Pueblos Blancos

 

E aqui estamos novamente, em Madri. Novas idéias, mais relaxada, mais descansada e um pouco mais malvada. Outro ciclo terminado e prestes a começar o próximo, afinal de contas, é assim que levo a vida, de ciclo em ciclo. Hora de reinvenção. Logo chegará o outono, momento de se livrar das folhas secas, mas ainda é verão.

 

Aliás, um verão quentíssimo! O primeiro agosto que saímos de férias, porque sempre tentamos nos programar para ir na contramão da muvuca (contramão tem hífen? Ando meio confusa com as regras novas). Dessa vez não houve maneira, ou Luiz tirava férias agora ou perdia. Sendo assim, vamos nessa, mas precisava ser algo fácil porque também é complicado encontrar com quem deixar o gato nessa época. Ou seja, nosso peludo integrante da família acabou sendo o fator decisivo na escolha de onde ir.

 

Conhecíamos muito pouco o sul da Espanha, de Madri para baixo, só Sevilla e Córdoba. Em princípio, queríamos praia, tentei Tarifa e algumas outras, mas tudo lotado! Quando encontrava algum lugar razoável que tinha disponibilidade, não aceitava animais. Quer saber, a gente faz mesmo questão de praia? Dá para parar em Granada? Faz tempo queria conhecer Alhambra. Beleza, então vamos facilitar nossa vida.

 

Encontrei um hotel charmoso meio perdido nas montanhas, próximo a um pueblo minúsculo chamado Gaucín. Luiz conseguiu fazer a reserva no último bangalô, porque mesmo assim escondido, o lugar também estava cheio. Para ser sincera, não tinha entendido direito onde era, nem fiz questão.

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Resolvi que dessa vez iria sem expectativas. Essa foi uma resolução que tomei para quase tudo na minha vida nesse momento, não quero esperar nada, ou pelo menos, o mínimo possível. O que não quer dizer que não possa aproveitar o que é bom, continuo com fome, só que sem sede.

 

Fiz uma mala que para os padrões femininos era pequena, mas para meu padrão peregrino era grande, estava com vontade de me arrumar. Escolhi três livros bem diferentes entre si e pensei que se tudo desse errado, com o ar condicionado ligado e uma taça de vinho eu poderia ser uma mulher feliz.

 

Acontece que não deu nada errado.

 

Chegamos em um lugar ótimo, chamado Hacienda la Herriza. Como curiosidade, o significado da palavra “herriza” é: terreno pedregoso, por lo general en la cumbre de un cerro, que permanece inculto por su resistencia a la reja y escasa productividad. A definição descreve o lugar e sua geografia.

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Essa região é de uma beleza diferente a que estou acostumada, é árida, seca, pedregosa. Tem outras cores. As árvores são pequenas e tortas, muitas depiladas pela metade, provavelmente atrás de cortiça. Fica a uns 70 km de Marbella e a 35km do mar, na serra de Ronda. Passamos por uma série de moinhos de vento modernos e no alto da montanha verde escuro, identificávamos alguns pequenos aglomerados brancos. Bem de cima da montanha, onde se localizava o hotel, se via a rocha de Gibraltar, o que nesse momento, apesar de reconhecer a silueta como familiar, não tínhamos certeza absoluta se era mesmo.

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Acomodamos o Jack, que sempre se comporta muito bem nas viagens, ainda que fique meio tonto na serra, igual a dona. Fizemos reserva para jantar no restaurante do próprio hotel, para o qual me arrumei como se fôssemos ao melhor restaurante da cidade, ritual cumprido em todas as noites. Comer um churrasco em roupa de banho descalça é uma delícia, mas para tomar um bom vinho, gosto de me arrumar, sei lá, estava com vontade. Aliás, de modo geral era assim com os outros hóspedes também, durante o dia, todos descontraídos, e no jantar, ainda que sem excessos, arrumados. A maioria de estrangeiros, alemães, ingleses, o que nos deixou pensando como haviam ido parar ali.

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Bom, os ingleses até acho razoável. Tenho a impressão que eles perceberam que invadir países custava muito, além de pegar meio mal esse negócio de guerra, politicamente incorreto. Então, resolveram comprar toda a costa ibérica, pronto! Invasão pacífica!

 

Importa que jantamos tranquilos, mesmo com o atendimento confuso do primeiro dia, depois melhorou bastante.

 

A rotina da primeira semana se resumiu em acordar perto das 10 da manhã, tomar um bom café e circular pela região de carro. Depois fazer a siesta, ler, ir para a piscina e morgar até a hora do jantar.

 

Nada me parecia melhor no mundo do que deitar com um livro nas mãos, um gato preguiçoso nos pés, Luiz com seu próprio planeta literário do lado, janela aberta ou ar condicionado ligado. Acho que essa será minha descrição do paraíso.

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Muito bem, mas antes de chegar ao paraíso, circulávamos de carro pelas redondezas.

 

A civilização mais próxima era Gaucín, a 6 km, em um estrada vertiginosa, que não me animava nem um pouco a frequentá-la de noite. Mas de dia a cidadezinha era charmosa, toda branca, como todos os pueblos ao redor. Como curiosidade, havia centenas de esculturas de salamancas espalhadas por suas paredes. Tentei comprar alguma para trazer conosco, mas só encontrei uma dourada que não me interessou. Talvez faça eu mesma alguma no futuro próximo, ou simplesmente guarde na lembrança.

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Também fomos até Marbella, um tipo de Miami espanhola, não consegui definir bem, muitas informações. De qualquer maneira, almoçamos um Bogavante fenomenal, é um tipo de lagosta enorme e deliciosa. Não tomei nada além de água, sacanagem com Luiz que estava dirigindo.

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De lá, seguimos para La Línea de la Concepción, de onde se sai para Gibraltar. Primeiro queria cortar meus pulsos por não ter levado meu passaporte, coisa que em seguida, nem foi tão ruim assim. Quando a gente vai chegando e vê de longe a rocha de Gibraltar, dá uma emoção diferente, nem tanto por ela, mas por poder avistar a África logo em frente. Pode parecer bobagem, talvez seja, mas para mim, conseguir avistar o encontro de dois continentes foi muito emocionante. Fiquei igual a criança quando sabe que vai ao parque.

Na mão direita, Gibraltar; na esquerda, África. Não sobrou nenhuma para tirar o cabelo do rosto!
Na mão direita, Gibraltar; na esquerda, África. Não sobrou nenhuma para tirar o cabelo do rosto!

 

Há alguns anos atrás, combinamos com meu sobrinho, que na época devia ter pelos seus 5 anos, de ir ao parque. No dia de sairmos, ele estava tão excitado que não conseguia andar direito, caminhava pulando e rindo. É a imagem que registrei para quando uma coisa me empolga muito. Não posso andar pulando porque seria ridículo, mas bem que eu gostaria.

 

No entanto, preciso dizer que a cidade em si é horrivel. Não tem graça nenhuma. Muito melhor vista de longe, com todas as fantasias de uma ponte Rio-Niterói que unisse dois mundos. Não une dois mundos e nunca unirá. Não em um tempo que eu seja capaz de testemunhar.

 

Nas redondezas de onde estávamos, conhecemos Casares, um pueblo que de longe é bem mais charmoso que de perto. A vida nos dá metáforas bastante interessantes.

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Mas também conhecemos Ronda, uma cidade impressionante, construída sobre um penhasco. É cortada por um precipício, ligado por uma ponte do século XVIII, com uma altura de mais ou menos 130 metros.

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Fuçamos até encontrar uma trilha por baixo da cidade. Um calor senegalês! Luiz me desafiou, não quer ver onde dá? Onde está seu espírito aventureiro? Ok, ok, desafiada, lá fui eu, sozinha é claro, porque ele ficou esperando no carro, ver onde dava a tal trilha. Quando cheguei no topo, vi que ainda faltava muito. Quer saber, meu espírito aventureiro está com um calor danado! Para mim já é o suficiente o que vi daqui!

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Um pueblo que me chamou a atenção foi Genalguacil, nome para mim quase impronunciável em espanhol. Mas importa que é uma cidadezinha de artistas e por onde todas as ruas há obras de arte espalhadas, como se a cidade fosse a sala da sua casa. Nesse micro povoado escondido há um museo de arte contemporânea onde vi obras muito melhores que vejo em grandes exposições por essas bandas.

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Nem tudo foram rosas, ainda me preocupo bastante com o que passa com a família pelo Brasil. Preciso aprender a relaxar um pouco mais, acho que todos nós precisamos, mas tudo ainda é muito recente. Meu meio de comunicação com o planeta é a internet, e claro que estar escondida no meio do nada tinha suas vantagens, mas a conexão era péssima. Minha mãe, sabendo que estava viajando, parou de enviar mensagens. E eu, paranóica, encuquei que podia ser algum problema.

 

Uma vez, quando minha avó paterna era viva, mas começou a apresentar alguns problemas de saúde, dormi com ela uns dias no hospital. Ela roncava para burro e pela manhã, meio constrangida me perguntou se eu consegui dormir com o ronco. No que respondi com toda franqueza que estava achando ótimo! Quando ela roncava, sabia que estava respirando, ou seja, estava viva,  e conseguia cochilar também! Sim, é um comentário bastante inoportuno, mas somos assim, fazemos humor negro entre nós mesmos e nos divertimos com isso, mesmo nos piores momentos.

 

É basicamente o mesmo conceito, mãe, pode encher minha caixa postal, porque assim sei que você tem tempo e humor, logo, está tudo sob controle! Ela entendeu a mensagem e passou a me mandar alguma coisa todos os dias, mesmo que eu não pudesse ler.

 

A falta de conexão tinha suas vantagens. Luiz também não conseguia utilizar seu celular. Vamos combinar que é muito melhor jantar sem ele neurótico checando aquela porcaria a cada 15 segundos. Podia até ir ao banheiro tranquila que quando voltasse ele não estava enganchado no Sudoku e nas posições que acabou de galgar. Mal sabe ele que se aquela bosta de aparelho não fosse do trabalho, já teria atirado longe!

 

No hotel, conhecemos dois casais. Um de Madri, cujo marido serviu no Afeganistão durante quatro meses. Um milico que resitiu a granadas, mas se derreteu todo com meu gato.  E falando em granadas, o outro casal era de Granada, nosso próximo destino, e nos deu excelentes dicas de restaurantes, onde ir etc. Na nossa última noite no local, jantamos todos juntos e tomamos um Marques de Griñon 1986.

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Abrir qualquer vinho com mais de dois dígitos de idade me deixa exultante! Lá vou eu passear no parque novamente! Nessa mesma tarde, havíamos iniciado uma degustação às 19:00hs, da qual emendamos com o jantar, ou seja, estava meio elevada, mas feliz da vida.

 

E o vinho? Redondinho! Acho que eles acharam normal, mas eu viajei na minha taça, peguei carona na cauda do cometa, vi a via láctea, estrada tão bonita, brinquei de esconde esconde numa nebulosa… tudo de direito!

 

Com 2 kg a mais e 7 garrafas de vinho na bagagem, partimos para o próximo destino: Granada.

8 comentários em “Pueblos Blancos”

  1. O sul da Andalucía é realmente lindo! Eu tenho uma história bem divertida sobre Tarifa, Gibraltar e Africa… Da primeira vez que fui a La Línea, nem sabia que dava para ir até a “Inglaterra”, foi uma visita rápida e também não sabia que dava para ver a Africa do outro lado. Na verdade, aquele dia não dava pra ver nada e como fiquei ali meia hora, acabei nem descobrindo (tinha acabado de chegar na Espanha). ç

    Um ano depois fiz outra viagem ao Sul. Dessa vez sabia que podia cruzar a fronteira, mas ver a Africa? Nada, eu via só mar… Também esqueci do passaporte e fiquei do lado de cá mesmo. Quase chegando em Tarifa, paramos na estrada para comer alguma coisa e vi muitos postais a venda com imagens da praia de Tarifa e da Africa do outro lado… Me empolguei toda, mas qdo cheguei em Tarifa, NADA. Nada de nada de Africa… e eu perguntava: mas oooonde se vê? Pra onde eu tenho que olhar? Nada…um imenso mar na minha frente. Fiquei muito p….! Mais furiosa ainda com aqueles mentirosos que fabricam postais no photoshop! Sai dali decidida que era tudo uma farsa… ainda que todo mundo mee dissesse que normalmente se vê realmente a Africa.

    Acabou que no outro ano fui ao Marrocos e ai sim, eu vi! Não a Africa, mas a Espanha…hehehe… na ida fomos pela noite (e obviamente nao vi nada além de luzes) e na volta saimos de Tanger durante o dia e chegamos pela noite, ou seja, vi a Espanha mas não vi a Africa!!!

  2. Bem bacana mesmo… ver o outro continente deve ser muito legal… de andaluzia, só conheço Granada, Sevilla, Córdoba e Málaga. Marbella como Miami espanhola foi boa, hehehe. Ronda parece ser linda!

  3. Oi, Selma! Seja bem vinda!

    Oi, Glenda! hahahaha… pode acreditar, não é lenda urbana! Realmente, dá para ver a África! Mas tinha um pouco de neblina, então imagino que não se veja todos os dias mesmo. Fico feliz que dei sorte, e que você pelo menos viu a Espanha. Estou planejando ir a Marrocos em novembro, quem sabe também consiga ver a Espanha de longe.

    Oi, Alessandra! Até que você conhece bastante coisa da Andaluzia, antes dessa viagem, só conhecia Sevilla e Córdoba e mesmo assim, no esquema bate e volta. Málaga a gente viu pela estrada, mas decidimos não parar. Ronda é bem legal sim, tentamos fazer um passeio de balão que sai de lá, mas eles eram muito enrolados, demoraram 3 dias para dar uma resposta, mudaram o preço… no final desistimos.

    Besitos

  4. Oi Bianca

    Que delicia viajar. Que bom que animais ainda são aceitos em hoteis, não confio muito em deixar com os outros o Fumaça não.
    As fotos estão ótimas, de dar água na boca.

    Beijos

    Marianne

  5. Oi, Marianne!

    Acho que poderia viver viajando. E sim, muitos lugares aceitam animais. De Madrid para o sul, para onde fomos, é mais difícil; mas quanto mais você sobe, vai se entender porque, fica bem mais simples. E da França para cima, acho que praticamente todos aceitam com bastante normalidade.

    Não me importo em deixar o Jack aqui em casa com algum amigo ou amiga, mas claro que preciso confiar muito na pessoa. Para ele é melhor, ele se comporta nas viagens, mas não gosta do trajeto. Agora, deixar nesses hoteizinhos de animais… nem morta! Se fosse cachorro era mais fácil, porque sempre passeiam um pouco e socializam, mas os pobres dos gatos ficam em gaiolas o dia inteiro.

    Para você que gosta de fotos, o próximo também tem várias. Difícil é escolher quais publicar.

    Besitos

  6. Olá Bianca,

    Nas minhas andanças pela internet descobri o seu blog e gostaria de saber se você pode me dar dicas. Em maio vou conhecer as terras de meus avós paternos. Orgiva (em Granada) e La linea de La Conception.
    Chegarei em Madrid direto do Brasil. Você sabe qual seria o melhor percurso. Pretendo viajar de trem. O que ver de melhor em Orgiva (em Granada) e La linea de La Conception (terei 3 ou 4 dias em cada cidade).
    Abraços,
    Rosely
    de São Paulo

  7. Oi, Rosely!

    Olha, vou te dar uns palpites, mas é muito pessoal, ok? Adianto que para Granada e Sevilla, você encontra trens direto de Madrid. Mas para o restante do sul do país é mais complicado. Você pode checar diretamente os itinerários dos trens no website da Renfe (empresa de trens aqui), que é http://www.renfe.es

    Não lembro de “Orgiva”, mas Granada é uma graça! Merece a visita e tem muito o que fazer. Além desse post sobre Pueblos Blancos, tenho quase certeza que há um outro sobre Granada e Alhambra, dá uma olhada, deve ser o próximo.

    Agora, La Linea de La Concepción é uma cidade feia pacas! Enfim, sei que tem o lado afetivo dos seus avós, então, acho que vale à pena conhecer, mas não tem porque dormir lá. Em uma tarde você conhece tudo! As únicas coisas legais são ver de longe a rocha de Gibraltar e, dependendo do tempo, conseguir ver a África. Achei bacana conseguir visualizar outro continente desde a Espanha. Mas a cidade em si é sem gracérrima! Se fosse você, alugava um carro já em Granada, passeava por aquelas bandas e voltava. Você pode dormir pelo caminho da volta. Se gosta de cidades maiores e praia, tem Marbella e Málaga. Se prefere pueblos menores, tem Ronda que é mais interessante e você ainda passeia pela serra onde há vários outros povoados.

    Boa viagem!

    Besitos

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