101 – Bom, se tudo der certo… acho que vai dar merda!

Pois é, a novela mexicana do nosso apartamento continuou. Agora temos o privilégio de assistir de camarote uma briga de casais se divorciando! Que delícia, né?

 

A pergunta seria: e o que mesmo nós temos com isso?

 

Pois temos o fato de viver em um apartamento alugado, cujo contrato está em nome dos dois. Só que tem um pequeno detalhe, eles não se falam, aliás, estão proibidos legalmente de se falar diretamente. Por aí se imagina como vai bem a coisa. Daí para onde o marido liga? Para onde a sogra liga?

 

Eu, que já amo um telefone, nem quero mais atender nada! Olho o número no identificador de chamadas, se é Luiz pego, caso contrário, que entre na secretária eletrônica. Mas isso é péssimo, porque afinal de contas, não podemos ficar de reféns na nossa própria casa.

 

A princípio, acho que o marido foi um belíssimo sacana, mas a verdade é que só ouvi um lado da história. O caso é o seguinte, também não tenho o menor interesse em ouvir o outro lado, não quero contato com ele, não gosto de gente negativa. Quero pagar meu aluguel, cumprir nossa parte e acabou.

 

O tragicômico é que deixamos nosso último apartamento justamente porque não aguentava mais ouvir as brigas do casal baixaria de vizinhos. E agora, nos vemos em pleno olho do furacão, porque o maior objeto de disputa dos proprietários é exatamente o lugar onde moramos.

 

Na prática, acredito que nenhum dos dois queira que a gente deixe o imóvel, porque o processo ainda deve levar um tempo correndo. Para ela não compensa estar com todas as despesas de morar aqui e para ele não interessa o imóvel vazio para ela entrar. Só que definitivamente, eles não nos conhecem tão bem e não sabem que não leva muito mais que cinco minutos para me enfezar, pôr a casa nas costas e partir para o endereço número 33, mais um, menos um…

 

Não tenho vontade de sair daqui, principalmente pela questão da nossa documentação que está correndo, e porque o apartamento é legal também, mas acho que já temos nossos problemas e não são poucos. Não vou ficar estressando Luiz e me aborrecendo, problema a gente resolve.

 

Hoje, Luiz optou por trocar nosso telefone, não é a situação ideal, mas acho que pode nos dar um pouco de sossego. Se isso solucionar, bem, caso contrário, lá vamos nós!

 

E ponto astrofe!

 

100 – Percussionei!

Tá vendo? A gente fala as coisas, a vida vai lá e diz, ah é? Não fez ainda, fica dizendo que quer tentar? Então toma!

 

Ontem fomos a um bar brasileiro escutar um grupo de amigos que tocava nessa noite e, claro, encontrar mais um monte de amigos e conhecidos. Porque mesmo quem não se conhece, acaba entrando na dança.

 

Vou logo esclarecendo que não passei da segunda caipirinha, o que para quem me conhece, sabe que isso não me faz nem rir mais alto. Quer dizer, se pago mico é porque não ligo ou vacilei, e não pela influência etílica. Não tem desculpa!

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, não demora muito para a gente começar a se acabar! Nós gostamos para caramba desse músico, porque além de ser realmente bom, ele é versátil e faz concessões para a galera se divertir. Sua mulher também é animadíssima e ambos se tornaram amigos queridos. Eles estiveram conosco na festa de reveillon, e portanto, presenciaram minha performance com tantam.

 

Em determinado momento, estava dançando um pouco mais no fundo com Luiz e escutei meu nome. Achei que estavam me chamando para dançar com as meninas que estavam mais à frente e fui no impulso. Quando já estava de cara para o palco é que entendi que o percussionista tinha ido ao banheiro ou beber alguma coisa, e o posto estava livre! Estavam me chamando para tocar com eles! Como assim?

 

Sabe aqueles momentos em que você tem certeza absoluta que se pensar por mais de três segundos, vai amarelar? Pois é, nesses casos, o melhor é não pensar e se jogar. No meio daquele vai, vai, vai… fui! Olhei com cara de assustada para o músico e perguntei, o que faço? Ele fez o som do pá pá pá que eu tinha que batucar e repeti a frase no tantam como um papagaio. E saiu! Sou suspeita para dizer se saiu bom ou mau, mas saiu alguma coisa, e isso para mim já foi um grande passo!

 

O percussionista voltou e no que tentei devolver seu instrumento, recebi de volta uma baqueta, estava batucando com as mãos antes. E assim ainda toquei uma segunda música, repetindo as instruções na base do pá pá pá. Percebi que a minha mão suava tanto que achei que a baqueta ia voar longe, mas não voou. Honestamente, não consigo nem me lembrar quais foram as duas músicas que participei, de tão concentrada que estava na batida! Foi como se estivesse tocando matemática, eram números ritmados em um compasso de tempo.

 

E agora, já posso colocar no meu currículo que também toquei percussão em um bar!

 

… eu não quero tudo de uma vez, não, eu só tenho um simples desejo, hoje eu só quero que o dia termine bem, hoje eu só quero que o dia termine muito bem…

 

 

O clip é apenas ilustrativo, não estou nele 🙂 É uma interpretação da música da Luciana Melo, Simples Desejo.

99 – Há dias melhores que outros

Passagem para o Brasil marcada! Vou para o Rio em 12 de fevereiro e volto em 3 de março. Tentarei passar por São Paulo, nunca é muita coisa, mas queria estar por lá pelo menos uns 3 ou 4 dias, vamos ver se consigo. Agora, até a data da viagem, sei que o tempo vai voar.

 

Ontem, voltamos ao coral, depois das férias de fim de ano. Faremos uma apresentação em março e terei que me virar para ensaiar sozinha do Brasil mesmo. A novidade é que vou tocar o tantam, ai que mêda! Não tenho mais vergonha de fazer apresentações cantando, bate um friozinho na barriga, mas é gostoso. Entretanto, tocando, será a primeira vez e acabarei chamando atenção porque acho que será o único instrumento grave e o que fará a marcação. Isso quer dizer que se errar qualquer coisinha, haverá uma seta vermelha apontando para minha testa, e ainda atrapalho o grupo.

 

Uma coisa é tocar aqui dentro de casa para amigos levemente alcoolizados. Outra totalmente diferente é estar em um palco fazendo isso! Mas tudo bem, mesmo dando um pouco de preocupação, no fundo estou achando o máximo. Quem não arrisca…

 

Hoje já dei uma treinadinha, batuquei junto com clips no youtube. O meu termômetro em relação aos vizinhos foi o Jack. Ele não suporta barulho e ficou deitado bem próximo, sem se assustar ou fugir. Isso dever querer dizer que realmente toquei suave.

 

Quero ver se também consigo montar um portfólio para levar para São Paulo e tentar agendar alguma exposição por lá. Está me batendo os cinco minutos de fazer alguma coisa nessa área e sei que pela Espanha é mais complicado para mim.

 

Ando meio chateada de estar morando aqui, no apartamento. Depois de saber que é alvo de disputa e de infelicidade, fiquei sensível e o aproveito menos. Em teoria, nós não temos nada com isso, mas é difícil ficar totalmente fora. Ontem mesmo, o ex-marido da proprietária ligou para cá, pressionando com algumas perguntas. Por mais que não entre no jogo, é bem desagradável, me sinto mal. Ao mesmo tempo, não é o momento de sairmos, a não ser que sejamos realmente obrigados, então é melhor enfiar minha viola no saco e deixar isso para lá.

 

Acontece que mais uma vez estou nas mãos dos do-cu-meeeenn-tos, esses fantasmas que me atormentam desde que deixamos o Brasil. Agora temos um fantasma novo, a criiiiiiiiise! Não aguento mais as pessoas conversando em tom baixo e grave sobre seus possíveis efeitos, como se falassem de uma epidemia fatal que vem se aproximando. Em ambos os casos, mais que os efeitos colaterais, me preocupa a baixa da moral, o desânimo. E me irrita sentir as mãos atadas, talvez não estejam, mas sinto assim.

 

Minha vontade de ser mãe diminui proporcionalmente às possibilidades. Natural, essa opção sempre implica em uma crença no futuro e nas pessoas. Não estou evitando, mas me peguei mais de uma vez torcendo para o acaso negativo, o que não me parece um bom sinal. Alguma coisa em mim mudou por esses tempos e talvez o corpo tenha entendido a mensagem antes da cabeça. De uma maneira ou de outra, é bom saber que não carregarei mais o peso da dúvida ou o da falta de coragem. É possível que seja a primeira vez que faço um real exercício de perda de controle e não enlouqueço, essa experiência me servirá.

 

Pero, bueno, um dia de cada vez. Hoje é sexta-feira, mais tarde sairemos com amigos. Sei que vou cantar, sorrir, conversar, pagar algum mico e pensarei que, no fundo, até que a vida é divertida.

 

 

 

 

 

98 – O enterro dos ossos

Sobrou coisa para burro do reveillon, principalmente bebida alcóolica. Isso não é nem de longe uma reclamação, nossos amigos todos queriam colaborar com a festa e somos uns exagerados na filosofia que é melhor sobrar do que faltar.

 

A questão é que espaço é algo restrito e já não tinha mais onde colocar garrafas. Por sorte, estava bem frio do lado de fora na varanda, lugar de onde as cervejas não sairam desde então, uma geladeira natural e ao ar livre. Sem contar com as travessas, tupperware, panos, pratos, formas e outro monte de coisas que ficaram esquecidas.

 

Pois então, marcamos o enterro dos ossos, com o objetivo de tomar ou levar tudo que sobrou. Dessa vez, ficou claro que seria uma reunião light, primeiro porque estava todo mundo morto, segundo porque não acredito que os vizinhos fossem tão condescentendes uma segunda vez, sem ser a noite de ano novo.

 

Primeiro tentamos marcar para o dia de Reis, mas ninguém aguentava, marcamos então para sexta-feira, 9 de janeiro.

 

O que aconteceu é que durante essa semana os convidados foram baixando e divulgando as fotos da festa. Fomos nos dando conta que chutamos todos os baldes possíveis e imagináveis! Cada um lembrava uma parte dos acontecimentos e juntamos aquele quebra-cabeças bizarro que era tão engraçado quanto assustador.

 

Não vou contar as histórias, porque não são só minhas, mas valeu assunto para centenas de e-mails de um grupo de adultos que mais pareciam adolescentes que fizeram festa quando os pais viajaram. Uma cumplicidade quase infantil. Chegamos a conclusão que nas próximas festas deveríamos proibir a entrada de pessoas com máquinas fotográficas, filmadoras e boa memória! Melhor valer a velha máxima se-não-lembro-não-fiz, pronto.

 

De qualquer forma, ainda nos restava um arsenal etílico para dar conta.

 

Na sexta-feira, nevou em Madri como não acontecia nos últimos dez anos! A cidade parou em uma mistura de caos e alegria pela novidade. Na Espanha neva com frequência no inverno, mas na cidade de Madri é raro. Costuma nevar um ou dois dias ao ano e naquele esquema que quando toca o chão derrete. Dessa vez, nós tínhamos pelo menos 10cm de neve só na nossa varanda, bom para a cerveja que ficou lá.

 

Muito bem, pois então, melhor transferir a festinha para sábado. Infelizmente, muita gente já tinha outro compromisso e nosso grupo foi menor, porém não menos divertido. Tratamos de tirar fotos bem comportadas logo no início, sem copos de bebida alcoólica na mão, tomando água, performance conservadora total.

 

Nem tudo foi representação. O fato é que por mais que nos comportemos como adolescentes alucinados de vez em quando, falo por mim, o corpo nos recorda que isso não é de todo verdade. Ainda dou conta de farras homéricas, mas não sequenciais, coisa que meu marido discordaria. Resumindo, foi realmente tranquilo e tomamos muita água não apenas para fotografia.

 

No final, de uma mesa cheia de bebidas, algumas fechadas outras não, distribuímos o que restou de acordo com as preferências. Ainda há algumas coisas esquecidas, mas já não atrapalham para arrumar a casa. Umas três da matina demos a noite por encerrada, o que pode acreditar, para nós é bem cedo.

 

No dia seguinte, recebi outra hóspede, uma amiga desde os tempos de solteira no Rio de Janeiro, que hoje em dia mora em Munich. Em um vôo que veio do Brasil, seu marido seguiu para Alemanha e ela aproveitou a conexão para dormir aqui. Falamos até a língua ficar dormente e tenho dúvidas se atualizamos tudo. Acabou adiando a volta por um dia e ganhamos um tempinho a mais para fofocar.

 

Ao adiar a viagem, acabou me fazendo companhia para ir buscar minha carta de autorização de regresso a Espanha. Durante a renovação do meu documento espanhol, preciso dessa carta para deixar o país. É burocrático, mas felizmente deu tudo certo e não demorou nada. Eles estão mais organizados. Agora estou autorizada a viajar tranquilamente até meados de abril, quando espero estar prestes a receber meu documento renovado. Tenho planos de ir ao Brasil em fevereiro, quando meu pai fará 70 anos. Agora estamos correndo atrás das passagens, espero que dê tudo certo.

 

Nesses dois dias que minha amiga brazuca-alemã esteve aqui, caminhamos bastante, o que tenho sentido muita falta nos últimos tempos. Estou muito parada esportivamente falando e tenho me prometido com frequência que retornarei ao meu ritmo de caminhada. O frio atrapalha muito, mas definitivamente, notei que a falta de companhia talvez atrapalhe mais. Não dependo de ninguém para caminhar, mas sempre é mais estimulante ter uma meta ou alguém com você. Enfim, foi um começo, depende agora de mim tentar retornar.

 

Como ela conhece minha família, entramos no MSN com a webcam ligada para falar com meus pais. Primeiro falamos com minha mãe, que havia aprendido a fazer um monte de bobagens on line e estava se divertindo em nos mostrar os novos recursos que aprendeu. O pior é que era engraçado mesmo. Até que meu pai acordou, ele sempre faz a siesta à tarde, e se juntou a conversa. Ele estava impressionantemente bem! Para a gente, os mais próximos, que sabemos como ele é, como ficou e todo o problema, é mais fácil para perceber sutilezas, pequenas ou grandes melhoras.

 

Logo na semana seguinte ao AVC, ele teve um grande degrau de melhora, depois tudo foi muito devagar. Agora, é como se tivesse subido outro degrau, ele talvez não tenha notado, mas foi um grande passo. A única coisa que está muito difícil de voltar é a visão, os dois lados direitos de cada olho estão comprometidos. Como acho que devemos comemorar cada etapa, fiquei realmente muito feliz.

 

E assim encerramos a temporada de fim e reinício de ano, acho e gosto de acreditar que é um bom presságio. Sei que vem muita pedreira pela frente, mas prefiro pensar que o copo está meio cheio do que meio vazio.

 

97 – Bate-volta em Córdoba

Nosso primeiro dia do ano foi meio de recuperação, precisávamos descansar para repor as energias. Depois, quase tudo está fechado mesmo e não tem muito o que fazer na rua. Mas logo no segundo, nossos hóspedes queriam viajar para algum lugar próximo e fomos com eles a Córdoba, de trem rápido, o tal AVE.

 

Adoro viajar de trem, não acho nada cansativo. A única coisa é que só topava se não fosse tão cedo. Acho que ninguém queria acordar cedo mesmo, então saímos às 11:30, chegamos lá na hora do almoço.

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Córdoba é uma gracinha e sua principal atração é uma gigantesca mesquita, para onde nos dirigimos assim que chegamos. É realmente fantástica e impressionante! Não sei oficialmente, mas pelo meus olhos, devem haver pouco mais que 500 colunas e arcos sobrepostos, com diferentes perspectivas, iluminações, mosaicos, portas, um caos bastante harmônico e rico. Ainda que seja um legado muçulmano, após a reconquista espanhola foi transformada em uma igreja e no seu interior há uma catedral cristã com elementos góticos e barrocos.

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Visitamos também o Alcazar e caminhamos pelas ruas cheias de laranjeiras, com frutos maduros mesmo no inverno. Chovia um pouco e às vezes a gente precisava se abrigar em algum lugar, mas nada que atrapalhasse significativamente o passeio.

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Uma coisa achei interessante, almoçamos e jantamos na cidade e ambos os lugares eram totalmente não fumantes. Sendo que no almoço era um restaurante bem tradicional e no jantar um restaurante e bar, o que é até mais surpreendente. Isso na Espanha é algo quase inacreditável! Os dois lugares estavam bem cheios e de espanhóis. Fico na esperança que a moda pegue!

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Retornamos a Madri no trem de 22:30hs, mortos de cansados. Os meninos ainda se animaram a passar no Trifón, mas seria inútil, porque a hora que chegamos, a cozinha já estaria fechada.

 

No dia seguinte, nossos amigos iriam embora à noite, com uma conexão em Frankfurt. A idéia era fazer algumas comprinhas durante a tarde, jamón, vinhos, essas coisas. Entretanto, logo que Luiz acordou, foi se informar na internet e descobriu que havia se instalado um verdadeiro caos no aeroporto de Barajas e todos os vôos estavam atrasados. Uma mistura de greve dos pilotos da Ibéria e de controladores de vôo. Oficialmente, não estavam em greve, mas resolveram que ficariam todos doentes ao mesmo tempo.

 

Diante do quadro, Luiz acordou nossos amigos meio às pressas e resolveram ir direto para o aeroporto tentar pegar um vôo anterior para Zurich, mesmo que estivesse atrasado, o que aconteceu, tinham maior probabilidade de chegar a tempo para a conexão ao Brasil. Foi bastante tumultuado, mas conseguiram.

 

Os dias seguintes foram de faxinão, para entrar com a casa limpa, um dia só não foi suficiente. Com a sequência de festas, viagens e visitas, Maria aqui deixou o serviço acumular! Tudo bem, estávamos prontos para a próxima festa, que não demorou a chegar. Afinal de contas, e o clássico enterro dos ossos? Como é que ficava?

 

96 – 2009, sobrevivemos!

Nem sei por onde começar, as últimas duas semanas foram daquelas que parece haver passado todo um ano, o que não é de todo mentira.

 

No Natal, fizemos ceia em casa para alguns amigos, poucos. Foi bastante tranquilo e me senti muito bem. Não fiquei melancólica. Falei com minha família pelo MSN e, através da câmera, participei um pouco do jantar brasileiro do outro lado do oceano. Do lado de cá, as comidas deram certo, sinal que estava em equilíbrio. Quem me conhece sabe que quando não vou bem, salgo a comida e se estou dispersa, queimo. Até a casquinha de siri funcionou!

 

Muito curioso, o fato de ter vindo uma amiga que estudou comigo no primário, em Brasília! Ela mora em Turin e de vez em quando, passeia por essas bandas. Tantos anos depois, é bizarro e legal passarmos o Natal juntas em Madri. Voltas que o mundo dá.

 

Fizemos amigo ladrão, na minha opinião bem mais interessante que o chatérrimo amigo oculto. Comemos bem, brindamos com cava, tomamos um bom vinho e conversamos sem grandes compromissos. Na saída, precisei distribuir quentinhas, porque como exagerei só um pouquinho nas comidas, nem espaço na geladeira tinha mais! Ótimo, porque no dia seguinte, todos tínhamos alguma mordomia.

 

Dia 26, morgação total e última oportunidade de deixar as coisas em casa encaminhadas para a maratona que se aproximava.

 

Dia 27, chegaram dois casais de amigos hóspedes, não se conheciam, um casal chegou de Natal (a cidade) e só dormiria uma noite, o outro veio de São Paulo, para passar o Reveillon. Passamos a tarde toda tomando vinho e beliscando coisinhas até a hora do jantar, agendado no Trifón. Uma delícia como sempre!

 

Por volta de meia noite, nossos hóspedes estavam caindo pelas tabelas, muito razoável após uma viagem internacional e toda a programação em seguida. Os acomodamos em casa e partimos para a próxima etapa.

 

Claro, ainda tínhamos uma festa de aniversário para ir. Afinal de contas, somos sócios-fundadores do clã dos imparáveis! Temos uma reputação a zelar. Uma noite de sábado em Madri, dificilmente se encerra depois do jantar. O pessoal da festa ainda seguiu para uma boite no fim da madrugada, mas essa parte nós pulamos. Voltamos para casa por volta das 3 da matina.

 

Às 9:30h já estávamos de pé, um dos casais partiria para Marrocos, queria me despedir e Luiz os levou ao aeroporto. Mais tarde, seguimos com o outro casal para o Vale de los Caidos e Segóvia. Jantamos tarde, no El Barril.

 

Dia 29, passeio a pé pelo centro da cidade. Sempre digo que Madri deve ser conhecida caminhando. À noite, nos acabamos de comer no El Rincón de Jaén. Digo os restaurantes, porque estão entre nossos favoritos. Come-se divinamente, vinhos corretíssimos e atendimento gentil e profissional.

 

Acho que para conhecer qualquer lugar é fundamental experimentar sua gastronomia, é uma maneira literal de digerir parte da cultura. Acredito que seja na mesa um dos lugares que mais se aprenda sobre as pessoas. Foi nas tabernas e restaurantes madrileños onde mais aprendi sobre o melhor lado dos espanhóis, à sua maneira, são generosos, informais, gostam de gente e da sua proximidade. Tem defeitos também, o que os faz tão humanos quanto o restante do planeta, mas se existe um momento em que me sinta mais integrada nesse país, é na mesa.

 

Nos dias 30 e 31, tinha muito o que fazer em casa. Dispensei a rua e tratei de organizar a farra que se aproximava. Muita coisa havia adiantado, mas sempre há o que só se pode fazer no dia ou na véspera, para que esteja tudo fresco. Um rocambolíssimus enormous de carne recheado, antepasto de beringela assada, tender no mel, pernil no suco de limão, farofa com bacon, salada de batata com cream cheese, frutos secos, salpicão de frutos do mar e algumas outras coisas que devo estar esquecendo agora. Nossos amigos trouxeram mais, torta salgada, folhados deliciosos, arroz com lentilha, frios ibéricos, salgadinhos e por aí vai. Sem falar das sobremesas, tiramisú, pudim, chocolate, tortas, tudo de bom!

 

Um dos amigos disse que não andava muito bem e trouxe sua sopinha em um tupperware. Confesso que lhe dei uma recomendação irresponsável, deixa isso para lá, se a comida não te fizer bem para o corpo, te fará para a alma e você ficará muito mais feliz! Não sei como ele passou no dia seguinte, mas a sopa ficou intocada na nossa geladeira.

 

Recebi as pessoas portando asas de anjo, para deixar claro que estávamos em outra dimensão. Pelas minhas contas, éramos pouco mais que quarenta pessoas e todos trouxeram bebidas. Isso quer dizer que tínhamos um arsenal suficiente para abrir um bar! Adicione a essa equação o fato de sermos muito amigos, estarmos à vontade, após a grande maioria passar um anozinho dos infernos e ser noite de Ano Novo. Bombástico, né? Após uma semana, ainda seguimos tentando nos lembrar de acontecimentos inexplicáveis durante a festa!

 

O fato é que estávamos em uma boa onda total! A noite de reveillon, para mim, é a mais importante do ano, a única que tenho fé. É uma noite de esperança mundial e de alguma maneira, essa energia deve circular pela terra. Os problemas não são resolvidos em um passe de mágica, Gaza está aí para nos lembrar, mas é um momento em que acredito no fundo do coração que eles podem ser resolvidos. E essa crença me deixa poderosa e feliz. Não sou porta voz das outras pessoas, mas tinha essa sensação que era geral, todos conhecíamos os problemas alheios e não me lembro de tocar ou ouvir esses assuntos, porque nesse momento não importava mais, estávamos imunes, protegidos.

 

Na verdade, é possível que tenhamos acreditado que essa proteção era também sonora, porque tenho quase certeza que fizemos o edifício tremer! Veja bem, a possibilidade da polícia estar ocupada era bem grande, então, quem é que ia se preocupar com o ruído de uma festa particular? Contamos com isso e botamos para quebrar! Tínhamos música ao vivo! Dois músicos que sabiam o que estavam fazendo, ou quase, nas cordas, e um monte de curiosos na percussão com instrumentos diversos.

 

Pois me acabei de tocar o tamtam! Nunca toquei tão bem na vida, ou nisso acreditei naquela noite. Realmente espero que ninguém tenha gravado, assim poderei manter minhas ilusões. A verdade é que na manhã seguinte, havia esfolado a pele do meu dedo indicador direito, o que dá alguma indicação da suavidade com que estava batucando. Não era a única alucinada, pois o cajón do meu amigo também se partiu. Ou seja, se nessa intensidade estávamos tocando, imagina como esse som se propagava pela vizinhança. O problema é que as pessoas tiram fotos, assim não podemos negar coisas que nos parecem absurdas. Por exemplo, havia algumas onde apareciam Luiz e eu tocando… violão! Desconfio, porque certeza ninguém tem, que ocupávamos o cargo a cada vez que eles levantavam para beber alguma coisa. Outra vez, realmente espero que ninguém tenha gravado!

 

A essa altura, minhas asas já tinham circulado e estavam em minha amiga imparável, que por algum motivo, não conseguia abrir os olhos de jeito nenhum! Mas o sorriso seguia, assim como seguiu em todos.

 

Meia noite, estávamos no terraço, taças de cava na mão, 12 uvas na outra, e fogos de artifício estourados pelo Luiz. Entre gente querida, pensamento dividido aqui, no Rio e em tantos lugares por onde passamos, recebemos 2009. E já nem achava 2008 tão ruim, não me cabia mais rancor nem tristeza, seria até injusto.

 

A festa seguiu madrugada afora e pelas 6:00hs da manhã, comecei a assar o pão caseiro divino, que uma das convidadas trouxe. Foi servido com café, frios e manteiga Aviação. Ninguém deu muita bola para os frios, todo mundo matando a saudade de casa com pão quentinho e manteiga derretendo.

 

Pelas 7:30, de vassoura em punhos, pedi arrego! Jack, que ficou preso no quarto tranquilo, estava miando, doido para sair. Era dia claro, o que indica que passava das 8:00hs, quando fomos dormir.

 

Quando levantei, pelas 14:00hs, me dei conta que não tinha só metido o pé na jaca, como pisado fundo até o joelho! É verdade que estava cansada, acho que não parei muito por toda a festa e não desci do salto. Mas não me lembro em nenhum momento de ser um fardo, pelo contrário, era divertido voar de lá para cá, com minhas asas de anjo ou de abelha ocupada, como gosto de estar. Devo ter pago meia dúzia de micos, espero que sim, e não importa porque estava entre amigos. O whisky não me subiu à cabeça, parou no coração, e não tinha um pingo de ressaca.

 

Levou alguns dias para por a casa em ordem, também aproveitei para fazer o mesmo com as idéias. Foi tudo lavado, roupas de cama, chão, forro do sofá. Agora começo a fazer limpeza de papéis e coisas que não usamos. Sempre gosto de começar o ano zerada, mas esse ano foi um pouco diferente.

 

O começo de um ano é também a quebra de um ciclo, onde costumo ter essa sensação de recomeçar, de deixar para trás o que passou. Dessa vez, não tenho vontade deixar mais nada para trás, porque já ficou, já passou e o que levo é a experiência, que ninguém nos toma. São só figuras de linguagem, maneiras diferentes de dizer ou ver a mesma abstração, porém traz uma nova atitude. E talvez, seja esse meu recomeço.

 

Hoje, posso falar sobre quarenta pessoas, todas diferentes, e que não consigo imaginar a mesma festa sem a contribuição de cada uma, individualmente. Temos outros amigos, com e sem problemas pelo mundo, mas tenho a confiança que encontrarão os melhores caminhos. Luiz, Jack e eu, seguimos juntos e com saúde. Nossas famílias estão envelhecendo, é parte da vida e ainda há muita energia para tocar o barco, eu sei que vai chegar o dia em que não haverá, mas não será hoje. Chegou 2009 e sobrevivemos, fomos capazes de sorrir e comemorar, algo de certo fizemos.

 

95 – Tá bom, tá bem, eu me rendo… Feliz Natal!

Não estou mal humorada, pelo contrário, mas vou ser muito franca, acho Natal um saco! Sério, é uma exploração emocional que me torra a paciência!

 

Um momento para reunir a família é legal, mas na prática a gente não consegue manter esses momentos por toda a vida. As pessoas adoecem, morrem, mudam, formam novas famílias e assim caminha a humanidade. Resultado, um dia que em teoria deveria ser feliz, se transforma em um jogo de culpas e lamentações. Caraca, nada mais católico que isso!

 

Talvez esteja implicante esse ano, vamos combinar, foi foda para todo mundo! Quem chegou no final dele só um pouco machucado, é melhor ficar bem quietinho e não reclamar.

 

Enfim, tem alguns lados do Natal que gosto. Curto as decorações natalinas, ajudam a nos preparar o espírito para um período que se acaba. É uma época que temos uma excelente desculpa para procurarmos os amigos e agradar quem gostamos, é bacana quando não é por obrigação.

 

O que não gosto é dessa pressão distorcida e subjetiva que fica no ar, se você não está com sua família precisa ser triste. Se você não tem uma casa onde passar é um excluído, não merece. Se você perdeu alguém querido, precisará lembrar dele ou dela nesse dia e sofrer até doer.

 

Eu não quero um dia de tristezas fixo no calendário.

 

Tenho sorte, não sou cobrada pela minha família de estar presente a qualquer custo no Natal. Depois, acho que há maneiras de estar próxima sem estar tão perto. Mesmo assim, tem horas que gostaria de estar perto sim e me contradigo em tudo que disse acima. Não me sinto culpada, mas fico um pouco triste. Depois passa.

 

Não passaremos sozinhos, nossa porta não tem grandes trancas. Amigos queridos jantarão conosco e disso eu gosto. Passei o dia preparando comidinhas, adoro mesas fartas, onde os aromas invadem seu nariz. Fiz tender com mel, whisky e frutas; uma ave assada que chama “pularda”, parece um chester em tamanho, o gosto vou descobrir amanhã; rocambole de carne recheado com jamón ibérico, queijo cremoso e patê de foie; casquinha de siri, receita teste que depois eu conto. A farofa farei amanhã, para ficar bem fresquinha, é daquela farinha baiana fininha e amarela, deliciosa. As sobremesas, trarão os convidados, sou fraca em doces.

 

Cozinhar me relaxa, me tira do mundano. E após cozinhar tanto, pensando bem, Natal nem é mais tão chato assim. Deu vontade de falar com os amigos, de dar um monte de abraços, fiquei piegas. Esse ano vai passar, não houve só coisas ruins, foi duro, mas com resoluções importantes também. Amanhã, será tranquilo, apenas um dia para comer bem e rir um pouco. E o Ano Novo que me aguarde!

 

Então, vá lá, povo pelo mundo afora, Feliz Natal para vocês!

 

94 – Indolor, mas insípido

Hoje fomos à comisaria de policia para a entrevista sobre nossa nacionalidade espanhola. Esperamos três meses cravados, tempo exato que nos estimaram quando entregamos todos os documentos. Adianto que foi tudo bem, não doeu, mas não nos deram nenhuma resposta definitiva, é simplesmente mais um passo.

 

Temos outros amigos na mesma situação, em etapas diferentes, por isso nos comparamos para nos preparar ou entender melhor o que fazer. Mas nem sempre seguimos exatamente o mesmo procedimento. Por exemplo, pela informação que tínhamos, deveríamos receber alguma correspondência pelo meio do ano que vem, marcando a tal entrevista e pedindo alguns documentos outra vez. Entre nós, essa papelada é um pé no saco, porque todo documento brasileiro que te pedem tem que ser carimbado, traduzido, legalizado etc.

 

De maneira que foi uma verdadeira surpresa receber a ligação ontem e já conseguir marcar a entrevista para hoje. Melhor, não nos pediram nada de burocrático, não entregamos cópia nenhuma. Nos requisitaram apresentar os originais do NIE (identidade de estrangeiros), passaporte, comprovante de salário e contrato de trabalho. Os dois últimos, como não tenho, deveria apresentar os do meu marido. Conseguimos, inclusive, ser atendidos juntos, porque os processos são individuais. Así de sencillo.

 

Eu, gata escaldada, fui com cópia e original de tudo que podiam resolver pedir. Mas não pediram. Foi bastante rápido e seco. O agente da polícia dava entrada em uma série de informações no computador e anotava mais um monte de números em um pedaço de papel em branco. Ficava imaginando que fim teria aquele papel de rascunho com nosso destino. Às vezes, não te dá outra alternativa do que confiar no caos. Creio que não demoramos mais que uns 15 minutos durante a entrevista.

 

Na saída, Luiz perguntou se havia algum próximo passo e ele respondeu que agora deveríamos aguardar a resolução, ou seja, se somos aceitos ou negados como cidadãos espanhóis. Disse também que essa resposta demorava muito. Adoro essas informações precisas: demora muito!

 

Saímos com aquele gosto de nem sim, nem não, muito menos pelo contrário. A gente aprende a conviver não com resultados, mas com etapas cumpridas, onde esperamos que tudo esteja correto. Quando saímos de alguma dessas etapas e não faltou nenhum documento, é considerado que fomos bem. Isso não é garantia de sucesso, mas é positivo porque você está habilitado a passar para próxima fase. É o melhor que se pode esperar.

 

Sei que deveria estar comemorando, mas é difícil. Depois da euforia em conseguir subir um degrau mais, bate aquele bajón de não ter absolutamente nada de concreto em mãos. Não é uma queixa, apenas uma constatação e um aviso a quem resolver trilhar caminhos parecidos.

 

A situação me fez lembrar uma história de quando pousei nos EUA, no final de um furacão, ainda tinha medo de avião nessa época. Um pouso duríssimo, com turbulências fortes e um ruído ameaçador. Do lado de fora, nuvens cinzas e densas. Você não tem noção de que altura está, pois não há visibilidade, se pousa por instrumentos. Sou daquelas malucas que não tomava sonífero para viajar, porque afinal de contas, se algum problema ocorresse, queria estar lúcida e aumentar a probabilidade de sobreviver. Caso o avião caísse, sair nadando oceano afora, por exemplo. Muito razoável. Pois bem, quase no final desse pouso, quando estava beirando o limite do pânico, me dei conta que não tinha absolutamente nada a fazer. Nenhum controle. Imediatamente, me baixou uma tranquilidade e uma frieza surreal, e o pensamento que seguramente alguém tinha que saber o que estava fazendo, o piloto não podia ser doido assim de entrar naquela situação sem experiência. E isso talvez tenha sido o mais perto que estive de ter fé.

 

É mais ou menos como me sinto agora, não tenho nada mais que possa fazer. O único que me resta é acreditar que vai dar certo e que alguém vai conseguir pousar no meio desse furacão. Espero ainda ser capaz de saltar do avião inspirando naturalidade, penteada, e seguir viagem.

 

93 – De um dia para o outro

A vida é assim, de um dia para o outro tudo pode ser diferente. Às vezes, dá um pouco de medo na hora de levantar e imaginar o que nos espera, mas acho bem pior não ter porque levantar.

 

Certezas absolutas trazem uma falsa segurança, é que a gente se esquece que elas seriam para o bem ou para o mal. Nem toda certeza é boa, a probabilidade deixa a porta entreaberta, uma esperança.

 

A frustração me deixa bastante aborrecida, acho que é assim com todo mundo, ou deveria ser, porque tem gente que chega a se acostumar a não conseguir as coisas. Não me acostumo, mas tenho tentado aprender a sofrer menos por isso. Algumas vezes, é como se uma nuvem de calmaria me baixasse no meio da tempestade e consigo pensar, tudo bem, já passei coisa pior, é só um momento. Faço um exercício de otimismo e os problemas voltam a ter o tamanho correto, eu sei que eles não sumirão sozinhos, mas é mais fácil tratá-los depois de dissecados. E ainda acredito no bem recompesado, só me esqueço um pouco disso quando estou com raiva. Uma hora a raiva passa e sempre descubro que a generosidade traz muito mais.

 

Esperamos que essas lições de vida apareçam de maneira grandiosa, mas na prática elas se mostram em situações simples e rotineiras, é só prestar atenção.

 

Enfim, recebi a notícia que a proprietária queria falar conosco quando tinha amigos em casa. Não vou negar, não foi agradável e lógico que me preocupou. Mudar de casa agora, em uma época do ano complicada, uma situação econômica pouco estável, com todos os nossos documentos atrelados a esse endereço. Putz! Com tantas mudanças nas costas, tenho uma lista automática do que é necessário fazer, que começa a pipocar na cabeça no mesmo instante.

 

Um dos amigos, tentando ajudar, começou a nos explicar legalmente nossos direitos a não deixar o apartamento e tal. No mesmo minuto, respondemos Luiz e eu que isso não ia acontecer, se ela quisesse o apartamento de volta, devolveríamos, no máximo, tentaríamos negociar uma maneira em que ninguém perdesse tanto. Luiz disse que não queria se aproveitar da infelicidade de ninguém, no que concordo plenamente, não precisamos disso. Honestamente, faço questão do que é meu, mas se não é, perco até o gosto. Resolvemos escutar a história primeiro, sem a intenção de buscar mais problemas do que os existentes.

 

Minha maior preocupação era em relação à documentação, em princípio parece que não, mas permanecer um tempo no mesmo endereço acaba se tornando fundamental. Quase tudo te chega por correio e com datas que você não pode perder. Estamos no meio do processo de cidadania, meu visto de residência ainda não está pronto, enfim, complicaria bastante nossa vida. Trocar o endereço é outra burocracia e, no meio do processo, pode atrasar tudo. Isso sem falar na questão psicológica de ter uma casa, uma identidade, mas não vou entrar nessa seara nesse momento. Portanto, mesmo parecendo coisas totalmente distintas, sempre caminham juntas na minha lógica.

 

Não adiantava dar muito mais voltas que essas, não sabíamos o tamanho da encrenca, nem ia demorar a descobrir. Então, o jeito era encarar. Só combinei com Luiz de, caso precisássemos sair mesmo, não fechar a data na hora, porque precisaria checar algumas possibilidades antes. Ainda assim, fiz meu dever de casa e comecei a checar imóveis pela internet.

 

Felizmente, o suspense não durou tanto, ela chegou e começamos a conversar. Uma história de dar calafrios, o que essa cidadã passou esses últimos meses não desejo para ninguém. O marido, que agora é o ex, aprontou o que se chamaria em castellano castizo de un putada, macho. Juro, fiquei realmente abalada e triste, porque ninguém merece. O que ele fez não vou entrar em detalhes, porque essa história não é minha, mas foi cachorrada e das grossas e a essa altura, já estava achando que deixar o apartamento era fichinha. Como é que a gente poderia ajudar?

 

Bom, descobrimos que na verdade ela nem queria que saíssemos do imóvel, seria mais interessante que alugasse algo menor e mais barato para ela e o filho e continuar a nos ter como inquilinos até que toda a situação se resolvesse. Assim terminamos a noite, não como oponentes, mas aliados.

 

Não sairemos agora do apartamento e de comum acordo. Quanto tempo mais? Sei lá, jacaré é tudo igual… Digo e repito que certa estava minha avó, nasci nua, estou vestida, já vou no lucro.

 

Quando ela se foi, senti o alívio em continuar aqui, mas era impossível ficar feliz. Fiquei pensando como as pessoas podem surpreender tanto. Não era um casal que acabou de se conhecer, estavam juntos por onze anos e com um filho. Entendo uma relação terminar, a mágoa, a raiva, entendo um monte de coisas, mas não posso aceitar a crueldade, muito menos a premeditada, porque isso é de gente covarde.

 

Sem combinar, Luiz e eu pensávamos o mesmo em cômodos distintos. Conseguia me imaginar com muita raiva, com ódio mesmo, talvez fazendo coisas hoje impensáveis em um momento passional, mas não me via nem perto de canalhice ou covardia parecidas. Arrisco a por minha mão no fogo e também duvido que Luiz fosse capaz de algo assim. Como algumas pessoas enlouquecem dessa maneira?

 

Resolvi fazer um bom jantar, tomar um vinho. O leão do dia havia sido resolvido. Não posso dizer que gostei da chacoalhada, mas é importante de vez em quando prestarmos atenção em o que somos, o que temos e a diferença entre as duas coisas.

 

Acordei sem grandes pressas, meu gato pedindo carinho e Luiz telefonando quase simultaneamente, eles combinam. Não deu quinze minutos e o telefone tocou outra vez, achei que era Luiz, que esquecia de falar alguma coisa. Atendi em português, com aquela voz de preguiça.

 

Do outro lado, uma voz espanhola, era da comisaria de policia, sobre o nosso processo de cidadania. Dei um pulo e me transformei em concentração absoluta. Só esperava receber alguma notícia pelo meio do ano que vem e não havia chegado nenhuma correspondência. Ele me pergunta quando posso fazer a entrevista e eu, por mim, amanhã. Então, amanhã às 12:00hs.

 

Estou em cólicas, uma mistura de preocupação e euforia. O caminho ainda é longo e sei que precisarei de mais paciência, mas a possibilidade de dar um novo passo é estimulante. Em menos de 24 horas, uma reviravolta completa, só pra me dizer, acorda, Dona Chica, você ainda tem tempo, em breve talvez possa sair da areia movediça.

 

92 – Anozinho que não acaba

Ontem a proprietária do nosso apartamento ligou, quer conversar. Realmente, espero que seja para nos desejar feliz Natal, mas duvido. Hoje ela passa aqui no fim da tarde, assim que não será um mistério tão agoniante.

 

Gosto daqui, estamos a menos de um ano no apartamento e mesmo para ciganos como nós, é pouco tempo. Gastamos com a mudança, compramos uma ou outra coisa que sabíamos ser a fundo perdido, apenas esperávamos que pudéssemos amortizar um pouco mais. Mas se tiver que ser, também não vou fazer disso um bicho de sete cabeças, será só outro lugar, que ainda não é o meu.

 

Pedi uma carta de autorización de regreso, necessária para deixar o país caso queira viajar. Ficou marcado para 13 de janeiro e até lá, sou mais ou menos prisioneira sob condicional, meu direito de ir e vir fica restrito à sorte e ao humor da imigração. Continuo tendo que fazer de conta que isso não é nada demais, que não deveria me irritar com essas besteiras. Pimenta nos olhos dos outros…

 

Lá vou eu para aquela fila no frio, depois esperar horas para ser atendida, escutar pela quinta vez que o meu pedido de visto de trabalho foi negado. Daí pergunto, por que, algum problema? Tem alguma relação com a carta? E eles respondem, não é que está escrito aqui. Como se eu não soubesse e eles realmente precisassem me lembrar.

 

Ainda quero a cidadania, ir embora antes disso é como ser roubada, preciso que o tempo me recompense de maneiras um pouco mais concretas do que pela experiência.

 

Vamos aguardar a próxima paulada.

 

91 – Um show muito engraçado

Tenho um gosto razoavelmente eclético para música. Talvez mais do que gosto pessoal, seria melhor definido como uma alta tolerância a diversos estilos musicais.

 

A diferença básica é a seguinte, é lógico que tenho minhas preferências e para elas sou bastante exigente. Aquelas canções que escuto tanto que o CD deve ficar mais fundo em alguns lugares, como se pudesse sugar seu conteúdo. Sou daquelas que prestam atenção nas letras, aumento o batimento cardíaco com uma boa percussão e me arrepio inteira com metais e violinos.

 

Entretanto, alguns estilos que não posso dizer que gosto, não me incomodam. Não compraria um CD, não escutaria de propósito, mas se está ali e posso me divertir com isso, eu tento. Já estou mais do que careca de ter passado pela fase de me preocupar com o que pensarão de mim se souberem que gosto disso ou daquilo. E é uma sensação libertadora.

 

Acho que é um pouco como ter conversas com amigos. Um papo sempre intelectual é tão chato quanto um sempre estúpido. Tem dias que quero ir fundo em algum tema. E outros, só quero morrer de rir.

 

Sair do meu país de origem, me deixou mais eclética ainda. Por um lado, dá vontade de conhecer outros estilos e embarcar em outras culturas através de sua música. E nos ritmos brasileiros, fiquei capaz de cantar empolgada coisas que nem sonharia antes, só para ficar mais perto da minha língua. Acabei descobrindo que era bom, e que fazia parte da minha essência, gostando ou não. Através da arte, aprendi a respeitar coisas que não gosto e isso me abriu portas, ampliou minha perspectiva.

 

Quando tem algum show de bandas brasileiras em Madri, independente do que toquem, tento ir. Quer dizer, quase tudo, nunca consegui tolerar música sertaneja por exemplo. Não por uma questão de qualidade musical, mas porque não tenho absolutamente nenhuma referência country, sou urbanérrima! Mesmo assim, talvez vá algum dia, não sei, mas não importa agora.

 

Pois é, daí veio o Falamansa para Madri, soube na semana passada. Um casal de amigos ia, já imaginava que a brasileirada estaria em peso, a gente sempre encontra as mesmas caras. Luiz ia viajar a trabalho, fiquei meio na dúvida, mas quer saber, também vou ficar em casa sem fazer nada? Então eu vou.

 

Vou ser sincera, não tenho absolutamente nada contra o Falamansa, acho até eles bonitinhos, entretanto,  apenas conhecia uma música. Pior, conhecia três músicas, mas achava que era uma só. Aquele frio na cidade, inverno total, e ainda por cima tinha que ir sozinha para um show. Vamos combinar, tinha tudo para ser um mico, né?

 

Acontece que estava de bom humor. Fez sol durante o dia.

 

Troquei novecentos e trinta e dois e-mails pela tarde toda com os amigos. Ninguém estava com a menor vontade de trabalhar, acho que foi o dia mais improdutivo nas empresas espanholas. Mas tudo bem, já comecei a me divertir aí e descobri que encontrar conhecidos é que não seria nenhum problema. Depois, o clã dos imparáveis estava quase completo e preciso me esforçar para não perder minha posição.

 

Eu, caxias para burro, acho melhor a gente chegar cedo para pegar um bom lugar! Putz, acho que fomos os terceiros a entrar, dava até pena da casa vazia. Na entrada, perguntaram se éramos clientes VIP, bom, VIP não somos, mas somos muito legais, ajuda?

 

Não sei o que deu na gente, mas estávamos todos atacados nesse dia, com as línguas mais do que ferinas. Daquele jeito que se você engole muita saliva, morre envenenado. Eu sei que vou para o inferno, mas agora estou tranquila que não estarei por lá sozinha! E verdade seja dita, o povo estava pedindo para ser sacaneado. Nós só atendemos.

 

Um rapazinho enrolado com a bandeira do Brasil, com uma peruca black power colorida, dançando freneticamente. Até aí, tudo bem, esse até parecia simpático, o garoto estava feliz, deixa ele.

 

De repente, a gente nota um brilho na sala. Um cidadão, que parecia espanhol, estava com uma camisa comprida de botão, cor de rosa, com listras bordadas… em paetê! É difícil descrever, mas garanto que nunca na minha vida vi nada tão cafona. Pior, estava com a namorada, ou seja, quem escolheu esse mimo foi ela, né?

 

Do nosso lado, um senhor careca, gordinho, com pinta de espanhol dono de taberna tradicional, acompanhado de uma jovem fogosa mulata, que dançava sozinha na sua frente. A gente esperando o momento de chamar a ambulância com oxigênio para o coroa.

 

E não é que começou a chegar gente? Animou. Tudo bem, a verdade é que a essa altura nem estava mais ligando, estava com meus companheiros de inferno e uma boa dose de whisky. Mas realmente a casa encheu.

 

Apareceu um DJ e começou com um repertório funkeiro que estávamos totalmente desatualizados. Em especial, uma musiquinha do sabonete que um pouquinho menos canalha, ficaria enrubrecida. Também é verdade que não conseguia entender metade da letra, o que nesse caso, foi uma benção!

 

Três mocinhas se empolgaram, salto agulha, mini-vestidos de oncinha e aquela coreografia para lá de suspeita. Tudo bem, pode dizer que é despeito, talvez se fosse homem, me empolgasse, mas não sou e como já disse, estávamos todos atacados nesse dia. Portanto, como se houvesse uma parede de chumbo entre nós, ficávamos na cara dura imitando a coreografia de um jeito, digamos, bem menos sexy.

 

Nossa atenção foi desviada para um rapazinho, justo na nossa frente, que começou a se exibir para duas meninas. Tentava dançar de um jeito que nós imaginamos que ele pensava estar provocativo, porque dava aquela arrebitadinha no bumbum para rebolar. Com toda aquela ginga, beleza e graça de um gringo. Pensei em avisá-lo que o único lugar em que ele faria sucesso com aquela dancinha seria na cadeia.

 

Entrou uma banda para abrir o show. Nós nos esforçamos para dar uma força para a galera, é sempre difícil começar. Mas, sério, houve um momento que quase sentimos saudades do DJ pornográfico.

 

Até que, finalmente, entrou o Falamansa, e para quem pensa que vou meter o pau no show, se engana, foi bom. Alto astral, tocam direitinho. Se estivesse com Luiz, me divertiria mais, porque forró e xote é bom de dançar em par. Mas não tinha do que reclamar.

 

As pérolas da noite não terminaram por aí. Por mais que nosso senso crítico estivesse bastante apurado, na prática estávamos na maior boa onda e talvez por isso, ninguém se importou em se aborrecer conosco. É muito provável que também estivessem rindo da nossa cara, o que, juro, também não me importava.

 

Uma menina começou a invadir nosso espaço vital, filmando o show. Quando estava praticamente entre uma amiga e eu, comecei de farra dizendo que ia entrar na frente do vídeo, ou algo do gênero. Assim como deveríamos estar invisíveis, quem sabe também estivéssemos inaudíveis! Claro que ela escutou e era brasileira, mas sorriu e respondeu que aí é que ficaria mais engraçado! Pronto! Já achei ela simpática, só não estava vendo para onde ia, no final, até ajudei a filmar.

 

É que espanhol é um saco com esse negócio de espaço, ficam sempre colados em você igual a passarinho. Chato pacas! Brasileiro quando faz isso é porque não percebeu.

 

Bom, uma hora o show acabou e quase fomos atropeladas por um mocinho que rolou escada abaixo, como um dublê, nem sei como ele conseguiu não se machucar. Levantou, sem graça, bem rápido, talvez na esperança de ninguém ter visto. E minha amiga que se livrou do atropelamento por centésimos de segundo, dizendo: boliche, boliche! Coitado!

 

Na saída, uma cidadã sentada no chão, una borrachera de dar gosto! Sério, acho que nunca vi uma mulher tão bêbada, deprimente! Fez xixi nas calças e tudo. O namorado em desespero tentando tirar ela dali. E eu passando rapidinho com medo que ela me vomitasse, credo!

 

Saio do local e escuto uma voz ao vento: co-xi-nha…. co-xi-nha… co-xi-nha… Como assim? Será uma ilusão auditiva? Coxinha? Na madrugada madrileña? Como é que iria resistir?

 

Sim, era uma coxinha feita por nem-tenho-idéia-quem, sabe-se lá a procedência dos ingredientes, comprada no meio da rua. E eu, a fresca com TOC, não pensei duas vezes! Me atraquei com o salgadinho frio, enquanto aquele namorado desesperado tentava, sem sucesso, empurrar a mocinha da incontinência urinária em um taxi.

 

Nisso, passa outro taxi ao lado e não quis correr o risco de me acotovelar em busca de condução para casa. Despedi rápido dos amigos e mergulhei no carro, com a coxinha e tudo! Entrei mastigando e pedindo desculpas ao taxista, mas é que estava morta de fome! Ele, bastante educado, nem sabe que se livrou da bêbada mijada.

 

Cheguei em casa, o telefone tocou logo em seguida, minha amiga checando se cheguei bem. Sim, sã, salva e feliz.

 

A coxinha não me fez nenhum mal e, no dia seguinte, também descobri que por pouco havia me livrado de passar em meio a um protesto violento no centro da cidade, coisa rara de acontecer, mas aconteceu.

 

É que estava naqueles dias em que você é imune ao mal, quando nada de ruim pode te passar, e essa crença é o melhor amuleto que alguém pode carregar. Tem dias que carrego.

 

…êê pra surdo ouvir, pra cego ver que esse xote faz milagre acontecer…

 

90 – Idiomas coloridos

Queria saber ler música.

 

Quando era era criança, não sei, talvez com uns seis anos, bem pirralha, comecei a aprender piano. Por alguma bobagem infantil qualquer, não quis mais ir às aulas. Não é que não quisesse aprender piano, impliquei com o lugar ou com a professora e, com essa idade, não tive exatamente uma grande maturidade para lidar com o tema.

 

De qualquer maneira, a melhor lembrança que tenho dessa época era a de começar a aprender a ler música. Para facilitar e tornar o aprendizado mais interessante, as notas tinham cores e as partituras viravam linhas coloridas com claves desenhadas. Eu me lembro da sensação de olhar para o papel e ver a música.

 

Eu perdi essa habilidade, não sei mais, não lembro. Modéstia à parte, sinto que tenho um bom ouvido, porém bem pouco educado.

 

Muitos anos depois, vi um maestro reger uma orquestra de jazz em Praga, e estava muito próxima a ele. A partitura tinha cara de uma equação matemática gigantesca, me parecia uma língua impossível e indecifrável. Ao mesmo tempo, ver a concentração dele acompanhando cada nota e definindo quem entrava e quando, não deixava a menor sombra de dúvida que ele sabia perfeitamente o que estava fazendo. Vou ser sincera, morri de inveja! Passei o tempo todo atenta ao papel, aos seus gestos e as respostas sonoras. Em alguns momentos, quase sentia como seria a sensação de entender, por puro instinto, mas a verdade é que era um idioma tão claro para mim quanto o tcheco.

 

Na aula passada do coral, a professora nos levou uma música com a partitura. Muito simples, uma musiquinha de Natal. No primeiro momento, não me preocupei por não saber ler as notas, não era tão importante, ela simplesmente nos levou para dar uma idéia do que era. Mesmo assim, prestei atenção porque acho interessante.

 

Pois enquanto rolava a explicação, não é que bati o olho na frase que canto e vi! Uau! Parecia aqueles jogos de ilusão de ótica, que no primeiro momento é uma imagem confusa, você fica olhando e de repente a imagem salta para você. Foi assim, de repente a música saltou, e lembrei da sensação de vê-la.

 

É muito parecido quando você começa a aprender um idioma novo. Quanto mais você sabe, mais percebe suas limitações e seu sotaque, mas as primeiras palavras são sempre as melhores, porque são a chave para abrir uma porta. Eu me lembro quando comecei a aprender inglês, e como acreditava que com três ou quatro frases eu realmente falava alguma coisa. Era quase nada, mas o suficiente para achar que podia me comunicar, e por acreditar, falava.

 

Hoje, bem ou mal, falo outros idiomas, ainda tenho bastante curiosidade e a sensação de que não é o suficiente. Vira e mexe, me bate essa ambição de saber também línguas mais coloridas, pelo outro lado da cabeça, com imagens, sons, cheiros e sabores. E sempre me empolgo com isso!

 

89 – Expressões espanholas que nunca sei utilizar

Tenho uma amiga espanhola que é uma figuraça! Advogada, baixinha e invocada, parece que está constantemente ligada em uma tomada de 220 w. Sabe essas pessoas que você imagina que já acordam falando, gesticulando, rindo, reclamando… tudo junto! Pois me divirto com ela e com sua energia.

 

Mas há uma característica especial que me chama a atenção que é sua capacidade de tirar da manga e utilizar umas expressões curiosíssimas. Às vezes, fico na dúvida se são expressões comuns ou ela inventa na hora, porque sempre soam originais.

 

Ontem ela veio jantar aqui em casa, nos trouxe uma “torta boba”, típica de Alicante,  onde ela nasceu. É um bolo branco, simples e delicioso, que amo comer no café da manhã. Sabendo disso, vira e mexe ela traz para a gente.

 

Claro que não demorou dez minutos, começa ela a disparar aquelas frases ótimas que ficamos Luiz e eu, como é que é? E Luiz: habla en cristiano, ¡por favor!

 

Até que não me aguentei, peraí, vou buscar papel, caneta e anotar. Porque faço a maior força para decorar na hora, mas as risadas e o vinho me fazem esquecer muito rápido. E mesmo as expressões que consigo memorizar, nunca encontro uma brecha para soltar, assim naturalmente, em uma frase.

 

Aí que ela se empolgou e me deu uma lista!

 

Bom, se achava difícil decorar, traduzir se fez mais complicado ainda. Porque fora do contexto não é a mesma coisa. O legal é ela falando toda decidida e gesticulando espanholamente. A entonação é tudo! Mesmo assim, aceitei o desafio e descrevo abaixo o Corolário de Cris.

 

  • Si te gusta bien, y si no, te pones un lazo: se gostou, bem, se não gostou, põe um laço; ou seja, gostou bem, não gostou, problema seu.
  • Te voy a enseñar lo que vale un peine: vou te mostrar o que vale um… pente? Pois é, não tenho a menor idéia quanto vale um pente, mas isso falado em castelhano rapidinho é como, vou te mostrar o que é bom para tosse.
  • Donde no hay, no se puede pedir: onde não há, não se pode pedir. É usado de maneira a menosprezar, por exemplo, um imbecil.
  • Ser más corto que las mangas de un chaleco: mais curto que as mangas de um jaleco. Parecido com a expressão acima, utilizada para descrever um indivíduo de pouco alcance, um idiota. Dá para perceber que ela estava aborrecida com alguém, né?
  • Donde la espalda pierde su casto nombre: essa é ótima! Onde as costas perdem seu nome casto, vulgo, culo. A tomar por donde la espalda pierde su casto nombre!
  • Más pesao que una vaca en brazos:  pesao é abreviatura de pesado, tradução, mais pesado que uma vaca carregada nos braços. É que pesado aqui é muito utilizado para descrever alguém maçante, chato, difícil. Un pesao!
  • Pasar por los cojones: esse tem que ser dito com o rosto meio de ladinho, me lo paso por los cojones! As variações são, me importa un huevo, me importa un pimiento, me cago en diez. Não dou a mínima! Tô cagando e andando!
  • Corto de piel: pele curta. Essa requer uma explicação mais descritiva. É assim, quem tem a pele curta, quando fecha os olhos, digamos que outro olho se abre. Tradução: peidão.
  • No quieres té? Pues toma dos tazas: não quer chá? Pois toma duas taças. Não pediu? Então, agora não reclama!
  • Estar más perdido que Tarzan en un geranio: mais perdido do que Tarzan em um gerânio. Hein? Putz, me perdi também!
  • A dios rogando y con el mazo dando: essa tem uma certa conotação sexual. Na hora do “mazo dando” fica mais legal dando umas batidinhas na mesa.
  • Aqui te pillo, aqui te mato: outra com conotação sexual, no esquema vamos direto ao assunto. Esse para ser perfeito tem que dar uma olhadinha para baixo na hora do “aqui” e um sorrisinho imaginando a cena. Pode ser substituído por “menos li-lí-li y más la-lá-la”.

 

Pues, chati, ¡ya esta! Si te gusta, bien, y si no, te pones un lazo… ¿vale?

 

88 – Notícias bizarras

Em meio a tanta notícia de desgraças espalhadas pelo mundo, cansei e acabei me fixando em algumas bizarras. Pelo menos, ficam razoavelmente estranhas em um espanhol mal traduzido ou em uma mente distorcida como a minha.

 

A primeira delas foi de um assalto a banco, realizada por ladrões com máscaras. Onde está o esquisito? É que máscaras aqui se diz caretas, e a notícia ficou algo como: atraco a un banco con caretas y pelucas.

 

Não conseguia levar o resto da notícia a sério, porque não parava de imaginar um cidadão de perucas berrando que era um assalto e logo colocando a língua para fora, torcendo o nariz, fazendo uma careta daquelas! Imagina isso no Rio de Janeiro? O caixa se acabando de rir e chamando o gerente, olha, tem um traveco maluco aqui se contorcendo e dizendo que é um assalto…

 

Mãos ao alto! Isso é um assalto!
Mãos ao alto! Isso é um assalto! Passa a grana!

 

Mas não acabou aí, fica pior. A próxima notícia terrível era sobre um assassino condenado. A história era realmente triste, o cidadão que cumpria pena, saiu com uma permissão temporária da cadeia e nesse período, matou quem era sua atual namorada. Não satisfeito, foi atrás da ex-mulher para matá-la também. Por uma sorte, essa senhora não estava em casa e, por isso, se livrou da morte.

 

Até aí, prestava atenção solidária. Mas de repente, aparece a tal ex-mulher para dar uma entrevista consternada e com toda razão. Quando leio o nome da pobre, era nada menos que Herminia Buceta. Juro! Pronto! Aí já me avacalhou. Não conseguia deixar de pensar no assassino que perseguia sem piedade a Doña Buceta! Coitada, deixa ela em paz!

 

Eu sei, é verdade, eu e meu senso de humor merecemos ir para o inferno!

 

87 – Cinco minutos de fama

Vou contar um segredo secreto. Só é secreto porque não é só meu e não gosto de contar segredo dos outros. Mas como agora fui autorizada, lá vai pelo menos uma parte do acontecimento.

 

Uma das nossas amigas cantora está gravando um CD. Essa gravação é aqui em Madri e visa o público hispano-americano. Onde é que entramos nessa história? É que alguns integrantes do coral, que fazemos parte, foi chamado para participar em uma faixa.

 

E… tcham tcham tcham tcham… nós agora cantamos oficialmente em um CD de verdade!

 

Bom, eu estou achando o máximo! É uma experiência que nunca imaginei ter e é gostoso viver por alguns momentos uma vida diferente. Assim como para outros participantes da palhinha, a oportunidade de gravar em um estúdio profissional era única. Quem sabe apareçam outras, na vida a gente nunca sabe, mas já estamos mais do que no lucro.

 

Foi assim, na sexta-feira, só para variar um pouquinho, fomos os primeiros participantes a chegar no estúdio. Nossa amiga cantora já estava por lá gravando. Luiz entrou no local da gravação e ficou assistindo. Eu achei melhor esperar na sala mesmo, para não atrapalhar.

 

De repente, olhei em volta e notei que me sentia bem no local. Comecei a rir sozinha quando percebi que era por causa dos quadros e gravuras nas paredes. Eram vários e incrivelmente bons! Parecia uma galeria de bom gosto. Alguém distraído poderia não notar, mas qualquer olhar um pouco treinado, sabia que havia referências importantes, tudo muito pensado. Podia não ter nada a ver com o fato de estarmos ali para cantar, mas já gostei.

 

Os amigos começaram a chegar e foi batendo um friozinho na espinha, para a gente, era tudo muito novo.

 

Claro que levei a máquina fotográfica, como é que não iria registrar o momento. Depois, quando o CD for lançado, faço a propaganda aqui, tudo direitinho. Por agora, conto só a experiência.

 

A música que participamos é uma espécie de desafio entre meninos e meninas, e assim o grupo foi dividido, primeiro gravaram as seis mulheres e em seguida os seis homens.

 

Tudo como manda o figurino, entramos em um estúdio com tratamento sonoro e colocamos nossos fones de ouvido. Do lado de fora do vidro, nossa maestra e o dono do lugar nos enviando as coordenadas. E a gente dentro, com aquela cara de colegiais, tentando entender o que fazer e errar o mínimo possível. Uma vontade de rir infantil!

 

Repetimos algumas vezes, porque certamente eles precisarão fazer um trabalho de corte e colagem para garantir o melhor resultado. Mas achei que foi mais rápido do que esperava. Curti para burro! Estou super curiosa para ver o resultado final.

 

Assim que terminamos nossa parte, entraram os meninos. Corri para fotografar o Luiz e o grupo. Quando eles começaram a gravar, fui verificar as fotos que o Luiz tinha tirado das meninas e tal. Não havia nenhuma! Não acreditei! Ele estava batendo fotos com outra máquina e não tinha uma fotozinha minha de nada. Caraca, como é que ia tirar onda depois? Que raiva!

 

Daí fiquei com a câmera pronta para esperar quando eles terminassem e alguma alma caridosa me tirasse uma foto dentro do estúdio. Aconteceu que na hora que eles terminaram e fomos liberados para entrar, estava tão ocupada com a câmera que nem levantei a cabeça. Entrei de cara na porta de vidro e deixei minhas digitais da testa prensadas para que não houvesse dúvidas. Um micão! Mas tudo bem, esse conto em detalhes no Sefodeaí.com. O importante é que rolaram as fotos, inclusive a da saliência na minha testa! E, no fundo, mesmo sendo a protagonista desse evento totalmente dispensável, bem que achei engraçado.

 

Tudo bem também, porque depois trocamos as fotos entre nós do grupo e no fim das contas, todos aparecíamos, e assim está garantido o registro para lembrarmos dos nossos cinco minutos de fama.

 

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De lá, como se diz por aqui, salimos de marcha pelo centro da cidade para comemorar. Isso é normal por essas bandas, a gente não fica em um lugar só. Entramos em um bar, bebemos e picoteamos um pouco, mudamos de lugar e repetimos o ritual, e por aí vai. Não chegamos a rodar muito, até porque fazia un frío que pela, mas gostei especialmente de um restaurante e bar chamado En Busca del Tiempo, na Calle Barcelona. Algumas garrafas de vinho depois, já estava morta de calor, leve com menos três camadas de roupa e juro, sem nenhuma condescêndencia, feliz. Eu sei, o vinho sempre nos deixa mais emotivos, pode ser, mas estar com gente legal em um lugar com esse nome tão sugestivo, só podia ser bom. O garçon, que brindou conosco na última rodada, nos acompanhou até a porta como se fôssemos clientes de sempre, talvez possamos nos tornar.

 

Na volta para casa, obviamente agora bem agasalhada, não me importou nem a chuva rala nem o frio. Quem diria que a essa altura teria a chance de participar de uma gravação e ainda por cima em Madri! A vida dá voltas curiosas e ainda há muito por fazer.

 

86 – Frio, preguiça, árvores meio mortas, mas faz sol

Falta vontade para escrever. Acontecimentos picados, histórias que ainda vou juntando as pontas, algumas vou ruminando na cabeça até que faça algum sentido.

 

O outono tem um início lindo, talvez seja a época mais bonita, mas essa beleza dura pouco e logo as árvores ficam peladas, com pinta de meio mortas. O chão fica coberto por um tapete amarelo, que honestamente gosto, mas sei o trabalho que dá. Parece quando chega a neve e a gente acha tudo com cara de cartão postal, mas no dia-a-dia o lado prático nem sempre é tão agradável assim. Bom que Madri quase não neva.

 

É também a época que começo a me precaver contra a deprê de inverno. Esse ano decidi que não vou deixá-la me pegar, estou macaca velha e me esforço em antecipar minhas receitas caseiras. Mudar a alimentação, apimentar a comida, sair para caminhar com ânimo ou desânimo, esportes de inverno, ajuste de calefação.

 

A calefação é uma coisa interessante e contraditória. A medida que o tempo vai esfriando, as pessoas tendem a aumentar a temperatura dos aquecedores. Aprendi que devemos fazer exatamente o contrário. É importante acostumar o corpo às temperaturas mais baixas, e se a calefação está sempre a tope, cada vez que colocamos o nariz na rua é um choque térmico tremendo, e quando voltamos é um calor súbito que me deixa tonta, acho que baixa um pouco minha pressão, sei lá. Resultado, um monte de gente doente! Tenho conseguido driblar os vírus, o que é sinal de boa resistência.

 

Mas o pior é sempre a falta de luz. De um mês para o outro, perdemos pelo menos 4 horas de luz ao dia, e isso porque a Espanha é privilegiada. Fico melancólica e às vezes não sei se é a luz ou se sou eu.

 

Semana passada chegou a carta do meu visto de residência, para tirar as digitais. Abri o envelope toda feliz, afinal de contas, a tal carta costuma chegar entre fins de outubro, tiro as digitais por novembro e em dezembro meu documento está regularizado. Mas não foi assim dessa vez, está tudo atrasado e marcaram a bosta das digitais para março do ano que vem! Ou seja, um ano de espera! Ninguém merece! Isso quer dizer que não tenho como fugir da maldita carta de regresso, mas ainda bem que não a tirei antes ou não poderia ir regularmente ao Rio para o aniversário do meu pai.

 

É claro que fiquei aborrecida, essa coisa de documentação é o que mais me chateia em morar fora do Brasil. Inevitável não pensar no nosso pedido de cidadania que corre em paralelo. A gente precisa tentar, mas no fundo me bate aquela pontinha do será que valerá tanto trabalho e tanto tempo? Será que estou perdendo tempo? Tempo, tempo, tempo, de repente passei a me preocupar com ele, que cada dia se acelera.

 

Para completar, recessão européia e crise mundial. Tranquilizador.

 

Eu no chove não molha do engravido ou não engravido. Isso não depende só de mim, mas não consigo mais ter toda aquela certeza que tive um dia. Houve um momento esse ano que achei que podia tudo, tudo me parecia simples perto do que já havia vivido. Sentia que era capaz de tocar qualquer barco.

 

Em outubro levei uma rasteira, quando levantei, ao invés de querer celebrar as vitórias e a sorte que sempre temos para sair dos problemas, senti cansaço. Sou muito mais frágil do que queria ser. E o dia inteiro martela na minha cabeça a pergunta, tem certeza? Passei a vida ouvindo todos os motivos para um sim e insisti que não. Agora resolvo tentar e o mundo parece me avisar que é uma má idéia. Não é o melhor momento, eu sei, acontece que só tenho esse momento, se ainda tiver. O maldito e bendito tempo.

 

No meio de um mar de dúvidas, leio uma resposta da minha mãe a uma mensagem mais antiga dizendo que tudo passa. Eu sei, tudo vai passar, pode doer mais ou menos, mas passa. E quem cura também é o tempo.

 

Sinto falta de um emprego e é a primeira vez que sinto isso. Antes, a arte me preenchia, mas se tornou algo abstrato demais, um grito no vácuo. Escrever ainda me salva, mas é pouco. Talvez seja pela chegada da crise, que antagonicamente me anima, me lembro quando trabalhava oficialmente, era sempre nas crises que ganhava mais dinheiro e me alavancava.

 

Segunda-feira abriu um sol maravilhoso! Muita gente não percebeu porque chegou junto com um frio do cão, mas ele estava lá, radiante e me empurrou para rua. Engraçado, que a rua onde moro parecia mais larga, percebi logo que era o efeito das árvores sem folhas, por um lado é meio triste, mas por outro, você vê mais o céu, amplia seu horizonte.

 

Faxinei a casa, abri bem as cortinas, algumas que vivem fechadas. Sabe de uma coisa, falta uma árvore de Natal.

 

Saí para achar alguma árvore, mas não queria investir muito nisso, às vezes somos nós mesmos que bolamos alguma alternativa, fica mais divertido. Acabei encontrando uma pechincha por 7 euros! Uma pobre árvore raquítica que passava despercebida, mas só porque não estava bem montada. Pensei que se não desse jeito na dita cuja, podia aproveitar a armação e fazer outra. Sabe que deu jeito? Daí aproveitei e fui tirando da cartola luzes e outros detalhes, essa é a vantagem de ter atelier em casa. Pronto, me empolguei, ainda não está tudo pronto, mas acho que vai ficar legal.

 

E quer saber, por que não uma festa de Ano Novo?

 

Natal é mais família. Se não tenho a minha oficial próxima, fico com a família dos amigos e tudo bem. A tecnologia está aí para isso, temos telefone, internet, webcam e o escambau! Está tudo bem.

 

Não quero lembrar de 2008 pelo que houve de triste, porque não foi só isso. Tem uma estratégia interessante, muito utilizada pela igreja católica, que é a de substituir símbolos. Eles sabiamente entendem que símbolos não morrem, se você tentar abafar, cria mártires ou reforça o mesmo pensamento, portanto, coloca-se outra coisa no lugar e pumba! Por exemplo, Jesus Cristo nunca nasceu em 25 de dezembro. A data foi escolhida para substituir o festival pagão, do solistício de inverno, que hoje ninguém mais lembra o que é, pois afinal de contas, 25 de dezembro virou Natal! Mas enfim, não venho agora discutir religião, simplesmente acho uma estratégia brilhante, então, por que não aproveitá-la?

 

O que tento fazer é não alimentar traumas. Se alguma coisa ruim aconteceu, na medida do possível, procuro substituir a experiência em um lugar ou situação parecidos, assim, minha última lembrança é boa, ou pelo menos melhor. A última lembrança é sempre mais forte. Isso às vezes implica em revisitar fantasmas, mas outras é mais fácil. Por exemplo, na terça-feira precisei ir ao Hospital San Camillo, onde descobrimos que meu pai teve o AVC e a coisa se complicou. Uma amiga, muito gripada, pediu ajuda para levá-la à emergência. Em um primeiro momento, admito que o impulso era dizer, mas não vou mesmo! Depois pensei, hã hã, melhor matar esse fantasma de uma vez. Entrar ali foi bem nauseante e nada agradável, mas fui e passou. Está resolvido, não preciso mais passar pela frente desse hospital e pensar que nunca mais entro ali, já entrei. De lá fomos jantar fora.

 

Parecido a isso, pensei no Reveillon, que para mim sempre foi sinônimo de festa, de renovação. Acho o melhor dia do ano! E não há um motivo razoável para que não continue sendo. Não tenho como apagar as coisas ruins que aconteceram e algumas me incomodarão por um tempo, paciência. Mas não acho justo fazer disso o símbolo de 2008. Reveillon é festa, então vamos a uma que se preze!

 

E é isso aí, em dezembro se abre nova temporada de hóspedes e de festas. Já era hora.