A primeira exposição individual em Madri

Fim de ano é sempre corrido, mas esse último foi brincadeira! Novembro mexeu com meus nervos em todos os sentidos.

 

A ira me subiu a cabeça e soltei mesmo o verbo, às vezes a gente chega no limite. Não retiro o que disse, porque é verdade, mas não é inteligente generalizar e poderia ter feito com mais educação. Ou não, talvez tenha sido bom dar uma desabafada. Enfim, ainda há informações que preciso digerir melhor. O engraçado é que acho que nossa atitude acaba atraindo as coisas e sinceramente me preparei para receber o troco, a raiva faz a gente forte, ainda que emburreça um pouco. Aconteceu o contrário que esperei, só recebi gentileza, o que me fez lembrar que também passei por muita coisa boa e tenho muita sorte com as pessoas que cruzam meu caminho. Portanto, o melhor a fazer era esfriar as idéias e retomar o rumo correto.

 

Tinha uma exposição marcada, muita trabalheira, isso eu sei fazer. E queria fazer bem. Precisava de equilíbrio e de uma boa energia, porque só assim a mágica dá certo. É que de alguma maneira doida sei que posso me comunicar através dos trabalhos, mas fazia tanto tempo que estava me esquecendo desse idioma. De tanto esperar, e já não importa mais porque, talvez estivesse próxima a perder a coragem. O medo mata qualquer artista, mas ele ainda não me pegou dessa vez.

 

Aprendi a ser menos orgulhosa e aceitar ajuda. Essa exposição foi uma lição nesse sentido, desde o início. A propria idéia da exposição não foi minha, foi de uma amiga, e foi ela quem tomou a iniciativa de propor ao espaço cultural. Em um momento duvidei se realmente deveria fazê-la, pois em princípio não teria tempo para a montagem e seria muito rápida,  não queria fazer nada mais ou menos, quase desisti. Luiz insistiu e pensei que se ele estava acreditando, como eu poderia recusar. E nesse momento lembrei que ainda tenho coragem.

 

O prazo aumentou, tive o tempo de montagem necessário e os caminhos foram se abrindo pouco a pouco. Sozinha seria muito difícil dar conta de tudo, organizar, montar e divulgar uma exposição individual é um trabalho insano, muitos detalhes. Só que não estava sozinha, na verdade, nunca tanta gente se ofereceu para ajudar, e sem nem precisar pedir. Tive amigas e amigos carregando peso, pintando pilar, dirigindo o carro para levar as peças, fazendo convite, fotografando, divulgando e apoiando. Caramba, eu precisava fazer direito!

 

Além do mais, a noite não seria só minha, era também a apresentação do coral que faço parte. Uma das melhores coisas que me aconteceram esse ano! Amigos generosos e de bom astral, o grupo que sempre diz sim.

 

Foi trabalhoso, mas não foi difícil. Como andar de bicicleta, em algum lugar da memória está todo o cronograma. Eu me transformo, sempre sou uma pessoa melhor quando estou fazendo. Cinco minutos depois de começar a montagem, me esqueço do resto do mundo, de comer, de ir ao banheiro… I’m a woman in a mission. Chega a ser curioso, normalmente, tenho vertigem e mania de limpeza, mas no fim das contas me peguei feliz da vida esculpindo o ar por cima da escada suja, pendurada nas estruturas do altíssimo teto. Sabia que isso ia acontecer.

 

Muita gente acha que a melhor parte é a inauguração ou a criação, mas para mim não é. A delícia é esse trabalho operário de fazer acontecer. A criação é um sofrimento. A inauguração é o glamour e a atenção em tecer corretamente a rede de contatos.

 

Estive tão ocupada que nem deu muito tempo para ficar nervosa. Pelo menos até a véspera. No dia, com tudo montado, bateu o frio na barriga do “é hoje”! Acho que nunca vou conseguir fazer uma inauguração sem ficar nervosa. E nesse caso, era nervoso duplo, vernissage e cantoria. Inverno em Madri, eu de sandalinha e blusa fina, sentindo um calor danado, óbvio que estava com a adrenalina a mil!

 

Cheguei cedo ao local, queria checar com calma se estava tudo no lugar. Estava. Recuperei a confiança, de qualquer forma, já não tinha mais o que fazer. As pessoas começaram a chegar e com isso fui relaxando e desfrutando um pouco mais. Não dá para relaxar muito, porque também é um momento de trabalho. Seus amigos estão lá, mas não são os únicos.

 

Resumo da ópera, foram mais de cem pessoas e isso é muita coisa para uma inauguração de exposição, principalmente considerando que sou estrangeira. Lógico que o pessoal do coral trouxe bastante público e até nisso dei sorte. Fiz contatos interessantes que podem render frutos. Mas o mais importante é que tive a sensação de que as pessoas gostaram, entraram no espírito da coisa, se divertiram, viajaram e isso é muito realizador.

 

Quando respirei fundo mais tranquila, era hora de cantar. Pronto! Fiquei nervosa outra vez, mas agora menos, porque a responsabilidade estava dividida. Foi muito legal. Cheguei a conclusão que o palco não me assusta tanto quanto imaginava. E falando em palco, nossa maestra é muito carismática e é ali o seu lugar, na frente dos holofotes ela cresce e nos leva na mesma onda.

 

Quando dei por mim, estava me despedindo das pessoas e passou tudo em três minutos! Fiquei emocionada, mas não era lugar nem momento de chorar.

 

De lá saímos com uma amiga e outro casal para jantar. Minha noite precisava de um encerramento. Imagina se ia conseguir dormir, estava quicando!

 

Onde poderíamos ir? No Trifón, é lógico! Fechar com chave de ouro uma noite de diamantes. O que mais gosto de fazer, junto do Luiz, cercada de amigos e amigas especiais e ainda por cima cantando! O que mais poderia pedir?

Seja bem vindo a comentar! Sua resposta pode demorar um pouco a ser publicada.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s