6 – Valência, Dénia e o Cirque du Soleil

Há alguns meses atrás, compramos entradas para assistir ao Cirque du Soleil em Valência, junto com um casal de amigos. É difícil nos planejarmos com tanta antecedência, mas, nesse caso, foi a única maneira de conseguir bons ingressos.

 

Por coincidência, temos outro casal de amigos que tem casa em Dénia, uma pequena cidade de praia a cerca de 80km de Valência. Eles sempre nos ofereciam essa casa para nos hospedarmos e dessa vez aceitamos.

 

Fomos em dois casais e o Jack, meu gato gordo que não tive coragem de deixar para trás mais um fim de semana. Meu felino educadíssimo se comportou muito bem na viagem de ida e de volta, ele é muito internacional.

 

Há cerca de um ano e meio não ia a uma praia e estava muito animada com essa idéia. Tão animada, que me esqueci completamente que estávamos indo ver o show do Cirque du Soleil! Só no carro, na ida para Dénia, minha amiga comentou algo do espetáculo e me lembrei o porquê da viagem. Francamente, eu mesma me surpreendo com esse meu lado altista! Alguém tão desligada não pode ser normal!

 

Muito bem, a viagem durou umas cinco horas e chegamos em Dénia na sexta-feira, quase meia-noite. Em uma cidade pequena que vive de veraneio, é claro que estava praticamente tudo fechado. Mesmo assim, tentamos aproveitar um pouco. Por isso, deixamos Jack acomodado em casa e partimos guerreiros na busca de um bar.

 

No primeiro ensaio de movimento, gritamos em coro do carro: páaaaara! Ali!

 

Bom, movimento é jeito de falar, era mais assim algum sinal de vida. O local era um tipo de comércio com alguns restaurantes fechando, aquela coisa de garçonetes desmontando mesa, fim de festa mesmo. Daí, minha amiga ouviu música e fomos seguindo o som como quem segue o caminho feito em migalhas de pão. Soava Dire Straits, promissor. Vimos luzes no teto e acreditamos que poderia ser uma boite. Resumindo e acabando com o suspense, era um karaokê! Que mico!

 

Mas, na dúvida que fosse o único lugar aberto, sentamos por alguns minutos para eu e nossa amiga tomarmos um vinho ruim e Luiz e nosso amigo tomarem uma cerveja que parecia melhor. Estávamos de bom humor e conseguimos achar a situação engraçada.

 

Dalí, nos dirigimos ao casco histórico, como se costuma chamar o centro das cidades na Espanha. Era mais bonitinho e tinha aquele clima de cidade praiera que nem sabia que sentia tanta falta. Sentamos em um bar chamado Jamaica in. O lugar não era mal, mas também estava no fim de noite e não havia mais nada para comer. Ou melhor, tinha batata chips, uma tal de Lolita, que foi a pior batata que comi na minha vida.

 

Resolvemos dar a noite por encerrada e tentar melhor sorte no dia seguinte. Chegando em casa, preparamos uns sandubas de frango que havia trazido de Madri. Bateram uma bola. Claro que levei comida, logo eu, a gulosa! Ia correr o risco de chegar em uma cidade com os restaurantes fechados e dormir com fome, nunca!

 

No dia seguinte, não acordei tão tarde. Estava preocupada com o gás a ser ligado. É que simplesmente odeio banho frio e só de imaginar essa possibilidade, estremecia. No dia anterior, Luiz e nosso amigo não acertaram ligar o dito cujo, mas como estávamos com um pouco de pressa para sair, deixamos para fazer isso de manhã. Enfim, a manhã havia chegado e a primeira coisa que fiz foi cutucar o Luiz e pedir para ele tentar ligar o gás. Fui logo em seguida, para tomar café e tentar ajudá-lo. Apanhamos um pouco, mas no fim deu certo. Ufa! Banho quente!

 

Nisso, nossos amigos também levantaram e fomos para a praia. Como estava seca por uma praia! Normalmente, não ligava muito, mas acho que era porque sabia da facilidade de chegar até uma. De repente, praia se tornou algo tão distante e difícil que fui me esquecendo como era bom.

 

Não é só isso, é que sou muito branca e o sol sempre é sinônimo de trabalho e cuidado para mim. Perdi esse prazer. Fui bronzeada uma época, quando morava em Brasília. Juro que não é mentira. Nesse período tinha piscina em casa, ía ao clube todos os fins de semana e as férias eram sempre em região de praia. Ou seja, estava convencida que era morena! Tinha a pele curtida e colorida pelo óleo de côco com urucum.

 

Depois mudei para o Rio e a praia não era tão limpa. Das poucas vezes que tentei frequentar, voltava com alguma micose para casa e ficava arrasada. Depois, comecei a trabalhar e cada vez tinha menos tempo. O sol também mudou, ficou mais agressivo, já não podia mais usar bronzeador e minha pele se tornou indefesa sem proteção. Descobri que era branquela feito leite. E branquela me mantive ao longo dos anos. Além de ter passado por algumas experiências desagradáveis, como queimaduras nos pés por esquecer de passar protetor nessa região.

 

Enfim, depois de tanto tempo, o mar me chamava, dessa vez do lado mediterrâneo, tentava me convencer a recomeçar nossa relação. Aceitei o convite.

 

A princípio, estranhei um pouco a areia escura. Gosto daquela areia branca e fininha, mas em Dénia não é assim, é avermelhada e grossa. É época de algas vermelhas, o que também escurece um pouco o mar. Mas onde as algas permitem clareiras, a água é limpa e esverdeada.

 

Ainda por cima, encontramos um quiosque que alugava barracas e espreguiçadeiras. Aí foi correr para o abraço! Poderia morgar o dia todo.

 

Acontece que não tínhamos o dia todo, era sábado, dia do show do Cirque du Soleil. Queríamos chegar um pouco mais cedo em Valência, para dar uma volta na cidade e conhecer os arredores.

 

Fomos almoçar. Na saída da praia, havia um restaurante chamado “Chiringüito”, é como se chamam os quiosques aqui. O cheiro bom de peixe frito estava arrasador e, depois de uma breve  polêmica se almoçávamos ali ou em um restaurante grego, o tal do Chiringüito venceu. O lugar era aberto e administrado por uma família. A comida estava simplesmente de-li-ci-o-sa! Ainda tomei um vinho branco geladinho, na temperatura perfeita. Companhia agradável, vista para o mar, o que mais poderia pedir?

 

Deu a maior preguiça, mas precisávamos ir logo para Valência. E assim, fomos meio sonâmbulos no carro. Quer dizer, eu fui sonâmbula, porque Luiz foi apagado ninando uma garrafa de água. Realmente, invejo a capacidade que ele tem de dormir tão bem em qualquer lugar!

 

Achei a cidade uma graça! Pelo menos na parte do centro histórico, o que deu tempo de conhecermos. Gostaria de voltar lá com mais calma qualquer dia desses. A verdade é que mal pudemos caminhar pelo local e já estava na hora do show.

 

Saímos em disparada para o Cirque du Soleil, correndo sérios riscos de chegarmos atrasados e com Luiz estressadíssimo, dessa vez dirigindo. Fui orientando o caminho como pude, também não conhecia a cidade e não tínhamos um mapa. No fim, chegamos a dois minutos de começar o espetáculo. Na verdade, os palhaços já estavam entretenendo o público.

 

Caramba, como contar o espetáculo? O Cirque du Soleil não dá para explicar, tem que ver e ouvir, é uma experiência, simplesmente emocionante! Acho fabuloso como eles conseguiram fazer uma releitura do circo sem perder as origens e com a capacidade de impressionar gente que já viu um pouco de tudo. Esse show se chamava  “Dralion”. Em Atlanta, assisti ao “Allegria”. E sempre que houver oportunidade, assistirei aos próximos.

 

Quando acabou, voltamos os 80 km de carro para Dénia. Outra vez sonolentos, só que agora ia sonhando acordada.

 

É verdade que não consegui abstrair totalmente, tinha uma preocupação na cabeça. Na semana anterior meu avô internou, estava inchado com um problema renal. Pelo telefone, as notícias que me davam eram positivas, mas sempre fico na dúvida se é realmente assim, afinal de contas, ele tem 88 anos. Queria telefonar para Belo Horizonte, onde ele está, para saber se estava tudo bem. Mas ao mesmo tempo, também não queria ligar e receber uma má notícia. De qualquer forma liguei, mas tinha o telefone errado, faltava um número. Decidi telefonar de casa, no domingo, quando chegasse.

 

Acho estranho essa coisa da vida ser tão misturada. Estamos sempre no limite das ambiguidades. Prazer e dor, tristeza e alegria, medo e coragem… e a culpa sempre tentando se fazer presente, margeando. Estava um pouco dividida, mas optei por tentar me divertir. Afinal, meus pais tinham nosso telefone celular, se houvesse algo realmente ruim, me ligariam. No news, good news.

 

No dia seguinte, domingo, acordei doida para ir para praia. O tempo estava nublado, o que me desanimou um pouco. Mesmo assim, resolvemos ver no que dava. Ainda bem, porque o céu abriu e fez um dia estupendo! O mar, inclusive, estava mais limpo das algas.

 

Fizemos basicamente o mesmo programa do dia anterior, só que com menos pressa e sem o compromisso de ir a Valência. Morguei na espreguiçadeira alternando entre sol e sombra, mais sombra porque fiquei com medo da minha brancura. Aliás, não era nem de longe a mais branca, o que me fez sentir outra vez morena. Porque não dizer, morena e sexy, pois por sorte também não estavam presentes os corpaços jovens cariocas e, na comparação, até que me saí bem. Atenção meninas! Ministério da saúde adverte: praia espanhola faz bem ao ego.

 

Caminhei um pouco com os pés na água, minha maneira favorita de aproveitar a praia. Fiz de conta que queimava muitas calorias a serem devolvidas no almoço próximo.

 

Claro que novamente almoçamos no Chiringüito. O bom atendimento se repetiu. Pedimos outros pratos, para variar, e o que felizmente não variou foi o quanto estavam deliciosos. Um dos nossos pratos foram as kokotxas, pronunciado mais ou menos côcôtias, que é basicamente a parte da garganta do peixe, se é que peixe tem garganta. Costuma ser de merluza ou de bacalhau. É lógico que depois de uma dose de gaiatice e meia de vinho, voltamos aos cinco anos e as kokotxas se transformaram rapidamente em xoxotias ou algo que se pronunciasse parecido. O pior é ter que confessar publicamente que as xoxotxas, digo kokotxas do chiringüito, eram realmente saborosas. Ainda bem que foram de merluza e não de bacalhau.

 

Entonces, tentando aumentar um pouco o nível que já vai rasteiro, nossa preguiça também não variou, mas era hora de voltar para casa. Ai, que vontade de ficar uma semana! Por que nunca estou satisfeita?

 

No caminho de volta, Luiz veio chutando o balde. Acho que estava se divertindo com o brinquedo novo, um carro alugado poderoso que deu vontade nele de ter um. Para falar a verdade, também me deu vontade, mas estava mais preocupada com Jack, que mareou um pouco no início da estrada. Depois que entramos nas retas, segurou a onda e se comportou como um legítimo gato de ciganos.

 

Chegamos bem e com luz, anoitece tarde agora, por volta das 22:00 horas, às vezes depois. Madri animada e cheia de gente na rua. A primavera está se despedindo e o calor do verão chega com toda força.

 

Jack entrou em casa cheirando tudo, como sempre, e ao reconhecer seus cheiros e seus cantos ficou feliz da vida. Pode ser de ciganos inquietos, internacional e viajado, mas ainda é um gato e adora chegar no que é seu. Tenho muito que aprender com esse felino.

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