São três histórias que se entrelaçam e parecem tão diferentes, mas o sentimento é o mesmo.
Em 2017, em São Paulo, participava da bateria do Monobloco, tocando surdo de 3ª, meu instrumento do coração. Era uma relação simbiótica, em que meu surdo parecia ter vida, era como um grande amigo e companheiro.
Havia ensaiado muito, como de costume, para tocar no carnaval. Em paralelo, durante esse mesmo ano, em janeiro, meu pai foi internado em estado gravíssimo. Um período triste e bonito ao mesmo tempo, de aproximadamente 6 meses, até seu falecimento. E as histórias sobre esses momentos, já compartilhei, conto agora apenas para dar o contexto.
Afinal, a vida não pára e é tudo junto, por isso, enquanto tentava estar o máximo de tempo próxima ao meu pai no hospital do Rio, também seguia os ensaios, na medida do possível, para tocar meu surdo no carnaval, em São Paulo.
Conversei com meu mestre e expliquei a situação: não quero atrapalhar, não seria justo com a bateria. No que ele respondeu que não havia problema, ele preferia que eu fosse ao desfile e “errasse” do que não fosse. E talvez vocês não saibam o que significa ouvir isso do seu mestre de um instrumento de marcação, mas foi um alento, um gesto de confiança, uma motivação incrível para seguir me dedicando e orientando minhas energias e pensamentos para algo positivo, onde possuía a mínima sensação de controle.
Naquele mesmo ano, o Monobloco faria seu primeiro desfile com a oficina de Belo Horizonte e, por serem ainda amadores, convidaram alguns participantes veteranos do Rio e de São Paulo para participar e apoiar a bateria. Eu fui uma dessas convidadas a tocar em apoio, motivo de imenso orgulho para mim.
Mas o fato era, que se já estava complicado conseguir participar do desfile de São Paulo, imaginem conseguir estar em dois desfiles, em cidades diferentes e ainda atender ao meu pai no Rio de Janeiro.
Como de costume, sempre que as respostas parecem confusas e improváveis, me concentro em fazer o melhor possível. O universo conspirou a meu favor, meu pai apresentou uma ligeira melhora e, no dia do desfile de São Paulo, pude estar presente.
Só eu sabia como meu coração estava apertado, mas não importava, porque sei ser feliz e triste no mesmo dia e estava muito bem acompanhada do meu parceiro dos momentos mais íntimos de solidão, o meu surdo. E, por algumas horas, transcendemos juntos no nosso mundo particular.

No dia do desfile em Belo Horizonte, não tive a mesma sorte. Havia deixado avisado que tentaria comparecer, mas não havia como garantir a presença. Estava exausta e outros compromissos prioritários surgiram bem em cima da hora. Avisei a uma amiga de surdo que não iria, porque não queria ocupar o tempo do meu mestre. Claro que fiquei arrasada por não poder participar, mas enviei um desejo de sucesso com todas as vibrações positivas que ainda era capaz de sentir.
No dia seguinte, logo cedo, recebi uma mensagem dessa amiga citada acima, me contando que na preparação para o desfile, meu surdo estava pronto na avenida, guardando meu lugar.
Nem sei explicar o tamanho da emoção que eu senti! De uma certa maneira, se meu surdo estava lá, era como se eu também estivesse. Parte de mim estava ali, não só em pensamentos, mas fisicamente presente. E simplesmente por ter essa informação, fez com que todo meu esforço do ano tivesse valido a pena.
O tempo passou e muitos acontecimentos transformaram minha vida nos anos seguintes.
Em setembro de 2021, viemos parar em Portugal e me converti em uma viticultora, responsável por desenvolver e gerir uma pequena vinícola, a Quinta do Vianna.
Esse foi um processo transformador em todos os sentidos: uma mudança de carreira, de estilo de vida, de país, de tamanho de cidade… infinitos aspectos! Mas, principalmente, tem sido um período de intenso aprendizado e de resgate do meu “Eu” mais profundo. Pois no esforço em me converter em quem quero e preciso ser, mergulhei em quem realmente sou.
Essa busca e observação do entorno, me trouxe esse resgate inesperado do meu DNA português. Daquele que nem havia me dado conta que era tão presente na minha própria ascendência. Nos hábitos da minha casa, comidas da minha infância e, intensamente, nas lembranças que trago do meu avô e do meu pai. As origens do meu sobrenome: Rocha.
São incontáveis as vezes que olho as pessoas nas ruas ou noto determinados comportamentos ou traços físicos que são meu avô ou meu pai escritos! E lamento muito que eles não estejam aqui.
Entendo que para meu avô seria mesmo impossível, mas me dá uma pena enorme que meu pai não tivesse resistido um pouco mais. Um misto de saudades e quase que algo de mágoa dele não ter se cuidado… só um pouco mais… É egoísta, eu sei, mas é humano. E me custa muito admitir o quanto às vezes ainda preciso de um pai e uma mãe já sendo uma mulher adulta, tão forte e independente. Felizmente, mãe ainda tenho.
Queria muito que meu pai olhasse a vista do rio Douro quando acordasse, escutasse os grilos e os pássaros, tomasse seu café da manhã com o pão fresco que o padeiro trouxe em casa e os ovos das galinhas do vizinho, caminhasse nas nossas vinhas e percebesse quais os cuidados necessários às uvas, comesse as comidas da região que ele adorava, nos ajudasse a plantar as oliveiras, exagerasse no azeite da salada, reclamasse da política enquanto assistisse o noticiário em volume incomodamente alto. E, no final da tarde, se juntasse aos amigos na tasca da cidade, com seus braços cruzados sobre a barriga e um sorriso discreto e quase debochado, imitando o acento português por se sentir integrado. Começasse a contar suas histórias repetidas e rir de mentiras sem importância, enquanto tomava o vinho que ajudou a produzir, claro, acompanhado de um bom presunto de carne firme e alheiras.
Na minha imaginação, isso aconteceu tantas vezes que perdi a conta!
E, por que estou contando todas essas histórias?
Porque nesse exato momento, preparo um vinho tinto feito de vinhas velhas, que já nasceu com grandes possibilidades. Desde seu início, é pensado como um produto em paralelo, que não será executado todos os anos, só mesmo em situações especiais. Queria que, de alguma forma, fosse representado pelo meu pai.
Ganhei hoje o direito a usar a marca e se chamará “Velho Rocha”. A emoção me invadiu porque agora é concreto, é físico, existe e é algo excepcional!
Meu pai não vai voltar e não há nada que eu possa fazer que mude essa realidade. Porém, de certa forma, ter seu nome e sua imagem eternizados em um vinho me trazem o símbolo que preciso. Eu sei que ele estaria feliz e orgulhoso, porque me lembro dele dizer que o sentimento que mais apreciava era a gratidão.
Obrigada, meu pai, parte de você vive em mim e seu vinho seguirá aqui, guardando seu lugar. Na nossa vida, na nossa mesa e dentro de nós. Saúde!

Bianca,
Nossa… que texto maravilhoso! Em lágrimas aqui ! Grande homenagem ao Dr. Rocha…🙏🏻
Saúde e sigam firmes como um(a) Rocha. Love you.
Aninha
Bianca, fiquei muito emocionada lembrando do nosso amigo querido Robson. Você descreveu muito bem a felicidade q ele teria com a Quinta do.Vianna. Parabéns mais uma vez!
Obrigada Anna, acho que ele estaria feliz sim!❤️😘
Oi, Aninha! Foi muita emoção mesmo, para mim também. Seguimos aqui, firmes e fortes! ❤️ Beijo e esperando você por aqui, cheia de novidades!😘
Lindo texto e homenagem. Me senti transportada no tempo. Me vi sentada à mesa nos almoços de domingo preparados pelo Tio Robson. Sua fala forte de tom alegre e sua risada larga. Me sentia acolhida como uma parte da família, nos finais de semana que passava na tua casa. Saudades eternas! ❤️
Oi, Claudinha! Você foi e continua sendo acolhida como parte da família! ❤️🥂