A idade e o tempo

Tenho 46 anos de idade, muito bem vividos, se é que preciso adicionar. Tenho refletido sobre a idade e o tempo, que apesar de caminharem em paralelo, nem sempre obedecem as mesmas regras. Interessante, porque na Europa, acho que refletia mais sobre o tempo, aqui no Brasil, penso mais na idade. Também são relações diferentes nos continentes. Não quero entrar na comparação do que é melhor ou pior, porque é uma discussão cultural muito mais profunda e ampla, além do que, depende do que esteja em questão. Mas analiso hoje em como isso tem me impactado diretamente.

Sinto uma cobrança em relação à idade no Brasil muito maior do que sentia na Europa. A velhice me parece ser vista como um defeito, um problema, e não algo natural. Talvez por isso as pessoas se preocupem tanto em manter uma aparência o mais jovem possível! Como uma Síndrome de Peter Pan generalizada, porque envelhecer parece que faz mal.

Não estou livre dessa epidemia! Juro que, ao pisar em solo nacional, minha preocupação em relação ao meu corpo, minha pele, meu cabelo… de repente, ganhou uma prioridade bem maior! É uma cobrança invisível que nem sei da onde vem, acho que muitas vezes de mim mesma! Tem um lado gostoso que é de me cuidar melhor, de me sentir mais bonita que acho bom. Nunca defendi que as pessoas devessem ser descuidadas, mas não vou negar que as proporções entre saúde e estética aqui são diferentes.

E me pergunto por quê? Pior, por que eu também caio nessa?

Acho irritante essa categorização do que a gente deve ou não deve fazer dependendo da idade. Parecem haver pacotes em que você precisa caber, mas é uma coisa meio neurótica porque, ao mesmo tempo é uma armadilha. Na hora que você cabe… surpresa: você está velha! Sai daí correndo porque isso não é legal!

Daí, temos um problema, porque ainda não me encaixei em nenhum pacote, nem acho que é ruim ter a idade que tenho. E eu tenho 46, qua-ren-ta-e-seis, anos de idade! Eu gosto de tê-los! Acho muito legal quando me acham mais jovem, no sentido de parecer bem, parecer saudável! Mas não preciso e não busco, sinceramente, parecer mais jovem do que sou.

E olha o tamanho da esquizofrenia, por um lado, não deveria usar determinados comprimentos de roupas, mesmo sabendo que caem bem no meu corpo; não é normal querer dançar uma noite inteira, ainda que tenha energia para pular um frevo quando raia o sol; não é possível tomar tal quantidade de whisky, ainda que esteja melhor que a maioria dos garotões gandralhões em volta; não posso estar falando sério em achar que essa barulheira eletrônica é música, mesmo que viaje amarradona com as batidas do meu coração… e se faço isso, caramba, estou achando que sou ainda uma garotinha, né?

Por outro lado, na hora em que decido que cansei de pintar meu cabelo e assumir meus prateados fios, que diga-se de passagem, não me incomodam em absolutamente nada, escuto um, “ah, mas envelhece”! Ou nem escuto nada, mas sinto aquele olhar não muito disfarçado para a raiz dos meus cabelos, com aquela expressão de, será que ela não notou?

Oi? Fazer o que gosto e posso é não aceitar minha idade, mas curtir a cor natural do meu cabelo e achar que meus fios grisalhos me dão certo toque de elegância é deixar me envelhecer precocemente, coisa de mulher relaxada, que desistiu! Ninguém mais acha isso confuso? Porque para mim é de uma incoerência brutal!

E os lugares para sair à noite? As tais baladas! Para começar, te desanima olhar da porta uma fila de praticamente pré-adolescentes! Não tenho nada contra misturar idades, acho até mais divertido, quase tudo que mistura, para mim, fica mais interessante. O problema é olhar em volta e não ver outros pares como eu. Faz a gente se sentir como fora de lugar! E nem é pelos pré-adolescentes, é pela falta dos iguais. Fora a palhaçada de em alguns lugares analisarem como você está vestido para entrar. Entendo um “dress code”, faz parte da vida social, mas não admito alguém julgar qualquer pessoa pela marca da roupa ou pelo gosto pessoal, o que acaba acontecendo aqui. Enfim, esse já é outro caso, mas digamos que, com um público mais maduro e misturado, se pensaria duas vezes em adotar critérios dessa natureza. Verdade que nem sempre a culpa é dos estabelecimentos. Acho que isso é só uma consequência, porque se houvesse público maior, a demanda puxaria e os locais se adaptariam. Acredito que é porque no fundo está arraigado no subconsciente das pessoas essa ideia que temos que mudar o comportamento ao envelhecer, mudar para um comportamento adequado à nossa idade ou fase de vida.

Eu me lembro da época em que me casei, existia essa história que você precisava mudar quando se casava. Sair menos, ficar mais careta. Quando tem filhos então… putz, parece que tem que se aposentar da vida social, principalmente a noturna. Veja bem, é claro que mudamos com a passagem do tempo, é natural que as prioridades não sejam as mesmas, que a própria disposição não seja a mesma, mas isso não significa que você precise ser outra pessoa cheia de restrições. Por exemplo, sou casada há mais de 22 anos e, pasmem, sigo adorando uma balada! O que mudou? Agora é melhor, porque vou muito bem acompanhada (do meu marido)! Ah, mas é fácil para eu falar, não temos filhos! Pois é… foda-se, foi nossa opção e não vou me sentir culpada por isso e deixar de curtir a vida que posso. Acho que se você nunca foi de sair mesmo, nenhum problema! Gosta de dormir cedo? Ótimo! Curte ficar em casa brincando com os filhos? Melhor ainda! Mas o que observo na prática é que, muitas vezes, se usa os filhos ou o casamento, por exemplo, como desculpa fácil. Afinal, você está em outra fase de vida, outra idade, né? Você já está velha para isso…

Mas em todo lugar não é assim? Não, não é. Pode ser melhor, pode ser pior. O importante é que não precisa ser assim! Em Madri, por exemplo, onde moramos por oito anos, a noite é milhões de vezes mais democrática! Cansamos de ir a lugares com as faixas etárias mais variadas possíveis! E não estou falando apenas de restaurantes, estou falando de casas noturnas mesmo, com música ao vivo, lugares para dançar, para beber etc. E não digo apenas pela idade, seu sexo também não é um fator limitador. Imagina uma mulher, de qualquer idade, saindo a pé sozinha, vestida como bem entende, durante à noite, para ir a uma balada, sabe como ela é julgada por isso? Como uma pessoa que saiu para se divertir. E sim, se Luiz não podia ou não queria sair comigo, eu saía tranquila (e ele também) porque tinha certeza que sempre haveria alguém para bater papo, tomaria meu drink dançando e ouvindo música, muito provavelmente encontraria alguém conhecido e voltaria para casa sã e salva sem ser assediada. Bom, talvez fosse abordada por algum grupo que passasse para seguir cantando junto pelo caminho. O fato é que em nenhum momento parava para pensar se estava na faixa etária adequada, se minha roupa queria dizer alguma coisa estranha ou se ali era meu lugar. Não importava. E por que deveria importar?

Vontade de sair berrando, gente, não importa! Vamos para rua, vamos sair para dançar ou vem para a festa! Esquece que está frio, que está choviscando, que vai ficar tarde, que amanhã o fulaninho vai te acordar tão cedo… que, convenhamos, não tem mais idade para isso!

E como muitas vezes a língua nos define, sejamos um pouco espanhóis nesse aspecto. Na Espanha, a gente não “envelhece”, ficamos “mayores”. Portanto, não se preocupem tanto com o que vocês deveriam ser, parem de julgar as pessoas e se sentirão menos julgados e, finalmente, não estamos tão velhos, só com um pouco de preguiça. Sejamos todos “mayores”!

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14 comentários em “A idade e o tempo”

  1. Eu moro na Galicia e sinto exatamente a mesma coisa quando vou ao Brasil, tenho 60 anos deixei meus cabelos brancos, e sao brancos aqui sou chic, ai sou descuidada, aqui tenho amigos de todas as idades, pra conversar e pra o que nos quisermos que afinal somos todos maiores, no Brasil seria disponivel, eu amo a España e quero me fazer mayor aqui, que com 60 ainda dou una chica joven de buen ver. Besos Bianca volte sempre.

  2. Tenho uma amiga de blog que vinha sempre por aqui, Antonia da Galicia também! É você, Antonia? Fiquei na dúvida porque acho que o email é diferente. Mas enfim, se for a mesma, estava com saudades! 😀 E se for uma nova Antonia, seja bem-vinda! De toda maneira, pues por supuesto que eres una chica joven de buen ver! Beijo

  3. Ultimamente tenho sofrido com uma saudade “estranha” e quando tento buscar conforto, o encontro na nostalgia de Madrid. Exatamente por tudo o que você comentou tão bem (como sempre o faz em suas crônicas). Depois de lá, assim como vc, te morei em outro país antes de retornar para o Brasil. E tenho e sinto suas mesmas impressões com respeito à idade e tempo. Meu pequeno tinha uns 4 meses quando fui com ele viajar com as amigas (vc conheceu todas), final de semana em uma casa rural com varias mulheres e 1 bebê, em algum pueblo da Rioja. Ainda não tive oportunidade de fazer o mesmo aqui, pq ninguém do meu círculo de amizade se anima (e hj seria bemmmm melhor pq o bebê cresceu e poderia muito bem ficar com o pai). Mas as prioridades, os problemas e desculpas são outros. Tenho muitos fios de cabelos brancos que os cuido e estimo com orgulho (gosto deles mesmo), mas para minha mãe, por exemplo, é sinal de “desleixo”. Por vezes tenho conflitos internos por conta da roupa que usar, da maneira como me comportar, da unha por fazer, da ruga que apareceu de repente e nem notei. Por vezes me sinto um “peixe fora d’água”, mas dura bem pouquinho pq assim como vc, adoro apertar o botãozinho do foda-se, ora bolas! Claro que sinto o tempo passar, mas para mim não é nenhum problema. O que quero ser quando crescer? Mayor … não vejo a hora 😉

  4. Iuuuhuuuu!! Está de volta!! Não posso comentar sobre o Brasil pois estou envelhecendo na Europa. Mas aqui também não sinto esse peso da idade. E acho ótimo 🙂

  5. Que legal, Antonia! Estava com saudades de você! Verdade que também ando meio sumida das crônicas… Enfim, espero que esteja tudo bem contigo! Beijão

  6. Oi, Claudinha! 😀 Sim, tentando voltar ao ritmo de escrita… não é muito simples aqui do Brasa, afinal, tem horas que fica chato escrever só reclamando, mas enfim… vamos tentar, né? Beijo

  7. Total acordo, Tati! Tão bom ser compreendida… ai, ai… pena que não estamos na mesma cidade! 🙂 E também tenho amigos legais que gostam de sair aqui, mas é outra dinâmica, até porque admito que a cidade é imensa e tem mil complicadores… além dessa questão cultural da “idade”… mas enfim, acho que nunca é fácil, a gente sempre tem que se esforçar um pouco e criar as oportunidades, né? Ou tudo vira desculpa! Beijão

  8. Amiga, o texto maravilhoso como muitos outros. A idade nunca foi problema para quem é bem resolvida. Assim, como o peso e digo por mim mesma, você sabe! Aparencia, roupa…realmente como diz a publicidade ” o mundo trata melhor quem se veste bem”. E parece que temos que ter roupa de marca e apropriada a idade, o corpo e cabelos nas ultimas tendencias, e seremos melhores pessoas. Adorei sua abordagem sobre essa falsa hipocresia que nos rodea. Uma conhecida que voltou ao Brasil, está bem de vida, montou seu proprio negocio e vai super bem, mas pensa em volta por que se sente só. Esta rotulada com seus 46 anos, solteira, sem filhos, é uma ameaça para o grupo de amigas casadas, uma velha para o grupo das solteiras, solteirona, que sai de balada, mulher independente, bem sucedida e segura de si, assusta, ameaça…. Triste realmente, essa nossa “cultura retrograda”. Me senti muito identificada Bi como texto. Aliás 30 anos no Brasil e nao estar casada, já uma cruz que você leva! E 40 anos sem filhos ?! . Agradeço ter a mente aberta que tenho hoje e por viver em Madrid. Aqui vos fala, Patricia após a operação de Apendicite (é por idade também né?! kkk) e com um tempinho extra para desfrutar dessa boa leitura!

  9. Oi, Patricia sem apêndice… rsrsrsrsrs… e não, não é pela idade, tem muita gente que opera bem mais nova 😉 Melhoras rápidas para você e seja bem-vinda sempre! Beijo

  10. Esse tema é muito bom. Mas é tão difícil resistir a essa pressão social “invisível”. Estou morando há 1 ano na Espanha. Na preparação pra vir pra cá, li muito seu blog Bianca. Suas reflexões me ajudaram a entender porque eu queria me mudar, sair do Brasil. Hoje, sinto tudo isso que você está dizendo. Olho para a minha vida no Brasil e vejo claramente essa obsessão pela aparência (em todos os sentidos). Tenho 28 anos, meu marido e eu nos mudamos na coragem para começar tudo do zero. Tenho a cidadania espanhola mas viemos sem trabalho certo. Apesar disso tenho cada vez mais certeza que fizemos a escolha certa. Lá era trabalho sem qualidade de vida alguma, não saíamos muito por causa da violência no Rio de Janeiro e não caminhávamos mais de madrugada (coisa que adoramos). Apesar da falta de emprego nos viramos em trabalhos pela internet e por enquanto tá dando pra levar. Moramos numa cidade pequena e adorável na Catalunha. Vou à academia de bicicleta todos os dias, andamos de madrugada aproveitando a brisa fresca do verão e não tenho medo de estar sozinha à noite. Parece que isso não tem preço!
    Sinto que nós duas nos desencontramos. Vocês passaram anos na Europa e voltaram ao Brasil no ano passado, justamente quando nós viemos pra cá. Pensava eu que numa ida a Madri te encontraria pela rua, hehehehe. Quem sabe um dia!
    Por favor continue com as crônicas. Nós, que gostamos de escrever, adoramos uma boa reflexão, uma outra opinião, uma nova ideia. Trocar é muito valioso. Qual seria a graça da vida sem isso? =)
    Beijos, Joana.

    ps: Já pensou em tornar os textos do blog em livro?

  11. Que legal, Joana! Prazer em te conhecer virtualmente! 🙂 Quem sabe um dia, pessoalmente também, né? Em algum momento, sei que voltaremos à Europa, é só uma questão de tempo e de resolver tudo que precisamos por essas bandas.

    Pois é, as crônicas ficaram meio paradas aqui no Brasil, eu sei… me cobro e me cobram sempre! Sabe o que é, fica chato escrever só para reclamar das coisas ou falar sobre política (que é o tom das conversas atuais por terras brazucas). Depois, tenho muita inspiração de temas para escrever sobre o que observo caminhando pelas ruas e, aqui, praticamente não caminho pelas ruas nunca, só de carro (e blindado 😦 )! Fora que morro de medo de me expor demais e sofrer algum tipo de violência… Ou seja, está difícil, mas mantenho o blog assim mesmo, acredito que a vontade de registrar tudo volte! E assim, vou escrevendo em doses homeopáticas.

    Mas te digo que posts como o seu funcionam como incentivo para mim, juro que bate aquele “preciso realmente voltar a escrever”! rsrsrsrs… A cobrança dos amigos também, sei lá, uma hora vai!

    Já pensei algumas vezes em transformar os textos em livro, de vez em quando alguém me sugere. É um projeto em paralelo que anda um pouco parado, mas preciso retomar. Tenho uma ficção escrita também, um tipo de “romance noir” quase no final, faltando só os retoques e edição, outro projeto que preciso retomar… rsrsrsrs. A única coisa, é que provavelmente aposte em livros eletrônicos, porque seria muito improvável alguma editora se interessar em me publicar. Não conheço ninguém nessa área.

    Enfim, seja bem-vinda sempre e sejam muito felizes por onde optarem viver! Você tem blog também, né? Vou lá dar uma bisbilhotada nos seus textos 😉

    Beijo

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