88 – De volta na área

Cheguei da Suíça, morta de cansada, como é bom de ser depois de dias de férias.

 

Fomos a Chavornay, uma pequena cidade perto de Lausanne, onde ficamos por uma semana. Bom, dizer pequena cidade na Suíça é quase pleonasmo, o país é formado por povoados muito charmosos, conhecidos como “villages”. 

 

A primeira vez que fui à Suíça foi há uns dez anos atrás e só conheci Geneve, muito rapidamente. Agora, aproveitamos para conhecer a parte francesa com um pouco mais de calma e adoramos. Ficamos na casa de um casal de amigos brasileiros, morando por lá desde novembro do ano passado.

 

Como não poderia deixar de ser, chegamos na secura por esquiar, doidos atrás de neve. Mas se não desse também, paciência, o principal era encontrar os amigos e nos divertir um pouco.  O inverno maluco não deixou de atingir a Suíça, e não havia tanta neve como de costume.  De qualquer maneira, dirigindo até os alpes, era possível encontrar estações de esqui abertas.

 

A primeira estação que fomos conhecer foi “Villars”, há mais ou menos uma hora e meia da casa dos nossos amigos. Nesse dia eles não se animaram a esquiar, haviam passado por uma experiência muito desagradável com um péssimo instrutor de esquis e isso os desanimou a tentar novamente. Insistimos um pouco, mas também não queríamos forçar a barra, simplesmente dividimos nossa empolgação e nossas frustrações com o esporte e, quem sabe, ajudasse a plantar a sementinha da curiosidade.

 

Relembrando, as pistas de neve são classificadas por cores de acordo com seu nível de dificuldade. Começam pelas debutantes ou “bunny slope”, onde você aprende a esquiar, e a partir daí vem as verdes, azuis, vermelhas e pretas. Na Suíça, eles não tem verdes, já começam pelas azuis, e nós não sabíamos disso. Até esse momento, a pista mais difícil que havia descido foi uma única azul em Val d’Isere.

 

Muito bem, chegamos em “Villars” e subimos o bondinho, de onde comecei a ver as coisas girando ao meu redor. Respirar fundo, haja naturalmente! Quando chegar é só procurar uma pista fácil para me aquecer e depois começo a brincadeira. Sempre preciso começar por uma pista mais simples, para ganhar confiança. Tá bom, tá certo, quando saltamos do bondinho, onde é que estava mesmo a pista fácil?

 

Ca-ce-te! Não tinha uma porcaria de pista debutante ou verdinha, já começava com uma azul que não conseguia enxergar como continuava! Não acredito que cheguei lá em cima e não teria coragem de descer a bosta da pista!

 

Nossos amigos já haviam decidido ficar só no restaurante, e com toda razão. Ninguém começa em uma pista assim, é perigoso. Luiz resolveu descer para me contar como era e se havia alguma forma de chegar em uma pista verde. Como disse antes, até esse momento a gente não sabia que não existia pista verde na Suíça.

 

Fiquei esperando, não sei se com mais medo ou mais raiva. Na verdade, sei sim, me deu o maior medo de descer uma azul de cara e que não conseguia visualizar o caminho com antecedência. É que quando me bate a vertigem, preciso evitar olhar para baixo e me concentrar em pontos mais próximos. Por isso, memorizo mais ou menos por onde preciso ir antes de começar a descer. Ou seja, além de começar por uma pista mais difícil, estava com um esqui alugado que não sabia se era igual ao meu e não tinha a menor idéia de como era a porcaria da pista! E mesmo assim, com uma vontade danada de descer… Mas a merda daquele medo estava me matando! Não sei lidar com isso de maneira muito madura e vai me dando raiva.

 

Daí chegou Luiz todo animado dizendo que ”eu tinha total condição de descer” a tal da pista. Eu queria dar com os “palos” na cabeça dele! Era só o que precisava, alguém me fazendo admitir que tinha medo de descer a bosta da pista. Ficava insistindo para eu pelo menos chegar na beira e olhar. Como assim só chegar na beira? Não existe essa possibilidade, não tem mais ou menos,  ou vou ou não vou.

 

Até que ele me irritou tanto com sua provocação bem intencionada, que parti para a malcriação, ai que raiva! Tá bom, eu vou, mas se eu travar ou me machucar, você vai ouvir tanto… #@$%^&#$*… Pronto, baixou o espírito  da megera! Com raiva fico poderosa. Chegar na beira só para olhar uma merda! Vou para descer.

 

Não sei se pela raiva ou pelo que, mas quando olhei a pista mais de perto, senti que podia. Não era fácil para mim, entretanto, não vi nada que achasse que não pudesse fazer. Não digo fazer bonito, mas concentrada tinha técnica para encarar. Luiz foi na frente mais devagar e eu fui pensando em cada movimento de cada curva, como se fosse necessário uma estratégia de guerra com precisão Suíça.

 

Cheguei embaixo da pista longa sã e salva. Exausta, queria mais. Luiz feliz da vida, não sei se por minha descida ou porque seu dia estava salvo, acho que um pouco dos dois. Repetimos a descida um par de vezes e cheguei a disfrutar. Descer uma pista azul não é nenhuma façanha, mas para mim parecia ser. Como é bom!

 

Paramos por cansaço. Às vezes, em uma pista longa, você vê alguns esquiadores dando umas paradinhas no caminho. Nem sempre é porque estão em dificuldade, mas é para descansar um pouco mesmo. O problema é que se eu parar no caminho e ficar olhando para baixo, há o risco de bater a vertigem, e consequentemente me dar um branco. Por isso, desço o mais rápido possível, dentro das minhas limitações. E claro, chego quase sem perna.

 

Dali fomos almoçar com nossos amigos, no próprio topo da estação. Vinhozinho para relaxar, bom papo e, em seguida, pegamos a estrada de volta a Chavornay. Na volta, pausa para um café em uma cidadezinha muito charmosa, na beira do lago, chamada Vevey.

 

A Suíça parece um fazendão em diferentes tons de verde, ainda que fosse inverno. Quando se chega aos Alpes, parece que alguém pegou a paisagem e deu uma esticada. Montanhas pontudas, com pinheiros contrastantes apontando para cima. Muito bonito. Talvez entediante para uma latina morar, mas como turista, só tenho elogios.

 

Uma coisa curiosa, muitas vezes as pessoas tem um tipo de estábulo embaixo da casa, onde dormem as vacas. É prático e ajuda a manter o local aquecido. Já o aroma que exala… Felizmente, onde moram nossos amigos não há vacas tão próximas.

 

No domingo, fomos conhecer Gstaad, na parte alemã. Segundo meu digníssimo marido, a estação mais badalada da Suíça. O lugar é bem legal mesmo, outra cidade com jeito de cartão de natal. Nesse dia, nossos amigos finalmente se animaram a esquiar e botamos a maior pilha. Foi uma experiência positiva, pegaram um bom instrutor, o que deu a eles confiança e vontade de tentar. Adoramos, quanto mais amigos  convertidos, mais divertida essa história pode ficar.

 

Chega-se ao local por um caminho bonito, mas sinuoso. É preciso subir uma enorme montanha por uma pista estreita, sem acostamento, num zig zag torturante que fez meu estômago se embolar. Mas, para os menos sensíveis, a paisagem é realmente linda.

 

Muito bem, em Gstaad, o local que escolhemos para esquiar, além da pista de iniciantes, contava com uma pista azul razoavelmente fácil, parecida a uma verde com alguns locais de maior dificuldade. Para mim, beleza, via a pista toda, tranquila, nossos amigos aprendendo e parecendo curtir… até que Luiz resolveu tentar uma outra pista que não dava para ver bem onde começava e muito menos que nível era.

 

Daqui há pouco desce ele dizendo que era uma pista azul um pouco mais difícil e mais longa da que a que eu estava descendo, mas que “eu tinha total condição de descer”. Estava começando a pegar implicância dessa frase. Olhei com aquela cara de Galfield na segunda-feira, joder! Lá vem! Tá bom, vamos nessa. Acho que ele sabia que a fila para subir na pista mais fácil já estava me entediando e entre o medo e o tédio…

 

Durante a subida fui examinando a pista. Achei possível, mas percebi que teria problemas com a vertigem. Na verdade, disso sabia desde o carro, quando comecei a ficar tonta nas curvas. Não tem problema, simplesmente precisava usar meus velhos truques índios. Respirar mais rápido, focar em um ponto mais próximo, pensar no meu mantra secreto, concentrar nos movimentos… enfim, entre técnicas e mandingas, preparada.

 

Quando a gente olha uma montanha de cima, ela sempre parece muito maior do que quando olhada de baixo. E pode crer, aquela montalha olhada de cima era alta para cassilda! Mas estava bem e ainda que na adrenalina, comecei a descer tranquila. Fomos no esquema inicial de sempre, Luiz na frente dando umas paradinhas para me esperar e eu atrás calculando caminhos e curvas.

 

Desci muito concentrada, era uma pista difícil para mim, mas estava indo bem até um momento que não lembro exatamente porque, olhei para baixo e senti medo. O medo me deu uma tremenda travada. Pronto, não acredito que vou fazer igual a Val d’Isere e ficar encalhada aqui. É estranho, mas bate um branco que esqueço como se anda. A diferença é que na França, realmente não sabia o que fazer para continuar descendo, dessa vez, por um momento de lucidez consegui pensar que sabia o que fazer, era só não entrar em pânico.

 

Então, vamos por passos, primeiro controlar a vertigem e o enjôo. Para isso respiro muito rápido, parece que vou ter um filho, sei lá porque cargas d’água, mas parece que o oxigênio me clareia as idéias. Ok e agora? Não tinha outro jeito que olhar para baixo e pensar como desceria. Descer até a base da montanha me parecia impossível, daí pensei que não precisava descer até o final, simplesmente precisava fazer a próxima curva e nisso me concentrei.

 

Para fazer a próxima curva achei que estava muito perto do fim da pista à minha frente e se errasse poderia cair nas árvores, daí resolvi que precisava andar para trás devagar. Ninguém descendo, beleza, não tô atrapalhando. E consegui dar uns três passos para trás e ganhar espaço. Nisso percebi que haviam mais umas duas ou três pessoas travadas. Acho que um deles tentava animar um dos encalhados, além do Luiz embaixo me falando qualquer coisa que não conseguia prestar atenção. Isso, de certa forma, me animou. Pensei que não foi só a vertigem, provavelmente era uma parte da pista mais difícil mesmo.  Tentei me lembrar das últimas aulas de esqui e para que lado colocar o corpo.

 

Só precisava fazer a próxima curva… e agora a próxima… e mais uma… e estava no jogo novamente! Lembro de falar alguma coisa para o Luiz como “pode descer que eu tô bem”.

 

Cheguei lá embaixo morta de cansada e com a musculatura doendo para burro! Entretanto, joelhos ok, bom sinal. Só uma vontade enorme de me jogar no chão e ficar deitada na neve. Foi quando o enrolão do Luiz me informou que parte da pista que descemos era vermelha e, claro que ele sabia desde o início.

 

Ver-me-lha! Aquilo ficou reverberando na minha cabeça e a ficha não caia. Como assim vermelha? Fiquei tão passada que não conseguia comemorar, na verdade, acho que nem estava acreditando muito naquela história.

 

Resumo da ópera, encontramos nossos amigos, que estavam super satisfeitos com a aula e já mais saídinho nos esquis. Tínhamos todos razões para comemorar.

 

De lá, fomos famintos comer um almoço-jantar nos arredores do castelo de Gruyère. Pedimos carne seguida de raclette, aos olhos confusos da garçonete que não entendia como íamos comer tanto. Não só comemos, como houve espaço para a sobremesa.

 

Durante a semana, circulamos de carro pelos arredores. Um dos dias fomos a uma pequena estação de esquis já na França. É engraçado isso de cruzar um país tão rápido, ainda me soa surreal atravessar uma rua para dar uma esquiadinha na França, depois voltar para Suíça antes do jantar. Enfim, a estação mesmo era pequenininha, mas quebrava um galho. O problema é que nesse dia estava a maior chuva e a experiência de esquiar foi bizarra. Era muita vontade, viu? Achava que, com a chuva, a pista estaria mais escorregadia, mas é exatamente o contrário, ela deixa a neve de um jeito que faz seus esquis freiarem. Por estranho que pareça, é muito mais difícil controlar um esqui freiando que deslizando.

 

De qualquer forma, o passeio é lindo e as cidadezinhas ao redor muito charmosas. A propósito, também nem sempre jantávamos na mesma cidade, afinal de contas, tudo tão pertinho. Nessa noite, por exemplo, jantamos em Concise.

 

A semana passou e era hora de voltar para casa. Ficou a vontade e os planos de nos encontrarmos mais vezes para as próximas aventuras.

 

No apartamento, Jack nos esperava calmo, mas com saudades felinas. Nem fez doce, foi completamente entregue desde nossa chegada, parecia que tinha engolido um vibrador de tão ronronante. O casal de amigos que ficou hospedado enquanto viajávamos já havia ido embora, mas deixaram um pudim de boas vindas prontinho na geladeira. Voltar assim fica mais fácil.

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