12 – Quando estar longe é difícil

Para o desgosto de amigos e família, quando nos perguntam se temos vontade de voltar para o Brasil, dizemos que não. Nesse sentido, Luiz e eu pensamos igualzinho, temos saudades das pessoas, mas não necessariamente da vida no país. Não é que a nossa vida fosse ruim, mas é passado, não acho que seria igual se voltássemos. Além do mais, sem demagogia, para mim é muito duro viver bem, vendo outras pessoas vivendo muito mal. Vir para cá não fez a vida no Brasil melhorar, mas fez melhor a minha. E, ao tentar olhar para o futuro, a perspectiva política e social continua sem nos animar nem um pouco.

 

Quanto aos amigos, continuam nossos amigos. Quero e faço força para que continuem assim, porque me fazem falta. Mas quem tem vida de caracol desde cedo, aprende mecanismos para lidar com a ausência. Aprendemos que a única despedida real é a morte.

 

E é aí que a coisa pega. Com a dolorosa possibilidade da morte, que até o nome é difícil dizer sem eufenismos. Nossos pais e familiares não estão ficando mais jovens. Na verdade,  até alguns amigos já começam a demonstrar sinais de fragilidade. O que me lembra que eu também estou envelhecendo.

 

Mesmo estando fora, uma das coisas que garante meu equilíbrio é saber que as pessoas que quero estão bem onde estão. Possibilita uma segurança egoísta que sei que não é verdadeira, mas me tranquiliza, me faz saber que posso ir porque sempre terei para onde voltar, mesmo que não volte em definitivo, mas volte um pouquinho para um descanso.

 

É a primeira vez que sinto a possibilidade real de perder alguém que amo e estou longe. Não sei o que fazer, não sei como é o jeito certo de agir. A distância ajuda, por um lado, porque a vida é misturada mesmo, e o fato de não estar vendo me deixa esquecer um pouco e ter dias bons. Por outro lado, bate a culpa de não estar fazendo nada para colaborar, o medo de encarar a realidade e uma saudade sufocante porque sei que essa é a única que não se acaba, já conheço.

 

Saber que ele não vai bem, me desvia temporariamente o eixo. A cabeça diz que a vida deve serguir seu rumo e o que tiver que acontecer, que seja sem dor. Um dia quero ser capaz de aceitar esse fato com naturalidade, porque o coração ainda insiste de maneira infantil que não vá nunca, que fique aqui para sempre e que seja só um susto.

 

Hoje me ocorreu que estou negando a situação, tentando agir naturalmente, sair normalmente e me relacionar com as pessoas como se nada estivesse acontecendo. Tudo que puder fazer para ocupar meu tempo. Mas a verdade é que estou irritada, com raiva de coisas bobas e falando sozinha pela casa com o fantasma da minha avó.

 

É a pior hora de estar longe, a única que é realmente difícil.

13 – Copa 2006

Hoje é dia 13 de junho e será o primeiro jogo do Brasil na Copa de 2006, contra a Croácia. Mais tarde, vamos ao Bo Finn, un pub onde assistiremos o jogo com amigos, em sua grande maioria, brasileiros.

 

O espanhol também gosta muito de futebol, portanto, aparentemente, as comemorações serão animadas. Claro que estão torcendo para a Espanha, mas posso quase garantir que a segunda opção é o Brasil.

 

No nosso caso, algumas pessoas perguntaram para quem vamos torcer. Francamente, isso é pergunta que se faça? Essas coisas tem regulamento! Brasil, é lógico! Com direito a camiseta, boné, bandeirinha e tudo mais, mandado pela minha mãe através do Sedex.

 

Podem criticar à vontade a alienação provocada em períodos de Copa do Mundo, pouco me importa, que me aliene também! A verdade é que é muito bom ter um time para defender, principalmente se há uma real possibilidade de vitória. Acho muito saudável, xingar a mãe do juiz faz bem ao fígado, aplaudir ativa a circulação e nada melhor para o coração que gritar gol! É absolutamente terapêutico!

 

Gosto mesmo de assistir, ao vivo, da arquibancada. Os gritos e as coreografias de torcida são o mais próximo que posso chegar a uma origem tribal. É quase sentar em volta da fogueira e ouvir as histórias de aventuras. É o máximo!

 

Da arquibancada, não vai dar, paciência. Mas faremos nossa bagunça em volta da grande TV do bar mesmo. E, se tudo der certo, quem sabe damos mais um passo rumo ao hexa.

 

Faz falta hoje uma notícia boa.

14 – Brasil 1 x 0 Croácia

Bom, o jogo todo mundo viu, né? Posso poupá-los do meus comentários absolutamente leigos, de quem assiste futebol de quatro em quatro anos. Só vou dizer que, no fim das contas, foi bom ganhar. Entre erros e acertos, gostei de ver os jogadores levando a sério e concentrados.

 

Assistimos a partida com um grupo de amigos e os amigos dos amigos dos amigos… Enfim, dominamos o pub! Fomos nos espalhando igual praga e antes de começar o jogo, em frente a TV, era um mar de camiseta amarela! Nem todos eram brasileiros, mas a grande parte sim. Havia até uma louca de uma croata no nosso meio, coitada, ela achou que estava segura, imagina?

 

O Luiz não parava de berrar nervoso e se ouviam gritos femininos de “lindo” para o Kaká. Também tinha um amigo que pedia insistentemente “põe o Fred”, que foi uma das incógnitas do jogo. Afinal, quem é Fred? Não faltou o “amigos da rede globo…”, tudo bem que a gente acha ele meio chato, mas comparado aos comentaristas daqui, chegamos ao cúmulo de sentir saudades!

 

Não dá para dizer que foi como assistir no Brasil, mas bem que quebrou um galho. Na partida final, devo estar no Rio ou Belo Horizonte e espero comemorar uma vitória com os conterrâneos. Será?

 

Quando acabou, fui com Luiz beliscar uma comidinha no El Fogón de Trifón, nossa nova copa-cozinha. Descobrimos porque os dois garçons são tão atentos, um deles é o dono. Aliás, a gente já chega na maior intimidade e, dessa vez, com informações fresquinhas do jogo para o interessado barman de Galapagos. Que mundo tão grande e tão pequeno.

 

Importa que foi uma boa notícia e nem foi a única! Posso comemorar.

15 – Assim como o jogo, depois do sufoco…

Meu avô estava internado e não muito bem de saúde. Considerando sua idade, essa é sempre uma notícia que preocupa. Após três semanas, nas quais ia do céu ao inferno sem saber se corria para o Brasil ou se esperava, ele voltou para casa. Assim como o jogo, depois do sufoco, podemos relaxar um pouco e respirar mais aliviados.

 

A Copa ainda não está ganha, nos dois casos, mas ainda nos resta uma boa dose de esperança.

 

Esperança é um sentimento que nunca soube desenvolver bem. É um privilégio das pessoas de fé, outra característica em que me esforço para ter, mas não pertence a minha natureza. Tenho a sorte de possuir a confiança que, muitas vezes, é confundida com a esperança. A diferença é que a confiança depende de nós mesmos; a outra não, depende diretamente de acreditar no que não é concreto. Sou pessoa de sim ou não, racional, o talvez me complica. O talvez não se controla.

 

Quando isso é um problema? Quando percebemos que envelhecemos e que as pessoas que nos cercam também. De uma hora para outra o relógio começa a acelerar. Descobri que, em parte, minha confiança vinha do fato da consciência, ou probabilidade, de ter tempo. Se eu tivesse tempo, eu poderia tudo. Agora tenho que priorizar o que quero, o que posso e o que ainda tenho tempo de fazer. Talvez por isso a gente durma menos quando envelhece.

 

Não tenho medo físico de envelhecer. A idade é uma roupa que me cai bem, gosto que seja ajustada, não pareça menor nem maior. Até os fios de cabelos brancos, que uma parte considerável das mulheres abominam, ainda não me incomodaram. Mas me irrita essa falta de controle, eliminar possibilidades.

 

Quantos anos ainda tenho para conviver com as pessoas que amo, aprender outros idiomas, tocar um instrumento novo, praticar um esporte, experimentar novos sabores,  conhecer novos amigos, seguir outras profissões, descobrir vocações… Por quanto tempo ainda serei protegida?

 

Enfim, enquanto isso, na sala de justiça, esperamos o próximo jogo. Boa oportunidade para ir exercitando minha esperança. Quem sabe ganhamos?

16 – E não é que ganhamos?

Fui outra vez assistir o jogo no Bo Finn, o pub. Dessa vez, Luiz não pôde ir, viajou logo cedo a trabalho para Dubai. Fui com um casal de amigos e sua família. No bar, encontrei com outros amigos e novamente, a torcida brasileira dominou o local.

 

Uns “manés” australianos ainda tentaram se meter no nosso meio, mas foram devidamente intimidados por nossa indiferença confiante e um número maior de torcedores.

 

Muito bem, vamos combinar que não foi assim o melhor jogo do mundo. Mas ganhamos e isso importa. Além do mais, também é bom lembrar que as grandes equipes de futebol não estão com essa bola toda. Só aquela equipezinha que o país começa com “a” e termina com “ina”, se destacou, mas isso passa, gastaram toda sorte no início. Pelo menos, gostaria de acreditar nisso.

 

Agora, a grande surpresa da partida, foi descobrir que o tal do Fred não era um jogador imaginário inventado por nosso amigo. Na última partida, ele passou o jogo todo gritando “põe o Fred” e achávamos que era piada.  Quando na tela apareceu o jogador, morremos de rir, afinal de contas, ele existia. Falei para minha amiga do lado, já imaginou se ele entra e faz um gol. E não é que o iluminado entrou e fez!

 

A essa altura, Luiz havia acabado de pousar em Dubai e, no que dava para se fazer na barulheira do bar, narrei os principais fatos do Brasil 2 x 0 Austrália por telefone.

 

De lá, vim direto para casa, ando caseira outra vez. Comemoramos eu, meu gato e nossa enorme preguiça! Até que foi bom.

17 – Acho que faço uma exposição na semana que vem

Desconfio que, na semana que vem, vou participar de uma exposição coletiva. A frase é um pouco estranha, mas é verdade. Só acredito vendo, tô até com medo de convidar as pessoas.

 

No Master em Arte Contemporânea que farei até dezembro, há duas exposições previstas, uma na semana que vem e outra no fim do ano. Além das aulas teóricas, a gente desenvolve um trabalho para essas exposições.

 

No meu caso, desenvolvi uma instalação em aço, continuidade do trabalho que realizava ainda no Brasil, mas não tinha o espaço físico e a técnica para executá-la. Finalmente, consegui realizá-la no enorme atelier da faculdade, que conta com as máquinas, ferramentas e orientação necessária. Mesmo assim, foi bem complicado, a começar por levar o material para lá, Luiz precisou me ajudar. Depois, porque cada passo dado era novo para mim e não tinha margem para erros grandes, não havia sobra de material para substituir no que errasse.

 

Para complicar, descobri na véspera que o atelier fecharia uma semana antes do que era previsto. Por sorte, vinha trabalhando como uma louca enfurecida para terminar a peça a tempo e poder fazer um melhor acabamento com calma. Muito bem, a peça terminei, mas o acabamento foi para o saco! Paciência, não está perfeita, mas funciona.

 

Tudo isso soa um pouco como desculpa, juro que não é. A verdade é que precisaria de mais tempo para essa obra, mas não queria perder a oportunidade de uma exposição e corri atrás como pude. Além do mais, é uma chance de ver como a obra funciona com outros espectadores e entender que tipo de ajustes são importantes.

 

Em paralelo a isso, ao meu ver, há uma desorganização surreal no evento. Tudo ficou muito no ar, desde a decisão de quem iria expor, até quem faria os textos do catálogo, que dia exatamente iniciaria a exposição, que dia acabaria… Enfim, para se ter uma idéia, o catálogo deve ficar pronto, se for realmente realizado, no próprio dia da exposição e para quem já organizou ou participou de alguma, sabe que isso é um absurdo!

 

E para complicar mais ainda, rola um certo stress entre a coordenação e os alunos e hoje haverá uma reunião para discutir possíveis mudanças no semestre que vem. Imagina, uma semana antes da exposição vem essa história! Não duvido nada que eles cancelem, bate na madeira.

 

No início, não fazia tanta questão em participar, estava mais preocupada em trabalhar com consistência, em paralelo. Mas agora, tão perto e depois de tanto esforço, não queria morrer na praia. Não deixaria de ser um começo, algo para desencantar e, porque não, uma linha interessante no meu currículo.

 

Enfim, no pain, no gain e o que há de ser… 

Desconfio que, na semana que vem, vou participar de uma exposição coletiva. A frase é um pouco estranha, mas é verdade. Só acredito vendo, tô até com medo de convidar as pessoas.

 

No Master em Arte Contemporânea que farei até dezembro, há duas exposições previstas, uma na semana que vem e outra no fim do ano. Além das aulas teóricas, a gente desenvolve um trabalho para essas exposições.

 

No meu caso, desenvolvi uma instalação em aço, continuidade do trabalho que realizava ainda no Brasil, mas não tinha o espaço físico e a técnica para executá-la. Finalmente, consegui realizá-la no enorme atelier da faculdade, que conta com as máquinas, ferramentas e orientação necessária. Mesmo assim, foi bem complicado, a começar por levar o material para lá, Luiz precisou me ajudar. Depois, porque cada passo dado era novo para mim e não tinha margem para erros grandes, não havia sobra de material para substituir no que errasse.

 

Para complicar, descobri na véspera que o atelier fecharia uma semana antes do que era previsto. Por sorte, vinha trabalhando como uma louca enfurecida para terminar a peça a tempo e poder fazer um melhor acabamento com calma. Muito bem, a peça terminei, mas o acabamento foi para o saco! Paciência, não está perfeita, mas funciona.

 

Tudo isso soa um pouco como desculpa, juro que não é. A verdade é que precisaria de mais tempo para essa obra, mas não queria perder a oportunidade de uma exposição e corri atrás como pude. Além do mais, é uma chance de ver como a obra funciona com outros espectadores e entender que tipo de ajustes são importantes.

 

Em paralelo a isso, ao meu ver, há uma desorganização surreal no evento. Tudo ficou muito no ar, desde a decisão de quem iria expor, até quem faria os textos do catálogo, que dia exatamente iniciaria a exposição, que dia acabaria… Enfim, para se ter uma idéia, o catálogo deve ficar pronto, se for realmente realizado, no próprio dia da exposição e para quem já organizou ou participou de alguma, sabe que isso é um absurdo!

 

E para complicar mais ainda, rola um certo stress entre a coordenação e os alunos e hoje haverá uma reunião para discutir possíveis mudanças no semestre que vem. Imagina, uma semana antes da exposição vem essa história! Não duvido nada que eles cancelem, bate na madeira.

 

No início, não fazia tanta questão em participar, estava mais preocupada em trabalhar com consistência, em paralelo. Mas agora, tão perto e depois de tanto esforço, não queria morrer na praia. Não deixaria de ser um começo, algo para desencantar e, porque não, uma linha interessante no meu currículo.

 

Enfim, no pain, no gain e o que há de ser…

18 – Eu e minha boca grande!

Exposição melada! Pelo menos, para mim.

 

Após horas de discussão entre os alunos, até que sairam algumas boas propostas do grupo para a melhoria do curso no ano que vem.

 

Entretanto, também foi levantada a bola que a exposição deveria ser adiada. Em algumas coisas, tenho experiência e tinha certeza que essa possibilidade não existia, ou seria agora, ou seria cancelada. Como sempre, por trás da coordenação todo mundo se inflamou e se negou a participar da dita cuja. Ao sentarmos com o coordenador do curso, a história mudou bem de figura.

 

Acontece que recebemos duas informações que não contava, uma que não era exatamente uma exposição e sim, mais ou menos um exercício de exposição, seja lá o que isso signifique. Francamente, que os artistas a utilizassem assim, posso entender, até fiz essa proposta entre o grupo, inflamadamente rechaçada antes de sentarem na frente do coordenador. Agora, que a direção do curso parta desse princípio e ainda por cima nos diga isso uma semana antes do vernissage e mesmo assim porque estávamos reclamando, vamos combinar que o buraco é mais embaixo. É uma tremenda falta de respeito. Até porque acredito que o coordenador inventou essa história na hora para tentar amenizar a situação. A verdade é que foi uma baita de uma desorganização, isso sim.

 

Como se não bastasse, ele espertamente deu mais prazo para o pessoal que escreveria as críticas a serem publicadas no catálogo e, com isso, dividiu o grupo. Veio com uma historinha da carochinha que o catálogo deve ser uma discussão dos trabalhos e portanto pode sair meses depois da exposição. Ora bolas, se a finalidade de um catálogo é um texto onde não há mais obra exposta, por que fazê-la? Outra vez se atribuindo mais valor à explicação do que a obra. Melhor então escrever um texto legal, publicá-lo e já está: obra de arte pronta.

 

Pequeno detalhe, descobrimos ontem que a exposição duraria cinco dias em um período de férias. Parece piada ter todo esse trabalho para expor para seus coleguinhas de curso. Acho que voltei ao primário! Pela primeira vez senti saudade de consultoria e dos meus amigos adultos!

 

Enfim, foi um belo de um barraco e estou de mau humor. No final da reunião joguei um pouco de merda no ventilador, para não perder a prática, e até disse que participaria da exposição porque tinha obra. Mas só disse isso porque estava com raiva e queria ganhar tempo para pensar com calma. Em casa pensei, decidi que não vou e já comuniquei o fato.

 

Depois de tanto trabalho, é frustrante. Mas Luiz me lembrou que não perdi nada. A obra está pronta e a experiência em realizá-la ninguém tira. Vai passar e não seria nem a primeira, nem a última.

 

Paciência! Acabo de me decretar em férias! Agora só ponho meu nariz de volta na faculdade em setembro.

19 – Notícias do front

Depois do barraco da exposição, outras duas participantes também se negaram a expor e, no fim das contas, a coordenação do curso resolveu adiar tudo e decidir em setembro, na volta às aulas. Foi uma vitória com gostinho de derrota. Muito desgaste e energia gasta com bobagem.

 

Não sei no que vai dar esse rolo, mas existe um espaço de dois meses entre agora e a próxima discussão. Já nem sei se vou querer fazer parte, vamos ver com calma mais tarde.

 

Estive pensando se o saldo dessa conta foi positivo ou negativo. Acho que não há como saber agora, vai depender do que faça daqui para frente. Posso transformar em uma oportunidade ou posso me remoer de raiva. A segunda opção foi eliminada por simples cansaço e outras coisas mais importantes para pensar.  Portanto, há uma chance da história se reverter.

20 – Outra vez a Copa

Estou uma acompanhadora assídua dessa Copa 2006. Além dos jogos do Brasil, assisto a outros tantos. Nunca estive torcendo em uma Copa onde conhecesse tanta gente de tantos lugares diferentes do mundo; nas passadas, meus amigos ao redor eram sempre brasileiros. Agora, além deles, também são espanhóis, franceses, alemães, mexicanos, koreana… tem de tudo!

 

De quatro em quatro anos, descubro porque levo esse tempo todo sem assistir futebol: é que me dá o maior nervoso! Cassilda, é duro admitir, mas eu gosto de futebol! Paro de ver os jogos depois da Copa porque levo muito a sério. E agora, ainda por cima, fico nervosa com os jogos do Brasil e dos outros países! Joder, tío que fuerte!

 

Ontem, depois de assistir e comemorar a vitória da Alemanha, fui com Luiz a um restaurante e bar mexicano, chamado ”Sí, Señor”. Temos uma amiga mexicana, que mora com uma amigona brasileira, que nos convidou e estava lá com uma galera. Cheguei até meio borocoxô, ando com o humor mais ou menos, mas me animei com a torcida super empolgada e barulhenta.

 

Sei que é algo meio estranho um casal de brasileiros no meio de uma colônia de mexicanos e ainda por cima em Madri. Mas havia um bom motivo, o jogo era contra a Argentina. México perdeu, mas foi suado, uma pena. Na dúvida, já havia torcido para Alemanha antes, que acredito que dê conta do recado na próxima partida.

 

E hoje fomos a um churrasco de salsichão na casa de um casal de alemães. Foi também mais um casal de franceses e assistimos todos juntos ao jogo de Portugal e Holanda. A narração estava em alemão, conversávamos em espanhol com diversos sotaques, olhava a tela e via o brasileiro Felipão saltitante pelo time de Portugal. Francamente, às vezes isso é meio confuso, o mundo de repente me pareceu tão misturado!

 

Na semana passada, quando atravessava uma rua, um homem negro dirigindo um carro avançou o sinal. Estava errado, mas fez isso devagar, acho que se distraiu mesmo com tanta gente. Uma senhora pelo meu lado falou alto: está pensando que está na sua terra? O resto das pessoas riu, acharam engraçado a piadinha preconceituosa; eu não achei, fiquei com vergonha por ela. Na minha cabeça só vinha uma frase: sim senhora, no planeta terra. Mas acho que isso ela não seria capaz de entender.

 

Nesse momento, os países me parecem times de futebol, não são muito diferentes deles. Os jogadores e técnicos competem em equipes diversas pelo mundo, às vezes em seu próprio país e às vezes não. Em determinada ocasião são chamados a defender sua bandeira, sua raiz, sua nação. Cada país defende seus interesses sob regras e, quase sempre, ganha o melhor, pelo menos em tese. Ao fim da partida, vemos adversários se abraçando e muitas vezes sabendo que se encontrarão no mesmo time em breve, quem sabe em outro país que pode ser de nenhum deles. FairPlay. Não seria bom se o mundo fosse sempre assim?

 

Hoje vi a surrealista cena dos jogadores expulsos de Portugal e Holanda, em um jogo razoavelmente violento, sentados juntos conversando civilizadamente. Aliás, fora da Copa, são do mesmo time. Se por um lado me pareceu bizarro, por outro foi familiar. Puxei da memória e me lembrei algo que tenho muito orgulho, ainda que na época não tivesse muita noção do que significava.

 

Quando tinha por volta dos sete ou oito anos de idade, tinha uma amiga favorita no colégio. Nessa idade a gente tem sempre “a melhor amiga”. Minha melhor amiga mudou de turno e nos separamos. Alguns meses depois, foi realizado um tipo de competição entre as turmas desse mesmo colégio e passamos a ser de times diferentes. Revê-la foi uma alegria enorme, me pareceu um super encontro. Nossa torcida, sentada em um tipo de arquibancada, ficava lado a lado, com uma escada no meio. Sentamos nós duas no meio dessa escada, ela do lado da sua equipe e eu do lado da minha. Assistimos a competição abraçadas, cada uma torcendo para seu time. Claro que alguns alunos, também crianças, fizeram seus protestos quanto à nossa estranha torcida, mas desistiram muito rapidamente, pois eu a defendia no meu time e ela me defendia no seu. Não me lembro mais quem ganhou, era o menos importante.

 

Acho que finalmente entendi porque uma Copa do Mundo importa e porque mobiliza tanta gente. Pode ser utilizada de maneira distorcida ou manipulada pela imprensa, mas no fim das contas e acima de tudo, deixa sempre seu exemplo.

21 – A dor de despedir e a força de encontrar

Estou me preparando para viajar ao Brasil. Normalmente, é um momento de alegria onde fico muito ansiosa em reencontrar minha família e meus amigos. A vontade de encontrar a todos é ainda uma super motivação, mas a parte da alegria está muito difícil.

 

Adiantei minha viagem para julho por causa do meu avô, bem doente. Estou tentando chegar a tempo. Tempo de que? Difícil dizer, essas coisas não se sabem, mas se sentem ou se pressentem.

 

Cheguei a tempo de despedir das minhas duas avós, com as duas troquei olhares muito conscientes e cúmplices de ambas as partes. Sabíamos que era uma despedida. Elas estavam prontas. Eu não e, desde então, sei como uma pessoa olha quando entendeu sua hora. Esse jeito de olhar tem assombrado os meus dias, porque há o risco do meu avô me olhar assim e eu vou saber.

 

Tenho também um amigo muito querido, que não é de sangue, mas considerado da família. Um guerreiro que vem desafiando a medicina, mas que se encontra no limite da própria força. Outro que vai me olhar e eu vou saber.

 

O que ainda não sei é o que vou fazer. Como vou reagir? O que deveria dizer? Será que o fato de me preparar para isso significa que desisti deles? Porque não desisti, simplesmente estou apavorada. Até lá vou me acalmar, tenho certeza, mas está me custando.

 

Definitivas ou não, essas despedidas estão me tirando o chão, ainda me dói muito despedir.

 

Não esqueço que há também o encontro, com meus valentes queridos e os amigos de sempre. Saber que ainda há quem me espere sem vergonha de admitir sua saudade é muito mais do que poderia pedir.

 

Acabo de lembrar que conhecerei duas princesinhas, uma prima que já deve estar próxima aos seus dois anos e outra priminha que nasce em julho mesmo. A vida se encarrega de colocar a si mesma em perspectiva. Acho que isso deve querer dizer alguma coisa.

22 – Como ser um homem por algumas horas

Pela terceira vez consecutiva, Luiz viaja a trabalho durante um jogo do Brasil. Francamente, acho que os gringos estão marcando reuniões nesses horários só de sacanagem! Deve ser puro despeito!

 

Enfim, devo admitir que às 17:00 horas, durante a semana e fora do Brasil, ficou difícil para todo mundo assistir. Pois bem, resolvi ver Brasil e Gana de casa, sozinha. Imagine minha agonia ao descobrir que não passaria na TV aberta, única que temos. Ensaiei acompanhar pela internet, mas assim que Ronaldo fez o primeiro gol, me deu os 5 minutos e resolvi ir para o Bo Finn, mesmo sabendo que não haveria ninguém conhecido.

 

Na boa, por algumas horas dessa tarde experimentei ser um homem. Convenhamos, ir a um pub, sem companhia, simplesmente para assistir a uma partida de futebol! É o  mais masculino que já cheguei a fazer na vida! E sabe de uma coisa, não foi mal, me senti super poderosa por essa besteira. Bom, talvez não tenha sido tão masculino assim, porque tomei vinho branco. Mas considerando que nunca tomo cerveja e está um calor do cão, acho que não chega a diminuir o mérito. Poder ir para um balcão de bar, sem nenhum engraçadinho metido a machão conquistador enchendo meu saco, não tem preço!

 

Quando o jogo estava praticamente no final e eu vidrada na TV, de repente percebi uma mão acenando na minha frente. Era minha amiga francesa, que trabalha perto desse pub. Não combinei nada com ela, afinal, era um jogo do Brasil, mas ela sabia que normalmente vamos ali assistir às partidas, assim que resolveu dar uma passadinha para ver se me encontrava com Luiz. Olha que mundo pequeno! Outra vez, Madri, essa cidadezinha do interior…

 

Adorei. Não estava me importando em assistir a partida sozinha, mas é chato você ganhar e não ter ninguém ao lado para contar vantagem. Ops! Acho que fiquei muito tempo como um homem, já estou pensando parecido!

 

Bom, acontece que também era dia de França e Espanha e ela me chamou para ver o jogo com eles, os franceses. Topei e lá fui eu com um casal de franceses para outro pub. Estava um pouco desconfiada, não sei se no Brasil estaria muito segura indo torcer para o time adversário da casa e aqui não me parecia tão diferente. Os espanhóis estavam muito animados e crédulos de sua vitória. A princípio, os franceses queriam ver o jogo da rua, o que não me soava como uma boa idéia. É que montaram telões em duas praças conhecidas na cidade (Puerta del Sol e Colón) e esses locais estavam abarrotados de gente, obviamente, torcendo pela Espanha. No fim, decidimos ir a esse pub, que estava cheio de espanhóis e franceses, o que me pareceu bem razoável.

 

Foi engraçado, no início do jogo, fiquei dividida. Por um lado, havia me preparado para torcer pela Espanha, mas agora tinha os amigos franceses… cheguei a torcer para a bola! Depois resolvi torcer pela França mesmo. Por meus amigos, porque a torcida espanhola passaria a apoiar o Brasil e porque uma revanche não seria nada mal. Será que estava pensando novamente como um homem?

 

Assisti a uma partida animada, entre gritos de “allez le bleu” e “a por ellos”. É verdade que também rolava “hijo de puta, pam, pam, pam”. E para provar que futebol também pode ser cultura, descobri porque alguns jogadores cantam o hino francês e outros não. Nem todo francês gosta do hino, muitos o acham autoritário, pesado e simplesmente se negam a cantá-lo. Ou seja, La Marsellese não é uma unanimidade.

 

Ao final do jogo, para minha tranquilidade, não houve agressões ou hostilidades no bar. As pessoas estavam um pouco entristecidas, mas sem grandes feridas.

 

Caminhei de volta um pedaço com os amigos, depois peguei o metrô para casa sozinha. Não estava exatamente preocupada, mas atenta. Tem muito espanhol que acha que sou francesa, vai se entender o porquê, e não queria confusão. Minha linha passou por Colón, onde havia uma concentração de torcedores aborrecidos e o único ponto onde realmente me preocupei um pouco. Mas a coisa estava muito mais no desabafo que na intenção de violência. Melhor assim.

 

Cheguei em casa sã e salva. Liguei rapidinho para o Luiz ficar tranquilo e fui direto para o banho, até minha alma fedia a cigarro. Fiz minha escova e deitei na minha cama limpinha com meu felino gordo. Ser homem de vez em quando pode ser divertido, mas prefiro ser mulher.

23 – … tô aqui, com uma amiga de infância!

Eu tenho amigos de infância! É como ganhar na loteria! Digo ganhar, porque surgiram na minha vida depois de muitos anos afastados, viva a internet!

 

Não é a primeira vez que escrevo dos meus amigos de Brasília, que estudaram comigo entre a 1a e a 8a séries, mas é que essa semana recebi a visita de um deles aqui em Madri. Ontem fomos jantar, com a outra amiga da mesma escola que já mora na cidade há alguns meses, aliás, essa já virou da família. Foi o segundo encontro internacional de ex-alunos, muito legal! O primeiro, foi em fevereiro desse mesmo ano e para mim é sempre uma emoção encontrá-los. Difícil explicar, fico nervosa antes e feliz depois. Incluo também os maridos e esposas, que multiplicam  essa coisa boa de conhecer gente.

 

Acho que deve ser assim para muitas pessoas. Alguns felizardos, conseguem crescer convivendo com seus amigos de tantos anos e talvez não percebam que isso é um presente. Para nós, os nômades, é complicado, precisamos de um esforço a mais para não perder as pessoas no tempo. Esforço que não me importo em fazer, porque me ajuda também a não me perder nesse tempo. O olhar do outro constrói quem somos, os amigos recuperam nossa memória.

 

Não gosto de todo meu passado, muito menos acho a infância a fase mais feliz da vida, pelo contrário, sobrevivi a ela. No início, encontrar os amigos que pertenceram a esse passado não foi fácil, parecido para muitos de nós desse grupo, nos perguntamos quantos fantasmas íamos desenterrar e confrontamos quem realmente éramos, e não quem nos esforçávamos para lembrar. Isso é sempre duro. Por outro lado, quando a gente consegue passar desse medo, dessa barreira inicial, a recompensa é enorme. A gente de repente percebe que não era tão má assim, tão gorda assim, tão feia assim… só faltava um pouquinho de perspectiva, de olhar com um pouco mais de distância. Descobrir que os temores e traumas passavam na cabeça de quase todos, simplesmente alguns disfarçavam melhor, traz um alívio estranho e a sensação aconchegante de se sentir parte de um grupo.

 

Foi engraçado escutar meu amigo falando ao telefone:… tô aqui, com uma amiga de infância! Sei que não era nenhuma novidade, mas foi diferente escutar da boca de outra pessoa e saber que era eu. Não apenas tinha amigos de infância, era amiga de infância de alguém! Parece um trocadilho, mas não é, na prática faz diferença, me trouxe uma consciência maior de quem sou e das minhas responsabilidades. E gostei.

25 – Fui ao Brasil

Cheguei no Brasil dia 04 de julho de 2006. Em função do fuso horário, aterrisei no Rio de Janeiro no mesmo dia que viajei, como se a viagem que dura dez horas tivesse durado apenas cinco. No aeroporto, graças à greve da Receita Federal, esperei por duas horas minha bagagem, com meus pais de molho do lado de fora, também esperando.

 

O pior é que disseram para gente que estavam passando todas as malas no raio-X. Bom, não trazia nada de perigoso ou criminoso, entretanto, vinham algumas coisinhas, digamos, ligeiramente ilegais. Claro que levei uma mala cheia de comida! Uma pata inteira de jamón ibérico, fuet, azeitonas com anchovas, azeite de oliva enfurecido y otras cositas más! A possibilidade de deixar isso tudo no balcão da alfândega não era nada animadora. Roupa mesmo, nem tinha tanta, normalmente, gosto de viajar super leve e tenho prática em fazer malas só com o necessário.

 

No fim, deu certo e, apesar da longa e ansiosa espera, minha mala não foi aberta.

 

Na casa dos meus pais, foi o tempo de distribuir os regalitos, conversar um pouquinho, fazer uma mala menor e dormir. No dia seguinte, pegamos a estrada para Belo Horizonte, pretendia dividí-la com meu pai, mas acabei me esquecendo de levar a carteira de motorista. Que mancada! Luiz depois mandou para mim pelo correio, o que corrigiu essa minha falha técnica.

 

Foi uma viagem bem tensa, não tinha muita certeza como encontraríamos meu avô, motivo da nossa ida a BH. Estava muito concentrada e com todos os intintos em absoluto alerta.

 

Quando o encontrei, olhei direto em seus olhos e procurei o que não queria ver. Não estava ali, soube que não era sua hora e, no meu egoísmo de neta que não queria perdê-lo, respirei aliviada. É difícil ter esse dom bendito e maldito, mas finalmente ele me trouxe uma boa notícia.

 

Ficamos na casa da minha tia por quase uma semana, que vou contar com mais calma. Foi denso e difícil, também com lições e momentos importantes que vou me lembrar.

 

Meu avô conseguiu se tornar uma pessoa melhor, venceu a barreira de demonstrar seus sentimentos, foi capaz de perdoar e aceitar ajuda também de onde não esperava. Está conseguindo ser para os outros a pessoa que sempre foi para a família, um homem bom.

26 – Afasta de mim esse cálice

Nem tudo foi um mar de rosas. Passado o primeiro alívio de ver meu avô vivo e lúcido, minha ficha foi caindo e entendi as reais proporções do problema. Ele estava sofrendo e minha tia também. As pessoas ao redor também, mas acho que o peso maior é entre os dois. Meu avô precisava de mais conforto e independência; minha tia de dividir toda essa responsabilidade e trabalho.

 

Meu avô está com um problema renal grave e precisou entrar na hemodiálise, três vezes por semana. Quando o visitei, estava realizando o processo pelo pescoço, precisava fazer a cirurgia para colocar a fístula no braço. Isso faz com que ele só tenha uma posição para dormir, o que é bem incômodo. Está inchado e com muita dificuldade para andar. Está também perdendo sangue pelas fezes o que pode ser algo simples ou bem complicado, ainda não temos um diagnóstico.  Isso faz com que ele caia em anemia constante e necessite regularmente de transfusão.

 

Desde que me entendo por gente, ele sempre teve uma certa insônia pela noite, acordava algumas vezes, mas de dia dormia bem. Pois continuou igual, só que agora necessita ajuda para levantar e caminhar, mesmo assim, com muita dificuldade. Ou seja, minha tia precisava levantar durante toda à noite para ajudá-lo e isso a estava deixando exausta.

 

Durante nossa estadia por lá, tentamos repartir um pouco a tarefa para que ela descansasse, mas a verdade é que ela acabava acordando do mesmo jeito. Os dias eram razoáveis, a rotina era difícil mas possível, quando anoitecia o clima ficava mais difícil e as manhãs cada vez mais sonolentas.

 

Em uma das noites, acordei com um ruído e corri para o quarto dele, minha tia o segurava pelas costas, mas ele estava caído no chão. Levantá-lo não era tarefa simples, tentamos, mas deu medo dele cair e se machucar e fui chamar meu pai, que veio junto com minha mãe. Enfim, depois de levantado, descobrimos que ele não se machucou, pois foi escorregando com minha tia o apoiando e amortecendo a queda, mas claro que depois desse susto, ninguém podia dormir. A imagem dele derrubado no chão me doeu.

 

Voltei para o meu quarto meio enjoada e fui ao banheiro lavar o rosto. Na minha cabeça vinha a frase “afasta de mim esse cálice”. E pela primeira vez entendi o que ela significava. Não era meu avô que queria afastar, mas tive que assumir a covardia que não pertence a minha natureza. Logo eu, a que dormia nos hospitais, a que mantinha o sangue frio, a cheia de iniciativa. Escondida no banheiro, tive que confrontar o fato de me sentir aliviada de não ser a minha tia naquele momento, e também tive que enfrentar o medo de imaginar que serei eu um dia.

 

Pai, afasta de mim esse cálice! Não sei porque veio, mas a frase resoava na minha cabeça, sem nenhuma conotação religiosa, veio seca e dura! E se a fé não mereço e não me cabe, rezei mesmo sem ela. Não sei quanto vale a oração de um ateu para outro, isso não importava. Ajudou a pensar em alguma coisa, a lembrar de alguma coisa e a fazer a noite passar menos devagar.

 

Na luz do dia, a vida voltava a ficar mais normal. Começamos a avaliar a possibilidade de contratar alguém para dormir com ele e liberar um pouco minha tia. Idéia que não agradava em nada ao meu avô.

 

Por outro lado, nem tudo foi um mar de lama. Matei a saudade do meu avô e sei que ele gostou de me ver e que eu o visse ainda lúcido. Não foi a única coisa boa. Mesmo sem muito tempo para sentar e conversar, estava com meus pais e meu irmão. Encontrei minha tia, que é muito querida, minha única em primeiro grau. Quando era criança, nas férias normalmente meus pais precisavam viajar com meu irmão, que na época tinha um problema de saúde. Passava na casa dos meus avós, desse que está doente, com minha tia e meus primos. Foram muito presentes na minha infância. Minha prima mais velha é a pessoa mais meiga do planeta inteiro e agora tem uma filhinha tão fofa que quase me deu vontade de ter uma (disse “quase”). Deu tempo de me reconhecer e ensaiar meu nome que saía como “…aaanca”. Meu primo do meio é multitalentos, não há nada que se interesse que não aprenda. É confortante saber que mais alguém no mundo sente que uma vida só é muito pouco. Minha prima mais nova é exótica e teve a sorte de crescer com a atitude de gente livre. Meu tio, com quem não convivi tanto, estava mais próximo e pude descobrir afinidades até então desconhecidas. Encontrei outras pessoas que gosto e quero o bem, essa lista é muito longa.

 

No fim dessa viagem a Belo Horizonte, não podia dizer que me diverti, mas também não estava exatamente triste. Foi um tipo de felicidade diferente, que não sorri, mas você quer. Fiquei na dúvida se deveria voltar no final de semana seguinte. A verdade é que senti que meus pais também precisavam de mim no Rio, principalmente minha mãe. Decidi acompanhar à distância, por telefone, e só voltar na semana próxima se fosse necessário.

 

Não voltei. Um dia antes de deixar o Rio, em direção a São Paulo, recebi a notícia inesperada. Meu avô havia melhorado. Fez a cirurgia da fístula no braço, o que em breve o livrará do desconforto daquela porcaria no pescoço e começou a se animar, fazer piadinhas, brincar com a bisneta, pedir comida, dormir melhor… enfim, coisas pequenas que para a gente são muito grandes.

 

Recebi a notícia com alegria e cautela. Talvez reza de ateu funcione, talvez minha vó esteja alerta, talvez seja só a vida se encarregando de se resolver. Um leão de cada vez e, por hoje, vou comemorar e aceitar desse cálice.

27 – Na Cidade Maravilhosa

Ao chegar no Rio de Janeiro, adoeci. Não me preocupei muito porque sei que é relativamente normal. Quando minha bateria acaba e relaxo, caio de cama, mas me recupero muito rápido. No dia seguinte, já estava bem de saúde outra vez.

 

Não tinha muito ânimo nem paciência para festas ou bares. Acho que estava para poucos amigos, meu objetivo era ficar mais com minha família e observar as coisas. Acordei cedo todos os dias, longos e cheios de coisas para resolver.

 

Senti vontade de navegar um pouco no passado, buscar origens. Aproveitei e viajei para Teresópolis, com meus pais, e para Cabo Frio e Búzios, com minha mãe. Em Teresópolis, fui jantar no restaurante Dona Irene, um dos meus favoritos e do Luiz também. Cabo Frio está muito diferente, às vezes é difícil reconhecer os lugares, está uma cidade bonita, mas tive dificuldade em me achar. Aproveitamos o meu único dia de praia e, aí sim, lembrei porque já foi possível eu ser morena. Búzios está a mesma coisa, pelo menos a Rua das Pedras, para mim foi mais agradável, talvez porque estivesse igual.

 

Dirigi bastante e até gostei! Estava um pouco enferrujada, mas definitivamente é como andar de bicicleta.

 

A saúde do meu pai me preocupa, ele não vem se cuidando como deveria e o excesso de peso vem trazendo uma série de problemas e desconfortos. Isso vem deixando minha mãe bem nervosa. Entretanto, ele é adulto e vacinado, a decisão não é nossa. A gente só pode torcer para que um dia a ficha caia, porque sua presença é importante para a família e para os amigos. Esperamos que ele busque auxílio, pois sozinho dificilmente conseguirá reverter essa situação. 

 

Minha mãe se cuida melhor, se esforça para ter uma boa qualidade de vida. Quando estou lá, ela me dá atenção tempo integral, às vezes fico até meio culpada de estar atrapalhando algum programa, mas a verdade é que aproveitamos bem o tempo.

 

Com meu irmão, estamos em uma situação estranha, um pouco afastados. Nos vemos e nos falamos normalmente, mas não é a mesma coisa. Algo esfriou e perdemos afinidades. A distância não ajuda muito, mas espero que o tempo volte a cruzar nossos caminhos em algum momento.

 

Sinto bastante saudade deles aqui. No dia-a-dia, não parece tanto, a gente se acostuma. Mas logo que volto de viagem ou quando eles voltam de uma visita, sinto um pouco mais. Nesse sentido, gostei de encontrar seus amigos do Rio, me dá a tranquilidade de sentir que eles não estão sós. E se funciona o velho ditado que quem dá um doce ao meu filho, adoça a minha boca… funciona também para quem dá um doce aos meus pais.

 

Encontrei a família do Luiz, que é parte da minha. Jantamos no restaurante do Círculo Militar. Não me lembrava de ter ido ali antes, mas gostei. Informal, agradável e com aquela vista linda! Aliás, essa importância para a “vista” é coisa do Rio, né? Vi meu sobrinho do coração, que havia me pedido uma camisa do Real Madrid. Está com doze anos e já já me passa em altura.

 

Para completar, consegui chegar a tempo de ver nascer a mais nova priminha, uma loirinha gorduchinha linda que nasceu enorme! No hospital, durante a visita, ainda encontrei meus primos e minha tia-madrinha. Nômade tem que aproveitar esses momentos para encontrar as pessoas!

 

Por fim, participei do meu único encontro social com amigos. Uma reunião de ex-alunos do Colégio Santo Antônio, no Fiorentina do Leme. São meus amigos de Brasília, algumas vezes falo deles.  Um dos casais, inclusive, nos visitou esse ano em Madri. Foi muito divertido encontrá-los todos, temos conseguido manter um vínculo de amizade bem bacana.

 

Havia passado quase três semanas e estava com saudades do Luiz, do Jack e da minha casa. Fica difícil para a gente viajar junto para o Brasil, principalmente nessa última viagem, que decidi adiantar meio em cima da hora.

 

Embarquei para São Paulo, onde passei o último fim de semana antes de voltar para Madri.

28 – For women only

Muito bem, acho que estou meio densa, né? Uma pequena pausa para gaiatice? Pois esse capítulo é dedicado às meninas. Não que os meninos não possam ler, mas simplesmente não entenderão nada. ¡Lo siento! Há prazeres que são absolutamente femininos!

 

Chegando ao Brasil, houve uma coisa que precisava fazer com urgência urgentíssima: me internar em um salão de beleza, lógico! Cortei o cabelo, fiz mão e pé, depilação, sobrancelha, escova progressiva, limpeza de pele, luzes, hidratação… TU-DO! Todo tempinho extra, sofria uma tortura diferente e saía feliz da vida!

 

Só uma mulher é capaz de entender como é possível entrar em um salão se sentindo a pior das criaturas e sair se achando a poderosa Ísis!

 

Sim, em Madri tem salão de cabeleireiro e o preço nem é tão exorbitante quanto nos EUA, mas não é a mesma coisa que no Brasil. Nem se compara! Não há nada como explicar na sua língua o corte de cabelo exatamente como você quer, mesmo que seja impossível conseguí-lo. Não há nada como fazer uma depilação que se preze sem precisar ficar explicando porque você quer que cave um pouco mais. Cassilda! Todo mundo não sabe por que? Porque a gente se sente mais sexy na hora de dar! Porque a gente gosta de usar biquini sem precisar ficar se ajeitando o tempo todo! Porque é mais higiênico! Precisa realmente fazer a gente dizer? Não são todas mulheres? Francamente, isso é óbvio! Será que alguém poderia fazer um manual para as depiladoras européias explicando que virílha não é coxa? Virílha também se chama em depilação de “contorno”, e um contorno con-tor-na!

 

Capítulo escova: não é o máximo fazer escova com tanta frequência que você chega a acreditar que seu cabelo é arrumadinho assim naturalmente? Quando saí do Brasil poderia jurar que meu cabelo era liso de nascença! Dessa vez, não conversei, tratei de fazer a escova progressiva! Não dura para sempre, mas me iludirá por algum período. Só não fiz a tal da chocolate porque não deu tempo! Fiquei numa curiosidade…

 

Depois da reforma completa, me senti segura para ir comprar uma calça da Gang. Minha mãe achou um pouco cara e tive que explicar para ela que não estava pagando um jeans e sim uma cirurgia plástica. Pois o diabo da calça me deixou com a bunda que nunca tive e nunca terei! Convenhamos meninas, isso não tem preço! Olhei no espelho e me perguntei se não estava parecendo um pouco vagabunda. Para ser sincera, estava… um pouco. Mas quer saber, quem aqui de verdade quer parecer freira? Só não precisa exagerar, né? Como tenho cara de santa, acho que na média, passo. Duvido que Luiz ache ruim!

 

Capítulo sapatos: claaaaaaro que sim! Fui comedida, só comprei dois pares e um deles ganhei da minha sogra. Por outro lado, aproveitei para usar meus saltões. Aqui em Madri é difícil, porque como caminho muito, preciso de sapatos bem confortáveis e com saltos baixos. Vamos falar a verdade outra vez: ou o sapato é bonito ou é confortável! As duas coisas, normalmente é pedir demais! De qualquer forma, como foi bom me sentir alta outra vez.

 

Alta, com o cabelo arrumado, unhas feitas, pele limpa e bumbum levantado, estava pronta para qualquer desafio!

 

… eu gosto de ser mulher…sonhar arder de amor… desde que sou… uma menina…

29 – Em Sampa

São Paulo faz parte do meu roteiro oficial no Brasil, simplesmente, não dá para não ir. Morei lá dez anos e adoro! Tem trânsito, poluição, violência… mas fazer o que? Também tem amigos, os melhores restaurantes, uma noite fantástica…

 

Acredito que o principal mesmo é que foi a cidade onde me tornei independente e, em seguida, construí junto com Luiz a estrutura do que é hoje nossa vida. Essa cidade tem um poder diferente de fazer você conseguir o que batalha e o que merece. Sei que em outros lugares isso acontece também, mas São Paulo é especial nesse sentido.

 

Aconteceu uma coisa esquisita, pela primeira vez, tive dificuldade em lembrar os caminhos pelas ruas da cidade. Ia me lembrando a medida que andava nelas, mas não veio naturalmente. Sempre tive uma facilidade incomum em circular de carro pelas confusas ruas paulistas, mas dessa vez foi mais complicado.

 

Por sorte, tive a mordomia dos meus amigos e sempre alguém me levava para os lugares. Ia olhando tudo como se estivesse fora do corpo assistindo. Uma sensação muito estranha. Só um dia, quando fui bem perto de onde morei alguns anos, tive aquela sensação familiar. Existe um lugar na Marginal Pinheiros, pouco depois de passar a ponte Cidade Jardim, que sempre foi onde eu tinha o sentimento de estar chegando em casa. Não me senti assim, mas mexeu um pouco comigo. Entretanto, quando entramos efetivamente no Morumbi, havia tanta construção nova que me confundi em uma das ruas.

 

No sábado, fiz um encontro geral com amigos no “Dloon”, em Moema. Sempre faço assim, marco um lugar grande e aviso a todo mundo. Quem pode aparece. Foi bem divertido e também foi a comemoração de aniversário de uma das amigas.

 

No dia seguinte, almocei no Tordesillas, um dos meus restaurantes favoritos em Sampa. Fazem comida brasileira e tem um Bobó divino! Não é barato, mas vale pelo cardápio delicioso e pela oferta de cachaças, que também adoro. Ali encontrei um amigo, ex-aluno do Santo Antonio, que veio de Campinas para o almoço; e também com a “Diretoria”, já explicada em crônicas anteriores. Na sequência, fomos ao Buena Vista.

 

Na segunda-feira, fiquei por conta da família paulista, amigos queridos que não sei dizer se adotamos ou fomos adotados. Conheci a “Area Artis”, galeria de arte dessa minha amiga, que está super bem montada na Rua Normandia, vale o programa.

 

Jantei com o casal de amigos, da casa onde estava hospedada, no Chalézinho. Comemos um foundue de carne feita no vinho. Ótima companhia e foi bom para relaxar um pouco. Nesse dia não estava me sentindo muito bem e no dia seguinte de manhã embarcaria de volta para Madri.

 

Na terça de manhã, acordei de malas prontas e fui direto para o aeroporto. Passei mal a viagem inteira com enxaqueca e cólicas homéricas. Lei de Murphy. Por outro lado, está confirmado: perdi completamente o medo de avião. Essa é uma excelente notícia!

 

Não tive medo minha vida inteira, começou depois de passar por algumas experiências aéreas meio complicadas. Passei por CB, por urubu na turbina com pouso de emergência e, para completar, um pouso em final de furacão. Cada vez que o avião balançava um pouquinho, era impossível não me lembrar. Mas agora, aparentemente, isso acabou e não sinto a menor falta.

 

De qualquer forma, foi muito bom pisar em terra firme outra vez.

30 – De volta para casa

Pousei em Madri às 6 da matina e Luiz levantou vôo para Londres às 7. Ou seja, não nos encontramos. Falamos pelo celular no aeroporto, mas foi impossível sair antes que ele fizesse o check in. Paciência!

 

Na hora de passar pela alfândega, mais um suspense! Óbvio que minha mala estava repleta de comida e cachaça! Lingüicinhas e costelinhas defumadas, carne seca, paio…  A cachaça é permitida, mas tem que vir na mala de mão e acho que só podem duas garrafas. Tinha cinco, dentro da mala. Como ninguém nunca me para, achei que valia o risco.

 

Pois na saída, eu e bem umas dez pessoas que vinham na minha frente do Brasil foram paradas e mandadas para passar a mala em um raio-X. Quando o raio-X acusava alguma coisa, elas iam para uma salinha atrás abrir a mala. O que mais poderia vir à cabeça nesse momento? F#$%u!

 

Mantive a calma, ou melhor, a cara-de-pau e fiquei atenta ao que poderia fazer para me safar. Era a última da fila e havia dois agentes fiscais. Minha mala já estava na boca da esteira, quando a mesma parou e o agente chamou as pessoas que passaram na minha frente para conferir a mala na salinha. O outro agente que ficou, começou a dar uma tremenda dura em dois homens que tinham mesmo pinta que eram imigrantes. Começou a perguntar onde eles iam, se queriam trabalhar aqui, essas coisas. Quer saber, ia ficar ali esperando para ser a próxima? Arrisquei.

 

Tirei a mala da boquinha do raio-x, já encostando na cortina, e a coloquei de volta no carrinho. Puxei minha carteira de residente e falei no melhor espanhol que podia, com cara de desentendida: Eu moro aqui, por onde eu passo? O agente, muito mais preocupado com a dura que estava dando, olhou de relance minha carteira e me mandou voltar e passar direto pelo portão sem ser revistada.

 

Ufa! Feijoada salva pelo congo!

 

Chegar em casa foi um grande alívio, estava super cansada. A única coisa que aguentei foi brincar um pouco com meu gato curioso e tomar um banho. Pelo caminho, fui encontrando bilhetinhos do Luiz pelo apartamento todo, ele sempre dá um jeito de estar presente.

 

Mergulhei na cama exausta e ainda não muito bem. Nem fome eu tinha. Só me recuperei mesmo no dia seguinte, quando Luiz voltou.

 

Fomos jantar no Trifón, antes que eles fechassem as portas no verão. Agora só em setembro. Muitos restaurantes aqui fazem isso, fecham em agosto. A cidade fica deserta.

 

Essa semana chegam três hóspedes e o apartamento vai animar outra vez. Enfim, de volta para casa.

31 – O pântano e afins

Uma semana depois de chegar do Brasil, estava com a casa pronta para receber as próximas hóspedes: uma amiga da nossa faixa etária, sua filha e sobrinha, ambas com 14 anos. Para algumas pessoas, a idéia de receber adolescentes assusta. Para mim, parecia divertido.

 

Minha única preocupação era saber escolher os programas adequados, pois não tenho filhos nem amigos com filhos dessa idade aqui. As meninas ganharam a viagem como presente de 15 anos e queria que elas tivessem uma experiência legal para lembrarem no futuro.

 

Nosso apartamento comporta bem dois hóspedes. Três, era a primeira vez que testaríamos. Perguntei antes para nossa amiga se uma delas se importaria em dormir no sofá e ela disse que não. Portanto, resolvi levar uma cama de hóspedes para a sala e acomodar as duas meninas ali: uma na cama e outra no sofá. E no quarto, ficou outra cama de solteiro e espaço para as malas. Dessa forma, achei que elas ficariam mais à vontade para ter o “quarto da bagunça”.

 

O quarto da bagunça é um fato normal quando você recebe. A não ser que você tenha um vasto armário com lugar para todas as roupas da mala, coisa que não existe aqui, não há muito como organizar. Como seus hóspedes podem fazer? A mala fica no chão e bagunça um pouco mesmo, não tem jeito. Eu aprendi a apertar o botão “F” e Luiz desenvolveu um tipo de visão periférica, onde ele só olha da metade do quarto para cima. Funciona!

 

Muito bem, dessa vez, elas apelidaram o quarto da bagunça de “pântano”. Quando alguém entrava era um tal de “vai se perder no pântano”, “cuidado com o pântano”…

 

Resolvido o quesito acomodação, fomos aos passeios. No primeiro dia, caminhei com elas pelo centro histórico, já tenho essa rota de cabeça. Fomos à Plaza de España, Opera, Palácio Real, Calle Mayor, Plaza Mayor, Calle Cava Baja, almoçamos na Plaza Paja, voltamos para Puerta del Sol, subimos a Calle Preciados até a Plaza Callao. Tivemos que parar na Plaza Callao para irmos na Varig, pois com essa confusão que houve, elas precisavam confirmar como voltariam ao Brasil. No fim, deu tudo certo.

 

Minha amiga me contou que as meninas haviam gostado de comer no Planet Hollywood, em Paris. Na verdade, não sabíamos se elas haviam gostado mais do lugar ou do garçon bonitinho. De qualquer jeito, o mais parecido a isso que temos aqui é o Hard Rock Café. Então, jantamos ali e aproveitamos para mostrar a Plaza Colón. Voltamos caminhando para casa, subindo toda a Calle Goya.

 

No dia seguinte, fizemos o passeio no teleférico, que possibilita uma boa visão da cidade. Vai de Pintor Rosales até Casa de Campo. De lá, caminhamos até o Templo de Debod, um presente do governo egípicio à Espanha. Tomamos o metrô e fomos ao Estádio do Santiago Bernabeu. É que as meninas queriam respirar o mesmo ar que o Bekham respirou, andar onde ele andou… essas coisas. Vamos combinar que elas tem bom gosto, né? Há um tour nesse estádio, onde a gente tem uma visão panorâmica do campo, conhece a tribuna de honra, o vestiário, tira foto no banco de reservas e zona técnica, passa pela sala de troféus e termina na loja do Realmadrid. Mas acho que a melhor parte foi tirar foto com o ascensorista bonitinho. Se não foi a melhor, foi a mais engraçada.

 

No mesmo dia e já meio cansadas, fomos ao museu Reina Sofia e fiz com elas o trajeto rápido. Na saída, voltamos de metrô pela estação Atocha, onde tem uma floresta tropical artificial.

 

Na noite de sexta-feira, agora junto com Luiz, fomos para a Calle Huertas, com as meninas disfarçadas de adultas. É que ali há diversos lugares para dançar, acontece que o limite de idade é acima de 18 anos. Mas arrumadas, de salto alto e misturadas conosco, elas entraram sem grandes problemas. De lá, ainda passamos na Bodeguita del Medio, mas já estava meio vazio. Agosto é um mês meio paradão.

 

Luiz alugou um carro para o fim de semana e, no sábado, fomos ao shopping Xanadú. Não fomos fazer compras, é que lá há uma pista artificial de neve para esquiar e até que quebra bem o galho. É no mínimo curioso esquiar a 2 graus negativos, quando lá fora está quase 40 positivos! As meninas e nossa amiga esquiaram bem logo de cara, levaram jeito para a coisa. É verdade que houve alguns tombos curiosos, mas vou poupá-las desses detalhes.

 

No fim da tarde de sábado, a discoteca Kapital faz uma sessão para maiores de 14 anos e levamos as meninas. Claro que já estavam mortas, por conta da tarde de esqui, mas a curiosidade foi maior. Por volta das 21:30 elas nos ligaram para buscá-las. Voltaram morrendo de rir dos cortes de cabelo e da coreografia, digamos exótica, que os meninos faziam. Nesse dia, elas se viraram e jantaram em casa mesmo e nós e nossa amiga fomos jantar fora com uma outra amiga de Madri. Fomos ao El Barril, na minha opinião, um dos melhores restaurantes de frutos do mar daqui, só que o paladar e o preço é voltado para o público bem mais adulto. O que quer dizer que acabo de me chamar de velha.

 

No domingo, fomos a Segóvia, conhecer o aqueduto romano e almoçamos por lá. Na volta, paramos no Valle de Los Caídos. Mas, aparentemente, o grande programa do dia foi depois, quando encerramos a tarde no parque da Warner. E eu que nem sabia que tinha parque da Warner aqui!

 

Na segunda-feira, foi mais tranquilo. Na verdade, boa parte das atrações da cidade estavam fechadas, assim que foi um dia mais para descansar e fazer as últimas compras. Aliás, se pode imaginar que três mulheres juntas acompanhadas de uma quarta, independente da idade, possuem uma certa facilidade para se empolgar nas compras, que incluíram duas malas extras para levar as coisas.

 

E agora vou dedurar, também levaram um monte de comidinhas espanholas! Não sou a única gulosa com uma família de esganados! Adorei saber que tem mais gente no planeta que viaja e leva comida! E o pior é que dá vontade de levar mesmo, pena que vou perder a festa da volta.

 

Em casa, à noite, Luiz chegou com a novidade: um carro. Agora temos carro em Madri, essa história vou contar depois. Daí fomos estreiar o tal carro novo na maior gaiatice, com direito a foto e tudo. Jantamos no Tony Roma’s, uma cadeia americana com jeitão country e famosa pelas ribs. Não é exatamente meu estilo, mas para variar um pouco e fazer algo diferente, valeu. De lá, rodamos de carro até a Plaza de Castilla e voltamos para casa.

 

No dia seguinte, as malas já amanheceram prontas e fomos cedo para o aeroporto. Talvez até tenhamos ido cedo demais, mas é que essa época muita gente viaja, dá overbook com frequência e, ainda por cima, os bilhetes haviam sido reemitidos para outra companhia. Na dúvida, achei melhor não arriscar e as pobres tomaram um chá de aeroporto. A viagem será longa, mas espero que tenha valido a pena.

 

Quando cheguei em casa, Jack desceu a escada histérico miando. Acho que me viu saindo com elas e todas aquelas malas e pensou que eu ia viajar outra vez. Depois de uma sessão de macaquices, ou melhor, gatices, sossegou e relaxou.

 

Fui conferir como estava o pântano e agora não passava de uma floresta desmatada. A casa ficou meio vazia, mas é sempre assim quando as visitas vão embora. Sobro eu e Jack. Dessa vez, até que não foi tão mal, porque Luiz não precisou viajar e à noite já estávamos na nossa rotina. Um vinhozinho, um jamón, um queijinho, Jack se esparramando no chão… também não dá para reclamar da vida, né?