sorrir à toa.

 

De lá, normalmente, me dirijo às aulas teóricas, vou me arrastando. Minha expressão muda muito claramente. O curso começou bem, ainda que tenha feito minha vida mais difícil. Mas agora está um saco, me faz perder muito tempo! Fora a tentativa de manipulação patética para que a gente faça arte política de qualquer jeito. Uma turma de vinte e sete alunos, em que assistem as aulas uma média de dez. Acho que isso quer dizer alguma coisa, por exemplo, que meus novos colegas não são de todo bobos.

 

Fazer o que, como diz o velho e gasto jargão, tudo na vida tem um preço. De uma forma ou de outra, há pouco tempo me dei conta que, mesmo de uma maneira torta, estou voltando à ativa. Acho que isso deve ser um bom sinal.

9 – Kebab na madrugada madrileña

Na madrugada de hoje, fizemos uma descoberta salvadora de vidas! Um lugar que vende kebab até às 5 da matina!

 

Escrevi uma vez, mas relembrando, as noites de Madri são bem longas e emendam na manhã, acontece que depois da meia-noite é difícil achar algum lugar para comer. Os bares fecham a cozinha e as boites só oferecem bebidas. Na verdade, no fim da noite, o que se pode achar aberto, normalmente, vende churros com chocolate. Não é mal, só que quando estou com fome, preciso de sal.

 

Passamos maus bocados famintos no fim da balada e, atualmente, mantenho algum petisco meio preparado em casa. O dia seguinte agradece!

 

Muito bem, ontem foi o aniversário de uma amiga francesa, nos encontramos no Boloco, restaurante e bar de tapas que fica na Plaza Chamberí. Estávamos em um grupo de nove pessoas, quatro delas falavam exclusivamente francês. Nada que um pouco de álcool não nos ajudasse na comunicação. Fomos dando nosso jeito. Conheço muita gente que tem problemas com franceses, não é o nosso caso. Acho que temos a sorte de só conhecer os legais.

 

Ficamos do lado de fora, que aqui se chama terraza. As terrazas não são necessariamente no telhado, podem até ser, mas a palavra simplesmente significa mesas ao ar livre. Normalmente, no fim da primavera se inicia o período das terrazas, que acabam no fim do outono. É a época que aproveitamos o clima e respiramos ar quase puro, no que pode ser puro o ar de uma cidade. Mas definitivamente melhor que os ambientes fechados e esfumaçados.

 

Previnida, me alimentei bem e tomei bastante água, me preparando para a continuação da noite. Luiz não estava com muita fome nessa hora e comeu bem menos que nós todos.

 

Enfim, de lá, fomos para a Valmont, um bar de tapas com lugar para dançar. Estava fechado para uma festa particular. Não pudemos entrar, mas ganhamos a entrada e copas para voltar em um outro dia.

 

Caminhamos até a estação Alonso Martinez, onde há uma série de bares e boites ao redor. Fomos ao Areia, onde um amigo alemão costumava trabalhar. Chama assim mesmo: Areia. E não Arena, como seria em espanhol. Esse lugar é bem legal, tem um jeitão de lounge marroquino. Assim, além das mesas, tem uma cama e uns grandes sofás. No teto, alguns tecidos vermelhos pendurados. A iluminação é baixa e tem um DJ, ao vivo, comandando a música. Sempre há muita gente em pé, mas não é um lugar para dançar. Ali, um dos franceses nos ofereceu duas garrafas de champagne e ficamos fazendo hora para ir ao El Junco.

 

No caminho para o El Junco, pela Calle Hortaleza, vimos uma birosca lotada! Deveria ter uns 2 m2 e vendia kebab. O cheirinho estava tentador, mas ainda era cedo para comer. Continuamos nosso caminho, meio de olho grande no tal kebab.

 

No El Junco, onde sempre vamos, a música estava boa, mas já vi dias melhores, é que o DJ muda sempre. De qualquer forma, dançamos até umas quatro da manhã. Fomos embora assim cedo, porque era uma sexta-feira, em que Luiz estava acordado desde às sete e tínhamos compromisso no dia seguinte.

 

Na saída, é claro que ele estava faminto. Faminta não estava, mas como sou uma gulosa e comer e coçar é só começar… Nos olhamos naquela dúvida se o lugar do kebab ainda estaria aberto. Era bem perto e arriscamos. E não é que estava aberto e cheio! Nos atracamos com dois kebabs, um de carne e um de frango, para experimentar. O de carne era melhor, mas o de frango também mandou muito bem!

 

O indiano que nos atendeu cortava a carne em fatias finas com uma maquininha parecida a um barbeador, colocava em um pão quentinho e adicionava alguns molhos e ingredientes que nem perdi tempo perguntando o que eram. Aberto a essa hora, ele manda! Perguntamos que horas eles fechavam e ele nos informou que pelas cinco da manhã. Pois então pronto! Será nosso Blooming’s de Madri. A propósito, sugiro o kebab de carne só com molho de queijo, o que achei mais parecido ao cheeseburger de fim de festa.

10 – O mundo está perdido!

Recebi uma curiosa mensagem, de alguém que não conheço, no meu orkut. Dizia exatamente o seguinte: “Olá Bianca, tenho um filho de 7 anos e gostaria de morar na Espanha em agosto, vale a pena o risco de levar uma criança logo de início? Desculpe estar te importunando, mas achei você bem séria para poder me responder ou me indicar alguém que está aí com filhos. Obrigada. ( é difícil conseguir trabalho ou não ?)”.

 

Quando li o texto acima, achei muito engraçado! Mostrei ao Luiz e disse que ainda existia quem me achasse  uma pessoa séria! Ele leu a mensagem e sua resposta foi: esse mundo está perdido! Na hora que você é chamada a aconselhar uma mãe…

 

Sofri a tentação de escrever de volta: Querida “x”, sou uma artista-alucinada-borracha-que-não-sabe-o-que-fazer-da-própria-vida… mesmo assim, você gostaria dos meus conselhos?

 

Na prática, resisti ao meu humor ácido, afinal ela me pareceu realmente preocupada, e apenas brinquei que o mais parecido que tenho a um filho é um gato persa de seis anos. Também disse que gostava da cidade e que, se tivesse uma criança, me sentiria mais tranquila aqui do que no Brasil. Indiquei uma comunidade de brasileiros em Madri no orkut, onde ela poderia obter maiores informações, quem sabe, com outra pessoa de seriedade confiável.

 

Entretanto, não posso negar que a história ficou martelando na minha cabeça. Sempre pareci bem mais séria do que realmente era, ou achava que era, e acabo de perceber que isso se transmite até de maneira virtual. Será que sou séria? O que é exatamente uma pessoa séria?

 

Por muito tempo essa seriedade aparente me incomodou, principalmente na adolescência, porque intimidava os meninos que me interessavam e impunha uma certa distância e responsabilidades que nunca pedi. Acreditava que era algo que fazia, algum jeito de olhar, de sorrir ou não sorrir, um gesto, sei lá, algo que levava às outras pessoas a me verem séria. Depois concluí que era mais forte que isso, era algo de atitude, estava implícito.

 

Ser séria não me incomodava, simplesmente achava que não era,  pensava que estava transmitindo uma postura falsa e, isso sim, me incomodava e muito. Mas não sabia o que fazer para ser mais autêntica, o que por si só é uma enorme contradição. Será que se sorrise mais, se chegasse mais perto, se olhasse menos nos olhos… era inútil! Como vestir uma roupa grande demais. Daí desisti de tentar mudar e resolvi lidar com a questão. Se intimidava os meninos, tomava eu a iniciativa; se afastava algumas pessoas, atraía outras; e por aí vaí.

 

Acho que superei essa questão mesmo por volta dos 20 anos, quando tive uma grande amiga que me apresentava da seguinte maneira: essa é a Bianca, tem essa cara de séria, mas é a maior porra louca! Posso ouvi-la falando isso com seu jeito escrachado e direto, foi uma das pessoas que mais me conheceu e era capaz de resumir e resolver em uma frase o que me intrigou toda adolescência. Não era a forma mais bonita nem tão educada, mas era como eu mais gostava de ser apresentada.

 

Os anos se passaram e esse foi um tema que parou de me preocupar, pelo contrário, profissionalmente, por exemplo, foi muito positivo. Agora somos todos adultos e a seriedade não assusta mais. O que era sinônimo de distância, passou a ser de credibilidade. Por que? Em que momento atravessamos essa linha e ficamos tão sérios?

 

Um dia, quando ficar bem velhinha, quero ter a experiência e a coragem de me apresentar assim: sou Bianca, tenho essa cara de séria, mas sou a maior porra louca! Talvez nem precise falar nada, só fazer a careta do Einstein dando uma língua debochada, um dos momentos fotografados que mais gosto.

11 – Festa junina

Adoro festa junina! Na verdade, gosto de quase todo tipo de festa temática e, nesse caso, ainda por cima amo as comidinhas!

 

Muito bem, em Madri não há festa junina como comemoramos. Nenhum problema, o que não tem a gente inventa. Juntei com mais duas amigas e organizamos a tal da festa aqui em casa, com bandeirinhas coloridas e tudo.

 

Aliás, essas bandeirinhas deram o maior trabalho, porque no Brasil a gente compra o cordão prontinho. Aqui, tive que comprar papel crepom colorido, cortar as bandeiras, colar etc. Mas como não tê-las em uma festa junina? É o que dá o clima! Achei umas toalhas de mesa xadrez e coloquei umas velas no meio da mesinha de centro para fingir que era a fogueira. A decoração foi completada por chapéus de palha que uma amiga achou na venda do chinês. Olha que com boa vontade, até que ficou bem bonitinho.

 

Estava meio na dúvida se me fantasiava, porque vai que ninguém aparecesse de caipira, né? Bom, fiz maria-chiquinha, pus uma blusa bem colorida, um baton vermelho e bochechas rosadas. Quando minha primeira amiga chegou, fez tranças e pintas no rosto, daí me animei mais e fiz as pintinhas também. No fim das contas, o povo todo que chegou foi entrando no espírito da festa e se fantasiando. Até a filha de uma amiga, nenenzinha ainda, chegou vestida de caipirinha.

 

Nas comidas, todo mundo trouxe alguma coisa que fosse típica. Havia cachorro-quente, salsichão com farofa, milho cozido, pipoca, amendoin, pão-de-queijo, pé-de-moleque, bananada e doce de abóbora com côco. Quentão não dava para fazer porque aqui é muito quente em junho, daí fiz sangria, que é o similar geladinho nacional. Também havia cachacinha e refrigerantes.

 

Agora, definitivamente, o ponto alto foi a dança! Arrastamos os móveis na sala pequena e improvisamos uma quadrilha surreal. Foi a pior quadrilha que já vi na vida, nada poderia ser mais desorganizado! Cada um lembrava de um pedaço e íamos tentando juntar os fragmentos do baile. Acho que de quadrilha teve pouco, mas arrancou boas gargalhadas. Eu, pelo menos, me acabei de rir.

 

O golpe de misericórdia foi quando alguém lembrou que faltava celebrar o casamento. Sobrou para um casal de amigos, noivos, e todos nós completamos o teatrinho bizarro, com direito a Luiz de espada em punho, na falta da escopeta.

 

Enfim, muito bom ter um pedacinho do Brasil aqui. Também muito bom saber que a gente leva essas coisas na memória e, com uma pequena motivação, cada um lembrando um pedaço, a gente junta tudo e faz uma festa.

 

Anarriê… dama prum lado cavalêro pru otro… olha a cobra… é mentira… caminho da roça…