90 – Despedidas e mais despedidas

Despedir é foda! Desculpa, mas não dá para definir de outra maneira mais didática.

 

Olha que já melhorei muito e me despeço com razoável classe, consigo fazer piadinhas, raramente choro, mas daí a dizer que é simples… nunca é.

 

E por que não é? As despedidas parecem pequenos velórios, como se o fato de não vermos as pessoas fará com que elas desapareçam num passe de mágica. Elas não desaparecem, só mudam de lugar e talvez aí esteja a chave, porque talvez sejam mesmo pequenos velórios por causa dessa mudança, desse deslocamento. Toda mudança encerra um período, fecha um ciclo, para quem vai e para quem fica. De alguma maneira a gente morre um pouco e renasce em seguida. Mas daí, já é outra coisa.

 

Ocorre que por muito tempo tento pular essa fase da pequena morte e partir direto para o renascimento. Mas sabe de uma coisa, nem todo fim é ruim, é só um fim. E todo recomeço é bom, porque é exatamente o momento em que a gente pode tudo.

 

Tenho tentado aprender a celebrar as partidas.

91 – Areia movediça

Em fevereiro, acontece a feira de arte mais importante da Espanha, a ARCO. Galerias de arte contemporânea de todo o mundo se reúnem em um enorme espaço expositivo aqui em Madri.

 

Ano passado foi a primeira vez que visitei a feira. Confesso que depois de haver visto tanta coisa ruim, a ARCO foi um certo refresco e até me empolguei em alguns momentos. Entretanto, esse ano não tive a mesma empolgação. Não achei ruim, gostei de algumas coisas mais que outras, mas em nenhum momento me bateu aquele “uau!”.

 

Pior, não me deu vontade de ter um trabalho ali. Para mim, é difícil dizer isso, porque sei que soa como um enorme despeito, mas é a mais pura verdade. Ainda não sei se foi pela feira mesmo, ou porque perdi o gosto, mas acho que as duas coisas.

 

Na semana seguinte, precisei voltar à faculdade de Bellas Artes para pedir meu diploma. Uma burocracia meio chata e que me custou cento e vinte e sete euros! Mas o que incomodava mesmo era o fato de ter que ir lá. E não quero jogar toda a responsabilidade por essa falta de vontade no curso em si, vem muito de mim e do momento. É que já faz um tempo, cada vez que inicio um trabalho ou me aproximo desse contexto, me sinto em areia movediça, parece que quanto mais me movo, mais afundo. Ao mesmo tempo, estou bem no meio da poça, para onde ir?

 

Ocorre que antídoto e veneno são provenientes do mesmo material e o que em muito veio a ser minha cura, agora parece ter mudado de lado. Só não sei até quando. Outro dia estava escutando uma música que a Marina canta, que diz “sonhos são como deuses, quando não se acredita neles, eles deixam de existir”. Esse trecho me apunhala, porque volta a responsabilidade ao meu umbigo, sou eu quem não acredita mais e que ando me picando com o próprio veneno.

 

Tenho todas as desculpas legítimas do mundo para estar onde estou, mas essa angústia, irmã de armas, sempre me lembrando que não é o suficiente.

92 – Escrivaninha à milanesa

Não sou uma pessoa sexista! Não sou mesmo. Mas reconheço que muitas vezes, ou por aprendizado, ou por DNA, ou pelo raio que o parta, homens e mulheres pensam diferente.

 

Realmente me intriga porque os homens sempre acham que tudo grande é melhor. E veja bem, estou me referindo a absolutamente tudo! A televisão maior, de preferência com um super mega controle-remoto para os 500 inúteis canais,  o micro-ondas maior, o carro maior… enfim, às vezes o maior pode ser substituído pelo mais caro. O importante é que seja mais.

 

Meu digníssimo marido não foge à regra masculina, o que muitas vezes (nem todas!) até me diverte. Como, por exemplo, a vez que comentei que precisava comprar uma frigideira e ele, sempre atento às minhas necessidades, me apareceu à noite todo orgulhoso com uma wok! Olhando aquela panela onde cabia comida para umas oito pessoas, fiquei imaginando como fritaria um ovo, motivo pelo qual, precisava de uma frigideira nova.

 

Mas também, não falei com todas as letras que era para fritar um ovo, caramba! E aí está o “x” da questão. Homens pensam no imediato e se orgulham de suas rápidas decisões, sem prestar atenção que a velocidade desse pensamento pode se dever ao fato de não parar para pensar dois segundos nas possíveis consequências.

 

E antes disso virar uma crônica feminista, longe da minha pretenção, porque no fundo acho o pensamento masculino divertido, vamos ao que interessa.

 

Luiz me liga empolgadíssimo porque havia visto no mercado uma lata de azeite de não sei quantos litros, de excelente qualidade, preço ótimo e que, ainda por cima, dava de brinde um recipiente ENORME de vidro para armazená-lo, com torneirinha e tudo. Primeira pergunta feminina: mas vou botar isso aonde? Faço compras semanais ou diárias porque as coisas não cabem mais na cozinha!

 

Lá vinha eu, a castradora! Só podia ser pessoal! Enfim, sem muita paciência nesse dia, encurtei a história e resolvi dizer, tá bom, que saber, ótima idéia, preciso muito dessa garrafa gigante de azeite.

 

Aparece ele todo feliz com uma garrafa realmente gigante. Próxima pergunta feminina inconveniente: mas cada vez que for cozinhar tenho que fazer um malabarismo com a panela embaixo dessa torneirinha? Putz grilo! Mas você é chata, hein? Que perseguição! Ele tinha a solução perfeita, encher o vidro antigo, bem menor, com o azeite do garrafão. Assim, só precisava repor de vez em quando, pronto!

 

Ah, tá! Se é você que vai fazer isso… perfeito! Acho que essa parte ele não ponderou, mas eu é que resolvi não me estressar. Quer saber, ele teve a idéia, se responsabilizasse por ela e todos seríamos felizes, certo?

 

Foi quando ele descobriu que para encher um vidro menor levava horas, precisando segurar o recipiente embaixo do garrafão. Deixei ele sofrer uns cinco minutos, sentado com cara de tédio na cozinha, garrafão na beira da pia e ele segurando um vidro menor. Acho que foi a primeira vez que ele ponderou que talvez não houvesse sido mesmo uma boa idéia.

 

Bom, sou meio canalha sim, mas não espírito de porco e a verdade é que fiquei com dó de deixá-lo ali e dei a idéia de fazer um tipo de mecanismo com algumas caixas sobre o banco, de onde se equilibrava a garrafinha a ser enchida. Era só ele não esquecer de verificar, de tempos em tempos, se já estava cheia.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, no dia seguinte lá fui eu arrumar um espaço em cima da escrivaninha de madeira da sala. Ficou apertado, mas admito que deu seu charme. Depois pensei, uma hora vai acabar e ele não vai ter saco de comprar outro garrafão. Tranquilo.

 

Até que o refil acabou e, claro, pedi a ele, amor, precisa encher o vidro de azeite outra vez. Digamos que ele não me abriu um largo sorrido diante da tarefa, mas não reclamou. Descobriu que no novo local, ainda era mais fácil de encher o refil, pois apoiava a garrafinha na própria escrivaninha, com o garrafão um pouco mais acima. Outra vez, só precisava verificar quando estivesse cheia. Tarefa essa que ameaçou querer me passar e tirei o corpo fora mais do que depressa. Claro que se lembrasse avisaria, também não preciso ficar de pirraça, mas sou super distraída e essa função não era minha. Não conte comigo para lembrar de nada!

 

Homens e mulheres, pensando diferente ou não, acho que é fácil imaginar daqui para frente o que aconteceu. Claro que ele esqueceu de fechar a maldita torneirinha e vazou azeite por uma noite inteira sobre a escrivaninha e o chão.

 

Ele acorda bem mais cedo que eu e, no dia seguinte, despertei com uma frase mais ou menos assim: &*$% que #$%iu! Acordei assustada e perguntei do quarto o que tinha sido. E ele: foi a $%%##$%%%#^& desse azeite que vazou a noite toda!

 

Por quase três segundos vivi o dilema de descer para ajudar, mas a verdade é que ainda enxergava embaçado e suponho que meu humor não ajudaria muito. Daí, fiz o que qualquer mulher racional faria, fechei os olhos bem forte e pensei que se ignorasse o problema com toda minha energia, quem sabe desapareceria? O esforço foi tanto que o pior é que dormi de verdade e só ouvi alguma coisa como, quando chegar do trabalho pode deixar que limpo melhor.

 

O fato de continuar dormindo foi uma sábia decisão. Pois quando levantei da cama estava de bom humor e um pouco curiosa para ver o estado de calamidade pública que a sala deveria se encontrar. Foi bem melhor do que imaginava, pois pelo menos o chão estava seco.

 

Pensei com meus botões, cassilda a lei de Murphy funciona mesmo, não é que esqueci de comprar papel toalha para cozinha? Será que o Luiz achou os panos descartáveis embaixo da pia? Essa dúvida foi satisfeita alguns segundos depois, quando vi no lixo um monte de papel higiênico! Papel higiênico? Claro, lógica masculina, para limpar a cagada, seja ela qual for: papel higiênico! Nem quis saber quantos rolos ele gastou, mas acho que deve ter sido suficiente para embrulhar uma múmia! O importante é que o chão estava razoavelmente limpo, o que não é tarefa simples quando se trata de azeite.

 

Por outro lado, a escrivaninha… tinha poças de azeite. Felizmente, ele lembrou de tirar as gavetas onde guardo roupa de cama. Sim, guardo roupa de cama na escrivaninha por absoluta falta de espaço, mas essa é outra história. Enfim, essa parte da roupa estava milagrosamente limpa. Entretanto, esqueceu duas gavetas menores onde guardo toalhas de mesa, guardanapos de tecido e panos de prato. Essa outra parte precisou ser toda lavada… três vezes! As brancas em água sanitária.

 

O móvel não ficou feio, pelo contrário, dizem que é bom de vez em quando passar um pouco de óleo para hidratar a madeira. É verdade que não precisava ser azeite de oliva extra virgem e a madeira deve estar hidratada para os próximos cinco séculos! Tudo bem, o problema mesmo é que a gente passa por ela e dá a maior fome. Felizmente, ali não bate sol, caso contrário, estou segura que fritaria como uma croqueta.

 

Já com a casa limpa, chega o Luiz com a cara de criança que fez arte, bonzinho mesmo. De certa forma, deve ter ficado mais aliviado porque quebrei o galho e limpei a casa durante o dia. Talvez estivesse mais aliviado ainda porque estava de bom humor.

 

A propósito, o azeite é realmente muito bom, tanto para cozinhar quanto para lustrar os móveis.

93 – Caminho de Santiago for dummies

Há alguns meses atrás, acredito que pelo final do ano passado, começou a me dar vontade de fazer o Caminho de Santiago. Para quem me conhece, mesmo que só um pouquinho, com certeza deve imaginar ser uma vontade bizarra. Na verdade, até eu acho estranho porque, em tese, não tem o meu perfil em nadinha.

 

Sou ateísta e, dependendo do ângulo que se analise, quase hedonista, adoro uma mordomia, sou meio fresca e com mania de limpeza, nesse caso com uma certa paranóia em relação a banheiros limpos e banho quente. Tenho os pés mais machucáveis do planeta, não gosto de acordar cedo, nunca fui uma pessoa rural, aliás, difícil ser mais urbana. Enfim, por que raios mesmo quero fazer o tal do caminho?

 

Ainda não sei, mas deve haver algum motivo porque ele não sai da minha cabeça. Engraçado porque nunca conheci tanta gente que o havia trilhado, assim de repente, do nada. Pelo blog, por amigos, por conhecidos, não importa, a informação a respeito tem praticamente me perseguido. Sei que quando estamos atentos à alguma coisa isso acontece, de certa forma parece que o universo conspira, mas podemos racionalizar e dizer que simplesmente olhamos com mais atenção e buscamos a informação que nos interessa. Pode ser.

 

O fato é que resolvi seguir a intuição e tomar uma atitude, decidi que vou trilhá-lo. Estipulei uma data, não tão rígida, mas para ter um objetivo. Saí da voz passiva em esperar as informações que chegavam e passei a pesquisar a respeito em livros e websites. Não sei explicar direito, mas parece que de alguma forma, ao tomar a decisão, o caminho começou.

 

Daí comecei a refletir se teria algum objetivo nobre para fazê-lo. Para ser sincera, não achei nenhum. Cada vez que me pergunto o que quero do caminho não acho nenhuma resposta concreta, só quero caminhar e aprender o que ele tiver a me oferecer. E se não tiver nada a oferecer, pelo menos me deu uma meta, um plano, e isso já me deixa no lucro.

 

Por outro lado, acho que a gente precisa respeitar os próprios limites e também resolvi que não quero todo esse coñazo de sofrimento. Vou fazer o “Caminho de Santiago for dummies”, uma versão light. Não digo turística porque está bem longe do meu ideal de turismo, mas enfim, andei lendo sobre os albergues, como funcionam e tal. Todo mundo diz que é uma tremenda experiência, mas cá entre nós, é uma tremenda experiência de banheiros compartilhados e lama no chão que dispenso. Comecei a procurar hotéis e pousadas e cheguei a conclusão que nem são tão caros assim, principalmente para quem já mora na Espanha e usa o euro como moeda corrente. Não preciso de um hotel cinco estrelas, só quero um banheiro com o mínimo de privacidade e uma cama decente sem nenhum estranho chulézento roncando do meu lado.

 

Vi também que não preciso fazer tudo de uma vez só, é normal se dividir o caminho, além de haver outras possibilidades ao Caminho Francês, o mais conhecido, que começa em Saint Jean Pied-de-Port. Outras opções seriam os  Caminhos de Finisterre ou o Inglês, mas não sei, sigo tentada a optar pelo Francês, mesmo que fazendo um trecho menor, começando em Pontferrada, por exemplo.

 

Luiz não tem vontade de fazer o caminho e acho que não tem nenhuma obrigação. Para falar a verdade, acho que devo fazê-lo sozinha, é coisa minha. No máximo, com uma amiga ou amigo que respeite o silêncio. Talvez tenha essa amiga e acredito que possa funcionar. Também tem o lado de me dar mais segurança por ter alguém conhecido junto e acredito que possa oferecer o mesmo em troca.

 

Comecei a me preparar fisica e psicologicamente e quem sabe tenha sido isso que me fez sentir que o caminho havia começado. Estou avaliando o estritamente necessário para levar e preciso, com urgência, achar o sapato adequado para amaciá-lo com antecedência. Caminho com regularidade distâncias bem razoáveis, mas acredito que precise fazer isso com mais disciplina. Estou atenta onde as dores me surgem após caminhadas mais longas e preciso tomar cuidados especiais com joelhos e coluna.

 

O curioso foi observar que, pelo menos em princípio, esse preparo não está sendo tão difícil, o que contradiz o que acredito ser meu próprio perfil. Parte da minha rotina, no que se pode chamar assim, já abrangia automaticamente uma série de requisitos. Definitivamente, o que preciso me concentrar não é em “o que” e “como”, mas em “por que”. Desconfio que essa resposta só desvendarei lá.

94 – Turbulência

Viajei por dez dias. Cheguei dia 06 de março no Rio, só dormi e fui direto para Belo Horizonte, onde fiquei até dia 09. De lá, voltei para o Rio até 16 de março. Aterrizei de volta em Madri dia 17, bem a tempo de comemorar nosso aniversário de casamento, mas vamos contando pouco a pouco.

 

Que tal começar pela viagem de avião?

 

Não nasci com medo de avião, pelo contrário, até gostava. Um dia, por volta dos meus 12 anos acho, passei por um CB, cientificamente conhecido por cumbulus nimbus. No popular é a nuvem da tempestade. Teoricamente, o avião não pode entrar nessa nuvem, pois fica totalmente instável, correndo o risco de quebrar uma asa, por exemplo. Muito bem, na prática significa uma nuvem preta que faz um barulho horroroso, onde parece que o avião está freiando. Logo depois disso, ele perde o controle e passa por um tipo de turbulência onde cai tudo dentro do avião. Suficiente para me deixar com medo muitos anos. Depois disso, passei por urubu na turbina, pouso em furacão etc. Enfim, viajar de avião passou a ser algo nada muito agradável.

 

Assim como me veio o medo, foi embora no ano passado. Sem mais nem porque, simplesmente perdi o medo e adorei. Não vou dizer que ame voar, mas não é mais um problema.

 

Ainda bem, porque a viagem ao Brasil dura pouco mais de dez horas na ida e nove e meia na volta. Longa distância.

 

Convenhamos, viajar de avião é algo realmente muito esquisito. Como dizia meu sogro: mais pesado que o ar… inventado por brasileiro… sei não…

 

Em que outro lugar a gente paga caro para ficar igual a sardinha enlatada, e iniciamos com a representação de um possível acidente? Sério, a gente já entra sendo prevenida para agir caso a coisa não dê muito certo.

 

A parte que acho mais divertida é a explicação do uso do salva-vidas. Olha que prático, a gente com a máscara de oxigênio que despencou do teto, super tranquila, tem que ficar tateando embaixo da poltrona, onde a mão não alcança, para achar o tal do salva-vidas.

 

Daí a aeromoça adverte que aquela porcaria pode não funcionar. Mas tudo bem, porque nesse caso é só encher soprando por uma bombinha. Coisa também muito simples para se fazer em pânico.

 

Por último, avisam que o salva-vidas só deve ser inflado fora do avião. Ou seja, recapitulando, você apavorada, depois de cair trocentos mil metros, achar a porra do salva-vidas embaixo da poltrona e sair do avião atropelando todo mundo, ainda tem que, no meio de ondas gigantescas, descobrir se a porcaria funciona e, em caso contrário, soprar aquela meleca enquanto afunda. Mas também, vamos combinar, qual é a chance real de que se o avião cair você conseguirá usá-lo, né? 

 

Nesse caso, não seria mais simpático desistir dessa demonstração inútil, que ninguém presta atenção mesmo, e simplesmente fingir que nada de mal pode acontecer? Pronto! Todo mundo ficaria mais feliz. As aeromoças evitariam aquela cara de babaca lá na frente falando sozinhas, os passageiros se iludiriam que nenhum problema poderia passar… olha que maravilha!

 

Fica aí minha sugestão: acabar com as demonstrações de medidas de segurança e prevenções de como agir em caso de acidente. Se alguém tiver sorte o suficiente para estar vivo depois da queda, que se vire!

95 – A viagem

Desembarquei no Rio, fui uma das primeira a saltar do avião… e uma das últimas a pegar as malas. Entre uma coisa e outra, tive a gostosa experiência de passar pela imigração do meu próprio país. Sem fila e com um agente que mal olhou meu passaporte, mas reconheceu rapidamente meu sotaque e me apontou a saída mais próxima. Direto! Simples assim, fácil assim e bom assim. De maneira que a espera pela mala me cansou, mas não me aborreceu.

 

Meus pais me buscaram no aeroporto e já estavam preocupados pela demora, porque sabem que sempre levo comida como lembrança de viagem. A verdade é que dessa vez levei bem pouca coisa. Umas azeitonas, azeite, fuet, vinho, besteirinhas, nada demais. Estava todo mundo de regime em casa mesmo.

 

No dia seguinte, embarcamos meus pais e eu para Belo Horizonte para ver meu avô. Achei ele muito bem, dentro do quadro, é lógico. Debilitado, com dificuldade para se locomover, fazendo um pouco de confusão com as coisas, mas incrivelmente de bom humor. Agora, às vezes ele se esquece de algumas pessoas, nem sempre. E o curioso é que tem absoluta consciência disso. Ou seja, ele sabe que deveria lembrar e é consciente que está fazendo confusão. Enfim, por esse motivo, foi a primeira vez que me preparei para ele me encontrar e não saber quem eu era. Felizmente, isso não aconteceu, ele sabe quem sou, onde moro e tudo mais. Confesso que algumas vezes nosso assunto parecia conversa de bêbado, repetindo a mesma coisa várias vezes em uma altura pouco convencional. Não importa, não ligo.

 

O mais engraçado foi que meu avô agora está com um corte de cabelo feito a máquina, bem curto e, no hospital, as meninas brincando com ele inventaram de penteá-lo como moicano. Ele gostou! Em casa, ficava de farra passando as mãos no cabelo, centralizando o topete grisalho, como um punk. E essa é a imagem que escolhi para lembrar dele por aqui.

 

Foi legal também encontrar toda a família daquelas bandas. Minha tia, meus primos, minha priminha… antigos e novos integrantes. Acabei trazendo a documentação para tentar tirar a cidadania italiana, além de uma foto da minha tataravó, porque das bisavós já tinha.

 

Passados três dias, voltamos para o Rio de Janeiro. Daí só tinha uma semana antes de voltar e foi tudo muito corrido. A maior parte do tempo, como de costume, dei prioridade à família. Encontrei a casa dos meus pais um pouco triste, meu pai sem paciência para se tratar e minha mãe muito cansada. Mas não sei, ao longo da semana, apesar de alguns momentos difíceis, houve uma certa onda de otimismo e tive a impressão de que a situação começava a clarear.

 

O apartamento do meu irmão foi vendido e ele voltou temporariamente para a casa dos meus pais. Logo depois, cheguei eu para visitá-los, de maneira que a casa de repente ficou cheia e deu uma movimentada no astral. Sei lá, tudo foi se ajustando e tomando um rumo que me parece ser para o bem.

 

Encontrei um casal de amigos que morou aqui em Madri e foi show. Apesar de surreal, porque para mim era um pouco confuso encontrá-los na sua própria casa em outro país. Uma sensação de deslocamento esquisita, como se estivéssemos um pouco soltos no espaço. Pouco tempo para tanto assunto, mas deu para matar a saudade. Eles parecem felizes juntos, o que me deixou feliz também. De quebra, ainda levei uma quentinha depois do jantar. Engraçado isso, depois que saí do Brasil peguei esse hábito, amigos que comem aqui em casa, levam comida e faço a mesma coisa, assim na maior cara-de-pau. E acho ótimo! Acredito que a gente acaba desenvolvendo alguns laços familiares e perde a cerimônia.

 

Uma amiga do tempo de colégio me visitou com o filhinho. O interessante é que ela soube que estava grávida dele aqui em Madri, quando passeava com o marido. Luiz e eu fomos os primeiros a saber, pois jantamos juntos no dia em que ela confirmou a notícia. Ou seja, conheci a “notícia”, agora com uns cinco meses. Muito bonitinho e super tranquilo.

 

E falando em neném, também encontrei meus primos do Rio, com a priminha que consegui conhecer na maternidade na última visita. Outra linda! Aliás, o povo no Brasil está fértil, viu? É um atrás do outro! Deve ser a água. Ainda não consegui conhecer todos os filhos dos amigos, não dá tempo!

 

Meu irmão também namorando e a namorada tem uma filha que é outra fofa, mas já maiorzinha.

 

Love is in the air, everywhere I look around, Love is in the air… lá lá lá…

 

Enfim, a semana passou rápido e estava com vontade de chegar em casa, afinal de contas, depois de presenciar tanto romance, estava com saudades do meu.

 

No carro, ainda no aeroporto, ao ligar o rádio, ouvi aquela música ruim e pensei, estou em casa!

 

Cheguei em Madri em 17 de março e nosso aniversário de casamento foi em 18. Luiz reservou nosso jantar no Dassa Bassa, de um chef bem conhecido por aqui, chamado Dario Bario. Muito bom o restaurante e acabamos conhecendo o próprio Dario, que foi super simpático e ficou todo orgulhoso da gente comemorar as bodas por lá.

 

Na volta, passamos no Trifón para última copa, como não poderia deixar de ser.

 

Sábado que vem tem festinha em casa para comemorar com os amigos. É que não dava tempo de fazer a festa no mesmo fim de semana da chegada do Brasil. Vamos fazer um dia de comemorações. Temos amigos muito diferentes, por idade, interesse, filhos etc. Cada um poderia vir em um horário. Por isso, copiei a idéia de outra amiga e faremos assim, a festa começa a partir das 13:00 horas e vai até o último cliente. Os amigos virão por turnos. Uma boa forma de agradar a todos e caber todo mundo no apartamento. Será que isso vai dar certo?

96 – Mas logo na minha vez?

Aqui na Espanha estão passando uma série de reportagens sobre espanhóis que foram imigrantes no passado. É uma forma de lembrá-los que a situação que vivem hoje já foi uma realidade para eles também, ou em outras palavras, uma maneira de evitar ou diminuir o preconceito contra os imigrantes estrangeiros.

 

Tenho lido muito sobre problemas com brasileiros tentando entrar em outros países. Fiquei um pouco preocupada nessa última vinda do Brasil, como seria recebida? Sabia que de acordo como fosse tratada, isso poderia influenciar muito minha postura aqui em Madri. E verdade seja dita, fui tratada com o respeito simples que precisava. De longe o agente da imigração viu na minha mão o passaporte e a carteira com meu visto. Quando cheguei, sorriu e disse “brasileña residente”! Entreguei o papel que havia preenchido no avião, sobre a entrada no país e ele me devolveu dizendo que não precisava mais dele, pois já morava aqui. Foi o suficiente para revigorar minha boa vontade de adaptação.

 

Estive vendo que,  por conta dos 50 anos de união européia, no Brasil também estão fazendo reportagens sobre imigrantes brasileiros na Europa. De maneira geral, me pareceram  programas com mensagens positivas, com a tentativa de evitar que o brasileiro se sentisse excluído em outras sociedades.

 

Sei que a gente presta mais atenção às informações que estamos diretamente relacionados, mas de uma certa maneira, essa questão me pareceu tomar uma proporção mais importante nos últimos anos. Parece ser uma preocupação mundial. O que faz todo sentido em um mundo pós-globalizado.

 

Há muitos anos conheço estrangeiros que vivem fora de seu país. Entre dificuldades e facilidades, me parecia uma vida menos complexa que hoje, talvez fossem mais entendidos como estrangeiros que imigrantes. De repente, sou eu que estou nessa situação e descubro que a regra mudou. Além do que, o número se multiplicou e esse volume assusta. Só me ocorre o pensamento meio egocêntrico, mas logo na minha vez?

 

A primeira vez que pensei assim, foi ainda nos Estados Unidos, quando tirava o visto de residente para Espanha. Nós entramos no país na mesma época em que houve uma legalização maciça de imigrantes e, por conta disso, todos os procedimentos estavam mudando. No consulado espanhol de Miami, por onde nosso processo correu, fui informada que boa parte da demora e complicação da nossa situação se deveu ao fato de sermos o primeiro caso a iniciar ali depois da mudança da lei. Ou seja, estava todo mundo ainda aprendendo como proceder. O que mais poderia pensar além de “mas logo na minha vez”?

 

A atendente do consulado, diante da minha decepção, disse que estava sendo pioneira e abriria caminho para as outras pessoas. Acho que não abri caminho para ninguém, porque eu mesma não fui responsável por nada. Mas achei muito gentil e otimista da parte dela me dizer isso. Dava à toda aquela encheção de saco um olhar de aventura.

 

E foi com esse olhar que cheguei aqui. O tempo e a relativa rotina foi provando que aventura é uma coisa, conto de fadas é outra. Isso já esperava.

 

Por outro lado, às vezes também é legal. Saber que esse é um tema super atual, todo esse movimento dentro do planeta e nós bem no meio dele. Conhecendo na prática, vivendo na veia. O preço é alto, não é um conto de fadas, mas sim que é uma aventura e é a minha vez.

97 – Para 13 anos de bodas…

Sábado fizemos uma festa para comemorar os 13 anos de casados. Todo ano que é possível a gente comemora e, dessa vez, para 13 anos de bodas, foram 13 horas de festa! Estávamos prontos à tarde, a partir dàs 13:00 horas, e às duas da matina foi embora o último convidado.

 

Segundo Luiz, foi praticamente uma rave. Idéia essa que adorei para as bodas de ouro, já pensou? Aquele monte de velhinhos em uma rave? Ao invés de consumir extasy e ácido, optaríamos por viagra e prozac. Acho que seria um sucesso! Fora aquela fila ao lado da pista de dança para tomar oxigênio. Porque certamente, junto ao DJ, contrataria médicos e enfermeiras para ficarem de plantão. Bom, mas para essa ainda faltam 37 anos, então vou me concentrar na festa passada.

 

Como de costume, ao longo da semana fui preparando as comidinhas e comprando as bebidas. Dessa forma, não ficou tão pesado. No dia mesmo, chutei o balde e aproveitei a festa como uma convidada. Fiz carne louca, salpicão de frutos do mar, tomates pata negra em azeite e balsâmico, beringela assada, salada de batata e, o campeão, caldinho de feijão. Também comprei uns queijinhos, frios, salgadinhos de pacote, essas coisinhas para beliscar. De bebida, como sempre a caipirinha é a favorita. Mesmo assim, consumimos cava, cerveja e vinho. Claro que coca-cola para as crianças, que vieram durante à tarde,  e um dos amigos que não toma um pingo de álcool. Ninguém saiu da linha, mas foi o suficiente para estarmos alegres. Se tivessem exagerado também, pouco me importaria, provavelmente acompanhasse.

 

A idéia de fazer o dia de comemorações, que copiei de uma amiga aqui de Madri, me pareceu interessante por vários motivos. Sábado é um dia que costumamos ter mais de um compromisso e acaba sendo a escolha de Sofia. Além disso, tem os amigos com filhos que às vezes não conseguem babá, tem os amigos que não conseguem acordar porque foram para balada na noite anterior, tem os que querem seguir para noite depois da festa, tem os que se adaptam a qualquer horário, enfim, dessa maneira, fica conveniente para todos. Dificilmente em meu apartamento caberia todo mundo ao mesmo tempo, assim o caos que se encarregasse de esvaziá-lo ou enchê-lo. E viva a anarquia!

 

A verdade é que me diverti pra burro! Adoro a casa cheia, fica animada e dá um astral muito bom. Digo sempre que temos muita sorte com os amigos que conhecemos, cada um com seu próprio estilo e personalidade. Sei que a conversa fluiu sem dificuldade e mesmo as crianças se integraram sem problemas. A sensação que tenho é que tudo funcionou e não vi a hora passar.

 

Bom, também é verdade que ao fim da noite os olhos do Luiz já estavam pequenininhos. Nas fotos fica até engraçado ver como a expressão dele vai mudando. Eu continuava ligada na tomada 220V, movida a cava, entretanto, admito que no dia seguinte era totalmente imprestável. Não consegui nem por o nariz na rua. A gente morgou o domingo inteirinho! De qualquer forma, era bom ficar em uma casa cheia de flores, chocolates e comidinhas do dia anterior.

 

Estava feliz. Compartilhar esse momento me deixou mais feliz ainda, é sempre como reforçar um ritual. Continuamos aqui, juntos. A responsabilidade é nossa, mas a energia boa dos amigos ajuda a tocar a vida para frente e disso não quero me esquecer, portanto, celebramos. Vinícius que não me leve a mal, mas que seja imortal e infinito para sempre, e pronto! Não é tão poético, mas é romântico e bem mais gostoso.

98 – Tietagem

Estava eu escrevendo, como quase todos os dias, toca o telefone. Era Luiz dizendo que um amigo do trabalho havia chamado para a pré-estréia de um filme, cuja a protagonista era uma amiga dele e da esposa. E aí? É hoje mesmo, topa?

 

Para falar a verdade, estava com um pouco de preguiça, mas é muito difícil eu recusar um convite e, ainda mais, porque parecia interessante. Conheço outras atrizes de teatro, mas assim de cinema, protagonista do filme em questão, seria a primeira vez.

 

Tudo bem que era um filme argentino, mas quer saber, nesse ponto já joguei a tolha. Paguei com minha língua e tenho ótimos amigos argentinos aqui em Madri. Nunca pensei que pudesse dizer isso, mas paciência, não só dito como registrado.

 

E lá fomos nós para o evento. Não tinha grandes expectativas e fiquei surpresa ao chegar em um cinema adaptado a um antigo teatro, lindíssimo, em plena Gran Vía. Na frente, jornalistas, fotógrafos e uma entrada restrita coberta em pétalas de rosa. As pessoas na calçada se acumulavam, curiosas, para ver do que se tratava.

 

Luiz e eu chegamos um pouco cedo e achamos melhor esperar nossos amigos do lado de fora. Afinal de contas, era divertido observar o movimento e saber que dessa vez, estaríamos entre os eleitos a participar.

 

Não demorou muito, chegou o casal de amigos do Luiz, muito simpáticos e, pouco depois, mais três outros amigos que eles convidaram.  Ficamos os sete de gaiatice imaginando se ao entrarmos nos fotografariam e depois ficariam um tanto perdidos tentando descobrir quem éramos. Infelizmente, ninguém nos confundiu com celebridades e portanto, nada de fotografias.

 

Já do lado de dentro, tentamos reconhecer os famosos. Outro problema, a gente quase não vê TV e, lógico, não conseguíamos identificar ninguém. No máximo, desconfiávamos da suposta fama quando alguns flashes disparavam.

 

Pelo telefone, nossa amiga falava com a atriz do filme, sua amiga de infância, que por sua vez estava super nervosa no hotel, esperando a hora de ir. E e eu, curiosíssima, achando tudo aquilo muito divertido.

 

Até que nos chamaram para entrar e dar início a projeção. Com todos sentados, entraram as duas atrizes principais do filme e o diretor. Vamos esclarecer um pouco melhor, o filme se chama Nordeste, foi apresentado em Cannes por seu diretor, Juan Solanas,  muito conhecido pelo seu premiado curta El Hombre sin Cabeza; as duas principais atrizes são Carole Bouquet, atriz francesa chiquerrésima-quero-ser-assim-quando-crescer; e Aymará Rovera, amiga de infância da nossa amiga, bonita e ótima atriz.

 

O filme é bom, forte e trata do drama da adoção ilegal de crianças na Argentina. Aliás, uma história que poderia ser rodada em qualquer país sul americano, incluindo Brasil, pois a realidade é muito parecida.

 

No fim do filme, fomos apresentados à simpática Aymará que fez questão de agradecer nossa presença e tirou com nosso grupo uma foto de sua própria câmera. Agora sim os repórteres deveriam estar se perguntando quem éramos e se deveriam haver tirado uma foto nossa.

 

Completamente famintos, saímos para comer alguma coisa. Considerando que era próximo da meia-noite, era difícil achar um restaurante aberto. Sugeri um bar de tapas, mais especificamente pinchos vascos em La Latina, e para lá nos dirigimos. Bom papo que se prolongou até quase duas da matina.

 

Para quem acordou sem nenhum plano, nada mal para uma quinta-feira. Né, não?

99 – Semana Santa

Aqui, como bom país católico, também se comemora a Semana Santa. O feriado é na quinta e sexta-feira, mas um monte de gente emenda a semana toda. Madri ficou tranquila, havia até lugar para estacionar na rua, impressionante!

 

Há uma série de procissões, levadas com um profissionalismo que lembra o carnaval brasileiro. Não estou sendo irônica, lembra mesmo. A maneira com que as pessoas se empenham e a forma como é apresentado na TV, com narração explicando toda sequência, lembra muito as alas de escolas de samba. Uma coisa curiosa é que os participantes usam capuzes que parecem os da ku klux klan, não sei o significado, mas é meio bizarro.

 

Enfim, cheguei a fazer planos para viajar, mas Luiz resistiu um pouco à idéia e acabamos ficando por Madri mesmo. Não foi mal, tivemos bons programas e aproveitei para fazer uma pequena revolução em casa.

 

Logo no sábado, fomos ao aniversário de uma amiga recente e fizemos novos amigos que renderam outra festa no sábado seguinte. Gente legal, bom papo, comidinhas gostosas e nacionalidades misturadas. Em ambas as casas, música ao vivo. Faz tempo que não vou a festas com voz e violão. Um dos amigos espanhóis ressaltou que todos nós lembrávamos das músicas e suas letras, não havia reparado, me parecia natural, mas na verdade era um grande sinal de memória coletiva, traços de identidade que não percebemos mais ou só percebemos quando estamos fora. Nos conhecíamos pouco, viemos de lugares diferentes e assim mesmo de alguma forma a música nos unia e identificava.

 

Inevitavelmente surgiu o tema da imigração, o que no fundo se tratava de identidade. Notei com um pouco de surpresa que não tinha o menor interesse em participar da polêmica. Percebi também que algumas das minhas convicções já não andam tão convictas assim, felizmente existiu Raul Seixas para não me deixar pensando que sou a única metamorfose ambulante. Talvez precise exercer meu lado camela e digerir outra vez o assunto. De qualquer forma, uma coisa positiva é que não me emocionou, não me fez sentir raiva, nem medo, nem quase nada. No fim das contas, me chamou a atenção minha sincera indiferença escorpiana à questão.

 

Falando nisso, dia 06 de abril completou dois anos que chegamos na Espanha. Em breve, iniciaremos nosso processo para tirar a cidadania espanhola. Pensar na trabalheira burocrática que isso gera me dá um pouco de preguiça e impaciência, mas já não me abala, é só a chatice.

 

Encontramos, por duas vezes, um casal de amigos brasileiros. Uma na casa deles, outra na nossa. Nos sentimos mais próximos e exageramos no teor alcoólico, às vezes é bom para soltar o verbo com menos filtros. Eles passam pelo dilema de continuar ou não no país, há uma proposta fora. Estranho porque queria que ficassem, mas sou incapaz de dizê-lo enfaticamente, sequer sou capaz de torcer por isso. Quem garante que a gente também fique? Quem sou eu para querer que alguém fique? Se tiver que ser, mais um país para conhecer e outra casa para visitar.

 

Saí da casa deles feliz. Um pouco por ter amigos, um pouco por estar com Luiz e um  pouco por que vim viajando no CD emprestado do Ed Motta. Uma música com frases soltas que eu era capaz de conectar e entender perfeitamente… hoje eu quero jantar bem… feijão preto com paio… e agora quem vai admitir… sei que os bancos não vão… a que se estar aqui…

 

Cheguei em casa ainda muito inquieta para ficar, o que acabou sensibilizando Luiz a ir comigo ao El Junco, mesmo sem tanta vontade assim. E dessa vez fui pensando no Capital Inicial, porque todas as noite são iguais, os meninos satisfeitos, as meninas querem mais…  Na saída, um repórter entrevistou Luiz perguntando por jam sessions e disse que sairia no jornal El País de quinta-feira santa. Não levamos tão a sério, mas pelo sim pelo não, compramos o jornal na quinta e lá estava ele, com foto e tudo!

 

Engraçado, estamos nos tornando um casal multi-mídia! Ilustres desconhecidos, os famosos-quem?

 

Nem tudo foi farra. Ao completar dois anos de Madri, me dei conta que completava um ano no atual apartamento. Incrivelmente, continuaremos aqui, sem data para sair. Chegamos a questionar se deveríamos procurar outro lar, mas chegamos a conclusão que era muito trabalho simplesmente para trocar de defeitos, com os daqui já me acostumei. Por outro lado, também me dei conta que fazia aniversário algumas soluções de arrumação meio improvisadas. É difícil comprar móveis ou armários quando você não sossega em canto nenhum, precisam ser muito flexíveis. Sempre fui do tipo que prefere ter coisas boas ou não ter, o que com essa vida cigana, atrapalha um pouco. Resolvi relaxar o nível de exigência e tentar facilitar o lado prático.

 

Fomos ao Ikea, uma loja do tipo da ToK Stok com preços mais acessíveis, onde você compra e monta seus próprios móveis. Na verdade, há tudo para casa, organizadores, luminárias, artigos de cama, mesa e banho etc.  Enfim, compramos um armário pequeno para cozinha e uma estante para livros, além de alguns acessórios para ajudar na arrumação. Luiz montou os armários e eu tratei de começar a mudar tudo de lugar.

 

Daí me baixou os cinco minutos de Maria e também ataquei a bat-caverna. É que há um espaço atrás de uma escada aqui em casa, onde haviam três estantes móveis, que basicamente escondiam todo meu material de trabalho. O problema é que de tão apertado e escuro, parecia mesmo uma caverna. Foi se tornando impossível encontrar alguma coisa naquele buraco negro, além da dificuldade em limpá-lo. Pois tirei tudo, pus tudo abaixo, trouxe duas estantes para fora da cova e, de quebra, ainda desmontei uma das mesas da sala para ganhar mais espaço. Parecia que havia passado um tufão pelo apartamento, juro! Daquele jeito que você tem a impressão que não acabará de arrumar nunca.

 

Acho que tenho a síndrome de Diógenes às avessas. É muito difícil manter e me apegar às coisas, sinto um alívio impressionante ao me desfazer de lixo ou de objetos e íntens que não vejo grande utilidade. Ou seja, ao acabar o faxinão total, estava morta de cansada e com as costas doendo, mas ao mesmo tempo, me sentindo mais leve e satisfeita. Até o Jack parecia dar sua aprovação, se espalhava pela casa e buscava novos cantinhos de esconderijo.

 

O engraçado é que toda essa mudança começou porque queria comprar umas plantinhas novas para a varanda, já que a primavera chegou. Por esse motivo saí com Luiz e optei pelo Ikea porque também aproveitaria para comprar umas caixas organizadoras. Só que, na medida que andávamos pelos corredores, foi me ocorrendo que poderíamos comprar as estantes e tal. No fim das contas, compramos tudo para casa, menos as plantas.

 

E entre festas e arrumações, a semana passou. Ainda faz frio, mas os dias estão mais claros e longos. Tem chovido bastante também. Tenho muita vontade de guardar os casacos de inverno e começar a usar camisetas ao ar livre. Às vezes, até consigo desligar a calefação e abrir as janelas.

 

Na minha varanda tem um gerânio com um botão de flores doido para abrir. Uma planta um pouco raquítica que resistiu ao inverno como pôde e, mesmo assim, insisti em regá-la e ela insistiu em gerar um botão. Ficamos na janela esperando a primavera vingar para sair.

100 – Meu tabu

Tenho quase trinta e oito anos, treze de casada, e há pelo menos vinte afirmo não querer ser mãe. Normalmente, sob olhares desconfiados tentando imaginar qual seria meu problema. Porque claro, isso só poderia ser algum tipo de anomalia.

 

Esse questionamento já me chateou, me aborreceu e, às vezes, francamente chegou a me irritar. Por que é tão difícil entender um “não quero porque não”. Por que precisava explicar? Depois cheguei a uma indiferença cética onde aprendi a fingir que ouvia as mesmices de sempre como se fossem alguma novidade que nunca tivesse pensado a respeito. Que diferença iria fazer, quem não concorda com você dificilmente te ouve e percebi que perdia tempo explicando algo óbvio que entrava por um ouvido e saia pelo outro. Afinal de contas, que raios todo mundo tem a ver com isso? Então, resolvi funcionar como espelho, respeito na mesma proporção em que sou respeitada, é mais fácil. No final, faria o que quisesse mesmo.

 

Meu motivo é muito simples, não sei lidar com uma relação de dependência. Saber que um ser dependerá da minha sanidade e estabilidade é absolutamente assustador. Filhos não são compatíveis ao meu estilo de vida. Simples assim, nenhum mistério, nenhuma aberração. Na minha opinião, é um motivo muito fácil de se entender e altamente válido, mas soa como nada para quem não quer ver.

 

Ouvi algumas vezes que isso é egoísmo da minha parte. E, em seguida, vinha o argumento, e quem iria cuidar de mim quando estivesse velha? Pombas! Eu não querer ter um filho é egoísmo, mas ter um filho para cuidar de mim na velhice é o que? Pois já ouvi absurdos assim e sempre procuro lembrar da minha sábia avó que dizia: melhor ouvir isso que ser surda.

 

Também vinha gente no cantinho me perguntar se havia algum “problema”, com aquela cara de coitadinha, quem sabe buscando alguma confissão secreta, íntima e constrangedora. Será que eu era estéril? Será que meu marido era brocha? Será que sofri abusos na infância? Vamos combinar, se eu realmente tivesse algum desses problemas, o que marcar um “x” vermelho sobre eles me ajudaria? A mim, em nada, esse tipo de explicação só satisfaz a quem escuta, porque o mórbido as pessoas sabem aceitar, o difícil é o diferente.

 

Depois vem as questões paralelas, que não são o motivo, mas o complementam. Tem todo o trabalho, a paciência, o custo, um mundo incerto e blá, blá, blá… Engraçado, porque isso para mim é totalmente secundário, mas é o que as pessoas parecem entender com maior facilidade, concordando ou não.  O fato é que essas outras questões que chamo de paralelas são todas solucionáveis e de uma forma ou de outra, podem ser compensadas com o que uma criança traz de bom. E portanto, nunca foram o meu real motivo, simplesmente o acompanham. É a relação de dependência que me trava e essa não tem solução, ou você aceita ou não.

 

Felizmente, também há muita gente que respeita, para minha sorte, a maioria das que conheço. Perguntam por curiosidade normal ou simplesmente para iniciar um assunto. Esses nunca me incomodaram. Nunca me incomodou falar nisso ou interagir com quem pensasse diferente, e sempre fiquei muito feliz ao receber a notícia de uma gravidez desejada. Eu gosto de criança.

 

O que incomodava não era a dúvida nem a curiosidade, era o julgamento. É a tentativa de te convencer pelo simples fato e prazer de ter razão, de justificar a própria vida e as próprias limitações. E a verdade é que depois de um tempo, nem isso me incomodava mais.

 

O importante é que Luiz pensa igual e, como eu, não depende de uma geração para se completar ou se realizar como pessoa. Muita gente precisa, acho que para a maioria é algo visceral e respeito esse sentimento, simplesmente não o compartilho.

 

Até aí, qual é o problema? Pois nenhum. Só pensava no assunto porque era uma questão que me faziam quase que diariamente. Mas da minha parte, entre quatro paredes, nunca havia saído a pergunta: eu quero ter um filho?

 

O problema começa agora, porque com quase quarenta anos o questionamento não é mais quero ou não quero e sim, será que posso? Não poder é muito diferente de não querer. Não é mais alguém que me cobra, fui eu que resolvi abrir a caixa de Pandora. Maldito pretérito imperfeito do subjuntivo, e se eu quisesse? E se eu quisesse por minhas próprias razões? E se eu quisesse mudar minha vida?

 

A única e rápida vez que havia pensado nisso foi ainda namorando com Luiz. Já conhecia sua opinião a respeito de não querer ser pai e considerava isso um grande atrativo. Ele também sabia que não queria ser mãe. Mas não sei porque ele me olhou de um jeito e perguntou, e se a gente tivesse uma Bianquinha? Por alguns segundos pensei, talvez com ele eu tivesse. Mas rejeitei o plano em seguida e, aos vinte e poucos anos, foi muito fácil e conveniente esquecer a pergunta e a sensação. Ele nunca mais perguntou e eu nunca mais cogitei.

 

Minha mãe, por alguns anos me cobrou. É a única que, gostando ou não, acho que tem esse direito. Ela quer ser avó e, até eu que nunca quis ser mãe, queria ser avó. Daí um dia respondi que decidiria com 35 anos. Por que? Fácil, porque é considerado um limite saudável para engravidar pela primeira vez. Por que de verdade? Ganhava tempo, fazia de conta que decidiria depois e no fundo, apenas adiava o não.

 

Aos trinta e cinco, decidi que não. Depois de uma noite insana e no meio de uma das maiores ressacas que tive na vida, admiti que sou mesmo uma porra louca com a sorte de ter aparência normal. Como é que sem um pingo de juízo seria capaz de cuidar e educar uma criança? Essa vida não é para mim. Não é um lamento, posso ter outras felicidades, mas essa não é para mim.

 

Achei que essa decisão me traria o conforto, o alívio de resolver um problema. Sentia falta do tempo quando tinha a certeza absoluta que não queria. E por um tempo foi confortável saber que estava finalmente resolvido.

 

Ano passado fui ao Brasil e conheci minha priminha, com pouco mais de um ano. Foi um choque. Ela era a minha cara. Parece absurdo, mas é verdade, ela era a minha cara quando bebê. Foi uma sensação bizarra de ver concretamente a minha filha. Não consegui contar para ninguém e ela já nem parece mais comigo. Foi só um momento, mas me tirou o chão.

 

Algumas coisas são tão íntimas e tão difíceis que ficam remoendo na sua cabeça sem você perceber direito. E esse ano, em pleno carnaval, tomando um vinho com Luiz, simplesmente saiu da minha boca a pergunta, por que não adotamos uma criança? Assim, do nada. Não sei quem assustou mais, eu ou ele, que me devolveu na mesma moeda, se é para ter, por que não engravidar? Do que mesmo a gente está falando? Que papo mais absurdo, só pode ser o vinho.

 

De lá viemos em casa trocar de roupa, como disse era carnaval e sairíamos em seguida. Pois quando me olhei no espelho percebi que alguma coisa estava muito fora da ordem e caí num choro como não me saia há muito tempo. Chamei o Luiz para conversar, pára tudo!

 

Pela primeira vez na minha vida me perguntei se queria uma filha e resposta foi quero. E pela primeira vez saiu da minha boca, com a minha própria voz, eu quero ser mãe. Não era um sim definitivo, mas era por aquela noite, e naquela noite eu quis muito ser mãe.

 

No dia seguinte, me senti um pouco esquisita e não consegui mais tomar o anticoncepcional. Tomo progesterona há mais de seis anos, período pelo qual não menstruo mais. Na época que comecei, a ginecologista, assim como a bula do remédio, dizia que se resolvesse engravidar, a regra poderia levar entre seis meses e um ano para regularizar. Portanto, achei que não corria riscos, tinha um bom lastro e, outra vez, um tempo para pensar e digerir todas essas informações. Não falei com Luiz, achei que seria uma pressão a mais, no fundo sabia que não havia chance de engravidar no momento, essas coisas não são tão rápidas em retornar, ainda mais na minha idade. Três semanas depois viajaria para o Brasil, melhor conversar com calma na volta, talvez tivesse mudado de idéia.

 

Pouco antes de viajar estava estranha, via trinta grávidas por dia na rua e imaginava se eu estivesse também. Outros problemas me preocupavam e, aos poucos, fui esquecendo o assunto.

 

No Brasil, parecia que havia instalado um íma para crianças, elas simplesmente vinham para mim. Um instinto maternal que nunca tive, uma coisa maluca que me deixou um pouco confusa. Deixei vir, aproveitei para tentar vivenciar a experiência, pensar com um pouco mais de tranquilidade, afinal de contas, ninguém pôs uma faca no meu pescoço exigindo uma decisão tão urgente. Não falei muito a respeito, só conversei com uma amiga que acabou de ter neném e que tinha uma postura por um lado favorável, mas sem me pressionar. Tudo que não precisava nesse momento era mais pressão.

 

Contrariando as expectativas, em menos de um mês que havia parado o remédio, minha menstruação desceu, ainda no Brasil. Fiquei surpresa porque sentia uma mistura de alívio e tristeza. Foi quando me dei conta que, apesar de racionalmente saber que não era possível, no fundo esperava um milagre. O acidente tiraria minha responsabilidade, afinal, se engravidasse sob essas circunstâncias era porque tinha que ser. Como pude me sabotar desse jeito? Por outro lado, era possível, meu corpo me mostrava que ainda tenho tempo. Agora a responsabilidade voltava a ser minha, o controle voltava a ser meu e só fiquei mais confusa.

 

De volta a Madri, contei ao Luiz, melhor tomarmos nossas precauções. Em plena consciência, não quero acidentes, não sou assim. De qualquer maneira, meu instinto maternal se foi junto com o período. Talvez fossem os hormônios falando mais alto.

 

Não consigo conversar com quase ninguém a respeito e achei que escrever me clarearia as idéias. A palavra escrita ajuda a ordenar o pensamento.

 

Minha menstruação desceu pela segunda vez como se fosse um aborto. Vontade de chorar por nada, pode ser a TPM que estou desacostumada. Ainda não sei o que quero, mas sei que não posso passar por isso todo mês. Essa semana, volto a tomar o remédio. Às vezes, a gente só precisa de um pouco de tempo para aceitar ser diferente.

101 – Brinquedo novo

Há um tempão estou doida por uma máquina de fazer café expresso. Tive uma no Brasil uma vez, mas francamente, era uma bela porcaria. O café não fazia aquela espuminha deliciosa em cima, daquelas que deixa o açucar difícil de descer.

 

Em Atlanta, uma amiga tinha uma máquina da Illy que achei o máximo. Além do design retrô, o café era uma delícia e fazia a tal da espuminha. Tive muita vontade de comprar uma também, mas a possibilidade de vir morar na Espanha adiou os planos. A voltagem é diferente e não sabia sobre a facilidade de encontrar o café.

 

Enfim, em Madri, nosso espaço na cozinha sempre foi muito limitado e lá ia eu adiando a compra.

 

Nesse último faxinão, depois de arrumar os armários novos e limpar a bat-caverna, por incrível que pareça, me sobrou espaço no balcão da cozinha. Bom, admito que liberei o tal espaço cheia de más intenções em comprar a cafeteira, mas entre um desejo e sua execução, às vezes há um longo caminho.

 

Luiz deu força, não por ele que dá a mínima para café, mas porque sabe que sou uma viciada em cafeína e estava empolgada com a idéia. Pediu umas dicas a um amigo que havia pesquisado a respeito das marcas diferentes e lá fomos nós ao El Corte Inglés.

 

A princípio, juro que fui mais para pesquisar preços, olhar as máquinas e decidir depois. Mas digamos que nosso processo de decisão nunca é muito demorado e, em menos de meia hora, estávamos de volta com meu brinquedo novo. Optamos por uma Nespresso da DeLonghi.

 

Claro que estou de café até os olhos e quicando pela casa, mas bem que é divertido.

102 – Desafio

Atenção! Hoje vou mudar tudo! Vamos inverter a ordem das coisas, conto com as respostas de vocês. Será que rola?

 

Seguinte, lanço um desafio: quais são os chavões, os comentários e as perguntas mais irritantes do mundo?

 

Assim, aquilo que você escuta zilhões de vezes ao longo da vida e, às vezes, mesmo sem querer, repete igualzinho. Aquilo que te provoca uma expressão de tédio imediata, mas você dá aquele sorriso amarelo, porque a outra alternativa é um palavrão. Aquelas vezes que você dá uma resposta educada, enquanto imagina a cabeça do seu interlocutor explodir. Enfim, acho que deu para entender o conceito, quem nunca passou por algo semelhante?

 

Vou começar com minha lista…

 

  • Nossa, como você cresceu, te vi neném – é mais irritante quando você é adolescente
  • Mas isso até meu filho faz – em um museo ou galeria de artes
  • E o namorado? – quando está solteira
  • E o casório? – quando está namorando. Essa pode ser substituída por “E o seu? “, quando você está relatando um casamento alheio
  • E o neném, quando chega? – quando você está casada. Essa também porde ser substituída por “Filhos, vocês não querem?” E olha que curioso, porque a pergunta normalmente chega na forma negativa – não querem? Mas se você responder “não”, será obrigada a ouvir uma ladaínha.
  • Linda mensagem – título de e-mail
  • Posso te falar de Jesus – fica especialmente interessante quando você está tomando um drink
  • Desculpa te perguntar… – certamente virá uma pergunta inconveniente ou estúpida
  • Você já ouviu falar da Amway? – naquela reunião roubada que você estava crente que havia sido lembrada por ser uma pessoa legal
  • Você não notou nada? – quando feita para um homem
  • Estou em busca de novos desafios – em uma entrevista de emprego. Falando nisso, e aquela perguntinha canalha, me fale de um defeito e uma qualidade… Existia algum defeito diferente de perfeccionismo?
  • Sabe como é feito o foie gras? – quando você está com aquela boca boa para a primeira dentada
  • Você se incomoda que eu fume? – com o cigarro na mão e prestes a acendê-lo
  • Iiihhhh, mas tava muuuito mais! – frase dita olhando para cima e estalando os dedos, logo depois de você chegar da Europa branca como papel e elogiar o bronzeado de alguém
  • Que idade você acha que eu tenho? – não me sacaneia, né?

 

E você? O que te irrita?

103 – Primavera, brechó, terrazas…

Finalmente, a primavera parece ter dado as caras. Oficialmente já havia chegado, mas todo início de estação é meio inconstante, como se o próprio tempo também precisasse se adaptar às mudanças.

 

Meu humor segue a luz, a medida que os dias vão se esticando, vou também me expandindo e tendo mais vontade de fazer as coisas. E mesmo que não faça nada, sou envolvida por um otimismo e uma energia diferente. Dá vontade de aproveitar os dias e tomar sol. Diferente do inverno, acordo sorrindo, mesmo com preguiça e sem conseguir pensar direito.

 

Nesse sábado, participamos de um brechó. Muito divertido! Aqui conheci vários brasileiros através do orkut, e também por lá fiquei sabendo do tal brechó de primavera. Por coincidência, a amiga que estava organizando, conheci através do blog, ela também tem um que frequento e aproveito para fazer a propaganda www.dmadrid.blogger.com.br .

 

Enfim, foi um espaço organizado para você levar coisas da sua casa, como utensílios e roupas, que estivesse disposta a vender ou trocar. Algumas pessoas, que trabalham com vendas, também levaram coisas novas, como biquinis, bijouterias etc.

 

Achei a idéia ótima! Por acaso, havia dado uma tremenda limpa em casa e tinha algumas coisas que me davam pena jogar fora, mas ao mesmo tempo, não tinha para quem dar. Por que não vender a um preço baratinho? Luiz se animou e também deu uma revisada no seu armário. E lá fomos nós, os dois muambeiros, vender praticamente tudo a 1 euro por unidade.

 

Chegamos ainda no início, o que nos deu a sorte de encontrar um bom local para expor a mercadoria. Entretanto, as pessoas que haviam chegado até aquele momento levavam coisas novas e confesso que me deu um pouco de vergonha. Será que tinha entendido bem a proposta? De qualquer maneira, a gente já estava lá mesmo e quem entra na chuva…

 

Depois de um tempinho as pessoas começaram a chegar e havia de tudo. Fiquei mais à vontade e, digamos que fomos aperfeiçoando nossa cara-de-pau. No final das contas acho que fomos os que mais venderam, com a menor rentabilidade da reunião. O importante é que a gente se divertiu e tínhamos um excelente argumento de venda. Mas esses óculos não são masculinos? Veja bem, custa 1 euro. Não tenho certeza se esse tênis vai caber… Mas veja bem, custa 1 euro. Estou meio na dúvida se levo os talheres… Presta atenção, custam 1 euro, o conjunto!

 

Aproveitei e comprei dois colares lindos e baratíssimos! Além de trocar uma blusa por um casaco. Sem dizer que, ainda por cima, as meninas levaram comidinhas e refrigerantes que acabaram sendo nosso almoço. Conhecemos um monte de gente e, para tudo isso, pagamos 2 euros pela nossa participação. Quem poderia dizer que não acabamos no lucro?

 

De lá, fomos bater na porta da casa de um casal de amigos. A gente tinha mais ou menos combinado, mas não conseguimos confirmar por telefone depois. Talvez munidos da cara-de-pau recém adquirida no bazar, arriscamos ir de qualquer jeito e aparecemos meio de surpresa. Se o dia já ia divertido, a noite completou nosso sábado. Esticamos a conversa até bem umas duas ou três da manhã.

 

Domingão, acordamos tarde. Um amigo chamou para almoçar e fomos em um restaurante africano que gostei muito, chama Kim bu mbu. Deve querer dizer alguma coisa em alguma língua, mas espero que não signifique turista babaca, porque esqueci de perguntar. Importa que a comida era gostosa e a decoração exótica. Bom papo, relaxante.

 

De lá, quis voltar caminhando para casa. Não era tão pertinho assim, mas como dispensar aquele dia agradável? Pela primeira vez no ano, pude tirar o casaco em Madri e andar com uma blusa bem fresca. Como é bom!

 

Fiquei surpresa ao ver que as “terrazas” do Paseo de la Castellana já começaram a abrir, isso costuma acontecer mais próximo ao verão. Terrazas, nesse caso, são os bares e restaurantes com mesas ao ar livre. Digo nesse caso porque também pode ser a tradução de varanda, em uma casa ou apartamento. O conceito que está por trás é desfrutar a área externa e obedeci ao pé da letra.

 

Depois ficamos só de preguiça em casa. Em Madri, existe o costume que nunca entendi direito de fechar os restaurantes no domingo à noite. As ruas, que normalmente estão repletas, faça chuva ou faça sol, se esvaziam ao anoitecer do domingo. Não é que não exista o que fazer, mas em comparação com os outros dias e horários durante a semana, incluindo o sábado, é significativamente mais vazio.

 

Daí jantamos em casa, aproveitei e fiz uma carne seca desfiada e acebolada daquelas! Deu sede a madrugada toda, mas da minha parte, nenhuma reclamação.

104 – Maratona de Madrid

Havia escutado alguma coisa de uma maratona que fariam aqui em Madri e passaria perto de casa. Mas para ser sincera, me esqueci completamente.

 

Hoje pela manhã, acordei com uns sons vindo da rua, como se fosse de uma festa, uma torcida, algo assim. E eu, mas domingo de manhã? Na dúvida, fui dar uma olhadinha na janela e bem na esquina da minha rua, de camarote, dava para ver um pedaço da tal maratona.

 

Infelizmente, estava sem a máquina fotográfica. Luiz levou para TelAviv, para onde viajou a trabalho. Paciência! Não é muito diferente do Brasil, aliás, acho que as maratonas se parecem em todo o mundo, não tem muito o que inventar.

 

Tinha de tudo! Gente com cara de atleta, grupos uniformizados, corredores de fim de semana, alguns que pareciam não saber bem o que faziam ali, uma correndo de calça jeans, um correndo e falando no celular… até um vestido de noiva havia! Fiquei pensando, mas que gente corajosa. Puxa vida, você acorda de propósito, em pleno domingo, e encara esse sol na cuca pelo prazer de participar. Tem os profissionais, mas a verdade é que a maioria me parecia de amadores. Que determinação!

 

E a torcida? Pessoas que saem à rua para incentivar completos estranhos. Ouvia aplausos e frases como, muy bien, venga, vamos, guapaGuapa? Mas isso é uma corrida ou um balet flamenco? Não importa, estavam ali também, com o papel que lhes cabia.

 

Gente assim me emociona, traz à tona um lado bom do ser humano. Juro que não ando tomando nenhuma substância química legal ou ilegal, simplesmente o início da primavera me deixa desse jeito, meio piegas e otimista. O sol é um excelente antidepressivo!

 

Engraçado que acordei com vontade de desenhar, pouco a pouco me volta inspiração para trabalhar, mas vou cautelosa.  Enfim, a parte interessante é que normalmente gosto de trabalhar ouvindo música e hoje achei muito mais divertido ouvir os sons que vinham da rua. A curiosidade felina de saber o que acontecia do lado de fora me interrompia várias vezes, mas valia à pena. De qualquer forma, todo aquele ruído junto também era um pouco de música.

 

Daqui a pouco acho que não resito e vou dar uma voltinha no parque do Retiro.

105 – Dias atribulados

Felizmente, vou ocupadíssima! Fiquei produtiva de uma hora para outra. Efeito primavera!

 

O engraçado é que ando conversando com a mulherada na cidade, também leio alguns blogs de brasileiras que moram em Madri e é unânime, todas são alteradas pela primavera. Será que isso também acontece com os homens? Porque o Luiz não parece mudar tanto assim com as estações.

 

É um tipo de sensação que a gente aprende quando sai do Brasil, ou melhor, quando se muda para um país de estações definidas. Achei que a medida que o tempo fosse passando, essa sensação se amenizaria, mas foi ao contrário, pelo menos por enquanto. A maneira de viver em cada estação é muito diferente, as roupas, o humor, a disposição, a arrumação da casa, os armários, os horários, tudo muda de perspectiva. Olhar o mundo de outro ângulo, faz com que se pareça outro mundo.

 

Semana passada fomos ao teatro com uma amiga assistir a um espetáculo de dança, do grupo Ananda Dansa. Bom show, apesar de meterem o coñazo político no meio também. Aparentemente, qualquer manifestação artística espanhola precisa falar alguma coisa de política. Achei que fosse só em artes plásticas. Enfim, no inverno teria me irritado, na primavera só pensei, mas até tu Brutus!

 

De lá, Luiz precisava voltar para casa e dar mais uma trabalhadinha. Fiquei com minha amiga espanhola no Trifón. Ela é muito engraçada, se diz uma combinação bombástica pois é mulher, baixinha e advogada! Ou seja, o cão! Mas a verdade é que acho ela muito divertida. Além do mais, ela fala super rápido e meu castellano melhora muito quando sou exigida.

 

Na sexta-feira, semana fechada com chave de ouro, um chá de Luluzinhas, aniversário de uma amiga. Na verdade, foi um almoço esticado para chá. Cheguei no fim do almoço, quando conheci dois espanhóis muito simpáticos. E na sequência, fiquei para o chá das brasileiras. Bom para relaxar em português e não sentir culpa em fazer um delicioso programa de dondoca.

 

O tal chá foi no Café do Círculo de Bellas Artes, um lugar razoavelmente tradicional, com um certo charme decadente e um teto altíssimo. Fica a uma boa distância da minha casa, uma caminhada de uns 45 minutos a passos largos. Resolvi ir a pé, preciso muito caminhar. Daí veio o dilema feminino, era um chá, né? As mocinhas costumam ir mais arrumadas. Mas como iria caminhando pelo parque arrumada? E depois preciso urgentemente amaciar minhas botas de trekking, as tais do Caminho de Santiago. Quer saber, pensei, lá é um lugar meio central mesmo, o que quer dizer que está sempre cheio de turistas. Pois então, vou disfarçada de turista americana. E lá fui com meu modelito medonho e confortável. Valeu a pena, nesse dia andei para burro e fazia um calor horroroso.

 

Na volta, Luiz até se ofereceu para me buscar, mas quer saber, queria mesmo era caminhar. Nem as trovoadas estavam me assutando, pensei, estou saudável, pode chover. Peguei uns pinguinhos de nada já quase em casa e até achei bom.

 

No sábado, feijoada e cachacinha na casa de amigos. No início da noite, Luiz viajou para Israel, fui com ele até o aeroporto. Quando soube que ele aterrizaria em Tel-Aviv, confesso que me assutou um pouco, nunca me preocupo com suas viagens a trabalho, mas dessa vez fiquei meio cismada. Entretanto, ele mesmo estava achando bem legal, era sua primeira ida para lá e estava super animado. Pensei, quer saber, acreditar que nada de mal irá te acontecer é o melhor amuleto que conheço. Depois, logo chegava o dia de São Jorge, Ogum. Se Luiz tivesse um santo de devoção seria ele, estava bem protegido. Portanto, relaxei. No fundo, acabei ficando com vontade de ir também, quem sabe em uma próxima vez.

 

Por outro lado, não foi tão mal ficar um pouco sozinha, é chato, mas tinha um monte de coisas para fazer e um desenhão que me deu um trabalho monstro, mas gostei do resultado e finalmente consegui terminar um trabalho para mim mesma. Simplesmente porque sim.

 

Cuidei das minhas plantas, segui os conselhos recebidos, coloquei adubo e terra nova. Juro que elas pareceram ficar até felizes. E não é que meu gerânio raquítico floresceu? Inclusive, tem até outro botão nascendo. Daí, um outro gerânio resolveu se exibir e colocou botão também. Enfim, acho que resistirão, fiz minha parte e elas fazem a delas.

 

Meu gato não sai mais da varanda, só quer saber de ficar no sol e aproveitar o bom tempo. Ele também muda na primavera. Aqui não há redes de proteção do tipo que usamos no Brasil para proteger as crianças e animais domésticos de uma queda. Sempre fui um pouco paranóica que ele caísse e, em princípio, achei que a melhor solução era manter as janelas fechadas. Com o tempo, venho aprendendo a confiar mais nele e a aceitar que um pouco de liberdade vale um pouco de risco. E agora curtimos nós dois a brisa fresca que entra em casa.

106 – Andanças

Segundona, daquelas em que a gente promete tudo e tem tudo para não fazermos nada!

 

Mas essa segunda-feira acordei decidida, ou começo seriamente minha preparação para o Caminho de Santiago, ou simplesmente não vai rolar! Não dá para ser amanhã, não dá para ser depois, é hoje ou não é.

 

Pois foi.

 

Levantei com toda a preguiça do mundo e um monte de coisas para fazer. Não importa, faço depois de caminhar.

 

Procurei vestir as roupas adequadas para o caminho, o que inclui uma bota de trekking e uma calça verde militar de secagem rápida. Uma camiseta, um rabo de cavalo e eu era a própria Lara Croft depois da gripe. Vamos dizer que o modelito lembrava. Tirando os peitos antigravitacionais e a cintura impossível, até que levava um ar Tom Raider.

 

O problema é que tem que andar um pouquinho até chegar no Parque do Retiro, onde elegi fazer minha preparação. E andar vestida assim na rua me provocava um certo desconforto. Já sei, protetor solar e meu óculos da invisibilidade!

 

Os gigantescos óculos da invisibilidade não me deixam propriamente invisível, digamos que estava chamando um pouco a atenção e não exatamente no bom sentido. Mas percebi que ter meus olhos escondidos me exercia um fator avestruz, do tipo, se não podem ver para onde estou olhando, estou invisível! É maluco, mas funcionou.

 

Finalmente, cheguei ao parque, quando Lara diria, aham… Comecei minha caminhada, como sempre observando tudo ao redor. Muito rápido, afinal de contas, não fui passear, queria realmente me desafiar. Procurava sempre o trajeto mais longo e mais difícil, sol, pedras, pequenas ladeiras, tudo que normalmente evitaria. Engraçado, porque ao tomar o caminho mais difícil como opção ele não pareceu tão ruim assim.

 

Andei duas horas seguidas, a passos bem rápidos, acho que para começar está bem. Vou tentar fazer isso por toda a semana e, quem sabe, aos poucos ir aumentando o ritmo.

 

Na volta, fui comprar o almoço. Adoro isso da gente comprar a comida do dia. Dá um pouco de trabalho, mas é tão civilizado e você compra tudo fresco. Vontade de comer saudável, tomate, frutas, peixe. E que sede!

 

A grande dúvida era: será que essa persistência duraria até terça-feira?

 

Pois durou.

 

Acordei ainda mais cedo, um pouco dolorida é verdade, mas ainda decidida. Nem senti mais vergonha de ir vestida meio esquisita. Apesar de ainda precisar dos grandes óculos.

 

Comecei a reconhecer alguns rostos no parque, principalmente dos velhinhos. Tem um casal que está sempre no mesmo lugar, com um cão, também velhinho, sentado no meio. Alguns amigos que caminham juntos e, pelas idades, me surpreende que ainda tenham algum assunto não conversado. Uma senhora na cadeira de rodas, muito agasalhada, apesar do calor. E vários caminhando com passos lentos, mas decididos e orgulhosos.

 

Hoje havia um grupo com cegos e cães-guia sendo treinados. Aliás, havia muita gente caminhando com seus animais e aparentemente são bem educados, pois não vi as sujeiras deixadas de lembrança. Gatos também havia, a maior parte vive no próprio parque, mas também tinha uma mulher meio esquisitinha que passeava com um gato na coleira, o que por si só já é algo raro. Também levava um carrinho de bebê vazio. Acho que o carrinho era para o gato, mas achei mais seguro não observar por muito tempo. Vai que interrompia a participativa conversa entre ela e seu bichano.

 

Tem bastante fiscalização, a pé, de bicicleta, de carro e a cavalo. Acho bom, mantém o respeito. Com os da bicicleta, cruzo toda hora. E os de cavalo, fico imaginando se também lhes fosse imposta a lei de limpar as porcarias dos animais. Ao invés de sair com os pequenos saquinhos plásticos pretos, sairiam com verdadeiras sacolas de compra.

 

Na volta para casa, com quem cruzo na calçada? Nada mais, nada menos que Almodóvar! Meu vizinho de bairro. Com uma camisa listrada e seus próprios óculos da invisibilidade! Ainda bem que fui treinada no Rio de Janeiro a passar por celebridades como se nada estivesse acontecendo. Agora, se em seu próximo filme aparecer uma estranha nas calçadas de Madri, vestida de exploradora em busca de um antigo artefato, botas de trakking e enormes óculos escuros de mosca… sou eu!

107 – Agora vai!

Depois de dois dias de determinação ferrenha em caminhar no parque, claro que caiu um toró daqueles e não deu para por o nariz na rua. Luiz me disse, também, você assim tão esportista, até choveu!

 

Verdade seja dita, de se admirar que não foram canivetes. Não posso negar que um pouco de razão ele levava, mas realmente decidi que preciso mudar alguns hábitos. Vamos combinar que a balada dos fins de semana não pode ser considerada seriamente como um esporte. Querer fazer o Caminho de Santiago, caiu como uma luva para me motivar em vários sentidos.

 

No segundo dia de chuva, fiquei de olho e na primeira nesga que abriu no céu, desci tão rápido para caminhar que até me surpreendi com a boa vontade. É verdade que também esqueci do alongamento e o preço me foi cobrado dolorosamente mais tarde. Tudo bem, assim vou aprendendo. Pelo menos fui.

 

E se por um lado os céus pareciam me desafiar, por outro, uma ótima notícia, ganhei companhia para caminhada. Uma amiga nova que mora perto e resolveu, por seus próprios motivos, andar no parque do Retiro com regularidade. Não sei se conseguiremos ir todos os dias juntas, mas uma boa companhia sempre estimula. Além do mais, o parque é razoavelmente seguro, mas em alguns lugares não vou negar que fica um povo meio esquisito, ela também acha. Como uma brasileira sobrevivente, prefiro não correr riscos. Em dupla, não creio que alguém se atreva a nos perturbar. Depois, ela é simpática e fica bem mais divertido, passa mais rápido.

 

Quanto ao povo suspeito do parque, Luiz chegou a me oferecer spray de pimenta, o que no primeiro impulso aceitei. Depois pensei melhor e acho que não. Não quero entrar nessa neurose de já sair de casa achando que algo pode acontecer.  Levei muito tempo para desenvolver a sensação de que estou segura e prefiro dar mais uma chance ao caos.

 

Mas enfim, voltando ao Caminho, por mais determinada que estivesse, essa semana tive alguns altos e baixos. O primeiro foi em relação à temperatura, que havia aumentado significativamente e pensei que talvez prejudicasse nossa agenda. Quem sabe devêssemos esperar até o outono. Depois, apesar da chuva e até um pouco por causa dela, a temperatura baixou novamente. Dificulta a preparação, mas vi com muito bons olhos, porque novamente viabilizou a idéia.

 

Combinei de fazer o Caminho com uma amiga, mas como não nos falávamos há algumas semanas, fiquei na dúvida se ela ainda estava animada. Cogitei se faria sozinha, cheguei a conclusão que faria de qualquer jeito, mas no fundo não estava tranquila, queria a companhia dela. No domingo, finalmente nos falamos e ela nem pestanejou, topou na hora e fechamos nossa data.

 

Valeu por não ter desanimado. Digo, dúvidas acho que terei sempre, até o momento de iniciar, sei que ainda haverão outros altos e baixos. Mas o mais importante foi não ter desistido de treinar, mesmo achando que poderia furar. Acho que agora vai!

108 – Moving song

Quinta-feira prometia ser um pouco aborrecida. Luiz ainda viajando e eu sem grandes coisas para fazer.

 

Uma amiga espanhola resolveu ter aulas de salsa perto da minha casa e ficou de passar depois da aula para sairmos de tapas, não confundir com sair no tapa que é outra coisa. Muito bem, de repente, vai que a quinta não seria tão má assim. Daí um amigo brasileiro chegou com algumas encomendas e não sabia se passava eu na sua casa ou ele passava aqui para deixar. Dei a idéia, tenho uma amiga vindo aqui na quinta, não quer se juntar a nós? Topou. Na própria quinta, chega de viagem uma amigona disposta a fazer alguma coisa para matarmos a saudade do papo e da cidade. Ué, então vem também! Veio ela e outro amigo que não via há alguns meses.

 

A primeira garrafa de vinho, abri só para esperar todos chegarem. Mas e a preguiça que bateu de sair para algum lugar? Então, pronto, abro a próxima garrafa e vira festa. Além do mais, imagina se viria gente em casa e não teria nenhuma comidinha na manga, claro que tinha. Um caldo verde quase light, pouca batata, muito paio.

 

Ganhei um monte de presentes, assim do nada. Meu amigo brasileiro, das encomendas, me trouxe regalitos culinários, sabe que sou chegada ao fogão. A amiga espanhola me trouxe uma morcilla de cebola especial para experimentarmos. A amiga brasileira, esteve em Recife e nos trouxe uma peça autêntica ma-ra-vi-lho-sa do Brennand! Fiquei feliz, não preciso ganhar presentes, mas adorei, me senti querida.

 

No dia seguinte de manhã, depois de uma semana longe, chega Luiz. Cheio de presentes também. E eu, caramba! Mas que onda boa! Não sei o que fiz para merecer tantos presentes, nem é meu aniversário. Talvez ainda não tenha feito, quem sabe é um sinal para pensar mais nos outros. De qualquer maneira aproveitei.

 

Uma das coisas que ganhei foi uma máquina fotográfica bem pequena, para morar na minha bolsa. Muitas vezes estou na rua e quero registrar um momento. Tento registrar esses momentos quando escrevo, mas às vezes acho que uma imagem ilustraria melhor. E já comecei a usar meu brinquedinho novo.

 

Na sexta, fomos ao clássico Trifón. Luiz voltando de viagem, uma amigona brazuca também voltando depois de três semanas fora. Às vezes, a gente precisa ir a alguns lugares para saber se o mundo também ainda está no mesmo lugar. E estava, no mesmíssimo bom lugar.

 

O problema foi caminhar as duas horas do dia seguinte! Na porta do parque já estava cansada. A vida boêmia é ligeiramente incompatível com a vida atlética, mas dá-se um jeito. Vou ver se dou uma maneirada etílica nesse mês e, nas duas últimas semanas antes do Caminho, corto tudo alcoolico. No resto do dia só morgamos e curtimos a tranquilidade que é um feriado em Madri.

 

Acontece que Madri é uma moving song, não sei como descrever melhor. Às vezes, tenho dificuldade de falar da cidade sem usar o gerúndio. As coisas simplesmente vão acontecendo e, quando dispostas, as pessoas vão aceitando e aproveitando as oportunidades que a cidade alavanca.

 

No domingo, acordei tarde, não sabia se iria caminhar, talvez me desse um feriadinho também. No MSN aparece minha nova amiga botando pilha para irmos andar no parque. Quer saber, por que não? Então vamos.

 

Cheguei em casa e Luiz queria sair para comer. Cassilda, no feriado, domingo, às 16:30… joder! Vai ser difícil, mas vamos tentar. Conseguimos em um dos restaurantes americanos, acho que os únicos que estavam abertos. Foi quando pensei ser uma sábia decisão ter caminhado aquele dia, pois acabava de ingerir milhões de calorias. Dali, dois amigos chamaram para encontrar em um bar perto de Alonso Martínez. Fomos. De lá, vocês já viram 300? Ah, então vamos. Caminhamos até o cinema no centro da cidade, onde conseguimos ver o filme na versão original.

 

Aliás, adorei os efeitos especiais do filme. Digo, aqueles abdômens especiais. Vamos combinar, aquilo não pode ser sério, né? Vem cá, 300 homens sem nem uma barriguinha?

 

Na saída, nossa amiga havia contado que a terraza do Hotel Reina Victoria já estava aberta. Ai, que curiosidade! Vamos dar uma passadinha? Já estamos do lado mesmo. Pois o lugar é o máximo! Fizeram um ambiente com um toque oriental, chic e despojado. Alguns sofás, futons, mesinhas e uma vista privilegiada da Plaza de Santa Ana. Voltaremos.

 

Apesar do feriado, de nós quatro, só eu não precisava trabalhar hoje. Portanto, dalí voltamos para casa. Satisfeitos, dia bom. Moving song…

109 – Como ir a Salamcanca via Barcelona: a viagem que foi sem ter sido

As quintas-feiras estão se tornando dias de boas surpresas. Outra vez Luiz viajava e eu não tinha lá grandes planos. Cheguei a mandar uma mensagem para minha amiga espanhola que dança salsa aqui perto, perguntando se ela passaria em casa. Ela até respondeu, mas a resposta custou tanto a chegar, que bem antes disso ela bateu na minha porta.

 

Sinceramente, isso era pouco depois das nove e já estava cogitando colocar meu pijamão. Bom, mas daí ela apareceu e me animei. Segundos depois de abrir a porta para ela, outra amiga brasileira liga perguntando sobre os planos para a noite. Ué, vem para cá você também. Ela só podia um pouco mais tarde, mas estava com outro amigo que topou vir naquela hora e ela se juntaria assim que desse.

 

Com minha geladeira anoréxica, mal que ela padece quando Luiz viaja, descemos para o Trifón e tomamos posse da nossa velha barrica de guerra.

 

Conversa vai, conversa vem, a amiga espanhola precisou ir, prometendo voltar na próxima quinta. Ficamos eu, a amiga e o amigo brasileiros. A última rodada de café, ofereci em casa, obviamente, com minha super cafeteira nova. Agora, todo mundo que vem aqui tem que tomar café!

 

Enfim, esse povo toma um vinhozinho e fica um perigo! Vira meu amigo e diz que alugou um carro para o fim de semana. Ele queria ver não-sei-quem em Barcelona… minha amiga também com um rolinho em Barcelona… então, por que mesmo nós não vamos amanhã para Barcelona? E eu? Bom, não tinha ninguém para ver em Barcelona, mas por que não? Temos uma amiga legal que mora em Barcelona, serve? Vou ficar fora dessa? Nem morta.

 

O pequeno detalhe é que Luiz estava em Milão e só voltava para Madri no início da noite de sexta. Já sei, ele troca a passagem dele para Barcelona, pronto! Então, combinado.

 

Como era um pouco tarde, não quis ligar para Luiz e acordá-lo. Mandei um e-mail para ele ler logo cedo, avisando dos planos malévolos.

 

De manhã me liga ele: como assim? Que? Onde? Quando? Mas a passagem não pode ser mudada. Preciso voltar para Madri e pegar outro avião para Barcelona. Então vê os preços para mim. Quanto? Peraí que estou chegando no escritório, já te ligo?

 

Nesse caso, deixa eu confirmar mesmo se o povo vai ou foi só empolgação do vinho. Liguei para minha amiga que estava de malas prontas desde cedo. A idéia era saírmos por volta das 15:00horas. Beleza, só precisava esperar Luiz ligar de volta para me confirmar. Mas cadê o Luiz? Ele simplesmente desapareceu em uma reunião interminável.

 

Daí ficávamos nós três nos ligando para saber o que fazer. A não-sei-quem do meu amigo não estava, o rolo da minha amiga muito menos e eu sem saber se Luiz iria ou não. O que mesmo a gente vai fazer em Barcelona, hein?

 

E se a gente fosse para um lugar mais perto? O Luiz não precisava pegar avião, a gente sequestrava ele no aeroporto e seguia viagem. Salamanca? Salamanca é legal e ainda dá para dar uma esticadinha até León. Fechado!

 

E meu gato? Que faço com meu felino? Levá-lo seria até maldade, porque é muita viagem de carro sem sossegar em canto nenhum. Plano “A”, deixar um montão de comida para ele. Ele gosta de companhia, mas sozinho mesmo seria só o sábado. Plano “B”, achar uma alma caridosa que possa dar uma passadinha em casa de vez em quando para ver se está tudo bem. Felizmente, o plano “B” deu certo e fui correndo deixar a chave com uma amiga que me quebrou esse galho.

 

Luiz finalmente apareceu, um pouco mais animado/conformado com seguir viagem para Barcelona. Onde você se meteu? Não, não, mas não vamos mais para Barcelona, agora é Salamanca. A gente passa no aeroporto e te pega. Levo roupa para você.

 

A verdade é que Luiz gostou muito mais dessa opção, e cá entre nós, eu também. Os amigos animados e lá pelas dez da noite, chegamos em Salamanca.

 

O hotel ma-ra-vi-lho-so a um preço de pegadinha. Ficamos no Melia Las Claras Boutique. A cidade super alto astral, linda! Só baixamos as malas no hotel, trocamos de roupa rapidinho e fomos para rua.

 

Acho que estávamos na mesma boa onda e tudo ficava divertido. Ninguém tinha planos rígidos de ir a lugares muito definidos, portanto o que aparecesse a gente aproveitava. Só o nosso amigo conhecia a cidade, para nós três era tudo novidade.

 

Começamos por um bar de tapas, que obviamente não prestei atenção no nome. Mas era um lugar de aparência tradicional e que estava bem cheio. Demos sorte e literalmente voamos em uma mesa liberada entre distraídos logo no início. Papo bom… vinhozinho… abrimos e fechamos vários negócios… fizemos planos possíveis e impossíveis… e fomos os penúltimos a ir embora do lugar.

 

De lá, nosso amigo nos encaminhou a uma rua onde haviam vários lugares para dançar. A princípio iríamos em uma tal de Camelot. As boites costumam contratar uns rapazes ou moças como se fossem relações públicas, que ficam na rua tentando convencer os passantes a entrar na casa onde trabalham. Parte desse convencimento, inclui oferecer um drink. Muito bem, pois no caminho para a Camelot, um desses relações públicas nos abordou com um sotaque familiar. Claro que o sujeito era brasileiro e, verdade ou não, nos disse que onde iríamos só havia pirralhada, que a dele era muito melhor. Tá bom, conterrâneo, vamos te ajudar! Fomos na Capitolio. E não é que incrivelmente a música estava boa! Além de uma rodada de bebida grátis!

 

Chutamos o baldinho, mas uma hora achei que Luiz estava realmente cansado. Voltamos para o hotel mais cedo que nossos amigos. Verdade que mais cedo é só maneira de dizer. Pegamos chuva no caminho e nos perdemos um pouco. Nem assim perdi o bom humor.

 

Uma coisa engraçada é que pela cidade haviam vários rapazes vestidos com uma roupa preta meio medieval, uma calça curta um pouco bufante e uma capa de príncipe. Acho que essa roupa se chama tuna. Vamos combinar que se o menino tem mais de oito anos, a roupa é bem ridícula, mas por outro lado, um cidadão precisa ter uma grande auto estima para sair vestido assim na rua sem se importar. Bom, digamos que tenho uma certa amiga que também não se importou muito em relacionar-se com um mocinho de calça bufante e capa negra, afinal de contas, quantas oportunidades na vida existem para você ficar com um príncipe encantado?

 

Nosso amigo descobriu um afther hours e emendou sua noite até amanhecer.

 

No dia seguinte, quem é que conseguia pensar em dirigir até León? Todos de ressaca! E nem assim perdemos o bom humor.

 

Luiz, eu e nossa amiga passeamos pela cidade a pé. Até pegamos um trenzinho que faz um tour de 20 minutos, é um pouco pagação de mico, mas em uma cidade onde os rapazes se vestem de príncipe, por que não andar de trenzinho?

 

Dia de primavera super bonito. Pelo meio da tarde sentamos em uma vinoteca, quase em frente ao hotel, com mesinhas e cadeiras confortáveis do lado de fora. Começamos meio devagar, com água e coca-cola. Sentamos ali para esperar nosso amigo que ainda não tinha conseguido acordar. Acontece que o lugar era ótimo! Comi o melhor hamburguer da Espanha, gourmet mesmo. Na verdade, comemos um monte de coisinhas gostosas e tomamos um vinho branco geladinho. Nosso amigo se juntou a nós e ficamos horas aproveitando o sol agradável.

 

Mas foi batendo uma lombeira daquelas! Quer saber, que tal aderir ao costume local e fazer uma bela siesta? Fechado! Aproveitei também para mergulhar em uma banheira de espumas e esquecer um pouco do aquecimento global e da falta de água no planeta! Só hoje, prometo me comportar no resto do ano!

 

Anoiteceu e fomos caminhar na Plaza Mayor. Chegamos no tempo perfeito para ver a iluminação ser ligada e a praça mudar de cara e de cores. Ao redor da praça, assim como nas igrejas, há uns medalhões com rostos esculpidos em alto relevo, como se dessem uma saidinha para olhar na janela. Isso não é comum, normalmente se fazem pinturas ou esculturas de corpos e bustos. Essa coisa mesclada com relevo, assim tridimensional mas ao mesmo tempo lembrando um quadro, é difícil encontrar. Na praça tocava uma banda de jazz, que não interessou muito ao resto do grupo. Fui andando bem devagarzinho para aproveitar o máximo possível das notas e de como elas ajudavam a colorir a praça.

 

Em uma das ruelas que saem da Plaza Mayor, encontramos um restaurante bem no meio de um pátio interno, meio escondido e charmoso, chamado Valencia. Fome mesmo, não tínhamos tanta, afinal, exageramos na vinoteca. Mas comer e coçar…

 

De lá fomos dançar um pouco, não consigo me lembrar mais o nome da boite. Era bem maior do que parecia por fora e de decoração medieval interessantíssima. Já a música estava bem ruinzinha, espanhola demais. Nos divertimos do mesmo jeito, mas não ficamos até tão tarde. É duro admitir, mas estou ficando velha, ainda aguento um pique acelerado, mas meus dias seguintes são fatais.

 

E no dia seguinte a esse, domingão, acordamos tarde, colocamos as malas no carro e tomamos direção à serra Peña de Francia. Uma subida razoavelmente vertiginosa e uma vista muito bonita. Aliás, com a quantidade de chuva que caiu no país esse ano, está tudo verde pela estrada. Seguimos em direção a La Alberca, onde almoçamos muito bem. Aliás esse pueblo é uma surpresa, uma arquitetura diferente da dos arredores, bonitinha mesmo e com ótimos restaurantes.

 

Na estrada para Madri, ainda passamos ao lado das muralhas de Ávila. Pegamos um pouco de trânsito na entrada da cidade e estávamos em casa por volta das 20:00 horas.

 

Meu gato estava indócil e não sabia mais o que fazer para se exibir! Ficava até engraçado subindo e descendo a escada, miando, fazendo gracinha… é uma figura mesmo!

 

Pois bem e assim passamos o fim de semana. Não fomos nem a Barcelona nem a León e quem mesmo está reclamando? Sempre bom ter um pretexto para mais uma boa viagem. Mas também acho que a próxima viagem de trabalho do Luiz, na quinta-feira, vai deixá-lo meio na dúvida do que faremos com ele na volta.