Domingo visual

Uma amiga me disse uma vez que as pessoas sempre tem algum sentido mais aguçado e quando vivemos com outra pessoa, conhecer esse sentido ajuda muito na convivência. Por exemplo, para alguém que é mais sonoro e tem o ouvido apurado, é difícil estar com outro barulhento. Ou se o sentido for o tato, é gente que gosta de ser tocada, sente mais falta de carinho. E por aí vai. Não sei se é comprovada cientificamente, mas me pareceu uma teoria razoável.

 

Sou visual ao extremo, olho querendo ver e vejo bem. Em contrapartida, tenho dificuldade em entender o que não vejo. Antes de entender uma história, entendo a imagem, depois traduzo em linguagem. Normalmente é um processo inconsciente, mas quando presto atenção, sinto que é assim que funciona a ordem na minha cabeça. A vantagem é me dar uma perspectiva extra de pensamento, posso entender o vermelho, não a palavra, a cor. A desvantagem é ser uma cética absoluta. Love me or leave me, não há concessão nem que quisesse. Vejo, logo existo. E talvez nem faça diferença para ninguém, mas faz para mim saber disso.

 

Ontem fomos ao show do Gilberto Gil. Nunca havia ido a nenhum, foi uma amiga quem me avisou. Fiquei com vontade, tem gente que precisa ser assistida pessoalmente. Quase todo mundo que gosto de ouvir, também gosto de ver, não consigo me lembrar de assistir a um show decepcionante de alguém que eu realmente gostasse de ouvir. Mas tem uma coisa que acho interessante, tem gente que eu nem ligo muito para a voz ou o repertório e de repente me animo a ver um show e gosto. É mais do que talento, é o tal do carisma. E nesse caso, só vendo.

 

Adorei o show, de verdade, acho que ontem finalmente entendi o Gil e seu carisma. Falando ele é mais ou menos, acho que chega uma hora em que você já disse tudo, não sobra muito. Além do mais, deve ser um saco cada vez que você abre a boca alguém esperar que saia algo genial. Houve um momento que achei engraçado, quando ele vira super casualmente e fala com o “Pedro”, na platéia. O Almodovar, é claro! Acho engraçado essa necessidade dos artistas contarem de quem eles são amigos, se fulano veio ao meu show, sou muito legal, se beltrano foi a minha exposição, sou bom para burro! Tudo bem, vai, é o jogo, acho que é isso que se espera mesmo e talvez também tenha que fazê-lo, pode ser que o que tenha me faltado seja passar um pouco de fome. De qualquer forma, vendo essa insegurança de a essa altura ainda sentir que precisa se afirmar, achei humano. Ele tinha dúvidas se o público o receberia bem e se estava gostando e entendendo o que ouvia, entendi isso como respeito. E vou deixar uma coisa clara, cantando essa insegurança não existia, ele sabia o que estava fazendo.

 

Gostei das suas dancinhas, algo entre o afro-indígena-espontâneo e o debochado. Óbvio que prefiro o debochado, ele pode dizer que não é, mas é sim. Uma hora não resisti e cantei no ouvido do casal de amigos da frente: vai lacraia, vai lacraia! Bad Bianca, bad girl…

 

Achei uma coisa bacana, o repertório do Gil é extenso e variado, ele pode cantar qualquer coisa e não parece artificial, sai naturalmente. Eu sei que o naturalmente costuma custar muito trabalho e esforço, mesmo assim, não é qualquer um que pode. Ele sim e faz bem, ao vivo, melhor ainda. Não notei muita mescla de elementos, muitos ritmos, mas entre si não se misturavam, achei até bem purista. E vamos combinar, o preparo físico e a leveza do cidadão não é brincadeira!

 

Como preciso de uma imagem, fico com o começo do anoitecer, à esquerda de longe o Palácio Real e a Almudena se iluminaram, à direita Luiz, na frente um casal de amigos e a uns três metros do meu nariz, Gil cantando Super Homem com um arranjo diferente. Fiquei com a impressão que era o arranjo de Só Tinha de Ser Com Você, sei lá, tinha algo de Jobim por ali. Ficou bonito. Esse conjunto de imagens me fez pensar que estava em Madri, acolhida, segura, ouvindo Gil em português. Quantas coisas tenho a oportunidade de ver e experimentar, quantas coisas ainda quero.

 

Devo admitir que tem algo que sinto muita falta dos shows no Brasil. Gosto de pista, gosto de estar de pé, sentada fico meio presa. Música tem um movimento natural, usar só o ouvido é pouco, preciso do resto do corpo. As pessoas aqui são muito educadas e assistem a tudo sentadas, até gol em estádio de futebol! Lá na galera do fundão, a brasileirada já havia começado a levantar, mas onde estava, nas cadeiras, nada, todos tão educadíssimos e eu me segurando. De vez em quando um ou outro dava aquela olhadinha para trás, acho que para ver se tinham apoio, só podia ser brasileiro. Tudo bem, me segurei o que pude, mas quase no final o Gil vem para o nosso lado e faz o gesto com os braços de levanta. Olha, podia ser que ele estivesse só chamando o pessoal para cantar, mas preferi interpretar que era para levantar e subi junto. Dane-se! E uma ova que eu ia sentar outra vez!

 

Não foi preciso, o povo se animou e começou a dançar, adorei!

 

Quando acabou, ganhamos uma carona providencial e voltamos direto para casa, afinal se aproximava a segunda-feira.

 

Antes de dormir, resolvi dar aquela última checadinha nas mensagens. Dois álbuns de fotografias do casamento de uma amiga, havia sido no fim do ano passado e não pudemos ir porque foi em São Paulo. Faz algum tempo, mas ela só me enviou as fotos ontem, essas coisas que a gente acha que fez ou deixa para outro dia e vai passando.

 

Não é que as fotos estivessem boas, é que estavam perfeitas! Lindas! Nossos amigos queridos felizes da vida. Sabia que havia sido assim, imaginei que haveria sido assim, mas ontem eu vi.

 

Toda, ou quase toda, a Diretoria presente em uma alegria contagiante. A família cresceu, a vida continuou e evoluiu como deve ser.

 

Fiquei feliz demais, juro, mas também foi me dando vontade de chorar e nem sei dizer o motivo, acho que foi saudade. Há mais ou menos um ano depois que estava em Madri, não sei, talvez dois anos, me desfiz de um mural de fotografias de praticamente todos nossos amigos; antes carrevaga ele comigo para cima e para baixo. Havia se transformado em um mural de saudades. Ontem foram as fotos que mexeram comigo novamente, dessa vez eram as que não estávamos. Deveríamos estar.

 

Eu sempre quero estar, sempre quero ver, mas às vezes não posso. Ontem deu para ver o show do Gil.

3 comentários em “Domingo visual”

  1. E veja você, eu nao pude ver o show do Gil 😦 a gente nao pode estar em todos os lugares e abraçar o mundo todo com as maos. Paciência. Tudo tem um porquê, mesmo que a gente nao entenda qual é. E viva nosso ex-ministro!

  2. Bom….varias coisas…

    Isso de “comprovado cientificamente” ñ serve pra nada. Toda hora eles “comprovam cientificamente” alguma coisa e depois descomprovam. Eu prefiro experimentar e comprovar por minha experiencia própria…acho que vc tambem é meio assim, né?
    Acho o Gil um doce. Adoro. Quando vi ele no Conde Duque ha 2 anos me apaixonei mais ainda. Uma simpatia, fofo mesmo, o show super redondinho, gostoso, boas músicas, bons músicos, ele é mesmo carismático!
    E sobre o que vc disse da insegurança e tal, eu vou gostar se uma pessoa que eu admiro for num show meu. Vou me sentir feliz, contente e agradecida, acho que o Gil curtiu que o “Pedro” tenha ido, nâo acho que seja insegurança ou auto afirmaçâo.

    Ah, MALOQUEIRAAAAAAAAA, ja sei que vc se transforma num jogo de futebol, haha….Mas sobre show é verdade, tem alguns que dâo vontade de ficar de pé mesmo….E é gozado quando eu canto em algum festival ou teatro e no repertório ta cheio de música dançante e todo mundo sentadinho me assistindo, hehe….

    E pra terminar esse comentario gigante: porque vc ñ faz outro painelzâo de fotos? Ou mais de um….amigos do Brasil, amigos de alhures, amigos daqui, familia…

    Eu adoro foto.

    Beijo grande.

  3. Oi, Vanessita!

    Sim, claro que um artista pode ficar feliz e agradecer a presença de quem ele/ela quiser, mas às vezes é política, é o jogo, assim de simples. De repente, eu é que devia fazer mais vezes, né não? Enfim, sorry, mas duvido que o “Pedro” tenha sido casual, principalmente por dizer em seguida que o comentário tinha a ver com cinema, para que não restasse dúvidas. A insegurança não foi só por isso, foi também por outro comentário que ele fez, sobre haver cancelado o último show e não saber como o público receberia e blá blá blá… na verdade, achei legal ele ainda ter essa preocupação. E como também disse, quando ele canta é outra história, vai para seu elemento e não tem nada de inseguro.

    O painel de fotos… velha história, depois te conto, aliás, está por aí no blog, em algum lugar do passado…

    Seu DVD está muito show! Qualquer hora vou ver se coloco por aqui.

    Besitos

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