Doação de cabelos para mulheres com câncer, um alívio!

O título é forte, eu sei, mas há pílulas que não deveriam ser douradas. O problema existe, está lá, pode ser muitas vezes resolvido e com certeza, sempre amenizado.

Acho que é um tratamento duro para qualquer pessoa, seja de que sexo ou idade for, mas definitivamente, há um aspecto que pesa mais para as mulheres, a perda do cabelo. Porque para nós não é só cabelo, é tudo que ele representa em relação à nossa imagem e feminilidade.

Muitos de nós já viram cenas de filmes ou novelas que abordam o momento carregado de emoção e simbolismo da mulher com câncer raspar sua cabeça. Esse momento não é ficção, ele existe e já estive presente em um.

Acho que nunca contei essa história para ninguém, só sabe minha mãe que estava junto, e mesmo agora, depois de tantos anos é difícil decidir falar sobre esse assunto. Já fiz chá, já busquei se havia nascido algo na geladeira, já chequei umas dez vezes os mesmos emails… não há mais desculpas, vamos encarar isso de frente e compartilhar a experiência.

Não me lembro exatamente há quanto tempo, nunca fiz questão de guardar datas tristes, mas certamente, haverá mais de vinte e poucos anos, porque foi antes de conhecer Luiz. Minha avó materna teve câncer, descobriu através de um tumor na cabeça que se espalhou pelo corpo com bastante rapidez. Mas um dos primeiros passos, foi a extração desse tumor através de cirurgia.

No dia da internação, fomos minha avó, minha mãe e eu para o hospital. Minha avó tinha verdadeiro horror a hospital! E nós tentávamos, de alguma maneira, manter a moral mais alta. Aprendi duas coisas bem jovem: a primeira é que o principal alimento dessa doença é a tristeza; a segunda é que ninguém tem dia certo para ir, sempre há uma esperança. Tive a sorte de presenciar várias histórias de sucesso.

Na nossa família, a maneira de lidar com qualquer situação, mesmo as mais terríveis é através do humor. É nosso escudo protetor. O deboche dos problemas é uma carranca em frente ao navio que assusta os maus espíritos, é como dizer ao medo, sou mais forte que você! Bom, há uma outra maneira, que é comer! Porque todo mundo é boa boca, seja o problema que for! Mas não é esse o caso.

Assim que, nos momentos mais difíceis, nossas piadas internas são o mais politicamente incorretas possível! Daquelas que dariam cadeia se faladas a qualquer estranho! Nos sacaneamos e rimos do mais improvável, de preferência, ao redor de uma mesa, comendo!

Mas já estou enrolando para entrar no assunto novamente, eu sei.

Pois estávamos as três mulheres no quarto, falando bobagem para o tempo passar menos lentamente. Entra um barbeiro, pergunta quem fará a cirurgia e diz diretamente para minha avó, sem rodeios, vim raspar sua cabeça. Ele achou que ela soubesse.

O ar parou, ficou pesado, não conseguia nem respirar, acho que ouviria uma mosca, se alguma ousasse se mexer naquele segundo. Minha mãe e eu desconfiávamos que isso iria acontecer, mas acho que tentávamos nos iludir com um “quem-sabe-só-raspam-um-pedacinho”. E minha avó não tinha a mais remota ideia que isso iria acontecer, foi pega completamente de surpresa.

_ Mas tem que raspar minha cabeça inteira?

Tinha, a cabeça inteira. O cabelo já havia começado a cair devagar, devido à radioterapia, mas ela achava que daria para manter o cabelo curtinho, ou tentava nisso acreditar.

Em pouco tempo, o som de fundo do quarto era o da máquina do barbeiro. A cada passada na cabeça da minha avó, chorava ela e chorava ele, que se desculpava sem parar. Caiam cabelos e lágrimas. Minha mãe e eu não choramos, também não nos olhávamos. Não precisava, cada uma sabia o quanto era difícil engolir o próprio choro sozinha. Tentávamos nos concentrar em animar minha avó com as frases de sempre: cabelo cresce… pode usar um lenço… pode usar peruca…

Até que ela lembrou que meu avô iria chegar e a veria careca, acho que isso foi a pá de cal que ameaçou derrubá-la de vez! E perguntou retoricamente, completamente derrotada, e o que faço com essa cabeça raspada assim?

Já não havia o que dizer, nada lógico poderia consolar, não tínhamos mais argumentos que pudessem amenizar a realidade. Pois mais forte do que eu e mais rápido que pudesse pensar no que estava dizendo, respondi completamente debochada: pinta a cabeça de preto!

Outra vez o ar do quarto parou! Todo mundo prendendo a respiração, ela vira para mim com aquele olhar de ódio e…

… começa a imaginar a patética cena de pintar sua cabeça, como se ninguém fosse notar a diferença!

Sua expressão foi mudando e, ao invés de me xingar de todos os nomes (que era o que esperava, mas pelo menos ela desabafava), ela caiu na gargalhada!

Foi um soco de alívio, que é contraditório, mas é o que melhor expressa, porque era como uma autorização para todos relaxarmos um pouco! Caímos os quatro, inclusive o barbeiro, em uma gargalhada histérica, imaginando ela pintando a cabeça, usando aqueles sprays colorantes que os meio carecas colocam para disfarçar a calvice, saindo na chuva e borrando tudo… enfim, cenas completamente surreais! Claro que ela me xingou também, de todos os nomes, mas de uma forma mais leve e, dentro do que cabia, até divertida.

Não ficamos felizes, o problema não foi embora, todos tínhamos consciência da seriedade do assunto, mas uma gargalhada naquele momento era o máximo que poderíamos gerar de alívio! E era tudo que ambicionava para nós, principalmente para ela, um pouco da sensação de alívio!

No ano passado, quando pensei em cortar o cabelo, afinal mulheres quando mudam por dentro, demonstram por fora, decidi doá-lo a alguma mulher com câncer. Sinceramente, não lembrei dessa história da minha avó, essas coisas ficam guardadas bem lá dentro e não saem assim fácil ou obviamente. Era simples, algo que iria fazer mesmo, talvez menos curto, nada tão diferente ou que me custasse tanto trabalho. Então, por que não ajudar alguém? O que não custa para mim é difícil para outra.

Então, decidi aguentar o máximo possível, para doar uma boa quantidade. Estava, literalmente, cultivando cabelo! Adiei um pouco a decisão, busquei onde doar, como fazer… até que bateu os cinco minutos! É nesse final de semana e será curto, radical!

Fui com Luiz, porque queria que ele documentasse para mim. Acho importante divulgar essas coisas com o próprio exemplo. Muito fácil dizer para outra mulher, vai lá você! Não é simples tomar a decisão, mas quando você toma, posso assegurar, é uma delícia! Nunca foi tão bom cortar meu cabelo! Todo mundo adorou, as amigas deram a maior força, os amigos também incentivaram, o marido achou o máximo e eu fiquei feliz!

E sabe o que senti quando vi na mão da cabeleireira aquele rabo enorme? Sensação de brisa na nuca, vontade de me ver diferente no espelho, leveza… alívio.

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Vamos lá, na prática, como é? Você tem que estar com o cabelo limpo e seco, fazer um rabo de cavalo ou maria chiquinha e cortar acima do elástico. Ou seja, de maneira que o cabelo fique todo bem preso no elástico. Esse rabo, ou rabos, você coloca em uma embalagem plástica. É essa embalagem que você entrega ou envia pelo correio.

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Há algumas instituições em que você pode doar, é bom pesquisar direitinho porque, às vezes, mudam o procedimento. Por exemplo, aqui em São Paulo, o Hospital do Câncer recebia a doação do cabelo, mas não tinha recursos para fazer as perucas. Então, eles vendiam o cabelo para algum salão e revertiam o dinheiro para o hospital. Ok, não deixa de ajudar, mas no meu caso, não queria uma doação em dinheiro, queria que meu cabelo fosse efetivamente para alguém que precisasse dele em concreto.

Pesquisando daqui, perguntando dali, cheguei na “Rapunzel Solidária”, que recebe o cabelo, faz as perucas e doa para as mulheres com câncer. Achei um trabalho muito bacana e dedicado, vale conhecer. Aceitam doações a partir de 15cm e o cabelo pode ter química. Exatamente o que buscava! Eles tem uma página no Facebook que explica tudo direitinho, desde o procedimento até para onde enviar. Também aceitam doações em dinheiro, para ajudar na confecção e envio das perucas.

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Mas vamos finalizar essa história, porque só depois de um tempo descobri que me faltava esse encerramento, esse ritual de passagem. Com o cabelo já cortado, aprovado e enviado, comecei a imaginá-lo na cabeça de outra mulher. O que ela estaria sentindo quando perdeu seu cabelo, será que uma peruca resgataria um pouco da sua autoestima? Foi quando me veio na memória esse dia com minha avó, a experiência estava muito mais próxima do que me lembrava. Poderia ser eu, poderia ser minha mãe, poderia ser minha avó… opa! Foi minha avó!

O que toca a uma, de alguma maneira, mais cedo ou mais tarde, nos toca a todas!

Com minha avó, não tinha como tirar e dar meu cabelo, o máximo que pude oferecer foi uma gargalhada, e sei que trouxe um momento de alívio. Tudo que quero e que posso ter a sensação de missão cumprida hoje, é imaginar que em algum lugar, alguma mulher saírá com mais segurança na rua, se sentindo mais bonita e, pelo menos, terá ela também um momento de alívio.

4 comentários em “Doação de cabelos para mulheres com câncer, um alívio!”

  1. Foi uma das mais difíceis de contar até hoje. Também te amo e essa não segurei sozinha! 😉 Beijo

  2. Na minha família também é assim: bom humor (as vezes humor negro) para superar momentos difíceis. Quando meu pai fez a revisão e, felizmente, o tumor que ele tinha no pulmão havia desaparecido, o médico disse ao meu irmão que ele estava surpreendentemente curado. Meu irmão, que esperava qualquer notícia menos essa (já que o mesmo médico não tinha dado quase nada de esperança de cura), olhou para minha irmã, que também acompanhava meu pai na consulta, e disse: “Caramba! E agora como vamos dizer pra mãe que ela não vai mais ficar viúva?”. Os três (meus irmãos e meu pai) caíram na gargalhada. O médico, coitado, ficou meio sem reação 🙂
    Parabéns por sua iniciativa!
    Bjinhos!
    P.S.: provavelmente muita gente tenha te falado o que vou falar agora: você já pensou em escrever um livro? Você escreve muito bem, tem uma facilidade ímpar com as palavras e escreve com uma leveza incrível 😉

  3. hehehehe… é assim mesmo Tatiana, a gente adora esse humor ácido! E ri junto aqui da não viuvez da sua mãe 😀 Quando meu pai foi tirar um tumor também, vem o maqueiro levá-lo para a cirurgia e ele saindo do quarto: pai, se você ver um túnel com uma luz branca… não vai para a luz! Não vai! Volta correndo! A gente rindo e o maqueiro meio sem graça, sem saber o que fazer. Acho até que já contei essa história por aqui!

    E muito obrigada! 🙂 Estou escrevendo um livro, na verdade dois, uma coletânea das crônicas, bem no comecinho e uma ficção quase terminada. Mas acho que ainda leva um tempinho… E também gosto muito do que você escreve, sou fã dos Nicola’s!

    Beijão

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