Canto Gregoriano no Mosteiro de São Bento

mosteiro-2

Aviso aos navegantes que se forem religiosos ou buscam algo do gênero, é melhor pararem por aqui. Simplesmente, vou contar uma história e não serei nada politicamente correta, ok?

Estava meio de preguiça na cama, Luiz passa e me diz que um casal de amigos nos chamou para ir a um brunch no domingo. Tratava-se de um passeio ao Mosteiro de São Bento, com direito a ouvir canto gregoriano. Puxa, me pareceu sensacional! Adoro brunch, curto canto gregoriano e seria interessante conhecer o Mosteiro.

Porque, lógico, o sacana do meu marido só me contou as partes que me interessavam, né?

Não gostei muito de acordar cedo no domingo, mas vá lá, um passeio diferente, cultural, depois ainda encontraríamos esse casal de amigos, legal! Chegamos no local marcado, ligamos para eles e nos responderam que estavam dentro, guardaram lugar para a gente nos bancos na frente da igreja.

Hein? Como assim nos bancos da igreja? Tenho que assistir uma missa inteirinha para poder comer? Luiz fez cara de paisagem e lá fomos nós achar nossos amigos, que realmente haviam conseguido um lugar ótimo na igreja lotada!

Muito bem, é público e notório as minhas tendências religiosas, ou melhor, a total falta delas! Não é segredo para ninguém, muito menos para esses amigos, que sou ateísta. Nunca me incomodou a crença alheia ou me ofendeu estar presente em ambientes religiosos, acho até as igrejas bonitas e tal, mas daí a encarar uma missa logo no domingo de manhã… também não vamos forçar a amizade.

Mas não tinha jeito, está na chuva… só cochichava rindo no ouvido da minha amiga: me aguarde que isso vai te sair caro!

Um sono do caramba! De vez em quando, dava aquela fingida que estava rezando para cochilar um pouco, mas era complicado porque estávamos bem na frente e é um tal de levanta, senta, fala…

O canto gregoriano é durante a missa. Não é um momento ou um lugar que eles fazem uma apresentação específica dos cânticos. É bonito, mas estavam um pouco desfalcados nesse dia e nem dá para curtir ou entrar no clima, porque são trechos curtos ao longo do sermão. Que aliás, não me lembro do que se tratava.

Muito bem, uma hora acabou e eu pensei, pronto, paguei minha penitência! Uma fome louca! Quase fui comungar só por causa da hóstia! Mas está bem, vamos respeitar as crenças.

Daí seguimos para onde nos mandaram e eu crente que seriam as mesas! Nada, era um pequeno teatro, até legal e de boa acústica. Havia uma outra atividade cultural. Foi a apresentação de um coral de Alphaville. Todo mundo já rindo, olhando para minha cara e esperando meu ataque de piti! Mas a verdade é que, fora a fome, gosto de corais.

O maestro se apresentou e nos contou o que cantariam em três fases. Pois é, a segunda fase se tratava de todos os cânticos da missa…

E eu, mas outra vez? Tinha nada mais original não? Vou escutar a missa duas vezes na mesma manhã? Só virava para meus amigos: gente, vou matar vocês! Juro, se eu chegar no brunch e for aquela coisinha austera, com meia dúzia de bolinhos de chuva feito pelas freiras, vai rolar sangue…

Minha amiga morrendo de rir, se vangloriando do dia em que ela me fez ouvir duas missas seguidas! Menos mal que o final da apresentação do coral era Vivaldi, para dar uma melhorada nos ânimos.

Finalmente, chegamos ao salão do brunch e serei justa, tudo muito bonito e bem organizado. A essa altura, já sabia todo o menú e parecia tentador. Nos sentamos, todas as mesas definidas, nome de todos nas cadeiras, tudo direitinho. Ótimo! Podemos começar?

Não.

O padre pegou um microfone que não dava para entender nada que estava sendo dito, mas todo mundo levantou e teve que rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria antes da refeição. Afinal, depois de uma missa falada e outra cantada, ninguém tinha rezado o suficiente, né?

Daí sim, liberados para a refeição. Achei tudo muito gostoso e bem feito, para o alívio dos nossos amigos. Ainda que eu seguisse como a piada na berlinda.

Em seguinda, há um passeio pelo Mosteiro, guiada pelo padre, que ia nos contando a história do edifício e alguns eventos que se passaram por ali. Gostei do passeio também. Acabamos em uma capela e eu já meio com medo, gente, não é possível, caraca, vai vir a terceira missa!

Não veio, só fazia parte do passeio.

Para finalizar, nos enviaram novamente à igreja, mas a essa altura e bem alimentada, fui bastante clara, gente, de igreja já estou bem, deu minha cota! Daqui sigo meu caminho!

Eles também não se interessaram em ficar, dei uma desculpa educada aos organizadores que tínhamos um pouco de pressa e não podíamos ficar até o final e dali nos despedimos.

Conto tudo de maneira irônica porque não sou religiosa e não tinha a menor idéia do que me aguardava. Mas não quero passar a imagem de que o passeio não é legal. É bacana, desde que você saiba o que está fazendo e não vá de gaiata igual a mim! E apesar dos pesares, foi um domingo diferente, de uma maneira torta, acabei me divertindo e comendo muito bem!

Além do que, o casal que nos levou não sabe quando… nem o que será… mas sabe que podem me aguardar que o troco chegará…

A água, o lixo e os desperdícios

Quando morava em São Paulo, antes de sair do Brasil, acredito que há cerca de uns 16 ou 17 anos, sou um pouco ruim de guardar datas, passei pelo meu primeiro rodízio de água na cidade. Naquela época, havíamos tido também um grande período de seca. Não chegamos a ficar totalmente sem água, porque as caixas dos edifícios normalmente davam vazão, mas reduzíamos o consumo de acordo com o dia e a água era fechada em determinados horários, nos quais reservávamos baldes e recipientes cheios, em caso de dúvida.

Foi a primeira vez que ouvi a discussão publicamente no Brasil que a água no mundo poderia acabar. No meu tempo de colégio, nós estudávamos que a água era um bem inesgotável! Portanto, ainda que houvesse sido um certo perrengue, achei que o tal do rodízio teve seu ponto positivo em trazer uma maior conscientização sobre os recursos naturais, em especial, a água. Juro que pensei que havia servido de lição, tanto para população procurar mudar os hábitos, como para o governo buscar alternativas. Inocente, né? Porque esquecemos muito rápido, muitos dos meus amigos paulistas nem se lembram desse rodízio no passado.

Sempre nos orgulhamos de ser um povo limpo, de tomar banhos longos, da água ser farta! Lavamos a casa, o chão, os azulejos, as janelas, as varandas, os quintais, os carros, as calçadas… lavamos tudo! Nem percebemos e isso é considerado normal! Acontece que não é normal! Passou algum tempo para me dar conta do tamanho do absurdo e ao desperdício que o conjunto dessas ações levava. Mais do que a perda em si, a atitude!

Quando fui morar nos EUA, não me dei muito conta a esse respeito, afinal, também é um país de desperdícios. Mas quando fui para a Europa, inicialmente a Espanha, o primeiro alerta me bateu! Opa, aqui vou precisar mudar alguns hábitos!

Admito com certo constrangimento que o primeiro que pensei foi que a água fosse muito cara! Então, melhor tomar banhos mais curtos ou minha conta seria altíssima. Logo percebi que o buraco era bem mais embaixo, a conta não era cara para meu bolso, a conta era cara para o país, para o planeta! Eu poderia tomar banhos longos, se eu quisesse, mas tinha a consciência que não estava fazendo direito meu papel de cidadã. E pode acreditar, a gente sente!

Para começar, nos apartamentos não há ralo, a não ser no chuveiro. Ninguém lava cozinha! Ninguém lava banheiro! Até porque, se você fizer isso, sua casa vai alagar ou vai vazar na cabeça do vizinho de baixo! E a ignorante aqui pensando, mas minha casa vai ficar suja? Pois nunca ficou. Em 10 anos de Europa, nunca ficou suja. Lógico que você limpa, simplesmente, não lava! Não joga baldes nem abre mangueiras!

A cada hóspede brasileiro gentil que se oferecia para lavar louça, para mim era um suplício! Porque as pessoas ficavam batendo papo com a torneira aberta jorrando água à toa, sem nem perceber. E eu querendo ter um filho pelas orelhas, não me aguentava e pulava na frente: Deixa que eu faço, por favor! Não, imagina, é o mínimo… Então, fecha essa bosta dessa torneira pelamordedeus!

Época do ano que chovia menos? Consumo da população começava a aumentar? Governo vai para a televisão fazer campanhas educativas, as fontes são desligadas, as piscinas públicas fechadas… Enfim, cada medida dependendo da situação. Não era unicamente pelo que isso representava em economia, novamente, era o exemplo, a atitude. E, a propósito, nunca nos faltou água nem nos sentimos ameaçados de faltar.

Índices de desperdício público como em São Paulo (e boa parte do Brasil), de aproximadamente 30% de água limpa perdida pelos canos por falta de manutenção, simplesmente derrubariam um governo! Indústrias que poderiam reutilizar a água de maneira mais inteligente e não faziam, não seriam autorizadas a funcionar (ainda que pudesse haver algum subsídio para a criação de alternativas de reaproveitamento da água).

E esse é um ponto que me incomoda muitíssimo, fomos criados e vivemos em uma cultura de desperdícios. As mesmas pessoas que exigem que os azulejos de casa sejam lavados com litros de águas, são as que governam e as que cobram dos governos.

Transportando essa situação para o momento atual paulista, a culpa da falta de água não é do meu número de descargas. É inconcebível que um governo tenha deixado chegar ao estado em que chegou, sem a divulgação, medidas e obras necessárias, contando com a sorte de chover. A culpa é do governo e ponto! Mas me dói que a cobrança por todo esse desperdício permitido criminosamente, por exemplo na Sabesp, só venha agora, quando a água bateu na bunda, ou melhor, não bateu!

E se tivesse chovido o suficiente, a maioria das pessoas não estaria dando a mínima para o desperdício, de 30 ou de 40%, desde que a água chegasse nas nossas torneiras. Seguimos torcendo o nariz para a água reaproveitada do esgoto, afinal, que nojo! Chove em São Paulo praticamente todos os dias há uns 3 meses e não há um projeto de coleta dessa água! A nuvem de chuva precisa estar exatamente sobre a represa para funcionar! Sério? É com esse plano que estamos contando?

Daqui para a frente a discussão da água vira política e não é exatamente o meu ponto hoje, então, vamos mudar o assunto para o lixo?

Está aí outra coisa que achei um saco no início! Esse negócio de separar e reciclar lixo! Enquanto era a latinha de alumínio que eu jogava fora na praia e virava fonte de renda para alguém que catava, show de bola! Mas quando precisei ter uns três recipientes diferentes para lixo em casa, ainda mais no pouco espaço das cozinhas européias, opa, essa brincadeira está ficando chata!

Mas afinal, o que vai onde mesmo? Peraí, eu tenho que lavar o lixo? E ainda por cima sou EU* que tenho que levar o lixo lá fora? (*Ok, “EU” leia-se “Luiz”, mas é menos importante para a história) Não ganho nada por isso? Inclusive há o risco de pagar uma multa se não fizer direito?

Pois é, exatamente assim. E sabe o que aconteceu? Nada demais, nenhum drama. Aprendemos e fizemos o que tínhamos que fazer. Quer saber, nem doía tanto e ainda ficava tranquila sabendo que tudo teria seu tratamento adequado. Faz bem saber que estamos contribuindo para um planeta melhor. Que, paradoxalmente, nem aquele lixo precisa ser desperdiçado! Pode ser reaproveitado, ter outra finalidade, ou no mínimo, prejudicar menos.

Nos primeiros dias aqui, estranhava todas aquelas sacolas de plástico sem restrição nos supermercados e era esquisitíssimo jogar todos os lixos em um recipiente só! Era a sensação de estar jogando no chão da rua, no lugar errado. Felizmente, no meu edifício se faz coleta reciclada. Nem todo mundo dá bola e tenho minhas dúvidas se ao final não vai tudo para o mesmo saco, mas é uma tentativa, um começo.

Sigo cuidando e valorizando a água, o que no Brasil seria interpretado como “economizar”. Na prática, quase nada é diferente do que fazia normalmente e pretendo seguir fazendo, não me custa tanto e é o meu papel. No mínimo, por solidariedade a quem já não tem. Deve ser duro para minha diarista ficar sem água no final de semana e ter que lavar minha varanda; deve ser difícil para um frentista que não tem água há dias para o banho dos filhos lavar meu carro. Separo meu lixo, mesmo sem ter certeza se ele será novamente agrupado lá embaixo. Cuido do meu umbigo, cabe a meu vizinho cuidar do dele. Eu sei que não preciso, não é um mérito nem espero recompensa. Faço porque acho que é o certo, na Europa, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

O primeiro quarto de ano

O tempo passa depressa e se aproxima do primeiro quarto de ano que cheguei ao Brasil. E aí, o que mudou? Posso dizer que das portas para dentro, a vida melhorou; das portas para fora, é pior. E vou explicar.

Certamente, a vida segue um rumo mais nos trilhos do que quando chegamos. Estamos estabelecidos em um bom apartamento, mudança arrumada, gatos destraumatizados… Nos relocalizamos na cidade, ainda que agradeça todos os dias pelo surgimento do “Waze” nesse período que estivemos fora.

Quanto ao trabalho, começo a poder me organizar e definir melhor por que caminhos seguir. Luiz voltou a ser turista em casa, afinal, os horários de expediente são bastante diferentes dos EUA e Europa. Não é uma novidade e damos nosso jeito de administrar, acho que até bem.

Ainda me custa lembrar, a cada vez que abro meu carro, que ele é blindado, mas paradoxalmente, também aliviou bastante minha ansiedade em andar pelas ruas e me aventurar por aí. Meu horizonte de visão voltou a ser retangular e só caminho na esteira da academia. Minhas botas de trekking se sentem deslocadas pelos restaurantes e shoppings paulistas.

Ando me cuidando bem mais, saúde e estética. Tenho percorrido uma maratona de médicos e feito todos os exames possíveis. É bem mais fácil aqui no Brasil do que fora, claro, se você tiver a sorte de possuir um bom plano de saúde. Estou fazendo regime, acompanhado de endocrinologista e nutricionista, já perdi a cifra inédita de 9kg! Engraçado como pisar em solo nacional me deixou tão mais exigente em relação ao meu corpo. Acho que muito pelas possibilidades existentes e outro tanto, por uma questão cultural mesmo do que se valoriza em cada parte do mundo. As prioridades mudam automaticamente, às vezes, sem que eu perceba.

Até a forma de vestir, sinto que tende a mudar. Não só pelo país, um pouco pela idade, pelo clima, pelos objetivos, porque eu preciso ou quero mudar. Em breve, tosarei o cabelo, já me conheço.

Socialmente, os lugares que frequento são bem diferentes, restritivos, e não foi minha opção, simplesmente aconteceu. E está sendo um baque entender que o brasileiro não é um povo tão misturado e aberto como havia guardado em minha memória seletiva. O sistema faz com que aconteça assim.

Politicamente, vontade de sentar e chorar! Desesperança e insegurança total! Aquela sensação de tentar acreditar, ok, a vida vai seguir como sempre seguiu, quem sabe é um certo exagero dos meios de comunicação… e a experiência berrando, esquece! O buraco está bem mais embaixo sim! A solução por aqui, se vier, não é para minha geração. Ganhe o máximo e defenda-se como puder! Fico triste, nesse momento, me caberia muito bem algo de orgulho nacional.

Não foi difícil me reacostumar a ter uma diarista trabalhando em casa como imaginei. Minha vida é mais confortável. Tenho mais espaço, mais armários, uma geladeira impressionante e, em breve, minha tão sonhada cama com dossel! São luxos egoístas que sei viver sem, não preciso, mas também sei desfrutar sem culpa.

A proximidade da família é gigantemente mais simples! É fácil passar um final de semana no Rio, ver meu pai caminhando melhor, ir ao teatro com minha mãe, ver que minha sobrinha já mudou de expressão e tem olhos bem mais vivos agora. E sim, isso não tem preço!

Ver amigos sem precisar que seja através de redes sociais ou Skype (ainda que outros tantos sigam sendo minha alternativa para saudade). Confirmar o que já sabia, muitos deles, continuarei me relacionando à distância, porque as distâncias no Brasil podem ser enormes e o tempo cada vez mais curto! Sem ressentimento ou cobrança, quase nunca é algo unilateral.

Vislumbro a possibilidade de visitar meus antigos colégios em Brasília e rever amizades que seguiram fisicamente por lá. Viagens pelo nordeste ou América do Sul em geral, agora não me parecem um plano remoto ou complicadíssimo! Mas não nego que, da mesma maneira, também me parece distante e como é difícil encontrar o bendito tempo!

O mais difícil de tudo é confirmar o que no fundo esperava, eu caibo aqui, foi e é minha opção atual, não me arrependi, é meu lugar por enquanto e tem um monte de coisas que me fazem gostar desse momento, mas não é mais meu lugar. E é muito dolorido ter que responder a pergunta que me é feita frequentemente sobre como é “voltar” para o Brasil. Queria muito poder dar outra resposta, queria muito dar a resposta esperada. Tenho buscado mil maneiras de colocar de um lado positivo sem mentir, mas a verdade é que acho morar no Brasil bem ruim. E preciso assumir isso claramente ou vou entalar tentando convencer a mim mesma. Sinto muitíssimo, mas não me sinto mais em casa.

Não gosto de decisões definitivas, tampouco preciso tomar uma agora. Como disse e repito, há muito de bom para aproveitar aqui e, como de costume, desfrutarei até o caroço! Só uma análise de como me sinto para registro. Minha opinião agora é que posso viver bem como visita, aproveitar o máximo a estadia, amar de paixão os anfitriões, mas sem a intenção de ficar.

E sinto muito por isso.

E ela chegou!

Minha sobrinha era esperada para nascer no dia primeiro de fevereiro. Pelo tamanho da mãe e da barriga, desconfiávamos que poderia ser antes. A última previsão que havia recebido é que deveria ser pelo dia 27, uma terça-feira. Ela ainda estava esperando para tentar um parto natural, o que parecia difícil, mas acho correto.

Muito bem, me programei para passar o final de semana com Luiz e pela segunda-feira, ir para o Rio.

No meio da semana, me procura um amigo de colégio, que mora no Rio, dizendo que havia um encontro carioca do pessoal na sexta-feira. Queria saber se, por acaso, eu não estaria por lá e daria para ir.

Fiquei na dúvida, na sexta e comprando em cima da hora, os preços da ponte aérea não são muito animadores, mas quer saber, por um pouquinho, eu já estava querendo ir mesmo… Ok, eu topo!

Cheguei na casa dos meus pais umas 18h, só o tempo para deixar a mala, trocar de roupa, conversar um pouquinho e sair para encontrar o povo.

Acontece que assim que coloquei os pés no apartamento, meu pai me dá a notícia que a nenén nasceria no sábado, bem cedo! Ou seja, santo encontro que me fez estar lá na hora certa! A propósito, foi bem legal rever os amigos, noite super agradável.

O que passou é que, também por acaso, minha cunhada foi acompanhar minha mãe e a mãe dela para um “curso de avó”, alguma coisa assim. A médica dela estava no local e resolveu dar uma olhada, porque ela estava muito desconfortável, agoniada sem posição e com alguns “gases” incômodos. Resumindo a ópera, tudo indica que os gases eram contrações, a nenén estava sentada na barriga, com as pernas um pouco abertas, além de ser grande para o corpo da minha cunhada. Ou seja, parto normal não ia rolar mesmo! A médica disse que não ia fazer diferença esperar mais tempo, porque a menina não ia se encaixar na posição tão fácil, minha cunhada já não tinha mais posição, não conseguia dormir… então, por que não fazer logo de uma vez no dia seguinte? E assim foi!

Às cinco da matina, acordei para ir na maternidade com meu irmão e minha cunhada. Acho que estão fazendo tudo muito bem, mas ambos marinheiros de primeira viagem. Lógico que dá um nervoso e é sempre bom ter alguém dando um apoio moral. O parto estava marcado para umas 8h da manhã. Mais ou menos por esse horário, chegou a mãe dela, minha mãe, minha tia, minha prima… enfim, aquela mulherada!

Pelas 9h30, meu irmão começou a enviar as primeiras imagens que a filha havia nascido. Minha família não é muito silenciosa e todas na cafeteria, foi aquele alvoroço. Corremos todas para o vidro do berçario, esperar eles chegarem.

Não tardou para aparecerem meu irmão e minha sobrinha pelo vidro, acho que tirei umas novecentas fotos (sem flash)! Pouco depois, chegou minha cunhada no quarto e logo minha sobrinha atrás.

Quando foi chegando a hora do almoço, todo mundo precisava ir. Quer saber, no meio dessa história eu lá tinha fome ou sono? Se vocês querem aproveitar para ir resolver as coisas ou descansar um pouco, fico aqui com elas sem o menor problema. Que sacrifício, né? Quase não gostei!

Ficamos as três e finalmente chegou minha vez de pegá-la no colo. A mãe precisava mesmo descansar um pouco e não podia falar, porque dá gases no dia seguinte. O que aparentemente é muito dolorido. Aliás, aprendi um monte de coisas de uma vez só. Imagina minha cunhada, com a primeira filha e sem poder fazer muita coisa, eu que nem filho tive e minha sobrinha acabando de nascer! Mas quer saber, acho que demos conta do recado muito bem!

Tenho dois sobrinhos, por parte do Luiz. O mais velho, conheci com uns 9 anos; o mais novo quando ainda estava na barriga. Adoro os dois, o segundo por ter conhecido e convivido desde nenén, foi o mais próximo de filho que tive até o momento. Infelizmente, o tempo, a distância e as circunstâncias nos afastaram. Ainda assim, tenho muito carinho por eles. Acontece que já são homens! Um com uns 30 anos e o outro com uns 20! A chegada de uma menininha foi uma notícia e tanto!

É minha primeira sobrinha de sangue, também primeira e única neta dos meus pais. E isso pesa bastante. Pegá-la no colo foi amor instantâneo! Parecia que ela sempre esteve lá, que já nos conhecíamos. Quando ela abriu primeiro os olhinhos, tive o privilégio de estar junto. E como se fosse pouco para minha corujice, ainda por cima é uma linda e saudável!

Durante à tarde, voltaram meu irmão e a mãe dela. Logo depois, minha mãe trouxe meu pai para conhecer a neta.

Até aí, tudo ótimo. Acontece que meu pai chegou à maternidade bastante ofegante, segundo minha mãe, estava assim há alguns dias e ela estava bem preocupada. Havia inclusive adiantado uma das consultas com o médico que cuida do “supermarcapasso”, que sempre esqueço o nome, acho que é um ressincronizador. Minha mãe pediu que eu ligasse para esse médico, descrevesse o que estava acontecendo e perguntasse o que deveríamos fazer. Ele respondeu que deveríamos ir para a emergência do hospital que ele praticamente frequenta, que ele ligaria para o cardiologista de plantão para orientá-lo.

Final da tarde, lá fomos nós para o hospital com meu pai, diretamente da maternidade. Resultado, ele tinha um trombo na parte superior do coração. Menos mau que fomos logo, porque se esse trombo sai do lugar… poderia ser, por exemplo, um novo AVC (isola!). Da emergência ele foi internado, direto para a UTI.

Não foi tão simples, como de costume, lógico que ele deu um show na emergência que ia embora. Só podia ficar uma acompanhante de cada vez com ele, assim que eu revezava com minha mãe. Em uma das vezes que estava a minha mãe, ele começou a arrancar os eletrodos, tentar fugir da cama, falar alto… a reação da minha mãe, que já passou do limite do cansaço, foi dizer que não ia ficar ali, saiu pelo corredor nervosa e gritando: tem um louco ali naquele quarto! Ele surtou! Foi um corre-corre de médicos e ela saiu para me encontrar e contar. Estava tão nervosa que começou a contar rindo e chorando.

Dei um minutinho rápido para ele acalmar e lá fui eu tentar amansar a fera!

No leito havia dois médicos, um fazendo uma ecografia no coração e outro com os olhos arregalados, fazendo de tudo para fugir do quarto e dizendo para mim: tem que controlá-lo! Tem que controlá-lo! Juro que no meio desse caos, tinha até um pouco de vontade de rir!

Entrei e ele estava mais razoável, dizendo que o médico da ecografia havia matado a charada. Lá fui eu ver o que o médico havia descoberto. Sim, porque já sei ler radiografica, ecografia, exames etc. Doutora Google! E lá estava um trombo bem grandinho.

Logo descobri que a relativa calma do meu pai se devia a acreditar que haviam descoberto o problema, dariam algum remédio para ele tomar e seguir o tratamento em casa. Só que não. E quando ele entendeu que ia ficar internado, foi um pouco mais difícil explicar as coisas. Mas ele acabou aceitando, porque não seriam muitos dias e também viu que não tinha muito jeito.

Assim que, no mesmo dia, pela manhã bem cedo tive a alegria de ver minha sobrinha nascer. Pelo final da tarde, estava dando entrada na emergência com meu pai. Uma verdadeira montanha russa!

Já chegamos em casa, minha mãe e eu, pelas 21h30 ou um pouco mais. Para quem acordou às 5 da matina para não perder nada do nascimento e depois desse carrossel de emoções, estava mortinha da silva!

A partir daí, me dividia entre maternidade pela manhã e UTI à tarde. Acho que pela segunda-feira, minha sobrinha e os pais voltaram para casa. Alguns dias, nem conseguia visitá-la, mas logo nos organizamos.

Meu pai ficou internado por cerca de uma semana, voltou para casa numa sexta-feira e vim embora no sábado ao final da tarde.

No sábado, ainda conseguimos todos, inclusive ele, visitar minha sobrinha. Ele realmente não parava de dizer que queria ver a neta. O caminho, bem curto, entre a casa dos meus pais e a do meu irmão, foi difícil de fazer. Ele estava tendo as convulsões uma atrás da outra. Mas acho que valeu à pena o trabalho. Almoçamos por lá e eu babei ela um pouco mais antes de viajar.

Fico um pouco preocupada em sair assim, mas também preciso cuidar da minha casa, meu marido, meus gatos e meu trabalho. Pelo menos ele não estava mais no hospital e, finalmente, havia aceitado uma cuidadora para ajudar minha mãe. Vamos ver como vai funcionar essa história, mas acho que ela realmente precisa de um alívio, é uma barra muito pesada de se levar e faz muitos anos que vem nessa batida.

Minha sobrinha veio em boa hora! Não é que uma bebê vá resolver todos os problemas, muito menos curar meu pai ou descansar minha mãe. Mas é outra alegria e energia para a família. Acho que meu irmão quer ser pai desde criança! Era algo que faltava para completar seu amadurecimento e está fazendo muito bem, será um bom pai, já é. Minha cunhada também queria e, apesar de exausta e ainda achar que não está conseguindo fazer tudo de maneira perfeita, afinal, inexplicavelmente parece que toda mãe vem com algum tipo de culpa embutida, a verdade é que ela também está fazendo muito bem e já é mãe.

Um dos meus maiores medos é que meu pai não chegasse a ver a neta, por muito pouco. Ainda quero que ele fique por aí brigando um bom tempo, mas é um alívio saber que ele teve a felicidade de pegá-la no colo. Minha mãe ainda não teve a oportunidade de curtí-la como gostaria. Felizmente, é só uma questão de mais tempo e será uma super avó coruja. E eu, acho que nem preciso dizer, sou amor e felicidade puros, um pouco de saudade também. Tenho a foto dela no meu celular e a cada vez que olho, é impossível não soltar um sorriso sozinha e repetir para mim mesma: lindinha da tia!

E começou 2015, vamos dar uma atualizada?

Passamos Natal e Réveillon no Rio. Luiz foi e voltou, eu fiquei direto. Conseguimos que uma amiga viesse diariamente para checar comida e água dos gatos no período do Natal, e um amigo para fazer o mesmo no Réveillon. Dessa forma, acho que eles se estressaram menos, ainda estão um pouco traumatizados com tanta mudança em um curto espaço de tempo.

Foi bom ir para o Rio, afinal, parte da minha mudança para o Brasil foi ficar mais próxima da família. No Natal, meu pai estava mais ou menos, no Réveillon, melhorou bastante. Ele tem um tipo de convulsão do lado esquerdo do corpo, a mão começa a mover sem controle, como um espasmo e a perna perde o equilíbrio. Médico nenhum consegue descobrir que raio de problema é esse! A última possibilidade é uma hipotensão postural, que ele realmente tem, mas não vejo o remédio caréssimo ajudar especificamente nisso. Enfim, achei que eram dois problemas diferentes, a hipotensão e os espasmos e minha mãe teve a idéia de voltar com o remédio para os espasmos, dessa vez junto com o outro. Na primeira semana, funcionou maravilhosamente bem, e ele pode aproveitar melhor a noite de Ano Novo. Na semana seguinte, voltaram os espasmos, mas eu já não estava lá.

Muito bem, o Natal foi tranquilo, mais família mesmo. O Ano Novo foi show! Além da família, levamos alguns amigos nossos e achei o clima bem bacana. Minha mãe gostou do grupo, achou todo mundo simpático. Garantimos a janela principal para minha cunhada gravidérrima e meu pai verem os fogos bem de frente. Ele não aguenta descer na muvuca e estava reclamando que nunca conseguia ver bem, porque todo mundo corria para janela (lógico) e como ele é alto, ficava para trás. Só que ele nunca havia reclamado disso antes, nós nem sabíamos, e esse ano ele já precisava ficar sentado. Sem problemas, fui avisando a todos, que entenderam bem. E a verdade, é que é ótimo passar a virada na praia! Eu só não fui porque queria ficar com eles.

Assim que meu pai foi dormir, fui colocar meu biquini e acertar minhas contas com Iemanjá. Fazia tempo que não pulava as ondas de verdade e não tem comparação entrar no mar e sentir toda aquela energia boa de milhões de pessoas vestidas de branco, cada uma dentro de suas crenças ou descrenças, mas com a esperança que o ano seguinte será melhor.

Dia 2 de janeiro, pegamos o carro e voltamos para São Paulo. Baterias recarregadas! Que venha 2015!

Não tardou para finalmente resolvermos uma das nossas sagas: nossa mudança chegou! No dia 13 de janeiro, que era para dar sorte!

Fiz com a empresa Fink, brasileira. Achei que seria melhor para os trâmites nos portos, receita federal etc. Estão mais acostumados a lidar com o caos que é aqui! Não me decepcionei em nada, pelo contrário, o atendimento foi muito bom desde o início. Educados, profissionais, prestativos, tercerizaram a embalagem em Londres para uma empresa muito boa, fui mantida informada o tempo inteiro, enfim, recomendaria. Sempre quebra uma ou outra coisinha, mas dentro do tamanho da mudança, bastante razoável, nem valeria à pena acionar o seguro, muito trabalho para pouca coisa.

Prendi os gatos no quarto deles, é meio difícil prender os dois juntos, preciso de alguns artifícios, como abrir um patezinho, dar um agradinho… Mas não gosto de abusar desses recursos, porque depois eles ficam ariscos quando tenho que fazer outra vez. O problema é que é impossível fazer mudança com gatos soltos, não dá certo e é perigoso!

Pela primeira vez, tive uma empresa de mudança que me ajudou bastante a desembalar as caixas, uma mão na roda! Adiantou meu trabalho e ainda levou aquele monte de papelão que seria um perrengue para me livrar depois! Eles até se ofereceram para desembalar tudo, mas chega uma hora que você precisa dar uma arrumada antes de abrir o resto, ou vira aquele samba!

E nem sei dizer como foi bom ver minha casa tomando novamente jeito de lar! Até os gatos que saíram do quarto bem desconfiados, logo começaram a reconhecer os próprios cheiros e ficaram felizes da vida! Faltava começar a trabalhar a energia do local e a melhor coisa, na minha opinião, é receber amigos queridos. Sem falar que estava doidinha para dar uma festa!

Bom, os móveis chegaram na terça-feira, no sábado, já marquei logo uma festa de pré-inauguração! A propósito, marquei antes mesmo da mudança chegar, contando que tudo daria certo. Assim que a casa pre-ci-sa-va estar arrumada e a comida feita até sábado de qualquer jeito! Não foi daqueles festões que a gente gosta de dar, foi mais discreta sem poder convidar todos que gostaríamos, algo para checar como seria com a vizinhança e tal. Mas sabe como é, nossas festas pequenas dão uns 40 convidados…

E claro que deu tudo certo! Exceto pelo calor insano, que não conseguíamos dar vazão nem a pau, eu adorei! Essa é a parte mais legal de estar aqui, voltar a conviver com amigos que fazem parte da nossa história é muito bom!

No domingo, nossa casa era oficialmente um lar.

O plano A era fazer a super inauguração definitiva no dia 7 de fevereiro. Queria homenagear Iemanjá, queria fazer uma festa de “abre caminhos”, todos de branco e/ou azul. Mas por uma série de eventos que explicarei depois, não vou dar conta de fazer nada nessa data. Paciência, em alguma hora será.

Eu desconfiava, mas ainda não tinha certeza, que um furacão passaria no final de semana seguinte. Mas essa é uma outra história.

Feliz Natal

Queridos e queridas, lá vamos nós para a mensagem piegas de Natal, né?

Nos últimos 11 anos, passei 2 Natais no Rio de Janeiro, um no primeiro ano fora e o outro, acho que em 2010, quando ganhamos as passagens de surpresa.

Esse ano, há poucos meses, também não tínhamos a menor idéia que estaríamos aqui, assim que de certa forma, é quase uma surpresa também. Espero ainda ter muitas surpresas pela frente, sei que algumas serão melhores do que outras, mas agradeço as de agora. Agradeço à minha família, que tem nos apoiado e respeitado essa vida meio aventureira pela qual optamos e aos amigos, que às vezes quase insistem em ser nossos amigos, porque sei que não é fácil manter a afinidade em tão grandes distâncias. E ainda assim, muitos hoje fazem parte da família que pudemos escolher.

Talvez minha lição e desejo nesse momento seja a da tolerância, não de maneira cega ou sem questionamentos, mas com muito respeito a verdades que sempre possuem vários prismas.

E dentro desse espírito, como ateísta que sou, desejo a todos um Feliz Natal, que independente das crenças de cada um, traz uma oportunidade de celebrar com quem se quer bem. E, em alguns instantes, partiremos para a cidade maravilhosa, para celebrar com uma família que amamos e teve tanta tolerância em esperar algum dia que estaríamos em casa.

E agora, falamos sobre política?

Pois é, quem acompanha o blog sabe que evito ao máximo falar em política aqui, acho que não é meu foco, ainda que algumas vezes passe minha opinião.

A questão é que, atualmente desde dentro do Brasil, fica muito difícil evitar esse tema, porque altera diretamente meu dia-a-dia, esse sim assunto central do que escrevo.

E agora, José?

Porque não sou jornalista, nem tenho a menor intenção de entrar nessa discussão. Simplesmente, minha vida está afetada por algo que não posso fingir que não existe. Fatos e opiniões que concordo, outras me incomodam, algumas inclusive me agridem.

Na verdade, o problema piora porque por trás de muitas dessas opiniões há pessoas, mais ou menos próximas a mim. Sempre achei que poderíamos discutir idéias civilizadamente, concordando ou não. Mas sinto que nesse momento, o cenário brasileiro está tão dividido a ponto das pessoas não se ouvirem! Aquela coisa americana de se não está comigo, está contra mim. Há o preto e há o branco, e as diversas matizes de cinza, e onde particularmente costumo me encontrar, parecem não existir.

O centro, ou algo próximo ao equilíbrio no Brasil, se não inexistente, é considerado “em cima do muro”. Caminhamos para dois extremos radicais, de esquerda e de direita, cada um pior que o outro.

Me enoja a quantidade de escândalos escancarados, Petrolão, Mensalão e outros “lãos” que os defensores da “esquerda” se negam a crer e ver números concretos. Está aí, na cara! O país não está melhor, perdeu o bonde! E o governo nem de esquerda mesmo é, é no máximo um esquerdismo de conveniência! Por outro lado, escuto pessoas defendendo e enaltecendo um cidadão que diz com todas as letras “você não merece ser estuprada”. Não me importa para quem se diga isso nem em que contexto, a frase ofende as mulheres em geral, me ofende! Mas o lado da “direita” também busca razões onde não existe justificativa.

Vejo pessoas que considerava liberais defendendo a censura da imprensa! Outras, teoricamente sensatas defendendo a volta do regime militar! Sinceramente, me sinto um ET e fico pensando se só eu acho que ambas, ou não sabem o que estão dizendo ou estão loucas! Em que momento ficou definido que nossa única opção seria entre ditadores, de esquerda ou de direita?

Uma explicação razoável que encontro é o desespero! As pessoas estão tão fartas do que está aí que passam a acreditar que qualquer coisa pode ser melhor! Muita calma nesse momento, porque nada é tão ruim que não possa piorar. “Qualquer coisa desde que contra” costuma ser uma má opção.

Perdemos as referências! Na minha opinião, não deveríamos estar tentando optar entre esquerda e direita, e sim entre certo e errado, bem e mal. Não há um vilão e um mocinho! Infelizmente, estamos sendo levados a optar entre vilões. E enquanto brigamos entre nós, a caravana segue.

Por exemplo, eu não aprovo o governo do PT! O PT criou o bolsa-família (ok, não criou, mas foi onde a coisa ganhou proporções significativas). Logo, sou contra o bolsa-família! Ou vamos pelo outro lado, sou a favor do governo do PT, a mídia divulgou mais um caso de corrupção ou incompetência gritante do governo. Logo, nem vou ouvir ou parar para analisar, porque “toda” a mídia sempre inventa as informações. Sério?

Os apoiadores governistas parecem ter esquecido que um só partido não possui o monopólio de políticas sociais, essas devem ser cobradas de todos. A oposição, que só sabia ser governo e passou anos adormecida, começa a engatinhar agora. A corrupção, que sim sempre existiu, mas não existia dessa maneira, foi institucionalizada. Desceu aos níveis técnicos, minou a inteligência do país, deixou todos de rabo preso.

Não elevamos mais as discussões, simplesmente observamos de que lado vem e nos posicionamos contra ou a favor porque sim. Ou porque se ganha diretamente algo com isso. E pior, grande parte das vezes, as discussões mais acaloradas não passam de cortinas de fumaça, onde entramos como patos confusos.

Critico diretamente o PT pois é o partido que está no governo – aliás, há 12 anos! E ainda sim seguem batendo em pontos onde houve tempo suficiente para atuarem como se não tivessem nada a ver com isso! Mas não nos esqueçamos, por exemplo, do PMDB, que vamos combinar, está sempre metido na história e passando relativamente ileso pelos escândalos. Quem realmente manda nesse país?

Sou oposição! Sim, reconheço que houve alguns avanços sociais que devem continuar, o que não é favor, é obrigação de qualquer governo! Mas não é justificativa para fazer vista grossa a um governo criminoso, no mínimo por omissão e incompetência. O país não está melhor do que há 12 anos. Gostaria que estivesse, mas não está. Há 12 anos, acredito que o PT foi a opção correta, era o menos pior, mas não é mais, passou do tempo, passou do ponto! Perdemos em educação, perdemos em exemplo, perdemos economicamente… perdemos.

E sinto que em breve, infelizmente, também perderei alguns amigos. É o preço.