… ainda em Dubai

Continuando a contar sobre Dubai, sei que parece incrível, mas frequentar os centros comerciais é uma das maneiras de se conhecer a cidade. Não é só pelo fato de serem impressionantes, como tudo ali, nem pelos preços, que são realmente convidativos. É porque é praticamente impossível passear na rua, ninguém caminha pelas calçadas, você passa mal. É um calor que gira por volta dos 45 graus, ou mais, com 100% de umidade e sol na cuca. Tudo funciona movido a ar condicionado.

 

O primeiro shopping que conheci foi o Emirates, onde há uma imensa pista de esqui com neve artificial. Obviamente, a maior do mundo. Esquiar em pleno deserto era algo que não podia deixar de fazer, inclusive havia levado minhas botas de esqui. Outra vez, é tudo igual, mas diferente. Começa no vestiário, onde as mulheres entram com aquela roupa toda para se trocarem. Há cabines separadas para isso, entrei em uma delas e simplesmente dentro não tem luz, elas se trocam no escuro. Bom, não consegui e fui para o meio do vestiário, onde vi que havia outras meninas trocando de roupa, logo não estava fazendo nada errado.

 

No vestiário masculino, Luiz depois me contou que chegaram para ele pedindo informações em árabe. Depois fiquei de farra com ele, também, com essa cara de egípcio!

 

Dentro da pista, você vê a maioria das pessoas com as roupas normais de inverno, mas também há um monte de gente com roupa árabe, homens e mulheres, e um casacão preto por cima que vai quase até os pés. Eles não entram para esquiar, porque não dá para esquiar com aqueles vestidos, mas para experimentar o frio ou acompanhar os filhos.

 

Nesse dia, para mim estava difícil esquiar, porque havia muitas outras coisas para prestar atenção e não conseguia me concentrar. Começou porque cheguei totalmente mareada ao local, pegamos um taxi com motorista indiano com um cheiro que me deixava tonta. Não é suor normal, acho que pela comida, cheira a curry com páprika, sei lá. Depois me disseram que eles usam um tipo de óleo no corpo e que também dá um pouco desse cheiro. Enfim, não se pode abrir as janelas para arejar, por causa do calor. Então, imagina meia hora de curry nas suas narinas, saí do taxi verde e trocando as pernas.

 

Outro shopping interessante, com aparência bem árabe, é o Madinat Jumeirah, fica próximo ao Burj Al Arab, aquele hotel famoso, 7 estrelas, com formato de vela de barco. Almocei com Luiz ali, enquanto esperávamos por um casal de amigos. Quando estava no restaurante, entrou um árabe com quatro ou cinco esposas, o que quer dizer que era bem rico. Um homem só pode se casar com mais de uma mulher se puder mantê-las e todas com o mesmo padrão. O que uma ganha a outra tem que ganhar também. Pois entrou um grupo de mulheres, todas de negro e com véu, mas com o rosto aberto. Uma era negra e as outras morenas de pele mais clara e isso também é um fato interessante, a cor da pele não faz a menor diferença, não há racismo por esse motivo. Mas voltando, entraram morrendo de rir, animadas mesmo e não me parecia nada fingido. Uma mulher vinha atrás delas, separada, era a única que cobria o rosto e só os olhos ficavam de fora, imagino que fosse a primeira esposa. Também foi a única que me olhou, de maneira profunda e indecifrável.

 

Comentei com o Luiz e ele resolveu logo o enigma do seu jeito, disse que ela pensou: humm… essa é bonitinha, vou pedir para meu marido comprá-la… podemos oferecer uns dois camelos e três cabras. Acho que as cabras não iam rolar, afinal de contas, já estou meio usadinha.

 

Brincadeiras a parte, o olhar realmente me impressionou. Eu, como boa parte das mulheres, sou boa para identificar o que um olhar quer dizer. Mas ali estava fora do meu alcance, era outro idioma que não conhecia.

 

A maioria das famílias locais que vi era de um casal, digamos, normal. Só um homem e uma mulher. O tratamento com os filhos é bem carinhoso e várias vezes vi os homens, com suas túnicas brancas, ajudando a carregar o carrinho, dar mamadeira, nada tão diferente. Algumas vezes você vê o marido ir na frente da mulher, porque dentro de sua cultura, sua função é protegê-la. Ela não deve trabalhar, porque o trabalho não é nobre e ela é especial porque é capaz de dar a luz. O quanto isso se distroceu ao longo do tempo é uma outra discussão e, como já disse desde o início, não fui para julgar, mas observar e aprender. É importante lembrar que Dubai é um oásis tanto em tolerância, quanto em poder aquisitivo. Acredito que o problema maior surja quando chegamos nas populações bem pobres e sem acesso à educação. A ignorância é violenta e opressora em qualquer lugar do mundo, seja em que cultura for.

 

E para encerrar a história dos shoppings, fui a um terceiro, também muito interessante. Chamado Ibn Battuta Mall, tem seis grandes alas, cada uma representando uma região, China, Índia, Pérsia, Egito, Tunisia e Andalusia. Não preciso dizer que é outro local incomensurável, né? Cada ala recebe decoração específica em função da região que representa, tanto por dentro, como em sua arquitetura por fora.

 

Conhecemos também a parte antiga da cidade, bem menos turística. Fomos de carro com nosso casal de amigos e enfrentamos um engarrafamento de deixar qualquer paulista com inveja. Aliás, engarrafamentos fazem parte da rotina local.

 

Nessa parte da cidade, os centros comerciais são abertos, ou seja, sem ar condicionado. Felizmente, foi nosso último passeio da viagem e estava um pouco mais acostumada ao calor. Ali funcionam os mercados, ou “souks”. Nós fomos ao Gonden Souk, o mercado de ouro. Imagine um centrão de cidade, um lugar bem simples, com mil lojinhas uma do lado da outra. Só que todas essas lojinhas tem vitrines repletas de ouro. Não tem polícia, não tem segurança e não tem roubo. Por outro lado, não estaria tranquila em passear sozinha, a não ser que estivesse usando véu.

 

Na volta para o carro, chegou um momento que nenhum de nós quatro conseguia mais falar. A roupa molhada de suor e tonta. Você começa a passar mal. E era dez da noite! Logo que se entra no ar condicionado do automóvel, a gente se recupera, mas o corpo ainda sente o cansaço. Esse entra e sai de frio e calor foi minando um pouco minha garganta.

 

Fomos jantar na sequência, era quinta-feira e os restaurantes abrem até mais tarde. A semana funciona de domingo à quinta. Ou seja, o fim de semana deles é sexta e sábado. Na quinta-feira à noite as ruas estão cheias de gente passeando, nos carros e nos ambientes fechados é lógico. Nossos amigos disseram que existe inverno em Dubai, e que a temperatura chega a uns 19 ou 20 graus, quando todos usam seus casacos. Custo a acreditar.

 

De lá voltamos ao hotel, ainda tínhamos que fazer as malas. Fomos dormir por volta das duas da matina e precisávamos acordar às quatro para ir ao aeroporto. Ou seja, noite virada. Só descansaria já em solo ocidental.

 

Saí de Dubai com a sensação de ser uma pessoa diferente da que entrei. Achava que era uma viagem de uma só vez e agora não sei, pode ser que volte. No espelho já me vi com o olhar indecifrável daquela mulher árabe e continuo sem entendê-lo. E talvez também seja bom um pouco desse mistério, há coisas que não devem ser explicadas. Aceitar a realidade como ela é, sem lutar, às vezes é uma questão de sabedoria e estratégia.

 

Salam aleikum!

9 comentários em “… ainda em Dubai”

  1. olá, gostei muito de suas colocações. estou indo no mes de janeiro e espero gostar e aprender um pouco mais desta cidade, só fiquei ainda querendo saber que roupas levarei, pois sei que o calor de muito forte, mais não poderei sair de short e nem mesmo de blusinha decotada. e como faço? e o frio anoite? mande-me alguns esclarecimento neste sentido, obrigada.
    M Izabel

  2. Oi, Izabel!

    Pode levar roupas ocidentais normais, melhor não exagerar em decotes, mas pode, por exemplo, usar camisetas tranquilamente. O que acontece é que ainda que o calor na rua seja brutal, ninguém caminha pelas ruas, é sempre de carro e você fica o tempo inteiro em ambientes fechados e com ar condicionado (hotéis, shoppings, restaurantes). A noite a temperatura não varia tanto, continua muito quente e você continua frequentando lugares fechados.

    Nos hotéis, pode frequentar a piscina com biquini, também é normal. Eles só pedem para você não circular nas áreas públicas dos hotéis apenas em trajes de banho. Mas pode de bermudas, shorts e camisetas. A praia que fui era particular do hotel e tinha segurança, ou seja, também podia ser frequentada com biquinis ocidentais sem problemas.

    Os dois textos anteriores, “Novos Ares” e “Amanheceu”, também falam sobre Dubai.

    Boa viagem!

  3. ola meu nome e rosilene,estou indo o mes que vem para dubai .gostaria de saber como e la .posso usar calca jeans ou uma blusa nao muito decotada.pode fumar em algun lugar.por favor mim responda…………

  4. Rosilen, você pode usar roupa ocidental normalmente, ou seja, não há nenhum problema com calça jeans e camiseta. Evitaria, como você disse, blusa muito decotada, porque você chamaria atenção de uma maneira negativa. Nos hotéis e nas praias em frente aos hotéis, você pode usar seu biquini também, eles só pedem que no saguão e áreas comuns internas você coloque uma bermuda e camiseta. Na rua, é difícil alguém caminhar, porque é um calor insano, geralmente tudo acontece dentro de algum ambiente de temperatura controlada.

    Não sou fumante, portanto não sei se há alguma restrição, mas acredito que não, eles gostam muito de fumar a shisha.

    A bebida alcoolica é restrita a alguns lugares. O Muçulmano não bebe, mas aceita que o turista beba. Nos hotéis e em alguns restaurantes autorizados, a bebida é vendida para estrangeiros, mas nunca se exagera.

    Boa viagem!

  5. Olá, li as descrições que você fez sobre Dubai e me foi muito esclarecedor porem continuo com uma dúvida.Quando é o inverno lá? novembro faz muito calor ainda. Faço essa pergunta pois estou definindo a data que irei exatamente em função do meu filho pois ele terá em novembro 1 ano e 9 meses e se estiver esse calor ainda acredito que fica dificil de leva-lo. Ou você acha que é viavel leva-lo mesmo sendo fora do inverno de lá?
    Desde já muito obrigada e um abraço.
    Fernanda

  6. Oi, Fernanda! Para ser sincera, não sei quando é inverno em Dubai, mas acho viável ir em outras épocas também. Claro que no inverno é melhor, mas na prática, você fica muito pouco exposta ao ar livre. Acho que fora os “souks” (mercados de ouro e especiarias), quase tudo é feito dentro de espaços fechados e com a temperatura controlada. Ninguém fica caminhando pela rua, é tudo de carro com ar condicionado no máximo. Boa viagem!

  7. estou indo para Dubai no dia 11 de novembro e gostaris de saber se devo levar casacos? comprimento de shorts, e com que roupa usaria pra fazer rali no deserto, o que vestiria para visitar o parque da ferrari?

  8. Oi, Patrícia! Dá uma checada nos websites sobre o tempo pelo mundo, como weather channel, por exemplo. Assim você julga se precisa de casaco ou não. Quanto ao comprimento dos shorts, não sei o que te dizer, acho que é uma questão de bom senso. Dentro dos hotéis não há problemas, mas na rua, se fosse eu, preferia uma bermuda mais discreta ou calça leve. Não acredito que te façam nada demais, mas por que chamar a atenção desnecessariamente? Falei um pouco sobre as roupas nos comentários acima. Lembra que no deserto é quente de dia, mas esfria à noite. Boa viagem!

  9. estive em dubai em fevereiro deste ano, e a temperatura ERA INCRIVEL, DE DIA O SOL FORTE DE 30 A 35 GRAUS, MAS SEMPRE COM VENTO, A NOITE UNS 12 A 10 GRAUS, ROUPAS LEVES, CASAQUETOS , ECHARPES SÃO BEM VINDOS, NADA PESADO, APESAR DE VER MUITO NATIVOS COM LUVAS E TOUCAS PRINCIPALMENTE CRIANÇAS.

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