Para as mães felizes e para as tristes também

Eu cresci sem querer ser mãe. Não queria, não sentia falta nem necessidade de ter uma criança. Tenho 50 anos, casada há 26, não tenho filhos e tudo bem.

Isso é uma fase… quando chegar a hora você muda… só as mães amam… apenas quem é mãe entende o amor incondicional… quem não tem filhos é egoísta… quem vai cuidar de você na velhice… quando você casar você vai querer… você tem algum problema… seu marido tem algum problema… você passou por algum trauma… um dia você vai realizar esse sonho… quem não tem filhos não tem coragem… quem não tem filhos é incapaz de um amor maior… quem não tem filhos não sabe o que é amar de verdade…

Eu ouvi todos esses absurdos e, pode ter certeza, muitas outras aberrações durante a minha vida. Faz um tempo que não ouço mais, não sei se pela minha idade e as pessoas desistiram, ou porque passa pelos meus ouvidos diretamente, como um ruído desagradável porém rápido. Como o som chato de mosquito, que incomoda, mas se vai sem deixar maiores memórias e sem nenhuma relevância.

A propósito, da minha mãe mesmo, nunca ouvi nenhuma das frases acima.

Pois muito bem. Eu nunca quis, até que um dia eu duvidei da minha vontade. Não pelas besteiras que escutei ou por motivos alheios, mas pelos meus próprios motivos. E muito, talvez, pela idade em que me aproximava, o tal relógio biológico.

E sim, queridas mulheres mais jovens, o relógio biológico bate, independente das suas crenças. Porque te lembra que, em breve, não será mais uma possibilidade ou uma escolha. Para mim, o fato de não poder ou não ter escolha é algo que me questiona. Hoje, talvez menos que antes.

Foi um momento bastante forte, que tirou algo do meu chão, me deixou um pouco perdida na época. Mas que, ao mesmo tempo, admito que também me trouxe uma força bastante grande. Na verdade, talvez o mais certo seja dizer que não me trouxe, mas me despertou, porque a força estava em mim, assim como em todos.

Contra as minhas previsões, eu decidi ser mãe. E fui. Engravidei aos 42 anos, mas perdi a criança com dois meses de gravidez.

Foi o luto mais forte que enfrentei. E não quero aqui colocar a responsabilidade da minha dor em ninguém, ela foi e é só minha. Mas preciso compartilhar uma situação para que outras mulheres se sintam compreendidas e, quem sabe, melhor acolhidas. Acho que esse é um luto absolutamente subjulgado. Porque para quase todos à sua volta, você perdeu uma gravidez. Para a mulher, para a mãe, você já sentia a criança dentro de você. Eu não perdi uma gravidez, perdi um filho.

E me parece estranho as comparações com os níveis de dor. Porque teoricamente, você é levada a crer que “foi melhor assim”. Pior seria se perdesse depois de nascido. É como se você não tivesse o direito a passar pelo luto de um filho. Te negam o direito de assumir uma maternidade que existiu pelo único critério de haver sido breve.

Pergunto aqui, sofre mais uma mãe que perde seu filho aos cinco anos do que a que perdeu quando o seu só tinha três? Sofre mais a mãe que perdeu seu filho aos 32 do que aos 23 anos? E por que há necessidade de se estabelecer um ranking de sofrimento?

A dor é minha. Perdi um filho. Respeitem meu luto que existiu. E passou.

Honestamente, apesar de tudo que me trouxe e, também, por tudo que me trouxe, sou grata. Porque hoje posso dizer com convicção, ninguém precisa ser mãe para amar de verdade. A capacidade desse amor está lá, essa força de leoa está lá, todos seus instintos estão lá… só precisam ser despertados. E sim, ter um filho é uma forma de despertar todo esse amor, que não caiba nenhuma dúvida sobre isso! Mas há outras, tão intensas e generosas quanto.

Portanto, não venho aqui tirar o mérito de ninguém, muito pelo contrário. Quero apenas dizer que, todas e todos nós, mães ou não, temos direito e merecemos um dia feliz.

Feliz dia para todas nós! Feliz dia para minha mãe! Feliz dia para mim!

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