Fome, minha primeira ficção, e os bastidores de como publicar um livro!

Fotografia: Claudio Harris

Lá se vão quase 16 anos e foi em um blog que comecei a escrever publicamente. Às vezes, me assusta pensar em quanto tempo já se passou! O velho clichê do parece que foi ontem! Durante esse período, muitas pessoas me perguntavam por que eu não escrevia um livro.

A resposta era bastante simples, escrever um livro me custaria caro! Não tenho editora e não conheço ninguém na área. Teria que publicar arcando com todas as despesas e, ainda por cima, precisaria pensar na logística de distribuição.

Ainda assim, há uns 6 anos, tive a ideia de uma história para escrever. Minha primeira ficção! Queria fazer algo diferente do blog, se era para mudar de canal, por que não navegar em outra dimensão?

Escrever uma ficção era libertador e, ao mesmo tempo, um desafio. Libertador, no sentido de poder me tornar qualquer pessoa sem os filtros dos meus próprios valores, pelo menos em teoria. E um desafio em conseguir de verdade me molhar nessas águas, arriscar na criação, ser capaz de imaginar e sentir na pele experiências completamente fora do meu universo.

Entretanto, até o ano passado, terminar o tal livro não era uma prioridade. Era um projeto que estava lá, aguardando uma oportunidade. Mas pelo meio de 2018, achei que ou resolvia esse assunto ou esquecia de vez! Estabeleci um prazo para acabá-lo até o final do ano. E sabe como é, quando realmente direcionamos nossa energia, as coisas começam a acontecer. E, no fim de 2018, terminei o bendito livro!

Então, tá, né? Com o texto pronto na mão, como é que eu fazia agora? Achava fundamental que o livro tivesse algum tipo de edição. Porque eu já estava cega para eventuais erros!

Parti para solução caseira, pedi a minha prima, Fabrina, e duas amigas, Eliana e Cláudia, para lerem para mim. Sem a preocupação de gostar da história, o objetivo era pegar o que poderia haver de errado em ortografia, em ordem lógica, em possibilidades de interpretação… enfim, o que eu já não tinha mais condições de enxergar. E o Luiz, meu marido, era o “me ajuda em tudo aí, por favor”! Na alegria e na tristeza… na saúde e na doença… nos perrengues diversos… Entre concordâncias e discordâncias, achei essa parte do processo fundamental. Porque trouxe novos olhares e toques interessantes. Mesmo o que eu não concordava, acabava por reforçar as ideias, ou seja, usando ou não as observações, considero que no conjunto me adicionou e elevou a qualidade do trabalho.

Ok, legal… mas, e aí? O que fazer para botar o bloco na rua?

Recomendo que você registre seu livro na Biblioteca Nacional. Sei lá, seguro morreu de velho… Dessa forma, você garante que ninguém use sua ideia sem te recompensar por isso. A burocracia é pequena, simples e custa apenas R$20 (em fevereiro de 2019). Achei um guia passo-a-passo muito bom no blog Papo de Autor.

Você também precisa pensar em uma capa. Por favor, não saia copiando imagens pela internet. Principalmente, porque é legal respeitar o direito das outras pessoas. Você quer que respeitem o direito à autoria do seu livro, certo? Imagina ele copiado por aí, em nome de outro! Com a imagem é a mesma coisa, se está lá, alguém fez. Além do mais, o uso indevido de alguma imagem pode te dar sérios problemas (merecidos!). Resolvi eu mesma criar um “cenário” e tenho a sorte de ser amiga de um fotógrafo profissional excelente, o Claudio Harris, que fez e editou a foto para mim. A parte curiosa é que, no meu caso, ainda pude literalmente jantar a capa!

Pergunta daqui, pergunta dalí, fui parar no kdp.amazon.com. Cheguei a publicar por lá, gastei a maior energia com divulgação dos links, vendi alguns livros… e de repente, me chegou um email dizendo que eu tinha múltiplas contas no KDP, o que era irregular, que uma das minhas contas era atrelada a outra bloqueada por conteúdo impróprio e que por isso minha conta havia sido cancelada, os links de venda saíram do ar e não pagariam meus royalties dos livros vendidos. Lindo, né? Eu não tinha outras contas, nunca tive conta bloqueada antes e é meu primeiro e único livro. Obviamente é um erro, mas até provar que focinho de porco não é tomada… E, pesquisando pela internet, li sobre outros autores que tiveram exatamente o mesmo problema! Assim que, se fosse você, evitaria trabalhar com eles ou tome muito cuidado. Pessoalmente, o que achei mais desonesto de tudo foi eles embolsarem os meus royalties dos livros vendidos!

Há outras alternativas e agora estou buscando novas possibilidades, aqui você encontra algumas. E se estiver no Brasil, há plataformas nacionais também, como por exemplo, a Saraiva. Enfim, busque a que melhor te atenda. Estou inclinada a usar o Smashwords.

Livros publicados recebem um ISBN (International Standard Book Number), que é uma identificação. Esse sistema identifica numericamente os livros segundo o título, o autor, o país e a editora, individualizando-os inclusive por edição. Se você fizer direto pela Amazon, eles automaticamente atribuem um ISBN para você.

Estou aprendendo um monte de coisas! Apanhando um pouco, mas ainda assim, adorando!

A parte da divulgação é um pouco mais complicada. Pessoalmente, uso os recursos que posso, Instagram, Facebook, boca-a-boca, peço para amigos, escrevo post no blog… Luiz está ajudando bastante também. E, aproveitando a ocasião, se puder divulgar meu livro, a família agradece!

Fotografia Claudio Harris

Fome é uma ficção do gênero suspense e mistério. É um livro que gera sensações tão incômodas como o título sugere. Trabalha com a ideia de que não existe um ser humano totalmente bom ou totalmente mau. Há um padrão de comportamento e regras sociais estabelecidas, mas quando as pessoas são levadas a uma situação limite é difícil ter certeza para onde a balança pesaria. Tendemos a julgar os outros por esses padrões e por partes de informações que temos acesso, mas na privacidade dos indivíduos, tudo pode acontecer, desde situações absolutamente rotineiras a completos absurdos. Então, se pudéssemos entrar na realidade de cada um, conhecer seus pensamentos e necessidades mais íntimas, será que julgaríamos da mesma forma? E seria justo julgarmos os valores alheios? Quem teria o direito de estabelecer o que está certo? Para repensar esses e uma série de outros questionamentos éticos, inclusive temas considerados tabus, os três personagens principais do livro, Tara, Adroa e Zao, são levados a passar por situações extremas de violência, abusos ou mesmo amor, e tomam suas decisões.

Para quem acompanha o blog, aviso que é bastante diferente do que vocês encontram por aqui. Começa por ser uma ficção, oposto do meu blog que é autobiográfico. Em alguns momentos do livro, utilizo experiências pessoais em personagens diferentes, até porque posso falar com mais propriedade sobre assuntos conhecidos. Mas o que os personagens fazem com isso… é problema deles!

Escrevê-lo não foi simples. Levei a sério o exercício de entrar na cabeça dos personagens e tentar agir de acordo com as suas convicções e valores. Fome é narrado em primeira pessoa, por uma das personagens principais, então, precisei realmente ter esse posicionamento de me colocar no lugar de outra pessoa. Houve um lado muito bacana que foi conseguir ver diferentes prismas de uma mesma verdade. Mas também houve um lado incrivelmente duro, porque há momentos de muita violência ou perversão onde ficava até difícil dormir depois. Por não ter imagens, os temas não podem ser apenas sugeridos, preciso ser muito descritiva e a imaginação pode ser pior do que uma cena pronta de filme, que já haverá passado por certa censura.

A linguagem é direta e, às vezes, até literal. Mas houve um trabalho grande de pesquisa e há uma série de mensagens nas entrelinhas. Portanto, existe mais de uma maneira de interpretar a história. Mais do que respostas certas, o que me interessa são as perguntas, é o questionamento, a possibilidade de ver situações de uma outra maneira. E, se me permitirem o abuso do seu tempo, recomendaria que o livro fosse lido mais de uma vez. Tenho certeza que parecerão livros diferentes. Não é longo, não é difícil de ser lido e é um livro para adultos.

Aos que se aventurarem a seguir caminho parecido, conto que a realização de ver seu livro publicado é fantástica! Por mais que ele estivesse pronto dentro do meu computador, a sensação de entrar em um website e ver sua criação pública e disponível é completamente diferente. Fiquei feliz só de saber que estava lá! Comemorei a primeira venda como se fosse algo extraordinário! Porque, para mim, foi.

Essa experiência de escrever tem me trazido um enorme aprendizado em diferentes perspectivas, ampliou meus horizontes. Escrever especificamente uma ficção, me ensinou ainda mais a me colocar no lugar do outro e tenho muito orgulho dessa possibilidade de empatia. Traz um lado de humildade, por entender que nunca serei a dona da verdade e outro lado de poder, por ser capaz de ver essa verdade com cores diferentes. Não sei se escrever me fez uma pessoa melhor, mas definitivamente, me fez maior.

2 comentários em “Fome, minha primeira ficção, e os bastidores de como publicar um livro!”

  1. Não é atoa que um livro é considerado uma obra. Você é uma operária da cultura. Obras de arte e agora obra literária.
    Adorei a experiência de ler o livro e ver quantos questões éticas me passaram desapercebidas. Muito gratificante considerar as mesmas passagens sem as lentes das respostas preconcebidas.
    Um texto que prende o leitor e traz algumas surpresas inusitadas. Vale muito a pena ler! Eu vou para o meu segundo round.

  2. Obrigada, Claudíssima! Não só pelas palavras muito bacanas agora, mas pela super ajuda no próprio livro em si! Beijão

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