93 – Caminho de Santiago for dummies

Há alguns meses atrás, acredito que pelo final do ano passado, começou a me dar vontade de fazer o Caminho de Santiago. Para quem me conhece, mesmo que só um pouquinho, com certeza deve imaginar ser uma vontade bizarra. Na verdade, até eu acho estranho porque, em tese, não tem o meu perfil em nadinha.

 

Sou ateísta e, dependendo do ângulo que se analise, quase hedonista, adoro uma mordomia, sou meio fresca e com mania de limpeza, nesse caso com uma certa paranóia em relação a banheiros limpos e banho quente. Tenho os pés mais machucáveis do planeta, não gosto de acordar cedo, nunca fui uma pessoa rural, aliás, difícil ser mais urbana. Enfim, por que raios mesmo quero fazer o tal do caminho?

 

Ainda não sei, mas deve haver algum motivo porque ele não sai da minha cabeça. Engraçado porque nunca conheci tanta gente que o havia trilhado, assim de repente, do nada. Pelo blog, por amigos, por conhecidos, não importa, a informação a respeito tem praticamente me perseguido. Sei que quando estamos atentos à alguma coisa isso acontece, de certa forma parece que o universo conspira, mas podemos racionalizar e dizer que simplesmente olhamos com mais atenção e buscamos a informação que nos interessa. Pode ser.

 

O fato é que resolvi seguir a intuição e tomar uma atitude, decidi que vou trilhá-lo. Estipulei uma data, não tão rígida, mas para ter um objetivo. Saí da voz passiva em esperar as informações que chegavam e passei a pesquisar a respeito em livros e websites. Não sei explicar direito, mas parece que de alguma forma, ao tomar a decisão, o caminho começou.

 

Daí comecei a refletir se teria algum objetivo nobre para fazê-lo. Para ser sincera, não achei nenhum. Cada vez que me pergunto o que quero do caminho não acho nenhuma resposta concreta, só quero caminhar e aprender o que ele tiver a me oferecer. E se não tiver nada a oferecer, pelo menos me deu uma meta, um plano, e isso já me deixa no lucro.

 

Por outro lado, acho que a gente precisa respeitar os próprios limites e também resolvi que não quero todo esse coñazo de sofrimento. Vou fazer o “Caminho de Santiago for dummies”, uma versão light. Não digo turística porque está bem longe do meu ideal de turismo, mas enfim, andei lendo sobre os albergues, como funcionam e tal. Todo mundo diz que é uma tremenda experiência, mas cá entre nós, é uma tremenda experiência de banheiros compartilhados e lama no chão que dispenso. Comecei a procurar hotéis e pousadas e cheguei a conclusão que nem são tão caros assim, principalmente para quem já mora na Espanha e usa o euro como moeda corrente. Não preciso de um hotel cinco estrelas, só quero um banheiro com o mínimo de privacidade e uma cama decente sem nenhum estranho chulézento roncando do meu lado.

 

Vi também que não preciso fazer tudo de uma vez só, é normal se dividir o caminho, além de haver outras possibilidades ao Caminho Francês, o mais conhecido, que começa em Saint Jean Pied-de-Port. Outras opções seriam os  Caminhos de Finisterre ou o Inglês, mas não sei, sigo tentada a optar pelo Francês, mesmo que fazendo um trecho menor, começando em Pontferrada, por exemplo.

 

Luiz não tem vontade de fazer o caminho e acho que não tem nenhuma obrigação. Para falar a verdade, acho que devo fazê-lo sozinha, é coisa minha. No máximo, com uma amiga ou amigo que respeite o silêncio. Talvez tenha essa amiga e acredito que possa funcionar. Também tem o lado de me dar mais segurança por ter alguém conhecido junto e acredito que possa oferecer o mesmo em troca.

 

Comecei a me preparar fisica e psicologicamente e quem sabe tenha sido isso que me fez sentir que o caminho havia começado. Estou avaliando o estritamente necessário para levar e preciso, com urgência, achar o sapato adequado para amaciá-lo com antecedência. Caminho com regularidade distâncias bem razoáveis, mas acredito que precise fazer isso com mais disciplina. Estou atenta onde as dores me surgem após caminhadas mais longas e preciso tomar cuidados especiais com joelhos e coluna.

 

O curioso foi observar que, pelo menos em princípio, esse preparo não está sendo tão difícil, o que contradiz o que acredito ser meu próprio perfil. Parte da minha rotina, no que se pode chamar assim, já abrangia automaticamente uma série de requisitos. Definitivamente, o que preciso me concentrar não é em “o que” e “como”, mas em “por que”. Desconfio que essa resposta só desvendarei lá.

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