Novos ares

Há muitos tipos de viagens, uma infinidade delas, e é  sempre uma experiência diferente, pois a grande maioria te tira da sua rotina. Mas há algumas viagens que logo no início você sente que são mais do que isso, podem mudar sua vida. A ida a Dubai foi assim, sabia que não voltaria a mesma e na volta para casa tive a certeza que mudou outra vez minha maneira de olhar. Não sei dizer se voltei melhor, mas definitivamente maior, com novas portas abertas.

 

Nunca havia viajado a um país oriental, o meu limite mais a oeste foi Praga. Confesso que também nunca tive muita vontade antes, não fazia parte das minhas prioridades. Mas a vida foi mudando, o mundo foi mudando e minha curiosidade surgiu, de uma hora para outra, o oriente médio me parecia muito interessante, provavelmente por misterioso.

 

Não se pode colocar todo o oriente em uma mesma panela, seria o equivalente a dizer que sul americanos, canadenses e europeus são iguais. A oportunidade que tive foi de conhecer um dos Emirados Árabes, e nesse caso, ainda havia um complicador a mais, era um país muçulmano, aquele grupo que depois dos comunistas, também come criancinhas! Admito que sou uma implicante com os Estados Unidos e que, quanto mais eles condenavam essa cultura, mais me dava vontade de conhecê-la.

 

Pois fui a Dubai de coração aberto, pronta para absorver o máximo de informação possível e tentando não julgar o que era certo ou errado. Aceitar e conviver com as diferenças é uma arte que o brasileiro aprende cedo, mas nem todos entendem o valor que essa característica tem no planeta atualmente.

 

No dia de embarcar estava meio esquisita, ansiosa e com uma sensação de quem não sabe muito bem onde pisa. Luiz foi a trabalho e em viagens que vou acompanhando sei que ele não costuma ter tempo de sair comigo, portanto não faço esse tipo de cobrança. Lógico que prefiro sair acompanhada, mas nunca deixei de fazer nada por estar sozinha e me viro muito bem. Mas nesse caso, não sabia se realmente poderia sair só. Será que seria respeitada? Precisava usar alguma roupa específica? Tinha que usar véu? Podia olhar as pessoas nos olhos? Coisas muito básicas, mas que poderiam ofender alguém, o que não era minha intenção.

 

A viagem começa literalmente no avião, as pessoas são diferentes, desde a cor da pele, a maneira de pintar os olhos e as roupas. Foi quando me dei conta que a diferente era eu, era na minha testa que estava pintado o  “x” vermelho. Ainda dentro do avião, vi uma única mulher de traje negro e véu. Dormiu quase todo o vôo. Ao seu lado, uma mulher loira a olhava como quem via um bicho raro. E eu pensava, aqui o bicho raro é você (e eu!).

 

Por outro lado, me sentia muito segura na aeronave. Quem iria cometer um atentado ali? “Tudo brimo”.

 

No aeroporto, em Dubai, outras mulheres já usavam véu, uma delas só mostrava os olhos. Suponho que colocaram os trajes no avião, ou logo que saltaram.

 

Fomos para a fila da imigração. Engraçado porque não havia como não comparar com a imigração americana e o curioso é como os valores estavam invertidos. Nos EUA, quase todos ali seguramente seriam chamados àquela salinha depois da fiscalização, para prestarem maiores esclarecimentos do que faziam no país. E eu, que nunca havia sido parada antes, me perguntava se seria a minha vez. Será que minha blusa era decotada demais? Será que deveria deixar Luiz ir na frente e só ele falar? Preocupações que agora acredito não fazerem sentido, mas foi bom estar atenta, porque assim a gente aprende mais.

 

Todos os fiscais da imigração usavam trajes característicos. Havia algumas mulheres trabalhando, todas de negro, inclusive todas negras, não sei se por coincidência, todas de véu na cabeça, mas nenhuma com véu no rosto. E os homens usavam o traje típico árabe, aquele vestido branco chamado “dishdasha”, antiséptico e sem nenhuma marca de amarrotado, sandálias e o pano amarrado na cabeça. Esse pano da cabeça se chama “shumagg”, sua cor e maneira de usar definem quem você é, de que região vem. No caso desses fiscais, todos usavam shumagg branca, mas com algumas amarrações diferentes.

 

Chegou nossa vez e fomos atendidos por um homem. Perguntou de onde éramos, Luiz falou Brasil e ele respondeu: samba! Luiz ainda sério e concentrado disse que morávamos em Madri e ele: olé! Nessa hora relaxei, vi que ele não estava ali para encrencar nem ficar de pirraça com ninguém. Só fazia seu trabalho e tinha uma curiosidade natural. Tentava ser simpático, sem faltar com respeito. Sorriu e disse bem vindos! Não fui tratada como uma intrusa, o que me deu mais vontade de não ser uma.

 

Na saída do aeroporto, uma pessoa do hotel nos aguardava. Isso é uma coisa normal, os hotéis sempre enviam alguém para recepcionar seus hóspedes. Também são os hotéis os responsáveis por emitir os vistos de entrada no país. Você recebe uma cópia do seu visto por fax ou e-mail, e é essa cópia que você apresenta no check in e na imigração. Até onde sei, não existe a possibilidade de entrar no país sem um lugar para ficar. Se não for o hotel, algum morador deve se responsabilizar por você.

 

A saída do aeroporto também representou a primeira saída do ar condicionado. Pode acreditar que o curtíssimo trecho entre a porta e o automóvel foi um dos momentos que mais senti calor na vida! E era seis da matina! Foi quando também desisti de me preocupar se minha camiseta era ou não cavada demais, arranquei a camisa que ficava por cima e que se dane! O calor era impressionante!

 

Logo entramos no carro, onde recebemos por cortesia uma garrafa de água e uma toalhinha descartável geladinha, uma delícia! Conto esses detalhes porque descrevem um pouco do que é a vida em Dubai, é esse contraste. Do lado de fora, árido, duro, difícil, e do lado de dentro um conforto de sonhos. Eu tinha a sorte de poder estar do lado de dentro, mas que não acreditasse que meu mundo é de sonhos. Acabava de me lembrar que estava em pleno deserto e era gringa.

 

No caminho entre o aeroporto e o hotel, de cara você começa a entender o que é a cidade. O número de guindastes de construção é surreal. Os prédios são gigantescos e monumentais. Olha que viajo bastante e hoje, talvez infelizmente, é muito difícil encontrar alguma coisa que me surpreenda, mas ali me surpreendi. Não é por um prédio monumental, mas por centenas deles ao mesmo tempo. Você vê a cidade crescendo como um organismo vivo, pulsante. Nada é simples ou normal, é um exército de gente se desdobrando para surpreender, ser o mais do mundo em alguma coisa.

 

O céu tem outra cor, é acinzentado sem ser nublado, é o azul que é diferente mesmo. Às vezes, o horizonte chega a parecer esfumaçado.

 

Chegamos ao hotel, excelente, que por um preço muito razoável, oferecia o atendimento cortês e profissional, bem diferente ao que estamos acostumados na Europa. Absolutamente todos falam inglês, o mesmo acontece no comércio. É verdade que leva um acento indiano, mas compreensível e todos tem boa vontade em entender. Sim, é para fazer negócios, mas e daí? Aqui você paga caro e mesmo assim é mal tratado. Admito que bem que gostei de ser paparicada.

 

O hotel que nos hospedamos ficava bem na frente da praia, onde você tem segurança e serviços como cadeiras, bebidas etc. As pessoas usam roupa de banho normal para os padrões ocidentais, biquinis, sungas, sem problemas. A única restrição, também muito razoável, é que se pede em respeito às tradições islâmicas, que não se caminhe pelo hotel sem shorts, camisas e sapatos. Vamos combinar que ninguém precisa ficar passeando na recepção de biquini, né?

 

Novamente, em relação às grandes construções, é interessante observar que o prédio do hotel onde estávamos era relativamente grande, mas perto dos prédios construídos em volta, parecia uma verruguinha esverdiada meio perdida. Construíram em volta uns prédios cor de areia, carésimos, mas que cá entre nós, pareciam um grande cabeção de porco.

 

A grande maioria dos trabalhadores nas construções é de indianos, muito razoável, considerando que mais de 70% da população é de indianos. As obras funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana. Os turnos da noite são os mais disputados, pela temperatura mais amena. Ganham por volta de 500 a 600 Dirhams por mês, que equivale a cerca de 100 euros. Até onde entendi, esse salário é livre de despesas, eles recebem moradia, comida e transporte. Trabalham duro. É curioso passar ao lado dessas obras e ver pessoas de uniformes, outras com trajes indianos, uns com capacetes, outros com turbantes, outros com uns panos embaixo do capacete, um samba do criolo doido!

 

Nos hotéis, na área da recepção e restaurantes, há igualmente homens e mulheres trabalhando. Mas somente homens arrumam os quartos. Uma boa parte dessas mulheres que trabalham e dos camareiros vem da indonésia.

 

Há também bastante imigração russa. Reza a lenda, que parte razoável do dinheiro que alimenta o setor de construções é da máfia russa. Essas coisas não se provam, mas já vi o suficiente na vida para saber que obras nessa proporção não podem vir apenas de dinheiro, digamos, honesto. Posso não ter certeza de onde vem esse dinheiro, mas certamente ali funciona uma imensa lavanderia. O governo pensa o seguinte, se vai ajudar o desenvolvimento local, então pode. Não é como no Brasil, onde o dinheiro vai para meia dúzia e o resto do povo que se dane. Os investimentos realmente vão para a cidade. Por consequência, as leis mudam a todo momento, nada é rígido, tudo é relativo e negociável. Acredite se quiser, mas até impostos aduaneiros, contas de água e luz podem ser negociadas.

 

As bebidas alcóolicas são bem restritas. Os muçulmanos não bebem, mas os estrangeiros podem beber em locais que possuem autorização. Esses lugares se restringem aos hotéis e alguns restaurantes. Não se vende álcool em super mercados ou lojas. O que acontece, por debaixo dos panos, são enormes festas privadas onde a bebida corre solta, inclusive entre os moradores locais. Por outro lado, a tolerância às drogas é zero. Mesmo nessas festas, as drogas são muito mal vistas, ninguém consome. Portanto, dificilmente rola algum tipo de violência, as pessoas estão lúcidas. Muito prudente, considerando que você pode estar batendo um papinho com um comerciante de armas iraniano.

 

Nos hotéis e nos poucos restaurantes onde a bebida é autorizada, ninguém te olha feio ou fica te julgando se você beber, é normal. Por outro lado, não sei se pela a restrição à bebida, os sucos de frutas são deliciosos, em especial, o de limão com menta. E todo mundo fuma a tal da “shisha”. Não resisti e experimentei também. Você não sente o sabor do tabaco, o que predomina é o aroma e sabor de fruta. Os restaurantes acabam meio esfumaçados, mas não é incômodo. Você fuma antes, durante e depois das refeições. Admito que no final estava me dando um pouco de barato, principalmente porque não sou fumante.

 

Os shoppings são um capítulo a parte. Como ninguém consegue caminhar nas ruas, os espaços de convivência são fechados e os grandes malls funcionam como enormes calçadas de temperatura e segurança controladas. Ali, tudo se mistura no mesmo espaço, uma enorme Babel. Há os ocidentais, de todas as nacionalidades possíveis, apesar de não ver outros brasileiros. Muitos indianos, com e sem trajes típicos. Árabes com shumaggs brancas, quadriculadas em vermelho e branco, coloridas, com cordinhas diferentes etc. Mulheres de mini saia, outras de véu colorido, véu negro, véu onde só aparecem os olhos, véu por todo o rosto… Vi até uma beduína, de traje negro, que levava um tipo de máscara de metal e ia apitando uns sons enquanto caminhava.

 

A grande maioria das lojas vende roupas ocidentais e, na minha ignorância, cheguei a pensar, claro, também vai ter alguma loja só com roupa preta, burcas todas iguais? Uns dois minutos depois, passamos por uma loja assim e me dei conta da besteira que estava pensando. Primeiro que não é burca, o traje chama “abaya” e o véu “hijab”, e vamos por partes porque é muito detalhe. As mulheres locais usam tanto o traje quanto o véu negro, mas quando a gente olha mais de perto eles não são iguais. Tem bordados, brilhos, tecidos diferentes, alguns são um pouco mais abertos e permitem ver a roupa que há embaixo, outros são totalmente fechados. Teoricamente, a moça precisa usar o véu a partir da primeira menstruação, mas às vezes a família pode optar por usar um pouco antes. Normalmente, elas não cobrem todo o rosto enquanto solteiras, isso acaba sendo uma opção do marido. Às vezes você vê um homem com mais de uma esposa, todas de negro, mas só uma com o véu tampando o rosto, provavelmente a primeira esposa. As mulheres não locais, mas que seguem a tradição muçulmana, usam roupas ocidentais, com os véus coloridos e não tampam o rosto.

 

Todas pintam muito os olhos, coisa que me deu vontade de fazer logo de cara. Aliás, também fiz uma pintura de hena na mão e no braço, linda!

 

Mas enfim, essa história das roupas e véus é muito complicada. Procurei entender sem julgar. A primeira vez que vi uma mulher toda de negro, só com os olhos de fora, ainda no aeroporto, me deu um pouco de nervoso, era opressor. Depois, quando vi várias nos shoppings e pela cidade, não parecia nada demais, porque elas não me pareciam tristes. A maioria das mulheres locais que vi usavam o traje todo negro, inclusive o véu na cabeça, mas não cobriam o rosto. E me pareciam muito animadas nas suas compras.

 

Quanto às mulheres não locais, mas que usavam véu colorido, sem tampar o rosto, sinceramente, achei até bonito, muito feminino e um traço de identidade cultural.

 

Não digo que quero essa vida. Fui criada em uma civilização ocidental e hoje seria praticamente impossível abrir mão do que aprendi serem meus direitos. Simplesmente estou dizendo que elas não me pareciam infelizes. Dubai é um oásis de tolerância e considerado muito liberal, mesmo assim, vi com otimismo a possibilidade de uma convivência pacífica entre culturas tão diferentes.

 

E esse é outro ponto interessante, sempre ouvi descrições de Dubai como sendo o emirado mais ocidental. Isso não é verdade, ainda que seja uma maneira mais simples de descrever algo parecido. Dubai é totalmente oriental, mas é tolerante e aceita conviver com a diferença. As pessoas locais não estão se misturando, no sentido de mudar suas próprias crenças, mas convivem no mesmo espaço e com respeito. E os ocidentais que ali se encontram também não estão tentando mudar ninguém, simplesmente respondem com igual tolerância em adaptar a vida que estão acostumados, procurando não ofender ninguém.

 

Um bom exemplo é o casal de amigos que encontramos, ele egípcio e muçulmano, ela russa e não se converteu. Ela não usa véu, trabalha e toma seu vinhozinho, eventualmente. Ele não toma uma gota de álcool e segue suas tradições. Tem um filho e vão muito bem, obrigada. Um casal absolutamente normal, daqueles que discute os caminhos no carro, porque afinal de contas, ele não quis parar para pedir informação…

 

Aliás, esse casal nos ciceroneou. Muito bom quando a gente pode conhecer uma cidade junto de quem mora nela e, nesse ponto, tivemos muita sorte. Na primeira noite, encontramos um amigo solteiro do Luiz e jantamos com ele. Um italiano, que já morou aqui em Madri. Um dia, largou tudo e mudou de mala e cuia para Dubai, foi trabalhar com o mercado imobiliário. Compreensível, porque em dez minutos que estava na cidade queria investir ali.

 

Com o casal, saímos mais vezes, junto com seu filhinho de uns cinco anos. Em um dos jantares, fomos a um restaurante sírio libanês muito legal. Uma infinidade de comidas, sucos deliciosos e a famosa shisha.

 

Contraditoriamente, um dos lugares que mais gostei de Dubai foi também de onde saí mais triste. Fui jantar com Luiz no Buddha Bar, da mesma cadeia espalhada pelo mundo, inclusive acho que abriram um em São Paulo. Mas continuando, em Dubai ele é perfeito, combina com o contexto. O local tem iluminação baixa e de velas, um pé direito enorme, uma parede envidraçada de frente a um canal e um Buda dourado gigantesco olhando as mesas. A música é ótima e a comida também. Só que imagina entrar nesse ambiente e, ao mesmo tempo, ver as pessoas vestidas com trajes indianos, árabes, véus brancos, enfim, é um ambiente que você se sente em meio de um sonho. Luiz também adorou e tivemos um super jantar.

 

No final, na euforia do ambiente e do vinho, quis ligar para casa e contar as novidades. Havia passado o dia dos pais e ainda não havia conseguido falar com o meu. Minha mãe atendeu com uma voz muito esquisita e percebi logo que algo não estava certo. Eu disse que não responderam os e-mails e ela falou que haviam ido a Belo Horizonte porque meu avô não estava tão bem. Encurtei a conversa com o que realmente interessava, mas ele está vivo?

 

Não estava. Há um ano me preparo para receber essa notícia, mas naquela noite não me passava pela cabeça. A música alta me dava a esperança de não ter ouvido direito, levei alguns minutos para entender o que acontecia e confirmar se estava ou não em algum sonho.

 

Fomos para o hotel em meio a ligações interrompidas do meu pai, que me explicava a história. Ele tinha a voz tranquila e creio que isso também me tranquilizou. No fundo, todos nós sabíamos que havia chegado a hora e que foi melhor assim. Mas nunca é fácil. Tentei falar com minha tia, mas não consegui. De qualquer maneira, já não havia o que fazer, ele já havia sido até cremado e eu estava literalmente no meio do deserto.

 

Era tarde e Luiz precisava dormir. Passei a noite acordada, meio sonâmbula e esperando que o dia amanhecesse logo. As manhãs clareiam nossas idéias e nos lembram que a vida continua.

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