79 – … seguindo por Val d’Isere e nosso roteiro gastronômico

No dia 01 de Janeiro de 2007, ao contrário das possíveis previsões, acordamos sem um pingo de ressaca e ainda muito animados.

 

O casal de amigos brasileiros dormiu no nosso flat e não sei o que aconteceu, mas parece que o quarto cresceu sozinho! Tudo deu certo. Entretanto, amanheceu nevando bastante e não seria prudente que eles pegassem a estrada de volta para Suíça. Já que havia dado tudo tão certo, oferecemos que eles ficassem mais uma noite e eles toparam.

 

Nesse dia não deu para esquiar, estava uma mescla de neve e chuva e as pistas fecharam. Daí, aproveitamos para circular pela cidade, conhecer as lojas e, claro, comer e beber bem.

 

Tentamos ajudar um pouco nossos amigos brasileiros nas compras e demos algumas dicas que aprendemos apanhando. É que quando a gente vem de um país tropical, as coisas que parecem tão óbvias, às vezes não são.  Você aprende, por exemplo, que há pelo menos três invernos: o friozinho, o friozão e o frio com neve. Para cada um deles existe roupa e sapatos apropriados.

 

Enfim, para variar, à noite foi outro jantar gastronômico! Comecei a ficar muito mal (ou bem) acostumada. A gente nem queria mais saber de escolher, todo mundo partia para o menu degustação. Outro banquete fenomenal, dessa vez no restaurante do hotel Christiania. E eu pensando, caraca, vou ter que esquiar muiiiiito para queimar todas essas calorias!

 

No dia seguinte, nossos amigos brasileiros se foram, deixando saudades. Ficaram os amigos americanos e fomos esquiar em pistas diferentes, com a proposta de nos encontrarmos pelo meio do dia.

 

Luiz e eu começamos na pista debutante, para eu ganhar confiança novamente. Depois partimos para outra pseudo-verde, que não era tão grande quanto a do primeiro dia, mas tinha uma ladeirinha muito da sacana. Pronto, travei outra vez. Sabia que estava fazendo alguma coisa errada, mas não conseguia entender o que. Desci duas vezes, na esperança de melhorar, mas o que acabou acontecendo foi eu tomar um baita de um tombo, acho que foi o pior que já levei, daqueles em que você não tem certeza de que lado fica o mundo. Levantei bem aborrecida, não pelo tombo, mas pela incompetência, e decidi: chega! Agora só piso nessa bosta de neve com um instrutor! Luiz já tinha companhia para esquiar e eu precisava sair do limbo.

 

Fomos almoçar emburrados, Luiz porque eu não podia aprender a esquiar com ele, e eu porque não conseguia aprender a esquiar com ele. Parece a mesma coisa, mas não é. Enfim, estava decidido, no dia seguinte faria uma aula com um instrutor profissional.

 

Jantamos no “La Raclette”, com uma tradição de 40 anos e onde o próprio nome indica a especialidade. Nesse dia nos iludimos que comer uma raclettezinha básica seria mais leve, o que obviamente foi pura hipocrisia. Outra vez exageramos.

 

A diferença é que estava um frio do cão, nevando e a caminhada era razoável. Boa notícia, pois queimaríamos calorias no caminho. A preocupação não era com o peso e sim em como dormir depois de toda aquela comida. No início, poderia parecer desanimador, mas na prática foi extremamente divertido. Foi a primeira vez em que adulta brinquei na neve sem me importar com nada, muito menos com quem pudesse estar olhando.

 

Dalí, nos dirigimos ao Le Graal, que realmente deve ser santo, pois foi um parto encontrá-lo. É uma boite com uma estrutura de cidade grande. Ótima música, excelente iluminação, bebidas carésimas e público muito jovem.

 

Aliás, essas pessoas tão jovens e tão ricas, me perturbaram um pouco nesse dia. Em que momento é decidido quem são os elegidos? Será que essas pessoas tem alguma idéia do que passa no resto do mundo? Por que o contraste é tão grande? Senti um misto de raiva e incompreensão. Quase cheguei a me revoltar, quando pensei que talvez também tivesse um pouco de inveja. Não inveja das pessoas, mas dessa irresponsabilidade e falta de consciência do que ocorre em volta, dessa doce ignorância e de todas essas possibilidades. Pensei que também estava ali e também não sei porque eu. Resolvi só dançar.

 

Quando entrou a madrugada, resolvemos voltar para casa. Até porque queríamos esquiar no dia seguinte. A boite oferecia condução, mas preferimos voltar a pé. Ainda queríamos brincar no caminho. Na prática, nós quatro voltamos à infância, talvez o álcool tenha ajudado, não importa,  derrapamos no gelo, fizemos snow angel no chão, guerra de neve e tudo mais que pudéssemos pensar.

 

Acordamos um pouco cansados e só conseguimos esquiar por volta da hora do almoço. Finalmente, tinha um instrutor. Era um coroa francês alto, que falava meia dúzia de frases em inglês e que me inspirou confiança. No início, Luiz nos acompanhou e ele nos levou até um lado da estação que não conhecíamos. Na verdade, achei a melhor parte, com boas pistas e menos movimentada.

 

Nossos amigos americanos nos encontraram e foi ótimo, porque assim Luiz ficou com eles e pude me concentrar melhor na minha aula. Sou muito desligada, preciso de concentração absoluta.

 

De cara, o instrutor me deu alguns exercícios onde descobri finalmente qual a burrada que estava fazendo nas curvas. Estava jogando o peso do corpo para o lado errado, nunca ia dar certo. Uma bobagem que não dava para perceber em uma pista pequena, mas em uma descida mais íngrime era fatal. Ele foi me dando uma série de outras dicas também, mas essa foi a mais importante.

 

A nossa comunicação verbal era algo estranho, entre um inglês macarrônico, meu ínfimo francês e eventualmente algo de italiano. O que importa é que depois de um tempo ele ia na minha frente e eu imitando. E assim é o melhor jeito. Quando dei por mim, havia descido uma bela verde sem grandes problemas e sem ferrar meu joelho.

 

Depois de duas horas esquiando, fizemos um pequeno intervalo. Ele queria me levar para uma pista azul. Ai, que mêda! Encontramos com Luiz e nossos amigos em um bar, eles também aproveitaram para descansar um pouco, porque havia iniciado uma tempestade de neve e estava muito difícil esquiar.

 

Mas o que iria fazer? A aula já havia começado e teria que pagar de qualquer jeito, já estava no topo da montanha e não estava indo mal. Então, paciência, voltamos para a pista, o instrutor e eu, com a tempestade de neve mesmo. Ele não estava dando a mínima, acho que estava acostumado, e nesses momentos, às vezes a única opção é dar uma chance ao caos.

 

Vou dizer que frio não estava sentindo, acho que o exercício e a adrenalina cuidavam desse assunto, mas a visibilidade era simplesmente horrorosa. Você só era capaz de enxergar uns dois metros à frente, mesmo assim, porque peguei os óculos emprestados da minha amiga. Foi quando pensei que talvez isso estivesse ao meu favor, porque ao não ver bosta nenhuma para baixo, também não me dava medo nem vertigem. Não havia nenhuma outra alternativa que não fosse a de seguir o instrutor, rápido, e bem de perto!

 

A melhor parte foi um pedaço em que a neve estava super alta e fofa. Quando a gente faz a curva, parece que passou uma navalha na lateral da montanha. Pesa um pouco mais, mas como meu esforço estava menor nesse dia, graças ao posicionamento corrigido, não senti tanto, e a velocidade mais baixa era ao mesmo tempo mais suave. Estava esquiando nas nuvens. E quando me dei conta, havia finalmente descido uma azul!

 

Ele perguntou como eu estava, content? E eu, fatigué et très content! Dizer isso com a cara roxa pela temperatura, enxarcada e com o nariz escorrendo, foi um tanto bizarro, mas era a mais pura verdade. Estava cansada e muito feliz.

 

O instrutor queria continuar, desconfio que me levaria para uma vermelha. Acontece que estava pedindo arrego. Juro que não por medo, a essa altura não fugiria da raia, mas é que o tempo estava realmente cada vez pior e já não enxergava mais nada.

 

Daí ele topou e disse para pelo menos descermos a primeira verde para eu ver a diferença. Realmente, depois da azul, a verde foi tranquila.

 

Encontrei com Luiz e nossos amigos no Le Bananas. Eles haviam desistido de esquiar assim que a tempestade começou. Me perguntaram como foi a aula. Não sei exatamente como foi, imagino que tenha feito várias bobagens, mas considerando que havia descido uma pista azul, no meio de uma tempestade de neve, estava ali com a cara queimada de gelo e ainda por cima sorrindo, posso dizer que foi ótimo.

 

Voltei para o hotel um pouco antes deles, estava louca para tomar um banho. Eles ainda ficaram pela rua assistindo as atrações, como mágicos engulidores de fogo, escultores de neve e reis magos caminhando sobre pernas de pau. Eu fui para meu próprio planeta de água quente comemorar a musculatura dolorida.

 

Nesse dia fomos outra vez comer raclette, agora no “La Casserole”. Fomos um pouco mais comedidos e pela primeira vez tomamos um vinho mais ou menos. O bom humor era tanto, que até isso virou piada. Mudamos para um melhor e a raclette estava uma delícia. Fiquei doida para comprar um aparelhinho daqueles para fazer em casa. Acho que poderia comer queijo todos os dias.

 

No dia seguinte, não deu para esquiar, nem lembro o que fizemos, acho que aproveitamos para rodar pela cidade outra vez. O jantar sim, para variar, prometia, era o último dia dos nossos amigos americanos em Val d’Isere e eles queriam fechar com chave de ouro. Fomos ao La Table de l’Ours, o único restaurante com estrela Michelin do local.

 

Putz! Chutamos o baldito! Mas vou recomeçar com um pouco mais de classe, porque o restaurante merece. Lugar elegante, atendimento cortês e um quarteto cantando à capela pelas mesas. Outra vez optamos pelo menu degustação, que contava com seis pratos, acompanhados por sete vinhos, porque ganhamos uma taça de cortesia. Aliás, foi o melhor dos vinhos, o sommelier nos favoreceu.

 

Para esticar a noite, fomos para o bar do hotel Les Barmes de l’Ours, onde fica o restaurante, e compartilhamos um puro seguido de champagne, whisky, caipirinha e duas doses de alguma coisa que o barman queria que provássemos! Como é que isso poderia dar certo?

 

Foi maravilhoso, mas no dia seguinte a gente mal conseguia levantar da cama. Aproveitamos para descansar um pouco da maratona. Nesse dia não quis saber de nenhum outro líquido que não fosse água. Nem sair para jantar nos animamos. Compramos um franguinho de televisão e estamos conversados.

 

Na manhã seguinte, pé na estrada novamente, em direção a Madri. Como a viagem seria muito longa, reservei um hotel para a gente dormir e quebrar o trajeto em dois. Reservei um Relais & Château em Puigcerdà, chamado Torre del Remei. Claro que esqueci de anotar o telefone e o endereço do hotel. Tivemos que ligar do caminho para minha mãe fuçar na internet e descobrir para a gente.

 

Quando chegamos, fiquei encantada, o lugar era realmente um charme! Olhei com aquela cara de cachorrinho pedinte para o Luiz e ele topou ficarmos mais uma noite. Queria esticar minhas férias de Cinderela, antes de tornar a virar Gata Borralheira.

 

E como não poderia deixar de ser, o restaurante desse hotel também é fora de série e muito bem conceituado. É conduzido por seu dono, o chef Josep Maria Boix. Posso afirmar que foi um dos melhores lugares onde já comi. Não é simplesmente o que você come, mas o ponto em que está, a combinação de ingredientes, aliado ao ambiente, ao serviço discreto, ao guardanapo de linho, a louça elegante, enfim, todo um conjunto de fatores que ao final é capaz de te provocar emoções.

 

O meu cardápio foi simples e genial ao mesmo tempo. De entrada, um pure de batatas, com ovo pochet, foie gras e trufas. E aí que considero entrar a genialidade, nenhum desses ingredientes é excepcional ou desconhecido, teoricamente qualquer um faz, mas o pure de batatas possuía uma determinada consistência cremosa perfeita. O ovo pochet no único ponto possível, sem a clara nojenta e com aquela geminha divina se misturando ao creme de batata. O foie fresco, cortado em uma fatia fina, onde a parte de cima era dourada, sem passar do ponto em seu centro. E o golpe de misericórdia, a trufa com espessura de uma folha, delicada e cheia de personalidade. Isso não é o paraíso? De prato principal, um confit de pato. E outra vez, na consistência e ponto perfeitos. Quando você não tem absolutamente nada a adicionar ou reduzir.  Acompanhamos com um Alión, vinho de Ribera del Duero, em homenagem à nossa volta à Espanha. E para terminar, um suflê de chocolate, por puro olho grande.

 

No segundo dia, só queria café na cama, descansar e morgar na banheira. Não dormimos tão tarde, nem exageramos, pois a estrada ainda era longa para chegar em Madri.

 

Como em todas as outras partidas, Jack se escondeu embaixo da cama na hora de sair, mas se comportou muito bem pelo caminho. Quando chegamos em casa, definitivamente, nosso felino era o mais feliz por voltar. A rotina simples para ele é tudo de bom, como esse gato é esperto.

 

E assim terminamos nossa viagem, duas semanas depois e dois quilos a mais. Faz tempo que não consigo aproveitar tanto em férias tão completas, com direito a descanso, esporte, gastronomia, farra, desafios… realmente me desliguei do universo.

 

Agora é voltar à realidade. E pensando bem, não é nada má. ¡Que venga 2007!

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