XVI – Minhas primeiras hóspedes

Essa mudança me deu trabalho para arrumar! Demorei mais do que o usual. Tenho muita prática e arrumo tudo em, no máximo, uma semana. Também, né? Depois de mudar tanto! Mas aqui foi um verdadeiro quebra-cabeças. Sabe cobertor curto? Que você puxa de um lado e falta do outro? 

Arrumei logo a cozinhae os quartos. O resto, empilhei no canto da sala para ir arrumando com mais calma. Além de definir a necessidade de novos armários, desde que fossem portáteis! 

Antes das caixas esfriarem, recebemos a notícia: uma amiga de São Paulo e outra de Brasília chegando na cidade! Uma coincidência, pois nem se conheciam! Beleza! Que venga el toro! A casa nova já começou animada. Avisamos que as caixas de papelão ainda estavam espalhadas, mas o quarto de hóspedes estava pronto (ou quase!). Se elas não se incomodassem… eu é que não fico mais constragida por tão pouco! Umas caixinhas de papelão aqui, uma baguncinha ali… bobagem! 

Foi ótimo! Aqui nós faremos amigos, é uma questão de tempo. Mas é que o espanhol é desconfiado, demora mais para se aproximar. Foi muito bom tê-las logo que chegamos, me ajudou a lembrar que ainda não tinha amigos aqui, mas iria acontecer.   

Acho que houve até uma certa simbologia na visita das duas. Gosto de prestar atenção nesses detalhes. Uma foi praticamente amiga de infância, coisa de mais de 20 anos atrás! A outra de São Paulo, último lugar que morei no Brasil. Esse trançado no tempo e o fato de nos encontrarmos em outro país, com vidas tão diferentes e tão próximas em alguns aspectos, parecia poesia. 

Em Atlanta não tivemos hóspedes. Na verdade, só meus pais, depois da chantagem sentimental do Luiz! Minto, pensando melhor, também houve um amigo que foi fazer uma entrevista de emprego, mas acho que ele só dormiu uma noite. Coisa rara, pois tem sempre alguém passando pela nossa casa. Mas também, convenhamos, qual o apelo turístico de Atlanta, né? Oi, gente… vamos visitar o museu da Coca-cola?! Ninguém sai do Brasil, ou de outro país, para isso! Sinto muito Coca-cola!  

Por outro lado, fizemos amigos incríveis em Atlanta! Definitivamente foi a melhor parte da nossa temporada por lá! Uma amiga em especial, que era minha companheira de cozinha, de compras e de desabafos. Com o cuidado de não desmerecer os outros, cada um com seu jeito de ser e sua própria história que tive o prazer de conhecer e aos poucos espero poder ir contando. Cantora de rap, imitador do Lombardi, admiradores do Balão Mágico, coreógrafas da Ivete Sangalo, churrasqueiros… Amigos brasileiros, americanos, mexicanos, alemães, sul-africanos… Acho que fizemos umas 35 festas de despedida! Juro! A primeira eu achei que era sério, depois, cada vez aparecia um novo passo a ser cumprido antes da nossa próxima mudança para Madri. Daí virou piada e todas as festas a gente dizia que eram de despedida. Bom, a última foi mesmo, com direito a rifa do que não conseguiríamos levar na mudança e o sacrifício de tomar quase tudo alcoólico que não caberia nas malas. 

Em São Paulo também tenho amigos muito, mas muito queridos mesmo! Animados e alto astral! Aqui conto os milagres, mas não conto os santos. Até porque, acredito que isso deixaria as pessoas com medo de vir na nossa casa e virar assunto! Podem ficar tranquilos que jamais revelarei os nomes, ok? Cada um que vista sua carapuça. Tem festeiros, caseiros, família, dorminhocos, lulus, furões, pontuais, casados, solteiros, separados, cachaceiros, afilhados, gulosos, artistas, executivos…  

Mas voltando a São Paulo e falando em festas de despedida, na nossa última, além do DJ na sala, rolou até polícia reclamando do barulho. É verdade que um certo amigo nosso que abriu a porta para o policial, quando viu do que se tratava, entrou em pânico e bateu a porta na cara do indivíduo! Como sempre, no final deu certo. Não acabou em pizza, mas em sopa. Sempre rolou a sopa do fim da noite. Ah! E esclarecendo o mistério, quem chamou a polícia foi a ex-vizinha-penetra-com-dor-de-cotovelo, assim que der, conto essa história também.

A sopa é tradição que veio do Rio. Meu querido Rio de Janeiro, afinal de contas, ainda não deu para perceber, mas para quem não me conhece, sou carioca da gema! Branquela e com sotaque misturado, afinal ninguém é perfeito! Enfim, do nosso grupo de amigos cariocas, eu e Luiz fomos os  primeiros a casar e, portanto, a ter uma casa que não era a dos nossos pais. Logo, o lugar mais provável para festas e reuniões, certo? 

Bom, me casei na ponte-aérea Rio/São Paulo, história longa que conto outra hora. Mas o fato é que, no primeiro ano de casada, eu passava a semana em São Paulo trabalhando e voltava no fim-de-semana ao Rio para encontrar o Luiz. O tempo era curto para ver todo mundo e eu adorava festas. Por isso, a melhor solução era receber os amigos em casa no sábado. Nos primeiros, a gente convidava, depois nem precisava. Lá pelas quatro da tarde o telefone começava a tocar: E aí? Vai rolar? Claro que vai!

A gente não se preocupava muito com o que oferecer, pois cada um aparecia com sua contribuição. Era engraçado ver a geladeira lotar de cerveja e ir esvaziando ao longo da noite. A partir das nove horas o pessoal começava a chegar. Rolava uns turnos, alguns chegavam mais tarde… alguns iam embora mais cedo… um queria colocar alecrim na minha sopa… Porque depois de um tempo, eu é que não ia deixar o povo bebendo a noite toda sair dirigindo para casa, né? Juízo não tenho, mas felizmente me resta um pouco de responsabilidade. Então, no fim da madrugada, fazia um sopão para dar um mínimo de sobriedade à galera! Uma coisa é certa, sempre acabava com dois cantando um rock pesado do Body Count na janela – voodoo – e duas velhinhas do prédio da frente assistindo. No início achei que elas se incomodavam, depois cheguei a conclusão que elas achavam divertido. Os outros vizinhos não deviam entender porque durante a semana era um silêncio sepulcral no apartamento, e no sábado aquela zorra! Mas nunca reclamaram, talvez se divertissem também.

Agora preciso incluir os amigos virtuais de Brasília, onde também morei mais jovem. Nesse ano de 2005, tenho a felicidade de reencontrá-los pela internet e compartilhar lembranças de infância e adolescência.

Além dos espalhados pelo mundo, que adoro um bom pretexto para encontrá-los!

Resumindo, sei que não digo o suficiente aos meus amigos – nacionais, internacionais e virtuais – o quanto eles são importantes e queridos. Mas definitivamente, minha vida seria muito chata sem eles!

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