36 – Burgos, León, suas catedrais e a volta a Ponferrada

Quarta-feira, 14 de maio, acordei meio borocochô. A curiosidade de chegar a León me animava, mas saber que não caminharia nesse dia, além de passar horas dentro de algum transporte, me deixava claustrofóbica. E o próximo dia também não caminharia. Cassilda, dois dias sem por o pé na estrada. Uma sensação desagradável de estar perdendo tempo.

 

Tentei manter a cabeça fria. Pensei que podia ser uma oportunidade para descansar os pés. Administrar a frustração também é parte do Caminho. Faltava pouco para entrarmos no jogo de verdade. Paciência.

 

Depois nem estávamos mesmo perdendo tempo, conheceríamos novas cidades e não era ruim. Por que só podia aproveitar caminhando? Minha capacidade de pensar era absolutamente a mesma. Até podia estar mais focada nas minhas questões, pois não precisava estar tão atenta aos próximos passos. Talvez fosse isso que incomodasse. Não sei, mas sentia muita falta da rotina do Caminho e, admito, das vacas, da lama, de me preocupar apenas com questões fisiológicas.

 

Não tinha jeito, precisava continuar. Tratei de por uma cara melhorzinha e encarar a próxima etapa.

 

A teórica rodoviária não passava de uma cabine envidraçada, com uma tabela de horários dos ônibus. A passagem era comprada diretamente com o condutor. A medida que o número de pessoas foi aumentando, em sua maioria peregrinos, ficamos com medo de não ter lugar para a gente. Rapidamente nos transformamos em uma equipe sem nem precisar combinar. Voei na frente da fila para garantir os lugares e meu amigo se encarregou de guardar as mochilas no maleiro.

 

Nossa viagem até Burgos levou menos de duas horas, ou pelo menos é a ordem de grandeza que tenho na cabeça. Não levei relógio, checava às vezes pelo celular ou perguntava ao meu amigo. Em Burgos havia trem para León, e eu havia checado os horários antes de sair de Madri, ou seja, sabia quanto tempo de folga tínhamos. De maneira que perguntamos se a estação ferroviária era longe, não era, portanto teríamos cerca de uma hora e meia para conhecer o centro da cidade.

 

 

Fomos direto para a catedral, o grande orgulho de Burgos. Na Espanha existe um tipo de competição entre qual a catedral mais bonita: a de Burgos, a de León ou a de Santiago. Tínhamos a chance de fazer nossa própria escolha.

 

 

O centro de Burgos é bem bonitinho e a catedral é realmente maravilhosa. Clara, uma iluminação natural e agradável. Às vezes, as igrejas parecem muito sóbrias, certamente é intencional, mas essa tem um astral bom. Pela parte de dentro, talvez seja minha favorita, mas do lado de fora, na minha opinião, Santiago continua imbatível.

 

 

 

De lá seguimos para a estação ferroviária. O trem não tardou a chegar a León. Nos informamos se o centro da cidade era longe e não era. Portanto, como bons peregrinos, fomos caminhando. Seguimos reto por uma grande avenida, com prédios mais modernos, o que me fez pensar que ficar em León poderia ser uma roubada. Mas logo ao chegar no centro da cidade, me encantei, tudo muda completamente.

 

Minha primeira preocupação ao chegar em qualquer cidade é onde dormir. Fico totalmente “a woman in a mission”, só relaxo depois. Meu amigo apontou um lugar que parecia charmoso e fui direto para lá. Um hotel pequenininho, mas com muita personalidade e umas paredes de tijolo antigo bastante aconchegantes. O preço era razoável e nem quis procurar outro. Não tenho muito saco para ficar comparando, se o lugar é bom, prefiro não correr o risco de perdê-lo. Aterrizamos as mochilas e fomos buscar o que fazer.

 

Decidi fazer a Credencial Peregrina. Achei que poderia ajudar a entrar no clima do Caminho. Depois, meu amigo tinha que carimbar a sua mesmo por onde passasse, por que não acompanhá-lo? Perguntamos na recepção do hotel onde fazê-la e a mocinha nos indicou o albergue mais próximo em um mapa da cidade.

 

Olho mapas por cima e tenho boa noção de direção, sempre chego. Meu amigo era especialista em mapas, parecia o Luiz. Então, deixei essa função com ele. Tudo que precisávamos localizar que não lembrava ou não conhecia, ele que cuidava.

 

Não demoramos a chegar em uma praça linda, onde ficava o albergue. Esse é curioso, pois é colado a um hotel com jeito de sofisticado, também administrado pelas mesmas freiras. O albergue parecia grande e tinha uma boa energia. Esperamos um grupo de alemãs se instalarem, tive que ajudar na comunicação. Estava na dúvida se o responsável me faria a credencial porque eu não ficaria no albergue, às vezes eles implicam um pouco com isso. Não foi o caso, na verdade, ele foi até bem simpático, talvez pela ajuda que o dei na tradução com as alemãs, mas acho que não. Parecia gente boa mesmo.

 

 

A Credencial é um pedaço de papel, mas é também um símbolo, uma identidade. Fiquei satisfeita ao sair de lá com ela. Pensei que não importava tanto a instituição por trás, mas sim o respeito em relação às pessoas que repetem esse ritual com tantas intenções e motivos. Eu devia fazer por merecer o mesmo respeito e, de coração aberto, me dispus a isso.

 

 

Talvez ali tenha recomeçado meu Caminho, difícil dizer. É complicado dar início e fim a um ciclo tão abstrato. É possível que isso nem importe, às vezes, basta que a gente decida que é um ponto de corte, de recomeço.

 

Com a Credencial na mão e tranquila com hotel, fomos finalmente procurar algum local para comer e, em seguida, conhecer a famosa catedral por dentro. Assim como a de Burgos, a Catedral de León é imponente e impressionante. Não saberia eleger qual me agradou mais, talvez a de León por fora e a de Burgos por dentro, sei lá, um empate técnico. Mas em primeiríssimo lugar, mantive minha opção pela Catedral de Santiago de Compostela.

 

Como de costume, marquei com meu amigo um horário para o jantar e nos dividimos em função do interesse de cada um. Não resisti à curiosidade e fui checar minha internet em um locutório, me prometendo não responder ninguém.

 

Foi engraçado porque havia uma mensagem de um amigo que conheci no Caminho da primeira vez que o fiz. Mantivemos o contato e a amizade, e ele está escrevendo sobre sua própria experiência. Por absoluta coincidência, ele estava no capítulo onde me conhecia em Villafranca del Bierzo, cidade onde estaria em dois dias. Não aguentei, tive que respondê-lo. Ele sabia que estaria no Caminho novamente e deve ter se surpreendido com a resposta. Aproveitei para mandar uma mensagem para Luiz e para meus pais. O resto, nem abri para não ficar curiosa, só li os títulos para ver se algo parecia urgente e limpei a caixa.

 

Fiquei zanzando pela cidade, que me pareceu bem simpática, mas estava meio melancólica.

 

No dia seguinte, saíriamos de León em horários diferentes, meu amigo pegaria um trem às sete da matina para conhecer Astorga e de lá seguiria de trem mesmo até Ponferrada. Eu não estava com saco de acordar de madrugada para pegar um trem, ainda mais em um dia que sabia não ser necessário caminhar. Resolvi pegar o trem das 14:00hs e ir direto para Ponferrada, lá nos encontraríamos novamente.

 

E assim foi, meu amigo foi mais cedo para Astorga. Levantei com bastante calma, tomei café no último horário e fiquei fazendo hora para a diária encerrar. Ao meio dia, deixei o hotel já com minha mochila e a capa do Corcunda de Notre Dame, chuviscava.

 

Ainda tinha tempo antes de ir para ferroviária e aproveitei para conhecer o Parador da cidade, outro antigo hospital de peregrinos. Nem sabia que León também tinha um, mas foi bom economizar um pouco, já havia chutado o balde antes e gostei do hotel em que dormi. De qualquer forma, entrei por curiosidade para conhecer.

 

 

O Parador fica em frente a uma praça interessante, com fontes que brotam no nível do chão. Puxei papo com duas ciclistas espanholas, peregrinas também, e trocamos câmeras para registrar fotos.

 

 

 

De lá, fui pegar meu trem. Ainda esperei um pouco na estação. Aproveitei para escrever em guardanapos alguns dos principais momentos da viagem, por um lado, para não esquecê-los, mas a verdade é que estava louca para escrever. Sentia muita falta do monitor do computador, meu analista particular. Sentia falta do Luiz, do meu gato me acordando, do apartamento confortável, de cantar no coral. Não passava por nenhuma privação horrorosa, mesmo assim, sentia falta de tanta coisa. Minha família no Brasil, veria em breve, mas essa era outra viagem e achei melhor não pensar nisso naquele momento.

 

Foi emocionante chegar a Ponferrada, lembrava de quase tudo, de coisas que não sabia que lembrava. Dali por diante, haveria rostos que ainda estavam lá, paisagens que ainda estavam lá, vacas que ainda estavam lá. E assim mesmo, tudo tão diferente. Mas isso só descobri depois.

 

Reencontrei meu amigo e foi bom revê-lo. Posso viajar sozinha, mas com companhia é melhor. Estava preocupada se ele estaria aproveitando. De certa forma, é fácil para eu voltar, mas para ele, despencar do Brasil não é exatamente trivial. Aliás, esse para mim foi um sentimento estranho, não sou altruísta, ele é independente, por que estava preocupada em cuidar da situação? Não sou eu a que não cuida de ninguém? Sai desse corpo! Mas confesso que experimentar uma dose de generosidade, mesmo que bem discretamente, foi muito bom e me surpreendi como me deixava satisfeita saber que ele curtia a viagem.

 

Consegui visitar o castelo dos Templários. Da última vez, cheguei em um dia que estava fechado, só o conhecia por fora. Achei interessante, era bom sentir a energia de tanta história e acreditar que fazia parte desse grupo de loucos que despenca mundo afora ao longo dos anos e converte Santiago em um objetivo ou representa seu objetivo com Santiago.

 

Ainda sou meio mimada em momentos de frustração, mas me tornei muito mais resistente e tolerante a dor. Posso conviver e me embrenhar em pensamentos e filosofias tão díspares ao que acredito. Eu gosto de passear onde não era para mim. Hoje o mal me afeta muito menos, é mais fácil me dispersar, deixar que ele passe através e se vá. Coisas que venho aprendendo com a idade e, certamente, também com o Caminho.

 

Muito bem, como meu amigo chegou mais cedo na cidade, já havia visitado o castelo e, enquanto eu fazia isso, ele foi com nossas credenciais carimbar no albergue. Sinalizei para ele onde era e entrei esbaforida no castelo que fecharia em uma hora. Não era possível que pela segunda vez na cidade, não fosse conhecer seu principal ponto de interesse! Na pressa, esquecemos de combinar um horário para nos encontrar e nem era necessário tanta pressa, uma hora sobrava tempo para conhecer toda a estrutura.

 

 

 

Mas enfim, também não me preocupou. Sabia que dali por diante, combinando ou não, sempre nos encontraríamos, é assim que funciona. Os lugares são pequenos, os horários parecidos e a afinidade maior.

 

Do castelo, fui conhecer a igreja por dentro, que também se encontrava fechada na primeira vez que estive na cidade. Queria um tempo sozinha e sossegada. O interior era simples e bonito, sóbrio como de costume, mas era o que precisava. Pensei que para uma ateísta, o que visito de igreja não é brincadeira! O fato é que o interior de igrejas menores me confortam, me lembra a infância quando estudei em colégio católico. Os ensinamentos podiam ser baboseira, mas me sentia segura quando estava sozinha dentro daquele espaço.

 

Não me sentia feliz nem satisfeita, estava era bem perdida em uma encruzilhada de tempo e de dúvidas, buscando sinais para decisões que deveriam ser só minhas. Sozinha e longe de casa não precisava fingir nada nem fazer boa cara. Talvez não quisesse decidir, apenas desabafar e desabar sossegada. Chorar sozinha pode ser terapêutico e ali só cabiam meus fantasmas.

 

Não tenho idéia de quanto tempo fiquei, mas fui surpreendida por uma voz que cantava ao entrar pela porta da igreja, era o padre. Pensei, putz, cassilda, vai começar uma missa! Como é que me livro dessa? Mas na sequência, entrou um grupo de crianças e umas duas mães, estavam ensaiando para a primeira comunhão.

 

A primeira comunhão na Espanha é um evento mega importante! Tem época do ano, roupa própria, envolve toda a família, enfim, uma mobilização total. E para mim, aquele momento de bastidores foi totalmente inusitado, achei que podia ser interessante.

 

Assim que as crianças passaram em fila dupla, com aquela cara de fazer algo de uma responsabilidade muito grande, fui discretamente para o fundo da igreja, para não deixá-los sem graça e também facilitar uma possível debandada.

 

O início foi engraçado, até bonitinho, aqueles miúdos por volta de uns oito anos, acredito, fazendo o melhor possível a sua parte do ritual. O padre parecia paciente e as duas supostas mães ou professoras, indo de um lado para o outro, como abelhas atarefadas. Sinceramente, estava me divertindo.

 

Até que veio a hora de admitir seus pecados. Fiquei pensando que enormes pecados aquela molecada deveria ter. Não fez o dever de casa, beliscou o irmão, achou que o pai era chato porque desligou a televisão… Mas que mania de incutir culpa na cabeça das pessoas desde tão cedo! Na hora que os pobres tiveram que bater no peito e repetir, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, achei que era hora de puxar meu time. Chega de culpa, credo!

 

 

No hotel, encontrei meu amigo e fomos, claro, para mais um farto jantar em um restaurante italiano. E o que mais pode acompanhar um bom carboidrato? Vinho é óbvio!

 

Nosso planejamento era o seguinte, acordaríamos e seguiríamos a pé até Villafranca del Bierzo. Em Villafranca, teríamos que dar um jeito de chegar até Triacastela e dali serguir caminhando até Santiago. O motivo era o seguinte, precisávamos caminhar diretamente depois de Sarria, 100 km antes de Santiago. Mas ainda tínhamos dois dias de sobra, por isso optei por encaixar Villafranca, por ser muito bonitinha, e Triacastela, por ser a cidade anterior a Sarria, ou seja, chegaríamos em Sarria já caminhando. Além do mais, da primeira vez que fiz o Caminho, chegamos em Triacastela muito tarde e mal conheci a cidade.

 

O e-mail que recebi do meu amigo em León, falando por coincidência sobre Villafranca, só reforçou que deveria ser uma boa opção. Nós tínhamos um pouco de dúvida como chegar a Triacastela, mas um problema de cada vez.

 

Fui dormir mais animada, sabia que o dia seguinte seria de boa caminhada. Conhecia o trecho e onde deveria parar.

 

9 comentários em “36 – Burgos, León, suas catedrais e a volta a Ponferrada”

  1. …hehehehe… pior que é! Tô correndo que nem louca aqui para dar conta de tudo! 😛 E ainda por cima já tem coisa de Madrid que quero contar, viagem para o Brasil chegando… ai, ai…

    Viu que seu e-mail apareceu na crônica, né? Cadê o resto da sua história? Também quero ler!

    Até breve, besitos!

  2. Q bom, a tua caminhada foi enriquecedora,assim como as tuas fotos e relatos que tu nos dá a oportunidade de compartilhar através do teu Blog 🙂
    Imagino tus felizidade por estar de volta ao teu porto seguro (casa d Bianca) junto aos teus.
    Fica bem 🙂
    Ana

  3. Oi, Vanessa! Pois haverá mais reflexões, fotos e degustações… mas vai ficar para a volta! Ou quem sabe, consiga escrever do Brasil mesmo. Vou treinar as músicas pela internet, não esquece de postar!
    Besitos

  4. Oi, Ana! … sem problemas, corrigido! 😀 Enfim, foi bom ir e foi bom voltar. Agora vou outra vez para a próxima viagem e prometo contar tudo também.
    Besitos

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