32 – El coche

Um ano e meio depois de chegar em Madri, jurando que não queria mais dirigir na vida, eis que entra ele cheio de moral: o carro novo!

 

Havíamos abandonado esse conceito de ter carro, até que Luiz passou a ter direito a um no seu trabalho. Quando alguém te oferece uma BMW zerinho, totalmente na faixa, vamos combinar que fica difícil dizer não.

 

Essa história começou há pouco mais de um mês atrás, quando ele descobriu que poderia ter direito a um carro pela empresa. O processo é um pouco burocrático e não tínhamos certeza de quanto tempo tardaria. Resolvemos esperar, sem contar muito que fosse acontecer. Pois aconteceu.

 

Como contei na crônica anterior, tínhamos visitas em casa e Luiz fez surpresa ao chegar com o carro novo. Vou confessar que gostei da idéia. O automóvel vai ficar com ele, que realmente precisa. O escritório agora fica mais distante do nosso apartamento e não há como chegar de metrô. No meu dia-a-dia, um carro não me faz falta e vai continuar sem fazer, mas é bom ter uma mordomia de vez em quando. Acredito que vá ajudar também a conhecer melhor os arredores de Madri.

 

Claro que vem acompanhado de alguns probleminhas básicos, como por exemplo, onde estacionar? Agora é fácil, agosto a cidade é vazia e sobram vagas, mas em setembro essa situação vai mudar rapidamente. Estamos buscando lugares próximos para alugar uma garagem e espero conseguir resolver isso logo.

 

Há uma outra questão pendente, tanto eu como Luiz temos as carteiras internacionais. Entretanto, para dirigir aqui, precisamos tirar a carteira de motorista espanhola. Isso significa que precisamos fazer auto-escola e provas teórica e prática. Um saco, né? Mas não tem jeito. Acho que a minha, vou adiar um pouco mais, já que não devo dirigir mesmo. Acontece que Luiz precisará fazer o mais rápido possível. Isso aqui é a maior máfia, você precisa pagar cerca de 200 euros para uma escola, mesmo sabendo dirigir e já tendo carteira em outro país, e depois fazer os testes, que não são nem um pouco simples. A prova teórica inclui mais questões de primeiros socorros do que de direção. Paciência, espero que na minha vez o Brasil tenha algum acordo com a Espanha e não tenha que passar por essa chatice novamente. A propósito, passamos por isso em Atlanta também.

 

Quanto à relação com o carro, para mim ocorreu algo curioso, acho que quando a gente mora em São Paulo, existe uma ligação direta entre seu automóvel e seu status social. Acontece em outros lugares, mas pessoalmente, percebi isso de maneira mais clara em São Paulo. Você se sente o que o seu carro é. Em parte, talvez seja por passar tanto tempo nele. Nos Estados Unidos, isso também ocorre, mas como estava de implicância, não dei muita atenção por um certo despeito. Aqui, de repente senti que me empolguei toda pela marca do carro. Achei que me sentiria mais importante e fiz mil gaiatices com Luiz e seu super carro novo. Mas a verdade é que, quando entrei no automóvel, ao ouvir as brincadeiras das nossas hóspedes, que estreiaram o carro conosco e também ficaram de gaiatice com Luiz, a única coisa que vinha na minha cabeça era: mas é só um carro. Será divertido e nos dará maior mobilidade, mas é só um bem de consumo. Eu não sou ele, nem quero ser.

 

Continuarei caminhando pelas ruas, fazendo nossas compras a pé e voltando da balada de taxi. Afinal, ficamos caretas, no bom sentido, e só bebemos com responsabilidade. Ocorre que bom mesmo é ter carro e não precisar.

33 – … en estos días de verano

No ano passado, fiquei meu primeiro agosto em Madri. O suficiente para jurar de pés juntos que jamais faria essa tontería outra vez!

 

Como tudo que a gente promete que nunca mais fará é logo a primeira coisa que a gente faz, a Lei de Murphy não me deixou fugir à regra e cá estamos nós, outro agosto aqui.

 

Esse é o mês que Madri muda de endereço. Muitas lojas e restaurantes fecham para férias, a cidade fica deserta, animais são abandonados, velhinhos são largados nos hospitais pelas próprias famílias, enfim, coisas bem tristes.  E isso tudo se deve ao calor insuportável que faz nessa época do ano, que leva todo mundo a fugir sem olhar para trás. Ficam meia dúzia de gatos pingados que sobraram, uns pringados.

 

Pois se o universo conspirou para que fosse assim, também nos ajudou a mostrar mais uma máxima, a que toda a regra tem exceção e que nem sempre isso é ruim. O clima está incrivelmente agradável! Os dias estão lindos e o calor razoavelmente suportável. Dá até medo de elogiar.

 

É verdade que na hora da siesta, entre 3 e 5 da tarde, a coisa fica meio complicada. Mas as manhãs e as noites estão uma delícia! E, convenhamos, na pior das hipóteses, ainda posso dizer que estou passando férias em Madri!

 

Os dias ensolarados tem a mesma claridade da praia e, mesmo usando protetor solar diariamente, nem estou tão branquela. Saio de camiseta cavada e tenho até marquinha branca da fita do Senhor do Bonfim que não arrebenta nem a pau!

 

Ontem fiz um programa que adorei, andar de bicicleta no parque do Retiro. A dica foi de uma amiga brasileira que mora aqui, fui com ela. Na Avenida Menéndez Pelayo, bem na frente de uma das portas para o parque, há uma loja que aluga bicicletas.

 

Minhas primeiras pedaladas saíram meio desengonçadas, mas rapidamente entrei no esquema. A boa notícia é que não ando tão enferrujada, minha musculatura amanheceu sem um pingo de dor. A parte difícil é, digamos, a parte glútea. Caraca! Aquele banquinho miniatura torturador de bumbuns só pode ser sacanagem dos fabricantes, né? Precisa mesmo ser tão pequeno e desconfortável? Deve ser um complô para vender short acolchoado!

 

Mas, enfim, a gente esquece o desconforto quando vai um pouco mais depressa, sente o vento no rosto e aquela luz, que parece estroboscópica, se alternando entre as folhas das árvores. Em breve, elas estarão amarelando e continuarão bonitas até o inverno.

 

Uma coisa engraçada, a gente não transpira. O clima aqui é tão seco que o suor evapora! Você precisa estar bem atento para não desidratar. Por outro lado, você não fica com aquela aparência nojenta de quem parece que não toma banho há dias. Apesar que alguns não tomam mesmo!

 

Assim que conseguir sentar sem franzir a testa, voltarei lá para repetir a dose. Quem sabe da próxima vez me anime e vá de biquini. Praia de europeu é gramado no parque, sabia? Quem não tem cão…

34 – Las terrazas

Quando entra o verão, por volta de junho, também se inaugura a temporada das “terrazas”.  Não se traduz exatamente como terraço. Tratam-se de espaços com mesas ao ar livre, não necessariamente no teto dos edifícios, pode ser nas calçadas mesmo. É quando as mesas dos bares e restaurantes se mudam para o lado de fora e todo mundo quer curtir o bom tempo.

 

Apesar do pouco tino comercial que o espanhol possui, as “terrazas” parecem fugir um pouco à essa regra e os estabelecimentos se esforçam em viabilizar espaços criativos, bonitos e confortáveis. Normalmente, inclui algum tipo de evento musical ou artístico.

 

Há “terrazas” realmente interessantes e hoje indicarei algumas que gostei. A primeira tem um jeito mais tradicional, sem perder a elegância. O lugar chama “El Espejo” e fica na calçada do Paseo de Recoletos, quase na Plaza de Colón. Possui uns vitrais coloridos, com jeitão de estação antiga, e é comum ter apresentações em um enorme piano de cauda.

 

Outra “terraza” super charmosa, que entrou rapidamente para a minha lista de favoritas, é a da “Casa de América”. Inaugurou esse verão e já começou bem. O bar tem um clima de lounge, com almofadões e esculturas metálicas. Inclusive, serve caipirinha. A partir das nove da noite, abre o restaurante “Paradís”, também ao ar livre, entre heras gigantes, embaixo da copa das árvores e a luz de velas. Bom serviço, bons vinhos e cardápio original. Fácil agradar.

 

Uma outra que é bonitinha e agradável, mas só serve bebida e há pouca oferta é o “Marula”, embaixo do Viaduto de Segóvia. Esse viaduto possui uma história meio fúnebre, era de onde os suicidas espanhóis gostavam de se jogar. Como se pode observar, até para se matar, se seguia algum tipo de processo estabelecido. Vá ser burocrático assim lá longe! Hoje em dia, para evitar a tradição esdrúxula, o viaduto é todo protegido com vidros bem altos. Mas enfim, o local não possui nenhum tipo de clima pesado, pelo contrário, é arborizado e simpático. Fica na região de La Latina, uma área bem castiça e alternativa da cidade. É só lembrar de não ir com muita fome!

 

Para quem gosta de música eletrônica, as “terrazas” de “La Casa Encendida” são uma boa pedida. Oferecem sempre concertos com hardcore, post-rock, drum’n’bass, hip-hop, trip-hop, entre outras linguagens que a gente não sabe bem o que significam e é mais fácil chamar de música eletrônica.

 

O que não falta em Madri são opções de “terrazas” em estilos e preços distintos. Continuarei experimentando. O fato é que, enquanto o tempo está bom, a gente adora por as manguinhas de fora, literalmente.

35 – Fiesta de la Paloma

Sexta-feira, fomos matar a saudade da balada. Desde que havia chegado do Brasil, não saíamos para dançar.

 

Começamos pelo “Lateral”, um bar com ótimos tapas e o maitre mais antipático da cidade, que é quem sempre me lembra porque demoro tanto para voltar lá. Mas enfim, passado o mal humor do déjà vu de stress da chegada, a companhia estava agradável e relaxei.

 

Luiz estava meio cansado e achei que de lá voltaríamos para casa. Ele acabou se animando e fomos ao bom e velho “El Junco”. Chegamos cedo demais e ainda estava vazio. Daí, fazer o que? Quem está na chuva…

 

Decidimos tentar o Berlin Cabaret. Finalmente, conseguimos entrar! O Berlin é um dos meu lugares favoritos por aqui, bizarro, mas tudo funciona. Entretanto, há muitas outras pessoas que compartilham da mesma opinião e no fim de semana fica praticamente impossível entrar. Quer dizer, pelo menos para mim que não tenho paciência para filas longas sem nenhuma garantia.

 

Bom, mas contei essa história porque o tal do Berlin fica em La Latina e, por isso, fomos parar nessa região pela uma da matina, até rimou. Acreditávamos que poderia estar meio vazio, afinal de contas era um fim de semana de “puente”. Puente é o nosso feriado emendado. O feriado mesmo era na terça-feira, mas ninguém trabalhava desde sexta.

 

Quando saltamos do metrô, a surpresa: a rua estava absolutamente lotada. Uma amiga perguntou a um policial do que se tratava e ele respondeu educado, mas com a voz de quem dizia algo óbvio: La Paloma! Para quem não sabe, paloma quer dizer pomba em espanhol.

 

Claro que não tinha a menor idéia de que raio de festa era essa, mas havia escutado algo sobre o feriado ser por causa de uma “paloma”. Não achei que ninguém faria tanta festa por conta de uma pomba e certamente seria algum tipo de santa ou algo assim. Nesse dia, descobri que era a “Virgen de la Paloma”, celebrada todo dia 15 de agosto, quando há missa televisionada e um tipo de cerimônia em que um esquadrão dos bombeiros baixa o quadro com a imagem da virgem. Há festas por toda Espanha, procissões, touradas etc. E, por favor, que não me perguntem o que a tourada tem a ver com isso.

 

Como em todo país religioso, as festas pagãs são ótimas! Em La Latina, os bares colocam música alta e mesas do lado de fora. Montam balcões para vender bebida na área exterior e a rua fica entupida de gente! A decoração parece de uma grande festa junina, com as bandeirinhas e tudo. Até que é animado, ainda que seja difícil para eu entender uma imagem gigante de santa entre a música eletrônica dos DJs de bares concorrentes. Dura todo o feriado, haja energia!

 

Cair de pára-quedas no meio de um festão na rua não foi nada mal. Boa forma de voltar à ativa na noite madrileña.

36 – Montanha-russa

Quando era criança, um dos meus brinquedos favoritos era a montanha-russa. Acho que havia algo do proibido, de ter idade para entrar em uma. Mas era principalmente pelo gosto da sensação da queda e do contraste entre a calma normal e a adrenalina logo em seguida. Essa coisa de ir de zero a duzentos em alguns segundos.

 

Com o tempo, fui perdendo um pouco essa vontade, até me parecer sem graça. E não é que não seja mais possível me impressionar com as quedas ou curvas, que se tornaram bem mais radicais, mas simplesmente é uma sensação que não me faz mais falta. Foi parecido ao kart, antes de poder dirigir, era algo que me empolgava bastante. Logo após ter minha carteira de motorista, me parecia bobo pilotar um carrinho tão pequeno e desconfortável. Sei que é outro conceito e outras emoções, mas era assim que percebia.

 

Há umas poucas semanas atrás, fomos a um parque onde as principais atrações são montanhas-russas e não tive vontade de entrar em nenhuma. Aquilo ficou martelando na minha cabeça depois, por que tamanho desinteresse em algo que já gostei tanto? A gente precisa ter cuidado com o que pergunta, porque as respostas chegam e a minha chegou. Acho que não sinto mais falta porque muitas vezes minha vida se transforma em uma.

 

O feriado foi gostoso e coroado por uma ida ao “hamman”, banho turco. Passei uma quarta-feira de princesa com amigas, alternando entre piscinas de temperaturas diferentes, sauna e massagem para relaxar. Perfeito! Só não percebi que não era um dia de calma, e sim de calmaria.

 

No dia seguinte, acordei tranquila e resolvi fazer um bobó de camarão para o Luiz, prometido desde minha ida ao Brasil. Chamei alguns amigos para jantar conosco, algo informal, é que há comidas que são feitas para se saborear com mais gente. Separei os ingredientes e fui checar minhas mensagens na internet.

 

Comecei a ler uma mensagem da minha mãe, havia uns dois dias que a gente não se encontrava virtualmente, o fuso agora está um pouco complicado. Ela começou a me contar da sua saúde, que estava com uma tosse que não passava, que ia no médico… e no meio da mensagem começou a me contar que meu avô cortou os fios do pescoço, por onde faz a diálise. Tomou as rédias por sua conta e tentou resolver esse assunto de uma vez por todas. Quando minha tia tomou conhecimento, foi o corre-corre que se pode imaginar para salvar a vida dele. Naquele momento, tudo estava sob controle e ele estava bem, em casa novamente.

 

Li a mensagem e fiquei paralizada alguns minutos na frente da tela. Não conseguia falar nada, ligar para ninguém, nem chorar. Há coisas que a gente não tem palavras para descrever. Minha reação inicial foi um pouco patética, acho que por negação, não sei. Resolvi ler as outras mensagens, como se nada tivesse acontecido, precisava ter alguma coisa na minha cabeça que não fosse a frase: meu avô tentou se matar.

 

Não consegui ligar para o Luiz e contar, até agora é difícil para eu escrever, mas não posso apagar esse capítulo porque ele aconteceu. Era cedo ainda para ligar para o Brasil e fui para cozinha decidir se faria ou não o bobó. Naquele momento, ligar para as pessoas e explicar porque estaria cancelando o jantar era mais difícil que me concentrar nele. Resolvi adiar a decisão e comecei a preparar os ingredientes. Descascar a mandioca devagar, cortar em cubos pequenos os tomates, a cebola e os pimentões coloridos, amassar o alho e lembrar de não colocar quase sal. O sal era muito importante porque salgo a comida quando não estou bem. A atividade rotineira e a vontade de acertar foi clareando um pouco as idéias e me acalmando de uma forma meio absurda. A verdade é que era bom ter alguma coisa que pudesse controlar e fazer direito.

 

A hora passou e liguei para o Brasil, primeiro para o Rio, falei com meus pais por MSN e minha mãe por telefone. Em seguida, liguei para minha tia em BH, que é quem está com meu avô. Não sabia se isso era melhor ou pior, mas era a única coisa que conseguia fazer para tentar ajudar. Conversei com ela e entendi melhor os detalhes. Falei um pouco também com meu avô, nos segundos que ele tem paciência para telefone. Aparentemente, a situação estava sob controle, apesar de todos ainda estarem bastante abalados. Meu avô não sabe direito o que passou, não tem muita certeza do que foi verdade e do que foi sonho. Ele está lúcido, mas não em cem por cento do tempo. Ele sabe o que faz, mas não mede muito as consequências e a memória se confunde. O que talvez seja bom.

 

Voltei para cozinha me convencendo que não tinha nada mais a fazer. Só podia fazer um bobó. E fiz. Não salguei, ficou um pouco ácido, mas isso eu sabia como corrigir. Acho que o mais importante na cozinha não é acertar, mas saber corrigir. A única coisa que me restava para salvar naquele momento era um jantar.

 

O caos cooperou comigo, Luiz e nossos convidados chegaram praticamente na mesma hora. De maneira que não precisei me esforçar muito para fazer a cara de que estava tudo sob controle porque a conversa foi fluindo naturalmente. Em alguns momentos eu me lembrava, mas com um pouco de vinho aqui, um bate papo ali, fui sinceramente conseguindo me distrair. Apesar de me impressionar com essa capacidade de sentir coisas tão contraditórias ao mesmo tempo.

 

Exagerei no vinho. Sabia que não me desceria da mesma maneira, mas não me importou. Estava de saco cheio de tanto controle, que se fudesse o controle, o que queria mesmo era chutar o balde! Por isso, quando nossos amigos disseram que dali sairiam para dançar, falei com Luiz em particular que precisava ir junto. Contei para ele, discretamente, o que aconteceu e acho que ele percebeu que estava a um triz de explodir, ou implodir. Ele não podia ir também, era o único que precisava acordar cedo no dia seguinte, mas acredito que sabia que estava entre amigos e que quando entro nesse loop, preciso de ar.

 

E assim foi. Saí com eles e ainda bebi um pouco mais. Por contraditório que pareça, me diverti. Entrei num tipo de universo paralelo feliz e me acabei de rir e de dançar a noite toda. Na volta para casa, minha amiga voltou comigo e, às gargalhadas, não conseguíamos entender porque a fechadura estava viva e não aceitava a chave de nenhuma maneira! Da calmaria à tempestade, da depressão à euforia, em algumas horas, lá ia eu na porcaria da montanha-russa outra vez.

 

Quando deitei, minha cabeça girava horrores e na garganta a frase ainda estava entalada. Nem todas as gargalhadas do mundo tiraram ela do lugar. Aquele dia ainda existia e não havia confrontado a realidade como deveria. Meu avô quis se matar. Olhei para o lado e Luiz já estava dormindo, não tive coragem de acordá-lo, pelo menos, não de propósito. Desci e fui conversar com minha amiga. Pela primeira vez, consegui contar sem me controlar e chorei até ficar exausta. Finalmente, podia dormir.

37 – Esquiar no verão

Nos arredores de Madri, há um shopping que tem uma estação de esqui com neve artificial. Não é imitação de neve, é neve mesmo! Lá dentro faz entre um e dois graus negativos. Tem uma pista pequena para iniciantes e outra maior, com 250 metros de descida. Diz a lenda que é a segunda maior pista de esqui indoor no mundo. Claro que não é a mesma coisa que descer uma montanha real, mas quebra bem o galho.

 

Esse shopping chama Xanadú e fica um pouco longe da nossa casa. Antes de ter carro, ficava difícil a gente se animar para ir, me dava preguiça só de imaginar. É que a gente tem quase todo o equipamento, menos os esquis, daí levamos uma verdadeira bagagem. Convenhamos que de metrô e ônibus é muito chato. Taxi na ida ainda vai, mas na volta é a maior dificulade para conseguir um. Ou seja, a gente só ia quando coincidia de ter alugado um carro. Agora ficou mais fácil e vamos quase todo fim de semana. Assim, quando chegar o inverno, o mico é bem menor.

 

Continuo achando muito trabalhoso levar e colocar toda aquela roupa de astronauta, mas agora que esquio um pouco melhor, até que me divirto. A pista pequena para iniciantes, hoje em dia funciona só para meu aquecimento. Há muito pouco tempo atrás ainda me parecia um desafio, agora é um pouco tediosa e acabo preferindo ir para a grande. Entre o medo e o tédio, opto pelo medo. Preciso começar a descer a grande com Luiz, mesmo não sendo em uma montanha, é alta o suficiente para me dar um pouco de vertigem. As primeiras vezes, desço até a metade olhando para as costas dele e não para baixo, depois vou me acostumando.

 

Esse fim de semana fomos com uma amiga, que é bem iniciante. Luiz adora quando consegue mais algum adepto ao esporte e tem paciência para ensinar. Ele tem jeito para professor, só não funciona comigo, mas com o resto do planeta parece que sim. Ele esquia bem melhor que eu, o que não deve ser muito difícil. Mas agora, pelo menos, consigo acompanhá-lo e é bom ter alguma atividade em comum.

 

O curioso dessa história é que estamos em pleno verão madrileño! Agosto costuma ser o mês mais insuportavelmente quente do ano e, ainda que esse ano esteja razoável, continua muito estranho sair para esquiar com o sol a pino! Você sai de camisetinha e sandália e na sua mala tem calça e casaco impermeável, underware e meias de lã, além das malfadadas botas de esqui!

 

Bom, todo esquiador tem coxão e tenho a esperança que ajude a modelar minhas pernas, ainda que até o momento, o máximo que consegui foram ematomas. Não caio muito, mas sou hiper sensível e as botas apertadas sempre me marcam um pouco. Além do fato de ter sido atropelada por um snowborder. Aliás, essa é uma regra, você nunca deve se aborrecer com quem te atropela. Normalmente, ele ou ela fazem isso porque foi impossível evitar! Experiência própria!

 

Comecei a esquiar adulta e há algum tempo atrás me ressentia de não ter tido a oportunidade antes. Fica difícil quando você mora nos trópicos e seus pais não querem sair de férias no inverno! Sentia que se houvesse começando mais jovem, poderia ser boa esquiando, me senti assim como alguém que passou da idade para fazer balet. Agora, continuo achando que nunca poderei acompanhar alguém que começou criança, mas posso evoluir mais do que imaginava. Mais que o suficiente para me divertir.

 

Em dezembro, estamos planejando esquiar na Itália. Pode ser em outro lugar também, tanto faz, desde que dessa vez seja em uma montanha de verdade. Até lá, preciso aprender a fazer aquela cara meio marrenta de quem está acostumada. Atitude ajuda muito!

38 – Terapia econômica

Desde que saí do Brasil, não temos empregada nem faxineira. Limpar a casa não é a coisa mais gostosa do mundo, mas depois de um tempo a gente se acostuma. Além do mais, o apartamento é pequeno, comparado aos que morei, e os produtos de limpeza são bem práticos.

 

Não quero dizer com isso que goste de fazer a faxina, mas simplesmente que entrou na minha rotina.

 

Nessa última viagem ao Brasil, Luiz ficou sozinho por três semanas. Ficava imaginando o caos que estaria o apartamento quando eu chegasse. Mas a verdade é que ele se virou direitinho e um dia antes da minha chegada, contratou uma diarista. Bom, foi melhor do que nada, com certeza, mas a verdade é que ficou bem meia boca, como já imaginava.

 

Enfim, nunca me animei a chamá-la novamente e voltei, pouco a pouco, a fazer as coisas de casa.

 

Tanto eu como Luiz estamos vivendo um período meio complicado. Alguns amigos e familiares com problemas de saúde, emocionais etc. É difícil viver isso de longe porque não temos muita coisa a fazer. Por outro lado, às vezes é conveniente estar distante, por mais egoísta que pareça esse pensamento. De uma forma ou de outra, tem dias que nos custa manter o bom humor.

 

Acontece que tenho vocação para ser feliz ou, pelo menos, tomei essa decisão um dia. Então, chega uma hora que eu mesma me encho o saco de estar para baixo e procuro alguma atividade produtiva. Algumas vezes, é algo legal, intelectual, criativo, mas outras é braçal mesmo. Parto para violência e vou para o faxinão.

 

Hoje foi dia de faxinão daqueles! Encarnei a “Maria”, detonei os produtos de limpeza, botei luvinha, prendi o cabelo e levei a coisa a sério. Tornei literal a expressão poder comer no chão, só estava bom quando os rejuntes entre os azulejos mudavam de cor. Estava perigosíssima! Nem o gato chegava perto. Ataquei a casa e não sobrou pó sobre pó.

 

Os machistas e as feministas que não me escutem, mas foi libertador! Fazer faxina no dia-a-dia é um porre! Fazer faxina limpando neuroticamente a casa é terapêutico!

39 – Subindo a serra

Com a chegada do carro, estamos conhecendo uma parte diferente da cidade: a Madri longe! Claro que longe é uma questão de referencial, e a minha referência é o centro da cidade.

 

Aqui segue um pouco o conceito americano de suburbios. Ou seja, as casas e os apartamentos maiores ficam afastados do centro, em alguns casos, até em algum município adjacente.

 

Sou bicho de cidade, não temos filhos nem planos e não quero dirigir. Portanto, o suburbio, que aqui chamamos “cercanías”, para nós não faz sentido. Por outro lado, não sou exatamente o que se pode chamar de uma pessoa de convicções eternas e acho que as portas devem permanecer abertas. Então, não custa passear pelas redondezas e saber o que há de diferente, nem que seja para confirmar nossas opções atuais.

 

Como sou uma gulosa, ou melhor, gourmand que fica mais chic, uma boa maneira de cativar minha atenção é me sinalizar boa comida. Por isso, nesse momento, a gente tem buscado um roteiro gastronômico um pouco mais afastado, o que serve de pretexto e motivação para passear pelas “cercanías”.

 

Compramos um GPS para facilitar nossa mobilidade. Sempre resisti a ter um, porque prefiro arriscar os caminhos, me deixa mais atenta e acredito que ajude a fixar melhor as possibilidades de rotas. Mas não sou eu que estou dirigindo e realmente o tal do brinquedinho é prático. Luiz colocou uma voz de mulher indicando o trajeto e, por causa da marca, ela passou a se chamar “Tomtom”.  A parte engraçada é que ele consegue implicar e discutir até com a Tomtom!

 

Muito bem, mas vamos ao que interessa. Luiz trabalha em Las Rozas, um município que fica a mais ou menos uns 40 minutos de carro da nossa casa. Pode ser em menos tempo, é que aqui o trânsito também é muito movimentado e ele pega alguns “atascos”, que não são “atalhos” e sim engarrafamentos. Enfim, assim como os brasileiros e diferente dos americanos, o espanhol tem o saudável hábito de almoçar. Daí Luiz acaba conhecendo alguns restaurantes legais próximos ao seu trabalho. Quando ele vai a um que acha que vou gostar, a gente já tem um lugar para ir depois com mais calma.

 

Ontem fomos a um restaurante chamado “La Santina”, que fica em Galapagar, um município a cerca de uma hora de Madri e pouco depois de Las Rozas. Fica na serra e, óbvio, o clima é bem mais fresco que aqui. A comida é asturiana e o lugar não me pareceu frequentado por estrangeiros. Também, além de longe para burro é meio escondido, você só vai se tiver alguma indicação. Mas vale a pena!

 

Um dos pratos mais conhecidos da região de Austurias é a “fabada”. Um tipo de feijoada feita basicamente com feijão branco, lingüiças (morcillas e chorizos), toucinho  e  açafrão. A oferta de frutos do mar também é bem interessante. A bebida típica é a Sidra, que é literalmente atirada ao copo de longe e do alto. Não é só por charme, precisa ser servida assim. Entorna-se a garrafa o mais alto possível e se derruba o jorro de maneira que ele bata na boca do copo e, com esse impacto, se oxigene. Fica mais divertido quando está ventando e a pessoa se esforça para acertar o alvo. O sabor me lembrou o da cerveja, que não gosto. Portanto, não sou a pessoa mais indicada para recomendá-la. Posso dizer que é bem diferente das sidras brasileiras e francesas. Luiz gostou.

 

O passeio é interessante, não só pela comida. A gente pegou uma estradinha que nos fez lembrar o caminho para Teresópolis. Na volta, já escuro e ao som do Rappa e Janis Joplin, deu para ver Madri completamente iluminada, linda!

40 – Última semana de agosto

Setembro está batendo na porta, junto com os madrileños que voltam para casa. A cidade ainda não está a todo vapor, ou “a toda mecha”, como diríamos aqui, mas se percebe a diferença nas ruas e no trânsito.

 

Por um lado, é assim que gosto de Madri: animada. Por outro, é a última semana de férias… joder! Caraca, que falta de paciência de voltar para a faculdade! Estou numa má vontade que dá gosto! Fico repetindo para mim mesma que o primeiro semestre já foi, só falta mais umzinho e pronto. Será uma linha no meu currículo que me ajudará um dia, ou pelo menos, preciso acreditar nisso agora.

 

Essa semana, acho que entendi o motivo real da minha apatia nessa área. O curso me fez cair a ficha que a Espanha não é mercado para mim, e me dá aquela sensação de preguiça de fazer um esforço inútil. O negócio aqui é pintura, colorido e política. Tudo que meu trabalho não é! Claro que estou simplificando, é mais do que isso, mas vai por aí.

 

Não é desculpa para que eu não possa fazer nada, há alternativas. De toda maneira, estar aqui me abre uma porta para Europa e cabe a mim encontrar uma brecha. Preciso colocar meu pé na Inglaterra, Alemanha, Holanda… lugares onde meu trabalho funcione. Nesse caso, talvez possa ajudar a tal linha no currículo, com uma formação acadêmica européia na área de Artes. É nisso que venho me concentrando como motivação.

 

Ficaria mais fácil se respeitasse meus colegas de curso e, como normalmente esse sentimento é recíproco, mesmo que mascarado com a educação, é provável que eles também não me respeitem. Sinceramente, isso não me importa tanto. O problema é que a minha pouca generosidade em olhar em volta está fazendo com que também olhe para meu umbigo com o senso crítico cáustico habitual, que tanto esforço me custou para amenizar.  Achei que tivesse resolvido isso, mas não resolvi, é a minha natureza, será sempre um esfoço forjá-la. Há poucos rostos que olho e penso: esse tem chance, pode decolar. E, por isso, também passei a me olhar no espelho e pensar, e eu? Será que tenho chance? O que é ter chance?

 

Às vezes acho que poderia relaxar um pouco, não levar tão a sério, afinal de contas, também não tenho problemas pessoais de relacionamento com os outros artistas, não da minha parte, é falta de interesse mesmo. Não vejo o que posso oferecer nem o que possa ganhar e essa impossibilidade de criar alianças me irrita. Daí, rola a culpa de ser tão calculista, fria e crítica e, em paralelo, uma enorme sensação de perda de tempo. Devo ter alguma coisa que aprender com isso, alguma lição, só não entendi ainda qual é. Quem sabe seja aprender a calar minha boca.

 

Tenho a impressão que os próximos meses passarão lentos, mas passarão.

 

Respirar fundo, acender um incenso, posição de lótus, murmurar o mani padami… ooooohhhuuuuuuummmmm….

41 – A saga do esqui

Com a facilidade do carro e o finzinho de férias que me resta, estamos aproveitando todo intervalo possível para ir ao shopping onde há a pista de neve artificial. Luiz chega do trabalho e a gente sai com a bagagem de inverno para esquiar.

 

Ainda me custa um pouco no início, mas cheguei a conclusão que no fim me faz bem e me divirto de forma saudável. Pela primeira vez na vida, sinto falta de uma atividade física que não seja balada ou caminhar pela rua sem muito compromisso. Tenho sentido falta de esporte e isso é inacreditável!

 

Sei lá, acho que tanto eu como Luiz estávamos precisando de alguma atividade que transformasse energia em endorfina. Fazer isso em um ambiente totalmente artificial, de certa forma, nos coloca em uma capsula de tempo fora da realidade. É como se por alguns momentos, a gente pudesse viajar para um lugar longe, com outra estação climática, onde a gente utiliza outros músculos e se concentra em algo totalmente diferente. Fazer isso como fuga pessoal poderia ser complicado, mas fazê-lo junto e nos divertindo, na verdade criou uma boa dose de cumplicidade.

 

Não é que me divirta o tempo todo, acho que tenho mais dificuldades do que prazer. É como as primeiras vezes que a gente dirige e precisa pensar em cada movimento, apertar embreagem, trocar a marcha, olhar o retrovisor… depois fica automático. Ainda não cheguei na fase automática, desço a ladeira o tempo todo pensando: concentrar em um ponto fixo para evitar a vertigem, virar o esqui para a curva, cacete ficou rápido, controla, beleza, agora o outro lado, melhor, tem que descer mais, faz a curva mais rápido, merda esqueci o ombro, relaxa a porcaria do braço, ui, curva outra vez, olha para frente, caraca, mas vem gente atrás rápido, que-que-eu-tô-fazendo-aqui, bom mas já não estou tão alto, foda-se, mais velocidade, atitude, atitude, cara de marrenta, controle… e assim o tempo e o medo vão passando. Até que uma hora o vento frio batendo no rosto é gostoso e sinto que, com toda a dificuldade, eu desci. Então, por que não mais uma vez? Se eu botar um pouco mais de força na perna e relaxar um pouco mais o ombro…

 

O que Luiz pensa ou sente, cabe a ele contar se quiser, mas pela sua forma mais relaxada de esquiar, deve ser menos tenso que eu. De qualquer forma, saímos os dois com cara de mortos e uma fome de leão! Uma vontade de injetar proteína na veia! Carne, por favor!

 

Dessa vez, resolvemos fazer a carteirinha VIP, olha que chic. Pagamos um valor fixo e podemos ir quantas vezes e horas quisermos por um trimestre. Pior, ando pela casa fazendo exercícios improvisados para melhorar minha musculatura e esquiar melhor. ¡Joder!

42 – ¡No fumadores!

Acho que encontramos o único restaurante totalmente não fumante de Madri! Mais, que isso, ainda por cima é bom!

 

Vamos começar do começo. Há uma rua aqui no bairro de Salamanca, chamada “Jorge Juan”, que é um charme! Nela, se encontram uma série de restaurantes e quase todos que experimentei são bons. Há também uma particularidade que é a concentração de restaurantes tailandeses, cozinha da qual sou fã.

 

Aos poucos, eu e Luiz vamos provando um por um. Que tenhamos visto, são quatro tailandeses e esse é um número alto para a cozinha oriental na mesma rua. O espanhol é super conservador em relação à sua comida, raramente experimenta ou gosta de outro tipo de culinária que não seja de alguma região da própria Espanha.

 

Pois bem, faltava ir ao quarto tailandês, que havia passado despercebido até o último mês. Surgiu a oportunidade e resolvemos tentar. Quase chegando na porta, percebemos três pessoas que foram fumar do lado de fora. Isso nos pareceu algo muito, mas muito estranho.

 

É que aqui esse negócio de respeito ao nariz alheio é uma “mariconada”, todo mundo fuma e o resto que se dane! No início do ano, entrou uma lei controlando e estabelecendo alguns parâmetros de restrição ao fumo. Nem sempre é respeitada e foi um deus-nos-acuda, que já contei aqui, com a espanholada querendo se rebelar e tal. Mas no fim, foi implantada assim mesmo. Não resolveu, mas melhorou razoavelmente. É um começo.

 

Portanto, chegar a um restaurante e ver três pessoas educadas o suficiente para fumar fora do estabelecimento, nos pareceu raríssimo! Ao olhar para porta, estava lá: o aviso de não fumar! Como assim? Um restaurante totalmente não fumante! Luiz e eu nos olhamos com um misto de surpresa e euforia. Será?

 

Na boa, já entrei sorrindo e com a maior boa vontade. Um pouco desconfiada, melhor era observar com cautela se os outros clientes estavam respeitando também o local. Estavam! Aproveitei para respirar o máximo de oxigênio possível, fiquei até tonta!

 

É nesse momento que você olha discretamente para ver se há câmeras ocultas te filmando para a pegadinha. Pois não era brincadeira, era sério! O restaurante chama “Thaidy”, fica quase na esquina com “Alcalá”. É bonitinho, romântico e a comida honesta. Ainda por cima, não fumam no meu nariz! Fiquei freguesa.

43 – Nem tudo que reluz é ouro

Fiquei meio reticente em escrever essa crônica. Gosto de falar bem dos lugares, criticar entra em lugar comum.  Mas vá lá, como estou no assunto restaurantes e na mesma rua “Jorge Juan”, também é honesto que conte as experiências não tão boas.

 

Há bem pouco tempo, abriu um lugar chamado “Pan de Lujo”. Vi uma reportagem que me chamou atenção. Foi montado em uma antiga fábrica de pães e, por isso, ganhou o nome. Decoração moderna, pratos originais, perto de casa… Estava aguardando o momento de conferir, até que fomos no fim de semana passado.

 

Ao entrar no local, a impressão foi ótima. O restaurante é simplesmente lindo! Tem uma parede de janelas com o mesmo mecanismo de uma porta de garagem, daquelas que abrem inteiras. A visão é um enorme e relaxante espelho d’água. Realmente, se destaca em relação aos seus concorrentes em Madri. Ponto positivo!

 

Tem área de não fumantes! Ainda que seja lei, na prática os clientes fazem um pouco de corpo mole e os garçons, vista grossa. Aliás, aqui se diz “vista gorda”.

 

Achei que começamos bem. Luiz não fez por menos e pediu um Brunello di Montalcino. A noite prometia.

 

Daí o serviço começou a pecar. Aqui é muito comum haver um só garçon para atender uma quantidade grande de mesas. Entendo isso em uma taberna, onde você paga pouco mais de um euro por uma taça de vinho. Economia de escala, natural. Mas convenhamos, não era o caso. Ou, pelo menos, não deveria ser.

 

Na prática, havia dois ou três garçons perdidinhos da silva para atender umas cem pessoas! Isso quer dizer que mal posso reclamar do serviço, porque ele praticamente não existiu. As raríssimas vezes que o pobre do garçon conseguia chegar na nossa mesa era para se desculpar pela demora. Sem contar que nem a posição dos talheres o indivíduo sabia ordenar. Pequenos detalhes que passariam como distração se não fossem se acumulando. Isso não é culpa dele, é falta de gente e de treinamento, culpa do dono.

 

Com tudo isso, o lugar era tão legal e a companhia tão agradável, que fui relevando e aproveitando o momento. Finalmente, chegou meu prato principal. Depois de toda aquela demora, esperava algo surpreendente. Não deixou de ser surpreendentemente fraco, desde a apresentação ao sabor. Não era ruim, era medíocre.

 

Posso ser capaz de perdoar muitas falhas em um restaurante, dependendo do que me ofereça em troca. Mas existe um ítem que não se perdoa margem de erro: comida. Uma excelente comida pode compensar uma decoração cafoninha e um serviço despreparado, mas a recíproca não é verdadeira, a ordem dos fatores altera o produto!

 

Que pena, foi quase um dos meus favoritos e agora nem tenho vontade de dar uma segunda chance!

44 – A feijoada do Luiz

Luiz faz aniversários secretos. É o meu oposto, detesta festa nessa dia, fica meio bicho-do-mato, ainda que venha melhorando ao longo dos anos. Conheço algumas pessoas assim, que até são animadas normalmente, mas no dia ou perto do aniversário, ficam meio borocochô ou não muito sociáveis.

 

Enfim, estava louca para fazer uma feijoada e agosto não costuma ser muito propício. Primeiro porque é muito quente, segundo porque tem um monte de gente viajando. Então, já havia decidido fazê-la no início de setembro, que coincidia com o aniversário do Luiz.

 

Perguntei a ele se queria aproveitar para comemorar e ele ficou meio reticente. Quando uma amiga nossa disse o que estava na minha cabeça: que ela vai fazer a feijoada, ela vai. Ela quer saber se você quer ganhar presente ou não?

 

Ele acabou concordando, se fizesse algo menor e mais “low profile”. Sem problemas, o fato de ser um almoço já restringia o número de convidados. Queria chamar mais amigos e foi uma escolha de Sofia. Optei por chamar apenas brasileiros, com exceções de quem sabia do que se tratava uma feijoada. Poucos espanhois apreciariam o prato e dá muito trabalho conseguir os ingredientes para desperdiçar. Fiquei um pouco preocupada se teria lugar para todo mundo sentar, afinal, comer uma fejuca em pé, com o prato na mão, seria razoavelmente desconfortável. No fim, deu certo, o pessoal é legal e bem informal.

 

Bolo e parabéns para você: nem pensar! Ele me mataria! Tudo bem, ninguém aguenta bolo depois do feijão.

 

Comecei os preparativos no dia anterior, como tem que ser. Dessa vez, tinha ingredientes de primeira, trazidos fresquinhos da última viagem ao Brasil. Essa foi a mala que quase ficou na alfândega, mas fui salva pelo gongo! Ou seja, foi sofrido! Merecia ser bem aproveitada e apreciada. Bons ingredientes falam sozinhos, portanto, tomei o dobro de cuidado para não atrapalhar. E ainda por cima era aniversário do Luiz e ele topou a festa! Caraca, que responsabilidade! Caprichei.

 

Demos um jeito até de fazer couve à mineira. Aqui não tem a nossa couve, tem uma tal de “berza” que se parece, mas nem sempre a gente consegue achar no mercado. Entretanto, tenho meus macetes, em caso de emergência, há outras duas opções, a folha de acelga e a couve-de-bruxelas picada e preparada da mesma maneira. A folha de acelga é melhor. Claro que o vendedor da mercearia não entendeu nada quando perguntei se tinha berza e, depois da resposta negativa, perguntei pela acelga que também funcionaria. Comprei uma braçada de acelga, literalmente, porque aquilo mingua bastante depois que cozinha. Refogada com muito alho, bacon e costelinha em cubos… ¡hombre!

 

Deu um trabalho do cão, mas valeu a pena. Fiz com gosto e modéstia às favas, a fejuca ficou de “puta madre”! E isso em espanhol é um elogio!

 

Não sou daquelas que fazem cerimônia em relação à própria comida, como tanto ou mais que meus convidados. Pois me atraquei com as lingüicinhas defumadas, carne seca e aquele feijão grosso. Qualquer tentativa de dieta seria impossível, não que tenha me esforçado muito por isso.

 

Luiz me pareceu bem tranquilo e ouvi da sua própria boca a possibilidade de transformar a feijoada do seu aniversário em tradição da casa. Isso sim é uma revolução! Ou será que foi a caipirinha?

 

Estranhei a falta de um casal de amigos que havia me confirmado presença. Como eles tem uma bebezinha, e crianças são imprevisíveis, imaginei que talvez na hora de sair houvesse algum contratempo. Depois ligaria para ver o que aconteceu. 

 

Enfim, passado meu habitual stress se teria comida e lugar para todos, me diverti bastante e matei o desejo de comer a tal da feijoada. E o principal: Luiz satisfeito e amigos repletos! Fiquei feliz.

 

Só faltou uma coisa: uma fileira de redes para dormir. Lógico que bateu a maior lombeira generalizada! A conversa começou a ficar um pouco lenta, os olhos meio caídos, o sofá mais disputado… e assim a festa foi chegando ao fim, com a promessa sem muita credibilidade de nos encontrarmos mais tarde para a “movida madrileña”.

 

Logo que o pessoal saiu, dei aquela encostadinha básica de quinze minutos no sofá, só para descansar um pouquinho. Quando abri os olhos, havia passado uma hora e meia e a casa já estava mais organizada. Em caso de reuniões, sou especialista no antes e Luiz no depois.

 

Daí fomos bater aquele papinho no quarto da TV e resolvi checar os e-mails no computador. Era por volta das 21:00hs e o interfone tocou. Brinquei com o Luiz: são nossos amigos que não vieram no almoço! Ele foi atender e não é que era mesmo nosso amigo! Começamos a rir pela confusão, mas ao mesmo tempo, fiquei na dúvida se havia acontecido alguma coisa e achei melhor ver primeiro o que tinha ocorrido.

 

Chegou nosso amigo sozinho, sem a esposa e a filha. Ele estava com o rosto de quem achava algo estranho e perguntei a ele, assim meio desconfiada, você sabia que era almoço, né? Claro que não. Coitado, acho que ele queria sumir! O pior é que se eles soubessem que era um almoço, a esposa e a filha poderiam ter vindo.

 

Esclarecido o mal entendido, demos boas gargalhadas e convenhamos, pode ter sido um pouco constrangedor, mas foi muito engraçado! Nesse momento, ele só podia agradecer o fato de não ser uma festa a fantasia! E, já que estávamos ali mesmo, por que não o segundo turno da feijoada? Começamos outra vez e no final, ainda mandei uma quentinha para minha amiga não ficar aguada.

 

Óbvio que depois ninguém aguentou sair coisa nenhuma! Enrolamos um pouco vendo televisão e dormimos como duas rochas.

45 – Meu lobo

Luiz fez 40 anos. A festa, já contei na crônica passada, mas hoje, a comemoração foi só nossa. 

 

Devo ter algum problema, porque acho envelhecer muito legal. O aniversário nem foi meu e fiquei feliz da vida. Mal posso esperar para chegar a minha vez, quero ter essa sorte. Nem sei onde será a festa, mas posso garantir que será um festão.

 

Ele é mais discreto e respeito sua opinião. Portanto, a celebração do dia do aniversário foi em particular. Mas alguma coisa precisava ter, algum ritual de passagem era importante.  Afinal de contas, meu amor chegou na idade do lobo.

 

Pois começamos em grande estilo, com uma Veuve Clicquot na temperatura ideal, tinindo de gelada. No calor que faz em Madri, foi show! E por que não, ao som de Dire Straits, afinal de contas, combinava com o contexto.

 

Na sequência, um Pera Manca 2001, que apesar do nome esquisito, é um vinho fabuloso. Como curiosidade, foi o mesmo que Cabral serviu aos índios e é citado nos versos de Camões. Finalmente, Luiz conseguiu comprá-lo e era perfeito para ocasião. Entre a champagne e o tinto português, é assunto nosso, mas o jantar não foi nada mal.

 

Difícil eleger a comida, não tinha o sabor desse vinho na minha memória e me senti desafiada. Fiz um rocambole de carne de porco e de frango, coberto por presunto cru e recheado com queijo, pêssego e marrom glacê. De acompanhamento, um tomate com queijo de cabra e uma salada de espinafre com rabanetes. Estava tateando no escuro em termos de sabores e combinações. Acredito que em uma próxima oportunidade, tentaria uma carne de cordeiro ou uma ave de sabor mais pronunciado.

 

Vinho interessantíssimo. Para um paladar menos preparado, pode decepcionar no início, porque a expectativa é alta. Entretanto, como quem sabe que não precisa provar nada a ninguém, o Pera Manca chega devagar. Não é um vinho de explosão, mas de intensidade, persistente. Poderia ser mais adequado para a ocasião?

 

E assim passou a noite, nós três, Luiz, eu e Jack, entre telefonemas de amigos e mensagens pela internet. Às vezes, a vida pode ser muito boa.

46 – Ufa! Que semana!

Semaninha atribulada! Caramba, não tive tempo de sentar para escrever uma cronicazinha! Portanto, farei o samba do criolo doido e tentarei contar tudo em uma só. Um cronicão express!

 

Começou no domingo, pela manhã, quando acordei super cedo para levar Luiz ao aeroporto. Levar é maneira de dizer, simplesmente acompanhá-lo, já que ficaria toda a semana fora, em Dubai. Cheguei quase a me arrepender, não por ter acordado às oito da matina em pleno domingo, mas quando vi a confusão que era o check in do seu vôo. Para tentar tornar visual o que estou escrevendo, basta imaginar que a fila “única” possuía três “sub-filas” diferentes e se embolava na entrada seguindo a lei do mais forte ou do mais cara-de-pau. Uma mistureba de idiomas e de gente! Não dava para saber quem trabalhava na companhia aérea, quem trabalhava em agências de turismo ou quem simplesmente estava ali não se sabe porque. Uma zorra!

 

Dubai não é essa bagunça, muito pelo contrário. Acho que era só o vôo com preço promocional que contribuiu para esse caos. Enfim, voltei aliviada para casa e com vontade de dormir mais um pouquinho. Luiz seguiu seu trajeto para o Oriente Médio, com direito a perder uma escala pelo caminho. Por mais incrível que pareça, no fim deu certo e o mais impressionante: a mala chegou junto com ele!

 

Muito bem, segunda-feira lá fui eu para faculdade. Diferente das minhas expectativas, a volta às aulas não foi tão má. O curso está me parecendo mais interessante que no primeiro semestre, fizeram algumas modificações na maneira de conduzir as aulas. Mas, enfim, tenho até medo de elogiar. De qualquer maneira, estou levando de forma mais leve e desencanada. Aparentemente, vou participar de uma exposição pelo fim de setembro, vamos ver.

 

Bom, saindo da aula com duas amigas, como disse, em plena segunda, uma delas sugeriu passarmos em um bar para tomarmos uma “copa”. Por que não? Luiz não estava na cidade mesmo. Pois fomos a terraza da Casa de América, uma das minhas favoritas. Estava um pouco vazia, mas a conversa era agradável e engraçada. Algumas cavas depois, nos pareceu uma ótima idéia sair para dançar. Resumo da ópera: passei rapidinho em casa para checar se Jack estava bem, fui para casa da minha amiga, de lá fomos para o Areia, um bar muito legal, fazer hora para o El Junco animar. E não é que o El Junco encheu? Eu amo essa cidade! Dancei até às quatro e meia da matina e ainda saí mais cedo que a minha amiga!

 

No dia seguinte, acordei morta de cansada, mas não tão tarde porque precisava entregar um desenho em uma “convocatoria”. Aqui, os salões de arte para os quais você envia seus trabalhos e tenta participar, chamam-se “convocatorias”. Soube dessa em questão muito em cima da hora, mas não quis perder a oportunidade de tentar. Desenho não é minha praia, mas estou beirando o desespero de fazer qualquer coisa, só para aquecer os motores. Pois bem, terminei o trabalho como pude e fui entregá-lo no caminho para faculdade.

 

Chegando lá, a decepção, não podia participar porque não sou espanhola nem hispano-americana. Liguei para um outro amigo artista brasileiro, que me deu a dica do salão e o avisei do problema. De lá, fui para aula meio sonâmbula e preocupada. Nem tanto por esse salão, que me preparei às pressas, mas porque me abria um precedente de não poder participar de outros.

 

No dia seguinte, quarta-feira, acordei com o telefonema do meu amigo artista. Ele tinha conseguido convencer a organização do salão a nos aceitar. Meio tonta de sono, ouvi um, “corre que eles aceitaram a gente, mas tem que ser na parte da manhã”. Lá fui eu outra vez tentar entregar meu desenho. No espaço cultural, vi uma série de outros desenhos já entregues e foi absolutamente intimidador. Francamente, o meu parecia brincadeira de criança, fiquei até com vergonha. Mas assumi como um exercício de humildade e depois precisava desencantar de uma vez!

 

De lá, corri para faculdade para tentar descobrir se ainda existia a minha escultura que deve participar da exposição em setembro. Existia! Estava guardada direitinho. Tive um trabalho do cão para montá-la sozinha, me faltavam mais quatro mãos. Mas funcionou. Corri para a aula, meio atrasada e nojenta, afinal de contas, montar uma escultura em ferro não é exatamente uma atividade leve.

 

Na mesma quarta-feira, descobri que o Salão da Bahia havia aberto suas portas e, na verdade, já estava fechando as próprias! Tinha até sexta-feira para enviar um projeto. Esse é o principal salão de arte contemporânea no Brasil e é meu sonho participar de um deles. Tenho um trabalho pronto que só estava esperando para enviar para lá, mas ainda não havia posto no papel. Ou seja, já deu para perceber que passei a quinta-feira como uma alucinada para finalizar as arestas da obra, fotografar e escrever tudo. No fim da tarde, havia fechado meu projeto e, modéstia às favas, fiquei muito satisfeita. Se vai entrar, não sei, é muito difícil. Mas foi importante para mim realizá-lo. Em alguma próxima crônica contarei sobre ele.

 

Na quinta, durante a aula, houvi o rumor que o Salão da Bahia havia prorrogado as inscrições. Caramba, que alívio! Ganhei mais um tempinho e bom que a idéia está fechada. Para completar, uma outra “convocatoria” que gostaria de participar também prorrogou as incrições para semana que vem. O legal é que antes, não estava muito animada a enviar um projeto. Mas depois da confusão que foi essa semana, ganhei ritmo de trabalho e daí me animei. Quer saber, funciono mesmo é na pressão!

 

Sendo assim, ganhei uma folguinha na sexta-feira, que foi aproveitada com a visita à exposição de um amigo artista.  O mesmo da “convocatoria” de desenho. Aliás, muito boa. De lá, fomos almoçar com sua esposa e uma amiga deles. Foi bom para dar uma relaxada.

 

Luiz chegou à noite de Dubai, morto de cansado, mas empolgado com a viagem. Dessa vez, teve um pouco mais de tempo para conhecer a cidade e quer que eu vá com ele em novembro. Acho que vou, também estou muito curiosa para conhecer o lugar. Ainda sobrou um pouco de energia para irmos por umas “tapas” na nossa copa cozinha: El Fogón de Trifón. A gente gosta muito de lá e a informalidade do serviço nos faz realmente sentir em casa. Dessa vez, fiquei devendo ao Trifón uma receita de moqueca. É que a gente deu a ele um vidrinho de azeite de dendê para experimentar. De quebra, ainda estreiei a bata lindíssima que Luiz trouxe para mim de Dubai.

 

Ufa, chegou sábado! Dormimos até tarde e de lá fomos esquiar, só para variar um pouquinho. Um casal de amigos com a filhinha nos encontrou pelo Shopping. Acho que eles se animaram a viajar conosco em dezembro para uma estação de esqui, espero que dê certo. Nesse dia, a pista de esqui artificial estava um porre! Muita gente e uma fila enorme para subir. Perdi a paciência e só aguentei uma hora. De qualquer forma, valeu pela companhia.

 

Domingo, voltamos e estava bem melhor. Eu, com minha roupa nova enfurecida de neve, até peguei um esqui maior e, inclusive, me arrisquei em um salto! Tá bom que o salto foi mínimo, era um morrinho de nada, mas fiquei toda orgulhosa. Principalmente, porque foi um dia em que minha vertigem estava atacada, me custou muito começar a aproveitar a descida.

 

Pues… nada… assim foi a semana e já me preparo para a segunda-feira. Ai, que preguiça!

47 – Quanto vale um sonho?

Há pouco tempo atrás, estava lendo um texto relacionado à importância de se ter um sonho. Para ser franca, nem me lembro se era uma reportagem ou estava em algum livro, o que ficou na cabeça foi a viagem que tive na sequência. Perguntei a mim mesma qual era o meu sonho, e para minha surpresa, não consegui pensar em nada específico.

 

Esse branco me assustou. Lembro quando poderia oferecer uma lista de, pelo menos, uns quinze sonhos, assim, de bate pronto! E, dessa vez, só podia pensar em coisas importantes, porém genéricas, como ser feliz, saudável, bem sucedida… Pode ser a maturidade, mas acho que é mais do que isso.

 

De repente, me dei conta que a impossibilidade de fazer planos a longo prazo havia se convertido, por tabela, em incapacidade de sonhar. A enorme habilidade desenvolvida para controlar expectativas me transformou em uma chata descrente.

 

Lutar contra a correnteza pode ser muito desgastante e, para quem precisa se adaptar a mudanças com frequência, a resistência é o pior caminho. Mas será que às vezes a gente também não precisa nadar um pouco contra a maré? Nem que seja para exercitar! Em que momento a estratégia oportunista se converte em passividade?

 

Acho que muitas vezes meu amuleto era minha crença de ser capaz de quase tudo. A certeza de domar meu destido era minha proteção. Agora me encontro nessa encruzilhada: do que mesmo quero ser capaz?

 

Sinceramente, andava muito incomodada buscando um sonho, até que me cansei de não encontrá-lo. Daí tropecei nele!

 

Na última semana, estive preparando um projeto para enviar ao Salão de Arte Contemporânea da Bahia. A obra que estou pleiteando é uma instalação autobiográfica que conta e resolve um ano complicado da minha vida. Entrar nesse salão é mais difícil que vestibular de faculdade pública! Minhas chances são remotas, mas pela primeira vez, sinto que tenho alguma chance. Pois bem, preparando o envelope para enviar hoje, senti um frio na barriga muito estranho. Estava nervosa e emocionada pelo simples fato de enviá-lo, sem nenhuma garantia de sucesso. Foi quando me dei conta que estava, finalmente, tentando realizar um sonho.

 

Pouco? Talvez, mas é um começo. E como foi bom lembrar que ainda posso e tenho tempo.

48 – Sabe quem mora em Madri?

Faz tempo que não escrevo sobre o esquisito do dia. Acho que estou me acostumando com eles a ponto de nem me chamarem mais atenção.

 

Talvez seja porque já desenvolvi aquela habilidade de olhar para o nada quando estou em um transporte público. Aquela coisa de tornar tolerável a presença muito próxima de completos desconhecidos. Nesse sentido, bom que chegue o outono, pois o cheirinho de verão é dose!

 

Muito bem, estava no meu habitual transe do metrô, quando de repente levantei a vista um pouco e vi, do outro lado da estação, um cidadão vestido de fraque negro comprido com botões grandes dourados, uma bengala com cabeça também dourada, muito bem cuidada e brilhante, cabelos longos e cavanhaque. Reconheci na hora: era o conde Drácula! Tenho certeza, sorte que ele não me viu!

 

Quer dizer, acho que não me viu, pois levava óculos escuros, ainda que fosse noite, e foi muito rápido. Rodava sua bengala no ar, enquanto conversava com uma pobre mocinha, que deveria ser sua próxima vítima!

 

Fui o resto do caminho tentando controlar o riso. Provavelmente, alguém também me olhava e imaginava do que aquela louca esquisita estaria rindo sozinha?

49 – Drácula mudou de ramo

Na crônica passada, contei do meu encontro com o Drácula, o homem de fraque negro do metrô. Pois, para minha surpresa, fui informada por uma amiga aqui de Madri que o cidadão é famoso na Espanha pela sua bizarra profissão de cobrador de dívidas!

 

E eu que achava difícil me surpreender!

 

Muito bem, é que há uma empresa de cobranças que coloca um homem vestido de fraque seguindo um devedor. Aparentemente, o resultado é rápido e as dívidas são pagas num instante. Ou seja, definitivamente, ele chupa o sangue do indivíduo, mas de uma maneira mais contemporânea.

 

A brilhante idéia já foi copiada em outros países. No Brasil isso é ilegal, afinal de contas, um país tão sério…

 

Enfim, até o velho conde, rendeu-se à modernidade e agora terceriza seus serviços. Fala sério, era só o que faltava. Pode?

50 – Jantar em Paris

Uma vez, quando morávamos em São Paulo, estávamos deitados na cama vendo televisão, por volta das 18:00hs. Toca o telefone, um casal de amigos cariocas nos chamando para assistir um show da Fernanda Abreu no Rio de Janeiro, naquele mesmíssimo dia.

 

Luiz falou com eles que assim muito em cima da hora ficava complicado, afinal de contas, morávamos em outra cidade. Desligou o telefone e daí por diante o nosso diálogo foi mais ou menos o seguinte: Muito em cima, né? Nem que a gente quisesse… pois é, e a gente já tá até de pijama… e no Rio… tem que pegar um avião… então vamos… checa os horários dos vôos… liga para seu irmão buscar a gente?

 

Pouco mais de duas horas depois, estávamos na frente do Canecão com meu irmão e as nossas malas no carro dele. Pequeno detalhe, o casal de amigos que nos convidou chegou ao local mais tarde que a gente!

 

Valeu muito a pena, foi o máximo e ficou uma história super divertida para lembrarmos. Naquela época, me parecia algo totalmente extraordinário pegar um avião para assistir um show em outra cidade!

 

O tempo passou, a vida mudou, estávamos nós aqui em Madri e descobrimos que um casal de amigos brasileiros estaria em Paris…

 

Eles passariam pouco tempo por lá e perguntaram se por acaso a gente não poderia se encontrar por aquelas bandas. Achei a idéia ótima e enchi o saco do Luiz para a gente ir. Ele também queria, mas viaja muito mais do que eu, por causa do seu trabalho, e acaba só conseguindo se agendar meio em cima da hora. De maneira que, só na sexta-feira à tarde tivemos certeza que no sábado poderíamos estar em Paris.

 

A essa altura, tinha combinado de sair também na sexta-feira com mais dois casais de amigos daqui de Madri. Não dava para furar, já havíamos tentado outras vezes e sempre acontecia alguma coisa, portanto, resolvi sair mesmo assim. Jantamos e depois fomos dançar. Chegamos em casa por volta das três da matina e precisávamos acordar às cinco e meia para embarcar às oito! Não é difícil fazer as contas do quanto dormimos naquela noite.

 

Eu amo Paris! Acho a cidade mais bonita do mundo! Também gostamos muito do casal de amigos que fomos encontrar por lá, o que quer dizer que estava empolgadíssima, mesmo sonâmbula. Pois saímos o dia todo e só nos rendemos à uma ligeira cochilada no fim da tarde, afinal de contas, queríamos jantar bem.

 

Admito que eu e Luiz parecíamos dois gatos gordos preguiçosos, onde a gente encostava por mais de cinco minutos, os olhos iam fechando. Por sorte, com o dia agitado, a gente esquecia um pouco do sono. Só foi duro de aguentar quando nossos amigos entraram na Notre Dame, porque como nós já conhecíamos, resolvemos ficar na praça da igreja sentados para descansar um pouco. Luiz queria deitar no meu colo e falei com ele que seria péssima idéia, porque dormiria também e achariam que éramos dois mendigos! Enfim, nesse momento, pedimos arrego e fomos dar a tal cochiladinha no hotel antes de sair à noite.

 

Por incrível que pareça, acordei nova! Fomos ao Ze Kitchen, restaurante elegante, mas despojado, de cozinha fusion, obviamente, pendendo mais para a francesa. Uma Champagne Diamant para iniciar os trabalhos, seguida por um Chateauneuf-du-Pape arrasador. Depois demos uma volta pela rua e nos prometemos fazer isso todo ano. Espero que a promessa não seja só a empolgação do vinho, pois levei a sério.

 

No dia seguinte, bem cedo outra vez, embarcamos de volta a Madri. Em casa, nosso gato esperava ansioso e com uma carência canina. Fez de tudo para se mostrar, mas estava bem.

 

Há alguns anos atrás, me parecia quase uma loucura pegar uma ponte-aérea no susto. Dessa vez, nem havia me dado conta do que estava fazendo até que avisei a minha mãe que estaria viajando, caso ela quisesse falar comigo. Foi ela que começou a rir e a dizer que isso de passar um fim de semana em Paris era o máximo. E foi já no aeroporto que Luiz lembrou do show que fomos assistir às pressas no Rio e que agora, ir a outro país parecia normal.

 

Na verdade, é normal. Não é muito diferente de ir de São Paulo ao Rio, tanto pelo preço, como pela distância. Mas convenhamos, que quando vamos para o terreno poético da fantasia, sair de Madri para jantar com amigos em Paris c’est très chic! Não tem preço!

51 – Novelas mexicanas podem ter final feliz

Na segunda-feira, precisei acordar cedo.  Estava cansada do fim de semana e com um pouco de má vontade que nem sei se também era medo. Tinha uma missão importante: começar a montar minha primeira exposição coletiva em Madri.

 

Toda dificuldade que tivemos no início e o fato dela ter sido adiada por pouco mais de dois meses, me provocou o efeito “São Tomé”, a ponto de não ter nem vontade de convidar ninguém, pela dúvida se realmente ela aconteceria e se eu estaria nela.

 

Há cerca de um ano e meio não montava uma exposição. Participei de umas duas, nas quais enviei trabalho, mas era aquela coisa de não deixar o currículo em branco. Nenhuma que sentisse que era para valer. Meu website virou um cartão de visitas estático que mal tinha voltade de manter. Esse mês, nem sei da onde veio ou se veio de um lugar só, mas minha energia ficou diferente e minha atitude mudou. Trabalhei mais que em um ano. Na verdade, não é que tenha trabalhado mais, mas finalmente comecei a executar os trabalhos. Sabe a história que de boas intenções o inferno está cheio? Pois consegui sair da intenção.

 

É que às vezes tenho essa sensação de precisar me preparar, acumular determinadas experiências e depois sair para ação. É um pouco como o pulo do gato, que precisa recuar e calcular seu salto para chegar mais alto. Gosto dessa metáfora, que não é minha. Nesse caso, demorou mais do que gostaria. Ainda não sei se foi pouco ou muito, mas foi o tempo que precisei.

 

Anos de vida executiva me adestraram na capacidade de ter mais de uma vida e era saudável separá-las: não confundir o pessoal com o profissional. Agora preciso lidar com a questão de não ter mais essa possibilidade, minha vida é uma só, na melhor das hipóteses, com ramos diversos. Nesse sentido, respeitar meu próprio tempo tem sido um exercício de diciplina, paciência e auto-conhecimento de limites.

 

Mas ainda na manhã de segunda, o que precisava mesmo era enfrentar meus demônios. A descrença, o descaso e a falta de fé. No caminho, já meio atrasada por me enrolar com detalhes bobos em casa, me dei ao luxo de pegar um taxi e fui pensando que talvez tudo isso não passasse do medo de (me) expor novamente. Resolvi mudar minha atitude defensiva e me abrir. Muito concentrada, confiei no meu trabalho e, consequentemente, realizei um ato de fé. Nesse momento, já não ligava mais se seria um evento importante, simplesmente era importante para mim.

 

Não cheguei atrasada, talvez o trânsito também tenha colaborado, às vezes o caos tem boa vontade com quem também tem com ele. Trabalho, tive muito, mas nada que me incomodasse. Na verdade, quanto mais trabalhava, mas me animava. Não tinha idéia de quanto esse ambiente me fazia falta. Não sei quem serei, mas ao longo do dia, fui lembrando quem sou. No fim da tarde, tive meus cinco minutos. As pessoas me pareceram mais interessantes e o mundo me pareceu possível. Foi um momento de solidão e fiquei emocionada sozinha, mas não me senti solitária. Não chorei, ou pelo menos, acho que ninguém viu.

 

Na terça-feira, os últimos retoques de iluminação e disposição das peças. Participei com mais sete artistas, todas mulheres. Sinceramente, gostei do trabalho delas também. Respeitei e me senti respeitada. De uma maneira geral, melhorou muito meu conceito sobre a turma, os professores e o curso.

 

Na quarta-feira, dia 27 de setembro, o vernissage. O horário foi um pouco ingrato, às 13:00hs, nunca vi inauguração de dia, mas nem isso achei ruim. A frequência foi boa e teve até coquetel oferecido pela própria faculdade. Gostei.

 

Os primeiros dez minutos para mim são sempre uma agonia completa. A exposição pode ser na portaria do edifício que fico nervosa do mesmo jeito! Depois fui relaxando e quando acabou estava novamente feliz. Havia concretizado mais um ritual de passagem e no final tive um pouco de vontade de chorar. Não era de tristeza.

 

Chamei alguns amigos para almoçar em casa. Três artistas, sendo duas que também participaram da exposição, e mais outro amigo. Queria comemorar e compartilhar a alegria com quem também a sentia ou entenderia. Foi divertido, mas voltar à noite para aula, depois de uns vinhozinhos na cabeça, foi muita vontade!

 

Cheguei em casa pouco antes do Luiz retornar de Paris. Estava feliz, mas tão cansada que era difícil sorrir. Parecia atropelada por um trator.

 

Hoje é quinta, e a vida já voltou ao normal. Ainda que quando me olhe no espelho, venha a sensação que meu jeito de olhar mudou. Talvez, tenha mudado.