E la nave va

… os pés, continuam inchados… mas os meus cabelos… quanta diferença!

 

Passada uma semana que voltei de viagem, finalmente, a vida parece prosseguir. A gente se prepara muito para a ida, e não pensa que a volta também exige preparação, ou pelo menos, uma maneira de lidar com a situação. É como uma volta de férias, por exemplo, é normal bater um pouco de depressão, cansaço, aquela sensação de mas já acabou? Ou quando a gente muda de casa, que não consegue achar nada em lugar nenhum e tudo parece meio sujo. Enfim, multiplique por algumas centenas e é como a gente volta do Caminho de Santiago. Não dá para aterrizar de uma vez só. Falo por mim, deve ter gente que consegue fazer isso com maior naturalidade, para mim foi complicado. Intenso.

 

Mas uma hora seu pé entra em algum sapato que não sejam as botas de trekking e você lembra que existe outra vida. É como se o corpo também se adaptasse junto com a cabeça. Tudo volta devagar. Tenho um dedinho do pé que ainda está meio bobo, chegou mortinho. As bolhas curaram e, pela primeira vez, tenho calos nos pés. O curioso é que não achei ruim, pior, gostei. Meu pé sempre foi muito frágil e sensível, mesmo quando criança que andava descalça, sempre foi um ponto fraco. Agora é um ponto de atenção, mas não me sinto fraca em canto nenhum e gosto dessa sensação.

 

Já consigo contar algumas histórias para os amigos que me perguntam. Não que seja nada excepcional, é só porque é difícil passar pelo filtro da boca. O que foi importante não foram os fatos em si, mas as sensações, as experiências que eles proporcionaram em determinado momento. E traduzir isso em palavras tem me custado, parece diminuir o volume.

 

Felizmente, tenho andado com a agenda cheia. Apareceu um monte de gente legal me chamando para encontrar. Para falar a verdade, me dava vontade de ficar escondida embaixo da mesa. Mas não deixei nenhum compromisso de lado, fui a todos. Sabia que depois que saísse de casa me sentiria melhor. E assim foi. O papo animava, boas risadas e pouco a pouco vou recuperando a capacidade de ser irônica comigo mesma. Que bom ter amigos!

 

Um amigo me sinalizou uma possibilidade de exposição, muito precoce, nada garantido. Mas me animou. Senti vontade de correr atrás e ouvir isso agora, me soou como bom presságio. Automaticamente, algumas idéias começaram a navegar pela cabeça, me fez bem.

 

Fui a um encontro de brasileiras muito divertidas, não é a primeira vez que nos reunimos. Sempre achei que esse negócio de fazer um grupo só de brasileiros não era boa idéia. Não pela nacionalidade, não preciso negar nada a essa altura do campeonato, era porque pareceria que nos juntávamos num gueto ou algo assim. Mas por algum motivo, esse grupo não me parece isso, até porque não é. Muitas são casadas com espanhóis ou tem filhos que nasceram aqui, não nos reunimos para nos isolar ou reclamar da vida, é mais leve. Às vezes é muito bom contar uma piada que sabemos que será entendida, porque compartilhamos o mesmo senso de humor. É bom falar besteira para alguém que não precisa ficar relativizando para respeitar diferenças culturais. Também é bom conversar sobre temas mais sérios, sem ter que refazer toda a frase na sua cabeça, porque o idioma tem outra lógica. E o melhor, quando encontro com elas, não penso nisso tudo, acontece naturalmente.

 

Falei com amigas por telefone. Sou ruim de telefonar, sempre prefiro escrever. Mas elas me ligaram e foi bom conversar. Tudo ao redor parecia me chamar para voltar à casa, me sacodia dizendo, acorda! Tem muita coisa para fazer!

 

Então tá, fizemos o que somos especialistas, uma festa. Festa é exagero, foi uma reunião de casais que são amigos entre si. Tudo começou quando passamos na semana anterior na casa de um desses casais, ela havia me ensinado a receita para fazer kibe e me deu o tal do trigo que é muito difícil achar em Madri. Pois bem, mais do que justo, combinei com eles de fazer o kibe no fim de semana e eles provariam se havia aprendido direito. Mas uma coisa puxa a outra, tem outro casal de amigos que mora perto deles, trabalham juntos. Outro casal que conheceu esse segundo casal há anos atrás, ainda no Brasil, e descobrimos que, por absoluta coincidência, éramos todos amigos aqui. E mais um casal que sempre saímos juntos e também conhecia esse grupo. Muito bem, chega, né? A vontade era de convidar mais gente, tenho essa dificuldade, a escolha de Sofia, sempre quero chamar todo mundo, mas nesse dia queria fazer algo onde as pessoas pudessem sentar e estava no limite de cadeiras. No fim das contas, cada um trouxe alguma coisa e foi bem divertido.

 

Luiz havia ido a Israel essa semana e lá comprou um par de botas de trekking enfurecidas para ele também. Está decidido a fazer as caminhadas comigo, acho que dessa vez é sério. Na festa, outro amigo queria fazer as trilhas do Mont Blanc e do Aconcagua. Não é que me animei? Acho que andei perdendo alguns parafusos pelo caminho… Mas uma coisa de cada vez e nós começaremos menos ambiciosos, depois, quem sabe. O plano A é fazer uma caminhada mais larga em setembro, uns dez dias.

 

Sexta-feira que vem, viajaremos a Valencia para assistir ao America’s Cup. Não entendo nada a respeito, mas a idéia de estar próxima ao mar me empolgou. Vamos com um casal de amigos e ainda não sei se levamos ou não o Jack.

 

A semana promete ser corrida, do jeitinho que gosto!

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