52 – Temporada de outono

O outono chegou. A temperatura ainda vai bem agradável, mas já se faz necessário um casaquinho à noite e no início da manhã. O edredon saiu do armário e comecei a fuçar nas roupas de inverno. A luz é outra e agora escurece por volta das oito da noite.

 

Não sei se é a estação ou meu inferno astral, que nem está tão infernal assim, mas ando com uma vontade danada de renovar. Estou dando uma limpa na casa, quero mudar utensílios, móveis, roupas, cabelo… quero mudar.

 

Vontade de dar uma festa, de ter um apartamento maior, de animar a dirigir outra vez, de acabar a pós em artes, de aprender outra língua e, o mais assustador, comecei a me visualizar morando em outras cidades. Talvez seja fogo de palha, pode ser que essa agitação acalme depois do aniversário. Pode ser que seja só o outono.

53 – Nova temporada de hóspedes

Com o outono, chegou também a nova temporada de hóspedes. Logo no início de outubro, veio uma amiga que estudou comigo em Brasília e agora mora em Turin. Há mais de vinte anos não nos víamos e, graças à internet, olha a gente se encontrando novamente. Viva a tecnologia!

 

Foi uma visita rápida, minha amiga parou aqui em casa por dois dias. Muito divertido e deixou um gostinho de quero mais. Além disso, ela acabou de fazer o Caminho de Santiago, coisa que estou com vontade de planejar. Pois deu mais vontade ainda de fazê-lo e ela me deu boas dicas. Acho que tentarei no próximo ano, vou esperar chegar mais perto para decidir.

 

Muito bem, para tornar esse reencontro mais surrealista, também está morando em Madri uma outra amiga de infância. Nós duas nos encontramos sempre, mas ela também havia perdido o contato com essa amiga de Turin. Nós três estudamos no mesmo colégio há mais de vinte anos atrás! Agora nos encontramos tanto tempo depois em outro país! Cada uma com sua trajetória e seu passado diferentes se cruzando pela vida.

 

Não faltou assunto nem intimidade, foi fácil.

 

Na semana que vem, chegam minha tia e prima. Matei a saudade delas agora em julho, quando fui ao Brasil, mas mesmo assim, estou achando muito legal recebê-las em casa.

 

E no fim do mês, chega um casal de amigos. São australianos, de origem grega e moram em Singapura! Se eu achava que minha vida parecia culturalmente confusa…ai, ai, esse mundo anda muito mundial, viu?

 

Essas idas e vindas tem me feito notar que não sofro mais, ou pelo menos sofro pouco com despedidas. E quando isso acontece, é mais por empatia com quem vai ou fica do que com meu sentimento propriamente dito. Acho que não acredito mais em reais despedidas, agora me parece sempre que é só uma questão de esperar a próxima oportunidade. Pode ser um mecanismo de defesa também, mas o motivo já não faz mais diferença, importa que não sofro. Importa que as medidas de tempo e espaço se tornaram absolutamente relativas.

54 – Vermelha

A exposição acabou, desmontei minha obra e consegui guardá-la em casa. Essa fiz pensando em como armazená-la depois. É impressionante como minha vida é totalmente estruturada para ser desestruturada, móvel. A consciência desse fato primeiro me era indiferente, depois passou a me incomodar um pouco, depois foi quase insuportável, agora tende a ser simplesmente mais uma variável.

 

Mudei a cor do cabelo, sou vermelha de novo, pronta para guerra, mesmo que seja contraditoriamente pacífica. Troquei a disposição dos móveis da casa, meus móveis-coringa para apartamentos-sanfona. Acendi os incensos. Joguei um monte de coisas fora, vendi e dei outras. Estou trocando meu guarda-roupa, na medida do possível. Minha maneira de cozinhar está modificando sutilmente, assim como meu paladar. Conheço bem esses rituais. Já sei que vem por aí mais uma troca de pele.

 

Por outro lado, estou bem. Preparada. Às vezes com um pouco de angústia, velha companheira, essa sempre me acompanhará. Mas não estou triste. É o signo de fênix e não me assusta mais queimar até as cinzas. É necessário e estou disposta a entrar na fogueira.

 

Minha fita do Senhor do Bonfim arrebentará em breve. Sinto que vai começar o jogo de cachorro grande.

55 – Aranjuez, Patones de Arriba e Alcalá de Henares

Quase  todo hóspede que vem nos visitar quer conhecer Toledo, Vale de los Caidos, Segóvia… enfim, algumas cidades ou pontos turísticos nos arredores de Madri que são bastante divulgados.

 

No início, juro que achava legal. Gostei de conhecer essas cidadezinhas e não me importava repetir o passeio. Mas acontece que depois da quinta vez que você vai para os mesmos lugares, começa a encher o saco. Deixa eu tentar explicar uma coisa, simplesmente, não aguento mais ir a Toledo!  Segóvia então, até me arrepia!

 

Se você já me visitou, se deu bem! Se não visitou ainda, se vira! Não levo mais ninguém para Toledo e pronto! Mostro onde tem excursão, explico como faz para ir de trem, tudo com a maior boa vontade. E aproveite enquanto ainda não cansei do centro da cidade. Aliás, esse será difícil me cansar, pois adoro caminhar por Madri.

 

Muito bem, dessa vez, com a visita da minha tia e da minha prima, resolvemos fazer alguns passeios diferentes. Fomos a cidades que ainda não conhecíamos. Era um risco, pois não sabíamos se os passeios compensavam, “mas tudo vale à pena se a alma não é pequena”.

 

Sendo assim, lá vão algumas sugestões de ótimos lugares não tão visados pelo turista estrangeiro.  Primeiro fomos ao Palácio de Aranjuez, que é lindo. Almoçamos ao ar livre em um dia bastante agradável, olhando para o tal do palácio.

 

Depois, fomos conhecer uma cidadezinha chamada Patones de Arriba, e antes que alguém pergunte: sim, tem o Patones de Abajo e a história é muito curiosa. No ano de 1808, o povo dos Patones de Abajo, se refugiou na serra logo acima e passou desapercebido pelos invasores franceses. Foi a única cidade que, por não ser encontrada, não se submeteu a Napoleão, tornando-se assim um reino, com seu próprio rei! O que isso tem de histórico e de lenda, quem poderia saber? O fato é que é engraçado e deve ter algum fundo de verdade. Hoje, é um povoado com casas de pedras e paredes cobertas de heras, uma gracinha! É um ótimo lugar para ir almoçar, pessoalmente, adorei o restaurante Poleo.

 

Finalmente, fomos a Alcalá de Henares, cidade de Cervantes com dois mil anos de história. Pequenininha, mas com uma “Calle Mayor” muito charmosa. Nessa cidade,  há um tipo de restaurante-galpão que serve um super frango assado conhecidíssimo pelos locais. Ainda não tive a chance de almoçar por lá, mas qualquer dia desses nós iremos e contarei a experiência.

 

Resumindo, não é que ainda tem um montão de coisa nova para fazer nessa terra?

56 – Ai, que saco cheio!

Por que o tempo demora tanto a passar quando a gente não se diverte? Por mais que o curso tenha melhorado nesse segundo semestre, meu saco já está para lá de cheio. Francamente, começo a me desanimar cada vez que me arrumo para ir à faculdade. O caminho me cansa, o metrô me cansa, a caminhada me cansa, a conversa me cansa… caraca, como cansa!

 

Na semana passada, matei todas as aulas, sempre me prometendo que iria na do dia seguinte. Tinha a excelente desculpa das minhas hóspedes. E claro que estava muito mais divertido aproveitar o tempo com elas. Essa semana não dá para enrolar outra vez. Na verdade, acho que hoje tive a melhor aula do ano, mas meu esgotamento é tanto que nem desfrutei o merecido.

 

Será que é meu inferno astral? Meu aniversário está chegando e para piorar a situação sinto que a tradicional festa que adoro fazer tem tudo para micar.

 

Saudade dos meus amigos e da minha língua.

 

Tô parecendo a hiena do desenho animado, ó vida, ó sorte…

57 – Melhorando

Minha fase hiena reclamante está acabando. Primeiro porque eu mesma me canso do mal humor, segundo porque tenho amigos muito legais que ajudam a vida ficar melhor. Terceiro porque tenho alguém do meu lado que sempre se esforça para que eu fique feliz. E por último, podendo ou não, vou dar a festa de aniversário mesmo e dane-se!

 

Há exatamente um ano atrás estava no maior dilema se dava ou não uma festa. Foi a primeira em Madri e, apesar dos meus receios, no fim deu tudo certo.

 

A festa de aniversário foi no mesmo dia em que meu documento espanhol ficou pronto. Na verdade, foi o dia em que fui tirar minhas digitais. Encaramos, Luiz e eu, uma fila de quase quatro horas embaixo de um frio de 5 graus. Na época acho que não fiz essa comparação, mas talvez de alguma forma estivesse nascendo outra vez. É possível que aconteça a mesma coisa agora. A renovação do meu documento está há meses atrasada, quem sabe possa nascer novamente em novembro.

 

Por enquanto, estou tentando me acostumar que sou uma imigrante. I-mi-gran-te! Parece um palavrão, um xingamento. Ainda não tinha caído a minha ficha até essa semana. Sempre me considerei só estrangeira. Acontece que uma estrangeira que mora fora do seu país de origem é uma i-mi-gran-te. Bom, pelo menos posso dizer que já faço parte de alguma estatística. Depois, ainda é melhor que em inglês, onde o termo é “alien”, o mesmo utilizado para alienígena. Eu era uma “legal alien”, que imaginava a tradução como uma alienígena gente boa. Ficava mais simpático.

 

E por falar em simpático, vou terminando com o Sting que ficou muito mais legal depois que se divorciou do Raoni.

 

… I am an alien, I am a legal alien, I am an English man in New York…

58 – Pausa técnica

Essa semana andei bem ocupada, preparei duas apresentações sobre meu trabalho. Uma para a “sessão crítica” da faculdade, que consiste em uma banca de professores e alunos que escutam o que você faz e seus projetos. A outra apresentação foi para um crítico de arte espanhol.

 

A tal da sessão crítica, na minha opinião, foi um verdadeiro fiasco. Francamente, parecia uma prova oral de colégio primário. A diferença é que era impossível acertar todas as questões. Consistia em professores tentando achar alguma coisa errada no seu trabalho, o que por princípio já acho uma babaquice. Considerando que um artista, quase sempre, realiza uma obra auto biográfica, é como dizer que a vida de alguém é errada. Até que passei razoavelmente ilesa, ainda que não tenham me adicionado nada. Talvez preferisse uma crítica ruim, mas consistente, do que um blá-blá-blá que entra por um ouvido e sai por outro. Faz tempo que não escuto tanta bobagem, não só sobre minha obra, mas de maneira geral. Enfim, passou! Prova superada!

 

Já a apresentação para o crítico, levei a sério. Fiz um documento formal e por escrito. Não sei se ele vai gostar e estou um pouco insegura quanto a isso. Mas chega uma hora que você precisa arriscar e mostrar a cara, nem que seja para levar um murro.  Não tenho uma resposta ainda, ele está viajando. Vamos ver o que acontece na volta.

 

Quanto ao salão da Bahia, não entrei. Continua como um sonho, quem sabe um dia… Fiquei chateada, mas não como imaginava. Talvez a resposta negativa tenha vindo em um momento que não me importou tanto. Acho que o fato de ter parado para refletir sobre o próprio trabalho me fez lembrar ou reafirmar minha motivação.

 

Parei para olhar meu próprio umbigo e descobri que continua no mesmo lugar e ainda é meu.

59 – Aeróbica semanal

Madri faz bem para o físico! Caminho bastante e com regularidade, o que me garante resistência; nas escadarias do metrô e me equilibrando nos vagões, malho bumbum; carregando as compras, malho braço; e nos fins de semana só fica faltando a aeróbica. Fazer o que? Ir para balada. Sou praticamente uma atleta!

 

Quer dizer, também tem a parte da faxina, onde faço a malhação conjunta. Mas essa considero mais como um exercício espiritual para me deixar um ser humano melhor.

 

E voltando à balada aeróbica, que é bem mais interessante, ontem fomos ao Lolita Lounge. Faz tempo que queria ir até lá, mas como fica um pouco mais afastado da nossa casa, ou seja, não dá para voltar a pé, a gente sempre enrola. O lugar é bem legal, música boa, iluminação no ponto certo e decoração interessante. Uns móveis modernos, umas luminárias exóticas, uma parede imitando pele de zebra, enfim, original. Tentarei voltar outras vezes.

 

Primeiro passamos no Summa, meu restaurante japonês favorito aqui, fica próximo ao estádio Santiago Bernabeu. Fomos com uma amiga brasileira e, cá entre nós, desconfio que ela atraiu os olhares do sushiman. De lá, fomos caminhando para o Lolita, onde encontramos uma amiga dessa amiga que é grega. Super simpática, mas fuma como uma chaminé, daquelas que acendem um cigarro no outro. Impressionante!

 

Tem uma coisa curiosa que sempre noto nas noites madrileñas, os homens que saem sozinhos, digo em um grupo só de homens, se divertem entre si, sem grandes frescuras. No Brasil também há grupos masculinos, mas não posso imaginar um dançando com o outro sem parecer uma situação constrangedora. Pois aqui eles dançam juntos sem o menor stress. E aos preconceituosos de plantão, não tem nada a ver com homossexualismo. Nós meninas já fazemos isso há muito tempo com mais naturalidade e fico feliz que os meninos se libertem dessa paranóia.

 

O fato é que a noite foi bem divertida. Não voltamos tão tarde, com a promessa de irmos esquiar no dia seguinte, o que nunca aconteceu. No dia seguinte o que deu foi a maior preguiça. Também, com essa vida tão atlética, merecia um descanço, né?

60 – Operação compras

Acho muito engraçado quando encontro amigos que acreditam que morar na Europa é super chic. Juro que ainda tem gente que me imagina vestindo longos casacos de pele, em um carro conversível, cheia de mordomias e tomando vinho todos os dias. Bom, tirando a parte do vinho, que aqui é mais barato que coca-cola, o resto é fantasia, fica entre a piada e a caricatura.

 

Passar férias na Europa é chic, e mesmo assim na primavera. Morar aqui é outra história! Não reclamo, é mais justo e me divirto para burro, mas está longe de ser uma vida de glamour e de facilidades.

 

Meu apartamento inteiro cabe dentro da minha antiga sala no Brasil. E o pior é que já nem reclamo mais, porque quando digo que acho pequeno as pessoas me olham com cara de incompreensão. Fica uma coisa pernóstica e me sinto arrogante. Por outro lado, após acomodar tudo, ou quase tudo, em ínfimos armários, posso afirmar que minha habilidade na resolução de quebra-cabeças aumentou sensivelmente.

 

Na cozinha, por exemplo, não existe esse conceito de dispensa. Nos armários, mal cabem os acessórios culinários, imagina guardar comida. Improvisei um carrinho de rodinhas, com três gavetinhas, onde guardo as compras. Adicionado ao que cabe na geladeira, é tudo que podemos ter de estoque.

 

Portanto, me acostumei a fazer compras pequenas, quando não diárias, e para isso aquele carrinho de compras de velhinha funciona muito bem. Acontece que de tempos em tempos, preciso dar uma renovada em coisas mais pesadas, como produtos de limpeza, caixas de leite longa vida etc. Nesse dia, montamos uma verdadeira “operação compras”.

 

Na verdade, há duas opções, uma é mandar entregar em casa, o que já fiz diversas vezes. Entretanto, você precisa ficar esperando sem uma hora específica para a entrega. Nem sempre tenho essa disponibilidade. Agora, com o Luiz de carro, acabo abusando um pouco e pedindo ajuda.

 

Começa que para ele ajudar precisa ser no sábado, dia mundial das compras! Um inferno! Já no estacionamento a gente se estapeia por uma vaga. Daí enfrentamos um congestionamento de carrinhos de compras e de pessoas-rolha que não querem comprar porcaria nenhuma, mas estão ali com o único propósito de te encher o saco. Faço o possível para me desligar e me transporto para meu mundo feliz, apesar da cara de desespero do Luiz.

 

Muito bem, uma hora a gente termina e o próximo passo é atravessar todo estacionamento para pegar o único elevador minúsculo. Colocamos as compras no porta-malas, o mais rápido possível, pois já há outro desesperado pela vaga e uma fila de gente buzinando atrás dele.

 

Esqueci de contar, porque para mim isso é óbvio, mas não temos garagem no edifício. Alugamos uma que fica há uns três quarteirões da nossa casa. Aqui isso é muito perto. E claro que também nunca tem vaga na frente do prédio. Portanto, Luiz para em lugar proibido e, outra vez, tiramos as compras correndo de dentro do carro.

 

Enquanto ele vai estacionar, três quarteirões mais longe, vou eu me enrolando com porta, sacola, chave e o caramba. Às vezes, Luiz consegue me ajudar a por as compras no elevador, mas normalmente, utilizo a técnica “polva” que desenvolvi nas terras madrileñas. É simples, consiste em segurar a porta com a perna esquerda, prender a bolsa com o pescoço e com movimento ágil empurrar várias sacolas ao mesmo tempo para dentro do elevador.

 

Bom, vamos complicar mais um pouquinho? Não preciso dizer que o elevador é ridiculamente pequeno, né? Mas até aí, tudo bem, porque ainda temos o luxo de possuir elevador, coisa que não é garantida. Acontece que o prédio é antigo e foi renovado, ou seja, o original não tinha elevador. Aproveitaram uma área de circulação de ar e instalaram o dito cujo onde foi possível. Ocorre que os únicos lugares viáveis para se sair do elevador eram entre dois andares. Isso quer dizer que você sempre tem que subir ou descer um lance de escada, equivalente a meio andar. No nosso caso, como é a cobertura, sempre temos que subir.

 

Agora imagine depois de toda essa ginástica, saio eu troncha do elevador, exerço a técnica “polva” para tirar as compras de dentro dele e olho para essa última escadaria. O que mais posso pensar? Desculpe o francês, mas a única coisa que vem à minha cabeça é puta-que-pariu-três-vezes!

 

Abro a porta suada e cheia de cuidados porque o Jack vem me receber com gracinhas felinas e querendo sair. Nesse caso a “polva” evolui porque preciso da perna esquerda para segurar o Jack e da bunda para segurar a porta. Com muito cuidado para a porcaria da porta não bater porque ela tranca por fora. É mais ou menos o tempo do Luiz chegar, depois de estacionar o carro.

 

¡Joder! Alguém ainda acha isso chic?

61 – A deselegância divertida de “La Latina”

“La Latina” é um bairro colado ao centro da cidade. Apesar da sua proximidade aos pontos turísticos, ainda mantem seu lado castiço e é basicamente frequentada por moradores.

 

Pessoalmente, gosto muito de ficar em algum dos bares ao redor da Plaza Paja. Um dos meus favoritos é o Ficciones, onde as tapas são gostosas e tem um super tiramisú. Nesse domingo, ficamos no Las Musas, ambiente agradável, comida boa, uma torta de doce de leite divina e atendimento… bem, atendimento espanhol. Quando você consegue contato visual com o garçon e o convence a chegar na mesa, até que ele é simpático. De qualquer maneira, quem mesmo está com pressa?

 

Domingo fez um dia lindo. O outono está colaborando com a cidade. Tem chovido bastante, o que em tese está em época, mas ano passado foi a maior seca. Precisamos de água e nunca mais reclamei de chuva. Por outro lado, as temperaturas não estão tão baixas e esse fim de semana fez dias especiais, daqueles que você precisa estar na rua.

 

Portanto, os bares que nesse período já teriam guardado as mesinhas que ficam do lado de fora, adiaram a decisão um pouco mais. Sorte nossa! E que lugar melhor que “La Latina” para curtir um ar livre? Bom, até há outros, mas ficar nas terrazas olhando o povo passar é muito divertido. Há um tipo de campeonado nativo, não formalizado, de quem consegue ser mais esquisito. E pode acreditar, eles conseguem empatar sempre em primeiro lugar. Haja criatividade!

 

Luiz, eu e duas amigas, passamos a tarde sentados em uma dessas disputadas mesinhas externas. Você fica assim do lado de fora tomando conta dos cachorros alheios, reparando a roupa estranha dos outros, os cortes de cabelo irregulares engomados com gel, os sapatos desproporcionais de bicos e saltos finíssimos e pensando se você também não é um pouco esquisita. Enfim, vendo o tempo passar.

 

Prazeres simples que provocam um tipo de nostalgia do que não tinha, sossego. Tim Maia gostaria de Madri.

 

… ora bolas, não me amole, com esse papo de emprego. Não está vendo? Não estou nessa. O que eu quero? Sossego…

62 – Idas e vindas

No fim de outubro, foram embora nossas duas últimas hóspedes, minha tia e prima. Não sei quando as vejo novamente, mas já aprendi a não pensar nessas coisas, a gente sofre menos. O que faço é me despedir como se fosse encontrar as pessoas na próxima semana. E quem pode ter certeza se não será assim? A casa ficou meio vazia, mas sei que é por pouco tempo.

 

Na semana que vem chegam minha cunhada com uma amiga. Elas virão da China, literalmente. Fazem uma parada aqui e voltam para o Brasil. E assim vamos tocando nossa movimentada vida.

 

Por enquanto, ninguém mais previsto para esse ano, mas sempre acaba aparecendo alguém. Só sei que em dezembro quem sai somos nós. O Natal ainda passamos em Madri, mas o ano novo estaremos em uma estação de esquis na França. A propósito, vem um casal de amigos dos Estados Unidos para nos encontrar por lá. Ê mundinho pequeno!

 

Falando em Natal, hoje vi pela primeira vez a decoração natalina que começou a se espalhar pela cidade. Uma amiga havia me falado a respeito e achei meio cedo. No fim dessa tarde, vi com meus próprios olhos.

 

É meu terceiro Natal fora do Brasil. Pelo menos, agora sei onde comprar um tender. Aprendi no ano passado que é vendido no Ikea, uma loja sueca que vende móveis e acessórios para casa. Engraçado, né? Mas é que logo após os caixas, tem uma lojinha que promove os produtos alimentíceos suecos e, felizmente, na suécia comem tender! O peru é mais fácil de encontrar. Acho que vou fazer uma festa para os expatriados perdidos por aqui. Será que fica alguém?

63 – Novembro

Entrou na semana do meu aniversário. Digo semana porque sempre comemoro bastante ou pelo menos tento, ainda que esse ano está custando um pouco a me animar. Não estou triste, só não tenho o mesmo pique de costume.

 

A velocidade em que o ano passou não foi proporcional aos acontecimentos que planejei. Tudo bem, nem tudo que a gente quer consegue, mas é um pouco frustrante chegar ao fim do ano sentindo que as coisas estão muito parecidas ao ano passado. Não estão ruins, talvez não esteja mais habituada à essa semelhança com ontem, mas às vezes tenho a impressão que os degraus aqui são mais altos e o tempo para conseguir as coisas é diferente. Ou será que sou eu que não tenho a mesma agressividade? Estranho, porque sinto que retomei um pouco da raiva que pensei ter deixado para trás. Ainda faz parte da minha natureza.

 

Aparentemente, minha documentação espanhola para o próximo ano foi aprovada. Deveria durar dois anos, mas demorou tanto a ficar pronta que o primeiro já foi quase todo. Melhor que no ano anterior, pois vale mais tempo, entretanto foi aprovada no mesmo período. Parece provocação essas identidades sempre chegarem perto do meu aniversário.

 

Hoje quero menos ser espanhola que no ano passado, o problema é que também sou menos brasileira. E o mais esquisito, tenho menos vontade de ser qualquer nacionalidade. O absurdo título de imigrante parece ter me conformado, me caiu como uma pátria. Deveria ter me incomodado, pois no fundo há um sentido pejorativo, mas a verdade é que aliviou porque finalmente me definiu. Nos EUA era imigrante, aqui sou imigrante, se for para França sou imigrante… pronto, resolvido! Talvez essa seja minha vingancinha pessoal, pois o que deveria me inibir me fortaleceu.

 

Quando você tem uma casa para voltar, se comporta de maneira mais passiva na casa dos outros, pois sabe que é temporário e engole o sapo. Agora, posso respeitar as regras fora do que não é meu, mas como não tenho mais para onde voltar, faço por educação e não por obrigação. E isso faz muita diferença. Entro pela porta da frente e recebo pela mesma porta, todos deveriam merecer esse respeito.

 

Não era tão diferente assim no Brasil, um país com diversidade sócio-cultural e tamanho de um continente. Apenas, não havia me dado conta. Não tinha percebido que o meu sotaque misturado não era tão debochado como o dos nordestinos; achava muito importante lavar algumas roupas a mão e passar lençóis e toalhas, afinal de contas, não era eu que fazia; e não me dei ao trabalho de cortar relações com as pessoas que separavam seus talheres e pratos dos que usavam seus empregados. Não gostava, mas nunca tomei uma atitude séria. No Brasil também há imigrantes ou migrantes, o que dá no mesmo. Acho que se voltasse a morar lá mudaria bastante minha postura, não em relação ao que fazia, mas ao que não fazia ou não dizia. Ali também todos deveriam entrar pela porta da frente e merecer esse respeito.

 

Enfim, agora tenho uma festa para preparar e amigos de algumas nacionalidades para receber, pela porta da frente.

64 – Preparação da festa

Há exatamente um ano atrás, ainda não havíamos dado nenhuma festa desde que havíamos mudado para Madri. Todo mundo falava tanto que o espanhol era desconfiado, arredio e tal, que ficava sem graça de convidá-los.  Mas foi chegando a época do meu aniversário e foi me dando os cinco minutos de vontade de comemorar. Resolvi arriscar e fazer a festa assim mesmo. Foi ótimo! Convidei espanhóis, brasileiros e amigos de outras nacionalidades. Pois veio todo mundo. Na verdade, veio até penetra que virou amigo, mas essa história quem sabe conto outro dia.

 

E um ano e várias festas depois, estou outra vez igual a criança que não sabe se os amiguinhos vem no aniversário. Aqui, dia 09 de novembro, minha data de nascimento, é feriado. Nem é feriado em toda Espanha, só em Madri. É dia de La Almodena, que pelo que entendi, é tipo uma santa padroeira da cidade.

 

Muito bem, esse feriado cai em uma quinta-feira. Muita gente emenda e não trabalha na sexta, igualzinho ao que a gente acha que só acontece no Brasil. Resultado: um monte de gente viajando no fim de semana. Por isso, resolvi fazer a festa amanhã, na quarta-feira, véspera do feriado. Vamos ver se funciona.

 

Comecei a preparar as comidinhas hoje, para não me enrolar no dia. Vou servir carne louca, salada de batatas, beringela assada, surtido de ibéricos, queijos franceses, kani e canapés de salmão defumado. Assim, acho que dá para cobrir todas as nacionalidades, ou boa parte delas. De bebidas: vinho, whisky e caipirinha. Apesar do que, acaba todo mundo querendo caipirinha. Lendo agora, parece muita coisa, mas é que tenho pânico de que falte comida e bebida em festa. Sei que é uma paranóia, mas não consigo evitar.

 

Faço 37 anos e gosto desse número. Engraçado que de crises existenciais sou frequentadora, mas nunca me importei em envelhecer. A idade me tranquiliza.

 

Quer dizer, a idade tranquiliza, mas a festa não. Já vi que nem vou dormir direito!

65 – Finalmente!

Finalmente, chegou o dia do meu aniversário e com ele se foi o inferno astral! Vai gostar de festa assim lá longe, viu? Começou na véspera, com meus amigos legais e internacionais. Deu tudo certo!

 

Como sempre, me empenho na produção: velas, decoração, comidinhas, música. Acho uma delícia ficar pensando em quem-gosta-do-que-mesmo e dar um toque de cada um. Sei lá, acho que é uma maneira de fazer com que as pessoas se sintam bem vindas. Vale a pena pelos amigos do coração que fazem nossa vida melhor e nossa casa mais feliz.

 

Dei até uma de cupido. Não sei se vai funcionar, “que seja infinito enquanto dure”. O importante é dar beijo na boca.

 

Não comprei nenhuma torta ou bolo, na esperança de que ninguém lembrasse de cantar parabéns. Em vão! Dessa vez foi em três idiomas: espanhol, português e alemão. No último, fora a melodia, só entendi meu nome. Mas vá lá, até isso achei divertido, devo estar realmente ficando velha.

 

Só ganhei presente legal! Já fui começando logo a usar o que podia na mesma noite, nem deu tempo de esfriar.

 

De bebidas, como sempre, o sucesso é a caipirinha. Acho muito engraçado como sobra vinho. Quer dizer, sobra na festa, porque depois faço muito bom proveito. Eu mesma, parti logo para a agressão e fui de Blue Label. No aniversário eu mereço, né? Chutei o balde sem piedade e adorei. Quando estou bem, minha resistência ao alcool é muito grande. Engraçado isso de como nosso humor interfere na maneira que o corpo absorve a bebida. Não acordei com um dorzinha de cabeça sequer. Resaca zero!

 

Fiquei com pena do Luiz, que chegou do Cairo no mesmo dia, morto de cansado! Resistiu bravamente até o fim da noite que, inclusive, foi prolongada da nossa casa para o melhor lugar para dançar de Madri, o El Junco, é claro!

 

No dia seguinte, ai que preguiça! Ganhei café na cama, o maior luxo do mundo do melhor marido do mundo. Até meu gato veio me acordar com gracinhas ronronantes. Ficamos morgando em casa, curtindo o feriado. Aproveitei boa parte do tempo para responder as mensagens de parabéns da família e dos super amigos espalhados pelo mundo. Pelo telefone, falei com minha mãe, meu pai, meu irmão, uma amigona do Rio, horas e horas com uma amiga de Munique, meu avô e amigos daqui mesmo que não puderam vir na festa. Nessas horas, confesso que bate um pouco de saudade, mas daquelas boas, não as que te derrubam.

 

Putz, estou muito piegas hoje! Amanhã tudo volta ao normal, mas como é bom ter um dia em que a gente se sente especial e querida. Tenho muita sorte e estou feliz.

66 – A tosse do sapo

Tenho um tipo de tosse alérgica que me ataca de vez em quando. De um modo geral, surge por uma gripe, uma mudança de clima ou alguma alteração besta. Na verdade, é a minha resistência que cai e qualquer bobagem ataca minha garganta. De maneira que a gripe, ou o que seja, vai embora e o raio da tosse permanece. Por observação, notei que é sempre que estou nervosa, tensa, preocupada ou algo do gênero. Resumindo, no popular é quando tenho um sapo na garganta. Enquanto não engolir o sapo ou vomitar o dito cujo, a tosse não vai embora.

 

O curioso é que, mesmo sabendo disso, me esqueço com frequência. Talvez minha cabeça queira esquecer. Há algum tempo minha tosse começou, mas como também entrou outono, o clima mudou e tinha muita gente com dores de garganta, vírus, enfim, essas doenças modernas que sempre surgem nessa época, achei que deveria ser por isso. Não dei muita atenção.

 

Acontece que hoje me ocorreu que poderia ser a tosse do sapo. Daí, fazer o que? Mergulhar no pântano para caçar o bicho. Motivos de preocupação, tenho alguns, quem não tem? O fato é que evito alimentar os girinos e a maioria morre por inanição, mas às vezes passam alguns e viram sapos-boi.

 

Voltei o filme até lembrar quando comecei a tossir e foi por outubro. Acho que tinha a ver com meu documento de identidade que não ficava pronto nunca. Achava que não estava me afetando tanto, já tinha uma certa experiência nisso e tentei levar com naturalidade. Mas também voltei a andar com o documento americano na carteira, caso fosse parada pela polícia ou algum estabelecimento não aceitasse mais meu cartão de crédito. A identidade brasileira não vale muito aqui, mais pelo formato que pela procedência, e minha carteira espanhola vai caducada desde abril desse ano. Por mais que faça parte do procedimento legal, nem todo mundo sabe disso.

 

A proximidade com o aniversário agravou a situação. Nessa época tenho muita vontade de mudar, de realizar coisas. É como o fechamento do ano de uma empresa, você quer correr atrás dos resultados e acabar bem. De repente, me vi com 37 anos, que me soa como quase quarenta, e que podia dizer? Fiz pouco? Talvez sim, talvez não. Nem essa clareza tenho.

 

A festa ajudou, ter amigos me ajuda na certeza de fazer alguma coisa certa. Mas uma hora a festa acaba e fica a casa para arrumar.

 

Arrumar a casa me dava uma sensação de tranquilidade, de um certo controle. Mais do que isso, me fazia acreditar que também estava provendo o conforto para nossa família. Entretanto, acabo de descobrir que não é exatamente assim. Aparentemente, esse é um esforço inútil para manter uma ordem desnecessária de algo que não é meu. Talvez o caos seja mais confortável e, embora vá me custar um pouco, acho que também posso me adaptar a ele em casa.

 

Recebemos visitas no fim de semana e ajudou a aliviar o ambiente. Vieram a irmã do Luiz com uma amiga do trabalho e as duas são muito divertidas. Engraçado elas chegarem exatamente agora, pois pude ver meu passado e meu provável futuro que nunca foi. Como estou diferente de mim. Sinceramente, não tenho a menor idéia se isso é bom ou mau e talvez não compense avaliar por aí. Não é a primeira vez que me deparo com caminhos que não segui. Sei que minha vida é outra e que preciso fazer alguma coisa com ela. Mas o que?

 

Preparei as peças para a próxima exposição coletiva na faculdade, que acontecerá em dezembro. Gostei das obras e tive meus cinco minutos pessoais. Mas assim como na exposição de setembro, está me custando disfrutar, me sinto um peixe fora d’água. Por que posso navegar em tantas águas diferentes, entender tanta gente diferente e, mesmo assim, sempre ter essa sensação de não caber em canto nenhum? Não é uma reclamação nem um lamento, simplesmente não consigo entender.

 

Nossas hóspedes foram embora e não tive nenhuma vontade de arrumar a casa. Luiz começou a arrumar as coisas e eu nem entendi, talvez tenha sido para me agradar, mas não tive vontade de entrar muito no assunto.

 

No mesmo dia, soube que meu pai vai operar no Rio de Janeiro, no início de dezembro. Está com a carótida entupida. De certa maneira, já estávamos esperando e não parece ser uma cirurgia complicada, mas sempre preocupa um pouco, principalmente por estar longe. Ele parece tranquilo, o que é boa notícia. De toda maneira, é o segundo sinal violento que recebe para se cuidar. E preciso me acostumar com o fato de que isso não é minha responsabilidade, muito menos minha culpa.

 

Pela primeira vez na vida, tomei um remédio para dormir. A irmã do Luiz me garantiu que era natural e não viciava, é melanina. De qualquer forma, só peguei duas pastilhas, ainda tenho muito medo disso. Sempre preferi meu sono de merda do que medicação para dormir. Ontem não resisti à tentação e tomei o tal comprimido. Fui deitar pensando absurdos como por exemplo, se a melanina ajuda a dormir, será que as pessoas negras dormem melhor? Será que durmo mal porque sou branquela? Antes de evoluir muito esse par de bobagens, ao som da televisão e da rotineira briga dos vizinhos, dormi.

 

Acordei bem, descansada. Pouco depois, Luiz me avisou por telefone que a carta da imigração havia chegado no nosso antigo endereço. É a carta que faltava para atualizar meu visto de residência em Madri. Pus uma roupa correndo e fui lá buscar. Há poucos metros do edifício,  sem querer comecei a me preparar para o caso de não ser a carta correta, de ser outro de tantos enganos entre esses sete meses que vou conferir o correio no endereço anterior. Não era um engano, era a carta mesmo com a aprovação do meu visto para mais dois anos, dos quais um já quase passou. Bom, não é o passo final, com essa carta preciso ir na próxima segunda-feira tirar minhas impressões digitais, levar foto etc, e daí leva mais um tempinho para eles imprimirem a carteira. Mas essa parte costuma ser mais rápida e não há mais nada a ser aprovado.

 

Voltei para casa naquela alegria misturada com não-sei-o-que. Vinha comemorando e ao mesmo tempo pensando que se precisasse ir ao Brasil às pressas por causa do meu pai, seria complicado. Lembrei que já passei por isso antes e, no fim, deu tudo certo. Então, por que não tentar ser um pouco otimista? Vamos por partes.

 

No apartamento, sentei com mais calma para ler e organizar a papelada que tenho que levar na segunda. Quanto mais lia, mais tossia. E foi aí que lembrei da bosta do sapo! Tinha um sapo-boi e uma família de girinos engasgados na garganta. Como não estava com a menor vontade de engolí-los, resolvi vomitá-los um a um no teclado e queimar os que sobraram com um bom café pelando. Quem sabe assim a tosse acabe.

Errata

Algumas confusões são divertidas. Na crônica anterior, contei sobre uma medicação natural para dormir à base de melanina. Na verdade, era melatonina. Tudo bem que o nome é parecido, mas esse “to” no meio da palavra faz toda a diferença. Com melanina, no máximo poderia ficar mais moreninha, mas meu sono continuaria uma bela porcaria

67 – O mistério da batata frita

Vou me exibir um pouquinho e dizer que cozinho bem para caramba! Modéstia às favas, vou da comidinha caseira até pratos sofisticados sem descer do salto. O único problema é quando alguém resolve ser legal e me fazer companhia, porque me distraio e erro. Mas agora já perdi o pudor e aviso às pessoas que fico mais tranquila em cozinhar sozinha. Não ligo se for alguém que queira aprender, ou cozinhar junto, mas que fique claro que não é hora de conversa. I am a woman in a mission! Pisou na cozinha, a coisa é séria.

 

Acontece que tenho um ponto fraco que me irrita. Simplesmente, não consigo fazer a bosta da batata frita! Até rimou.

 

Enquanto morava no Brasil e nos EUA, isso não era um problema. Nunca liguei para batata frita, acho que fica com muito gosto de óleo. O cheiro e a aparência eram bem mais provocantes do que o sabor em si. Agora, quando mudei para Madri, a coisa mudou completamente. Aqui eles fritam a batata em azeite de oliva. Além do gosto ser radicalmente melhor, posso me iludir que é mais saudável.

 

Tem um tal de “huevos rotos” que consiste em batata frita no azeite, normalmente em rodelas, ovos fritos e uns pedacinhos de jamón. Há algumas variações, mas é basicamente o ovo com batata. Gosto quando o ovo vem frito com aquela geminha mole e a gente corta e mistura tudo. Putz! É um chute no balde!

 

Por isso, pouco a pouco, fui ficando com vontade de fazer a tal da batata frita no azeite, até que me arrisquei. Minha primeira batata não ficou ruim, ficou absolutamente asquerosa! Uma droga mesmo, foi humilhante! A segunda batata já não ficou tão asquerosa, só uma droga. Mesmo assim, o pobre do Luiz teve que comer sem fazer cara feia e provou seu amor quando fechava os olhos e fazia aquele som de “huuuummmmm”… E eu querendo jogar aquela merda daquela batata na parede! Ai, que raiva!

 

Daí vieram as dicas infalíveis: tem que secar a batata… tem que por antes no congelador… o óleo tem que esquentar até acender um fósforo… tem que vestir a batata de baiana… Fala sério, pareciam os planos infalíveis do Cebolinha, nenhum deu certo. Dez a zero para a batata!

 

Dei um tempo porque estava afetando minha auto-confiança culinária. No alto do meu despeito, tentei me convencer que nunca quis fazer batata frita mesmo, que invenção era essa agora.

 

Até que hoje Luiz ia viajar para Dubai e decidi preparar alguma coisa rápida para ele comer antes de encarar tantas horas de vôo. Fui na cozinha ver o que tinha e a geladeira estava caída que só, coitada. De repente, vi os ovos e bacon, mas achei que faltava consistência. Virei para o lado e lá estavam elas: as batatas! Caraca, juro que chega escutei aquela musiquinha de duelo de faroeste. Nem pensei muito para não me intimidar, arregacei as mangas e parti para o ataque. Não é possível que não acerte fazer uma porcaria de uma batata frita!

 

Muito bem, fazer eu fiz. Fiz uma tremenda cagada na cozinha! Azeite para tudo que é lado, roupa com cheiro de gordura, cabelo nojento… e tudo isso para fazer uns “huevos rotos” que beiravam as raias do medíocre. Bom, pelo menos posso dizer que foram as melhores batatas que fiz na vida e não estou mentindo.

 

Ao final, sob forte resistência, tive que me render ao conceito Mc Donalds. Fazer uma comida gourmet é mole; difícil, desculpe, é fazer a merda da batata frita!

68 – Mais (ou menos) um capítulo da novela documentação

Ontem cumpri mais um passo nesse longo caminho que consiste a regularização da documentação de uma imigrante. Pronto, já assumi, sou imigrante mesmo! Paciência.

 

Essa etapa foi a da renovação do meu NIE, como expliquei algumas vezes, é a carteira de identidade do estrangeiro. Na primeira etapa, a sua carteira vale por um ano; nessa segunda, vale por dois anos. A minha primeira carteira, ou tarjeta, como chamamos aqui, venceu em abril e demorou todo esse tempo de burocracia, sete meses, para ser tudo aprovado e eu poder tirar as digitais outra vez e entregar novos retratos. Nesse período, sou legal no país, mas não possuo um documento em mãos que prove isso, o que é bem incômodo. Ficava sempre na dúvida se alguém ia me fazer provar que fucinho de porco não é tomada.

 

Na verdade, existe uma declaração de viagem que posso tirar, caso precise deixar o país e voltar durante esse período de trâmite da documentação. Tirei uma que valeu até agosto passado e talvez precise tirar outra agora, pois viajarei no Natal e Ano Novo. É que depois de tirar as digitais, huellas em espanhol, a carteira demora cerca de quarenta dias para ficar pronta e viajarei antes disso. Tudo bem, daí é só esperar, não há mais nada a ser aprovado.

 

Devo confessar que dessa vez foi bem melhor do que na primeira. Começa que adiantou um passo. Na primeira vez, ainda existia um documento intermediário entre a carta que recebi e o dia que tirei as digitais, mas isso é muito chato de explicar. Depois, da primeira vez passei quatro horas em uma fila, do lado de fora, a cinco graus centígrados! Agora, havia  uma advogada me acompanhando, que contratou uma pessoa para guardar lugar na fila, ou seja, quase não esperei. Até que enfim tive alguma mordomia latina! Já estava desacostumada.

 

Mas definitivamente, o que me chamou atenção mesmo foi o atendimento dos funcionários espanhóis, sensivelmente melhor. Considerando que sempre reclamo do que não gosto, preciso ser justa e elogiar a evolução. Primeiro, acho que as pessoas aprenderam o serviço. A lei de imigração aqui mudou muito no ano passado e acredito que ninguém sabia muito bem o que estava fazendo. Os processos já estão mais ajustados e há bem menos gente a ser atendida.

 

Depois, tenho certeza que houve algum tipo de treinamento dos funcionários. Sou ex-consultora e farejo isso de longe. Quando a segunda pessoa que te atende, antes de começar a fazer qualquer coisa, te olha nos olhos e diz bom dia, pode acreditar, isso não é berço, é treinamento.

 

Enfim, foi um alívio. Por mais que estivesse com tudo certinho, sempre acho que na hora pode surgir algum porém. É uma neurose, mas o pior é que às vezes eles encrencam. Felizmente, não aconteceu nada imprevisto e, ainda por cima, o atendimento foi ótimo!

 

Como havia imaginado, até minha tosse melhorou! Também, menos um sapo-boi entalado na garganta!

69 – Terça-feira em Madri

Fi-nal-men-te estamos na última semana de aula. Chega! Agora só fica faltando a exposição, que inaugura no dia 12 de dezembro e irá durar cerca de um mês. As duas peças que vou expor estão praticamente prontas, assim que estou prestes a dar o ano por encerrado.

 

Saí da aula na terça-feira, junto com minha amiga brasileira e, para variar, as duas famintas. Luiz viajando e eu com preguiça de cozinhar. Resolvemos jantar nós duas, alguma coisa leve.

 

Paramos no bom e velho Trifón, minha copa cozinha. Claro que era só para tomar um vinhozinho, comer rapidinho e pronto. Tudo mentira! Juntar duas baladeiras e acreditar que na segunda taça de vinho ainda teríamos algum juízo…

 

Bom, não tinha nada para fazer no dia seguinte mesmo, assim que demorei quase trinta segundos para aceitar a proposta de dar uma passada no El Junco.

 

Não sei quantas vezes já falei do El Junco, um bar de jazz pequeno, esfumaçado e com jeitão underground. Isso descreve o lugar, mas não a experiência, essa fica difícil definir. Foi mais ou menos assim, chegamos e o moçambicano-gente-boa-com-nome-de-vício nem cobrou nossa entrada. No fundo, rolando aquele show de jazz rasgado e informal. Não dava para saber direito quem era da banda e quem era do público, porque o palco é meio parte da pista de dança e os músicos se alternavam. A noite foi do trumpete, nem é meu instrumento favorito, mas a bola era dele. Engraçado isso nos shows de jazz, todos podem ser ótimos, mas a noite é sempre de algum, pelo menos na minha opinião. Sentamos em uma das pouquíssimas mesas altas e alguém tentou pegar meu whisky, acho que só para começar a conversar. Daí perguntou de onde éramos e eu disse Brasil, ele disse que era argentino e fiz uma indisfarçável careta, ele perguntou se a gente não gostava de argentinos e falei depende, da onde? Ele disse Buenos Aires e pensei, piorou! Tá bom, última chance, Pelé ou Maradona? Ele enrolou, mas disse Maradona. Lo siento, tío! Sem possibilidade de diálogo. Três erros em três respostas, acho que fui até legal porque não sabia se minha amiga estava interessada. Mais tarde, no banheiro feminino, eu, minha amiga e uma espanhola decidíamos algo importantíssimo para a humanidade, deveria deixar minha camiseta para dentro ou para fora da calça? Melhor para fora porque não estava de cinto. A espanhola achava o Brasil muito legal e quis saber o que achávamos de Madri. Pues yo, ¡encantada! Dançando na pista e fofocando em português, notamos a presença de um papagaio de pirata fazendo de tudo para escutar nossa conversa, até que perguntou se éramos polacas. Polacas?! Disse que ia ao bar buscar alguma coisa e perguntou se a gente também queria algo, muito gentil, mas não obrigada. Um cidadão se entitulando “el mago” se aproximou da minha amiga e começou a fazer uns truques de mágica com cartas, daqueles bem antigos. Acompanhava uma portuguesa que ficou minha amissíssima de quinze minutos, muito simpática. Quando ela foi embora, incentivei seu outro amigo, um espanhol baixinho bioquímico, a realmente deixar de fumar por sua namorada com nome de tênis. Ele dizia, sincero, que ía tentar parar por ela, mas claro que dizia isso enquanto acendia outro cigarro. O pessoal da banda passou por nós e avisou que iam para outro bar, chamado “El Barco”, e nos convidaram a dar uma passada por lá. Quem sabe, mais tarde. Muito bem, isso tudo junto, aliado a uma música excelente e à possibilidade de dançar do jeito que você quiser, é o El Junco.

 

Minha amiga e eu, saímos para procurar o tal “El Barco”. Pedimos informação ao simpático moçambicano da porta. Ele sabia mais ou menos onde era e foi ajudado pelo pedinte, a quem apesar de educadamente negarmos uma contribuição, participava com boa vontade da explicação. Bom, cada um falava uma coisa e nós entendemos uma terceira, porque nunca achamos o bar. Desistimos, já estávamos cansadas e paramos no “Sprint” para comer um cachorro quente, que na minha cabeça media uns dois metros! De lá, voltamos para casa.

 

Cheguei sã, salva e fedida a cigarro. Tomei um banho rápido e apaguei até o dia seguinte, quando acordei com uma ressaca daquelas! Burra, bebi pouca água. Também, Luiz não estava lá para me lembrar! Com a cabeça pesando duzentos quilos e totalmente mareada, fiz o que era mais lógico: me pesei. Beleza! Voltei ao meu peso. Só uma alma feminina consegue ver o lado bom de uma ressaca seguida de enjôos: emagrece!

70 – Quando estamos velhos e para que?

Acho que a primeira vez que me dei conta de que a idade poderia ser um limitador, tinha por volta dos vinte e pouquíssimos. Hoje me parece uma idade desproporcional para se sentir velha, mas houve um motivo. Sei lá porque cargas d’água, me deu vontade de aprender a dançar balet e simplesmente não existia turmas iniciantes para essa idade, ou melhor, para qualquer pessoa com mais de doze anos! E não é que quisesse ser bailarina do teatro municipal, mas não importa, seu corpo não responde à altura e você não é mais capaz de realizar os movimentos.

 

Enfim, me pareceu estranho, mas tinha tantas outras possibilidades, que não dei maior importância ao fato.

 

Anos mais tarde, já com Luiz em Atlanta, fomos com um casal de amigos fazer escalada indoor pela primeira vez. Claro que não dei nenhum show, mas fiz e me diverti, assim como nossos amigos. Minha amiga era a única  escaladora profissional. Quando saímos, seu marido nos disse que se sentia feliz em ser capaz de ainda tentar um esporte novo. Não estávamos acima do peso, não tínhamos nenhum problema aparente e tínhamos um histórico de atividade física que nos permitia experimentar. O que ele não sabia é que eu, diferente dos demais, não tinha nenhum histórico de atividade física, sempre fui uma ociosa nesse sentido e, por ignorância, me orgulhava disso.

 

Entretanto, o que ele disse ficou martelando na minha cabeça. Por um lado, compartilhava de sua satisfação por ter sido capaz de, ou mal ou bem, participar da atividade. Por outro, me ressenti de ter sido tão relapsa ao longo da vida, possuindo um biotipo que certamente me favoreceria no esporte. Nunca havia me dado conta que não cuidei do meu corpo com a atenção merecida. E pela segunda vez, senti que a idade poderia ser um limitador.

 

O tempo passou e fomos visitar um amigo em Vermont, que mora perto de uma estação de esquis. Luiz estava louco para tentar, eu tinha alguma curiosidade, mas o frio era maior. De qualquer forma, lá fomos nós. Ele saiu esquiando logo de cara, tem muita facilidade para esportes e também muito equilíbrio. Para mim não foi tão fácil. Difícil dizer o que me atrapalhava mais, se o frio, se a resistência ou o desconhecimento. Só sei que foi duro e fiquei com uma sensação ambígua de curiosidade e decepção. Mas uma coisa era evidente, esse sentimento de ter começado tarde demais. Aos 35 anos, não é que a idade poderia ser um limitador: era um limitador de fato e, nesse caso, o tempo do verbo faz toda a diferença.

 

Um ano depois, em Andorra, procurei ter uma atitude mais positiva. Afinal de contas, Luiz estava tão empolgado com a idéia de esquiar, que não me custava tanto assim tentar. Mas a verdade é que tinha poucas ambições. Queria no máximo ser capaz de acompanhá-lo e brincar um pouquinho nas pistas iniciantes, enquanto ele se atrevia pelas mais complicadas. E digo, sinceramente, que foi quando me bateu forte o ressentimento de não ter começado criança. Não digo só pelos esquis, mas pelo meu descaso físico.

 

O lado positivo é que fiquei com a pulga atrás da orelha e um gostinho de quero mais. Sentia que nunca seria uma esquiadora, mas poderia melhorar. Apesar de tudo que me custava, havia alguns momentos que me superava e era muito bom.

 

Em Madri, começamos a frequentar uma pista de neve artificial, no shopping Xanadú. Já contei algumas vezes essas experiências e como, aos poucos, fui evoluindo e passando a gostar. Lembro-me da primeira vez que fomos até lá e só Luiz esquiou. Fiquei olhando de fora e pensando que nunca conseguiria descer aquela pista com ele. Novamente me enganei que iria ficar na pista de iniciantes, gastando tempo, enquanto ele desceria na maior. O fato é que a pista pequena ficava cada vez mais fácil e entediante. Entre o tédio e o medo, sempre prefiro o medo e comecei a descer a pista maior também. Nos tornamos frequentadores do lugar e, ainda que me custasse muito no início, cada vez desfrutava mais.

 

Um dia em casa, quando saí do banho, notei com uma certa surpresa que minhas pernas estavam diferentes, mais rígidas e com músculos que não tinha. Olha, aos vinte anos, isso poderia não ser nada demais, talvez nem notasse, mas arrastando nos quarenta, quando as únicas novidades no nosso corpo são celulites e uma bunda desaparecente, pode acreditar que ao perceber qualquer coisa mais dura, nem que seja o nariz, a gente quer soltar rojões de felicidade! Não é que seja tão relaxada, me cuido, mas no sentido de comer coisas saudáveis, procurar não sair do peso, um creminho aqui outro ali, enfim, o básico feminino para desacelerar o processo de envelhecimento. Ou em outras palavras, não me importa envelhecer, só quero envelhecer bem.  Mas reverter essa situação e perceber que podia não só estacionar temporariamente esse processo, mas sim melhorar fisicamente, para mim foi uma vitória.

 

Gaiatices à parte, fiquei muito orgulhosa, não apenas pelo lado da vaidade, mas por essa sensação de conseguir correr atrás do prejuízo. De repente, me caiu a ficha que parte da minha dificuldade nos esquis estava na minha cabeça. Tenho limitações, levo dois joelhos operados, sinto vertigens, não sou nenhuma garota, mas e daí? Se cada vez que for fazer alguma coisa tiver que pensar em todas as desvantagens… Isso sim seria cabeça de velha.

 

Percebi que estava reclamando muito e fazendo menos do que poderia. Essa resistência  me deixou com um pouco de raiva. Finalmente, mudei minha atitude de verdade. Decidi que aprenderia a esquiar bem e pronto.

 

Coincidência ou não, depois dessa decisão tomada, minha maneira de esquiar mudou, alavanquei a curva de aprendizado. Continuo tendo dificuldades, mas me limitam cada vez menos. Desço a pista envaretada, nem sempre tão controlada, mas mantendo a pose.

 

Nesse fim de semana, ganhei um par de esquis. Estreiei ontem, quando passamos mais de três horas na pista, até congelar os pés.

 

Posso estar velha para fazer balet, mas para esquiar ainda dá tempo!