A Margem Direita do Oceano


Quando cheguei à Espanha, em 2005, não existiam redes sociais. Ou pelo menos, não existiam na minha vida. O máximo da tecnologia caseira era a possibilidade de conversar pela webcam, acho que usávamos o MSN, ou algo do gênero. Mas enfim, a internet era meu principal canal de comunicação com a família e os amigos pelo mundo. Ainda assim era limitado e cansativo repetir individualmente as mesmas histórias.

Não era minha primeira mudança de país, mas foi em Madri que me surgiu a necessidade de escrever, registrar de uma forma concreta tudo que estava vivendo e experimentando. Foi algo natural, intuitivo e, em muito pouco tempo, virou realmente uma necessidade. Era minha terapia e, muitas vezes, minha cura, minha forma de lucidez. Por sugestão do Luiz, essas pequenas confissões viraram um blog. Passados os momentos iniciais de vergonha e preocupação sobre minha própria exposição, se converteu em parte da minha rotina. Talvez até uma mini rede social, onde conseguia me aproximar de novas pessoas e antigos conhecidos.

Muita água rolou durante esse período, uma parcela considerável compartilhada aqui. O fato é que da mesma maneira que havia surgido aquela necessidade inicial de me comunicar, ela se foi. Às vezes, me questiono se estava mais egoísta, mais seletiva, menos feliz… sei lá… talvez descubra os verdadeiros motivos no caminho, nem sei se isso importa agora. Acontece que o tal bichinho parece que anda me mordiscando novamente, uma saudade dessa tela, de ter um tempo para pensar, analisar, contar, dividir… uma vontade danada de escrever!

Não sei se você me conhece, se me acompanhou ou não, e a verdade é que eu também estou me reconhecendo, me reconstruindo, então, muito prazer e que todos sejam bem-vindos! Eu sou a Bianca, tenho 48 anos, faço 49 daqui a um mês. Escorpiana de carteirinha! Moro em Londres, pela segunda vez, cheguei em dezembro de 2017, ou seja, quase um ano de volta à terra da rainha. Sou carioca por nascimento, casadíssima, ateísta, meio bruxa como toda mulher, amo cozinhar, sei beber, adoro dar festas, toco percussão e vivo fazendo amizades com estranhos na rua, aliás, boa parte deles me confessa seus segredos secretos logo de cara. Escuto tudo, interessada nos detalhes, gosto de gente. Sou daquelas que quando você me pergunta, e aí, como você está? Não sei responder só, tudo bem! Eu conto mesmo como tudo está! Quem mandou me perguntar?

Pois bem, após uns 11 anos fora do Brasil, precisei voltar ao meu país de nascimento por um período de 3 anos e, sério, foi barra! Os motivos já foram escritos, não pretendo repetir. Porém, a necessidade de negação da minha nacionalidade tem sido brutal, quase cruel! Como se quisesse apagar meu rastro brasileiro, o que seria absurdo! Não quero negar quem fui, apenas não tolero que seja minha referência para o futuro. Em outras palavras, não é quem quero ser.

A experiência precisa servir para alguma coisa e, depois de tantas crises de identidade que atravessei, sei bem quem sou ou fui. O suficiente para também saber que nada, além da morte, é definitivo. Assim que a reconstrução pessoal é parte constante na minha vida e, nesse exato momento, preciso ressurgir das cinzas, mais uma vez. O lado bom é que parece ser a primeira delas que isso acontece de maneira serena. É provável que seja a primeira crise que desfruto enquanto acontece. Coisa que me dá um pouco de medo em admitir, porque não tenho certeza se toda essa serenidade é experiência, ignorância ou resto de luto, nem tenho como saber, por enquanto. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e, não importa mais os motivos, só consigo ser eu mesma do lado de cá do Atlântico.

E agora que aqui estou, nessa margem direita do oceano, tenho a embriagante sensação de achar que posso ser quem eu quiser. Um daqueles momentos que a gente se sente em um filme de ficção científica em que se abre uma brecha no universo para você se transportar a uma realidade paralela. Uma realidade que eu tenha o poder de escolha. E estava com uma saudade louca desse poder!

6 comentários em “A Margem Direita do Oceano”

  1. Em alemão existe uma expressão que diz “falta de movimento significa ficar para traz”. Que venha o próximo ciclo de evolução. Comosempre estarei acompanhando aqui ou em qualquer outro canal disponível. Beijos cheios de saudades

  2. O nosso lugar é onde nos sentimos bem. Pelo que acompanho, experiência em ser Fênix vc tem de sobra 🙂 e sempre se sai muito bem, diga-se de passagem. Que seu novo ciclo seja cheio de histórias inspiradoras para nos contar 🙂
    Bjinhos!

  3. Oi Bianca benvonda outra vez. passei por tudo isso ja fazem alguns anos e infelizmente perdi um quadrante so seio, e sabe que? a biopsia foi inconclusiva, bem vamos ver se dessa vez nos conhecemos beijos

  4. Oi, Antonia! Bem-vinda sempre! Acho que hoje temos recursos de exames bastante precisos e menos invasivos. Eu mesma já fiz 9 biopsias, mas por punção. Enfim, saúde para todas nós! Beijos

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