Meu avô agridoce

Agridoce é um sabor que gosto muito, traz o contraste entre a intensidade do acre e a doçura discreta que o complementa. Assim foi meu avô. Um homem de aparência emburrada e séria para as pessoas em geral, mas especialmente carinhoso com a família mais próxima, principalmente com os netos.

 

Sou neta e portanto faço parte do seleto grupo a quem ele confiou e mostrou seu melhor lado. Quem diria que esse homem tão bravo nos recebia fazendo cócegas e dizendo: pode morder? Pode beijar? Pode apertar? Deve ter acontecido, mas não tenho na memória nenhum dia em que ele demonstrou estar aborrecido comigo.

 

Algumas recordações são mais fortes, lembro do apartamento da Tijuca, onde acordava com o cheiro do café e ia para mesa sabendo que encontraria cabaninhas de índio esculpidas na ponta do pão francês, com portinha e tudo. Ainda montaríamos o forte-apaxe para continuar a brincadeira. Depois ele me levava para a Praça Xavier de Brito, que para mim era “a pracinha”, para andar de pônei ou nas charretes de pedalar, brincar no parque e tomar chicabon. Mais tarde, na hora da sua cochilada, eu me enfiava junto na cama e pedia que me contasse a história da cegonha mentirosa por tantas vezes que só um avô teria paciência. É claro que no fim era ele quem dormia.

 

E, finalmente, o passeio mais cobiçado do ano: o Tivoli Parque da Lagoa! Pois também era ele que se metia na montanha-russa e no twist para nos agradar, mesmo sabendo que sua coluna não ia gostar muito desse negócio.  Ali aprendi a comer churros com doce de leite.

 

Alguns anos depois, o Tivoli foi substituído pelo passeio no trenzinho de Cabo Frio… centenas de vezes! Começo de noite na feirinha, maresia, cheiro de milho cozido e açucar queimado de amendoin.

 

Meu avô construía brinquedos e jogos inventivos. Tinha ferramentas e sabia consertar tudo. Gostava de pescar, exercitava as pernas e viajava solitário nos seus pensamentos, mas nos levava com ele, na única idade em que pescar me parecia divertido. Ele tinha sua maneira de se comunicar conosco e a gente se entendia sem muitas palavras. E como era bom comer galhudo e perna de moça, recém pescados, fritos na farinha de rosca.

 

Meu avô tinha gosto de torresmo com linguiça, mandioca frita crocante, bife acebolado, arroz refogado na banha de porco até virar pipoca, feijão grosso e leitoa pururuca. Misturava com o cheiro da minha avó, tecido bem passado guardado em móvel de madeira. Imagino eles se encontrando assim, ele assoviando alto seu inconfundível “Vivi” e ela respondendo, “Bêtinho”…

 

O tempo passou e mais um ciclo de vida terminou, exatamente como deve ser, e portanto a tristeza seria injusta, mas fica a saudade. Ficamos nós, com a responsabilidade de construir nossas próprias histórias e com a felicidade de possuir tantas boas memórias. Quem tem ou teve avôs e avós tem sorte, aprende mais cedo a possibilidade da fantasia, a usar a imaginação, não para fugir, mas para fazer a vida mais interessante e colorida.

 

_ Hoje tem festa no céu!

_ OOOOObaa!

_ Vai ter muita comida e bebida!

_ OOOOObaaaa!

_ Mas quem tem boca grande não entra!

_ … coitôdo do jacaré!

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