71 – Um mico muito legal

Não me considero uma pessoa tímida. Também não sou das mais extrovertidas, até pareço mais séria do sou de verdade, mas tímida mesmo, acho que não. Entretanto, nesse sentido, tenho um ponto fraco indisfarçável, é só ligar uma câmera de vídeo na minha frente e me transformo em uma caipira. Pode ser até vídeo de casamento que simplesmente me paraliza.

 

Pois muito bem, estava eu tranquila checando meus e-mails e me chama pelo MSN uma amiga brasileira que vive aqui em Madri. Começou me contando que foi convidada a participar de um programa culinário que vai ao ar em cadeia nacional da televisão espanhola. A equipe vai na casa de estrangeiros que vivem em Madri e eles fazem pratos típicos de seu país. Puxa! Achei o máximo! Falei, que legal, quer dicas para cozinhar? Ela me respondeu, mas não sei cozinhar, achei que era sua cara e queria te indicar.

 

Como? Eu? Euzinha? Nunca! Jamais! Mas de jeito nenhum! E comecei a suar e a corar só de imaginar a possibilidade! Escuta, podemos fazer assim, te ensino como fazer e você faz. E ela disse que não tinha chance e começou a me convencer. Coloquei um milhão de barreiras que ela foi derrubando uma a uma. No fundo, tinha vontade de fazer, mas me dava uma vergonha danada!

 

Acontece que tenho por princípio não perder oportunidades. A verdade é que era algo legal, em um programa de qualidade e fazendo uma coisa que adoro, cozinhar. Mas realmente, além de me pegar desprevenida, estava com a casa cheia de visitas e seria impossível fazer qualquer coisa por aqueles dias. Então fiz o seguinte, deixei o destino decidir, disse para ela que naquela semana não tinha jeito, só poderia se fosse na segunda quinzena de novembro. Claro que disse isso por duas razões, uma que ganharia tempo, a outra porque jurava que não iriam topar. E, nesse caso, não seria eu quem estaria desistindo e, portanto, não estaria perdendo nenhuma oportunidade, certo?

 

Óbvio que eles toparam e a responsável pelo programa me ligou, aliás, muito simpática. Putz-caraca-que-vergonha! Mas não tinha como dizer não. Aceitei.

 

Várias vezes ensaiei escrever sobre o assunto, mas estava tão nervosa que não saía nada. Sei que é uma tremenda bobagem, não é nada demais, mas desde quando os medos são racionais? Achei que a melhor estratégia era não falar no tema e fazer de conta que não ia acontecer.  Aquela coisa de “se eu fingir que o problema não existe, será que ele desaparece”?Até que a responsável pelo programa me ligou nessa segunda-feira, marcando a gravação para hoje, quinta-feira.

 

Falando em estratégia, sou uma pessoa de estratégias, ou seja, tenho uma grande habilidade na preparação. Pura necessidade. Preciso dessa habilidade, porque se depender do improviso, estou ferrada! Bom, daí me preparei o melhor possível no dia anterior. Comprei todos os ingredientes, deixei tudo organizado, limpei a casa e a cozinha. Até aí, tudo bem. Quando comecei a pensar no que ia dizer para a câmera, pronto, iniciou meu calvário. Fui dormir, pensando nos nomes dos ingredientes em espanhol. Só preguei os olhos graças à bendita melatonina.

 

Às onze da manhã, a equipe da TV chegou em casa. Fui logo colocando minha dificuldade, que era basicamente… tudo! Morro de vergonha das câmeras, nunca cozinho com ninguém perto, muito menos explicando o que estou fazendo e, ainda por cima, tendo que falar em espanhol. Meu castellano já não é perfeito e o normal é, quando ficamos nervosos, voltar ao nosso idioma nativo. Resumindo: que-raios-tô-fazendo-aqui-socorro!

 

Para minha sorte, o pessoal era do bem, tinham muita paciência. O programa que eles fazem não é com artistas ou chefs profissionais, é com gente comum, cozinhando em casa. Ou seja, eles estão acostumados a lidar com o nervoso e a inexperiência. Pelo menos, isso me disseram e me foi conveniente acreditar.

 

Achei que quando começasse a gravar, aos poucos meu nervoso fosse diminuindo e tudo fluisse mais naturalmente. Para ser sincera, não relaxei, fiquei tensa até o final. Mas, ao mesmo tempo, consegui me divertir, porque afinal de contas era muito engraçado. É verdade que me enrolei algumas vezes, mas eles me disseram que estava bom. Sei lá, acho que é porque na edição eles cortam muita coisa.

 

Enfim, paguei uma família inteirinha de micos e só houve um momento que realmente curti, foi quando o cheiro da moqueca de camarão começou a invadir a casa e a deixar todo mundo com fome. Pensei, tudo bem, com as câmeras I suck, mas aqui o jogo é meu. Foi o que recuperou minha dignidade.

 

Mal a gravação terminou e devoramos a moqueca. Até o prato de apresentação, montado para a filmagem, foi devidamente aproveitado na refeição. Imagina se a gente ia deixar camarão de enfeite! Aí sim, relaxei. Conversamos, brincamos, bebemos caipirinha e foi muito divertido. Não sei se manteremos contato, acho difícil, mas bem que gostaria.

 

Quando eles foram embora estava ao mesmo tempo exausta e eufórica, doida para contar a alguém! O celular do Luiz não atendia de jeito nenhum. Liguei para minha amiga, a que me indicou para o programa, e fofoquei com ela, morrendo de rir, ainda um pouco nervosa e falando compulsivamente. Aos poucos, a adrenalina foi baixando e fui me sentindo cansadíssima.

 

Mais tarde, Luiz chegou de Milão. Havíamos combinado de jantar fora e não entendi quando ele me perguntou meio irônico se não queria passear com ele no aeroporto. Mas como assim? Ele tinha acabado de chegar de lá! Muito bem, ele foi ao aeroporto de carro, porque não iria ficar tanto tempo fora e, dessa maneira, facilitava sua vida em não precisar pegar dois taxis. Na volta, claro que ele esqueceu e pegou um taxi para casa. Só na frente do edifício, quando pegou a chave para abrir a porta, e junto veio a chave do carro, é que ele se lembrou. Lá fomos nós para o aeroporto e ainda por cima de metrô, porque não havia uma porcaria de um taxi na rua. Olha, confesso que já esqueci mala em aeroporto, mas um carro?

 

Na volta para casa, merecíamos um bom jantar. Resolvemos arriscar o Rubayatt. Digo arriscar pois nessa época do ano, entre quinta e domingo, os restaurantes estão super hiper repletos. Conseguimos literalmente uma última mesa. Como sempre, carne excelente e atendimento no altíssimo padrão paulista.

 

E assim, com chave de ouro, fechamos a noite de um longo dia.

72 – Fim de ano

Por que no fim do ano nos bate essa urgência de ver os amigos? Tudo bem que é um pretexto para vermos os que não tivemos a oportunidade de falar com tanta frequência, mas acontece a mesma coisa com os que encontramos toda semana.

 

Não sei o que ocorre, mas quando um ano se vai, bate essa vontade de nos despedir das pessoas. Talvez seja isso que dê um gosto de reencontro ao vê-las na semana seguinte, porque afinal de contas, será em um novo ano. De certa forma, acho que nos dá a ilusão de também sermos, ou podermos ser, novas pessoas.

 

Madri não foge a essa regra. Os restaurantes estão repletos, as dietas foram para o saco e a agenda das pessoas se tornou um quebra-cabeças complicado. O que acho disso? Adoro! Sou chegada a uma confusão.

 

A atrativa decoração de Natal e toda essa correria, me distraem do inverno que chegou devagar, mas chegou. A vontade de hibernar em casa e as alterações de humor pela mudança da luz já chegaram também. Preciso tomar cuidado para não ficar de pijamas o dia inteiro, principalmente agora que as aulas da faculdade acabaram. Ou seja, hora de vitamina C, gengibre e rua!

 

Nessa sexta-feira, foi o jantar de fim de ano com as meninas do curso de espanhol. Esse curso acabou há séculos, mas felizmente, conseguimos manter nossa amizade entre Brasil, França e Alemanha. E claro, também mantivemos nosso idioma próprio, que é algo entre o espanhol e o esperanto. Dessa vez, os maridos se juntaram a nós e fomos jantar no Nabuco, um ótimo restaurante italiano que fica na Calle Hortaleza. Ganhei esse jantar no meu aniversário, de modo que Luiz e eu fomos convidados.

 

Esse restaurante é muito perto do El Junco, ou seja, mesmo sem planejar uma noite tão longa, foi impossível não entrar ali pelo menos para um drink e uma dançadinha. Francamente, passar bem na frente da casa e não entrar seria até provocação. Enfim, Luiz comprimentou em português o simpático moçambicano da porta, que nos passou na frente da fila, afinal de contas, somos clientes habitués. Ainda conseguimos assistir ao finalzinho de um ótimo show de jazz, mas não ficamos até tarde, ou melhor, até de manhã. Ainda no El Junco, Luiz ligou para um casal de amigos brasileiros que costumava ir conosco lá, antes de retornar ao Brasil. E como sempre, só ele consegue conversar, porque não escuto nada pelo celular. De qualquer forma, é divertido, pois parece que eles estão mais próximos.

 

No sábado, nos escondemos do mundo. Descongelei o restinho de feijoada do aniversário do Luiz, devidamente devorada. Nesse tempinho, é tudo de bom! Só saímos para esquiar, em um horário razoavelmente improvável. Esquiamos mais ou menos de 23:00 à uma da matina. Para dizer a verdade, a pista não estava exatamente boa. A neve estava uma porcaria; estava lotado de gente, apesar do horário; um dos acessos ao topo da pista não estava funcionando; e uma mocinha responsável pela manutenção da pista tentou quebrar meu pé com uma pá de neve. Sobrevivi quase sã e quase salva, o que com um pouco de otimismo, considerei um bom sinal.

 

No domingo, outra festinha de fim de ano na casa de uma amiga. Por sorte, foi cedo e deu para conciliar com o concerto de cordas de um quarteto, onde toca outro amigo. O concerto foi em Cobeña, uma cidadezinha pequena há cerca de 15 km de Madri. O quarteto é formado por dois violinos, uma viola e um violoncelo. Nosso amigo é o da viola, que para quem não conhece, é um tipo de violino um pouco maior. Ainda bem, porque ele também é um pouco maior que as pessoas normais e acredito que um violino ficaria desproporcional na sua mão.

 

Talvez o fato de ter sido realizado em uma cidade pequena fez com que a função não fosse tratada com o devido respeito. Ninguém sabia exatamente quando aplaudir e o responsável pelo espaço insistia em falar ao telefone. Mas com um pouco de boa vontade e espírito natalino, até que às vezes ficava engraçado. O importante é que tocavam muito bem e foi uma maneira excelente de terminar o fim de semana.

 

Gosto de reparar, além da música, as expressões dos músicos. A menina do viloncelo, por exemplo, tocava com as mãos e as sobrancelhas. Algumas vezes, as expressões faciais dos músicos me lembram a dos surdos-mudos. De alguma forma estão pensando em uma língua diferente. Um dia queria muito entender essa língua. Quem sabe isso não se transforme em uma promessa de ano novo?

73 – Dia comprido

Hoje é 6 de dezembro, quarta-feira, feriado não-sei-de-que, alguém me disse que é dia de São Nicolau. Na sexta será feriado outra vez, de maneira que boa parte dos espanhóis emendarão a quinta. Aqui, essa emendada de feriado se chama “puente”, ponte, como no Brasil.  A rua está deserta e Luiz está em Paris. Que saco de dia! A hora não passa.

 

Feio, o dia não está. Tem chovido bastante e não reclamo, precisamos muito da água. Mas hoje amanheceu ensolarado. Acontece que no inverno amanhece com jeito de fim de tarde e me dá a sensação que nossas manhãs são roubadas.

 

Deu vontade de sair para caminhar, mas não animei. De qualquer forma, está tudo fechado, vou olhar o que? Pensei em fazer uma faxina na casa, mas fiquei bem quietinha esperando essa vontade imbecil passar.

 

Falei com minha mãe pelo MSN, meu pai opera hoje a carótida. Todo mundo diz que é uma cirurgia simples, já li que é uma cirurgia simples, até acredito que seja uma cirurgia simples, mas é uma cirurgia. Só vou sossegar quando ouvir alguém me contando que deu tudo certo e foi uma cirurgia simples.

 

Li noticiários de todo planeta pela internet, os blogs de opinião, as comunidades do orkut… Perdi o hábito do jornal impresso, mas sinto falta de saber as notícias daqui, do Brasil e de outros lugares. Para falar a verdade, um dia imagino que vou acabar me cansando dos noticiários da internet também, não pela forma, mas pelo conteúdo. Como desgraça dá ibope! Entre um jornal e outro, dá vontade de dar uma passadinha no banheiro e cortar os pulsos! Aquecimento global, tsunami, palestinos ou israelenses? E por que não “e” ao invés de “ou”? Nunca consigo abrir uma página de notícias no Brasil, cuja a manchete ou os principais temas não estejam vinculados à corrupção. Às vezes agradeço o fato de não ter a necessidade de gerar um filho.

 

Tentei trabalhar em alguma peça, mas me senti voltando ao colégio e precisando estudar para uma prova chata. Daquele jeito em que tudo é pretexto para distração, toda hora a gente precisa beber água e procurar algo que possa ter nascido na geladeira nos últimos cinco minutos.

 

Hora que não passa…

74 – Quando um peido é capaz de derrubar um avião

Felizmente, a cirurgia do meu pai correu sem maiores problemas. Hoje ele vai para o quarto e já poderá receber visitas. O médico tirou de sua artéria uma quantidade de gordura de forma e tamanho de um camarão empanado!  Ele estava calmo, sua maior preocupação era que ficaria com fome muito tempo, ou seja, tenho mesmo a quem puxar.

 

Mais relaxada, lá fui eu assistir o jornal na TV. Havia reclamado tanto das notícias de desgraça e não é que veio uma reportagem no mínimo curiosa?

 

Essa neurose americana do controle de tráfego aéreo chegou ao limite do ridículo. A reportagem tratava de um avião da American Airlines que pousou por medidas de segurança e expulsou uma passageira antes de prosseguir o vôo. A parte hilária é a história. Aparentemente, a senhora em questão comeu algo que não devia, o que gerou digamos assim, gases. Com vergonha do cheiro, ela acendeu fósforos para disfarçar. E o cheiro dos fósforos, por sua vez, assustou a tripulação e outros passageiros. A propósito, fósforos são proibidos nos vôos. Portanto, se você comeu repolho antes de embarcar, melhor levar um perfuminho. Mas lembre-se, pequeno, porque o limite me parece que é de 50 ou 100 ml e deve ir em um saco plástico transparente. Agora, voltando ao assunto, foi o cheiro dos fósforos que assustou?

 

Resumindo: peidar nos EUA agora pode ser considerado um ato terrorista! Dependendo do aroma em questão, devo admitir que talvez não seja uma medida tão negativa.

 

O repórter que dava a notícia até tentou guardar um tom mais sério, chamando os puns de flatulências. Mas a verdade é que mal conseguia conter o riso.

 

Enfim, imaginem o mico dessa pobre senhora flatulenta, com a melhor das intenções aromáticas, sendo expulsa com o avião inteiro sabendo que ela era peidona! Pior, dá para imaginar o depoimento? Ela com aquela luz na cara, algemada e o policial perguntando: minha senhora, qual o motivo de acender fósforos durante o vôo? E ela preferindo dizer que era terrorista só para não assumir que peidou! Não, francamente, porque depois desse circo todo eu preferia ir para Guantamo que assumir o ato flatulento.

 

Convenhamos, se ainda fosse um homem, vá lá. Porque certamente ele se transformaria no herói da galera e contaria com enorme orgulho, durante a partida de futebol, que seu peido supersônico era tão poderoso que fazia até avião interromper o vôo! Mas uma senhora… coitada!

 

Enfim, acho que usei todas as palavras proibidas na internet para ser rastreada, só faltou bomba, ui, falei! Ai, que mêda!

75 – Aprender a paciência

A vida de um expatriado tem um sério problema, ainda não inventaram o aparelho teletransportador do Star Trek. Por mais que as distâncias pareçam cada vez mais curtas, tem momentos que a coisa complica e dá uma vontade absurda de ser onipresente. A santa internet e o bendito telefone ajudam muito. Mas tem uma hora que o que você gostaria mesmo é da presença física.

 

Uns três dias após a cirurgia, meu pai foi liberado para ir para casa, o que nos foi de grande alívio. Infelizmente, sentiu alguns efeitos colaterais neurológicos e precisou voltar ao hospital por medidas de precaução. Claro que assustou todo mundo. É uma das horas que o teletransportador faz falta.

 

Tenho aprendido a ser mais otimista e confiar nas informações que as pessoas me passam, até porque a outra alternativa é enlouquecer. Procuro seguir a relativa rotina planejada, mas é óbvio que normalzinha não dá para ficar. É muito estranho de uma hora para outra se sentir prestando atenção a tudo, como se qualquer coisa pudesse ser um sinal. O que você sonha, o tom de voz que te contaram algum procedimento, o que seus instintos te dizem… Fazer o que? Se é o que você tem?

 

Enfim, meu pai voltou ao hospital e iniciou uma série de exames para descobrir o que tinha acontecido. Repetindo como um papagaio o que meu irmão me disse, em princípio está tudo bem, foi um rompimento de uma pequena ramificação que eles teriam utilizado como fonte secundária de fluxo sangüíneo, ou algo parecido. Mas que na verdade, a coronária principal, a que foi operada, está em perfeitas condições. Eles alargaram a outra coronária e, segundo o médico, a probabilidade de acontecer essa ausência de coordenação dos membros direitos, o que aconteceu com meu pai, é menor do que em uma pessoa normal.

 

Estaria mentindo se dissesse que entendi perfeitamente essa explicação, mas todas essas palavras juntas até que fazem algum sentido. Uma coisa importante eu aprendi, quando te dão alguma explicação, qualquer uma, isso é bom. O ruim é quando está naquela fase do estamos-averiguando-o-que-poderia-ser. Porque isso normalmente quer dizer que eles não tem a menor idéia do que se trata!

 

Acredito que ele fique internado mais alguns dias e, mesmo não apresentando mais nenhum problema, acho importante que ele só saia quando tiver certeza que está tudo bem. Por um lado, me dá um pouco de pena, porque sei que ficar em um hospital é um saco. Por outro, talvez funcione como um aviso, não sei. Pode parecer um pouco cruel o que vou dizer, mas acho que o enfarte salvou a vida do meu pai. Não foi o suficiente e ele precisou de outro aviso. Talvez esse tempo forçado ajude a clarear as idéias.

 

De qualquer forma, é difícil para mim. Sempre fui a acompanhante de hospital oficial da família. Tenho meus truques, entro em qualquer UTI na hora que quiser, consigo a paciência que nunca possuo normalmente e posso me tornar um leão-de-chácara com enfermeiras irresponsáveis ou visitas inconvenientes. Agora mesmo, isso não me adianta em nada. Só posso telefonar, perguntar e buscar informações para ler a respeito. Absolutamente inútil! E o rojão fica com minha mãe e meu irmão. Há o resto da família e os amigos, aos quais sou grata, mas fico com essa sensação, até um pouco pretenciosa, de que não é a mesma coisa.

 

Por que não vou ao Brasil? Complicado. E também pode ser que em dois ou três dias, tudo isso esteja resolvido. Assim espero e é o que aparenta ser. Quer saber, um pouco de otimismo também não é mau.

76 – Ufa!

A terça-feira amanheceu prometendo ser um dia complicado. Mesmo assim, sinceramente não estava de mal humor. Acordei cedo, sou pontual, mas como costuma acontecer quando não estou muito afim de fazer as coisas, me enrolei com besteiras e me atrasei um pouco.

 

Hoje iniciou a montagem da próxima exposição coletiva que participarei. A inauguração será na quinta-feira, dia 14 de dezembro. Como na última exposição, com o mesmo grupo, não estava lá muito animada. Sempre fico achando que em cima da hora pode dar algum pepino, sei lá, acho que no fundo é o saco cheio do curso.

 

No caminho fui melhorando a atitude e procurando pensar coisas positivas, aquele jeito Pollyana de ser. Ainda era cedo para ligar para o Brasil e estava preocupada em saber notícias da família. Daí tentei lembrar de um tipo de versinho que minha mãe me ensinou quando era bem menina. É bobo, mas me distraiu, diz assim “na vida, só há dois motivos para se preocupar: vencer na vida ou perder a partida. Se você vencer na vida, não há motivo algum para se preocupar. Mas se perder a partida, das duas uma: ou seu estado é excelente, ou seu estado é de um doente. Se seu estado é excelente, não há motivo algum para se preocupar. Mas se seu estado é de um doente, das duas uma: ou você vai para o céu, ou você vai para o beleléu. Se você vai para o céu, não há motivo algum para se preocupar. Mas se você vai para o beleléu, vai encontrar tantos amigos a penar, que não há motivo algum para se preocupar”. Acho que foi a primeira vez que parei para pensar no que isso queria dizer, e não me pareceu muito maternal alguém me ensinar que podia ir para o inferno tranquila que iria encontrar muitos amigos. Entretanto, o fato é que quando era criança, o que achava divertido era decorar o verso e pensar que não deveria me preocupar tanto.

 

Cheguei na faculdade meio desengonçada, sem graça, com uma mochila pesadíssima e minhas obras debaixo do braço. Mas a verdade é que quando piso numa sala de exposições para os preparativos, me baixa um não sei o que inexplicável. Esqueço da vida, me absorve. É um momento solitário onde parece que o mundo anda em outra frequência. Sinto que ainda estou aqui e é muito bom.

 

Simplesmente adoro o clima da preparação, os bastidores. Todo mundo ajuda todo mundo, ferramenta para lá, tinta para cá, palpites, nervoso, escada. Tem problemas também, mas acho que entro em um tipo de transe e até o que é ruim acho bom.

 

Claro que rolou um barraco. Toda exposição coletiva que se preze rola um. Às vezes mais discreto, às vezes mais violento, às vezes até engraçado. O importante é que na hora que se grita o luz-câmera-ação, a coisa tem que funcionar. E normalmente funciona. A propósito, o barraco nem foi comigo… por enquanto! Tenho aprendido a facilitar minha vida.

 

Voltei para casa suada, carregando um monte de tralha, com as unhas cheias de tinta nos cantinhos, cabelo mais ou menos, musculatura dolorida, ou seja, resumindo, feliz. Vai ser peão de obra assim lá longe!

 

A medida que ia chegando perto do apartamento, fui voltando ao planeta terra e, automaticamente, a ansiedade em ligar logo para o Rio foi aumentando. Queria saber como estavam as coisas com meu pai. Meu bom humor soava como bom preságio, mas preferi ir com cautela. E para acabar com o suspense, está tudo bem, meu pai já saiu do hospital e atendeu o telefone em casa.

 

Um dia de cada vez, e por hoje só posso agradecer.

77 – Um tema delicado

Há alguns meses comecei a notar algo que me incomodava, mas de maneira muito abstrata: a questão da imigração. Não falo só do meu próprio umbigo, talvez um pouco, mas do que tenho observado pela rua.

 

Sinceramente, não sei se minha percepção é um pouco distorcida. Cheguei na Espanha muito empolgada e talvez tenha feito vista grossa para uma série de problemas. E quando via, me convencia rapidamente que era uma questão isolada, que gente boa e ruim tem em todo canto. Certamente, há verdades e meias verdades em tudo isso.

 

Mas o fato é que não posso mais fazer de conta que não vejo o preconceito crescente em relação à imigração aqui, e isso me incomoda cada vez mais. Para ser justa, nunca me tocou diretamente, acontece que moro em um bom bairro e tenho aparência européia. Mesmo meu sotaque, apesar de claramente estrangeiro, nem sempre é identificado da onde. Não conto isso com nenhum orgulho, muito menos pelo contrário, é só uma descrição. Não sei se de certa forma, por sorte, fui protegida.

 

Entretanto, de um tempo para cá, algumas cenas e histórias soltas começaram a se juntar em um quadro que não me parece nada bonito. Um homem negro dirigindo um carro se atrapalhou em uma faixa de pedestres, e uma senhora espanhola disse bem alto “está pensando que está na sua terra? Tá acostumado com as vacas?“; foi acompanhada de risos de outros pedestres. Um estudante de dentro de um carro, do nada, gritou para uma mocinha grávida, romena, que limpava pára-brisas “rumana hija de puta”. Uma senhora no supermercado insistia em furar a fila na frente de uma amiga brasileira e ao não conseguir, esbravejada que isso era culpa dessa imigração. Nos restaurantes, o atendimento de merda, que sempre foi de merda, agora se diz que antes era bom, começou a piorar depois da imigração e dos contratos ruins. Todos os dias os jornais mostram barcos carregados de homens negros chegando em Canárias, de maneira que você não sabe se sente pena ou medo, e francamente, não sei qual dos dois sentimentos seria pior. E não é difícil ouvir que os imigrantes estão roubando empregos de espanhóis.

 

A culpa é da imigração! De repente, essa se tornou a desculpa fácil para boa parte dos problemas do país. Na dúvida, culpe os imigrantes!

 

Complicado. Atrás de todos esses comentários, se esconde uma enorme ignorância e uma completa falta de justiça. O simples fato de estar consciente disso deveria me colocar acima dessas questões, mas na prática não é tão fácil assim. Sei me defender muito bem, mas é desagradável ter que me posicionar na defensiva cada vez que abro a boca. E cada vez que abro a boca, colo um crachá no peito: sou imigrante. E a cada vez que levanto a cabeça por não ter do que me envergonhar, quantos precisam abaixar a sua, por pura necessidade?

 

Engraçado como as pessoas tem o dom de esquecer a parte da história que não interessa. Quantos espanhóis imigraram para buscar melhores condições de vida, para fugir da guerra, para escapar da ditadura e, por que não lembrar, para fugir da fome? Por que não divulgar que com toda essa legalização de imigrantes, além de ser uma atitude exemplar, foi também uma maneira fantástica de evitar que a previdência falisse? Por que não explicar à população que para um estrangeiro ser contratado, precisa provar judicialmente que um espanhol não quer ou não pode exercer o mesmo cargo?

 

Quer saber de uma coisa, detesto admitir isso, mas aqui na Europa as pessoas são muito mais preconceituosas com os imigrantes do que, por exempo, nos Estados Unidos. Ali o sistema é uma máquina de fazer loucos, mas as pessoas, nesse sentido, estão mais abertas. Não é perfeito, mas por incrível que pareça, são bem mais acessíveis. Aqui, a cabeça dura começa na própria população. Paguei com minha língua.

 

Eu gosto de morar em Madri, aprendi a adorar essa cidade com seu melhor e seu pior. Tenho amigos espanhóis que respeito e que não se enquadram nessa massa de ignorância. Mas hoje preciso dizer que estou muito aborrecida e decepcionada com esse lado perverso.

 

Colorín colorado, este cuento se ha acabado…

78 – Férias entre 2006 e 2007

Sair de férias é o tipo de coisa que até quando é ruim, é bom! E quando é bom, então… é correr para o abraço! Pois seguindo essa lógica, hoje posso abraçar o mundo, porque foi uma viagem e tanto.

 

Vamos começar pelo começo. O ano de 2006 foi difícil para mim, não posso dizer que foi um ano ruim, seria injusto, mas foi complicado. Muitos problemas de saúde na minha família e na do Luiz, um curso que será bom um dia, mas que me atravancou um bocado ao longo do ano, a ficha caindo que sou uma imigrante… e por aí vai. Não importa mais, sobrevi e muito bem, obrigada. Também é verdade que muita coisa boa aconteceu. Entretanto, o fato é que ao chegar em dezembro, mal podia aguentar para fugir do planeta.

 

E assim foi. Entre a última semana de dezembro e a primeira de janeiro, não quis saber do que ocorria no mundo. Ouvi de orelhada que executaram o Saddam, que uma bomba explodiu em Madri e algumas outras desgraças que, sem o menor pudor, fiz questão de ignorar. Não vi televisão. Ainda por cima, checar a internet do caminho era uma tarefa árdua, a Europa ainda é pouco evoluída nesse sentido. Como estava fugindo de qualquer tarefa, também mal chequei a internet. Para ser brutalmente sincera, não queria nem fazer as perguntas retóricas de “como vai, tudo bem?” porque as pessoas podiam levar a sério e responder. Egoísmo mesmo, ao cubo, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Juro que não sou assim normalmente, mas fui durante duas semanas inteirinhas. E como foi bom.

 

Saímos de carro, Luiz, eu e, claro, o Jack. Lógico que ele foi, imagina se deixaríamos nosso felino sozinho tanto tempo. Nosso gato internacional metido conheceu mais dois países e se comportou divinamente em toda a viagem.

 

Começamos por Andorra, um micro país entre as fronteiras de Espanha e França. Fica há cerca de seis horas de Madri e era nossa segunda vez por lá. Ali passamos o Natal só nós três. Foi bastante tranquilo e relaxante, estávamos precisando. Acho que foi a melhor forma de iniciar.

 

Como nada é perfeito, a neve não ajudou muito, ou melhor, a falta de neve não colaborou. Por outro lado, essas estações de esqui já não podem mais só contar com a natureza e fabricam sua própria neve artificial, quando a temperatura permite. Por isso, felizmente, pudemos esquiar, ainda que não fosse a melhor neve do mundo. É que, quando isso acontece, a neve fica um pouco dura e empedrada. Mas quer saber, foi o suficiente para a gente se divertir e uma boa desculpa para ficar nas jacuzzis e saunas do hotel até a pele enrugar.

 

As pistas de neve seguem uma graduação de acordo com sua dificuldade que é definida por cores. Há as pistas debutantes, que são onde você aprende a esquiar. Depois vem as verdes, as azuis, as vermelhas e as pretas, nessa ordem, sendo as pretas mais difíceis. Quer dizer, para mim, as pretas parecem absolutamente impossíveis! A minha maior ambição era terminar a viagem sendo capaz de descer uma azul.

 

Melhor explicando, descer, sou capaz de descer qualquer uma. A questão é ser com ou sem dignidade. Afinal de contas, descer de bunda ou rolando também é descer, certo? Pois queria descer uma azul com alguma dignidade.

 

Em Andorra, desci apenas as verdes. Além da neve não colaborar, só me sentia confortável em tentar uma azul se fosse com um instrutor. Isso faz toda a diferença, porque eles sabem alguns exercícios que te propiciam corrigir a postura, centro de gravidade, enfim, para mim é fundamental. Acontece que sei que Luiz não gosta de esquiar sozinho e tentei acompanhá-lo. De qualquer forma, com uma neve ruim, seria um desperdício pagar a um instrutor.

 

Depois de uma semana em Andorra, seguimos para uma pequena cidade francesa próxima a Bourdeaux, chamada Bourdeilles. Lá ficamos por dois dias, na casa de um casal de amigos holandeses. Bourdeilles é uma cidade medieval linda, tranquila e agradável. E como não poderia deixar de ser, também tem seu castelo. Aliás, coisa chata isso de viajar pela França, toda hora você esbarra em um castelo… ai, ai…

 

Enfim, foi bom para descansar um pouco dos esquis e me deixou com uma vontade enorme de ter uma casa pela região.  Sonhar não custa, quem sabe um dia.

 

O casal que visitamos é muito especial, gente do bem, e tem uma filhinha temporão de nove anos que é uma fofa. Ela simplesmente ficou encantada com o Jack, mesmo ele não tendo lhe dado muita bola, afinal de contas, apesar de ser considerado da nossa família, ele ainda é um gato. A combinação felino-criança não costuma ser a mais indicada. Mas, na medida do possível, até que ele se comportou direitinho. Com o casal, nos comunicávamos em inglês, a filha só falava holandês e digamos que o meu holandês não é exatamente fluente, o que quer dizer que só sei dizer “bom dia”. Mas isso não foi problema, ela era bem inteligente e fomos dando nosso jeito.

 

De Bourdeilles, seguimos para Val d’Isere, no que deveria ser sete horas de viagem, mas graças ao trânsito horroroso, levou nove. O pobre do Jack chegou tortinho e nós exaustos!

 

Ficamos em um apart hotel, o único que conseguimos alugar com uma antecedência de uns dois meses. É que na Europa eles se planejam para tudo e quando você deixa para em cima da hora (sim, dois meses é considerado em cima da hora!) é muito difícil conseguir um bom local. Alugamos um flat simples, porque hotel não tinha mais, considerado de bom preço para a região e o principal, muito bem localizado.

 

Ao chegar no flat, confesso que minha impressão não foi das melhores. Acho que a pessoa que arrumou o lugar ou os últimos hóspedes tinham, digamos, um belo de um cecê francês e o quarto estava fedendo mesmo. Tinha três preocupações, a primeira era em relação à nossa estadia; a segunda é que chegaria um outro casal de amigos americanos para o mesmo apart e fiquei pensando que eles poderiam passar por esse problema; e a terceira é que existia a forte possibilidade de um casal de amigos brasileiros, fosse dormir conosco uma noite.

 

Enfim, Luiz e eu ficamos nos olhando com aquela cara de nádegas e ele achou que a gente podia solucionar comprando uns aromatizadores, paninhos de limpeza ou algo assim. Não tinha outro jeito, então respirei fundo, mas não tão fundo porque fedia, e fomos ao supermercado bem próximo. Compramos os tais aromatizadores etc, voltamos para o flat, abri bem as janelas para arejar e fomos arrumando o quarto da nossa maneira, tentando arranjar o máximo de espaço possível. Sabe de uma coisa, não ficou mal e conseguimos sair para jantar, relaxar um pouco e esperar nossos amigos. Sabíamos que ia começar a parte da farra na viagem.

 

Val d’Isere é simplesmente linda! Um cartão postal natalino. Tudo que queria, me mudar por alguns dias para uma cidade de contos de fadas. Ali parecia não haver problemas, as pessoas eram bonitas e com cara de bem sucedidas. Estávamos prontinhos e descansados para chutar o balde!

 

Foi a parte da viagem também que teríamos companhia. Um casal de amigos americanos veio diretamente de Atlanta nos encontrar por lá, fizemos as reservas do apart juntos. Eles são super animados e a diversão era garantida. Um outro casal de amigos brasileiros, que acabou de se mudar para Suíça, também prometeu nos encontrar para a noite de Reveillon. O único problema é que, claro, não estavam achando onde ficar. Gostamos muito deles e não queríamos perder a oportunidade de vê-los, daí oferecemos que eles dormissem conosco no flat, caso não encontrassem hotel para ficar.

 

Acontece que nós pensamos que o flat fosse maior e quando chegamos e vimos o tamanho e, ainda por cima, o tal do futum, imagina o drama. Felizmente, antes deles chegarem, o problema aromático já estava resolvido e tínhamos pensado em uma arrumação que eles caberiam. A verdade é que a boa vontade de todos os lados colaborou e coubemos sem maiores transtornos. Foi tão bom que eles não ficaram só uma noite, ficaram duas. E nós adoramos!

 

Mas vamos por partes. Chegaram os dois casais no dia 31 de dezembro. Os americanos pela hora do almoço, e os brasileiros no fim da tarde. Nossa reserva para festa de Ano Novo era a partir das 20:30 horas.

 

Nessa manhã, antes deles chegarem, foi nosso primeiro dia de esquis em Val d’Isere. Lá fui eu e minha vertigem subir uma montanha incomensurável com o Luiz no maior gás me dizendo que havia uma pista verde, a mais fácil, que vinha até embaixo. Pensei com meus botões, como em uma altura dessas pode haver uma pista verde até o chão? Mas me convenci que iria encarar os desafios e mesmo desconfiada, topei a parada.

 

Logo que saltei do bondinho e olhei a pista, só vi aquela ladeira abaixo super intimidatória. Não leve a mal, mas aquilo não é verde nem f…! Queria matar um e o único conhecido era o pobre do Luiz. Ficamos andando igual a barata tonta procurando alguma descida razoável e, quando havia desistido, muito frustrada, Luiz viu uma escada que levava a um nível mais abaixo, no que ele jurava que aí sim era a pista verde.

 

Lá fomos nós. Não falei que ia encarar os desafios nos esquis? Pois então pronto, decidi que desceria aquela bosta daquela pista. Muito bem, descer, desci. Mas aviso que o &*$#%@* que demarcou aquela pista como verde deve até ter mãe, mas com certeza está na zona, aquela bandida!

 

Luiz com toda a paciência do mundo e eu uma verdadeira megera! Não, porque para descer aquela pista eu precisava de muita raiva. Assim, qualquer engraçadinho que pensasse em fazer alguma piadinha, teria medo quando olhasse para minha cara!

 

Não caí, nem sei como, mas apesar das joelheiras que uso, ferrei meu joelho esquerdo. Em pelo menos dois momentos travei de uma forma que a vontade era de parar e chorar. Na última travada, pensei seriamente em sentar no chão, desistir e me arrastar até a base da ladeira, onde havia um bar. Estava exausta e as pernas doíam para burro. Foi quando me deu raiva e é por isso que digo que só com raiva podia descer aquela merda. Luiz, coitado, tentava me animar, mas a essa altura não queria escutar ninguém. Passaram por mim três esquiadores em fila, fazendo uma diagonal que acreditei possível. Resolvi tentar, pensei que se caísse, foda-se, rolava até embaixo, mas não ia sentar de propósito.

 

E assim foi, consegui chegar na base da pista, onde havia um bar e um bondinho para descer o restante. Cheguei puta, torta, cansada e dolorida, mas cheguei. Estava disposta a descansar um pouco e continuar a descer com o Luiz. Mas ele achava melhor que eu descesse pelo bondinho, já que a pista não parecia nada verde e também estava difícil para ele, que esquia bem melhor que eu. Resolvi ter um mínimo de maturidade e achei que não valia à pena ferrar mais meu joelho logo no primeiro dia na cidade. Aceitei descer no bondinho de onde vi Luiz deslizar sério o resto da pista e agradeci não estar nela. Ainda não.

 

Lá embaixo, fomos até a pista de debutantes, para eu reaprender a esquiar. A situação foi tão drástica que simplesmente esqueci os conceitos mais básicos e regredi. Achava que precisava de um instrutor, mas resolvi esperar que os nossos amigos chegassem e fizessem companhia ao Luiz esquiando.

 

Os amigos americanos chegaram pela hora do almoço e nossa bagunça iniciou. No quarto deles, percebi rapidamente que não havia nenhum problema aromático, o que me tranquilizou. De cara, abrimos uma Veuve Clicquot e iniciamos os trabalhos. Os amigos brasileiros chegaram no fim da tarde, quase na hora de se arrumar para a festa. Ambos tiveram problemas na estrada, havia uma parte bloqueada e tiveram que fazer um enorme retorno. Chegaram cansados, mas animados.

 

A festa foi o máximo! Reservamos uma mesa no restaurante do hotel Blizzard, um dos melhores da região. Difícil descrever porque estava tudo perfeito nos mínimos detalhes. A decoração linda, tudo branco e dourado, a louça elegante, a música adequada e a comida simplesmente divina. Um verdadeiro banquete regado a champagne na temperatura perfeita.

 

Houve um momento em que me emocionei discretamente. É que estar em um lugar tão mágico, com Luiz e nossos amigos tão queridos, me provocou um ataque súbito de humildade e pensei que não merecia tanto. Mas era um dia de festa, o melhor do ano e não cabiam lágrimas. Não sei se merecia ou não, mas estava lá. Queria que outras pessoas também estivessem, minha família, outros amigos. Queria que todo mundo tivesse pelo menos um dia assim. Merecendo ou não, estava muito feliz.

 

Após o jantar, a pista de dança foi aberta e a música era ótima. Dançamos até! A meia-noite, rompemos saltando com o pé direito e brindando. Como é bom dividir esses momentos e que bom não estarmos sozinhos.

 

Logo em seguida, nós as meninas fomos tomar um ar fresco do lado de fora. Seguramente a temperatura era negativa, mas depois de dançar e com tanto champagne na cuca, estávamos mortas de calor e sem casacos. Recebemos o melhor presente da noite, começou finalmente a nevar,  exatamente no momento em que saímos.

 

Os maridos se juntaram a nós e foi quando veio a brilhante idéia de pular as sete ondas. Sou a cética ateísta, mas filha de Iemanjá, e não posso de jeito nenhum deixar de pular as sete ondas! Fizemos sete montinhos de neve, afinal de contas também é água, e um a um pulamos para garantir a proteção de Janaína por 2007.

 

Se o ano depender de como o iniciamos, esse tem tudo para ser fantástico! Claro que haverão problemas, faz parte da vida, mas é muito bom começar com uma dose de otimismo. Não é o máximo ter um dia em que a gente acredite que tudo pode dar certo? Muito amor, amigos, fartura, felicidade e fantasia. E que assim seja.

 

Saúde!

79 – … seguindo por Val d’Isere e nosso roteiro gastronômico

No dia 01 de Janeiro de 2007, ao contrário das possíveis previsões, acordamos sem um pingo de ressaca e ainda muito animados.

 

O casal de amigos brasileiros dormiu no nosso flat e não sei o que aconteceu, mas parece que o quarto cresceu sozinho! Tudo deu certo. Entretanto, amanheceu nevando bastante e não seria prudente que eles pegassem a estrada de volta para Suíça. Já que havia dado tudo tão certo, oferecemos que eles ficassem mais uma noite e eles toparam.

 

Nesse dia não deu para esquiar, estava uma mescla de neve e chuva e as pistas fecharam. Daí, aproveitamos para circular pela cidade, conhecer as lojas e, claro, comer e beber bem.

 

Tentamos ajudar um pouco nossos amigos brasileiros nas compras e demos algumas dicas que aprendemos apanhando. É que quando a gente vem de um país tropical, as coisas que parecem tão óbvias, às vezes não são.  Você aprende, por exemplo, que há pelo menos três invernos: o friozinho, o friozão e o frio com neve. Para cada um deles existe roupa e sapatos apropriados.

 

Enfim, para variar, à noite foi outro jantar gastronômico! Comecei a ficar muito mal (ou bem) acostumada. A gente nem queria mais saber de escolher, todo mundo partia para o menu degustação. Outro banquete fenomenal, dessa vez no restaurante do hotel Christiania. E eu pensando, caraca, vou ter que esquiar muiiiiito para queimar todas essas calorias!

 

No dia seguinte, nossos amigos brasileiros se foram, deixando saudades. Ficaram os amigos americanos e fomos esquiar em pistas diferentes, com a proposta de nos encontrarmos pelo meio do dia.

 

Luiz e eu começamos na pista debutante, para eu ganhar confiança novamente. Depois partimos para outra pseudo-verde, que não era tão grande quanto a do primeiro dia, mas tinha uma ladeirinha muito da sacana. Pronto, travei outra vez. Sabia que estava fazendo alguma coisa errada, mas não conseguia entender o que. Desci duas vezes, na esperança de melhorar, mas o que acabou acontecendo foi eu tomar um baita de um tombo, acho que foi o pior que já levei, daqueles em que você não tem certeza de que lado fica o mundo. Levantei bem aborrecida, não pelo tombo, mas pela incompetência, e decidi: chega! Agora só piso nessa bosta de neve com um instrutor! Luiz já tinha companhia para esquiar e eu precisava sair do limbo.

 

Fomos almoçar emburrados, Luiz porque eu não podia aprender a esquiar com ele, e eu porque não conseguia aprender a esquiar com ele. Parece a mesma coisa, mas não é. Enfim, estava decidido, no dia seguinte faria uma aula com um instrutor profissional.

 

Jantamos no “La Raclette”, com uma tradição de 40 anos e onde o próprio nome indica a especialidade. Nesse dia nos iludimos que comer uma raclettezinha básica seria mais leve, o que obviamente foi pura hipocrisia. Outra vez exageramos.

 

A diferença é que estava um frio do cão, nevando e a caminhada era razoável. Boa notícia, pois queimaríamos calorias no caminho. A preocupação não era com o peso e sim em como dormir depois de toda aquela comida. No início, poderia parecer desanimador, mas na prática foi extremamente divertido. Foi a primeira vez em que adulta brinquei na neve sem me importar com nada, muito menos com quem pudesse estar olhando.

 

Dalí, nos dirigimos ao Le Graal, que realmente deve ser santo, pois foi um parto encontrá-lo. É uma boite com uma estrutura de cidade grande. Ótima música, excelente iluminação, bebidas carésimas e público muito jovem.

 

Aliás, essas pessoas tão jovens e tão ricas, me perturbaram um pouco nesse dia. Em que momento é decidido quem são os elegidos? Será que essas pessoas tem alguma idéia do que passa no resto do mundo? Por que o contraste é tão grande? Senti um misto de raiva e incompreensão. Quase cheguei a me revoltar, quando pensei que talvez também tivesse um pouco de inveja. Não inveja das pessoas, mas dessa irresponsabilidade e falta de consciência do que ocorre em volta, dessa doce ignorância e de todas essas possibilidades. Pensei que também estava ali e também não sei porque eu. Resolvi só dançar.

 

Quando entrou a madrugada, resolvemos voltar para casa. Até porque queríamos esquiar no dia seguinte. A boite oferecia condução, mas preferimos voltar a pé. Ainda queríamos brincar no caminho. Na prática, nós quatro voltamos à infância, talvez o álcool tenha ajudado, não importa,  derrapamos no gelo, fizemos snow angel no chão, guerra de neve e tudo mais que pudéssemos pensar.

 

Acordamos um pouco cansados e só conseguimos esquiar por volta da hora do almoço. Finalmente, tinha um instrutor. Era um coroa francês alto, que falava meia dúzia de frases em inglês e que me inspirou confiança. No início, Luiz nos acompanhou e ele nos levou até um lado da estação que não conhecíamos. Na verdade, achei a melhor parte, com boas pistas e menos movimentada.

 

Nossos amigos americanos nos encontraram e foi ótimo, porque assim Luiz ficou com eles e pude me concentrar melhor na minha aula. Sou muito desligada, preciso de concentração absoluta.

 

De cara, o instrutor me deu alguns exercícios onde descobri finalmente qual a burrada que estava fazendo nas curvas. Estava jogando o peso do corpo para o lado errado, nunca ia dar certo. Uma bobagem que não dava para perceber em uma pista pequena, mas em uma descida mais íngrime era fatal. Ele foi me dando uma série de outras dicas também, mas essa foi a mais importante.

 

A nossa comunicação verbal era algo estranho, entre um inglês macarrônico, meu ínfimo francês e eventualmente algo de italiano. O que importa é que depois de um tempo ele ia na minha frente e eu imitando. E assim é o melhor jeito. Quando dei por mim, havia descido uma bela verde sem grandes problemas e sem ferrar meu joelho.

 

Depois de duas horas esquiando, fizemos um pequeno intervalo. Ele queria me levar para uma pista azul. Ai, que mêda! Encontramos com Luiz e nossos amigos em um bar, eles também aproveitaram para descansar um pouco, porque havia iniciado uma tempestade de neve e estava muito difícil esquiar.

 

Mas o que iria fazer? A aula já havia começado e teria que pagar de qualquer jeito, já estava no topo da montanha e não estava indo mal. Então, paciência, voltamos para a pista, o instrutor e eu, com a tempestade de neve mesmo. Ele não estava dando a mínima, acho que estava acostumado, e nesses momentos, às vezes a única opção é dar uma chance ao caos.

 

Vou dizer que frio não estava sentindo, acho que o exercício e a adrenalina cuidavam desse assunto, mas a visibilidade era simplesmente horrorosa. Você só era capaz de enxergar uns dois metros à frente, mesmo assim, porque peguei os óculos emprestados da minha amiga. Foi quando pensei que talvez isso estivesse ao meu favor, porque ao não ver bosta nenhuma para baixo, também não me dava medo nem vertigem. Não havia nenhuma outra alternativa que não fosse a de seguir o instrutor, rápido, e bem de perto!

 

A melhor parte foi um pedaço em que a neve estava super alta e fofa. Quando a gente faz a curva, parece que passou uma navalha na lateral da montanha. Pesa um pouco mais, mas como meu esforço estava menor nesse dia, graças ao posicionamento corrigido, não senti tanto, e a velocidade mais baixa era ao mesmo tempo mais suave. Estava esquiando nas nuvens. E quando me dei conta, havia finalmente descido uma azul!

 

Ele perguntou como eu estava, content? E eu, fatigué et très content! Dizer isso com a cara roxa pela temperatura, enxarcada e com o nariz escorrendo, foi um tanto bizarro, mas era a mais pura verdade. Estava cansada e muito feliz.

 

O instrutor queria continuar, desconfio que me levaria para uma vermelha. Acontece que estava pedindo arrego. Juro que não por medo, a essa altura não fugiria da raia, mas é que o tempo estava realmente cada vez pior e já não enxergava mais nada.

 

Daí ele topou e disse para pelo menos descermos a primeira verde para eu ver a diferença. Realmente, depois da azul, a verde foi tranquila.

 

Encontrei com Luiz e nossos amigos no Le Bananas. Eles haviam desistido de esquiar assim que a tempestade começou. Me perguntaram como foi a aula. Não sei exatamente como foi, imagino que tenha feito várias bobagens, mas considerando que havia descido uma pista azul, no meio de uma tempestade de neve, estava ali com a cara queimada de gelo e ainda por cima sorrindo, posso dizer que foi ótimo.

 

Voltei para o hotel um pouco antes deles, estava louca para tomar um banho. Eles ainda ficaram pela rua assistindo as atrações, como mágicos engulidores de fogo, escultores de neve e reis magos caminhando sobre pernas de pau. Eu fui para meu próprio planeta de água quente comemorar a musculatura dolorida.

 

Nesse dia fomos outra vez comer raclette, agora no “La Casserole”. Fomos um pouco mais comedidos e pela primeira vez tomamos um vinho mais ou menos. O bom humor era tanto, que até isso virou piada. Mudamos para um melhor e a raclette estava uma delícia. Fiquei doida para comprar um aparelhinho daqueles para fazer em casa. Acho que poderia comer queijo todos os dias.

 

No dia seguinte, não deu para esquiar, nem lembro o que fizemos, acho que aproveitamos para rodar pela cidade outra vez. O jantar sim, para variar, prometia, era o último dia dos nossos amigos americanos em Val d’Isere e eles queriam fechar com chave de ouro. Fomos ao La Table de l’Ours, o único restaurante com estrela Michelin do local.

 

Putz! Chutamos o baldito! Mas vou recomeçar com um pouco mais de classe, porque o restaurante merece. Lugar elegante, atendimento cortês e um quarteto cantando à capela pelas mesas. Outra vez optamos pelo menu degustação, que contava com seis pratos, acompanhados por sete vinhos, porque ganhamos uma taça de cortesia. Aliás, foi o melhor dos vinhos, o sommelier nos favoreceu.

 

Para esticar a noite, fomos para o bar do hotel Les Barmes de l’Ours, onde fica o restaurante, e compartilhamos um puro seguido de champagne, whisky, caipirinha e duas doses de alguma coisa que o barman queria que provássemos! Como é que isso poderia dar certo?

 

Foi maravilhoso, mas no dia seguinte a gente mal conseguia levantar da cama. Aproveitamos para descansar um pouco da maratona. Nesse dia não quis saber de nenhum outro líquido que não fosse água. Nem sair para jantar nos animamos. Compramos um franguinho de televisão e estamos conversados.

 

Na manhã seguinte, pé na estrada novamente, em direção a Madri. Como a viagem seria muito longa, reservei um hotel para a gente dormir e quebrar o trajeto em dois. Reservei um Relais & Château em Puigcerdà, chamado Torre del Remei. Claro que esqueci de anotar o telefone e o endereço do hotel. Tivemos que ligar do caminho para minha mãe fuçar na internet e descobrir para a gente.

 

Quando chegamos, fiquei encantada, o lugar era realmente um charme! Olhei com aquela cara de cachorrinho pedinte para o Luiz e ele topou ficarmos mais uma noite. Queria esticar minhas férias de Cinderela, antes de tornar a virar Gata Borralheira.

 

E como não poderia deixar de ser, o restaurante desse hotel também é fora de série e muito bem conceituado. É conduzido por seu dono, o chef Josep Maria Boix. Posso afirmar que foi um dos melhores lugares onde já comi. Não é simplesmente o que você come, mas o ponto em que está, a combinação de ingredientes, aliado ao ambiente, ao serviço discreto, ao guardanapo de linho, a louça elegante, enfim, todo um conjunto de fatores que ao final é capaz de te provocar emoções.

 

O meu cardápio foi simples e genial ao mesmo tempo. De entrada, um pure de batatas, com ovo pochet, foie gras e trufas. E aí que considero entrar a genialidade, nenhum desses ingredientes é excepcional ou desconhecido, teoricamente qualquer um faz, mas o pure de batatas possuía uma determinada consistência cremosa perfeita. O ovo pochet no único ponto possível, sem a clara nojenta e com aquela geminha divina se misturando ao creme de batata. O foie fresco, cortado em uma fatia fina, onde a parte de cima era dourada, sem passar do ponto em seu centro. E o golpe de misericórdia, a trufa com espessura de uma folha, delicada e cheia de personalidade. Isso não é o paraíso? De prato principal, um confit de pato. E outra vez, na consistência e ponto perfeitos. Quando você não tem absolutamente nada a adicionar ou reduzir.  Acompanhamos com um Alión, vinho de Ribera del Duero, em homenagem à nossa volta à Espanha. E para terminar, um suflê de chocolate, por puro olho grande.

 

No segundo dia, só queria café na cama, descansar e morgar na banheira. Não dormimos tão tarde, nem exageramos, pois a estrada ainda era longa para chegar em Madri.

 

Como em todas as outras partidas, Jack se escondeu embaixo da cama na hora de sair, mas se comportou muito bem pelo caminho. Quando chegamos em casa, definitivamente, nosso felino era o mais feliz por voltar. A rotina simples para ele é tudo de bom, como esse gato é esperto.

 

E assim terminamos nossa viagem, duas semanas depois e dois quilos a mais. Faz tempo que não consigo aproveitar tanto em férias tão completas, com direito a descanso, esporte, gastronomia, farra, desafios… realmente me desliguei do universo.

 

Agora é voltar à realidade. E pensando bem, não é nada má. ¡Que venga 2007!

Madri, 30 de dezembro de 2006 – Uma história que não saiu na imprensa

No dia 30 de dezembro de 2006, às 9:00 da manhã, a banda terrorista ETA explodiu um carro-bomba em um dos estacionamentos do terminal 4 de Barajas, aeroporto internacional de Madri. O atentado se produziu em pleno processo de paz, quando a banda terrorista havia declarado “alto fogo permanente”. Morreram dois equatorianos, Carlos Alonso Palate e Diego Armando Estacio. Segundo a imprensa, cerca de vinte e seis pessoas ficaram feridas levemente com a explosão.

 

Maiores detalhes sobre o atentado e o grupo terrorista, com meia dúzia de clics pela internet, qualquer um pode buscar. Portanto, vou me abster de posicionamentos políticos e simplesmente contar uma história que ouvi essa manhã.

 

Fui levar meu gato na veterinária, que normalmente é bem simpática, mas hoje nos atendeu com um rosto meio sério e abatido. Ao longo da consulta, foi desabafando o porquê. Ela estava no aeroporto, com seu carro estacionado, no momento e local em que a bomba explodiu.

 

Depois de dois anos morando no país, é a primeira vez que conheço alguém que estava diretamente envolvida, como vítima, em algum dos atentados terroristas do ETA.

 

É estranho, mas para a gente que vem do Brasil e vê tanta violência nas ruas, de uma maneira meio maluca, minimiza os danos causados pelo terror. Digo por mim, algumas vezes minha família e alguns amigos me perguntaram sobre como era a convivência com a possibilidade de um atentado. Francamente, me parecia uma pergunta absurda e exagerada. A probabilidade da violência me tocar aqui é muito menor que no Brasil e ainda por cima, os terroristas do ETA costumam avisar sobre as bombas, já que a estratégia é produzir danos econômicos e não pessoais. Não estou colocando essa situação de uma maneira simpatizante aos atentados, pelo contrário, porque com ou sem vítimas fatais, são hediondos e ponto final. Só estou dizendo que nunca me senti ameaçada até hoje. E pior, nunca havia entendido o quanto todo esse processo foi capaz de ferir uma nação e porque.

 

Ouvir a história, olho no olho, me emocionou. Vi uma realidade que não queria, mas que está aí.

 

Começando pelo começo, essa veterinária foi buscar um amigo no aeroporto e estava esperando no carro, lendo, com seu cachorrinho. O amigo chamou pelo celular, dizendo que estava com muitas malas e se ela poderia descer e ajudar. Por isso e só por isso, ela saiu do carro, mas deixou o cão, já que precisaria das mãos para ajudar com as malas. Deixou os vidros um pouco abertos para o cãozinho respirar e se foi pelo que seriam alguns minutos.

 

Literalmente, alguns minutos depois, quando voltou ao estacionamento, a entrada estava bloqueada pela polícia, que avisou haver um risco de bomba. Ela se assustou e disse que precisava buscar seu cão. Os policiais disseram que não havia jeito e que eles se afastassem e pegassem o ônibus para deixar o terminal.

 

Ela disse que sem o cão não abandonaria o terminal e foram os dois, ela e seu amigo, para uma cafeteria no local, esperar a história se resolver. O lugar estava cheio e nenhum dos dois acreditou que haveria mesmo uma bomba. Ligou para a clínica veterinária, para avisar do imprevisto e que poderia se atrasar.

 

Pois durante a ligação, com o celular conectado, a bomba explodiu. Os vidros todos se romperam e houve muita, mas muita gente machucada. Bem mais do que as 26 pessoas que a imprensa anunciou. Ela olhou para o elevador que eles haviam acabado de pegar e simplesmente não existia mais.

 

No meio da confusão, queria voltar para tentar localizar o cão, mas óbviamente, naquele momento quando poderiam haver várias vítimas humanas, ninguém dava muita atenção. As pessoas foram removidas para perto da pista, sob o risco de haver outra bomba e, de maneira meio desorganizada, levadas para outro terminal.

 

Claro que as vidas humanas tem prioridade, ninguém discute isso, nem ela. Mas quem tem animal sabe como a gente se apega aos nossos bichos e ela ainda por cima, como veterinária, não podia deixar de imaginar que o seu cão a essa altura poderia estar agonizando e precisando de atendimento. Era o cúmulo da impotência.

 

Finalmente, conseguiu a atenção de um policial que se sensibilizou com a história e lhe disse que voltasse ao terminal 4, mesmo rompendo as barreiras de segurança e de lá ligasse para ele, que ele tentaria interceder.

 

Ela e o amigo voltaram a pé ao terminal 4, e podem acreditar que a distância é enorme, se escondendo e passando pelas cordas de segurança, até que conseguiram chegar ao estacionamento.

 

A essa altura, os bombeiros finalmente haviam entrado no local, onde havia uma quantidade de fumaça e pó impressionantes. Muitos carros ainda se incendiavam, por causa da gasolina. Havia passado cerca de nove horas, e cada vez mais a possibilidade de encontrar seu animal vivo era menor.

 

Ela falou com os bombeiros, contou a história e se prontificou a assinar qualquer termo de responsabilidade para deixarem ela entrar no local e tentar localizar seu cão. Eles não permitiram, até porque seria impossível entrar no local sem máscaras. Mas se sensibilizaram com ela e entraram para tentar localizar seu carro.

 

Voltaram dizendo que a probabilidade do cachorro estar vivo era muito remota. O carro que estaria estacionado ao lado do dela, caiu cinco andares. O dela permanecia no local por sorte, pois estava estacionado ao lado de uma pilastra, onde o chão é mais firme. Além do mais, o fato dela ter deixado os vidros um pouco abertos, fez com que a pressão interna no veículo não fosse tanta e assim os vidros não explodiram.

 

Ela disse que queria o cão de todo jeito. Sua preocupação maior é que ele estivesse morrendo e, mesmo que isso fosse inevitável, não queria abandoná-lo.

 

Os bombeiros resolveram tentar pela segunda vez e não é que apareceram no meio da fumaça com um cãozinho? Vieram beijando o pobre, que vinha no colo sujo e tremendo, mas conseguiu reunir forças para pular no colo da dona. Finalmente, uma história feliz, no que se pode chamar de feliz toda essa situação.

 

Entretanto, é preciso dizer que os noticiários insistiam em publicar que o aviso sobre a bomba foi dado muito em cima da hora, o que não é verdade. Foram dados três avisos, sendo o primeiro, antes das oito da manhã. Ou seja, havia tempo mais que suficiente para evacuar o local, se as autoridades competentes tivessem levado o aviso a sério.

 

Entendo um lado da imprensa que é o de não minimizar o ato terrorista, mas é importante lembrar que duas pessoas morreram e, depois de ouvir o relato da veterinária, pode acreditar que só não morreu mais gente por pura sorte. Ela mesma não foi evacuada do seu carro, só saiu porque seu amigo ligou pedindo ajuda para as malas. Além do número de feridos ser completamente irreal. Quantas outras histórias parecidas não houveram naquele dia?

 

Sinto muito pelas famílias dos dois equatorianos que morreram. Sinto muito pelas pessoas feridas e traumatizadas com o ato hediondo. Mas hoje vou ficar com a história do cãozinho que ganhou da bomba e da sua dona corajosa que, mesmo correndo riscos, em nenhum momento desistiu dele. Hoje vou ficar com os bombeiros que nasceram com a vocação de serem homens bons. Também vou ficar com as coincidências que fizeram as malas serem muitas, os vidros estarem abertos, o carro estar perto de um pilar e sobretudo vou ficar com a determinação pela vida. Preciso acreditar que às vezes, mesmo que seja só às vezes, em meio a tanta barbaridade, o mundo ainda insista em manter um mínimo de justiça.

 

¡Basta Ya!

80 – Volta à rotina

Acho todo fim de férias muito difícil. Sempre embarco de cabeça nas viagens e, na volta, é normal esquecer coisas básicas, como o andar onde moro, por exemplo. Cheguei a pensar que havia esquecido como falar espanhol, de tão desligada da vida que estava. Claro que foi puro delírio, mas o fato é que cheguei em casa meio desconcertada.

 

Começa com uma pilha de roupa suja e a casa para arrumar, que de cara me lembra que estou longe daquela vida aristocrática do dolce far niente. Depois, logo no primeiro dia, precisava fazer compras, pois a geladeira estava completamente anoréxica, tadinha! Mas até aí, tudo bem, era de se esperar. Também não acho que seja uma rotina assim tão horrorosa, pelo contrário.

 

O que me incomodou mesmo foi como me senti andando na rua sozinha nesse primeiro dia. Não consegui ter a sensação de estar voltando para casa, como costumava acontecer. Não tinha vontade de falar, para não assumir que era estrangeira e quis voltar logo para dentro do apartamento. Foi uma sensação de estranhamento muito esquisita.

 

A verdade é que minhas férias, entre outras coisas, foi um belo de um processo de negação. Não me arrependo, às vezes é bom sumir do mapa. Mas voltar ao planeta terra nem sempre se dá em uma aterrizagem suave. Os problemas estavam no mesmo lugar.

 

Enfim, ajeitando a casa fui fazendo o mesmo com minha cabeça e tomando algumas decisões. Voltei com vontade de trabalhar e com alguns planos adiados no ano passado por falta de tempo. Nada melhor do que planos para começar um ano.

 

Alguns dias depois, na quinta-feira, foi o vernissage de uma amiga e também foi o primeiro dia que me animei a sair. Dessa vez me senti melhor.  Na hora de me arrumar achei que estava diferente, com um ar mais maduro e relaxado. Sei lá, acho que o fato de encontrar os amigos que encontramos nas férias, me situou novamente. Ano passado tive uma vida muito universitária e acho que isso me deslocou um pouco.

 

Saltei uma estação de metrô antes do destino, só para caminhar mais, e dessa vez já não estranhei nada. A exposição dessa amiga foi legal e fiquei feliz por ela. Encontrei outra amiga que estava com saudades e  alguns outros amigos também. Aos poucos, fui lembrando que gosto daqui.

 

Fofoquinha básica, os bombeiros de Madri fizeram um calendário para 2007, com fotos, digamos sensuais, com o objetivo de angariar fundos para a instituição. Pois dois desses bombeiros apareceram no meio do vernissage para vender os calendários, com direito a autógrafo. Óbvio que rolou aquele assanhamento das moçoilas e dos amigos gays que estavam presentes. Um dos textos autografados dizia o seguinte: “para chamar em caso de urgência”. Não é o máximo?

 

Luiz, que estava viajando a trabalho, conseguiu chegar nos últimos cinco minutos e de lá saímos com dois amigos para comer alguma coisa e bater um papinho. Onde mais poderíamos ir? No Trifón, é claro! Nesse dia não estava tão cheio, mas é sempre bom saber que está lá, no mesmo lugar.

 

No dia seguinte, foi a desmontagem da exposição coletiva que participei através da Complutense. Fui o mais cedo que consegui acordar e acho que entrei e saí da faculdade em no máximo dez minutos. Não estava aborrecida nem nada, só queria dar por encerrado esse ciclo. Foi um alívio.

 

No sábado, fomos levar o Jack para vacinar e foi quando soube que sua veterinária estava presente no aeroporto no dia do atentado do ETA. Ouvir sua história mexeu comigo e acabou de me fazer colocar os pés de vez na realidade. Em uma hora de conversa me caíram duzentas fichas e entendi finalmente o que é terrorismo.

 

A saúde do meu pai ainda me preocupa. Pensei se devia ir ao Brasil agora. Fico entre altos e baixos, uma hora acho que ele está ótimo, depois acho que não. Enfim, vou esperar um pouquinho mais.

 

De noite, Luiz me chamou para ir ao El Junco. Fui com o pretexto da necessidade de queimar algumas calorias, mas acabei dançando muito pouco. A única coisa que bebi a noite toda foi uma coca-cola… light! De qualquer forma, encontramos outra vez alguns amigos e isso é sempre bom.

 

No domingo a gente quase fez um monte de coisas, mas no fim não fizemos nada. Só à noite saímos para jantar e caminhamos um bom pedaço a pé. Viemos imaginando quando foi a última vez que pudemos fazer isso no Brasil, sem nos sentirmos ameaçados pela violência, e a verdade é que fui incapaz de lembrar. Essa coisa que parece uma bobagem é um dos principais fatores que nos faz permanecer em Madri, a possibilidade de caminhar na rua sem medo.

 

Segunda-feira, resolvi por mãos a obra. Comecei pelo faxinão completo em casa, virei tudo de cabeça para baixo, troquei os móveis de lugar, me desfiz de roupas e sapatos, enfim, toquei o maior barata voa. Hoje já mandei um trabalho para tentar entrar num salão em Canárias, iniciei outra obra e tenho algumas idéias. 

 

Não tem jeito, não posso viver em uma redoma, então, a única maneira é trabalhar. E convenhamos, apesar dos pesares, trabalhar é bom.

81 – Dia cinza

Segunda-feira, dia internacional da preguiça. Por que sempre deixamos para começar as coisas na segunda, se é justamente o dia menos provável para o mínimo de força de vontade? Enfim, acordei cedo para as horas renderem mais e me deparei com um dia cinzento, chuvoso e frio. Francamente, considero isso uma sacanagem meteorológica!

 

Aliás, faz muitos anos que não durmo tanto em tantas noites seguidas. Graças a dica da minha cunhada sobre a melatonina. Para mim, está funcionando muito bem, estou praticamente no fuso horário das pessoas normais novamente.

 

Quanto ao frio, também não se pode reclamar. Estamos em temperatura de primavera até o momento. Por um lado, muito agradável; por outro, assustador. Sempre achei que essa história do aquecimento global estava distante e, de repente,  já estamos vivendo essa situação. Se o motivo é o buraco na camada de ozônio, o aquecimento solar ou o raio que o parta, não tenho idéia, mas certamente, algo vai mal. Alguma coisa está muito fora da ordem.

 

Enquanto isso, na sala de justiça… vamos trabalhar. Estou tentando visitar pelo menos duas galerias por semana, para começar a conhecê-las e fazer alguns contatos. Na última sexta-feira levei meu portfólio para uma delas. Com certeza estou mais animada, mas é estranho, porque essa semana tomei consciência que não é como no início. Não tenho mais aquela paixão com a arte, no sentido de achar que se não fizesse isso, morria. Ao mesmo tempo, não é mal, é como se fosse uma relação mais madura, agora arte é uma parcela da minha vida, entre outras coisas. Talvez isso seja parte de envelhecer, porque redimensionamos nossas prioridades, na nossa existência parece que cabe mais.

 

Hoje, me propus a fazer minha matrícula em um curso de web design e de francês. Mas essa chuva… ¡joder!

 

Semana passada, uma mescla de notícias boas e ruins. De bom, meu pai parece bem melhor e, ainda que mantenha a cautela, tenho a sensação que será um período mais tranquilo. De triste, um grande amigo muito doente que está difícil não pensar. Como sempre, a vida se alternando.

 

Ontem vi um filme e em determinado momento um pai se refere ao filho com a seguinte frase, “não me lembro de vê-lo um dia inteiro triste”. Fiquei pensando nisso e é interessante como na infância as tristezas, como as alegrias, são efêmeras. A vida é instantânea. Cheguei a conclusão que isso não muda quando ficamos adultos, no nosso dia sempre há motivos para alegria ou tristeza. Simplesmente, fazemos uma opção de onde colocar o maior peso. Talvez nem sempre seja uma opção, mas muitas vezes quem atribui os tamanhos somos nós.

 

De uns tempos para cá, tenho observado a quantidade de coisas que podem passar em um dia, e em que velocidade estonteante. E nesses dias de chuva…

certamente, algo vai mal. Alguma coisa está muito fora da ordem.

 

Enquanto isso, na sala de justiça… vamos trabalhar. Estou tentando visitar pelo menos duas galerias por semana, para começar a conhecê-las e fazer alguns contatos. Na última sexta-feira levei meu portfólio para uma delas. Com certeza estou mais animada, mas é estranho, porque essa semana tomei consciência que não é como no início. Não tenho mais aquela paixão com a arte, no sentido de achar que se não fizesse isso, morria. Ao mesmo tempo, não é mal, é como se fosse uma relação mais madura, agora arte é uma parcela da minha vida, entre outras coisas. Talvez isso seja parte de envelhecer, porque redimensionamos nossas prioridades, na nossa existência parece que cabe mais.

 

Hoje, me propus a fazer minha matrícula em um curso de web design e de francês. Mas essa chuva… ¡joder!

 

Semana passada, uma mescla de notícias boas e ruins. De bom, meu pai parece bem melhor e, ainda que mantenha a cautela, tenho a sensação que será um período mais tranquilo. De triste, um grande amigo muito doente que está difícil não pensar. Como sempre, a vida se alternando.

 

Ontem vi um filme e em determinado momento um pai se refere ao filho com a seguinte frase, “não me lembro de vê-lo um dia inteiro triste”. Fiquei pensando nisso e é interessante como na infância as tristezas, como as alegrias, são efêmeras. A vida é instantânea. Cheguei a conclusão que isso não muda quando ficamos adultos, no nosso dia sempre há motivos para alegria ou tristeza. Simplesmente, fazemos uma opção de onde colocar o maior peso. Talvez nem sempre seja uma opção, mas muitas vezes quem atribui os tamanhos somos nós.

 

De uns tempos para cá, tenho observado a quantidade de coisas que podem passar em um dia, e em que velocidade estonteante. E nesses dias de chuva…

82 – Pausa para uma fofoquinha

Há mais ou menos uns dois meses atrás, em novembro, participei de um programa de culinária,  chamado Otro Plato. A produção vai na casa de estrangeiros, vivendo em Madri, que preparam um prato original do seu país de origem.

 

Bom, meu calvário para fazer o tal programa, já contei por aqui. Morri de vergonha e estava muito curiosa para ver o resultado. Finalmente, foi ao ar e ganhei um DVD para guardar de lembrança.

 

Sabe de uma coisa, até que não ficou mal. Definitivamente, o pessoal da edição foi muito legal comigo, acho que é porque eles gostaram da moqueca de camarão, prato que preparei. Claro que falei umas bobagens em portunhol, mas considerando o pânico em que me encontrava, foi bem melhor do que imaginava. Na verdade, parece que estou tranquila, cozinhando normalmente, o que garanto que está longe da caipira que me tornei no dia.

 

Uma coisa muito importante para o universo feminino, todo mundo diz que a TV engorda, mas não me achei mais gorda. Porque convenhamos, ficar nervosa e falar besteira, tudo bem, mas parecer mais gorda é sacanagem, né?

 

Enfim, missão cumprida!

 

Agora, naquela lista de coisas que a gente precisa fazer na vida, posso riscar o ítem aparecer em um programa de televisão. E quer saber, cá entre nós vou admitir, bem que gostei dos meus dez minutos de fama.

83 – E o inverno chegou

Demorou, mas chegou e com força. O inverno finalmente aterrizou com vontade. Semana passada em Madri as temperaturas ficaram em uma média de 5 graus e amanhã deve chegar a zero. No último fim de semana, as estações de esqui da redondeza começaram a abrir.

 

Não sou fã do inverno e estava achando aquele outono esticado muito agradável. Por outro lado, esse frio contraditoriamente me tranquilizou. Estava muito encucada com a história de aquecimento global e blá, blá, blá… e de certa forma, a baixa temperatura me fez respirar aliviada e acreditar que o mundo pode ter solução. Sei lá, veio como uma mensagem de otimismo.

 

Minha tolerância ao frio está muito boa, melhor do que a maioria dos espanhóis que conheço. Acho que devido às nossas idas frequentes à pista de neve artificial. O que acabou acontecendo foi uma exposição regular a 2 graus negativos, de maneira que o frio atual não está nos afetando tanto. Tem um monte de gente gripada e o vírus nem triscou nossa saúde. Bom sinal.

 

Mesmo assim, sofro alguns efeitos desagradáveis, mas que venho aprendendo a contornar. A diferença de iluminação ainda me incomoda bastante, acredito que seja a parte mais difícil.

 

Aprendi a baixar a calefação até um máximo de vinte graus. É que tenho um tipo de mal estar, que parece uma baixa de pressão, quando saio do frio e entro em um lugar muito aquecido. Dá uma certa tontura, enjôo, às vezes até uma claustrofobia leve. Com o aquecimento da casa mais baixo o choque da entrada é reduzido, além do que, acordo melhor e não fico tão mole.

 

Agora preciso rever a alimentação. É importante introduzir algumas vitaminas e gengibre. Já estou craque nisso. Só não posso relaxar, senão esqueço e quando me dou conta, lá vem a deprê do inverno.

 

Bom, mas também tem um ótimo remédio para o desânimo que ocorre exatamente por essa época, as deliciosas rebajas! Aliás, golpe de mestre do comércio colocar apetitosos descontos bem na hora que a gente quer uma compensação! Ai, que perigo!

84 – Operação coxinha

Já tem algum tempo que ando com vontade de comer coxinha de galinha com catupiry. Aqui não tem. Ultimamente, alguns brasileiros anunciam pelo orkut, mas acabo ficando na dúvida em pedir ou esperando algum pretexto para fazer uma encomenda maior.

 

Enfim, só sei que hoje acordei com aquele desejo incontrolável e cismei que ia fazer a tal da coxinha. Fucei pela internet algumas receitas e acabei encontrando uma que me interessou. Os ingredientes, por incrível que pareça, tinha todos. Pareceu uma mensagem divina: precisava fazer coxinha!

 

Chamei uma amiga brasileira que mora perto e perguntei se ela queria fazer parte da façanha galinácea e ela topou. Deixei engrenado os recheios e a massa e ela me ajudou a enrolar os salgadinhos. É que aproveitei e testei fazer uns bolinhos de carne moída também.

 

Cá entre nós, deu um trabalho do cão! As coxinhas começaram pequenininhas e bonitinhas e  foram aumentando de tamanho, enquanto nossa paciência diminuia.

 

Mas sabe de uma coisa, modéstia às favas, ficou show! Parte pelo gosto, parte pela vontade encubada e o resto por uma fome fenomenal. Daí fazer o que, abrir um vinhozinho e papear, né?

 

Quando Luiz chegou, fritei novamente os salgadinhos fresquinhos e, claro, comi de novo. Tô de coxinha e bolinho de carne até os ouvidos!  Mas que foi bom, foi!

85 – Mala leche

Em dois meses completarei dois anos de Madri e mais de três fora do Brasil. Minha forma de olhar a cidade e o resto do mundo continua mudando.

 

Não tenho mais a sensação de estar me reconstruindo e a questão da identidade me parece resolvida. São pontos em constante transição e mais cedo ou mais tarde retornarão, mas não agora.

 

De repente, me dei conta que a maneira de me vestir e de pentear o cabelo mudou. Normalmente, essa é a ponta do iceberg, quando a gente muda por fora, provavelmente a mudança por dentro já aconteceu. Estou confortável com a aparência que levo, o quer dizer que a troca de pele acabou.

 

Não pareço espanhola e não me importa parecer. Não tenho vontade de me camuflar e ainda não sei se isso é bom ou mal, acho que um pouco dos dois. Por um lado ainda tenho muito carinho pela cidade, mas ao mesmo tempo, me parece tão provinciana que me cansa.

 

Quem sabe seja só o inverno que dê essa sensação de claustrofobia. Ainda que esse ano o inverno não me assustou nem um pouco. Saio no frio quase que desafiando a temperatura, você não me ganha!

 

Talvez seja só implicância. Ou quem sabe a mala leche é contagiosa e esteja mais espanhola do que me imagine.

86 – E lá vamos nós!

Ainda sobraram alguns dias de férias para o Luiz e aqui não tem esse negócio de vender ou adiar férias, ou você tira ou perde. E claro, todo mundo tira. Muito bem, sendo assim, já que insistem né, lá vamos nós!

 

Temos um casal de amigos brasileiros que está morando há pouco tempo na Suíça, os mesmos que encontramos em Val d’Isere no reveillon. Vamos visitá-los e passar uma semana na casa deles. Ou seja, outra viagem que promete ser um festival gastronômico. Cassilda, desse jeito, daqui há pouco não passo pela porta! Não há regime que sobreviva!

 

É verdade que eles moram bem perto de uma estação de esquis, assim que tentaremos compensar o acúmulo de calorias. Vamos ver se a neve colabora. Ano passado nos divertimos bastante na pequena pista de neve artificial do Xanadú, mas a verdade é que agora ela se tornou um pouco entediante. Nunca imaginei que chegaria a esse ponto, logo eu que pensava que nunca passaria da pista de debutantes. E aqui estou, meio marrenta, reclamando até da pista principal.

 

Dessa vez, Jack não vai. Ficamos com pena de levá-lo para mais uma viagem. Além do mais, vamos de avião e ele sente mais do que de carro. Daí pensamos se algum amig@ gostaria de ficar aqui em casa com ele. Até temos quem venha alimentá-lo e limpar a areia, mas a verdade é que nosso gato, diferente dos esteriótipos felinos, sente falta de gente e o ideal seria alguém dormir por aqui,

 

Lembramos de um amigo que estava morando um pouco longe do centro e, de repente, para ele seria legal passar uma semana por essas bandas. Pois foi a maior coincidência, ele estava realmente querendo mudar para um local mais perto e seria mais fácil ter alguns dias para procurar um apartamento com calma. Ele perguntou se poderia vir uma semana antes e, para ser sincera, achei até melhor, pois assim o Jack ia se acostumando com ele. Veio com sua namorada e estão aqui em casa.

 

O lado engraçado, bom e, ao mesmo tempo engordativo, é que cada dia um vai para a cozinha se exibir um pouco. Aí já viu, lá vou eu saindo da dieta. Começou no sábado, quando ofereci um jantar para uma amiga que está indo embora de Madri. Caprichei e o evento foi apelidado de festa de Babete. Pronto, depois disso, quem é que queria ficar por baixo? Todo dia tem pudim, quiche assim assado, vinhozinho etc… ai, ai… E o pior é que eles estavam fazendo a dieta de Atkins! Eu achando que iria entrar na deles e no final, saiu todo mundo pervertido! Sou mesmo uma péssima influência!

 

Enfim, dessa vez vou colocar a culpa toda no Jack. Se não fosse nosso felino metido, quem sabe já teria voltado ao meu peso. Por outro lado, não teria sido tão divertido.

 

Amanhã a gente viaja e só volta pelo dia 15 de fevereiro, bem a tempo de ver a ARCO, o evento de arte mais importante da Espanha.

 

A propósito, na mala vai jamón ibérico de bellota e salchichón, lógico! Joder tío, vai ser gulosa assim lá longe!

87 – O que é, o que é? Quanto mais a gente dá, mais recebe?

Não me canso de dizer que amigos são presentes. É piegas, eu sei, mas é verdade. Aparecem de onde espero e de onde não espero, vão e voltam, uns tão longe, uns tão perto, parecidos, diferentes. O fato é que a vida é muito melhor quando a gente compartilha.

 

Digo pouco aos meus amigos o quanto são queridos, dá uma vergonha danada. Também fico muito tímida quando escuto algo a respeito. Então, melhor não dizer nada, amigos simplesmente sabem. Eu sei.

88 – De volta na área

Cheguei da Suíça, morta de cansada, como é bom de ser depois de dias de férias.

 

Fomos a Chavornay, uma pequena cidade perto de Lausanne, onde ficamos por uma semana. Bom, dizer pequena cidade na Suíça é quase pleonasmo, o país é formado por povoados muito charmosos, conhecidos como “villages”. 

 

A primeira vez que fui à Suíça foi há uns dez anos atrás e só conheci Geneve, muito rapidamente. Agora, aproveitamos para conhecer a parte francesa com um pouco mais de calma e adoramos. Ficamos na casa de um casal de amigos brasileiros, morando por lá desde novembro do ano passado.

 

Como não poderia deixar de ser, chegamos na secura por esquiar, doidos atrás de neve. Mas se não desse também, paciência, o principal era encontrar os amigos e nos divertir um pouco.  O inverno maluco não deixou de atingir a Suíça, e não havia tanta neve como de costume.  De qualquer maneira, dirigindo até os alpes, era possível encontrar estações de esqui abertas.

 

A primeira estação que fomos conhecer foi “Villars”, há mais ou menos uma hora e meia da casa dos nossos amigos. Nesse dia eles não se animaram a esquiar, haviam passado por uma experiência muito desagradável com um péssimo instrutor de esquis e isso os desanimou a tentar novamente. Insistimos um pouco, mas também não queríamos forçar a barra, simplesmente dividimos nossa empolgação e nossas frustrações com o esporte e, quem sabe, ajudasse a plantar a sementinha da curiosidade.

 

Relembrando, as pistas de neve são classificadas por cores de acordo com seu nível de dificuldade. Começam pelas debutantes ou “bunny slope”, onde você aprende a esquiar, e a partir daí vem as verdes, azuis, vermelhas e pretas. Na Suíça, eles não tem verdes, já começam pelas azuis, e nós não sabíamos disso. Até esse momento, a pista mais difícil que havia descido foi uma única azul em Val d’Isere.

 

Muito bem, chegamos em “Villars” e subimos o bondinho, de onde comecei a ver as coisas girando ao meu redor. Respirar fundo, haja naturalmente! Quando chegar é só procurar uma pista fácil para me aquecer e depois começo a brincadeira. Sempre preciso começar por uma pista mais simples, para ganhar confiança. Tá bom, tá certo, quando saltamos do bondinho, onde é que estava mesmo a pista fácil?

 

Ca-ce-te! Não tinha uma porcaria de pista debutante ou verdinha, já começava com uma azul que não conseguia enxergar como continuava! Não acredito que cheguei lá em cima e não teria coragem de descer a bosta da pista!

 

Nossos amigos já haviam decidido ficar só no restaurante, e com toda razão. Ninguém começa em uma pista assim, é perigoso. Luiz resolveu descer para me contar como era e se havia alguma forma de chegar em uma pista verde. Como disse antes, até esse momento a gente não sabia que não existia pista verde na Suíça.

 

Fiquei esperando, não sei se com mais medo ou mais raiva. Na verdade, sei sim, me deu o maior medo de descer uma azul de cara e que não conseguia visualizar o caminho com antecedência. É que quando me bate a vertigem, preciso evitar olhar para baixo e me concentrar em pontos mais próximos. Por isso, memorizo mais ou menos por onde preciso ir antes de começar a descer. Ou seja, além de começar por uma pista mais difícil, estava com um esqui alugado que não sabia se era igual ao meu e não tinha a menor idéia de como era a porcaria da pista! E mesmo assim, com uma vontade danada de descer… Mas a merda daquele medo estava me matando! Não sei lidar com isso de maneira muito madura e vai me dando raiva.

 

Daí chegou Luiz todo animado dizendo que ”eu tinha total condição de descer” a tal da pista. Eu queria dar com os “palos” na cabeça dele! Era só o que precisava, alguém me fazendo admitir que tinha medo de descer a bosta da pista. Ficava insistindo para eu pelo menos chegar na beira e olhar. Como assim só chegar na beira? Não existe essa possibilidade, não tem mais ou menos,  ou vou ou não vou.

 

Até que ele me irritou tanto com sua provocação bem intencionada, que parti para a malcriação, ai que raiva! Tá bom, eu vou, mas se eu travar ou me machucar, você vai ouvir tanto… #@$%^&#$*… Pronto, baixou o espírito  da megera! Com raiva fico poderosa. Chegar na beira só para olhar uma merda! Vou para descer.

 

Não sei se pela raiva ou pelo que, mas quando olhei a pista mais de perto, senti que podia. Não era fácil para mim, entretanto, não vi nada que achasse que não pudesse fazer. Não digo fazer bonito, mas concentrada tinha técnica para encarar. Luiz foi na frente mais devagar e eu fui pensando em cada movimento de cada curva, como se fosse necessário uma estratégia de guerra com precisão Suíça.

 

Cheguei embaixo da pista longa sã e salva. Exausta, queria mais. Luiz feliz da vida, não sei se por minha descida ou porque seu dia estava salvo, acho que um pouco dos dois. Repetimos a descida um par de vezes e cheguei a disfrutar. Descer uma pista azul não é nenhuma façanha, mas para mim parecia ser. Como é bom!

 

Paramos por cansaço. Às vezes, em uma pista longa, você vê alguns esquiadores dando umas paradinhas no caminho. Nem sempre é porque estão em dificuldade, mas é para descansar um pouco mesmo. O problema é que se eu parar no caminho e ficar olhando para baixo, há o risco de bater a vertigem, e consequentemente me dar um branco. Por isso, desço o mais rápido possível, dentro das minhas limitações. E claro, chego quase sem perna.

 

Dali fomos almoçar com nossos amigos, no próprio topo da estação. Vinhozinho para relaxar, bom papo e, em seguida, pegamos a estrada de volta a Chavornay. Na volta, pausa para um café em uma cidadezinha muito charmosa, na beira do lago, chamada Vevey.

 

A Suíça parece um fazendão em diferentes tons de verde, ainda que fosse inverno. Quando se chega aos Alpes, parece que alguém pegou a paisagem e deu uma esticada. Montanhas pontudas, com pinheiros contrastantes apontando para cima. Muito bonito. Talvez entediante para uma latina morar, mas como turista, só tenho elogios.

 

Uma coisa curiosa, muitas vezes as pessoas tem um tipo de estábulo embaixo da casa, onde dormem as vacas. É prático e ajuda a manter o local aquecido. Já o aroma que exala… Felizmente, onde moram nossos amigos não há vacas tão próximas.

 

No domingo, fomos conhecer Gstaad, na parte alemã. Segundo meu digníssimo marido, a estação mais badalada da Suíça. O lugar é bem legal mesmo, outra cidade com jeito de cartão de natal. Nesse dia, nossos amigos finalmente se animaram a esquiar e botamos a maior pilha. Foi uma experiência positiva, pegaram um bom instrutor, o que deu a eles confiança e vontade de tentar. Adoramos, quanto mais amigos  convertidos, mais divertida essa história pode ficar.

 

Chega-se ao local por um caminho bonito, mas sinuoso. É preciso subir uma enorme montanha por uma pista estreita, sem acostamento, num zig zag torturante que fez meu estômago se embolar. Mas, para os menos sensíveis, a paisagem é realmente linda.

 

Muito bem, em Gstaad, o local que escolhemos para esquiar, além da pista de iniciantes, contava com uma pista azul razoavelmente fácil, parecida a uma verde com alguns locais de maior dificuldade. Para mim, beleza, via a pista toda, tranquila, nossos amigos aprendendo e parecendo curtir… até que Luiz resolveu tentar uma outra pista que não dava para ver bem onde começava e muito menos que nível era.

 

Daqui há pouco desce ele dizendo que era uma pista azul um pouco mais difícil e mais longa da que a que eu estava descendo, mas que “eu tinha total condição de descer”. Estava começando a pegar implicância dessa frase. Olhei com aquela cara de Galfield na segunda-feira, joder! Lá vem! Tá bom, vamos nessa. Acho que ele sabia que a fila para subir na pista mais fácil já estava me entediando e entre o medo e o tédio…

 

Durante a subida fui examinando a pista. Achei possível, mas percebi que teria problemas com a vertigem. Na verdade, disso sabia desde o carro, quando comecei a ficar tonta nas curvas. Não tem problema, simplesmente precisava usar meus velhos truques índios. Respirar mais rápido, focar em um ponto mais próximo, pensar no meu mantra secreto, concentrar nos movimentos… enfim, entre técnicas e mandingas, preparada.

 

Quando a gente olha uma montanha de cima, ela sempre parece muito maior do que quando olhada de baixo. E pode crer, aquela montalha olhada de cima era alta para cassilda! Mas estava bem e ainda que na adrenalina, comecei a descer tranquila. Fomos no esquema inicial de sempre, Luiz na frente dando umas paradinhas para me esperar e eu atrás calculando caminhos e curvas.

 

Desci muito concentrada, era uma pista difícil para mim, mas estava indo bem até um momento que não lembro exatamente porque, olhei para baixo e senti medo. O medo me deu uma tremenda travada. Pronto, não acredito que vou fazer igual a Val d’Isere e ficar encalhada aqui. É estranho, mas bate um branco que esqueço como se anda. A diferença é que na França, realmente não sabia o que fazer para continuar descendo, dessa vez, por um momento de lucidez consegui pensar que sabia o que fazer, era só não entrar em pânico.

 

Então, vamos por passos, primeiro controlar a vertigem e o enjôo. Para isso respiro muito rápido, parece que vou ter um filho, sei lá porque cargas d’água, mas parece que o oxigênio me clareia as idéias. Ok e agora? Não tinha outro jeito que olhar para baixo e pensar como desceria. Descer até a base da montanha me parecia impossível, daí pensei que não precisava descer até o final, simplesmente precisava fazer a próxima curva e nisso me concentrei.

 

Para fazer a próxima curva achei que estava muito perto do fim da pista à minha frente e se errasse poderia cair nas árvores, daí resolvi que precisava andar para trás devagar. Ninguém descendo, beleza, não tô atrapalhando. E consegui dar uns três passos para trás e ganhar espaço. Nisso percebi que haviam mais umas duas ou três pessoas travadas. Acho que um deles tentava animar um dos encalhados, além do Luiz embaixo me falando qualquer coisa que não conseguia prestar atenção. Isso, de certa forma, me animou. Pensei que não foi só a vertigem, provavelmente era uma parte da pista mais difícil mesmo.  Tentei me lembrar das últimas aulas de esqui e para que lado colocar o corpo.

 

Só precisava fazer a próxima curva… e agora a próxima… e mais uma… e estava no jogo novamente! Lembro de falar alguma coisa para o Luiz como “pode descer que eu tô bem”.

 

Cheguei lá embaixo morta de cansada e com a musculatura doendo para burro! Entretanto, joelhos ok, bom sinal. Só uma vontade enorme de me jogar no chão e ficar deitada na neve. Foi quando o enrolão do Luiz me informou que parte da pista que descemos era vermelha e, claro que ele sabia desde o início.

 

Ver-me-lha! Aquilo ficou reverberando na minha cabeça e a ficha não caia. Como assim vermelha? Fiquei tão passada que não conseguia comemorar, na verdade, acho que nem estava acreditando muito naquela história.

 

Resumo da ópera, encontramos nossos amigos, que estavam super satisfeitos com a aula e já mais saídinho nos esquis. Tínhamos todos razões para comemorar.

 

De lá, fomos famintos comer um almoço-jantar nos arredores do castelo de Gruyère. Pedimos carne seguida de raclette, aos olhos confusos da garçonete que não entendia como íamos comer tanto. Não só comemos, como houve espaço para a sobremesa.

 

Durante a semana, circulamos de carro pelos arredores. Um dos dias fomos a uma pequena estação de esquis já na França. É engraçado isso de cruzar um país tão rápido, ainda me soa surreal atravessar uma rua para dar uma esquiadinha na França, depois voltar para Suíça antes do jantar. Enfim, a estação mesmo era pequenininha, mas quebrava um galho. O problema é que nesse dia estava a maior chuva e a experiência de esquiar foi bizarra. Era muita vontade, viu? Achava que, com a chuva, a pista estaria mais escorregadia, mas é exatamente o contrário, ela deixa a neve de um jeito que faz seus esquis freiarem. Por estranho que pareça, é muito mais difícil controlar um esqui freiando que deslizando.

 

De qualquer forma, o passeio é lindo e as cidadezinhas ao redor muito charmosas. A propósito, também nem sempre jantávamos na mesma cidade, afinal de contas, tudo tão pertinho. Nessa noite, por exemplo, jantamos em Concise.

 

A semana passou e era hora de voltar para casa. Ficou a vontade e os planos de nos encontrarmos mais vezes para as próximas aventuras.

 

No apartamento, Jack nos esperava calmo, mas com saudades felinas. Nem fez doce, foi completamente entregue desde nossa chegada, parecia que tinha engolido um vibrador de tão ronronante. O casal de amigos que ficou hospedado enquanto viajávamos já havia ido embora, mas deixaram um pudim de boas vindas prontinho na geladeira. Voltar assim fica mais fácil.

89 – Mais um carnaval

Um par de dias após a chegada da Suíça: carnaval. Essa época é uma das mais difíceis para mim, porque adoro, mas gosto do carnaval bem brasileiro, de me acabar de dançar na rua e de cantar as músicas que sei de cor desde a infância.

 

Talvez seja um dos poucos rituais com o qual ainda me identifique, me traz a certeza, por alguns dias, de que sou mesmo brasileira e me dá muito orgulho de ser. Nem todos meus carnavais foram perfeitos e, de certa forma, não sentia tanta falta deles quando estava no Brasil. Mas o fato de sair de lá atribuiu um peso maior a essa questão.

 

Ver de longe, por fotos e reportagens, os blocos e os trios passarem, me deixa surumbática. É como se me perdesse um pouco. Tento não pensar tanto no assunto, mas de uma maneira absurda, a própria tristeza e a saudade me lembram quem ainda sou. Pode ser que por isso tenha boa memória. Lembrar me confirma que sou de verdade. Lembro, logo existo.

 

Enfim, nem tudo é tristeza e o que não tem remédio… fabrica-se uma fórmula caseira para quebrar o galho, certo?

 

Fomos a uma festa de carnaval brasileira aqui em Madri mesmo, na Sala Caracol. Era também a despedida de uma amiga que voltou ao Brasil, depois de passar um ano por essas bandas. Pulei e suei um quilo inteiro. Voltei para casa quase sem voz. Tudo bem, ainda sambo e não perdi o ritmo.

 

Quero meu crachá!